Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

Kipling e o inconsciente

Reproduzo dois parágrafos de um texto de Rudyard Kipling; trata-se de um discurso pronunciado em 1933 na Associação dos Escritores Canadenses.

 

 

Nós que usamos as palavras desfrutamos de uma vantagem peculiar com relação a nossos semelhantes. Não somos capazes de dizer uma mentira. Ainda que desejássemos muito fazê-lo, somente nós, dentre todos os homens e mulheres cultos, somos incapazes de dizer uma mentira –em nosso horário de serviço.

Quanto mais sutilmente tentarmos fazê-lo, com mais certeza haveremos de trair algum aspecto da verdade a respeito da vida de nosso tempo.

 

Ocorre conosco o mesmo do que com a madeira. Cada nó e veio de uma tábua revela alguma doença ou acidente acontecido com o tronco enquanto ele crescia. Um cavalheiro chamado Jean Pigeon, que certa vez montou a estrutura de uma casa para mim, formulou isso brevemente. Ele disse: “tudo o que uma árvore experimentou numa floresta ela traz consigo para dentro da casa.” Esta é a lei para todos nós, cada um na sua terra.

 

 

Incapazes de dizer mentiras...? Claro que os escritores dizem mentiras, e não é exatamente isso o que Kipling estava sugerindo. Queria dizer que, mesmo quando tentam dizer mentiras, de algum modo a verdade sobressai nas entrelinhas. Mas, eis aí o truque do parágrafo, não se trata daquela verdade que os escritores estavam tentando esconder. Trata-se de uma verdade mais ampla, a que faz de cada escritor o testemunho de sua época –época que, como as outras, está cheia de tentativas de dizer inverdades ou de prestar parcialmente conta das realidades do mundo.

 

Do mundo? Não exatamente, diz o parágrafo seguinte: cada escritor, querendo ou não dizer mentiras, estará expressando autenticamente a sua história de vida, impregnada do passado, da cultura, das tradições de seu país.

 

É fácil acusar essa visão de “racista”, se quisermos identificar tudo o que Kipling escreveu com a defesa do imperialismo inglês (é seu o poema “O fardo do homem branco”).

 

Acho mais interessante notar, nesse texto de 1933, o jogo entre o consciente e o inconsciente dentro de uma obra literária. O “inconsciente” de Kipling pode ser, ou não, “supra-individual” –embora a metáfora da tábua remeta mais à biografia de uma árvore específica do que ao conjunto da floresta.

 

Seja como for, a partir dessas palavras de Kipling podemos entender cada texto, para além das intenções conscientes do autor, como uma espécie de “sintoma” –e testemunho velado dos traumas experimentados por alguém, em determinada época. Nesse sentido, quanto mais o autor tentar ocultá-los, mais fortes os indícios deixados em sua escrita.

 

O raciocínio não lembra apenas Freud, mas também um grande leitor de Kipling, Jorge Luís Borges –para quem, por exemplo, se um autor argentino procurasse com toda a sua força  evitar referências ao próprio país, estaria por isso mesmo sendo mais tipicamente argentino, e verdadeiro, do que outro que se obrigasse a cobrir seu texto de referências locais. O “inconsciente nacional” não se identifica, entretanto, apenas nesse caso extremo de negatividade e rejeição. A própria ideia de um sujeito, sujeito autoral, forte e pessoal, é questionada o tempo todo por Borges: no conto “O Imortal”, por exemplo, a fala de um personagem, e de um narrador, se revela composta apenas de citações de outros autores. O recurso é usado em várias outras histórias de Borges, que jogam com a ideia de que o “eu” pode ser apenas a projeção de um “outro”, um antepassado, um texto, uma ficção.

 

Do nacionalismo antiquado de Kipling passamos assim ao pós-moderno de Borges, cosmopolita e desconfiado do que for “autêntico”, do que for “original”. O ponto de convergência entre as duas posições, em certo sentido simetricamente opostas, não é difícil de encontrar: trata-se da realidade do imperialismo britânico, e de sua crise, na primeira metade do século 20.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h26

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voltaire de souza

Textos recentemente publicados no jornal "Agora".

 

RETORNO DE UM CRAQUE

 

Ronaldo. Roberto Carlos. Adriano. Robinho.

Os velhos craques estão de volta.

Finalmente, a garotada vê seus ídolos de perto.

Tiago tinha doze anos. O fanatismo pelo futebol ocupava seu jovem cérebro.

--Beleza. Timaço. Tá ligado?

A mãe dele se chamava Edmeia e andava de mau humor.

--As férias já acabaram. E esse menino nem pensa em estudar.

Contratações. Esperanças. Camisetas.

--Vai para o quarto. Deixa de ser vagabundo.

Foi quando se ouviu uma voz no portãozinho daquele sobrado.

--Vagabundo? Nunca fui vagabundo, Edmeia...

--Carlos Mário? É você?

O marido. Voltando para casa. Depois de cinco anos de sumiço.

Os cabelos mais raros. Um dente a menos no sorriso.

Mas o bafo de pinga continuava o mesmo.

No primeiro minuto, levou duas caneladas de Edmeia.

Mas a vizinhança assegura que, de noite, Carlos Mário está batendo um bolão.

O casamento é como futebol. Pode ser decidido na prorrogação.

 

 

CENA PROIBIDA

 

Sexo. Baixaria. Apelação.

Os reality shows continuam a ser sucessos de audiência.

Claudiene voltava de um dia trabalho.

O marido se chamava Marley e estava desempregado.

Os olhos do rapaz estavam fixos na TV.

--O que você está assistindo, amor?

--Nada. É só um comercial de edredom.

Claudiene foi fazer a janta. Voltou depois de alguns minutos.

--Ué. O edredom continua aí?

--Pois é... dizem que é coisa fina.

Gemidos lascivos. Movimentos discretos.

Debaixo do edredom, participantes de um reality show se entregavam ao prazer.

Marley se levantou de repente.

--Que esfriada, hein? Acho que são essas chuvas.

Convidou Claudiene para ir debaixo dos lençóis.

Espirros. Calafrios. Indisposição geral.

A forte gripe de Marley impediu a concretização dos seus projetos conjugais.

A realidade não está na TV. Só se descobre debaixo do edredom.

 

TUDO PERDIDO

 

 

A cidade precisa de sol. A vida de dona Venísia também.

--Perdi os dentes. Perdi o marido.

Agora, a inundação atingira o modesto sobrado da anciã.

--Perdi tudo.

As águas começaram a baixar num fim de tarde.

Ela limpava sozinha o cômodo principal da residência. Veio o cansaço.

Já dava para se deitar na parte de cima da cama beliche.

A cômoda branca ainda estava coberta de lama.

Mas em cima da cômoda, algumas coisas importantes foram salvas.

--O retrato do finado. O copo com a dentadura. O relógio.

Dona Venísia estava ainda meio dormindo quando deu pela falta da dentadura.

Dentro do copo, brilhava um peixinho dourado.

--Venííísia... me tiiira daaquiii...

A boa senhora atendeu ao chamado daquela voz familiar.

--Alaor? É você?

O peixinho nada mais disse. Mas, quando soltou o animal na correnteza, Venísia julgou ver naqueles pequenos olhos um sinal de carinho e gratidão.

A esperança é como um peixe. A força das águas não os afoga jamais.

 

REPETINDO O ANO

 

 

Educação não é gasto. É investimento.

Amauri coçava a cabeça.

--Matrícula. Mensalidade... e agora o material escolar.

A lista do Colégio Integrado Tangente continha vários absurdos.

--Dez tubos de cola branca? Para que tudo isso?

Os três filhos de Amauri brincavam no videogame.

--Estojo completo de tinta a óleo?

O talento artístico deve ser desenvolvido desde cedo.

Amauri olhou com raiva para os três meninos.

--E vocês só querem saber de videogame.

Um atacadão de material escolar fazia promoção lá pelos lados do Peruche.

Amauri ignorou os avisos de mau tempo.

O Fiat 92 foi encontrado num barranco da Marginal.

Borrachas e lápis de cor ainda boiavam nas imediações.

No Hospital Santa Ismênia, Amauri se comunica por meio de desenhos.

Giz de cera e caneta hidrográfica ajudam na sua recuperação.

A educação é um processo contínuo.

Mas os erros de uma prefeitura se repetem ano a ano.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h23

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Álbum de família

Maurício de Macedo já publicou dezoito livros de poesia, diz a orelha de Palavras Tortas (ed. 7 Letras), o primeiro dele que leio. Vejo qualidades em seus versos –especialmente o dom para a metáfora surpreendente e súbita. Bem no começo do livro, por exemplo, o autor, preso ao dia a dia de Maceió, fala a respeito da própria poesia:

 

Ainda que ela não alce voos cosmopolitas

e se debata no círculo doméstico

dos pequenos dramas do cotidiano,

a gente faz.

A gente precisa e a gente faz

feito um imigrante ilegal

atravessando a fronteira.

 

 

A imagem dos dois últimos versos (não ficaria melhor se fosse um verso só?), com sua marca de atualidade e sua concretude, absolve o tom de quase clichê que se pode notar em “pequenos dramas do cotidiano” e “se debata no círculo doméstico”.

 

Uma boa limpeza dos clichês, além de mais desapego à influência de Drummond, ajudaria a revelar o poeta que Maurício de Macedo certamente é. Vemos Drummond demais, e um bocado diluído, num poema como este:

 

Não faça a poesia

que glorifique o santo

ou o herói.

(É predadora a espécie.)

Não faça a poesia

que veja o homem de longe

na abstração coletiva,

eufórica,

dos amigos do povo.

 

As palavras são velhas e sábias.

Não lhes ofereça falsos brilhantes.

Faça poesia, simplesmente.

É tudo o que elas pedem.

 

E a quantidade de lugares-comuns é considerável:

 

Escreve-se o poema

como quem escreve uma carta

e coloca a carta numa garrafa

e atira a garrafa ao mar.

 

Sem contar os clichês (“gelar de pavor”, “cortina de silêncio”, “o tempo urge”) e as palavras-clichê (“périplo”, ”lembranças que povoam meu silêncio”, “o poder”).

 

Esse “o poder” (no sentido de “O Poder”, “os Poderosos”) aparece num poema que, apesar do termo, diz uma coisa raramente ouvida atualmente:

 

O poder namora o hip-hop

e o cordel

como o agenciador de prostitutas

seduzindo meninas pobres

da periferia e do interior.

 

De fato, tornou-se normalíssimo hoje em dia criticar o populismo (estético e político), mas ninguém se questiona muito a respeito do favorecimento paternalista que se dedica à “literatura marginal”, ou da periferia...

 

Eis outro poema que trata de tema atual, e pouco explorado em verso:

 

Você sabe por que eu só gosto

de quem não gosta de mim.

Você sabe por que só procuro

rapazes que me molestam

e que me deixam sozinha

depois.

Você sabe por que minto

com a maior cara-lisa.

Você sabe por que tomo

tanto remédio para dormir.

Você sabe por que fico

tão aflita, às vezes,

piscando os olhos,

gaguejando,

querendo mudar de assunto,

você sabe por que, meu pai,

você sabe por que.

 

Verdade que o título (“Molestada”) abre demais o jogo do poema. Termino com este preciso e verdadeiro “Álbum de família”:

 

Nenhum abraço,

nenhum sorriso

--braços arriados,

olhares perdidos.

 

Quem vestiu

com a camisa-de-força da tristeza

aqueles corpos?

Quem colocou naqueles olhos

a luz de uma ausência infinita?

Quem fez descer cortinas de silêncio

entre as solidões perfiladas?

(...)

 

Quem cortou as mãos,

as línguas,

quem cegou aqueles seres

e os fincou num abandono mudo,

à margem do tempo,

como se fossem espantalhos?

 

 

 

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h33

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Deuses e demônios

Comentei para a Ilustrada (assinantes leem o artigo aqui) o livro “Os deuses no exílio”, do poeta alemão Heinrich Heine (1797-1853). A ideia, muito sedutora, que orienta essa fantasia em prosa é a de que os deuses gregos, longe de terem sido meras superstições antigas, existiram de fato. O advento do cristianismo não teria, portanto, “dissolvido no nada” alguma coisa que nunca existiu. O que o cristianismo fez foi expulsar do mundo conhecido os antigos deuses, que passaram a viver clandestinos entre nós.

 

Não que Heine acredite nisso, naturalmente. Ele desacredita de Apolo e desacredita de Jesus. A questão é mais interessante: em que momento os cristãos deixaram de acreditar em Apolo e Júpiter?

 

Nos inícios do Cristianismo, especula Heine, os cristãos não achavam que os deuses gregos eram simples invencionice. Consideravam-nos demônios, ou seja, seres realmente existentes. Resquícios desse cristianismo primitivo ainda sobreviveriam no folclore medieval –e a maior parte do livro, com muito encanto, reescreve essas lendas europeias.

 

Só mais tarde Afrodite e Hermes, Marte e Proserpina, deixaram a condição razoavelmente viva de demônios para soçobrar na inexistência.

 

Por trás desse jogo literário, está uma teoria irônica e iluminista: a de que as religiões criam e destroem deuses e demônios, conforme a época.

 

Citei no artigo um exemplo contemporâneo e brasileiro, que vai no caminho inverso daquela relação entre cristianismo e paganismo europeu. Se os deuses pagãos da Grécia antes eram considerados demônios para depois serem tidos como simples entidades mitológicas, sem nem mesmo ocupar o digno posto de “inimigos da fé”, alguns cultos evangélicos fazem o percurso contrário.

 

Poderiam considerar o Exu, a Pomba-Gira e a Maria Padilha simples crendice primitiva, ou mitologia afrobrasileira. Não é isso o que acontece, leio em A Igreja Universal e seus Demônios (Fapesp/Terceiro Nome), do antropólogo Ronaldo de Almeida.

 

No cristianismo da Universal,

 

o diabo adquire uma identidade, um nome –e não é Lúcifer, nem Satanás. Os demônios que causam o sofrimento são as mesmas entidades que habitam os terreiros de Umbanda. Nesse sentido, não se trata somente da “manifestação” do diabo, mas, acima de tudo, da associação deste com as divindades que são cultuadas por uma parcela significativa da população brasileira.

 

Não é preciso assinalar –nem se deve exagerar-- o perigo de intolerância que pode haver numa fé desse tipo, que vê nos deuses de outra religião os diabos da sua própria.

 

O interessante, no caso, é que também essa fé termina sendo tão sincrética quanto a umbanda... Até aqui, conhecíamos um “sincretismo positivo”, por assim dizer, que soma a determinados deuses e santos outros tantos santos e deuses. Mas faz parte da mesma lógica um “sincretismo negativo”: que soma a um deus puro e único as dezenas de demônios que não estão na Bíblia, mas no terreiro logo ali ao lado.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h04

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Paisagens paulistanas

 
 

Paisagens paulistanas

Para embelezar um pouco o blog, seguem três imagens da mostra “Paisagens de São Paulo”, em cartaz no Palácio dos Bandeirantes. A primeira é uma paisagem (nada urbana, aliás), de Rebolo:

 

 

De Bonadei, contemporâneo de Rebolo no “Grupo Santa Helena”, apresenta-se um casario sem dúvida posterior, mas a diferença de datas não explica sozinha a agressividade bem maior das formas e cores. É como se uma pacata cena de subúrbio, ainda intocada por escavadeiras ou empreendimentos imobiliários, já estivesse entretanto sendo repuxada e distorcida no rumo da “modernidade”:

 

 

 

O contrário aparece com essa cena noturna de Gregório Gruber, cujo “hiperrealismo” e “objetividade” surgem como únicos instrumentos para conferir à avenida Paulista um ar meio bucólico e onírico, molhado quem sabe da lembrança daquela mesma neblina que se dissipava entre as árvores de Rebolo:

 

 

 

Aqui vão as informações do release recebido por e-mail.

 

No Palácio dos Bandeirantes acontece até o dia 28 de fevereiro a exposição “Paisagens de São Paulo”,  que retrata a capital paulistana.  São  46 obras  de artistas como Francisco Rebolo, Gregório Gruber, Alfredo Volpi, Candido Portinari, Julio Guerra e Benedito Calixto.
Na mostra, que acontece no primeiro andar do Palácio, os visitantes podem ver as transformações da paisagem da cidade de São Paulo sob o olhar de artistas que evidenciaram aspectos que hoje já não vemos, como o rio Tietê de João Batista da Costa, a Rua Direita de Júlio Guerra, as inúmeras paisagens do Morumbi produzidas por Rebolo Gonzales, a ruela de Volpi, as casas de Bonadei, entre outros.

       
Palácio dos Bandeirantes
Avenida Morumbi, 4.500 - Portão 2
Informações: 2193.8282 – monitoria@sp.gov.br
Agendamento Eletrônico*: www.acervo.sp.gov.br
Aberto ao público das 10 às 17 horas, de terça  a domingo.
Grátis.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h27

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De Marrakech a Hollywood

 
 

De Marrakech a Hollywood

Para se familiarizar com uma cidade estrangeira, é preciso um espaço fechado a que se tem algum direito e no qual se pode ficar sozinho, quando não se pode mais com a algaravia das vozes novas e incompreensíveis.

 

Assim começa um dos curtos capítulos de As Vozes de Marrakech, livro de Elias Canetti contando suas experiências na capital marroquina, em 1953.

 

Esse espaço deve ser silencioso, ninguém deve nos ver quando nos refugiamos nele nem quando o deixamos de novo. O melhor é se meter por um beco, parar diante de um portão e destrancá-lo com a chave que levamos no bolso, sem que nenhum mortal nos ouça.

 

Elias Canetti estava em Marrakech acompanhando uma equipe de cinema inglesa. Não ficamos sabendo que filme iriam rodar. Canetti gosta de se perder pela cidade, e pelas vozes da cidade. A única palavra que ele consegue entender é “Alá, Alá”, que os mendigos cegos repetem sem parar.

 

Entramos no frescor da casa e fechamos o portão a nossas costas. Está escuro, por um momento não se vê nada, à maneira dos cegos espalhados pelas praças e ruelas que deixamos para trás. Mas logo recobramos a visão. Veem-se os degraus de pedra que levam ao primeiro andar, e lá em cima damos com um gato. Ele encarna a ausência de sons por que ansiávamos.

 

O gato, muitos camelos, alguns jumentos têm nessas memórias de Canetti uma presença tão forte quanto a dos humanos –crianças prostitutas, mendigos aos trapos, comerciantes que se escondem atrás de montanhas de repolhos ou sacas de açúcar.

 

Subimos e descemos, respiramos o silêncio. O que é feito da correria desenfreada? Da luz ofuscante e dos sons estridentes? Das centenas de rostos?

 

Caso raro em Canetti, a sequência de perguntas parece um bocado retórica, revelando uma vontade meio artificial de “fazer literatura”.

 

Nessas casas, não há muitas janelas para a rua, às vezes não há nenhuma; tudo se abre para o pátio, e este se abre para o céu. Só no pátio existe a possibilidade de um contato suave e comedido com o mundo ao redor.

 

Mas também é possível subir até o terraço e ver todos os telhados horizontais da cidade.

 

Canetti, cujo desejo sexual está sempre espreitando através do texto, tinha também outras expectativas ao subir no terraço.

 

Aqui, pensava eu, vou ver mulheres como em contos de fadas, daqui vou espiar os pátios dos vizinhos e espreitar o que estivessem fazendo.

 

O dono da casa, porém, adverte-o: homens não devem subir nesses terraços. Nada mais indecente se, por acaso, seus olhar cruzasse com o de alguma mulher da vizinhança. Não bastam os véus e as roupas, qualquer insinuação de curiosidade está banida daquela sociedade.

 

.......

 

Faço um corte e passo a outro livro de viagem que estava lendo, Hollywood,  de Blaise Cendrars.

 

Em Hollywood, todas as ruas levam... a um estúdio! E também, qualquer que seja o ritmo em que você ande, e seja qual for a direção que você tome e o tempo que leve para se orientar, qualquer dessas ruas que se cruzam à sua frente e que seguem em linha reta para o leste, o oeste, o sul e o norte, acabará fatalmente em um muro.

 

Esse muro é a famosa muralha da China que cerca todos os estúdios e que faz de Hollywood, que já é um lugar difícil de se atingir, uma verdadeira cidade proibida, ou até pior que isso, porque Hollywood comporta vários recintos internos que delimitam diversos kremlins que bloqueiam o acesso a diversos locais; e creio que não é por causa do esplendor e da atração exercidos por seus astros pelo mundo afora que se batizou Hollywood (...) de Meca do Cinema, mas, sim, apropriadamente falando, por causa do acesso a seus estúdios, que é praticamente intransponível para os não iniciados, como se, realmente, querer penetrar em um estúdio equivalesse a querer entrar à força no santuário dos santuários!

 

Muros e proibições, desejo e profanação-com o poder não se brinca. Cendrars narra a violência, física e simbólica, que se pode experimentar nas barreiras criadas em Hollywood. E acrescenta uma informação curiosa-embora o rigor fatual não seja o forte do poeta. Nos anos 30, havia patrulhas na Califórnia, não para impedir apenas o acesso de imigrantes mexicanos, mas também de imigrantes dos Estados vizinhos. Não me lembro disso em “As Vinhas da Ira”, nem num filme de King Vidor que comentei recentemente, “O Pão Nosso”, mas bem que pode ser verdade.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h07

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História da Inteligência Brasileira

 
 

História da Inteligência Brasileira

Um pequeno estudo poderia ser feito sobre aquelas fotos de escritores e intelectuais, sentados na poltrona, com uma enorme estante de livros atrás deles. Sempre me parece uma situação ridícula –meio como aquela clássica mão no queixo, em posição de “pensamento”, que tanto ou mais se vê por aí.

 

Pois bem, em boa parte dessas fotos, sempre aparecem alguns livros facilmente identificáveis: um Aurélio, por exemplo. Ou, em mais da metade dos casos, as capas coloridas da “História da Inteligência Brasileira”, de Wilson Martins, crítico que morreu esta semana aos 88 anos.

 

Nunca acompanhei sua imensa produção no jornalismo diário, e se muita gente discordava de suas avaliações, o fato de ser conservador ou pró-vanguardas não importaria muito se houvesse muitos outros como ele, constantes na tarefa de dar conta da produção literária contemporânea.

 

Mas li vários volumes da “História da Inteligência Brasileira”, obra bastante útil para quem quiser se informar sobre o dia-a-dia, ou o ano-ano, da produção intelectual no Brasil.

 

O grande problema é a ambição do título. Não pela piadinha, tão comum, de que o livro de Wilson Martins deveria ter todas as páginas em branco. Mas sim porque não se trata de “história” propriamente dita.

 

Embora Wilson Martins fale das correntes e das modas intelectuais em vigor durante determinada época, a “História da Inteligência Brasileira” é, principalmente, uma cronologia dos livros publicados no Brasil.

 

Nesse sentido, constitui um trabalho abrangente e, até onde sei, o mais completo já feito. Mas é uma leitura bem cansativa, por que a qualquer ano, 1837 ou 1941, a gente se depara com uma lista de títulos de enfiada, que Martins até tempera com certa graça, mas que dificilmente corresponde a uma visão mais ampla do “processo”, das condições de produção, dos dilemas, dos esforços envolvidos no exercício da função de intelectual ou de escritor no Brasil.

 

O microscópico predomina e se acumula nos volumes –que ficam ali, parados, na prateleira dos fotografados do dia.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h06

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cartazes de rua

 
 

cartazes de rua

Estive fora de São Paulo nas férias e consegui tirar algumas fotos de cartazes populares, retomando a série "pizzas e cia." que andava meio descuidada por aqui. Gostei desse hamburger, por exemplo:

A caligrafia é típica das carrocerias de caminhão. O mesmo ilustrador faz esta pintura de churrasco:

Mas o melhor, sem dúvida, é essa tigelinha minimalista:

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h02

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blog de cultura italiana

Mônica Gonçalves é professora de italiano em São Paulo, e começou um blog que traz muitos links e comentários para quem quiser saber mais da atualidade e da cultura da Itália. Sua seção de livros, por exemplo, traz lançamentos que dificilmente vemos noticiados por aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h49

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Um poeta em Hollywood

 
 

Um poeta em Hollywood

No artigo de quarta-feira passada (aqui para assinantes), sobre “O Loteamento do Céu”, livro de Blaise Cendrars (1887-1961), esqueci de mencionar um outro lançamento recente do poeta franco-suíço. Saiu em edição de bolso na coleção “Sabor Literário”, da José Olympio.

 

É bem mais curtinho (152 páginas) e singelo: “Hollywood, a Meca do Cinema” é uma série de textos jornalísticos que Cendrars escreveu para o “Paris Soir” em 1936, contando sua viagem de 15 dias à Califórnia.

 

Excelente conversador (uma caixa de CDs contendo suas entrevistas no rádio pode ser encomendada pela internet), Cendrars tem um estilo de grande loquacidade, que parece desmentir a tendência, tão forte nos poetas do modernismo, para a brevidade e a compressão das imagens.

 

“Hollywood” não tem a amplitude e a originalidade do “Loteamento”, que de uma página a outra passa da tentativa de embarcar um tamanduá num navio holandês aos relatos de levitação de um místico italiano, misturando lembranças da Primeira Guerra –onde um estilhaço amputou seu braço direito.

 

Mesmo assim, há observações curiosas, por vezes muito atuais.

 

Ah, esses conferencistas, que praga!

São os caixeiros-viajantes da cultura. Mercadejam bugigangas, levantam problemas, oferecem soluções, distribuem receitas, fazem dumping.

Mentem, todos eles, e confiam em si.

 

Cendrars não desenvolve essa acusação, que surge um pouco isolada no texto, a respeito de um industrial e “tecnocrata” (a palavra é apresentada como novidade) que ele encontra numa viagem de trem.

 

Mas talvez exista um fio condutor em livros e assuntos tão díspares. Do santo levitador a Hollywood, do conferencista à namorada ignorante que o filho de Cendrars arranjou certa vez, é possível identificar o tema, sempre presente, na mistificação e da credulidade. Ele próprio um mitômano irreprimível, Cendrars deve ter sentido o quanto as pessoas precisam acreditar nas mentiras que contam para iludir os demais.

  

Escrito por Marcelo Coelho às 10h43

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declínio de um mestre

 
 

declínio de um mestre

Termino de ler, não sem bastante melancolia, a enorme (umas 1300 páginas) biografia do crítico e poeta inglês William Empson, escrita por John Haffenden. A velhice de qualquer um sempre deprime um bocado, mas o caso de William Empson, apesar de tratado respeitosamente pelo biógrafo, tem alguns lances bem patéticos.

 

Antes mesmo de completar 30 anos, William Empson tinha publicado um dos grandes marcos da crítica literária no século 20. Sete Tipos de Ambiguidade é um prodígio em matéria de leitura engenhosa de poesia; logo no primeiro capítulo, uma rápida metáfora num soneto de Shakespeare é capaz de render, na leitura de Empson, parágrafos e mais parágrafos de interpretações que se acumulam. Não contente em elucidar um único sentido para a comparação shakespeariana entre galhos de árvore no inverno e os bancos de um coral de igreja arruinada (“bare ruined choirs, where late sweet birds sang”), Empson descobre cinco, seis, sete, oito significados diferentes para o verso, que se acumulam. Mais adiante, em outro soneto, conforme se toma determinada palavra por verbo no pretérito ou por adjetivo, Shakespeare parece estar dizendo isto, aquilo, aquilo outro e o contrário de tudo isso.

 

Especialmente dotado para a Matemática, William Empson acabou preferindo os estudos literários, desenvolvendo uma promissora carreira em Cambridge –foi logo expulso da universidade, contudo, no dia em que acharam entre seus guardados nada mais nada menos do que... um preservativo. Eram assim as coisas em 1929.

 

Ele passou depois muitos anos dando aulas no Japão e na China. Seu livro seguinte, “Algumas versões de pastoral”, mantém a extrema capacidade de ver sentidos ocultos em poemas que à primeira vista parecem de leitura transparente. A famosa  “Elegy in a Country Church-Yard”, de Gray, fala genericamente de pessoas anônimas enterradas num cemiteriozinho de interior; Empson é especialmente arguto em ver naqueles versos pré-românticos o peso de uma sociedade onde inexistem carreiras abertas para os talentos de quem não é bem-nascido. Sua discussão sobre se é possível “literatura proletária”, tema candente na década de 30, é de grande sutileza e sofisticação.

 

Empson estava na China quando Mao tomou o poder, e defendeu os revolucionários por um bom tempo, mesmo depois de se evidenciarem os primeiros sinais de totalitarismo do regime. É que ele tinha vivido também o terror do regime que antecedeu o de Mao, quando a corrupção e a violência de Chiang-Kai-Chek atingia pesadamente não apenas a população em geral (hiperinflação era o de menos), mas também os próprios alunos de Empson na Universidade de Pequim, com casos frequentes de prisão, tortura e “desaparecimento”.

 

Empson era sobretudo um liberal de esquerda –até no próprio casamento, tolerando que sua mulher, a belíssima Hetta, tivesse tantos casos quanto quisesse, desde que de vez em quando ele próprio pudesse tirar algum benefício sexual dos amantes dela... Arranjo bissexual que, de forma bizarra, Empson quis obsessivamente identificar como o subtexto secreto das relações entre Leopold Bloom, Molly e Stephen Dedalus, no Ulisses de James Joyce.

 

Outras duas obsessões críticas de Empson, já do meio para o fim da vida, são mais importantes.

 

A primeira foi sua luta incessante contra o conservadorismo católico dos discípulos de T.S. Eliot, dos “new critics” do Sul dos Estados Unidos, como John Crowe Ransom, e da escola de F. R. Leavis. Investiu muito contra leituras “ortodoxas” e cristãs dos poemas de John Donne e de Coleridge. Foi provavelmente o primeiro a ver no “Ancient Mariner”, deste último, sinais de culpa vitoriana a respeito das viagens de exploração comercial inglesas.

 

O segundo ponto que fazia Empson insistir em polêmica a todo custo foi a crítica a um dogma que até hoje é seguido cegamente nos estudos literários: a ideia da chamada “falácia intencional”, ou seja, a de que a verdadeira crítica não deve imaginar “o que o autor estava querendo dizer”. Sem cair em psicologismo fácil, Empson reagia, com razão, contra essa camisa-de-força. Afinal, como interpretar o significado de um poema sem buscar saber quais as intenções do autor? Mesmo sem confessar explicitamente, um crítico está sempre atrás disso. Desde que admita, como dizia Empson, que há intenções conscientes e também inconscientes naquilo que ele escreve...

 

A melancolia de toda história é que, depois de décadas brilhantes, Empson entrou num declínio de dar dó. Sempre bebeu horrores, e seu descuido consigo mesmo era folclórico. Não se tratava apenas de aversão a banho: seus aposentos na Universidade de Sheffield batiam recordes de imundície. Oferecia uísque aos convidados em tigelas com restos de mingau. Na cama, pratos sujos, cascas de laranja, bitucas de cigarro e livros se amontoavam.

 

Veio depois um tratamento radioterápico e problemas dentários, que tornaram sua fala difícil de entender. Foi ficando surdo também, e quando se aposentou em Sheffield começou a se preocupar em fazer um pé-de-meia para a velhice, aceitando dar cursos em universidades americanas.

 

Sem a companhia de Hetta –que também bebia e fazia escândalos como ninguém--, passou alguns meses na Pennsylvania State University. Estava com 67 anos. Inventou de dar um curso tão esotérico que só dois alunos se inscreveram. Outro, sobre Shakespeare, teve mais inscritos. Mas foi esvaziando, à medida que ninguém mais conseguia ouvir o que ele dizia. Atendia alunos para entrevistas e orientações em grupos pequenos. Depois de pronunciar algumas frases brilhantes e de extrema erudição, caía num sono alcoólico, sem se mexer em sua poltrona giratória. Os alunos se divertiam então fazendo a poltrona rodopiar várias vezes com ele sentado nela. Empson não acordava. Sozinho no apartamento, dormiu com o cigarro aceso –o incêndio, felizmente, parou no colchão.

 

Hetta levou-o de volta a Londres, onde Empson teve seus altos e baixos, e pôde conhecer a alegria de ser nomeado cavaleiro do Império Britânico. Outro grande triunfo, nessa época, foi ser homenageado pela universidade de Cambridge, que o havia expulsado cinqüenta anos antes. Deu uma conferência sobre John Donne que, caso raro, foi aplaudida de pé pela audiência. Não era para menos: logo no começo, acabou a luz do auditório, e Empson continuou como se nada tivesse acontecido, citando de memória as mais obscuras e longas passagens daquele autor. Em Pequim, aliás, era a mesma coisa: dava seus cursos sobre literatura inglesa sem ter nenhum livro à disposição.

 

Empson morreu de cirrose em 1986, aos 78 anos; Hetta sobreviveu a ele vários anos, não se sabe bem como. As últimas palavras dela, no hospital, foram: “get me a strong Scotch”, algo como “manda um uiscão aí”.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h19

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um ateu e o cardeal

Pode-se discordar muito de Bento 16 –e mesmo detestá-lo. Mas é, sem dúvida, um ótimo papa do ponto de vista intelectual. Mesmo suas encíclicas não padecem demais daquela linguagem cifrada, coberta do gesso das referências canônicas, que é mais ou menos obrigatória em documentos do gênero. Sem dúvida, parte significativa de suas mensagens se dirige a quem não é religioso, em especial aos intelectuais leigos, de forma sofisticada e ao mesmo tempo compreensível, mesmo nos pontos em que a lógica não me parece convincente.

 

Falei um pouco, no artigo desta quarta-feira (aqui para assinantes do uol), sobre o livro “Deus Existe?”, um diálogo entre um filósofo ateu, Paolo Flores d’ Arcais, e Joseph Ratzinger (quando ainda era cardeal).

 

Minha intenção, no começo do texto, foi mostrar que o livro nem chega a abordar diretamente a pergunta, tão simples e básica, do título. No final, a pergunta “Deus existe?”, deveria ser substituída por outra: “é possível encontrar fundamento absoluto para os valores do Iluminismo? Ou se trata apenas de valores contingentes, históricos, relativos, como quaisquer outros?”  

 

Ratzinger defende que valores como a tolerância, a dignidade humana e o respeito à Razão só podem ser absolutos se admitirmos a existência de Deus. Paolo Flores d’Arcais se complica nessa hora.

 

...em muitas sociedades primitivas –também eles eram homens!—o canibalismo ritual era considerado um dever ético-religioso... De modo que, se por natureza entendermos o que normalmente se entende, ou seja, todos os que pertencem à espécie Homo sapiens, com certeza não existe nem uma única norma que tenha sido compartilhada sempre por todos os homens.

 

(...) Se nós estabelecermos a priori que uma parte da humanidade era contra natura e a outra parte –que coincidência, aquela que compartilha nossas normas--, essa era a verdadeira humanidade, é evidente que realizaremos uma operação que todo mundo pode fazer, com seus valores, mas cuja conseqüência é dizer que quem não compartilhou ou compartilha desses valores, não só peca, como também está fora da humanidade: essa é a conseqüência lógica.

 

(...) Pois bem, e se aqui, presentes [neste teatro], houver pessoas que consideram que –por mais doloroso que seja, e, evidentemente, sem que deva ser utilizado como método contraceptivo qualquer –o aborto não é, porém, um delito? Serão, por isso, pessoas irracionais, anti-humanas?

 

Ratzinger responde citando uma encíclica de João Paulo 2º.:

 

“Há coisas sobre as quais uma maioria não pode decidir, porque estão em jogo valores que não estão à disposição de maiorias variáveis; há coisas em que acaba o direito de decidir da maioria, porque se trata do humanismo, do respeito do ser humano como tal”.

 

Que confusão! Em primeiro lugar, noto certa hipocrisia no argumento de Flores d’Arcais. Para muita gente, o aborto pode trazer dor psicológica, mas em última análise, se for para considerar que estamos retirando do útero apenas um grupo de células indiferenciadas, a rigor se trata de um método anticoncepcional qualquer, e não haveria nada de doloroso, exceto imaginariamente, em sua adoção. Pode ser chocante, e em todo caso não sou mulher, mas essa é a minha atitude, aliás.

 

Em segundo lugar, é um pouco estranho o veto de João Paulo ao direito de decisão da maioria. A maioria, infelizmente, pode decidir pelo pior; será genocida, assassina e pecadora, mas não há nisso uma conseqüência do “livre arbítrio” que o catolicismo nunca quis negar? Ratzinger prossegue:

 

Não estou de acordo com o argumento “histórico”, que diz que para todos os valores existe, na história, também uma posição contrária (...) esse fato estatístico demonstra o problema da história humana e da falibilidade humana.

 

Paolo Flores d’Arcais responde, algumas páginas depois.

 

Eu compartilho inteiramente da ideia de que a maioria não é suficiente para decidir qualquer coisa (...) Não é coincidência que as democracias modernas estejam fundamentadas em Constituições que estabelecem limites a qualquer maioria para decidir o que quiser.

 

O mediador do debate, Gad Lerner, intervém:

 

Por exemplo, se uma maioria quisesse restabelecer a pena de morte na Itália, considera que isso seria lícito?

 

Flores d’Arcais responde:

 

Nossa Constituição diz que não; naturalmente, seria necessário primeiro mudar a Constituição, os mecanismos de reforma da Constituição e depois... no estado atual, a norma fundamental de nossa convivência...

 

O debate continua, mas não deixa de ser curioso ver um ateu se segurando, mal e mal, no texto sagrado da Constituição italiana.   

Escrito por Marcelo Coelho às 01h36

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amor extremo

 
 

amor extremo

Keira Knightley é uma atriz muito bonita, mas sua afetação passa dos limites em “Amor Extremo”, filme de John Maybury que estreou agora em São Paulo. Ela faz o papel de Vera Phillips, amiga de infância do poeta Dylan Thomas (1914-1953). Estamos em Londres, durante os bombardeios alemães, e Dylan (Matthew Rhys) já está casado com Caitlin (Sienna Miller). Mas encontra Vera, que encontra um soldado inglês, e está formado o imbroglio amoroso.

 

Formou-se o imbroglio, mas não se formou um filme. Keira Knightley passa o tempo todo dando uma espécie de sorriso malicioso, sem saber exatamente por quê. A personalidade exuberante de Dylan Thomas, na vida real, desaparece no rosto excessivamente maquiado de Matthew Rhys, que passa o tempo entre as duas mulheres sem dizer a que veio.

 

Mas talvez esteja aí o segredo do filme. O poeta simplesmente não se compromete com nada: nem com a guerra, nem com o filho, nem com as mulheres, e mal e mal rabisca alguns versos. É como se Vera e Caitlin fossem, cada qual à sua maneira, personalidades voltadas inteiramente para a paixão, enquanto Dylan Thomas, presumivelmente um indivíduo assaltado por todo tipo de sentimentos, surge simplesmente como um objeto a ser amado, a ser cultuado, algo entre uma criança e um fantasma, trazendo na maior parte do tempo infelicidade aos que o cercam.

 

Difícil dizer se esta é a intenção do filme, ou se simplesmente se trata de uma falha na caracterização de uma personalidade complexa demais para fazer parte de uma história de amor meio empacada.

 

A música de Angelo Badalamenti produz, só que conscientemente, esse mesmo tipo de ambigüidade. As melodias são “românticas”, antiquadas, mas as cordas divididas criam um efeito distorcido, de dissonância turva, como se o disco estivesse em baixa rotação. O motivo amoroso não desaparece, mas ganha um aspecto irreal, fora dos eixos.

 

O filme termina com um bonito verso de Dylan Thomas, falando dos amantes que, quando se abraçam, têm apenas suas dores entre os braços. Talvez essa ideia –dos amores que, mesmo realizados, continuam impossíveis—seja o que o filme tem de mais valioso; Sienna Miller, no papel de Caitlin, é quem melhor encarna esse sentimento; talvez seja a única coisa real do filme, na verdade.  

Keira Knightley, Matthew Rhys

Escrito por Marcelo Coelho às 00h27

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tempo perdido, tempo ganho

O esforço de criar a Wikipedia consumiu um total de 100 milhões de horas de pensamento. Bem pouco, quando se sabe que, por ano, os americanos gastam 200 bilhões de horas vendo televisão.

 

O número está em Here Comes Everybody, de Clay Shirky, livro mencionado numa resenha do TLS a respeito de The Wikipedia Revolution, estudo de Andrew Lih recentemente publicado na Inglaterra.

 

Em tese, é um número otimista. Veja-se quanta coisa engenhosa e boa se pode construir, quando as pessoas se dedicam a algo mais útil do que ver televisão. Não há estatísticas, entretanto, a respeito de tudo o que de ruim foi evitado pelo fato de potenciais assassinos preferirem ver filmes de violência e programas estúpidos na TV.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h42

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cortando rente

 
 

cortando rente

Infelizmente, vou percebendo que a necessidade de “impor limites”, como se diz com tanta freqüência hoje em dia, é mais radical do que eu mesmo, que nunca fui banana com meus filhos (7 e 5 anos agora), sempre acreditei.

 

Embora eu tenha agido com bons resultados, na grande maioria das vezes em que as crianças andaram abusando da birra e da falta de educação, as coisas nos últimos tempos andaram meio sem controle.

 

Não que tenha havido grandes cenas de desobediência e agressão (pelo menos, não quando eu estava por perto). Mas o cotidianozinho das relações entre os irmãos andou chatíssimo nos últimos meses. Provocações sem sentido e disputas a troco de nada, de cinco em cinco minutos, podem muito bem ser classificadas de “normais”. Mas são um teste para a paciência de qualquer um.

 

E, de qualquer modo, não acho nada normal que irmãos com tão pouca diferença de idade sejam incapazes de brincar, por um tempo curto que seja, ou mesmo de conversar amigavelmente um com o outro.

 

Cheguei do escritório outro dia, e encontrei os adultos da casa com os nervos em pandarecos –tal a quantidade de briguinhas e chateações entre os dois irmãos. Falta de generosidade, implicância mútua, esforços de reconciliação desprezados por um dos envolvidos... Ora essa.

 

Ouvi sem surpresa o “relatório” da manhã. Certamente, já havia repreendido comportamentos desse tipo inúmeras vezes. Mas, como eu estava meio de mau humor, não esperei demais para fazer meu número repressivo.

 

Uma frasezinha nada grave de um menino contra o outro –“eu sei assobiar, você não consegue”—deu o pretexto para minha reação. Disse com fria seriedade que “isso não interessa. Não interessa a ninguém.”

 

Ou seja, dei o chamado “limite” antes mesmo que a gravidade da situação justificasse a bronca (nível 6 numa escala de zero a dez). Continuei no mesmo tom: “não quero um milímetro de provocação por aqui”. Nem sei se eles sabem o que é milímetro.

 

Funcionou –o estouro preventivo foi ameaçado mais vezes durante o dia, a propósito de minúsculas ameaças de chatice.

 

E, pela primeira vez em anos, os dois irmãos se trataram direito. Um se propôs a ajudar o outro a se enxugar depois do banho. Não discutiram sobre qual música deveria ser ouvida no CD do carro. Um fez questão de escolher a música que o outro desejaria. Estávamos no Palácio de Buckingham.

 

“Vamos ser amigos para sempre?”, um perguntou, e o outro respondeu que sim.

 

Claro que não serão. Não o tempo todo. Fiquei esperando que tudo “voltasse ao normal”, depois de passado o susto com a bronca. Mas as coisas continuaram bem. No dia seguinte, vi os dois sozinhos na sacada do apartamento, conversando sobre um assunto qualquer.

 

Perguntei-lhes se não achavam que a vida deles mesmos não ficava mais fácil dessa maneira. Disseram que sim; veremos.

 

O importante do caso, entretanto, foi que mais uma vez percebo o acerto de “cortar rente”. O limite, ou seja lá que nome tenha, deve ser imposto antes que todos estejam intoxicados de chatice –pois nesse momento uma bronca pode ser apenas o pretexto para novas reações de agressividade e de pirraça.

Numa palavra: quando se pensa em "dar limite", é que o limite já foi ultrapassado.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h55

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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