Alguns textos recentes do cronista do "Agora". PARENTADA POP Crise no Senado. Maracutaias. Marmitas. Empreguismo. O senador Pupo Campelo rebatia as críticas. --Não tenho parentes no meu gabinete. As notícias não eram essas. Funcionários fantasmas ganhavam altos salários. Mansões paradisíacas abrigavam membros do clã. Pupo Campelo convocou os jornalistas. --Venham. Entrem aqui no anexo 5. O velho senador abriu as portas num gesto dramático. --Onde estão os fantasmas? Hein? Hein? Um silêncio se fez entre os jornalistas. Logo em seguida, soaram alguns acordes de rock. Os depoimentos variam. Mas muita gente jura que viu. --Vi, sim. O Michael Jackson. Como se fosse um showmício. Cantando a música de “Thriller”. Atrás, vampiros e mortos-vivos. Com os traços fisionômicos característicos da família Campelo. O problema do Brasil é que as elites sempre dançam conforme a música. TARDE DEMAIS Escândalos. Denúncias. O Senado vai mal. Mas nem todos os políticos são patifes. O doutor Gandolfo era uma importante liderança política. Sério. Austero. Contido. Seu discurso ecoava no plenário vazio. Ele propunha mudanças radicais. --Reformar tudo. Medidas cirúrgicas. A voz de Gandolfo ia do grave ao agudo. --Somos a face da Nação. A gesticulação era frenética. --Do jeito que estamos, não podemos nos olhar no espelho. O velho líder balançava a cabeça. Fechou os olhos. As luzes fluorescentes do plenário começaram a piscar. Uma sombra branca tomou forma no vazio. --Forget it, Gandóólf... esquéééss esse pááp… Era o fantasma de Michael Jackson. Veio o enfarte. E um último recado. --Véém comiig, Gandóolf... que aquíi non téyn mais jeeit. Na política e na vida, por vezes, quanto mais se reforma, pior fica. GRITO NOS CAMARINS Cores. Paletas. Texturas. O mundinho da moda volta a ferver. A bela top model Juju Santoro estava arrasada. --Celulite. Estou com celulite. O desfile ia ser dali a algumas horas. Moda verão. Biquínis bem cavados. O estilista Kuko Jimenez dava os últimos arremates. O grito ecoou pelos camarins. --Jujuuu! O que-que-é issoooo? A pequena imperfeição no bumbum direito deixou Kuko fora do sério. --Uma tangerina. Uma poncã. Ondas de ódio tomaram conta da alma do estilista. A agulha de costura espetou sem dó o ponto flácido da modelo. --Ai, seu bruto. Seu histérico. --Me segura se não eu mordo essa mexerica. O segurança Roberto agarrou Kuko com firmeza. E bastante carinho também. Continuou agarrando o estilista durante todo o desfile. Que foi um sucesso. O amor é como a celulite. Aparece com mais nitidez na hora do apertão. PRESENÇAS E FANTASMAS Abusos. Espertezas. Malandragens. É baixa a moralidade no Senado Federal. O senador Desídio Macambira estava indignado. --Nunca empreguei parentes no meu gabinete. Já no gabinete dos outros senadores, ele não sabia informar. --Fiz tudo o que podia pelo meu país e por minha gente. Pela gente dele, em especial. O discurso continuava. --Invoco agora os vultos do passado. Passou os dedos nervosos pelo cabelo acaju. --Ruy Barbosa... Joaquim Nabuco... Ele começou a balbuciar frases desconexas. --Sim... sou eu... sai daí. O que vossa excelência está fazendo? Figuras esvoaçantes e transparentes começaram a surgir no seu ângulo de visão. --Nabuco! Mas eu sempre fui teu amigo... Que fazes com esta espada? O fantasma se aproximou. Desídio sentiu uma pontada real no coração. Foi direto para o Incor. Passa bem. Os parentes é que não o visitam. --Melhor assim. Vamos deixar o afeto de vocês no campo do sigilo. Quando se confia nas sombras, os fantasmas estão sempre por perto.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h52
lições de um alemão
É difícil imaginar um general alemão que seja preguiçoso ao mesmo tempo; é difícil imaginar um general alemão inteligente também. Ao que tudo indica, Kurt von Hammerstein (1878-1943) era desse tipo. Estou lendo a genial biografia desse aristocrata antissemita e antinazista, Hammerstein ou A Obstinação, escrita por Hans-Magnus Enzensberger. Eis a tipologia que Hammerstein dos tipos militares. Distingo quatro espécies deles. Há oficiais inteligentes, aplicados, burros e preguiçosos. Em geral, essas qualidades vêm aos pares. Há os inteligentes e aplicados, que devem ir para o Estado-Maior. Depois vêm os burros e preguiçosos; esses são 90% de qualquer exército e são próprios para tarefas de rotina. Os inteligentes e preguiçosos têm o que é preciso para tarefas mais altas de liderança, pois têm clareza mental e firmeza nos nervos na hora de decisões difíceis. Mas é preciso tomar cuidado com os burros e aplicados; não podem receber nenhuma responsabilidade, pois só sabem causar desgraça. Sem dúvida, Hammerstein estava tentando justificar seus próprios defeitos. A preguiça, em si, não ajuda em coisa nenhuma. Ao contrário, leva a que os aplicados tomem o poder. Foi o caso dele: assim que os nazistas ascenderam ao governo, toda sua genialidade estratégica, como militar, foi dispensada –para alívio dele mesmo, que como autêntico aristocrata tinha horror à vulgaridade hitlerista. O que caracterizou os nazistas --com exceção de Hitler, talvez, que sem dúvida era inteligente—não foi exatamente a burrice nem a diligência. Foi a possibilidade de aliar burrice e diligência à selvageria. O segredo do nazismo, acho, foi o de possibilitar o máximo de selvageria dentro de um esquema ordenado. Era, no fundo, o segredo de toda guerra –coisa que um guerreiro como Hammerstein nunca poderia admitir.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h36
Mais um trecho de "Patópolis", livro que escrevo quando posso. Entremos todavia, passo a passo, timidamente, nos primeiros restaurantes de luxo que a um ginasiano é dado frequentar. Abre-se uma porta de vidro: sons cálidos de acordeon inundam o ambiente, cozinham os fregueses num caldo de bouillabaisses; a voz de Jacqueline François engrossa a mistura em fogo brando, o creme-caramelo de Charles Trenet responde num vaivém de mar. Sim, o restaurante atesta que estamos em Paris. Ou é o gongo imaginário que aquieta a família inteira, aterrorizada um pouco diante do que lhe reserva o grande restaurante de Pequim: ninhos de andorinha, patos laqueados, ovos negros de cem anos. O silêncio se impõe: tudo é chinês. A água é chinesa, chineses serão os guardanapos, os tapetes, os ventiladores; a própria luz é chinesa, ziguezagueando em mesuras que se penduram entre biombos vermelhos e dragões dourados. Cada coisa é sua própria legenda de cinema mudo, dizendo: Pequim. Um jantar significativo. Ou melhor, numa história em quadrinhos: Em Pequim... Chegando em Pequim... Enquanto isso, em Pequim... Pequim! Naquele cenário fomos inseridos. E torna-se legítimo perguntar: existe a Pequim real? Não seria muito melhor do que a hipótese que temos aqui. Qualquer restaurante de Paris será mais imperfeito do que este, no qual só toca música francesa, e de cujo cardápio jamais constarão raviolis nem feijões. Um restaurante português nos entope daqueles milhões guitarras, fados que não cessam, sardinhas em cardume; eis, amigos, o Vesúvio, fumegando lasanhas inextinguíveis, macarrões a retorcer-se em tarantelas. Um touro nos recebe, de olhos fixos; maître empalhado, múmia de Madri. Tudo se fecha, nenhum “pequeno detalhe” foi esquecido pelo dono do lugar. Não há objetos neutros, não há uma toalha de mesa que seja simples Toalha de Mesa (mas existem Toalhas de Mesa?): num coral de homenzinhos e mulherzinhas vestidos de verde e vermelho, a toalha entoará em ordem e alegria o hino austríaco, ou repetirá em bordados saltitantes o desespero das csárdas da velha Budapeste. Provém dos “nervos esfrangalhados de um cigano”, dizia entre pigarros o velho professor Lukács, a dura música de Bartók: os óculos de massa preta, os dedos amarelos de nicotina, o sobrecenho carregado de certezas, do marxista húngaro nos leva de volta ao dourado crepúsculo de Oxford. Óculos de massa preta, sobrecenho carregado de teoria, ou coisa que o valha, eis outro avatar de um nosso conhecido personagem, o professor Ludovico, que se encarna no sarcasmo severo --coisa de titio decrépito, olhando entre as pálpebras caídas o decair do mundo—do professor Isaiah Berlin, farejando como um sabujo qualquer indício totalitário: seriam totalitários os restaurantes franceses em São Paulo? Tudo indica que sim: Charles Trenet, seus cassoulets, as reproduções desbotadas de Monet, a subserviência grisalha do sommelier, propondo merlots e cabernets. Eis a proeza, só aparentemente inatingível, da Coerência. Nas histórias de Luluzinha, acontecia também esse fenômeno –denominemo-lo o da Totalidade do Sentido. Em certas ocasiões, Luluzinha se imaginava pobre: a miséria roía sua roupinha vermelha, onde já se contavam remendos de outra cor; não apenas os seus sapatos eram furados, mas também eram furados os sapatos do mordomo; em petição de miséria se encontrava a limusine; em andrajos, a empregada da casa fazia a faxina. Miséria, falência: uma novela da época mostrava a saga da família Bonelli. Mãe inquebrantável, filhos de valor, fábrica fechada. Acostumam-se como podem, nossos personagens, à vida de privações. O primogênito, agora office-boy no centro imundo da cidade, conta com raros minutos para o almoço. A pastelaria está cheia de gente. Quanto esforço, quanto sacrifício, quantas cotoveladas até que adquire o seu precioso pastel, acompanhado, é claro, de caldo de cana, porque do mesmo modo que a calcinha tem de ser de algodão ordinário, sem caldo de cana não há graça nenhuma. Eis então que, numa última cotovelada do destino, um freguês mais afoito desequilibra o jovem Bonelli e, desgraça! o pastel cai no chão. O pequeno espectador está prestes a ter o coração partido; sabe que não se pega um pastel do chão para comer, e que portanto a fome, nada mais que a fome, será a recompensa do office-boy pelo trabalho daquele dia. Qual não foi o choque do pequeno espectador quando, mais tarde, num piquenique na praia, uma bandeja de croquetes inteirinha rolou pela areia, e na barraca ao lado um francês, bem disposto e melhor alimentado, não teve dúvidas em recolher todos os croquetes, limpando-os rapidamente da areia que os cobria, ingerindo-os com sorrisos em seguida. “Eis um povo que sabe o que é a guerra”, filosofou um adulto na ocasião. Manhas, fricotes, portanto, os do jovem Bonelli com seu pastel. Mas a novela prosseguia, e a propósito de um aniversário ou vitória na Justiça –os processos da família Bonelli corriam a caminho de restituir-lhes a fortuna final—eis que a matriarca da família resolve comemorar com todos num restaurante. Sim, mas terá de ser um restaurante pobre. Ou melhor: um restaurante de pobre. Sentam-se à mesa, perguntam ao garçom –que é pobre também—o que há no cardápio; o cardápio lhes é apresentado, não tem encadernação de couro, é uma página encardida encapada em plástico, pobre a mais não poder. O “plat de résistance”, aquilo que o mestre-cuca oferece aos frequentadores do restaurante está inscrito em letras azuis, borradas, de mimeógrafo: “Comercial”. Mas o que é um “Comercial”? Arroz, feijão, bife e salada? Que seja, diz madame Bonelli, aprendendo tarde as coisas da vida. Voltarão para casa, satisfeitos, onde à espera da família estará a fiel empregada, que aceita trabalhar sem remuneração; a leite de pato; pobre entre pobres. Como nas fantasias mais lúgubres da Luluzinha, o Mundo-Mendigo se estendia, com dedos de conhecimento e sombra, a todas as classes sociais daquele diminuto círculo doméstico.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h44
poesia em quebra-cabeças
O poeta Dirceu Villa nasceu em 1975, e seu livro Icterofagia (editora Hedra) é um bicho estranho. A começar pelo número de páginas: exatamente 200, coisa rara atualmente. Livros de poemas chegam no máximo a 100. Além disso, os poemas do livro às vezes são simples, sintéticos, e outras vezes se expandem em citações –grego, latim, italiano, alemão. Formas rimadas e versos densos são sucedidos por alguns jogos tipográficos. Anotações de viagens internacionais (será que o autor é diplomata) se alternam com cenas bem paulistas. Tudo entra nesse livro, e o próprio poeta se justifica ironicamente, dizendo o que não quer: DINHEIRO PARA A POESIA, BOAS DICAS Técnicas empregadas, em linguagem pedestre (relacionar com o mundo contemporâneo). Dividir bem as seções da obra, & que recebam descrição posterior. Falar da vida, da cidade, mostrar que os poemas Estão ligados a você como indivíduo. Definir o tema do livro, apresentá-lo como uma unidade sólida. Ressaltar sua brasilidade. Explicar o título, se elusivo. Dar contornos sensíveis a ele. Tirar todos os coelhos que ainda restarem da cartola. Mas quem não se intimidar com a quantidade de referências poliglotas e com o áspero título do livro pode se surpreender com poemas como este: QUEBRA-CABEÇA para Isabela e Ricardo Há crianças, elas exigem que você se comporte e entenda a história, que evidentemente tem um sentido. Não é uma questão de disciplina, mas de imaginação: basta compreender as coordenadas de onde não há dúvidas: “Todas as perguntas têm resposta se você sabe perguntar direito”, dizem elas, “e quem responde?”, você pergunta. “Tá vendo? já perguntou errado.”
Escrito por Marcelo Coelho às 00h08
violino arrepiante Em matéria de barulheira, uma bela opção é o CD de concertos para violino e orquestra da compositora polonesa Grazina Bacewicz (1909-1969), que acaba de sair no selo Chandos. A indicação faz parte de uma série antiga de posts por aqui, dedicados à música clássica de alto risco. O CD da Chandos coloca as apostas em alto nível, começando pelo concerto no. 7 da compositora, já meio na linha de seus contemporâneos poloneses como Lutoslawski: grandes explosões na orquestra, alternadas com delicados traços de harpa, tudo gerando efeitos de impacto, num expressionismo que assusta de início mas depois vai ganhando inteligibilidade e produzindo uma espécie de prazer interiorizado, desde que nos deixemos hipnotizar pelas ondulações da música. Alguns toques de ritmo “alla polacca” e o terrível virtuosismo da solista Joanna Borowicz tornam o concerto mais acessível. Já o concerto no. 3, comparativamente, é capaz de agradar de imediato. Estamos mais ou menos no mundo de Bártok, cujas “músicas noturnas” o Largo do concerto no. 7 já evocava, mas como que refletidas num espelho curvo, meio distorcido. Só que agora, neste “allegro moderato” do concerto no. 3, a melodia tem raízes populares mais identificáveis, um certo “paisagismo” lírico que não exclui, como é preciso em todo bom concerto, grandes acumulações e momentos climáticos. A entrada do violino, bem calma, lembra bastante o concerto no. 2 de Bártok, e tudo flui: orquestra e violino respondem-se mutuamente com transparência e brio. Para quem gosta de música do século 20, descobrir a obra de Grazina Bacewicz está longe de ser uma má ideia. E, para o violinista, há um bom número de cadenzas arrepiantes para exibir virtuosismo sem parecer frívolo demais. 
Escrito por Marcelo Coelho às 01h12
Por falar em rojões, vai aqui o começo do artigo desta quarta-feira na Ilustrada: Milho verde, quentão, fogueira: não tenho nada contra. Quem gosta de festas juninas, que vá. Mas confesso que as fotos me incomodam depois. Recentemente, apareceu uma no jornal que foi de doer. Era o senador oposicionista Heráclito Fortes, vestido a caráter para a noite de São João. Uma curtíssima gravata amarela, na tonalidade quindim, saltava da respeitável papada do parlamentar. Menos de um palmo adiante, a gravata desistia do trajeto: a enorme e rotunda extensão xadrez da camisa de flanela desencorajaria, com efeito, até mesmo os mais auriverdes pendões da esperança. Heráclito Fortes é um dos mais bem-humorados membros do Senado Federal, e se por lá o deboche costuma se fazer a sério, menos mal que recorra aos chapéus de palha e botinas de elástico na ocasião apropriada. Mesmo assim, tenha dó. Certo, não foi culpa dele se foi fotografado; muito menos se a foto saiu na “Folha”. O mesmo talvez se deva dizer de Lula e Marisa, que também apareceram a caráter no já costumeiro arraial da Granja do Torto. Lá estava o presidente, com as sobrancelhas unidas a carvão, calça remendada e ar meio desenxabido, de mãos dadas com uma sardenta Marisa de vermelho. Não, não fica bem. Se quiserem fazer as festas, que façam –mas gostaria que em segredo. Tantas coisas são feitas às escondidas em Brasília, que não seria difícil vetar o acesso da opinião pública ao congraçamento desses marmanjões. Assinantes do Uol podem ler a continuação aqui.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h44
noites de campeonato
Não sou corinthiano, mas parabenizo o time por mais uma conquista; não sou corinthiano, mas quase fiquei, por ocasião dos primeiros gols de Ronaldo, em quem já não se acreditava. Agora, para quem tem crianças pequenas em casa, cada uma dessas finais de campeonato se transforma num verdadeiro inferno. Tudo bem, moro perto de um estádio, mas o jogo nem foi aqui em São Paulo, e os rojões vão no mínimo até meia noite e meia. Pior, o foguetório é acompanhado cada vez mais de um tipo de vociferação gutural, a que falta até mesmo a nota canora da alegria: ouço urros de animal ferido, lamentos cavernosos, uivos de assombração. Não importa o time, meus filhos acordam apavorados. Bebês naturalmente sofrem mais. É o tipo da coisa que vai compondo uma vida de cidade grande que se torna a cada dia menos urbana, menos policiada, menos civil. Contribui para isso o fato de os jogos serem tão tarde. Rabugices da meia-idade, ou de “envelhecente”, como diz, se não me engano, Mário Prata. Paciência: um dia vou terminar surdo, ou, quem sabe, fanático por futebol.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h38
mortes paralelas Comentando o fato de Farrah Fawcett ter morrido no mesmo dia de Michael Jackson, Ruy Castro escreveu uma coluna muito interessante sobre o assunto das “mortes paralelas”: pessoas importantes que terminaram mal no noticiário pelo fato de uma celebridade maior ter falecido na mesma data. Ele cita o caso de Aldous Huxley, que morreu no mesmo dia de John Kennedy. No caso de Sarah Fawcett, nem sei se sua memória não acabou até beneficiada pela coincidência; alguns jornais deram-lhe bom destaque na primeira página, até para não parecerem injustos demais. Ruy Castro não citou um exemplo marcante de “morte paralela”: a do compositor russo Sergei Prokofiev, um dos maiores do século, falecido em plena URSS no dia exato em que ninguém menos do que Stálin deixava este mundo. No excelente livro de Alex Ross, O Resto é Ruído, há uma descrição do que aconteceu. Na manhã de 6 de março de 1953, ...Moscou se dissolveu no caos: milhares de pessoas acorreram ao salão do Kremlin, onde o corpo de Stálin estava em deposição, e centenas morreram pisoteadas. A notícia foi tão crucial que o Pravda não se deu ao trabalho de noticiar nos cinco dias seguintes que Sergei Prokofiev também havia falecido. [O pianista] Sviatoslav Richter soube da morte de Prokofiev enquanto voava para Moscou para se apresentar no funeral de Stálin: era o único passageiro num avião cheio de coroas de flores. Cerca de trinta pessoas compareceram para se despedir de Prokofiev. O Quarteto Beethoven foi instruído a tocar Tchaikóvski, embora Prokofiev não gostasse de Tchaikóvski; pouco depois o quarteto desapareceu na multidão para tocar a mesma música para Stálin. Não foi permitido que o carro fúnebre se aproximasse da casa de Prokofiev, por isso o caixão teve de ser levado à mão, contornando ruas bloqueadas por tanques e pela multidão. E as massas caminhavam em direção ao Kremlin por uma avenida. O corpo de Prokofiev foi carregado na direção oposta, por ruas desertas. O trecho simboliza, sob a forma puramente fatual, um dos problemas centrais de todo o livro de Ross sobre a música clássica no século 20: o progressivo distanciamento entre compositores e o público de concerto. Certamente Prokofiev teve muito sucesso em sua vida, tendo feito música bem mais acessível do que seus contemporâneos Schoenberg ou Webern. Na URSS, claro, o drama tinha conotações políticas maiores do que no Ocidente: qualquer compositor, mesmo consagrado e bem-sucedido com o público (e talvez até por isso) podia de uma hora para outra ser acusado de “formalismo” e de não “falar a linguagem do povo”. A narração de Ross vai apontando, entretanto, uma história mais rica em convergências entre público e compositores do que se costumava pensar por volta de 1950 ou 1970. É um panorama muito detalhado, muito claro, extremamente bem escrito e sem tecnicismo. Quem sabe falo mais do livro depois.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h36
Reproduzo aqui um trecho do artigo publicado na quarta-feira passada: Se “minorias radicais” conduzem o processo, cabe perguntar onde estão as maiorias moderadas. Deveriam estar presentes nas assembleias (e piquetes) que decidem mobilizações em nome de todos. Nada mais alienado do que condenar o fato de uma assembleia “de gatos pingados” ter decidido uma greve, quando não se participa da assembleia. Estivesse presente nas assembleias, a “maioria ordeira” da USP negaria legitimidade aos movimentos de reivindicação. Em última análise, prefere delegar a defesa da ordem à PM. Diante de dezenas de ativistas enraivecidos, quatro policiais (que não são “a repressão”, mas têm nome, estado civil e endereço) foram cercados e humilhados moralmente. Quando chegou o reforço, professores, funcionários e estudantes (que têm nome, estado civil e endereço) foram atacados com gás e balas de borracha. Tudo se desumaniza, porque está em jogo uma contradição estrutural. Temos uma máquina burocrática –a da reitoria e seus órgãos ossificados de decisão—contra uma máquina sindical –que segue a lógica da mobilização de massas. Acontece que as massas são imaginárias (reduzem-se a uma minoria) e que a estrutura de poder na USP, supostamente defensora da lei e da ordem, é tudo menos democrática. Quando ninguém representa ninguém, ou representa mal, não há negociação humana possível, e a violência prevalece. A íntegra do artigo pode ser lida por assinantes do uol que clicarem aqui. A maior parte das críticas que recebi a respeito desse artigo ia na seguinte direção: é fácil falar, mas as tais minorias têm a tática de convocar assembleias uma em seguida da outra, e estendem a duração das mesmas ao máximo, de modo que quando se faz a decisão em favor da greve só ficaram os militantes profissionais. Conheço bem esse esquema. Quando participei do movimento estudantil da USP, aí por 1979, sofri muito com isso, e me convenci de que não tinha a menor vocação para a democracia direta. Esta terminava nas mãos de gente mais dura do que eu. Mesmo assim, não há saída. Ou os tímidos tomam conta da assembleia (unidos, podem vencer) ou os profissionais, eterna minoria, ocupam seu lugar. Li recentemente uma citação de Lênin (será de Lênin mesmo?) dizendo o seguinte: "Você pode não se interessar pela guerra, mas a guerra está interessada em você". Pior se você se interessa pela greve na USP. Não vale, acho, esbravejar contra a minoria quando você, que é maioria, não faz valer o seu poder. Com todo o preço que isso traz.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h52
Vai aqui um trecho do que eu falei no "café filósofico" de sexta-feira, na CPFL de Campinas. Fiquei de discutir a “utopia do corpo eternamente jovem”. Com o “impacto das técnicas de manutenção da juventude artificial, qual seria o desdobramento de um “corpo sempre jovem”, para uma alma que vê o envelhecimento como apodrecimento sem significado?” Essa a pergunta proposta. Apesar de a gente viver num mundo obcecado pela juventude do corpo, com academias de ginástica, clínicas de cirurgia plástica, cosméticos, botox, lipoaspiração, etc. etc., é importante dizer, para começar, que o desejo de eterna juventude não é, como se sabe, uma característica exclusiva dos tempos atuais. O mito da fonte da juventude, as utopias de Xangri-lá, etc., acho que são muito generalizadas, e não se localizam apenas no Ocidente contemporâneo. O que interessa ver é o que a sociedade contemporânea faz, com esse desejo de juventude que é muito generalizado. Claro que para mim, como para muita gente, parece às vezes até doloroso ver um rosto de mulher totalmente deformado pelo botox, pelas plásticas... E também acompanhar o sofrimento psicológico de pessoas que nunca estão contentes com o próprio corpo, que tentam emagrecer loucamente,ou se matam numa academia. Há muito sofrimento, muita dor aí. Uma primeira abordagem crítica a esse fenômeno seria dizer que a pessoa não se conforma com seu corpo “natural”, e recorre a tecnologias muitas vezes crueis, e desesperadas, para se manter jovem artificialmente. Mas essa é uma crítica que eu não acompanho muito não. Eu sou a favor das tecnologias de rejuvenescimento. Sou a favor da tecnologia em geral. O problema do botox não é que seja uma tecnologia artificial. É que é uma tecnologia ruim. Fica feio, na maioria das vezes. Quando inventarem uma tecnologia melhor, podem me pôr na fila. Ah, você não será mais feliz com isso...! Pode ser que eu seja mais feliz sim. Pode ser que não, tudo bem. Mas eu vou ser um infeliz mais bonito... É um pouco como aquela história de que dinheiro não traz felicidade. Tudo bem, pode não trazer, mas sempre ajuda...
Escrito por Marcelo Coelho às 01h23
O “Mais!” deste domingo traz novos documentos a respeito do caso Simonal. Não tenho procuração de ninguém para defendê-lo, mas acho que a reportagem (do excelente Mário Magalhães) muda pouco nas interpretações que aparecem no documentário sobre a vida do cantor, que já comentei aqui. Segundo o “Mais!”, Simonal “declarou formalmente que era informante do Dops”, num depoimento à polícia em 1971. A edição explicita, de forma massacrante, uma “linha do tempo” que vai de 1971 a 1976, repetindo a mesma informação. Nada do que está revelado desmente a versão de seus amigos no documentário: a de que Simonal, para se livrar de um processo, invocou a condição de informante da polícia. Tudo indica que ele fez uma coisa horrorosa contra seu contador, Raphael Viviani. Imaginando-se roubado, Simonal armou uma sessão de tortura com Viviani, até que ele confessasse ter lesado o cantor. Contou, para isso, com amigos do Dops. Denunciado por esse crime, em 1971, Simonal não teria tido outra saída a não ser dizer-se informante do Dops. Faz sentido, dentro de uma profunda ignorância do quadro político da época, que o cantor simplesmente tivesse tentado “livrar a cara”, invocando relações com o sistema repressivo. Todos os testemunhos judiciais reproduzidos na reportagem se dedicam a reforçar essa versão, e se repetem automaticamente nas diversas instâncias a que o caso subiu. Mas continua sem prova a acusação de que Simonal foi informante. Nelson Motta, Miele e Chico Anysio, no documentário, acreditam que ele simplesmente quis se passar por informante, para aliviar as acusações (justas) que pesavam contra ele. “Digam-me o nome de alguém que foi dedurado por ele”, conclama Chico Anysio. Não se trata de inocentar Simonal. Mas acho que ainda faltam dados para condená-lo.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h36
Peço desculpas pela falta de tempo. Foram duas palestras na Folha e uma outra ainda, em Campinas, amanhã. E hoje ainda tem o lançamento da coletânea de contos de vampiros, da qual participo. Vai aqui a matéria da Folha Online. Autógrafos marcam lançamento de antologia de contos sobre vampiros da Folha Online Nesta quinta-feira (18), o centro cultural B_arco (R. Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426 - Pinheiros - Oeste. Telefone: 3081-6986) realiza uma noite de autógrafos para promover o lançamento de "O Livro Vermelho dos Vampiros" (Devir, 2009), uma antologia de contos de horror idealizada pelo poeta e escritor Luiz Roberto Guedes. O evento começa às 19h30 e conta com a presença dos 13 autores que participam do projeto: Andréa del Fuego, David Oscar Vaz, Flávia Muniz, Índigo, Jeanette Rozsas, Luiz Bras, Luiz Roberto Guedes, Marcelo Coelho (membro do Conselho Editorial da Folha), Martha Argel, Moacyr Godoy Moreira, Richard Diegues, Santiago Nazarian e Tereza Yamashita. Os escritores convidados, que representam diversas gerações, tiveram que criar textos que revisitassem o mito popular do vampiro. Acompanhados de ilustrações feitas por Manu Maltez, os contos mostram diferentes encarnações do morto-vivo e misturam sedução, humor e erotismo, sem deixar de lado o clima sombrio dos filmes e dos quadrinhos.
"O Livro Vermelho dos Vampiros" Organizador: Luiz Roberto Guedes Editora: Devir Livraria Páginas: 144 Quanto: R$ 26 Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou na Livraria da Folha.
Escrito por Marcelo Coelho às 17h39
crianças em viagem Minha ausência deste blog no feriado se deve a uma viagem ao Rio de Janeiro, que fiz com a família. Achei que, aos 7 e 5 anos, meus dois filhos poderiam aproveitar um pouco da cidade. Não deu muito certo; foi cedo demais. O tempo não ajudou nos primeiros dias, mas de qualquer modo crianças dessa idade desconsideram bastante as belezas naturais de uma cidade. Os pais propagandeiam ao máximo o passeio no bondinho no Pão de Açúcar. Claro que as crianças aderem ao programa; insistem em realizá-lo mesmo quando uma tempestade assustadora se aproxima. Eis que o tempo aclara. Vamos ao bondinho. É uma vitória. Da qual, todavia, os meninos logo se desinteressam. Há a sensação de ser transportado num teleférico; algum medo da altura, e só. Logo eles querem sair daquele lugar coalhado de turistas e de ilhas, de filas e de horizontes. Meu filho maior queria brincar com os videogames do celular da mãe; o menor exigia uma gigantesca torta de chocolate meia hora antes do almoço. Não vou condená-los por isso, claro. Lembro-me de ter entrado, criança, no velho bondinho do Pão de Açúcar; não sei se tinha cinco ou sete anos –fui duas vezes ao Rio nessa época. Guardo da experiência um monte de pernas de adultos e de nuvens. O significado da paisagem, a grandeza do panorama, é coisa inacessível às crianças. De minha estada em Copacabana, em 1967 ou coisa parecida, só me lembro de algum divertimento na praia, do cheiro ruim que havia no elevador de serviço, do fato de que a TV carioca transmitia antiquíssimos seriados do Super-Homem e do Mandrake que não passavam em São Paulo. Imagino que meus pais talvez se irritassem, como me irritei agora. “Estamos vendo vistas maravilhosas, e o menino está grudado na televisão!” Uma tia passava horas na sacada do apartamento, vendo os movimentos do mar e da avenida Atlântica, naquele tempo anterior ao calçadão. Intrigava-me seu olhar absorto (ela era surda, além do mais). Muito mais tarde, explicaram-me seu fascínio. Senhora católica e solteira, o que ela acompanhava da sacada era a movimentação das prostitutas na calçada. Talvez não; recuso-me a interpretações tão perversas. Estava ali, simplesmente, vendo tudo, as montanhas e o vício, a praia e o pecado. Que importa? O chato de ser criança é que a gente não vê coisa nenhuma. Vemos apenas a televisão, o chocolate, a revistinha. Nossa visão é curta, recurva, minuciosa, pouco ereta. Não há paisagem possível. Há sensações corporais, e minúcias gravadas na retina. Toda criança é um microscópio. Anos atrás, levei meu filho mais velho ao zoológico. Mesmo fenômeno: ele não conseguia se fixar nos tigres sonolentos e longínquos que abanavam a cauda perto de uma pedra sem graça. Queria sorvete, queria ver formigas e gravetos. Não leve suas crianças para “passeios”. Elas só entendem “atividades” e “brinquedos”. Precisam de “assuntos”, não de “horizontes”. Sem compreender isso, irritei-me a valer neste feriado. Sinto que preciso de um descanso. No Rio de Janeiro, quem sabe. 
foto de Hermano Taruma
Escrito por Marcelo Coelho às 15h46
Para piorar a minha situação, eis o que recebi hoje por e-mail. Debates sobre o mundo contemporâneo com grandes nomes da intelectualidade brasileira, antes restritos aos moradores de São Paulo e Campinas, agora estão mais próximos de qualquer um. O Café Filosófico CPFL, patrocinado pela CPFL Energia, pode ser visto ao vivo, online, durante as gravações que darão origem ao programa transmitido na TV Cultura. Desde junho, palestras de grandes pensadores podem ser vistas gratuitamente pela internet, todas as quartas-feiras, a partir das 20h30, e sextas-feiras, às 19h, no site www.cpflcultura.com.br/aovivo. Quem assistir às palestras pela Internet verá a íntegra dos programas que, posteriormente, serão editados e exibidos na TV Cultura, normalmente algumas semanas depois. A íntegra do evento fica disponível no site da CPFL Cultura logo após o programa ir ao ar na TV. Assim, quem assiste online consegue se antecipar à programação da própria televisão. E ainda pode fazer, ao vivo, perguntas ao palestrante via sala de bate-papo ou discutir o programa com outros espectadores.
Escrito por Marcelo Coelho às 23h19
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