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Todo mundo –ou melhor, 99% das pessoas—se acha mais sabido do que é. Esta cifra (99%) não é um chute. Pesquisadores chegaram a isso graças a um teste muito simples, que li no livro Supercrunchers – Por que pensar com números é a nova maneira de ser inteligente, de Ian Ayres, recém-lançado pela Ediouro.
Experimente fazer o teste.
Para cada uma das seguintes dez questões, dê a faixa de respostas dentro da qual você está 90% confiante de que tem a resposta correta. Por exemplo, para a primeira questão, você deve preencher: “Tenho 90% de confiança de que a idade de Martin Luther King no momento de sua morte era algo entre ____ anos e _____ anos.” Não se preocupe se não souber a resposta exata. O objetivo aqui é ver se você pode construir intervalos de confiança que incluam a resposta correta em 90% dos casos. Aqui estão as dez questões:
BAIXO ALTO
1. Qual a idade de Martin Luther King quando morreu? ______ ______
2. Qual a extensão do rio Nilo, em quilômetros? _______ ______
3. Quantos países pertencem à Opep? _______ ______
4. Quantos livros há no Velho Testamento? ______ ______
5. Qual o diâmetro da Lua, em km? _______ _____
6. Qual o peso de um Boeing 747 vazio, em quilos? ______ ______
7. Em que ano nasceu Mozart? _______ ______
8. Qual o período de gestação de um elefante asiático, ______ _____
em dias?
9. Qual a distância aérea entre Londres e Tóquio, _____ ______
em km?
10. Qual é o ponto mais profundo dos oceanos, em
metros? ______ _______
Não vale responder “Sei lá”. Isso também é uma mentira. É claro que você tem alguma idéia. Você sabe que o ponto mais profundo do oceano tem mais de 50 milímetros e menos de 150 mil quilômetros. Incluí as respostas corretas abaixo para que você possa ver o quanto se aproximou da verdade.
Se todos os dez intervalos que você colocou incluírem a resposta certa, você tem pouca confiança. Qualquer um poderia garantir que isso ocorreria –apenas colocando respostas arbitrariamente amplas. Tenho absoluta certeza de que Mozart nasceu entre 3 a. C. e, digamos, 1980. Mas quase todo mundo que responde a essas questões enfrenta o problema oposto, de superconfiança –eles não conseguem evitar a colocação de diferenças muito pequenas. As pessoas acham que sabem muito mais do que sabem. Na verdade (...) descobriu-se que a maioria das pessoas errava entre 4 e 7 questões. Menos de 1% das pessoas deram variações que incluíram a resposta certa em 9 ou 10 questões. Cerca de 99% das pessoas eram superconfiantes.
(As respostas certas são estas: 1- 39 anos; 2- 6 738km; 3- 13 países 4- 39 livros; 5-3.476 km; 6- 177 toneladas; 7- 1756; 8-645 dias; 9- 9 590km; 10- 11.033 metros.
Escrito por Marcelo Coelho às 02h32
O tempo e o lugar
Participei nesta terça-feira de um debate com Eduardo Escorel, diretor do documentário O Tempo e o Lugar, que já comentei num artigo para a Ilustrada, e que estréia sexta-feira em São Paulo.
O filme tem como personagem principal um pequeno agricultor alagoano, Genivaldo da Silva, que durante muito tempo militou na Pastoral da Terra e no MST. Liderou saques e ocupações. A certa altura, desencantou-se do movimento. O Tempo e o Lugar mostra um Genivaldo fortemente crítico das táticas do MST, relatando um treinamento que teve com “guerrilheiros do Sendero Luminoso” e contando de uma aventura de luta armada em que um líder do MST praticamente coagiu-o a arriscar a vida pela causa.
Bem, pode-se concordar ou não com as opiniões de Genivaldo. Pode-se criticar o filme de Eduardo Escorel em diversos aspectos. Acho, por exemplo, que o documentário ficaria mais completo se fosse procurado o líder do MST a quem Genivaldo se refere.
Eduardo Escorel considera que um documentário não precisa necessariamente seguir as regras do jornalismo, no sentido de “ouvir o outro lado”. Seu objetivo era focar-se na figura de Genivaldo, que tem uma trajetória interessante e conta coisas que não estamos habituados a ouvir por aí.
Por certo, seu documentário, de modo geral, dá crédito aos testemunhos de Genivaldo –que estão cheios de críticas ao MST.
Foi o bastante para que muita gente da platéia protestasse. “Joga água na moinho da direita”; “presta um desserviço às lutas populares”, coisa desse gênero. Outras pessoas concluíram com mais facilidade ainda que Genivaldo era um mentiroso, um fabulador.
Acho, como já disse, que o filme seria melhor se tentasse checar o que Genivaldo disse. Brinquei até com Eduardo Escorel, depois de encerrado o debate: se entrevistassem no filme o líder do MST a quem Genivaldo acusa de fanático, aí sim o desserviço à causa talvez corresse o risco de ser completo...
Mas é irritante a capacidade de algumas pessoas de esquerda de simplesmente se recusarem a admitir qualquer hipótese de crítica; pior que isso: julgar que qualquer crítica é necessariamente um desserviço. Ao contrário, abrir-se a críticas é o único modo de evitar que os mesmos erros sejam cometidos; depois perguntam todos porque o socialismo soçobrou no autoritarismo e no terror stalinista.
O fato é que muita gente defende o MST simplesmente porque atacá-lo seria fazer o jogo da direita. Do mesmo modo, muita gente defendia Stálin porque atacá-lo era fazer o jogo da direita. Se o defendessem menos, quem sabe a esquerda pudesse ter-se livrado dos fracassos em que se enredou.
Se Genivaldo mentiu ou não, não posso saber com certeza. Tendo a acreditar no que ele conta, e sem dúvida ele é melhor juiz dos seus próprios interesses como camponês do que eu. Tendo também a achar que ele (e o documentário) silenciam demais sobre suas ligações políticas posteriores à defecção do MST, e sobre “o tipo de gente com que ele se meteu” depois de ter-se metido com “o tipo de gente” do MST. Mas sem essas informações só posso, como o velho Montaigne, suspender meu julgamento.
O filme interessa pelas perguntas que deixa no ar; é também um pouco insatisfatório por essa mesma razão. Agora, sair atirando contra ele não é coisa de quem está na esquerda por ter uma alma generosa ou porque tem uma mentalidade crítica; é coisa de quem gosta de ser policial.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h49
A cabeça dos italianos (2)
Muita coisa tipicamente italiana talvez não seja tão típica quanto Beppe Severgnini parece acreditar, em seu A cabeça do italiano (ver post anterior). Mas com certeza não é em qualquer shopping center do mundo que se pode ouvir uma mulher, no alto do terceiro andar, chamar pelo marido no térreo: “Maaaariooooooo...” O autor diz que isso acontece por lá.
Há nisso, certamente, um misto de domesticidade e ópera, que só se pode chamar de italiano. Uma informação interessante, que consta do livro, pode ter algo a ver com isso. É que, ao contrário do que acontece em muitos países, oito entre dez famílias italianas moram em casa própria.
Lembro de “A Família”, filme de Ettore Scola, em que várias gerações se sucediam no mesmo apartamento. Quem sabe essa sensação de “estar em casa”, de ser dono dos próprios domínios, e de encarar o pátio interno e a rua como extensões da própria moradia, ajude a explicar a sem-cerimônia italiana em lugares públicos.
Escrito por Marcelo Coelho às 18h40
A cabeça dos italianos
Pode ser efeito da globalização. Mas o interesse pelas características nacionais parece ser mais intenso ultimamente. Não chega a ser contraditório. Todos os povos vão ficando mais parecidos do ponto de vista cultural, e justamente por isso as pequenas diferenças se tornam mais visíveis, mais conhecidas, mais intrigantes.
Estou acabando de ler A cabeça do italiano, do jornalista Beppe Severgnini (ed. Record). O texto é agradável, sorridente, tolerante, sem a paixão ou o desespero que teria um livro do mesmo gênero escrito por argentinos ou mexicanos.
Tudo tem um tom de crônica, levando-nos a uma viagem imaginária de dez dias pela Itália, de Milão até a Sardenha.
Quer dizer que vocês pretendem ficar dez dias? Vamos combinar o seguinte: a cada dia de viagem, examinamos três lugares. Há os clássicos, aqueles de que todos falam muito, talvez porque são pouco conhecidos. [será que a tradução está correta?]
Comecemos pelo aeroporto, já que estamos aqui.
Seguem-se anotações bem-humoradas sobre a mania dos italianos de gritarem no celular, o alívio que sentem ao passar ilesos pela alfândega, a teatralidade das desavenças conjugais em público.
OK, mas como sempre nesse gênero de textos sobre o “caráter nacional” desta ou daquela população, há muito impressionismo e falta de dados concretos. Seriam só os italianos que se sentem aliviados quando não são pegos pela polícia aduaneira? Ou será que o autor, italiano, sabe ler melhor as expressões faciais de seus compatriotas? Ou, ao contrário, quanto do que ele vê está sendo imaginado, servindo apenas para reforçar as próprias idéias preconcebidas que possui a respeito dos italianos?
Naturalmente, há coisas comuns na Itália (Severgnini fala especificamente de Nápoles) que valem para o Brasil do mesmo jeito: a fila dupla, o desrespeito às faixas de pedestres. E há coisas que Severgnini insiste em fazer parecer tipicamente italianas, mas são absolutamente comuns a qualquer parte do mundo: o silêncio contrangido entre vizinhos quando se encontram num elevador, ou a compra de bobagens de última hora, por impulso, quando estamos numa fila de supermercado.
O livro melhora quando surgem (raramente) algumas estatísticas significativas, que dão particularidade à Itália em relação a outros países europeus. Na Itália (mas também na Espanha) metade dos pais vive com filhos adultos. A proporção é incrivelmente menor entre os países, chegando a apenas 19% na Noruega. Daí a expressão “mammoni”, para os marmanjos que ainda moram com as mães.
Outra coisa curiosa: os italianos bebem, mas não caem de porre nas ruas como seus vizinhos mais ao Norte. Segundo o autor, os cartões de crédito não fazem o mesmo sucesso na Itália do que em outros países.
E há o caso Berlusconi. Um célebre aspecto de sua presença no poder é o fato de ele ser ao mesmo tempo dono de emissoras de televisão, e legislar como bem entende sobre o assunto. Não haveria aí uma incompatibilidade ética, ou um “conflito de interesses”, como diz Severgnini? Ele diz que isso passa batido os italianos, por vários motivos.
a incômoda posição de Berlusconi não será enfrentada enquanto os italianos não a considerarem um problema. É claro, os italianos não a considerarão um problema se a televisão não lhes disser que é, e aí está precisamente o xis da questão do conflito de interesses.
De resto, a sociedade italiana está permeada de situações desse tipo.
Os bancos oferecem aos poupadores seus próprios produtos financeiros. Jornalistas administram agências de mídia [assessorias de imprensa?] Arquitetos se elegem para comitês de planejamento urbano. Professores dão aulas particulares para seus próprios alunos em escolas públicas.
Como assim? Bancos deveriam ser impedidos de oferecer aos poupadores seus próprios produtos financeiros? Essa é nova para mim. Mas o autor, que colaborou para a The Economist por vários anos, deve saber do que está falando.
Escrito por Marcelo Coelho às 23h53
História, thriller, globalização
Dou notícia de alguns livros recebidos nos últimos tempos.
Mazagão – a Cidade que Atravessou o Atlântico, de Laurent Vidal (Martins Fontes). Um trecho:
Em 11 de março de 1769, na baía de Mazagão, uma cidade inteira se preparava para bater em retirada. Não se trata simplesmente de um exército que deixa o campo de batalha, mas de uma cidade que abandona seu espaço vital, uma sociedade urbana que se separa de seu invólucro de pedra. O exemplo é suficientemente raro para despertar nosso maior interesse. Quatorze embarcações foram enviadas de Lisboa para esse fim impressionante: organizar uma retirada urbana. Uma cidade sem muralhas, provisoriamente distribuída em 14 bairros flutuantes, faz vela rumo a Lisboa.
Mazagão era uma cidade de 2 mil habitantes, situada no Marrocos. Naquele ano de 1769, foi sitiada por 120 mil soldados mouros. Os mazaganenses foram deslocados para Lisboa e, em seguida, para a Amazônia; morrem quase todos.
Atualmente, Mazagão Velho abriga uma das principais comunidades negras do estado do Amapá –com a povoação de Curiaú. Seus habitantes são descendentes de quilombolas, escravos fugidos que se reagruparam nos quilombos.
Laurent Vidal, o autor do livro, é professor de História Urbana na Universidade de La Rochelle. 294 págs.
Os Sons dos Negros no Brasil- Cantos, danças, folguedos: as origens, de José Ramos Tinhorão (editora 34). 147 págs.
Há menção ao uso do berimbau na Bahia desde 1583; dos seus inimigos, um registro é o de dom Francisco Manuel de Melo, em 1685, que reclamava de ser “perturbado no estudo por bayles de bárbaros”. Dos calundus ou lundus da época de Gregório de Matos, o pesquisador vai até a literatura de finais do século 19, como a descrição de um samba no sertão cearense, em “Dona Guidinha do Poço”, de Manuel de Oliveira Paiva. O livro não diz muito em matéria musicológica sobre a evolução dos estilos musicais de origem africana, mas tem grande riqueza de informação histórica.
Latino-americanos à procura de um lugar neste século, de Néstor García Canclini (editora Iluminuras). 135 págs.
“Quem quer ser latino-americano?”, pergunta Canclini, conhecido pesquisador de assuntos culturais e de comunicação nascido na Argentina, interessado em discutir de que modo a identidade cultural do continente pode sobreviver numa época de globalização. Repete-se, com dados relativamente atualizados, mas não exaustivos, a velha preocupação com o predomínio da cultura norte-americana na produção e exportação de filmes e programas de TV. A isso se acrescenta uma nova “ameaça”, no entender do autor: os investimentos europeus na área editorial. Um trecho significativo, a respeito do mercado livreiro na Argentina:
Agora também se decide na Espanha quais os autores de nosso próprio país que podemos ler. O suplemento cultural do jornal Clarín de 16 de março de 2002 foi dedicado aos “nossos livros estrangeiros”: as últimas obras de Arturo Carrera, Rodolfo Fogwill, César Aira, Clara Obligado e Diana Bellessi não serão distribuídos no país desses escritores, Argentina, porque as filiais de seus editores espanhóis em Buenos Aires não têm como garantir a venda de mais de 3 mil exemplares.
Certo, mas era o momento do pleno colapso econômico argentino; circunstância que o autor lembra de passagem, mas que não parece abalar suas preocupações estruturais.
A Senhora das Savanas, de Hilton Marques. Ediouro, 261 págs.
Este é o primeiro romance publicado pelo autor, que é roteirista do programa “Jô Soares Onze e Meia”, e antigo colaborador em programas como “Planeta dos Homens” e “Viva o Gordo”. Uma “história original e envolvente, passada no coração da África”, segundo a contracapa, e que “prende o leitor do início ao fim”, segundo o próprio Jô Soares, na capa. Eis o início do primeiro capítulo.
O pessoal da fazenda se recolheu pouco depois das nove da noite. Antes das dez, a leoa atacou.
A presença de animais de grande porte por ali não era comum, pois o cheiro do homem os afugentava. A caça clandestina e a escassez de ofertas na cadeia alimentar naquela época do ano tangeram a leoa para fora de seu território e a colocaram na trilha de duas vacas que ocupavam o pequeno curral. O ataque foi vertiginoso e feroz. Em cinco segundos, a fera escalou o cercado e pulou sobre o costado da vaca de menor porte que, ao pressentir o perigo, escoiceou e mugiu e se arremessou contra a cerca e, na ânsia da fuga, espremeu a leoa contra os mourões.
Sindor Malek, o capataz da Fazenda Walcott, já sabia o que estava por acontecer, pois, antes de se recolher, registrara dois avisos naturais da iminência do perigo: havia animais inquietos e havia animais quietos demais.
Apesar de alguns clichês (“pressentiu o perigo”, “ofertas na cadeia alimentar”, “animais de grande porte”), há aqui um ótimo ritmo narrativo e, não sei bem como dizer, uma “realidade” muito forte no detalhe dos “animais inquietos e dos animais quietos demais”; a cena de uma leoa “espremida contra os mourões” convence e tem impacto. O “thriller” promete o encontro entre um guerrilheiro dado como morto e uma médica brasileira que irá salvá-lo. Eis a globalização a pleno vapor.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h35
Leio no blog "Cacilda" que Renato Borghi completa 50 anos de teatro. É uma delícia vê-lo no palco, com a sua leveza de movimentação, o jeito ao mesmo tempo meigo e próximo do insulto, que ele sabe manter com muitas nuances; é insubstituível quando se trata de aliar baixeza e fragilidade em cena. Mas faço este post sobretudo para registrar uma coisa inacreditável: Renato Borghi nunca trabalhou em textos de Nelson Rodrigues. Seria o ator rodriguiano ideal-- e espero que algum diretor de teatro pense nisso.
Escrito por Marcelo Coelho às 16h05
Como Você Quer
Sempre tive um bocado de prevenção contra Pirandello. A surpresa de uma peça como “Seis Personagens em Busca de um Autor” parece que se esgota, a meu ver, numa época saturada de metalinguagem, de filmes que falam de filmes, de romances que são como cobras engolindo o próprio rabo, e até nos quadrinhos de “Mônica” surge, de vez em quando, o desenhista em crise de inspiração ou interagindo com os personagens que criou.
A idéia de que tudo é representação, e que atrás de uma máscara não se encontra nada além de outra máscara, pode ter sido importante para discutir a chamada “crise intelectual do século 20”, mas afinal pode ser também um mero truque sofístico.
Tive uma ótima surpresa ontem, assistindo a “Como Você Me Quer”, uma peça de Pirandello bem mais profunda do que esse jogo a que me referi. Nesse drama, está em funcionamento, mais uma vez, toda aquela história de que cada indivíduo é apenas uma personagem criada pelos outros, ou por si mesma, e de que não há uma “verdade interior”, nem mesmo uma “verdade factual” capaz de dizer quem e o quê, de fato, cada um é.
Acontece que esse labirinto de identidades está, no caso dessa peça, a serviço de uma situação dramática real, em que uma personagem de carne e osso de fato tem de “enganar” as pessoas à sua volta –sem que o espectador saiba em momento nenhum se se trata de um embuste mesmo ou se a personagem apenas finge estar enganando os outros para descobrir quais suas verdadeiras intenções.
A atenção intelectual do espectador se mantém desperta o tempo todo, sem que o texto perca em clareza na montagem –que teve a excelente idéia de fazer com que vários atores assumissem, alternativamente, o papel dessa personagem. Acentua-se, assim, a presença das múltiplas “personalidades” que a protagonista assume quando engana ou quando diz a verdade aos outros; e, ao mesmo tempo, evita-se que o peso de um papel dificílimo recaia apenas sobre uma das atrizes da companhia.
Todos –atores e atrizes— estão numa sinuca, pois têm de representar bem e, ao mesmo tempo, têm de representar mal. Uma pessoa tentando fingir que é outra pessoa nunca é perfeita em seu fingimento; acontecem exageros, momentos inconvincentes, etc. Como um ator pode fazer isso sem dar a impressão de que representa mal também?
Ziza Brisola (grávida), empenha-se com sucesso e no fio da navalha do dramalhão nessa tarefa. Fernanda Moura, que é quem começa assumindo o papel da protagonista na peça, é uma sofisticada presença no palco, ao estilo das divas italianas de outros tempos, mas se ressente do fato de que a complexidade da situação ainda não foi exposta plenamente para o espectador naqueles momentos iniciais; um pouco mais de estilo “cinema mudo”, e menos drama, talvez a beneficiasse.
A encenação de Mauricio Paroni de Castro não cai no erro comum de acrescentar novos elementos e maluquices a um texto que já é suficientemente complexo em si mesmo. Ou melhor, acrescenta uma de que não gosto: um longo balé de travestis, quando os atores masculinos passam a representar, também, o papel da protagonista.
Entretanto, a idéia de deixar uma cadeira de rodas vazia, num momento crucial da peça, que não posso descrever em detalhes, é um bom “acréscimo”, acho. Tira, na verdade, uma coisa que imagino existir numa encenação tradicional, e ao mesmo tempo a idéia geral do espetáculo se fortalece.
“Como Você Me Quer” está sendo encenada toda quarta-feira, às 21h, no Teatro João Caetano, com direção de Maurício Paroni de Castro –que, à frente da Companhia Manufactura Suspeita e da Companhia Linhas Aéreas, teve o gesto amigo de encenar as histórias de Voltaire de Souza nos Satyros, ano passado. Às quintas, no mesmo horário e teatro, eles encenam outra peça de Pirandello, “Cada um a seu Modo”.
Escrito por Marcelo Coelho às 15h55
No artigo de hoje, falo de “Crônica de um Verão”, documentário de Jean Rouch e Edgar Morin que mostra a solidão e a monotonia dos parisienses no verão de 1960. Ninguém diria que oito anos depois a insatisfação com o cotidiano fosse explodir nas ruas; mas depois de isso ter acontecido, parece que estava tudo prenunciado no filme.
Um aspecto que não abordei no artigo é o das relações interraciais. Jean Rouch fizera filmes na África, e um dos personagens de “Crônica de um Verão” é Landry, jovem negro que está estudando em Paris. Seu encontro com o operário Angélo é dos mais bonitos: como na maior parte do filme, a verdade está nos olhares de cada um. Landry e Angélo conversam sentados numa escada, o branco num andar de cima, o negro embaixo. Aparentemente, Landry, como estudante, está num nível socialmente superior ao de Angélo: encara o operário com certa curiosidade “mítica”, fundamentada, talvez, na esperança marxista de ver nos trabalhadores de fábrica a salvação do mundo. Angélo solta seu desprezo sobre os colegas de trabalho, a seu ver pretensiosos, individualistas, competitivos e dissimulados. Os olhares que ambos trocam parecem fraternos: um irmão mais velho explicando a realidade para o mais moço.
Cenas como essa parecem indicar que racismo e xenofobia não eram correntes na França de 1960. Uma conversa muito amigável entre dois negros e um grupo de brancos e brancas também é registrado no filme. Uma das mulheres brancas, sobrevivente de um campo de concentração, fala de seu desinteresse sexual pelos negros –embora reconheça que dancem como ninguém. A conversa se dá entre brincadeiras e gozações mútuas: aos poucos, parece que a conversa sobre sexo tinha esse efeito de liberar outros medos e preconceitos. Mais uma vez, 68 começava a surgir no horizonte.
A idéia de Morin era, justamente, fazer um “cinema de fraternidade”, em que pessoas comuns pudessem falar, e, mais importante do que isso, dialogar. Nesse sentido, os filmes de Eduardo Coutinho são ao mesmo tempo um avanço diante desse modelo e um retrocesso também. São um avanço, porque as conversas de Eduardo Coutinho tendem a ser mais surpreendentes e interessantes, e também porque seus documentários eliminam qualquer tipo de cena “encenada” –e há muitas encenações em “Crônica de um Verão”.
Por outro lado, nos filmes de Eduardo Coutinho os personagens raramente se encontram para uma conversa coletiva; só falam, na maior parte do tempo, com o diretor. Em “Crônica de um Verão”, há vários “debates” entre as personagens.
Um deles, no final do filme, é especialmente amargo e como que destrói algumas das expectativas fraternas que se iam criando no espectador. Os vários entrevistados assistem a uma primeira cópia do documentário, e dão suas opiniões sobre os “colegas” de entrevista. Uma mulher considera a outra entrevistada “insuportável”, e diz, na presença da própria, que não agüentaria ficar um minuto ao lado dela. Todos, ou quase todos, malham furiosamente o filme.
Não era apenas 68 que se prefigurava ali; o que veio depois também está anunciado.

cena de " Chronique d' un été"
Escrito por Marcelo Coelho às 09h49
Só mais um comentário. O aborto também é criminalizado; não tenho certeza se uma marcha em favor do aborto iria despertar tamanha comoção policial.
Escrito por Marcelo Coelho às 09h30
Pelo jeito, os tempos em que a maconha era chamada de “erva maldita” ainda estão longe de ter passado.
Pouca gente participou da “Marcha da Maconha” neste fim-de-semana, e menos gente ainda manifestou apoio público à iniciativa.
Os videos da manifestação apresentam pessoas pacíficas e razoáveis, levantando argumentos que, com a sumariedade inerente a passeatas e atos públicos, considero de qualquer modo corretos.
A proibição das bebidas alcoólicas nos Estados Unidos serviu apenas ao crime organizado. Nada mais lucrativo –e perigoso—do que associar uma atividade ilegal à produção de algum bem altamente demandado pela sociedade.
O ladrão que rouba e revende ao receptador se insere num circuito mais ou menos restrito; o vendedor de artigos falsificados já está comprometido com uma cadeia de produção mais complexa; o pequeno vendedor de drogas não tem como não estar associado a uma grande rede que envolve plantação, refino (no caso da cocaína), compra e venda, proteção armada, corrupção policial...
Sei perfeitamente que o número de dependentes de maconha aumentaria com a legalização. Mas minha preocupação é maior com o tráfico, com a violência que traz consigo; certamente causa muito mais mortes do que o consumo da droga.
Entretanto, parece que falar em legalização de maconha ainda é um tabu horroroso, e o aparato policial em torno da passeata –que apenas defendia a legalização, não o tráfico—era maior do que em qualquer investida e varredura nas favelas e pontos de comércio.
Escrito por Marcelo Coelho às 18h29
Transcrevo um trecho da palestra que dei na semana passada sobre amizade.
Construo uma situação, uma hipótese de como uma amizade pode começar. Vamos supor que alguém esteja num bar, numa sala de aula, em algum lugar qualquer, e veja uma pessoa totalmente desconhecida.
Essas duas pessoas trocam olhares, arriscam um sorriso, algum sinal de comunicação mútua. Pois bem, se o que predomina, nesse momento, é o interesse sexual, uma pessoa estará olhando para a outra, se comunicando com a outra, sem fazer referência a mais nada: olha para a outra pessoa, sorri para a outra pessoa, e espera apenas que no olhar da outra pessoa se reflita um movimento equivalente de interesse.
Imagine-se, entretanto, numa sala de aula, ou num bar, que exista um terceiro indivíduo –um professor, um garçom, um outro freqüentador do bar, um aluno—e que esse terceiro indivíduo tenha dito alguma coisa ridícula, tenha repetido algum hábito já conhecido, tenha entrado, por assim dizer, em algum papel social claramente caricatural.
As duas pessoas se olham novamente: trocam olhares, como no caso da paquera. Mas esse olhar não se esgota no interesse de um pelo outro; esse olhar, de cumplicidade, faz referência a um terceiro, a um outro, que é exterior às duas pessoas que se olham.
Esse olhar, que pode ser correspondido ou não, é diferente do olhar de interesse sexual: é um olhar de amizade. Claro, isso pode ser apenas o primeiro passo para um romance. Mas o fundamental, no caso, é que há um terceiro, uma esfera exterior, uma coisa “de fora”, à qual o olhar de duas pessoas se refere.
Nesse sentido é que eu considero a amizade uma espécie de cumplicidade do bem. Se, numa classe, numa sala de aula, eu “escolho” alguém para trocar esse olhar, no momento em que o professor repete uma besteira, é como se eu soubesse, por algum tipo de sinal, que a pessoa a quem eu dirijo esse olhar está no mesmo estágio de percepção das coisas, pode tão bem quanto eu perceber um traço ridículo que os demais talvez não percebam.
Pessoalmente, eu nunca me senti capaz de ter amizade com alguém sem ter essa instância “exterior” a respeito da qual se pode criar um espaço de cumplicidade, uma espécie de círculo mágico, do qual “os outros” estão excluídos.
Para dar um exemplo, ainda da época de faculdade, havia um professor com quem eu sentia muita afinidade, e que admirava muito. Houve momentos, em sala de aula, que trocamos olhares a respeito de uma intervenção mais desastrada de um aluno. Mas só começamos a ser mais amigos muito mais tarde, depois de eu ter encerrado minha vida universitária, no momento em que pudemos, com liberdade, falar mal –um pouco mal—de colegas meus.
Assim como o uso de palavrões, ou algum comentário sexista, é só a partir de alguma coisa “errada” feita em conjunto que se pode estabelecer algum laço de confiança, algum tipo de atitude que exigirá, posteriormente, de nós dois uma atitude de discrição.
Claro que essa referência a um terceiro, que eu estou simplificando aqui, passa por inúmeros testes, e encontra versões muito mais complexas do que as que eu exemplifiquei.
Pode surgir de situações de perigo comum, ou de empreitadas comuns, contra alguma coisa ou alguém; pode prosperar, frutificar ou não numa amizade longa, ou ir desaparecendo ao longo do tempo, em função de inúmeros outros fatores.
Tudo envolve, naturalmente, uma afinidade de interesses,de modos de vida, de gostos. Mas eu conheço muita gente de quem eu poderia ser amigo, pelos interesses, pelos modos de vida, pelos gostos, e que entretanto não é amiga minha, porque faltou esse tipo de vivência, esse tipo de ocasião em que, de algum modo, um relacionamento recíproco se fecha, ou se reserva um espaço, frente ao mundo exterior, sem entretanto ignorá-lo.
Dificilmente, portanto, eu concordaria com a visão de uma amizade em que uma alma é “espelho” da outra, ou, segundo a definição clássica, em que “uma alma só está ocupando dois corpos diferentes”. Se há espelho, no caso, é como se tivéssemos dois espelhos, em ângulos diferentes, que por alguma razão refletiram o mesmo objeto ao mesmo tempo; e que assim se completam, se criticam, e concordam quanto ao essencial.
Escrito por Marcelo Coelho às 11h35
Assim de chofre, pensei que era algum poema de Mário Quintana dedicado ao Dia das Mães. Não. Apesar da organização em estrofes e versos, era um texto da Associação Brasileira das Agências de Publicidade, a favor dos anúncios de cerveja. Saiu há alguns dias no jornal, mas não dá para passar batido. Transcrevo e comento.
QUEREM PROIBIR
A PUBLICIDADE
DE CERVEJAS NO BRASIL.
É O MESMO QUE PROIBIREM
A FABRICAÇÃO DE ABRIDORES
DE GARRAFAS NO BRASIL.
[eles não tiveram jeito de dizer: “é o mesmo que proibir a fabricação de cervejas no Brasil”, porque correriam o risco de alguém achar uma boa medida. Mas a comparação ficou estranha, porque abridores de garrafa abrem outras coisas além de cerveja, como suco de uva e groselha, por exemplo. De resto, por que tanta preocupação? Proibida a publicidade de cerveja, nada impede que surjam novas contas e novas batalhas publicitárias envolvendo, por exemplo, Maguary e Superbom.]
Nem a propaganda,
nem o abridor são a motivação
para irresponsáveis dirigirem embriagados.
[“motivação”, eis a palavra capciosa. Um abridor não “motiva” ninguém. A propaganda sim. Mas “motivação” aqui foi usado como sinônimo de “causa”, inocentando obviamente o abridor e, de contrabando, a propaganda.]
A propaganda ou o abridor
não são os culpados pela venda criminosa
de bebidas alcoólicas a menores.
[mas a propaganda,ao contrário do abridor, pode dar vontade em menores de beber cerveja]
Abridores e propaganda
não são incentivadores dos covardes
que praticam a violência doméstica.
[quem disse, aliás, que esses covardes bebem cerveja...? A julgar pela propaganda, os bebedores de cerveja são em geral solteiros e têm ótimo relacionamento com mulheres].
Essas são questões que só a educação,
a democratização da informação
e o rigor no cumprimento das leis podem resolver.
[entra de contrabando aqui outra palavra mágica, “informação”, cercada de conotações positivas, para depois ser reutilizada.]
Por isso,
proibir a publicidade de cervejas
não vai mudar em nada esse quadro.
[gosto do plural aqui: “cervejas”. O texto, para se mostrar neutro e isento, zela pelo pluralismo do produto, reconhecendo subliminarmente que há cervejas e cervejas, boas ou más, e que compete, claro, ao leitor escolher entre elas.]
A não ser tirar de você o direito
de gostar ou não gostar desta
ou daquela publicidade.
[Eis um direito novo no mercado. Naturalmente, eles não conseguiriam ir tão longe a ponto de dizer que a lei tiraria o direito de tomar cerveja, porque isso não ocorre. Então, é a própria publicidade que se apresenta como produto a ser usufruído, apreciado... sem moderação.]
De se informar e de formar a sua opinião.
[Opinião sobre o quê? Sobre a qualidade de determinado anúncio? Era isso o que prenunciava a estrofe anterior. Mas é claro que aqui a opinião se refere a tomar ou não cerveja, desta ou daquela marca; opinião que será “formada”, segundo o raciocínio do texto, vendo-se o maior número de anúncios possíveis, para julgar com plenitude de informação o que fazer com o abridor na mão.]
Um direito tão sagrado,
quanto o que você tem de comprar ou não
um abridor de garrafas.
[de novo, não tiveram coragem de dizer que o direito de tomar cerveja é sagrado. Entra então o álibi do abridor de garrafas]
E decidir o que fazer com ele.
Obrigado, mas posso decidir sozinho o que fazer com ele. Sem ninguém me martelando na cabeça que cerveja é alegria, corpo atlético, potência sexual etc.
Como sempre, esse tipo de defesa invoca a “liberdade de informação”. Mas não se trata de informar ninguém: trata-se de induzir pessoas a um comportamento que se quer que elas tenham.
Em resumo, uma droga.

No site PUNDO3000, há fotos comparando anúncio e realidade. Vale ver.
Escrito por Marcelo Coelho às 23h28
Algumas crônicas recentes do jornal "Agora".
E ENTRETANTO SE MOVE
Em São Paulo, a terra treme.
No geral, entretanto, a vida continua a mesma.
A rotina abafava o casamento de Marli.
--O Gonçalo é um bom homem, mas...
Tinha-se extinguido a velha chama do amor.
--Ele chega em casa, e todo dia é a mesma coisa.
--Marli. Traz a cerveja.
O noticiário. A novela. A janta. A outra garrafa.
Gonçalo ia para o quarto se arrastando de sono.
Naquela noite, carinhos se trocaram.
--Vem, Gonçalo. Que isso não dói.
Movimentos lentos e ritmados tomaram conta do casal.
De repente, o acontecimento inusitado. O ponto G. O clímax do amor.
--Gonçaaaalooo... aííhnhh... faz mais. Desse jeitooo...
Marli nunca tinha sentido tanto prazer. Olhou para o marido.
Ele dormia profundamente. Imóvel. Quem tinha se movido era a cama da suíte.
Marli suspira. E espera ardentemente um outro terremoto.
O lar, como o subsolo, esconde perigosas placas tectônicas.
MILAGRES ACONTECEM
Nossos jovens precisam de mais contato com a natureza.
Rodrigo e Cauê eram adolescentes de classe média.
Feriadão. Um carro. Um pouco de dinheiro no bolso.
--Vamos pegar uma praia?
Os dois irmãos eram adeptos do surfe.
Santa Catarina é um bom destino para os ligados no mar.
Tempo feio. Ressaca. Bom, às vezes, para as atividades da prancha.
Caía a tarde. Rodrigo fazia questão.
--Hora do baseado.
Os amigos se perderam na contemplação do horizonte sem fim.
--Pô... que barato...
Veio o LSD. A cabeça de Cauê zunia. Ele teve um susto de repente.
--Cara. Alucinei. Que é que é isso?
Um padre acenava desesperado no céu. Preso a centenas de balões coloridos.
Rodrigo e Cauê vieram para São Paulo antes do tempo.
Juram que não vão mais usar drogas. E não param de ler a Bíblia.
A mãe prefere não falar nada a respeito da tragédia do padre Adelir.
Mas a realidade, quando alucina, também opera milagres.
JANELA INDISCRETA
Medo. Ódio. Suspeita. O crime e a barbárie invadem os lares da classe média.
Lisandra tinha acabado de se mudar para seu novo apartamento.
O Condomínio Chateau de Landru oferecia piscina, play ground e churrasqueira.
Uma vista privilegiada da Paulista era garantida pelas sacadas neoclássicas.
A noite começava tranqüila lá pelos lados do Paraíso.
Lisandra notou uma movimentação estranha no prédio em frente.
Um homem corpulento ia e vinha. Parecia carregar um corpo.
--Matou alguém. Tenho certeza.
Depois, veio a dúvida.
--Acho que é uma mala grande. Mas isso é estranho também.
Lisandra pensou mais um pouco.
--Matou, picou e guardou na mala. Isso é muito comum.
Lisandra ajustava o foco do binóculo. Subiu em cima da cama para ver melhor.
O homem apagou a luz. Lisandra debruçou-se na janela.
O binóculo quis escapar das mãos da dona de casa. Um movimento brusco.
Lisandra perdeu o equilíbrio. Caiu do décimo andar. Sem chance de ver mais nada.
Crimes podem ser testemunhados em toda parte.
Mas não é preciso binóculo para ter visões do paraíso.
Escrito por Marcelo Coelho às 21h46
Pensei que ia ter tempo, mas não deu para postar nada aqui. Nesta terça viajo para o Rio, e na quarta, para Belo Horizonte, com a famosa palestra sobre amizade. Quem quiser acessar, a palestra será transmitida ao vivo na terça, às 19h, pelo site da ABL. Na quinta eu volto, não sei se em condições psicológicas de postar alguma coisa. Não fico nervoso na hora de falar, mas a antecipação do evento é sempre desastrosa.
Escrito por Marcelo Coelho às 02h01
Primeiro casamento
A babá de meus filhos casou-se neste sábado, só no civil, e fomos convidados para o almoço de comemoração. Há vários dias as crianças entregavam-se a muita expectativa e excitação, creio que principalmente devido às roupas especiais –paletozinho, etc.—que queriam exibir na festa.
Dormiram durante o longo trajeto de carro, e comportaram-se de modo mais ou menos normal, eu acho: certo estranhamento diante da quantidade de convidados, muita euforia ao ver a babá vestida de noiva, certo sucesso em roubar, por alguns minutos, o foco geral das atenções. Meu filho de 4 anos não se conformava de que um bolo pudesse ser cortado sem parabéns nem velinhas; quanto ao mais, ele e seu irmão maior (6 anos) comeram, brincaram, conversaram.
Prestei atenção no momento em que foram apresentados ao noivo; conheciam-no apenas de fotografia. Nenhuma emoção especial, nenhuma hostilidade, nenhum ciúme.
Lembro que também tinha seis anos quando minha babá se casou. O noivo, que trabalhava num bar, fizera um cuidadoso trabalho de aproximação comigo: sempre que aparecia em casa trazia uma ou outra guloseima; incumbido de carregar as alianças até o altar no dia do casamento, creio que dei conta do recado. Sabia que estava me separando da minha babá, que ela deixaria de morar comigo, mas bem ou mal eu sabia, também, que deveria conformar-me com o fato; a tristeza que sem dúvida eu estava sentindo foi controlada.
A babá dos meus filhos não deixará de trabalhar conosco, mas seguirá outros horários e agendas. Tudo ia bem, portanto, durante a festa. Mas quando chegou a hora de voltarmos para casa, meu filho maior disse que queria ir junto com a babá e o noivo para a viagem de lua-de-mel ao litoral. Sentei-o no meu colo, expliquei-lhe o que era lua-de-mel, citando até a clássica frase de cinema dos noivos que, ao fechar a porta do quarto, dizem “enfim, sós!”
Um choro manso, ou nem isso, só dois olhos marejados, foram sua resposta. Dali a pouco, estava tudo provisoriamente superado: alguém convidava-o, e ao irmão, para um passeio de moto. A novidade da aventura virou rapidamente aquele capítulo de perdas. Mas todo capítulo de perdas é um capítulo de ganhos também. Vi que meu filho não mais esperneava, mostrava mau-humor, inventava exigências absurdas para compensar sua frustração. É que ele estava às voltas com uma frustração mais funda, das que calam e se interiorizam; passou da idade das “reações emocionais” para aquela em que brotam, com a timidez de olhos úmidos, os sentimentos mais íntimos da gente; não responde mais com os nervos, mas com o coração. Vi nele repetir-se o que aconteceu, há muito tempo, comigo: a primeira página desse longo romance que cada um escreve sem palavras, e de que Flaubert roubou o título para sua “Educação Sentimental”.
Escrito por Marcelo Coelho às 18h11
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PERFIL
Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.
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