O poeta baiano Castro Alves escreveu o “Navio Negreiro” em 1868. Ainda hoje não dá para ler esse poema sem emoção. É um clássico brasileiro. O que pouca gente conhece é um outro poema, também chamado o “Navio Negreiro”, escrito quatorze anos antes pelo poeta alemão Heinrich Heine. Eis o trecho inicial:
O sobrecarga Heer van Koek
Faz contas em sua cabina;
Calcula o montante da carga,
Seus gastos, o lucro e a propina.
“A borracha agrada, e a pimenta –
Quantas sacas de especiaria!
Tenho ouro em pó, tenho marfim,
Mas nada iguala a negraria!
Seiscentos negros consegui
Por uma nica –em Senegal.
À carne rija, aos tendões tesos
Não há ferro que seja igual.
Ofereci em troca aguardente,
Miçangas, estanho e tecido.
Consigo quase mil por cento
Se só metade houver morrido.”
Este é o começo de “O navio negreiro”, de Heinrich Heine (1797-1856), poema que inspiraria Castro Alves, 14 anos depois. Os dois poemas saem publicados juntos em português, pela primeira vez, no livro Navios Negreiros, da coleção Comboio de Corda, da editora SM.
No artigo desta quarta-feira, (assinantes do uol podem ler aqui), comentei um pouco as semelhanças e diferenças entre os dois. Heine assume, desde o começo, um tom muito mais irônico, tomando como protagonista o comandante (?) do navio –são os seus pensamentos e preocupações, evidentemente odiosos, que se compartilham com o leitor. Castro Alves, num registro mais declamatório –e ainda assim inesquecível—revela uma atenção mais oscilante, variando entre as belezas do mar e a “cena dantesca” dos negros no convés.
Não apenas pela comparação entre os dois poemas, mas também pelo excelente material de apoio que contém (o livro se dirige ao público adolescente), “Navios Negreiros” merece estar no currículo de qualquer colégio brasileiro. Ainda se fala pouco de escravidão por aqui.
São Paulo deve estar, não sei, entre as três ou quatro maiores cidades do mundo, com uns dez milhões de habitantes, ou nove ou doze, vai saber. Pensando nisso, adorei este “Erramos” publicado na Folha de hoje, que tem um sabor de cidade pequena:
...alguns endereços publicados no quadro que acompanhava a reportagem “Japonesa é eleita a dona do melhor pastel de feira” estavam errados. A barraca da Maria não participa de feiras às sextas-feiras; aos domingos, pode ser achada na rua dos Trilhos, sem/no., Mooca, e não na avenida Mario Lopes Leão, 700. A barraca da Gabi fica, aos domingos, na rua José Martins Lisboa, s/no., Jd. São Martinho, e não na rua Benedito de Souza Borges, s/no.
Quem sabe um dia a Publifolha edita um livro com os melhores “Erramos” do jornal. Lembro-me de um inacreditável. Era mais ou menos assim:
Diferentemente do que foi publicado na edição ..., o deputado Adão Pretto (PT-RS) é branco.
Aqui vai um link para a entrevista que fizeram comigo no site "Cronópios". Procurei ser conciso nas respostas. Uma pergunta bem difícil que tentei responder: "O que é mais importante na vida para Marcelo Coelho?" Isso é pergunta que se faça...?
A exposição de fotografias de Robert Polidori, no Museu da Casa Brasileira, acaba nesta quinta-feira. Foi o tema do artigo de hoje na Ilustrada:
(...) todo tipo de mobília e objeto parece amontoar-se como uma multidão de corpos fuzilados. Tudo o que um dia representou certo padrão de conforto doméstico -um ventilador de teto, um sofazão vermelho estofado, luminárias talvez "moderníssimas" em 1960- está agora compactado num ambiente intransitável. Cada sala atingida pela enchente parece, assim, "superpovoada", mas não de gente. Os móveis se apertam uns aos outros, como no desespero causado pela ausência dos donos.
Assinantes do uol podem ler a íntegra do artigo neste link. No site do museu, dá para ver as fotos. Aqui vão duas:
Em outro post falei sobre “Festa sob as bombas”, livro de Elias Canetti que acabou de ser lançado no Brasil, pela editora Estação Liberdade.
Estão saindo outros livros do autor, prêmio Nobel de 1981. A Estação Liberdade publica “Sobre a morte”, com pensamentos diversos, e para falar francamente, de qualidade irregular. Veja-se a frase que inaugura o livro:
Não está ao alcance de Deus salvar da morte uma única pessoa. Esta é a coerência e a exclusividade de Deus.
A não ser para uma pessoa muito religiosa, não sei se a frase é uma grande revelação. Melhor, pela violência e ao mesmo tempo pela serenidade, esta reflexão escrita em 1942:
Basta que se prometa a eternidade para fundar uma religião. Basta que se dê a ordem de matar para que abatam três quartos da humanidade. O que as pessoas querem? Viver ou morrer? Elas querem viver e matar, e enquanto elas querem isso, terão de se contentar com as várias promessas de vida eterna.
Já a editora José Olympio, dentro de uma coleção de bolso muito simpática chamada “Sabor Literário”, reuniu pensamentos de Canetti sobre romancistas e filósofos. O livro se chama “Sobre os escritores”. E Canetti, que já tinha desancado muito o poeta T. S. Eliot em “Festa sob as bombas”, ataca outras figuras.
Flaubert, por exemplo: “um hipopótamo que geme”. Canetti (e concordo muito com ele) prefere Stendhal.
Acho que não existe ninguém a quem eu ame tanto quanto a Stendhal. Ele é o único que invejo (...) Sua ingenuidade: ele não se envergonha de nenhum de seus sentimentos. Gostamos dele porque ele diz tudo. Não harmoniza tudo e todos com sua vaidade. Está cheio de lembranças, mas não definha com elas. Sua memória tem a rara qualidade de jamais se fechar. Como ama muitas coisas, sempre encontramos nele algo novo. Não importa qual o motivo de sua felicidade, jamais se sente culpado (...) A falta de religião permite a sua leveza.
Stendhal nunca foi a minha bíblia, mas entre os autores foi o meu salvador.
Já não concordo tanto quanto Canetti prefere Dickens a Flaubert. Dickens, diz ele, “faz parte dos poetas desordenados; parece que, entre os grandes, esses são os maiores. A ordem no romance começa com Flaubert, ali não existe nada que não tenha sido peneirado”.
Por outro lado, faz bem ler Canetti falando mal de Nietzsche. Detesta tudo o que Nietzsche diz a favor dos fortes, dos sadios, do que é “grande”. O interesse de Canetti vai na direção contrária: quero falar dos que são “pequenos”.
E o livro termina com uma bonita mensagem sobre a missão dos escritores. Eles devem manter abertos os canais entre as pessoas; e por isso deveriam ser capazes de se transformar em qualquer pessoa, mesmo a menor, a mais ingênua, a mais impotente. Escrever, diz Canetti, é uma paixão em si: a paixão da transformação.
Um pouco abaixo pus no blog um desenho de David Hockney. Ele agora inventou uma nova técnica de pintura: usa o dedo polegar no modo "Brushes" do seu iPhone, e manda para alguns amigos, segundo conta Lawrence Weschler na "New York Review of Books". Um exemplo:
(há mais no link citado)
PS- Aqui vai o link para outra pintura em iphone, de Jorge Colombo, que foi capa da New Yorker.
Animado com “Bastardos Inglórios”, peguei para ver em DVD outro filme de Tarantino, a segunda parte de “Kill Bill”. Ainda bem que não o tinha visto até agora –pois se tivesse, não teria me animado a ver os “Bastardos”. Achei a história muitíssimo menos interessante, sem a imaginação para tramas complicadas de outros filmes do autor, e as cenas de violência são absolutamente detestáveis.
Claro, há duas coisas que gostei em “Bastardos” também presentes em “Kill Bill 2”: a capacidade do diretor para filmar diálogos longos e enredados às vésperas de uma cena explosiva, como se o estopim tivesse de queimar até o último milímetro, e, ligado a isso, um senso de humor que beira a irrealidade. Mas o humor é irônico em “Bastardos” e em “Kill Bill 2” descamba mais para a paródia. Basta ver a figura daquele mestre chinês que treina Uma Thurman, com sobrancelhas brancas do tamanho da cauda de um gambá, para sentir que a farsa pesa demais.
Fala-se muito em “espetacularização da violência”. O termo talvez seja vago demais. Poderia aplicar-se a uma luta de box normal ou às inocentes coreografias dos “Power Rangers”. O problema não está aí. Está no que Tarantino fez em “Kill Bill 2”.
Não é espetacularização, é erotização da violência. Uma Thurman não é torturada porque encontra inimigos horrorosos, mas porque é uma mulher altamente desejável. Não estamos diante de um espetáculo marcial, mas de cenas destinadas a provocar alguma espécie de gozo ou anti-gozo (dá no mesmo) no espectador. “Bastardos Inglórios” pega bem mais leve, mesmo quando há brutalidades. Em “Kill Bill 2”, percebe-se que há um jogo menos honesto, da parte do diretor, com as perversões do espectador e as dele mesmo.
Ainda sobre T.S. Eliot, uma historinha curta contada pelo crítico e poeta William Empson.
Minha memória mais marcante é de estar caminhando [ao lado de Eliot] na Kingsway depois de algum almoço, provavelmente por volta de 1930, momento em que me encontrando sozinho com o grande homem senti que era oportuno levantar uma questão prática que andava me causando certa angústia. “O senhor acha realmente necessário, Mr. Eliot”, disparei, “como o senhor disse no prefácio à antologia dos poemas de Pound, que um poeta escreva versos ao menos uma vez por semana?” Ele estava se preparando para atravessar a Russel Square, olhando para o tráfego nas duas direções, e estávamos nos esquivando dos carros quando sua lenta resposta começou. “Eu estava pensando em Proust quando escrevi aquela passagem”, começou a profunda e triste voz, e então houve uma pausa considerável. “Tomando a questão de modo geral, eu diria, no caso de muitos poetas, que a coisa mais importante que eles teriam a fazer... é escrever o menos possível.” A gravidade da última frase era tão pura que lhe conferia uma qualidade quase lírica. Um leitor pode pensar que se tratava de uma manifestação de desdém ou de uma simples brincadeira, mas eu ainda hoje acho que não era; e naquele tempo me pareceu uma resposta não apenas muito sensata mas também muito satisfatória. Tirou um grande peso da minha consciência.
A consideração se torna ainda mais pertinente quando se pensa nos blogs.
Falei no artigo desta quarta-feira para a Ilustrada (link para assinantes aqui) do livro “O Naturalista da Economia”, de Robert H. Frank. Trata-se de aplicar o raciocínio econômico a uma série de circunstâncias do cotidiano, em forma de perguntas e respostas.
Uma das questões a que me referi no artigo diz respeito aos ovos de galinha. Os avermelhados custam mais caro que os brancos, embora tenham gosto e valor nutritivo iguais.
Recebi alguns e-mails explicando a preferência do público pelos ovos avermelhados. É que se assemelham aos ovos caipiras –estes sim mais saborosos. Eis o que diz uma leitora:
Quando criança somente conhecia ovos de cor vermelha,(minha mãe criava galinhas caipiras), e somente quando veio o plano Real, além de "danoninho" passei a comer ovos brancos, que minha mãe dizia ser mais baratos pois eram de galinhas brancas, que comiam ração, e não eram tão fortes e saudáveis como as caipiras que comiam somente milho, e mastruz para não ficarem doentes.
Eis um trecho do livro de Robert Frank:
É tentador dizer que os ovos vermelhos são mais caros porque os consumidores os consideram mais atraentes e estão dispostos a pagar mais por eles. Entretanto, esta explicação não é satisfatória, porque parece sugerir que os comerciantes que vendem ovos brancos estão deixando de ganhar dinheiro. Se eles podem ter lucros maiores vendendo ovos vermelhos, por que continuam a vender ovos brancos?
Uma resposta plausível é que produzir ovos vermelhos é mais caro do que produzir ovos brancos. A cor do ovo depende da raça de galinha que o põe. Por exemplo, as galinhas Leghorn brancas põem ovos brancos, enquanto as galinhas Rhode Island Red põem ovos vermelhos. As galinhas marrons tendem a ser maiores que as brancas; como a necessidade diária de calorias de uma galinha depende do tamanho da ave, produzir ovos vermelhos custa mais. No entanto, para explicar por que eles são vendidos, embora mais caros, uma condição importante deve estar presente do lado da demanda. Se alguns consumidores não preferissem a aparência dos ovos vermelhos, estando dispostos a pagar mais, eles não seriam colocados à venda.
Ah. Se isso não explica tudo, pelo menos nos assegura que está tudo certo em nosso mundo.
Naturalmente, é de esperar que com o tempo se consiga diminuir o custo da produção dos ovos vermelhos, ou manipular geneticamente as galinhas brancas. Os ovos brancos estão com os dias contados, se as leis de Darwin e as da oferta e da demanda funcionarem neste caso. São bem parecidas, aliás.
Em vez de aplicarmos a razão científica na produção de ovos vermelhos mais baratos, talvez fosse melhor (isto é, mais barato) investir diretamente na razão humana, esclarecendo as pessoas sobre o fato de que o gosto e o valor nutricional dos ovos não depende da cor. Os recursos gastos “racionalmente” para atender a essa irracionalidade básica a favor do vermelho poderiam ser utilizados para coisas mais úteis. Todavia, este seria um outro mundo –um pouco diferente daquele, tão ajustado, em que se validam as explicações de Robert Frank.
Mais um pouco de “Festa sob as bombas”, o livro de Elias Canetti que comentei na quarta-feira passada (assinantes podem ler o artigo aqui). Logo no começo de suas rememorações sobre a Inglaterra nos anos 1940, ele se estende sobre seu desafeto especial, T.S. Eliot.
Testemunhei a glória de um Eliot. Será que um dia as pessoas se envergonharão bastante dela? Um americano traz consigo um francês de Paris que desapareceu jovem (Laforgue), borrifa-o com seu asco de vida, vive verdadeiramente como bancário, enquanto taxa, apequena todo o anterior, que sempre tem mais fôlego do que ele, deixa-se presentear por um conterrâneo perdulário, que tem a grandeza e a tensão de um louco [Ezra Pound], e mostra o resultado: sua impotência, que ele comunica ao país todo, rende-se a toda ordem que tem idade suficiente, procura impedir todo e qualquer elã, um devasso do nada, sopé de Hegel, profanador de Dante (em qual círculo do inferno o encarceraria este?),lábios finos, coração frio, precocemente decrépito, indigno de Blake assim como de Goethe e de toda a lava, arrefecido antes de ter sido quente, nem gato nem pássaro nem sapo, em muito menos toupeira, obediente a Deus, enviado à Inglaterra (como se eu tivesse voltado à Espanha) com pontas críticas em vez de dentes, torturado por uma mulher ninfômana –sua única desculpa--, torturado tanto que Auto-da-Fé lhe teria caído bem, caso tivesse tido a ousadia de lê-lo, um Tom educado em Bloomsbury, admitido e convidado pela nobre Virginia, fugido de todos que com razão o censuraram, e fielmente condecorado por um prêmio que nem Virginia, nem Pound, nem Dylan, que ninguém que o mereceria ganhou –afora Yeats.
Canetti refere-se ao Prêmio Nobel, que Eliot ganhou em 1948, e que ele próprio receberia algumas décadas depois.
Recebi um e-mail falando dos dois anos completos do blog "Images e Visions", editado por Fernando Rabelo. Traz notícias sobre exposições de fotografia, com muitos links e grande apuro visual. Vale a pena dar uma olhada aqui.
O poeta Ted Hughes fez uma série de conferências pelo rádio, dedicadas a alunos do ensino básico, para estimulá-los a escrever poesia. Algumas dessas conferências estão reunidas num livro curto, chamado Poetry in the Making. Traduzo o trecho de um capítulo, intitulado “Aprendendo a pensar”.
Assim como existem pessoas que ficam correndo de um lado para outro, cuidando das coisas, enquanto outras simplesmente ficam sentadas –o mesmo acontece com a mente das pessoas. Alguns cérebros ficam se agitando e trabalhando e lembrando e questionando coisas o tempo inteiro, e outros cérebros ficam só deitados cochilando e mudando de lado às vezes.
Ted Hughes diz pertencer ao segundo grupo de pessoas.
Na escola, eu ficava atormentado com a ideia de que eu tinha pensamentos na verdade muito superiores ao que eu poderia por em palavras. Não é que eu não conseguisse achar as palavras, ou que os pensamentos fossem profundos e complicados demais para por em palavras. Simplesmente, quando eu tentava falar ou colocar no papel os pensamentos, eles tinham sumido.
[...] Por alguma razão, eu fiquei muito interessado nesses pensamentos que eu nunca conseguia pegar. Às vezes nem dava para chamá-los de pensamentos; eram uma espécie de sentimento obscuro a respeito de alguma coisa. Não se inseriam em nenhum tema particular –história, aritmética ou coisa parecida [...]
Acho que você pode ver o que estava acontecendo. Eu estava pensando direito, e mesmo tendo pensamentos que pareciam interessantes para mim, mas eu não conseguia segurar esses pensamentos dentro de mim, ou pescá-los quando os queria. [Acho que] a maioria das pessoas tem esse mesmo problema. Os pensamentos que as pessoas têm são flutuantes –só um lampejo, e depois desaparecem—ou, ainda que elas saibam que sabem alguma coisa, ou têm idéias sobre alguma coisa, não conseguem cavocar até chegar a elas quando querem. As mentes delas, na verdade, estão fora do alcance. É uma coisa curiosa dizer isso, mas é absolutamente verdadeiro.
Existe a vida interior, que é o mundo da realidade básica, o mundo da memória, da emoção, da imaginação, da inteligência, do bom senso, e que funciona o tempo todo, conscientemente ou não, como o bater do coração. Existe também o processo do pensamento, pelo qual entramos nessa vida interior e capturamos as respostas e as evidências que nos dão base para tratar das questões que vêm de fora. Esse processo de vasculhamento, de persuasão, de emboscada, de caçada, ou de rendição, é o tipo de pensamento que precisamos aprender, e se não o aprendemos, nossas mentes ficam dentro de nós como os peixes no lago de uma pessoa que não sabe pescar.
Não tive sorte com alguns DVDs recentes. “A Confissão”, de Norman Jewison, tinha bons motivos para me atrair. Michael Caine é um ex-colaboracionista francês, responsável pela morte de judeus durante a Ocupação. Conta com o apoio de figurões de uma sociedade secreta católica, e desperta as suspeitas de uma juíza (Tilda Swinton), disposta a levar o caso às últimas conseqüências.
O resultado é um filme repetitivo, em que o personagem “torturado pelo passado” não se desenvolve, e em que a investigação policial é levada com exasperante incompetência. Filme para a TV, no máximo.
Pior é “A Solução Final”, de Robert Young, um semidocumentário baseado nos depoimentos de Adolf Eichmann às autoridades israelenses. O caso fascinante do burocrata que organizou o transporte de milhões de judeus para os campos de extermínio é tratado de forma bastante caricata. Em determinado momento, mostra-se o romance entre Eichmann e uma condessa húngara anti-semita. Ele vai enumerando, como o Leporello da “Ária do Catálogo”, quantos judeus já matou em cada país. Isso, com a condessa pelada em cima do colo dele, dizendo “mais, mais...” Como pretexto para uma cena de sexo, acho o pior que já vi no cinema.
A imaginosa extravagância de Quentin Tarantino, em “Bastardos Inglórios” (filme que comento no artigo desta quarta, aqui para assinantes do UOL), possui, entre outras qualidades, a de mostrar alguns nazistas astuciosíssimos, reservando a bestialidade para algumas ocasiões apenas. Alguns deles são antes animais predadores do que sádicos –o sadismo, talvez, fica mais entregue aos próprios americanos; mas a ironia de tudo privilegia mais a esperteza do que a perversão, o assassinato maquinal do que a malignidade metafísica. Esta só seria compreensível a partir de uma visão do Bem –que Tarantino não tem o menor interesse em acentuar.
Bem bonito é o documentário “O Equilibrista”, vencedor do Oscar da categoria em 2008, que saiu agora em DVD. O filme de James Marsh conta a história de Philippe Petit, astro absoluto na arte de andar sobre a corda bamba. Sua maior proeza foi andar sobre um arame ligando as duas torres do World Trade Center. Foi necessária muita esperteza para driblar a segurança do lugar. O documentário recupera cada passo da operação, entre emocionados depoimentos dos participantes. O foco de interesse do filme é sem dúvida limitado, mas tudo se justifica quando vemos Petit, por fim, equilibrado naquelas alturas –como se se dispusesse a provar o valor de um só indivíduo sobre a enorme estrutura impessoal de ferro e vidro que ele conquistou. Naturalmente, o contraponto dessa proeza está no atentado promovido por Bin Laden –um louco bem mais perigoso do que Petit.
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