Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

Navios negreiros

 

O poeta baiano Castro Alves escreveu o “Navio Negreiro” em 1868. Ainda hoje não dá para ler esse poema sem emoção. É um clássico brasileiro. O que pouca gente conhece é um outro poema, também chamado o “Navio Negreiro”, escrito quatorze anos antes pelo poeta alemão Heinrich Heine. Eis o trecho inicial:

 

 

 

O sobrecarga Heer van Koek

Faz contas em sua cabina;

Calcula o montante da carga,

Seus gastos, o lucro e a propina.

 

“A borracha agrada, e a pimenta –

Quantas sacas de especiaria!

Tenho ouro em pó, tenho marfim,

Mas nada iguala a negraria!

 

Seiscentos negros consegui

Por uma nica –em Senegal.

À carne rija, aos tendões tesos

Não há ferro que seja igual.

 

Ofereci em troca aguardente,

Miçangas, estanho e tecido.

Consigo quase mil por cento

Se só metade houver morrido.”

 

Este é o começo de “O navio negreiro”, de Heinrich Heine (1797-1856), poema que inspiraria Castro Alves, 14 anos depois. Os dois poemas saem publicados juntos em português, pela primeira vez, no livro Navios Negreiros, da coleção Comboio de Corda, da editora SM.

 

No artigo desta quarta-feira, (assinantes do uol podem ler aqui), comentei um pouco as semelhanças e diferenças entre os dois. Heine assume, desde o começo, um tom muito mais irônico, tomando como protagonista o comandante (?) do navio –são os seus pensamentos e preocupações, evidentemente odiosos, que se compartilham com o leitor. Castro Alves, num registro mais declamatório –e ainda assim inesquecível—  revela uma atenção mais oscilante, variando entre as belezas do mar e a “cena dantesca” dos negros no convés.

 

Não apenas pela comparação entre os dois poemas, mas também pelo excelente material de apoio que contém (o livro se dirige ao público adolescente), “Navios Negreiros” merece estar no currículo de qualquer colégio brasileiro. Ainda se fala pouco de escravidão por aqui.   

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h33

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voltaire de souza (2)

Outras crônicas publicadas no "Agora".

 

CASO DE EXPULSÃO

 

 

Sensualidade. Beleza. Saias curtas.

É inegável o charme da mulher brasileira.

O corpo de Suryanne chamava a atenção dos alunos na Univest.

O curso noturno de Biologia daquela universidade já não era o mesmo.

Para o professor Jeílton, Suryanne perturbava o ambiente.

--Ela precisa se conter. Ela precisa se moderar.

Alguns colegas da diretoria propunham medidas drásticas.

--Expulsa de uma vez.

O professor Jeílton resolveu dar uma chance.

Chamou a moça para uma conversa no seu gabinete.

--Veja... não é que não seja liberal... mas...

Suryanne aproximou-se de Jeílton para melhor ouvir.

Um perfume envolvente entonteceu o velho educador.

Veio o estrondo. O susto. Era um apagão.

Coisa de dimensões nacionais. Problemas em Itaipu.

No escuro, Jeílton e Suryanne trocaram beijos e informações genéticas.

Em vez de expulsão, predomina um clima de hospitalidade e boas-vindas.

Quando a visão de uma minissaia perturba, é hora de apagar a luz.

 

 

MISSÃO DE UM EDUCADOR

 

Onda de calor na cidade. Tempo de saias curtas.

Nas Faculdades Professor Pintassilgo, o clima era de preocupação.

Algumas estudantes belíssimas estavam exagerando.

O professor Savério convocou reunião.

--Nossos alunos possuem alto nível cultural.

Ele tomou um gole de água gelada.

--Mas... certo tipo de reações...

Xingamentos. Pedradas. Ameaças de estupro.

Só porque uma linda aluna de Psicologia apareceu de microssaia.

Era preciso punir os xingadores e os brucutus.

--Suspensão, minha gente. Suspensão para todo mundo.

Uma jovem chamada Mariana apareceu no dia seguinte com saia comprida.

Foi chamada à diretoria. O professor Savério segurava uma tesoura.

--Não falei que ia ter suspensão? 

Cortou a saia de Mariana até uma altura bem acima do joelho.

--Agora sim. Quanto mais para cima, melhor.

Certas faculdades são como saias de belas mulheres.

É sempre necessário elevar o seu nível.

 

AMIGO URSO

 

Euforia. Animação. Esperança.

São as Olimpíadas no Rio. Olimpíadas no Brasil.

Elpídio era um velho militante operário.

Seu coração esquerdista batia com amargura.

--Boas mesmo foram as Olimpíadas de Moscou.

Ele tomou mais uma dose de conhaque.

--Com o fim do comunismo... virou tudo comércio.

O sol poente tingia de vermelho a paisagem de Osasco.

--O mascote daqueles jogos... aquele ursinho...

O ursinho Micha ficou para sempre na memória dos russos. E do mundo.

Os olhos do ex-sindicalista umedeceram-se levemente.

--Aqui, qual vai ser o mascote? O Zé Carioca?

Na parede,  o retrato de Che Guevara ficou em silêncio.

 Veio o sono.  Belas ginastas russas povoaram aquela  mente ensopada de álcool.

Elpídio abraçou o travesseiro.  Alguns pelos grossos roçaram sua boca seca.

--Micha... é você?

Não era. Era a barba do amigo Reinaldo.  Que viera curtir um porre na casa do companheiro.

No inverno das ideologias, homens são como ursos: entram na toca.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 12h32

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voltaire de souza

 Alguns voltaires mais ou menos recentes.

 

 

NÉVOAS DA SALVAÇÃO

 

 

Tiroteio. Terror. É o Rio de Janeiro.

Operação policial no Morro dos Macacos.

Um helicóptero foi alvejado.

Nayara  morava na Zona Sul.

--E enquanto tiver droga por aqui... estou tranqüila.

Maconha. Cocaína. Ecstasy. LSD.

De calcinha, Nayara tomava sol e drogas na cobertura do prédio.

Helicópteros zanzavam pelo local. 

Entre a névoa, o Cristo Redentor trazia mensagens de paz.

--Nayara... minha filha... chega de drogas...

Os olhos vermelhos de Nayara iam perdendo o foco da realidade.

--Do céu... apenas do céu... virá a salvação.

O helicóptero chegou mais perto. O oficial de binóculo se chamava Arimar.

--Ôpa. Desce a cordinha que eu estou vendo coisa boa.

Foi belo o encontro entre o policial e a drogada. Arimar sorri.

--Adeus, Morro dos Macacos. Fico aqui com essa pantera.

--Ai, me salva, gorilão. Me algema.

Paixões são como paisagens na neblina. Quanto menos se enxerga, melhor.

 

AMANSANDO O HOMEM

 

Olimpíadas no Rio. Os preparativos têm de começar desde já.

O dr. Helmut era uma importante autoridade internacional.

Desde a sua infância, o rigoroso alemão se interessava pelas Olimpíadas.

--Agôrra, eu serr um dos que mandam em tuda.

Ele tinha um encontro com vários governantes brasileiros.

--Ôrrdem. Distciplina. Prrecisa estárr tuda perrfeita.

O medo tomou conta das autoridades cariocas.

--A gente precisa amansar esse alemão.

Helmut foi levado a um tradicional bairro carioca. Caipirinha. Samba. Mulatas.

--Humm... egzelente o kaipirrínia. Nón atcha, Guilváánka?

A espetacular morena sorriu. As autoridades viram que Helmut estava no papo.

Os olhos azuis do alemão contemplaram o horizonte. Sinais de fogo e de fumaça.

--Nôtssa... votcês já atcenderran o totcha olímpico...

Não era tocha olímpica. Era um ônibus. Incendiado por traficantes.

Instintos guerreiros tomaram conta de Helmut. Arrancou a pistola de um policial.

--Mim matarr todas as pandidas. Operraçón limpetza. Deixa comiga.

Balas entraram como medalhas naquele peito germânico.

Provando que pessoas podem ser pacificadas. Mas países inteiros, nem sempre.

 

  

FLORESTA DE CONFLITOS

 

Revolta.  Vandalismo.  Destruição.

Alguns movimentos camponeses andam chutando o pau da barraca.

O doutor Tonhão era um poderoso fazendeiro.

Muita  plantação de laranja no interior paulista.

Ele estava em seu escritório em São Paulo quando chegou o aviso.

--Doutor.  Eles estão chegando.  Um pessoal de boné vermelho.

--Muito bem. Invasão de terra. Já vou para aí.

O jatinho chegou na Fazenda Bagaçal em tempo recorde.

Os sem-terra já dominavam a situação. Um trator derrubava centenas de pés de laranja.

O doutor Tonhão sorria serenamente.

--Tudo bem.  Eu posso negociar. Chama o líder dessa turma.

Bolo de fubá. Pão de queijo. Cafezinho. E uma proposta.

--Querem trabalhar para mim? Salário excelente. Carteira assinada.

O doutor Tonhão tinha grandes propriedades na Amazônia e no Pantanal.

--De vocês eu quero uma coisa só.  Que derrubem a floresta inteira.

Deu um risinho.

--Vocês são bons nisso. E se chegar a fiscalização vocês dizem que é protesto.

Desentendimentos políticos são como mato.  Por vezes, podem ser cortados pela raiz.

 

 

PREÇO DE UMA ORAÇÃO

 

 

Dor. Luto. Falecimento. Nessas horas, a ajuda espiritual é importante.

Poucas pessoas compareciam ao velório do sr. Guaracy.

A viúva usava óculos escuros descomunais.

--Um pulha. Ele sempre foi um pulha.

Os amigos de farra falavam no celular.

Uma coroa de flores despetalava-se num canto.

“Homenagem da Companhia de Crédito de Palmital”.

Foi quando uma figura respeitosa entrou no recinto.

A batina branca. O sapato preto. O rosto vermelho.

Era o Lofredo. Falso padre dando plantão nas horas de dor.

--Se for da conveniência da família, posso fazer uma oração...

O silêncio dos presentes não durou muito.

--Baratinho. Faço por duzentos reais.

A viúva se abespinhou.

--Duzentos? Esse panaca não valia nem vinte.

Alguns cachações expulsaram Lofredo do local.

Um amigo alcoolizado julgou ver uma lágrima escorrendo do rosto do defunto.

Mas um falso padre pode pouco diante das verdades do coração.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 12h30

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Magia do "Erramos"

São Paulo deve estar, não sei, entre as três ou quatro maiores cidades do mundo, com uns dez milhões de habitantes, ou nove ou doze, vai saber. Pensando nisso, adorei este “Erramos” publicado na Folha de hoje, que tem um sabor de cidade pequena:

 

...alguns endereços publicados no quadro que acompanhava a reportagem “Japonesa é eleita a dona do melhor pastel de feira” estavam errados. A barraca da Maria não participa de feiras às sextas-feiras; aos domingos, pode ser achada na rua dos Trilhos, sem/no., Mooca, e não na avenida Mario Lopes Leão, 700. A barraca da Gabi fica, aos domingos, na rua José Martins Lisboa, s/no., Jd. São Martinho, e não na rua Benedito de Souza Borges, s/no.

 

Quem sabe um dia a Publifolha edita um livro com os melhores “Erramos” do jornal. Lembro-me de um inacreditável. Era mais ou menos assim:

 

Diferentemente do que foi publicado na edição ..., o deputado Adão Pretto (PT-RS) é branco.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h52

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entrevista em "Cronópios"

Aqui vai um link para a entrevista que fizeram comigo no site "Cronópios". Procurei ser conciso nas respostas. Uma pergunta bem difícil que tentei responder: "O que é mais importante na vida para Marcelo Coelho?" Isso é pergunta que se faça...?

Donald Baechler, The thinker

Escrito por Marcelo Coelho às 11h41

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As fotos de Polidori

A exposição de fotografias de Robert Polidori, no Museu da Casa Brasileira, acaba nesta quinta-feira. Foi o tema do artigo de hoje na Ilustrada:

(...) todo tipo de mobília e objeto parece amontoar-se como uma multidão de corpos fuzilados. Tudo o que um dia representou certo padrão de conforto doméstico -um ventilador de teto, um sofazão vermelho estofado, luminárias talvez "moderníssimas" em 1960- está agora compactado num ambiente intransitável.
Cada sala atingida pela enchente parece, assim, "superpovoada", mas não de gente. Os móveis se apertam uns aos outros, como no desespero causado pela ausência dos donos.

Assinantes do uol podem ler a íntegra do artigo neste link. No site do museu, dá para ver as fotos. Aqui vão duas:

Escrito por Marcelo Coelho às 22h44

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Mais Canetti

 
 

Mais Canetti

Em outro post falei sobre “Festa sob as bombas”, livro de Elias Canetti que acabou de ser lançado no Brasil, pela editora Estação Liberdade.

 

Estão saindo outros livros do autor, prêmio Nobel de 1981. A Estação Liberdade publica “Sobre a morte”, com pensamentos diversos, e para falar francamente, de qualidade irregular. Veja-se a frase que inaugura o livro:

 

Não está ao alcance de Deus salvar da morte uma única pessoa. Esta é a coerência e a exclusividade de Deus.

 

A não ser para uma pessoa muito religiosa, não sei se a frase é uma grande revelação. Melhor, pela violência e ao mesmo tempo pela serenidade, esta reflexão escrita em 1942:

 

Basta que se prometa a eternidade para fundar uma religião. Basta que se dê a ordem de matar para que abatam três quartos da humanidade. O que as pessoas querem? Viver ou morrer? Elas querem viver e matar, e enquanto elas querem isso, terão de se contentar com as várias promessas de vida eterna.

 

 

Já a editora José Olympio, dentro de uma coleção de bolso muito simpática chamada “Sabor Literário”, reuniu pensamentos de Canetti sobre romancistas e filósofos. O livro se chama “Sobre os escritores”. E Canetti, que já tinha desancado muito o poeta T. S. Eliot em “Festa sob as bombas”, ataca outras figuras.

 

Flaubert, por exemplo: “um hipopótamo que geme”. Canetti (e concordo muito com ele) prefere Stendhal.

 

Acho que não existe ninguém a quem eu ame tanto quanto a Stendhal. Ele é o único que invejo (...) Sua ingenuidade: ele não se envergonha de nenhum de seus sentimentos. Gostamos dele porque ele diz tudo. Não harmoniza tudo e todos com sua vaidade. Está cheio de lembranças, mas não definha com elas. Sua memória tem a rara qualidade de jamais se fechar. Como ama muitas coisas, sempre encontramos nele algo novo. Não importa qual o motivo de sua felicidade, jamais se sente culpado (...) A falta de religião permite a sua leveza.

Stendhal nunca foi a minha bíblia, mas entre os autores foi o meu salvador.

 

Já não concordo tanto quanto Canetti prefere Dickens a Flaubert. Dickens, diz ele, “faz parte dos poetas desordenados; parece que, entre os grandes, esses são os maiores. A ordem no romance começa com Flaubert, ali não existe nada que não tenha sido peneirado”.

 

Por outro lado, faz bem ler Canetti falando mal de Nietzsche. Detesta tudo o que Nietzsche diz a favor dos fortes, dos sadios, do que é “grande”. O interesse de Canetti vai na direção contrária: quero falar dos que são “pequenos”.

E o livro termina com uma bonita mensagem sobre a missão dos escritores. Eles devem manter abertos os canais entre as pessoas; e por isso deveriam ser capazes de se transformar em qualquer pessoa, mesmo a menor, a mais ingênua, a mais impotente. Escrever, diz Canetti, é uma paixão em si: a paixão da transformação.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h54

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arte no iPhone

Um pouco abaixo pus no blog um desenho de David Hockney. Ele agora inventou uma nova técnica de pintura: usa o dedo polegar no modo "Brushes" do seu iPhone, e manda para alguns amigos, segundo conta Lawrence Weschler na "New York Review of Books". Um exemplo:

(há mais no link citado)  

 

PS- Aqui vai o link para outra pintura em iphone, de Jorge Colombo, que foi capa da New Yorker.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h14

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espetacularização da violência?

 
 

espetacularização da violência?

Animado com “Bastardos Inglórios”, peguei para ver em DVD outro filme de Tarantino, a segunda parte de “Kill Bill”. Ainda bem que não o tinha visto até agora –pois se tivesse, não teria me animado a ver os “Bastardos”. Achei a história muitíssimo menos interessante, sem a imaginação para tramas complicadas de outros filmes do autor, e as cenas de violência são absolutamente detestáveis.

 

Claro, há duas coisas que gostei em “Bastardos” também presentes em “Kill Bill 2”: a capacidade do diretor para filmar diálogos longos e enredados às vésperas de uma cena explosiva, como se o estopim tivesse de queimar até o último milímetro, e, ligado a isso, um senso de humor que beira a irrealidade. Mas o humor é irônico em “Bastardos” e em “Kill Bill 2” descamba mais para a paródia. Basta ver a figura daquele mestre chinês que treina Uma Thurman, com sobrancelhas brancas do tamanho da cauda de um gambá, para sentir que a farsa pesa demais.

 

Fala-se muito em “espetacularização da violência”. O termo talvez seja vago demais. Poderia aplicar-se a uma luta de box normal ou às inocentes coreografias dos “Power Rangers”. O problema não está aí. Está no que Tarantino fez em “Kill Bill 2”.

Não é espetacularização, é erotização da violência. Uma Thurman não é torturada porque encontra inimigos horrorosos, mas porque é uma mulher altamente desejável. Não estamos diante de um espetáculo marcial, mas de cenas destinadas a provocar alguma espécie de gozo ou anti-gozo (dá no mesmo) no espectador. “Bastardos Inglórios” pega bem mais leve, mesmo quando há brutalidades. Em “Kill Bill 2”, percebe-se que há um jogo menos honesto, da parte do diretor, com as perversões do espectador e as dele mesmo.

 

Kill Bill 2 (trailer)

Escrito por Marcelo Coelho às 01h54

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um conselho de T.S. Eliot

 
 

um conselho de T.S. Eliot

Ainda sobre T.S. Eliot, uma historinha curta contada pelo crítico e poeta UOL Busca William Empson.

 

Minha memória mais marcante é de estar caminhando [ao lado de Eliot] na Kingsway depois de algum almoço, provavelmente por volta de 1930, momento em que me encontrando sozinho com o grande homem senti que era oportuno levantar uma questão prática que andava me causando certa angústia. “O senhor acha realmente necessário, Mr. Eliot”, disparei, “como o senhor disse no prefácio à antologia dos poemas de Pound, que um poeta escreva versos ao menos uma vez por semana?” Ele estava se preparando para atravessar a Russel Square, olhando para o tráfego nas duas direções, e estávamos nos esquivando dos carros quando sua lenta resposta começou. “Eu estava pensando em Proust quando escrevi aquela passagem”, começou a profunda e triste voz, e então houve uma pausa considerável. “Tomando a questão de modo geral, eu diria, no caso de muitos poetas, que a coisa mais importante que eles teriam a fazer... é escrever o menos possível.” A gravidade da última frase era tão pura que lhe conferia uma qualidade quase lírica. Um leitor pode pensar que se tratava de uma manifestação de desdém ou de uma simples brincadeira, mas eu ainda hoje acho que não era; e naquele tempo me pareceu uma resposta não apenas muito sensata mas também muito satisfatória. Tirou um grande peso da minha consciência.

 

A consideração se torna ainda mais pertinente quando se pensa nos blogs.

 

A citação está na biografia de Empson, escrita por John Haffenden.

Louis McNeice, Ted Hughes, Eliot, Auden, Spender: poetas

Escrito por Marcelo Coelho às 01h13

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Ovos e economia

 
 

Ovos e economia

Falei no artigo desta quarta-feira para a Ilustrada (link para assinantes aqui) do livro “O Naturalista da Economia”, de Robert H. Frank. Trata-se de aplicar o raciocínio econômico a uma série de circunstâncias do cotidiano, em forma de perguntas e respostas.

 

Uma das questões a que me referi no artigo diz respeito aos ovos de galinha. Os avermelhados custam mais caro que os brancos, embora tenham gosto e valor nutritivo iguais.

 

Recebi alguns e-mails explicando a preferência do público pelos ovos avermelhados. É que se assemelham aos ovos caipiras –estes sim mais saborosos. Eis o que diz uma leitora:

 

Quando criança somente conhecia ovos de cor vermelha,(minha mãe criava galinhas caipiras), e somente quando veio o plano Real, além de "danoninho" passei a comer ovos brancos, que minha mãe dizia ser mais baratos pois eram de galinhas brancas, que comiam ração, e não eram tão fortes e saudáveis como as caipiras que comiam somente milho, e mastruz para não ficarem doentes.

 

Eis um trecho do livro de Robert Frank:

 

É tentador dizer que os ovos vermelhos são mais caros porque os consumidores os consideram mais atraentes e estão dispostos a pagar mais por eles. Entretanto, esta explicação não é satisfatória, porque parece sugerir que os comerciantes que vendem ovos brancos estão deixando de ganhar dinheiro. Se eles podem ter lucros maiores vendendo ovos vermelhos, por que continuam a vender ovos brancos?

 

Uma resposta plausível é que produzir ovos vermelhos é mais caro do que produzir ovos brancos. A cor do ovo depende da raça de galinha que o põe. Por exemplo, as galinhas Leghorn brancas põem ovos brancos, enquanto as galinhas Rhode Island Red põem ovos vermelhos. As galinhas marrons tendem a ser maiores que as brancas; como a necessidade diária de calorias de uma galinha depende do tamanho da ave, produzir ovos vermelhos custa mais. No entanto, para explicar por que eles são vendidos, embora mais caros, uma condição importante deve estar presente do lado da demanda. Se alguns consumidores não preferissem a aparência dos ovos vermelhos, estando dispostos a pagar mais, eles não seriam colocados à venda.

 

Ah. Se isso não explica tudo, pelo menos nos assegura que está tudo certo em nosso mundo.

 

Naturalmente, é de esperar que com o tempo se consiga diminuir o custo da produção dos ovos vermelhos, ou manipular geneticamente as galinhas brancas. Os ovos brancos estão com os dias contados, se as leis de Darwin e as da oferta e da demanda funcionarem neste caso. São bem parecidas, aliás.

 

Em vez de aplicarmos a razão científica na produção de ovos vermelhos mais baratos, talvez fosse melhor (isto é, mais barato) investir diretamente na razão humana, esclarecendo as pessoas sobre o fato de que o gosto e o valor nutricional dos ovos não depende da cor. Os recursos gastos “racionalmente” para atender a essa irracionalidade básica a favor do vermelho poderiam ser utilizados para coisas mais úteis. Todavia, este seria um outro mundo –um pouco diferente daquele, tão ajustado, em que se validam as explicações de Robert Frank.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h09

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Canetti contra T.S. Eliot

Mais um pouco de “Festa sob as bombas”, o livro de Elias Canetti que comentei na quarta-feira passada (assinantes podem ler o artigo aqui). Logo no começo de suas rememorações sobre a Inglaterra nos anos 1940, ele se estende sobre seu desafeto especial, T.S. Eliot.

 

Testemunhei a glória de um Eliot. Será que um dia as pessoas se envergonharão bastante dela? Um americano traz consigo um francês de Paris que desapareceu jovem (Laforgue), borrifa-o com seu asco de vida, vive verdadeiramente como bancário, enquanto taxa, apequena todo o anterior, que sempre tem mais fôlego do que ele, deixa-se presentear por um conterrâneo perdulário, que tem a grandeza e a tensão de um louco [Ezra Pound], e mostra o resultado: sua impotência, que ele comunica ao país todo, rende-se a toda ordem que tem idade suficiente, procura impedir todo e qualquer elã, um devasso do nada, sopé de Hegel, profanador de Dante (em qual círculo do inferno o encarceraria este?),lábios finos, coração frio, precocemente decrépito, indigno de Blake assim como de Goethe e de toda a lava, arrefecido antes de ter sido quente, nem gato nem pássaro nem sapo, em muito menos toupeira, obediente a Deus, enviado à Inglaterra (como se eu tivesse voltado à Espanha) com pontas críticas em vez de dentes, torturado por uma mulher ninfômana –sua única desculpa--, torturado tanto que Auto-da-Fé lhe teria caído bem, caso tivesse tido a ousadia de lê-lo, um Tom educado em Bloomsbury, admitido e convidado pela nobre Virginia, fugido de todos que com razão o censuraram, e fielmente condecorado por um prêmio que nem Virginia, nem Pound, nem Dylan, que ninguém que o mereceria ganhou –afora Yeats.

 

Canetti refere-se ao Prêmio Nobel, que Eliot ganhou em 1948, e que ele próprio receberia algumas décadas depois.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h17

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blog de fotografia

Recebi um e-mail falando dos dois anos completos do blog "Images e Visions", editado por Fernando Rabelo. Traz notícias sobre exposições de fotografia, com muitos links e grande apuro visual. Vale a pena dar uma olhada aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h32

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aprendendo a pensar

 
 

aprendendo a pensar

O poeta UOL Busca Ted Hughes fez uma série de conferências pelo rádio, dedicadas a alunos do ensino básico, para estimulá-los a escrever poesia. Algumas dessas conferências estão reunidas num livro curto, chamado Poetry in the Making. Traduzo o trecho de um capítulo, intitulado “Aprendendo a pensar”.

 

  

Assim como existem pessoas que ficam correndo de um lado para outro, cuidando das coisas, enquanto outras simplesmente ficam sentadas –o mesmo acontece com a mente das pessoas. Alguns cérebros ficam se agitando e trabalhando e lembrando e questionando coisas o tempo inteiro, e outros cérebros ficam só deitados cochilando e mudando de lado às vezes.

 

Ted Hughes diz pertencer ao segundo grupo de pessoas.

 

Na escola, eu ficava atormentado com a ideia de que eu tinha pensamentos na verdade muito superiores ao que eu poderia por em palavras. Não é que eu não conseguisse achar as palavras, ou que os pensamentos fossem profundos e complicados demais para por em palavras. Simplesmente, quando eu tentava falar ou colocar no papel os pensamentos, eles tinham sumido.

 

[...] Por alguma razão, eu fiquei muito interessado nesses pensamentos que eu nunca conseguia pegar. Às vezes nem dava para chamá-los de pensamentos; eram uma espécie de sentimento obscuro a respeito de alguma coisa. Não se inseriam em nenhum tema particular –história, aritmética ou coisa parecida [...]

 

Acho que você pode ver o que estava acontecendo. Eu estava pensando direito, e mesmo tendo pensamentos que pareciam interessantes para mim, mas eu não conseguia segurar esses pensamentos dentro de mim, ou pescá-los quando os queria. [Acho que] a maioria das pessoas tem esse mesmo problema. Os pensamentos que as pessoas têm são flutuantes –só um lampejo, e depois desaparecem—ou, ainda que elas saibam que sabem alguma coisa, ou têm idéias sobre alguma coisa, não conseguem cavocar até chegar a elas quando querem. As mentes delas, na verdade, estão fora do alcance. É uma coisa curiosa dizer isso, mas é absolutamente verdadeiro.

 

Existe a vida interior, que é o mundo da realidade básica, o mundo da memória, da emoção, da imaginação, da inteligência, do bom senso, e que funciona o tempo todo, conscientemente ou não, como o bater do coração. Existe também o processo do pensamento, pelo qual entramos nessa vida interior e capturamos as respostas e as evidências que nos dão base para tratar das questões que vêm de fora. Esse processo de vasculhamento, de persuasão, de emboscada, de caçada, ou de rendição, é o tipo de pensamento que precisamos aprender, e se não o aprendemos, nossas mentes ficam dentro de nós como os peixes no lago de uma pessoa que não sabe pescar.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h33

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alguns DVDs

Não tive sorte com alguns DVDs recentes. “A Confissão”, de Norman Jewison, tinha bons motivos para me atrair. Michael Caine é um ex-colaboracionista francês, responsável pela morte de judeus durante a Ocupação. Conta com o apoio de figurões de uma sociedade secreta católica, e desperta as suspeitas de uma juíza (Tilda Swinton), disposta a levar o caso às últimas conseqüências.

         O resultado é um filme repetitivo, em que o personagem “torturado pelo passado” não se desenvolve, e em que a investigação policial é levada com exasperante incompetência. Filme para a TV, no máximo.

         Pior é “A Solução Final”, de Robert Young, um semidocumentário baseado nos depoimentos de Adolf Eichmann às autoridades israelenses. O caso fascinante do burocrata que organizou o transporte de milhões de judeus para os campos de extermínio é tratado de forma bastante caricata. Em determinado momento, mostra-se o romance entre Eichmann e uma condessa húngara anti-semita. Ele vai enumerando, como o Leporello da “Ária do Catálogo”, quantos judeus já matou em cada país. Isso, com a condessa pelada em cima do colo dele, dizendo “mais, mais...” Como pretexto para uma cena de sexo, acho o pior que já vi no cinema.

         A imaginosa extravagância de Quentin Tarantino, em “Bastardos Inglórios” (filme que comento no artigo desta quarta, aqui para assinantes do UOL), possui, entre outras qualidades, a de mostrar alguns nazistas astuciosíssimos, reservando a bestialidade para algumas ocasiões apenas. Alguns deles são antes animais predadores do que sádicos –o sadismo, talvez, fica mais entregue aos próprios americanos; mas a ironia de tudo privilegia mais a esperteza do que a perversão, o assassinato maquinal do que a malignidade metafísica. Esta só seria compreensível a partir de uma visão do Bem –que Tarantino não tem o menor interesse em acentuar.  

         Bem bonito é o documentário “O Equilibrista”, vencedor do Oscar da categoria em 2008, que saiu agora em DVD. O filme de James Marsh conta a história de Philippe Petit, astro absoluto na arte de andar sobre a corda bamba. Sua maior proeza foi andar sobre um arame ligando as duas torres do World Trade Center. Foi necessária muita esperteza para driblar a segurança do lugar. O documentário recupera cada passo da operação, entre emocionados depoimentos dos participantes. O foco de interesse do filme é sem dúvida limitado, mas tudo se justifica quando vemos Petit, por fim, equilibrado naquelas alturas –como se se dispusesse a provar o valor de um só indivíduo sobre a enorme estrutura impessoal de ferro e vidro que ele conquistou. Naturalmente, o contraponto dessa proeza está no atentado promovido por Bin Laden –um louco bem mais perigoso do que Petit.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h20

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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