Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

camundongos

Camundongos têm sentimento humano? Pesquisadores canadenses dizem que sim. Inventaram de injetar vinagre nas veias dos camundongos. Sozinho, o camundongo se contorcia de dor. Mas se presenciasse a dor de seu companheiro de cela, sentia mais dor ainda.

Trata-se do mecanismo da empatia –algo como impressionabilidade, contágio emocional, e não propriamente compaixão.  

Falta testar a capacidade de empatia e compaixão dos pesquisadores canadenses.

link para a reportagem: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe3006200603.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 19h41

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advogados

Advogados não são bandidos, diz o advogado criminalista Antonio Ruiz Filho em artigo na “Tendências/Debates” de hoje. O artigo foi motivado, sem dúvida, pelos episódios nada edificantes que ultimamente apareceram na imprensa: o defensor de Suzane von Richthofen orientando-a sobre como se comportar diante das câmeras, os dois advogados que tiveram acesso a gravações de uma reunião secreta no Congresso, outro que entregou bom carregamento de celulares a seu cliente no presídio.

 

A imagem do advogado está desgastada, reconhece Antonio Ruiz. Mas os motivos que ele aponta para esse fenômeno merecem alguma discussão. Ele critica a inflação de faculdades de Direito, a negligência da OAB na admissão de novos advogados, e o “empobrecimento ético e cultural” da sociedade brasileira.

 

Ele falou em empobrecimento, mas faltaria falar de um enriquecimento também: os traficantes, detendo considerável poder de fogo financeiro, podem agora contratar advogados particulares especialmente ativos, o que aumenta o estarrecimento da população. Antes, ter advogados à sua disposição era prerrogativa de políticos, fraudadores do fisco, colarinhos brancos em geral. Ver advogados agindo abertamente em defesa do crime organizado é novidade; mas do ponto de vista ético não há por que considerar que tenha havido tanto declínio assim.

Link para o artigo de Ruiz: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz3006200609.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 19h37

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obras-primas da publicidade

 

 

 

 

Para quem gosta de bons argumentos, e ainda por cima deu uma olhada nas dicas de pechinchas de livros que andei postando por aqui, estes trechos de um anúncio que recebi por e-mail podem constar como verdadeira obra-prima de persuasão publicitária. Eles estão querendo vender um produto chamado “Viril Force”.

 

Quanto já gastou com cds, dvds, livros, e muitas outras, não custa nada investir um pouco em sua vida sexual, o sexo é vida e um excelente remédio para o bem-estar e saúde.

 

Peça já o seu e mude sua vida sexual para sempre. 

 

Caso você esteja pensando em não comprar nosso produto, saiba que isso é apenas um pequeno mecanismo de defesa que cada um de nós tem no cérebro. Ele está aí porque outras firmas tomaram seu dinheiro indevidamente no passado.Você não quer que isso domine a sua vida, quer?

 

Escrito por Marcelo Coelho às 10h53

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bem quente

bem quente

Numa rodovia do litoral Sul, é o sol o encarregado da delivery.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h04

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voltaire de souza

Em tempos de Copa, Voltaire de Souza se pergunta se ainda há espaço para o amor. Link para "Show do Intervalo", coluna de hoje no Agora: http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co3006200602.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 10h00

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fúria da oposição (2)

Fernando Henrique Cardoso acusou Lula de “cacarejar” sobre ovos alheios, lembrando que o programa Bolsa-Família consiste na aglutinação de outros projetos, iniciados no governo tucano. Acredito que isso seja verdade, mas o argumento não convence, não tem grande poder de persuasão.

 

Se Lula meramente “estendeu” o que já existia, a questão é saber qual o grau dessa extensão, que nada indica ter sido pequeno.

 

Do ponto de vista puramente político, é de todo modo mais persuasivo que Lula “tenha feito mais pelos pobres” do que Fernando Henrique. Enquanto os discursos de Lula batem sempre nessa tecla, uma das declarações mais memoráveis de Fernando Henrique foi a de que os 40 --ou 60, não me lembro bem-- milhões de “excluídos” não iriam ser “incluídos” de jeito nenhum. FHC, por mais que seus programas sociais tenham sido os “ovos” sobre os quais Lula cacareja, nunca deu mostras de estar especialmente preocupado com o tema.

 

A origem social, os pronunciamentos, aquilo que surge como preocupação central de um e outro governante são claramente distintas, e isso conta no poder de persuasão que um e outro possuem, por mais que pelos números e ações administrativas as diferenças sejam menores do que se pensa. As preocupações de FHC incidiam sobre a privatização, a inflação, com a modernização e a reforma do Estado. Se Lula agora “cacareja” sobre os pobres, o fato é que Fernando Henrique cacarejava sobre outros assuntos. 

Escrito por Marcelo Coelho às 09h55

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pechincha

O site da Fnac francesa está oferecendo alguns livros com grandes descontos. Na maioria são livros de culinária; pouquíssima literatura. Para quem se interessar, este é o link.

http://www3.fnac.com/item/node.do?SID=0c566533%2D14fc%2Dfe9c%2D6381%2D35445362cb0a&UID=1B765DABA%2DEF4C%2D9F10%2DD107%2DE1069E6B8F46&AID=&Origin=mail%5F2825c532&OrderInSession=1&TTL=010720060427&id=7820818

Escrito por Marcelo Coelho às 22h29

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férias

férias

A LIvraria da Vila está com programação diária para crianças no mês de julho. Abaixo, link para o site; mas eles ainda não atualizaram o calendário de eventos. http://www.livrariadavila.com.br/

Escrito por Marcelo Coelho às 22h22

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fúria da oposição

Tudo bem que o governo Lula merece uma série de críticas, mas a oposição está substituindo fatos e argumentos por uma espécie de campeonato de estridência, no qual o gosto pela metáfora exacerbada começa beirar o ridículo. Não me refiro à engraçada comparação que Diogo Mainardi, na "Veja", fez de si mesmo perseguindo Lula: disse que o caso parecia aquele desenho animado do Bip-Bip ou Papaléguas, que sempre escapava do coiote. Neste caso, o estranho está na idéia de que apenas ele, Diogo Mainardi, enfrenta Lula no deserto; a personalização do confronto político tem a ver com o narcisismo que acomete todo colunista fixo, ou quase todo, na imprensa. O estrago que uma fotografiazinha ao lado da coluna (ou do blog) pode fazer sobre a modéstia de uma pessoa não é pequeno.

 

Em termos de metáfora extravagante, pensei mais no artigo de Jorge Bornhausen, publicado outro dia na Folha, onde para evitar uma observação banal –a de que Lula parece ter um teflon à sua volta, uma vez que nenhuma crítica ou escândalo gruda em sua imagem—o líder pefelista resolveu dar o nome científico da substância –tetrafluorodeno não sei mais o quê—meramente para chamar a atenção do leitor. Não sabemos, pelo texto, se no fim a tal operação que Bornhausen denuncia é de fato uma estratégia planejada pelos assessores governistas ou se tudo é uma comparação literária feita pelo autor.

 

Hoje também saiu na seção “Tendências/Debates” um artigo em que os ataques a Lula carecem de argumentação precisa. A idéia do historiador Marco Antonio Villa é que o Bolsa-Família “está criando uma geração de ‘Jeca-Tatus high tech”, cuja diferença em relação à matriz lobatiana é a utilização do cartão magnético para sacar o benefício.”

 

O Jeca Tatu de Monteiro Lobato era o caipira passivo, incapaz de consertar o próprio casebre, que votava nas eleições obedecendo às ordens do chefe político local, em troca de um favorzinho qualquer.

 

Claro que o Bolsa Família rende proveitos eleitorais a Lula. Mas acho certo que exista, e é natural que o beneficiário queira votar em quem o beneficia. Justamente o cartão eletrônico, o “high tech” da coisa, muda mais do que Marco Antonio Villa está a sugerir. Com esse cartão, o vínculo pessoal entre dominador e dominado praticamente desaparece. A não ser que o prefeito (do PFL, do PMDB ou do PSDB) ameace descadastrar o infeliz –será que isso é possível?—o beneficiário do cartão não tem motivo nenhum para seguir ordens de coronel nenhum.

 

Lula disse que, seja qual for o partido no poder nas prefeituras, o Bolsa Família está chegando aos mais pobres. Comparativamente, há estudos de que a incidência de beneficiários “ricos” desse programa é menor do que em outros projetos sociais. Não sei se isso é verdade, mas o ponto a investigar (e contestar) seria esse.

 

O Bolsa Família deve existir? Acho que sim. Em regiões de miséria extrema, esse dinheiro é o mínimo que uma pessoa precisa para começar a se levantar um pouco na vida. A velha história do “não dar o peixe, ensinar a pescar” depende, pelo menos, de que o sujeito tenha um trocado para comprar o anzol, e tenha um mínimo de força para não desmaiar de fome até chegar à lagoa.

 

Link para o artigo de Marco Antonio Villa:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2906200609.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 19h10

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voltaire de souza

link de hoje: http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2906200602.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 17h21

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neobarrocos (3)

Nem tudo são mares viscosos, algas putrescentes, blandície de bagres vítreos e torvelinhos de grutas vúlveas nos poemas neobarrocos da antologia “Jardim de Camaleões” (editora Iluminuras). O cubano Severo Sarduy (1937-1993), traduzido por Glauco Mattoso, escreve profundamente sobre as naturezas-mortas de Giorgio Morandi:

 

Uma lâmpada. Um copo. Uma garrafa.

Sem outra utilidade ou pertinência

que estar ali, que dar à consciência

um casual pretexto, mas não grafa

 

o traço humano que ora inflama, abafa

a luz ou que ali beba. Em tudo a ausência:

paredes que, caiadas, dão ciência

que ali ninguém repousa ou se estafa.

 

Somente é familiar a luz acesa

que põe sobre a toalha posta à mesa

a sombra que se alarga: o dia quedo

 

do tempo o passo segue em sua vaga

irrealidade. A tarde já se apaga.

Abraçam-se os objetos: sentem medo.

 

A idéia de objetos presentes, mas cuja permanência é ameaçada, e cuja existência não se justifica, é mais “barroca” e “latino-americana”, num sentido até político, do que a ornamentação tropical em que se debatem tantos outros poetas desse livro.

 

 

Natureza-morta (1941), de Morandi (34,5x49 cm)

Escrito por Marcelo Coelho às 23h30

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neobarrocos (2)

neobarrocos (2)

Em vários dos poetas neobarrocos latino-americanos, reunidos na antologia “Jardim de Camaleões”  (ed. Iluminuras), o exagero artificialista da linguagem se combina com o elogio do turvo, do viscoso, do líqüido, em sua forma estagnada ou torrencial.

Tanto compromisso com uma linguagem preciosa e rebuscada, intencionalmente afastada do cotidiano, poderia, de fato, confundir-se com o desejo parnasiano de indiferença, limpeza, polidez. Para evitar isso, acentua-se o informe, o movediço, o pantanoso e o marítimo, numa espécie de umidificação sexualizada, “tropicaliente” de tudo que possa ser tomado como objeto poético. Os resultados podem ser bons ou ruins, conforme o autor.

 

A mexicana Coral Bracho, nascida em 1951, escreve:

 

Água de medusas, água táctil

fundindo-se

no anil untuoso, em seu favo reverberante. Água amianto, ulva

O bagre na molície

--libando; (...)

 

Haroldo de Campos, em “Polifemo contempla Galatéia”, ataca de

 

(...) a gruta insinuada

que um tecido –seda breve—esconde

e sob crespo tosão ensolarado

                        mais se oculta –a gruta onde a sereia

essa –a coralina boca dragonária—

quem a pudera escrever?

 

(Eu é que não). Mas José Lezama Lima chega perto, em “Minerva define o mar”:

 

Cegos os peixes da gruta,

enredam-se, saltam, encobrem,

precipitam as ordenanças áureas

da deusa, pomba manante.

 

O dominicano León Félix Batista recorre a alegorias, se podemos dizer assim, mais literais, em “Almíscar”: 

Com toda a avidez de sua carne de tubérculo, o plasma dá um aroma fechando-se e ancorando. Espessos miasmas, conchas, que estimulam mares acres com vestígios nas veias de sua grande conflagração. Sua crônica se impõe ao encarnar constantemente, rompendo em um tumulto exacerbado: pelas lubricidades de excelências voluptuosas onde estão patentes tempestades de desejo. 

Patentes demais, talvez.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h08

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neobarrocos (1)

neobarrocos (1)

“Jardim de Camaleões~A Poesia Neobarroca na América Latina” (editora Iluminuras) é uma antologia organizada por Claudio Daniel que reúne 24 poetas, em sua maioria pouco ou nada conhecidos no Brasil, como o peruano Reynaldo Jiménez, nascido em 1959, os argentinos Mário Eduardo Arteca (1960)  e Osvaldo Lamborghini (1940-1985), além de patriarcas neobarrocos como o cubano José Lezama Lima (1910-1976), já bastante traduzido no Brasil, e Haroldo de Campos (1929-2003).

 

 As traduções do espanhol, feitas por Claudio Daniel, Luiz Roberto Guedes e Glauco Mattoso, são muito boas, apesar da quantidade de palavras difíceis, em espanhol ou português, que aparecem a todo momento, e talvez façam mesmo parte da estética desse estilo literário.

 

Isso já constitui, para mim, um motivo de afastamento: depois de tantos “ebúrneos”, “baldaquins”, “alfombras”, “indenes”, “roldões”, “blaus” e “blendas”, o aspecto de artificialidade e preciosismo, sem dúvida voluntário, de muitos poemas termina prevalecendo sobre a pureza poética. Claro que os autores que usam esse palavreado não estão pretendendo, como há cem ou duzentos anos, mostrar-se apenas possuidores de uma dicção elevada e nobre. A idéia, aqui, é menos indicar que são vates inspirados do que sinalizar duas coisas: domínio do “literário” sobre o coloquial, isto é, extrema autonomia dos signos diante da realidade, e um latino-americanismo que teria como características o excesso, a prodigalidade metafórica e vocabular.

 

A questão é saber se o que há de intencional, de programático nessa atitude, não termina resultando em efeitos simplesmente forçados, falsos. Uma coisa é ser “naturalmente barroco”, como uma floresta tropical, uma igreja mineira ou um orador baiano; outra é vestir-se de pedrarias e plumas sem ser carnavalesco profissional da Beija-Flor. Nem sempre a eclosão vertiginosa de polissílabos parece surgir como necessidade interna do material poético, ou como resultado de uma angústia, de uma tensão, não diria psicológica por parte do autor, mas experimentada realmente em sua vida e na sua relação com a linguagem..  

Escrito por Marcelo Coelho às 22h38

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artigo de hoje

link para o artigo de hoje na "Ilustrada": http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2806200617.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 15h52

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voltaire de souza

link de hoje: http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2806200602.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 08h54

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números (2)

Em tempo: as estatísticas mostram a superioridade da seleção brasileira frente´às rivais, mas não dizem que nossos adversários até agora foram mais fracos que os das outras.

Escrito por Marcelo Coelho às 08h24

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avenida São João

avenida São João

Escrito por Marcelo Coelho às 01h14

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chuva de azeitonas

chuva de azeitonas

Não ficou muito nítida, mas gosto do padrão vertical das azeitonas, sempre constante, assim como a diagonal dos tomates...

Escrito por Marcelo Coelho às 00h51

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números

Pelas estatísticas, a Seleção Brasileira é a melhor até agora. Ver no link: http://copa.esporte.uol.com.br/copa/2006/reportagens/detalhes/quartas.jhtm

Escrito por Marcelo Coelho às 00h47

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filmes noir

 

       

         Lizabeth Scott, que inferniza Bogart em "Dead Reckoning" 

 

 

Um livro recém-lançado nos Estados Unidos, “Blackout –World War Two and The Origins of Film Noir”, de Sheri Biesen, parece fazer sugestões interessantes para uma sociologia do gênero. Segundo resenha de Philip French, no “Times Literary Supplement” –fonte inesgotável de posts possíveis--, vários fatores ajudaram à criação dos filmes “noir”, na década de 40. Vale destacar alguns:

 

1) Muitos diretores formados no Expressionismo alemão migraram para os Estados Unidos com o advento do nazismo.

 

2) O cinema americano descobria a psicanálise no final dos anos 30.

 

3) Depois do ataque de Pearl Harbor, os estúdios de Hollywood enfrentavam muitas dificuldades, tanto financeiras (o mercado europeu tinha encolhido) quanto de produção: racionamento de material cenográfico, blackouts forçados, restrições para filmar em espaços abertos devido a razões de segurança.

 

4) Com a mobilização de jovens adultos na guerra, o papel das mulheres no cotidiano americano se fortaleceu, trazendo consigo sensações novas de insegurança e ansiedade diante do “feminino”, que os filmes noir explorariam na figura da mulher manipuladora, inconfiável e fatal.

 

5) O mesmo fator levou a mudanças no papel dos galãs. À medida que os mais jovens se alistavam, sobrou para atores já mais passados o desafio de mudarem radicalmente o perfil de suas carreiras. Fred Mc Murray, antes um camarada simpático em comédias leves, tornou-se o fraco e desonesto protagonista de “Double Indemnity”. Dick Powell, que fazia o tipo romântico, virou Philip Marlowe.

 

Link para o livro no site da amazon:http://www.amazon.com/gp/sitbv3/reader/ref=sib_dp_pt/104-9542343-7419931?ie=UTF8&asin=0801882184

 

             

              Fred Mac Murray e Barbara Stanwick em "Double Indemnity"

Escrito por Marcelo Coelho às 22h38

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pechinchas (2)

A editora Cosac Naify anuncia 40 % de desconto em livros com pequenos defeitos na capa:

http://www.cosacnaify.com.br/outlet.asp

Escrito por Marcelo Coelho às 22h09

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guia de dvds

Encontro à venda na videolocadora o “Guia de DVD 2006”, de Rubens Ewald Filho. É uma pena que um crítico como Ewald, sempre organizado e sensato, tenha feito um produto tão inferior aos antigos Guias de Vídeo da Nova Cultural, cuja edição de 1991 ainda utilizo com proveito. É que o “Guia de DVD” não tem índices de diretores, de atores, de gêneros –nada, exceto a listagem em ordem alfabética dos títulos em português. Escrevi rapidamente, no artigo que sai amanhã, sobre “Arquitetura da Destruição”, documentário que sempre recomendo sem me lembrar do nome do diretor. No Guia de 2005 esse filme não aparece. No de 2006, não sei: o fato é que não vou comprar.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h32

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voltaire de souza

 

Link para a coluna de hoje:

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2706200602.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 13h15

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árvores e florestas

árvores e florestas

Há 70 anos, teve início a Guerra Civil Espanhola, opondo os defensores da República e as forças de direita lideradas pelo generalíssimo Franco. O historiador inglês Antony Beevor publica um estudo de 900 páginas sobre o assunto: “La Guerra Civil Española”, editora Critica. Leio a resenha do livro por Felipe Fernández-Armesto, autor de obras ambiciosas de História Geral que já foram editadas no Brasil: “Idéias que Mudaram o Mundo” (Arx), e “Comida” (Record).

 

Na sua resenha para o “Times Literary Supplement” (2/6/2006), Armesto argumenta que há muitos mitos em torno da Guerra Civil Espanhola, especialmente o de que o conflito foi um prelúdio da Segunda Guerra Mundial, opondo pela primeira vez fascistas e comunistas; ele relativiza a idéia de que ali estavam em jogo valores e interesses internacionais, com a esquerda e a democracia de um lado, e a direita, o monarquismo e a restauração católica de outro.

 

Para Armesto, particularidades nacionais espanholas foram muito mais decisivas para a eclosão do conflito, em especial a secular diferença entre o centralismo administrativo e a independência das províncias.

 

Ele diz que os dois campos em conflito eram muito mais heterogêneos do que se pensa. Os “nacionalistas” de Franco recrutavam, por exemplo, voluntários alemães e italianos. Havia republicanos no lado anti-republicano, “como meu tio Ramón”, que não tolerava as violências feitas pelos esquerdistas contra freiras e padres. Do lado franquista, a Falange não era exatamente fascista, embora copiasse os ritos de Hitler e Mussolini. Os esquerdistas, como se sabe, digladiavam-se entre si, com stalinistas massacrando trotskistas e anarquistas. Antes que a guerra radicalizasse as identidades de cada grupo, “não havia praticamente nenhum fascista e poucos comunistas na Espanha”.

 

A argumentação não me parece das mais convincentes. Imagino um especialista em botânica visitando a floresta equatorial. Depois de muito estudo, chega a conclusões surpreendentes: encontram-se ali gramíneas parecidas com as de uma pradaria, arbustos pequenos, parasitas que visam a destruir as árvores maiores, e mesmo coisas como pedras, borboletas, cursos d’água, que não são árvores de jeito nenhum. O conceito de “floresta equatorial”, desse modo, tem muito de mítico em sua construção...

Escrito por Marcelo Coelho às 09h41

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500 anos de literatura

500 anos de literatura

“Rapsódia dos Divinos” é um título que não dá conta da simplicidade, da alegria e da beleza do espetáculo que está em cartaz no Espaço Vitrine do Teatro Imprensa (aquele do Silvio Santos, ao lado do Oficina: rua Jaceguai, 400).

 

O espaço é pouco mais que um corredor, com cinqüenta lugares; tudo é incrivelmente modesto, despretensioso e de bom gosto. Despretensioso, vá lá a palavra, ainda que a idéia desse espetáculo tivesse tudo para resultar em desastre. O objetivo é nada mais, nada menos, do que fazer um panorama de toda a literatura brasileira, de 1500 até hoje, em cerca de uma hora.

 

Coube muita coisa: da carta de Pero Vaz a algumas micro-histórias de Fernando Bonassi, passando por Raimundo Corrêa, Euclides da Cunha, Castro Alves, padre Vieira, um conto completo de Machado de Assis, Alphonsus de Guimarães, Anchieta e até um trecho do “Uraguai”. Em princípio, trata-se de uma peça a ser levada para professores de segundo grau. Desde o início, entretanto, o didatismo dá lugar ao prazer, à graça, à afetividade que os excelentes atores colocam em cada palavra do que dizem.

 

Amanda Acosta, Léo Diniz, Luiz Araújo e Nábia Villela nos recebem com um “canto de boas-vindas”, com letra de Manuel Bandeira e música de Villa-Lobos. Todo o mal-estar que tantas vezes sentimos no teatro imediatamente se dissipa. E logo alguém começa a declamar um canto de Camões, ou o poema de Fernando Pessoa sobre o “mar salgado”, de uma maneira tão espontânea, tão sem literatice, que a alma da gente se abre. Torna-se comovente o simples fato de estarmos ouvindo a nossa língua, a mesma língua que há quinhentos anos alguém usou para falar do mundo descoberto.

 

Com alguma condescendência, Antonio Candido disse que a literatura brasileira é ramo secundário de uma árvore também secundária no “jardim das Musas”. Que, mesmo assim, valia a pena estudá-la, porque afinal de contas é a nossa, não temos outra, e assim por diante. Mas esse mero pronome –“nossa”—ganha dimensões novas à medida que o espetáculo transcorre. Podemos não ter grande vontade de conhecer os poetas do Arcadismo, por exemplo, mas quando os versos ganham vida e carne com a direção bem-humorada e engenhosa de Paulo Ribeiro, prevalece a emoção fundamental de encontrarmos as mesmas palavras que usamos em nosso cotidiano, em combinações diferentes, num registro novo, mais alto e acabado; nenhuma literatura de outro país, ainda que melhor do que a do Brasil, pode fazer isso por nós.

 

Um grande tato, um excelente gosto, orientam a peça. Muitas obras literárias brasileira merecem, sem dúvida, certa reserva crítica. Os parnasianos, por exemplo, resistiram mal ao furacão de 22. “Rapsódia dos Divinos” sabe tratá-los com a necessária dose de ironia e distanciamento, mas mesmo assim com respeito. Mais do que respeito –a palavra mais certa é difícil de usar: com amor. Mesmo nos textos mais criticáveis, mais falsos aos olhos contemporâneos, os atores nos levam a dizer: “apesar de tudo, isso é bonito!”

 

As apresentações de “Rapsódia dos Divinos” são bissextas: os próximos espetáculos serão nos dias 28 de junho, 12 e 26 de julho, 9 e 23 de agosto, às 20h30.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h52

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voltaire de souza

link para a coluna de hoje: http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2606200602.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 10h25

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Louise Gluck (2)

Naturalmente, tudo fica melhor se pensarmos que ela e a amiga são a mesma pessoa.

 

Sobre Luoise Gluck: http://www.english.uiuc.edu/maps/poets/g_l/gluck/gluck.htm 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h42

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um poema de Louise Gluck

um poema de Louise Gluck

MÚSICA CELESTE

Tenho uma amiga que acredita ainda no Céu,/de jeito nenhum uma pessoa estúpida, mas com todos os seus conhecimentos, ela literalmente fala com Deus, /pensa que alguém a escuta no Céu./Na Terra, ela é extraordinariamente competente,/E corajosa também, capaz de enfrentar o que é desagradável.//Encontramos uma lagarta morrendo na poeira, formigas ávidas subiam por ela./Sempre me mobilizam a fraqueza, o desastre, tenho sempre a vontade de lhes opor a vitalidade./Mas, também tímida, sou rápida em fechar meus olhos./Enquanto que minha amiga era capaz olhar, de deixar os eventos seguirem conforme a natureza. Por mim, ela interveio/Tirando algumas formigas da coisa despedaçada, e deixando-a em paz/Estendida na estrada.//Minha amiga diz que eu fecho os olhos para Deus, que nada mais explica/minha aversão à realidade. Ela diz que eu sou como a criança que enfia a cabeça no travesseiro/Para não ver nada, a criança que diz para si mesma/que a luz deixa a gente triste –/Minha amiga é como a mãe,/Paciente, insistindo para que eu levante e acorde/na condição de pessoa adulta, como ela, uma pessoa corajosa—//Nos meus sonhos, minha amiga me repreende. Estamos andando/pela mesma estrada, mas é inverno agora;/ela me conta que quando você ama o mundo você ouve uma música celeste:/olhe para o alto, ela diz. Quando olho para o alto, não há nada./Somente nuvens, neve, uma breve agitação nas árvores/como noivas saltando rumo a uma grande altitude—//Então sinto medo por ela; vejo-a/presa numa rede deliberadamente armada sobre a Terra—//Na verdade, sentamos num dos lados da estrada, vendo o sol se pôr;/de tempos em tempos, o silêncio é ferido pelo chamado de um pássaro./Esse é o momento em que cada uma de nós está tentando explicar o fato/De que estamos à vontade diante da morte, da solidão./Minha amiga traça um círculo na poeira; dentro, a lagarta não se move./Ela está sempre tentando fazer algo de inteiro, de bonito, uma imagem/capaz de vida fora dela mesma./Ficamos muito quietas. Dá uma sensação de paz sentar aqui, sem falar, a composição/de tudo está fixada, a estrada escurecendo de repente, o ar/ficando frio, aqui e ali as pedras luzindo e faiscando—/E essa quietude o que nós duas amamos./O amor à forma é um amor por tudo o que finda.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h41

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paul johnson (2)

paul johnson (2)

A tradução de “Criadores”, de Paul Johnson (editora Elsevier) é mais brutal do que a mentalidade do autor, o que não é dizer pouca coisa.

 

Nomes escritos de forma errada são freqüentes: o compositor Saint-Saëns perde o “s” final, o bar de Barcelona onde Picasso se reunia com amigos é chamado de “El Quatro Gats” (“Els Quatre Gats” é o correto), o costureiro Patou vira Paton, Chanel ganha um n a mais. Géricault perde um l. Mas, se isso pode ter vindo do original, a tradutora acrescenta seus próprios erros.

 

Ela parece pensar que Hans Bach, ancestral de Johann Sebastian, escrevia versos em inglês, pois não traduz a tradução que Johnson fez do original alemão.

 

As cortinas no atelier de Balenciaga “continham esculturas”.

 

O conservadorismo de Johnson pode ser tão tosco quanto esses exemplos. Condenando Picasso e seus admiradores, o autor faz o seguinte raciocínio:

 

“Se o cubismo foi sua maior invenção (...) por que os colecionadores, os museus e o mercado de arte atribuem um valor tão superior às obras de fases anteriores, especialmente a fase azul, quando ele era ainda um artista representativo?”

 

“Representativo” deveria ser traduzido, é claro, por “figurativo”. Mas o argumento de Paul Johnson é frágil por si mesmo. Se as pinturas daquela fase são mais valorizadas, não seria porque Picasso pintou menos quadros azuis do que cubistas? Um pouco de lei da oferta e da procura e de lógica neoliberal pode ajudar mesmo os críticos mais conservadores.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h51

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pechinchas

Para quem costuma encomendar livros em inglês na Amazon, há outro site que vale a pena, especializado só em pechinchas. Comprei bons livros a preços em torno de cinco dólares: uma análise da poesia inglesa por Louis Mac Neice, um tratado sobre a forma musical da fuga, uma história das notas de rodapé, muitos livros de arte por 20 ou 30 dólares no máximo. É o http://www.scholarsbookshelf.com 

Escrito por Marcelo Coelho às 21h51

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fora do ar

Peço desculpas a quem acessou ontem, mas estou viajando e volto a blogar hoje depois das 22h.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h18

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importância do medo

importância do medo

Uma das coisas cruéis que se costumam fazer com crianças pequenas é ameaçá-las na hora de dormir. Nada mais comum, até um tempo atrás, do que recorrer à Cuca e ao bicho-papão. Coisa mais torturante, na hora em que a criança está sozinha no quarto, no escuro, ter de dormir sob esse tipo de tensão aterrorizante, quando o que ela precisa é de conforto e segurança.

 

No esforço de preservar meus filhos de pesadelos –eu os tinha bastante quando pequeno—procuro sempre evitar que assistam filmes impressionantes, e sempre tento me informar se o teatrinho tem algo de assustador.

 

Aos poucos, entretanto, vou me convencendo de que o medo tem um papel importante na economia psicológica das crianças. Não só porque elas procuram, de alguma forma, testar-se a si mesmas quando vêem algo teoricamente impróprio para a idade na televisão. Talvez seja uma forma de crescimento.

 

Sobretudo, a importância do medo ficou para mim mais clara numa peça de teatro bem inocente, que vi com meu filho maior há coisa de um ano atrás. Era, se não me engano, “O Pássaro de Fogo”, conto de fadas russo adaptado para teatro de bonecos. A platéia infantil, nesses teatrinhos, fica surpreendentemente atenta e concentrada – para meu espanto, uma vez que muitos ali mal compreendem a história. Entretanto, passada meia hora, a excitação geral vai se sobrepondo ao interesse que os atores possam despertar, a incompreensão diante de alguns diálogos vai estimulando o zum-zum das crianças, que já não acham posição nas cadeiras, enfim, todo o fenômeno da dispersão se estabelece.

 

É nessa hora que algumas peças infantis recorrem ao medo. Nada melhor do que uma ameaça, um momento mais sombrio, para recuperar o silêncio e a atenção.

 

Talvez seja assim com todos nós: como dizia Rilke a propósito da Beleza –que corresponderia ao grau de terrível que somos capazes de suportar—a atenção é provavelmente o grau de medo com que podemos conviver produtivamente. Adrenalina, em geral, está associada a atividade, à necessidade de liberar energia. O medo libera-a também, mas provê a importante dose de silêncio e concentração que toda atividade intelectual, mesmo passiva, naturalmente exige. Não é o ideal para a criança que vai ser posta para dormir. Sem medo, entretanto, o teatrinho não se segura.

Escrito por Marcelo Coelho às 20h34

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no forno

no forno

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Esta é uma pintura que fotografei na Barra Funda.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h22

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arte bruta

arte bruta

Aqui vai o link para a crítica que fiz do filme "Moacir- Arte Bruta", documentário sobre um pintor popular da Chapada dos Veadeiros. Sempre me interesso por arte "mal feita", "bruta", seu corpo-a-corpo com a representação, sem truques técnicos. O mais bonito no filme não são os quadros de Moacir, mas o que dele falam parentes e vizinhos. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2306200625.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 10h20

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voltaire de souza

Link de hoje: http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2306200602.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 10h14

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paulo mendes da rocha (2)

Há também muita coisa estranha nas opiniões de Paulo Mendes da Rocha. Comento alguns trechos da matéria sobre a sabatina com o arquiteto, realizada no Teatro Folha terça-feira passada.

 

“A idéia de cidade é amenizar a aflição”, diz ele. “Eu saio do trabalho, posso encontrar um amigo e tomar cerveja num bar.” Fico pensando se o poder de amenizar a aflição não reside mais na cerveja --ou no amigo-- do que na cidade.

 

“O que acontece com essa classe temerosa que se autoalimenta do pavor?Dizem: ‘não há segurança’.Como pode haver segurança para quem tem filhos? Como? Botar um guizo em cada filho? É impossível. É uma idéia tola, a de segurança, e um instrumento de exclusão.”

 

Cabe observar que o problema da segurança não diz respeito apenas a uma “classe temerosa”, mas é especialmente grave nos bairros da periferia. Ademais, há diferença entre temer que algo aconteça com os filhos quando eles estão passeando em Campos do Jordão e outra quando passeiam por uma cidade com um dos mais altos índices de criminalidade do mundo.

 

“Eu, se tivesse sido chamado a opinar sobre o Muro de Berlim, jamais o derrubaria --abriria oportunas e belíssimas portas”. Entre a parte ocidental e a parte oriental de Berlim, não havia somente o muro a dividi-las, mas em muitos trechos uma zona morta, uma terra de ninguém com no mínimo um quilômetro de extensão.

 

“A idéia do desastre é que conseguimos prever que vai dar errado. Como, por exemplo, fechar para se proteger. Fecha, fecha, e de repente a filha mata o pai. O medo é o instrumento fundamental do fascismo”.

 

“O problema do shopping center não é do arquiteto que fez e sim a idéia de confinamento que destrói a cidade (...) Uma cidade é feita de botequim, de padaria. Poucas vezes eu entro num shopping porque me sinto mal. E o que acho pior é a praça de alimentação. Eu já trabalhei no sertão e vi como se dá alimento para os animais. Praça de alimentação parece um lugar para distribuir ração”.

 

De minha parte, concordo com a distorção que os shopping centers representam, e sem dúvida o que existe ali é a tentativa de fazer de conta que a cidade real, que a realidade mesmo, não existe, que estamos a salvo dela.

 

O que acho contestável nessas declarações de Paulo Mendes da Rocha é o tom culpabilizador, segundo a qual o sujeito que mora num condomínio fechado, que vai a shoppings etc. é, além de canalha, um idiota. Por toda parte prevalece um tom de crítica “às elites” que não é propriamente político e social, mas individualizante e moralista. A “elite” parece ser vista como uma soma de indivíduos, cujo comportamento cabe criticar não como coletivo, mas como pessoa física. As soluções passam a ser individuais também: o indivíduo, que é um fascista, deveria abandonar “a cultura do medo”, como se esse medo não tivesse causas reais. E o governante, que é da elite fascista, precisaria ter “vontade política” para mudar as coisas.

 

Que a legislação urbana, por exemplo, seja resultado de uma correlação de forças, de opções que a seu tempo pareceram mais “técnicas” e “fáceis” em função de um determinado estágio histórico --penso na industrialização do país, no estímulo à indústria automobilística, por exemplo-- são coisas que aperfeiçoariam o raciocínio, mas tendem a ser relegadas a segundo plano porque o ímpeto da crítica é individualizador, deriva sobretudo de um julgamento moral da pessoa que prefere o estilo neoclássico ao modernista, e que se cerca de guaritas porque os investimentos em segurança, educação, etc., diminuíram em função de uma crise fiscal profunda do Estado. Não quero tirar de ninguém a responsabilidade pelo que acontece; acho fácil, entretanto, fazer sarcasmo contra quem prefere uma praça de alimentação a um botequim. Não vejo nenhum mérito político ou intelectual em preferir o botequim.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h42

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voltaire de souza

Link para a coluna de hoje: http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2206200603.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 21h11

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encontro de escritores

Recebo e-mail do escritor Moacir Moreira: No próximo sábado, dia 24/06, a partir das 17h ele irá conversar com João Carrascoza e Marçal Aquino, na Rato de Livraria, Rua do Paraíso, 790.

O encontro inaugura o Território Nacional, eventos mensais sempre com dois
autores, em que lerão textos, falarão do processo criativo e responderão
perguntas do público.

Já estão confirmados para os próximos Marcelino Freire, Nelson de Oliveira,
Luiz Ruffato e muitos outros. No dia 05/08, também às 17h00, já está marcado
o papo com Daniel Galera e Santiago Nazarian. 


Escrito por Marcelo Coelho às 21h09

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paulo mendes da rocha

Muita coisa interessante e nova (para mim) foi dita pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha, na “sabatina” (que nome!) realizada no teatro Folha na última terça-feira. Nunca pensei, por exemplo, que as curvas do edifício Copan se destinavam a diminuir o problema do vento, não tendo “nada a ver com as montanhas do Brasil ou as curvas da mulher amada”, como sempre diz o seu criador, Oscar Niemeyer.

 

Também é iluminadora a observação de que os prédios da Paulista, por terem sido construídos em terrenos anteriormente ocupados por palacetes, “ficam magricelos, é um exército de Brancaleone”. Mendes da Rocha elogia o Conjunto Nacional, “único prédio da avenida Paulista que expressa uma disponibilidade espacial conveniente.”

 

Está certo, mas não deixa de ser um sinal do gosto modernista brasileiro pela horizontalidade. Os palácios de Brasília, sempre baixinhos, harmonizam-se com o horizonte plano e aberto do cerrado. O Mube, do próprio Mendes da Rocha, estende--se sobre o terreno como uma gaveta branca puxada de um armário inexistente. O prédio do Detran, no Ibirapuera; o próprio Masp...

 

Continuo a receber críticas sobre o artigo que escrevi contra Lina Bo Bardi. Não vou insistir na tecla. Houve quem dissesse que “a imprensa” não deu a menor bola para o fato de Paulo Mendes da Rocha ter ganho o prêmio Pritzker, considerado o Nobel da arquitetura; ao contrário, o destaque foi imenso a essa consagração. Mas o leitor ressaltava a importância desse prêmio como resposta ao nocivo pós-modernismo atualmente em voga. Só que verdadeiros papas do pós-moderno, como Robert Venturi e Frank Gehry, também ganharam o prêmio.

 

Há uma ortodoxia modernista no pensamento arquitetônico brasileiro, como também sobrevivem, por aqui, adeptos de Luís Carlos Prestes; não raro, convergem.

Links: carta no Painel do Leitor contra meu artigo sobre o Masp: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2206200610.htm

 reportagem sobre a sabatina de Paulo Mendes da Rocha: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2206200607.htm

 Conjunto Nacional

 Mube

Escrito por Marcelo Coelho às 09h21

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primárias (2)

primárias (2)

Uma coisa que nunca tinha visto em DVDs, e que aparece em “Primárias”, de Robert Drew, é um encarte com texto, a exemplo do que existe nos CDs de música. O encarte reproduz um artigo de João Moreira Salles publicado na revista Bravo! de abril de 2005. Cito um trecho.

 

 

“No início dos anos 50, o jovem repórter da revista Life Robert Drew assistia na TV a um programa do lendário Edward Murrow [protagonista de “Boa Noite e Boa Sorte”] quando sentiu vontade de tomar um copo d’água. Foi até a cozinha, abriu a geladeira, pegou a garrafa, depois o copo, verteu, bebeu, pensou um pouco na vida, voltou. Foi quando se deu conta do seguinte: apesar de ter permanecido pelo menos dois minutos longe da TV, a trama ainda lhe parecia perfeitamente clara, como se ele não tivesse despregado os olhos do aparelho. Não foi difícil descobrir a razão: na cozinha, continuara a ouvir a voz de Murrow,. Drew fez então a experiência contrária: abaixou a televisão e ficou olhando as imagens mudas. O programa se tornou incompreensível. Pensou lá consigo: ‘Ainda não descobriram a televisão. Continuam fazendo rádio.’”

 

Assim, “Primárias” inova ao suprimir locutor, entrevistas, legendas. Robert Drew resolveu “se virar apenas com aquilo que passivamente a câmera fosse capaz de ver e o som de ouvir”. É isso, sem dúvida, que faz “Primárias” um filme que se abre a uma infinidade de comentários, de interpretações: cenas do mundo real, ainda que editadas, estão ali para nossa avaliação, e é impossível, por exemplo, esgotar tudo o que um rosto humano, um sorriso de político, um gesto de Jackie Kennedy, tem a nos dizer. Quanto mais real, mais estético. O que não elimina, é claro, a possibilidade de estilização, de edição, de intervenção do diretor. Mas o material é irredutível a manipulações absolutas, e cada objeto, cada pessoa, mantém desse modo uma dignidade básica --a de habitar, como nós, este mundo.

Escrito por Marcelo Coelho às 08h13

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primárias

primárias

 

“We want Kennedy! We want Kennedy”, diz a platéia --uma platéia de  brancos “tipicamente americanos”, dos que não existem mais-- enquanto o candidato se senta numa cadeirinha de metal ao lado de Jackie, olha para ela, cansado, sem ninguém em volta, como que deixando a onda de popularidade chegar a seus pés, e levá-lo para onde quiser.

 

Estamos em 1960, durante a disputa entre John Kennedy e Hubert Humphrey pelo posto de candidato do Partido Democrata às eleições presidenciais. O filme é “Primárias”, um documentário clássico e decepcionantemente curto de Robert Drew, no qual se inspirou João Moreira Salles para fazer "Entreatos", seu filme sobre a candidatura Lula.

 

O DVD foi lançado agora no Brasil, com um extra indispensável, onde o diretor Robert Drew e o fotógrafo Richard Leacock comentam de viva voz o filme inteiro, à medida que vai passando. Esse tipo de comentário é muito útil ao espectador brasileiro, porque sabemos pouco do “background” político de Humphrey, por exemplo, ou das particularidades do Wisconsin, Estado americano em que se dá a disputa enfocada no filme.

 

Seja como for, a mera visão dos dois pré-candidatos, e de seu relacionamento com os eleitores, já dá uma idéia eloqüente e clara de suas diferenças. Humphrey está num dos seus redutos eleitorais, um estado rural do Meio-Oeste. Parece, contudo, extremamente sozinho, algo patético até, distribuindo cartões de visita entre pedestres numa calçada: a cena lembra o interessante documentário de José Joffily e Eduardo Escorel, “Vocação do Poder”, com candidatos à Câmara dos Vereadores do Rio em 2002.

 

Simpático, feio, aparentando firmeza ao defender os interesses dos agricultores, Humphrey tem o olhar e o sorriso de quem está em pânico permanente. Suas respostas são claras e diretas, e aos olhos contemporâneos parece incrível que uma campanha política nos Estados Unidos se faça de modo tão direto, sem intermediários, assessores, marqueteiros; até sem jornalistas. Humphrey sai de uma estação de rádio ou de um encontro com pequenos fazendeiros e não há ninguém para entrevistá-lo, nada do habitual enxame de câmeras e microfones que a qualquer pretexto cerca atualmente a mais insignificante autoridade política.

 

Enquanto isso, os encontros de Kennedy com seus eleitores (não há nenhum comício aberto nesses cinco dias de inverno em Wisconsin) são mais massivos, bem-sucedidos e impessoais. Em vez de falar sobre questões agrícolas, a campanha de Kennedy insistia em generalidades sobre o Mundo Livre e as fogueiras dos inimigos em colinas não muito distantes. As roupas dele e de Jackie são impecáveis, mas tudo ali parece visar mais à fotogenia do que a qualquer modesta realidade interpessoal. Os bastidores da campanha de Humphrey, como os de Lula em "Entreatos", são domésticos, prosaicos, sem grandeza. Uma superioridade etérea, quase divina, cerca Kennedy como uma espécie de névoa.

 

Mesmo assim, e mesmo ficando cada vez mais clara, ao longo do filme, a superioridade de Kennedy sobre Humphrey nesse âmbito da pura imagem presidencial, o fato é que tanto num caso como em outro o que se nota é uma democracia muito “pura”, ainda, para os padrões a que estamos acostumados.

 

O aparato de mídia é mínimo, e a presença de assessores merece pouco destaque no documentário. Há pessoas procurando votos de outras pessoas. Os postulantes deslocam-se de carro ou de ônibus fretado de uma cidadezinha a outra. É como se um estilo ainda rural de se fazer campanha estivesse em curso; quem sabe se, justamente, pela última vez. O anacronismo de Humphrey, diante da cinematografia kennedyana, é sinal do que estaria por vir; e do tipo talvez irreconhecível de política que surgiria nas décadas seguintes.  

 

       Hubert Humphrey         

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h45

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artigo na Ilustrada

Para assinantes, este é o link do artigo de hoje: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2106200617.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 10h28

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Bosi e Mindlin

Um dos principais críticos literários do país, Alfredo Bosi deu no começo do mês sua última aula na graduação da USP. Faz 70 anos em agosto, e a lei determina que se aposente.

Pode ainda dar aulas na pós-graduação e orientar teses, mas sempre gostou de ensinar para os alunos recém-chegados na faculdade, e está compulsoriamente afastado dessa atividade.

 

Meu pai, que era desembargador, também foi forçado a se aposentar aos 70 anos. Sofreu bastante, mas tinha um argumento em favor dessa lei. Um tribunal precisa renovar-se, não pode ser um cenáculo de múmias.

 

Hoje em dia, é absurdo considerar múmia quem faz 70 anos. Mas se o argumento pode valer num tribunal, parece muito inadequado numa universidade, onde o acúmulo de experiência e conhecimento jogam a favor da instituição. E, ao contrário de um tribunal, os mais velhos estão sempre em contato com os jovens, podendo renovar-se também.

 

Não chego ao ponto de recomendar cargos vitalícios, pois a Academia Brasileira de Letras já dá conta desse recado. Embora seja considerável a quantidade de múmias por lá, a idade não é o que conta. Aos 91 anos, José Mindlin acaba de ser eleito para a ABL e está tão jovem como sempre foi.

 

Basta ver a gravata que ele usa, na foto publicada hoje na Folha. Reproduz, com todas as cores, prateleiras de sua biblioteca. Forma bem-humorada de “ostentar” a contribuição, nunca egoísta, que ele dá à cultura brasileira.

Escrito por Marcelo Coelho às 09h10

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leitura lateral

Um dos princípios da reforma gráfica da Folha é possibilitar dois tipos de leitura: uma horizontal, que segue a linha dos títulos e ganha resumos e chamadas breves para cada matéria, e outra vertical, na qual se lê cada reportagem e coluna de cabo a rabo.

 

Minha experiência ao ler um artigo como o de Delfim Netto (ver post anterior) é certamente “horizontal”. Começo bem, até encontrar uma frase que não entendo. Meu olhar, minha atenção se desviam imediatamente para a coluna ao lado, de Clóvis Rossi, ou para o editorial, como um futebolista que, diante de um marcador eficiente, resolve dar um passe lateral. Fica difícil, conforme o texto, optar por uma leitura em profundidade; não escolho a leitura horizontal, sou levado a ela quando o texto não me atrai.

Escrito por Marcelo Coelho às 08h33

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voltaire de souza

Link para a coluna de hoje: http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2106200602.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 08h27

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economês

Quando alguém diz “não entendo nada de economia”, há uma estranha mistura de orgulho e culpa em sua atitude. “Eu deveria entender”: afinal, não faltam explicadores e jornalistas dispostos a traduzir tudo em linguagem acessível.

“Mas me interesso por coisas mais divertidas, mais vivas, mais humanas do que a economia”: tenho o mérito de não ser um chato.

 

Abro o jornal e me disponho a ler o artigo de Delfim Netto, que em geral comunica bem suas idéias. O começo é promissor:

 

“Nos últimos 35 anos, o sistema financeiro internacional evoluiu ‘cientificamente’ e separou-se do processo produtivo.” Ótimo: sempre quis entender essa mudança. Já ouvi dizer que o dinheiro “imaginário”, em circulação nesses fundos de investimento, é muitas vezes superior a todo o PIB mundial --um pouco do mesmo modo com que, na Guerra Fria, diziam que o arsenal nuclear à disposição das potências era capaz de destruir o mundo vários milhares de vezes.

 

Mas chega a frase seguinte do artigo do Delfim.

 

“Nos anos 70, o financiamento dos países era feito primordialmente por empréstimos bancários diretos [até aqui tudo bem; só que...]: os bancos colocavam seus papéis no mercado na posição devedora e emprestavam diretamente aos países na posição credora.”

 

Já não entendi. “Colocar na posição devedora” é emprestar? Ou é dever? Deve ser emprestar. “Os países na posição credora” são credores ou devedores?

 

Só com muita boa vontade prossigo o artigo. A idéia é que antes os bancos emprestavam diretamente aos países, e agora não. Criou-se uma camada de administradores de fundo de investimento, que tiram e põem dinheiro nos países, sem compromisso de longo prazo com o que esses países irão produzir para um dia saldar a sua dívida.

 

Depois, Delfim conta um fato histórico, o que sempre ajuda a entender. Houve um fundo fazendo especulações em larga escala, gerido por dois prêmios Nobel de economia. Acabou devendo 14 bilhões de dólares aos bancos. Legal.

 

Nesse momento, conta Delfim, “Alan Greenspan deu uma demonstração de coragem”. Nada melhor do que um toque humano nessa barfunda financeira. Qual a demonstração de coragem?

 

“assegurou liqüidez ao mercado, mas exigiu dos acionistas e dos bancos que participassem dos prejuízos.”

 

Pronto. Não entendi nada de novo. Deu dinheiro? Mas não todo o dinheiro?

 

Desisto. Penso em Maria Antonieta, que de tanto não entender coisa nenhuma do mundo à sua volta perdeu a cabeça.

 

Link para o artigo de Delfim Netto: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2106200606.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 08h21

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Paul Johnson

Paul Johnson

Paul Johnson é um polemista muito conservador e muito competente, que sempre se pode ler com proveito, pelas informações que traz --mas a parcialidade de suas conclusões chega a doer no ouvido. Não só a parcialidade, mas um certo jeito bruto de raciocinar. Leio “Os Criadores”, uma série de ensaios sobre Shakespeare, Wagner, Victor Hugo entre outros.

 

Nesses “outros” incluem-se Christian Dior e Balenciaga, nomes da alta costura que tiveram sucesso antes da década de 60, “aquela década desastrosa”. O espanhol Balenciaga --o mais aristocrático e perfeito dos costureiros, segundo Johnson-- “saiu-se bem” durante a Ocupação nazista na França, “graças a suas ligações com Franco, aliado de Hitler”. Tempos difíceis. Veja-se a “objetividade” com que o autor descreve o caso de Lucien Lelong, chefe da Câmara Sindical da Alta Costura:

 

Lelong “ficou em cima do muro. Negociou com os nazistas, derrubou a tentativa de transferir a moda francesa para Berlim; operou uma base em duas cidades, com Lyon, na França não-ocupada, dividindo a liderança com Paris; com isso, salvou 97% da indústria e 112 mil empregos. Mas isso teve seu preço: ele teve de entregar os judeus das indústrias às SS, que os enviou aos campos de concentração. Feito isso, a indústria floresceu durante a guerra.”

 

Uma questão de preço.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h05

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pergamon

As estátuas e frisos do "Pergamon" de Berlim estão entre os mais extraordinários conjuntos de arte grega de todo o mundo; recebo release noticiando que virão ao Brasil, em agosto. Se não for uma parte muito pequena do conjunto, será a exposição do ano.

‘Deuses Gregos. Coleção do Museu Pergamon de Berlim’

Data:                          de 21/08 a 26/11

Local:                         Museu de Arte Brasileira da FAAP

Endereço:                   Rua Alagoas, 903 - Higienópolis

Horário:                     3a a 6a feira, das 10h00 às 20h00

                                    Sábados, Domingos e Feriados, das 10h00 às 17h00

Informações:              (11) 3662-7198

Visitas Educativas:            Agendamento (11) 3662-7200

Entrada Gratuita

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h35

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voltaire de souza

Link de hoje:  http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2006200602.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 07h47

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eu, você e todos nós

eu, você e todos nós

 

 

 Com seu título pouco convidativo (e que a gente confunde com o de outro filme em cartaz), “Eu, Você e Todos Nós” é uma maravilha do começo ao fim. A diretora Miranda July, que é também a atriz principal do filme, faz de cada cena uma pequena surpresa, sempre modificando as expectativas do espectador, sem para isso recorrer à extravagância e ao hermetismo.

 

Estamos sempre na iminência de algum pequeno desastre, que pode acontecer ou não, mas nunca do jeito que pensávamos. Os personagens têm uma vida comum, mas nunca são banais; situam-se no limite da esquisitice, o que rende diálogos magistrais: um vendedor de sapatos, uma moça romântica que pretende virar artista de vanguarda, um menino de seis anos que participa de chats na internet.

 

O “limite da esquisitice” desses personagens não está propriamente num ou noutro aspecto específico de personalidade; não se trata, aqui, de uma galeria de tipos psicológicos, mas de situações em que cada personagem resolve dar um passo além do que seria de esperar.

 

Um comentário sobre ferimentos no tornozelo, um flerte quase pedófilo que começa por brincadeira, uma tentativa de salvar da morte um peixe de aquário, um telefonema que poderia muito bem não ter sido feito, um quadro que se tira do lugar, é desses sutis rearranjos do cotidiano que se compõe o mecanismo do enredo, ao mesmo tempo preciso e fluido, como um relógio que funcionasse sem rigidez, graciosamente.

 

Desde a primeira imagem de “Eu, Você e Todos Nós” --a foto de um passarinho que um chefe de família meio perturbado (John Hawkes) tira da parede no dia em que se separa da mulher-- está em jogo, com muita sutileza, a questão da liberdade individual. Capaz de leves transgressões e de movimentos inexplicáveis, cada personagem experimenta ser livre nas suas relações com os demais. Com um detalhe importante, que organiza todo o filme: a liberdade depende não apenas, ou não principalmente, de nossos atos no mundo real, mas de nossa capacidade de lidar com representações, com símbolos, com imagens.

 

Conversas pela internet, cartazes manuscritos colados na vidraça, dizeres impressos numa camiseta, recortes de anúncio de eletrodomésticos num álbum de criança, fotos de passarinhos, até mesmo moedas --símbolo dos símbolos, afinal de contas-- servem como instrumentos de realização e relacionamento pessoais.

 

A originalidade do filme está em recusar a idéia “pós-moderna” de que tudo é simulacro, que a realidade foi substituída pelo mundo das imagens. A moeda de cobre que um menino segura não é a mesma coisa que um sol poente, embora as duas coisas se contrabalancem e se equilibrem na última cena do filme. Um passarinho num quadro não é a mesma coisa que um passarinho na árvore, embora o filme sugira que... bem, não conto mais. Tudo são surpresas em “Eu, Você e Todos Nós”: mas na sua forma mais delicada, mais preciosa, mais cheia de luz.

site do filme: http://www.meandyoumovie.com

 

Escrito por Marcelo Coelho às 19h05

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voltaire de souza

Como na edição eletrônica do "Agora" de hoje não há como acessar a coluna de Voltaire de Souza, aqui vai a própria:

 

VISÕES DO PASSADO

 

Recordar é viver. Lindomar era um poderoso empresário.

Bateu a saudade de suas origens humildes.Deu a ordem para o chofer.

--Toca para Cidade Tiradentes.

A visão do grande bairro popular veio misturada com lágrimas.

--Como tudo mudou... e a Teresa, onde andará?

Seu primeiro amor. Os olhos verdes. O sorriso inconfundível.

Lindomar zanzou pelo bairro até parar numa modesta moradia.

--É aqui... só pode ser.

Tocou a campainha. Uma jovem abriu. Os olhos verdes. O sorriso inconfundível.

--Teresa... você não mudou nada!

--Eu sou a Iara. Teresa é a minha mãe. Quer falar com ela?

Uma senhora de quase noventa quilos surgiu na porta da cozinha.

--Lindomar! Você voltou!

Lindomar pediu desculpas. E pegou na mão de Iara.

--É você que vem comigo. Sou fiel ao passado. Não ao presente.

Teresa chora amargamente.

É que o Tempo, mais do que os homens, sabe trair as mulheres belas.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h20

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um carro e dois amigos

um carro e dois amigos

 

 

“Amigo é para essas coisas”, dirigido por Pierre Jolivet, é um filminho simpático, que pode ser descrito por meio de uma receita bastante implausível.

 

Pegue “Ladrões de Bicicleta”, o clássico drama neo-realista de Vittorio de Sica. Substitua a Itália devastada do Pós-Guerra por um bairro de periferia francês. Elimine todo traço de sentimentalidade, dramalhão e seriedade, e coloque em troca bom humor, vitalidade adolescente e espírito educativo politicamente correto. Em vez da bicicleta, que o protagonista de De Sica precisava a todo custo para trabalhar, ponha um carro.

 

O jovem protagonista de “Amigo É Para Essas Coisas” não terá emprego fixo se não arranjar um carro (conseguiu um posto de vendedor autorizado de uma firma de artigos esportivos), e se não tiver emprego fixo será fatalmente condenado à prisão, por reincidência em delitos menores --como por exemplo andar de moto depois de ter fumado maconha.

 

Mas ele tem a sorte de contar com dois amigos, um africano e outro árabe, que são exemplo de solidariedade e descontraída convivência multicultural. Para quem pensa que o “jeitinho” é característica brasileira, e que a cordialidade interétnica foi inventada em nossas terras, o filme dá provas suficientes de que basta haver economia informal, excesso de burocracia, precariedade social e um diretor disposto a mostrar que nem todos os franceses são racistas, para que as diferenças entre uma “banlieue” parisiense e o Brasil de Roberto da Matta se dissipem deliciosamente.

 

Um contraste importante, contudo: os policiais não descansam no filme de Jolivet, e sempre que a trama necessita de um empurrãozinho eles estão ali para cumprir suas funções.

 

Em todo caso, nada de violência, incêndios criminosos, gravidez precoce. Ao público adolescente, ensina-se desde a necessidade de usar camisinha à importância do diálogo entre pais e filhos. Ensina-se, acima de tudo, que a amizade vale a pena. Não há nenhuma das complexidades de relacionamento que conferem grande verdade e beleza a “Buenos Aires 100km” (veja post anterior). O enredo tropeça com implausibilidades leves, que o público, suficientemente entretido durante os 88 minutos da projeção, não terá dificuldade em perdoar.

 

Site do filme: http://www.zimandco.com 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h54

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parada gay (2)

Sem dúvida o preconceito contra os gays ainda é forte, mas a repressão e a discriminação diminuíram muito, comparativamente. Falei num post anterior sobre a Parada Gay deste sábado, mas não queria deixar passar a marcha dos evangélicos na Paulista, realizada dias antes.

 

Nos meios que freqüento, o preconceito contra os evangélicos é bem maior do que o preconceito contra os gays. Ninguém diz: “ih, esse cara é gay”. Mas eu mesmo já disse muitas vezes: “ih, esse cara é evangélico!” E o simples termo já traz uma conotação imensamente negativa, associando breguice, obscurantismo, sexualidade reprimida, direitismo político. Em suma: do bispo Rodrigues para pior.

 

Quando uma bancada evangélica no Congresso pretende impor suas concepções sobre costumes, sexualidade e educação a toda a sociedade brasileira, é claro que todo nosso horror se justifica.

 

Mas meu preconceito diminuiu depois que me deram exemplares de uma revista “de evangélicos”, chamada Eclesia. Algumas matérias da revista estão disponíveis para não-assinantes no site :  http://www.eclesia.com.br

 

Li em Eclesia que há evangélicos nudistas, por exemplo; que uma igreja evangélica perto de onde moro, a Bola de Neve Church, reúne pastores e fiéis adeptos do surf e do skate. Como altar, acredite ou não, eles usam uma prancha de surf.

 

Mais do que isso, há reportagens sobre golpistas e aproveitadores de dízimo, e principalmente, artigos muito esclarecidos e atualizados sobre temas como criminalidade e espiritualidade pós-moderna, sem sombra de fundamentalismo ou pregação, escritos por teólogos, advogados, jornalistas, que são metodistas, batistas, presbiterianos. Se “tudo isso” é evangélico, então nossa imagem sobre eles precisa urgentemente ser refinada.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h31

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Uma escultura de David Smith, que postei outro dia, saiu cortada. Não consegui consertar. Vão aqui mais duas obras do "Pollock da escultura", de quem se comemoram 100 anos de nascimento.

                                        

                                         "Tanktoten III", 1953- 2,40mx75cmx55cm

 

                                    

                                     "Voltri XVII", 1962, 2,60mx85cmx80cm

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h57

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estrelas musicistas (2)

Grandes instrumentistas de música clássica têm hoje visual de artista de cinema.  A pianista Helène Grimaud, de quem ouvi uma excepcional interpretação da sonata da "Marcha Fúnebre" de Chopin:

                              

A soprano Anna Netrebko:

                       

e o ´pianista Francesco Schlimé, que gravou as obras completas de Luciano Berio para piano:

 

                         

                                          

e (a pedidos) o violinista Joshua Bell:

                                   

                         

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h53

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Ronaldo (3)

Quando o Brasil entrou em campo para a final de 98, escreve Jorge Caldeira, nenhum médico ou membro da comissão técnica se lembrou de explicar aos jogadores o que tinha passado, do ponto de vista clínico, com Ronaldo. O reserva Edmundo já estava se aquecendo quando o Fenômeno entrou no vestiário, calmo e confiante, sem saber de nada o que tinha acontecido durante seu sono agitado da tarde.

 

Em “Ronaldo, Glória e Drama no Futebol Globalizado”, o jornalista e historiador dá sua interpretação da vitória francesa. “Ela se deveu, sobretudo, a um truque quase banal imaginado pelo técnico Aimé Jacquet”. Zidane era conhecido por quase nunca cabecear. “Os gols de cabeça em toda sua carreira podiam ser contados com folga em apenas uma mão. Por causa disso, todos os marcadores do mundo se esqueciam dele na hora das bolas aéreas. Aimé Jacquet apostou neste esquecimento (...). Funcionou, e bem mais do que ele jamais sonharia. Duas vezes no primeiro tempo os franceses lançaram escanteios para Zidane. Em ambas, ninguém se lembrou de marcá-lo, mesmo na cara do gol.” Fora isso, os franceses marcaram os brasileiros com grande eficiência. Desnorteados com a crise, convictos de que a escalação de Ronaldo tinha sido um erro (“deviam respeitar a saúde dele”, declarou Dunga), os brasileiros renderam pouquíssimo.

 

Natural, então, que todas as versões posteriores atribuíssem a culpa da derrota a Ronaldo. Justamente o único que estava bem naquele momento.

 

Contrariando os resultados de todos os exames clínicos, o médico Lídio Toledo falou em convulsão; depois, se desdisse. Quanto a Ronaldo, diz Jorge Caldeira, fez “o que nem o médico, nem o técnico, nem os dirigentes foram capazes de fazer: assumir uma responsabilidade. Pior ainda, iria assumir uma responsabilidade que não era sua. Estava dormindo o sono profundo quanto tudo se deu. Rigorosamente falando, não tinha um pingo de consciência de tudo o que se passou. Ainda assim, como era de um estofo moral completamente diferente das pessoas que estavam ao seu redor, tomou os depoimentos delas como algo para ser assumido, como se fora uma falha consciente sua, uma falha sobre a qual tinha responsabilidade.” 

Escrito por Marcelo Coelho às 10h32

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Ronaldo (2)

O mais interessante do livro de Jorge Caldeira, “Ronaldo- Glória e Drama no Futebol Globalizado” é sua análise da famosa “convulsão” de Ronaldo no dia da final em Paris.

 

À uma e meia da tarde, Ronaldo fez o seu ritual de sempre em dia de jogo. Pegou a máquina de cortar cabelo, raspou a cabeça, deitou e dormiu.

 

“As confusas lembranças seguintes”, conta Jorge Caldeira, vieram de Roberto Carlos, seu companheiro de quarto. “De repente, só vi ele ruim. Eu pensei que ele estivesse fazendo careta para mim. Estava mal. Quer dizer, estava diferente. Eu só vi ele muito tenso. Muito tenso, e passando mal. Vi ele muito, muito mole...”

 

Assustou-se e foi chamar socorro. Veio Edmundo. “Era uma cena muito forte e muito chocante. Ele estava se batendo muito. Deitado e se batendo com as mãos, com os dentes trancados e a boca espumante. Pra mim é muito chocante porque ele é muito forte. Ele é muito grande. E fazendo aquela força toda. O corpo todo se batia. Ele estava espumando.”

 

Edmundo foi procurar os médicos. Apareceu Doriva, companheiro de quarto de Edmundo. Ronaldo “estava com as pernas esticadas, contraía e descontraía os músculos. Era como se ele quisesse levantar as pernas e não conseguisse; só levantava um pouco os pés. Parecia que estava tentando respirar e não conseguia. Babava bastante, com os lábios roxos. Aí chegou o César Sampaio e ele foi a primeira pessoa a tomar uma atitude, foi direto para a cama e tocou nele.”

 

César Sampaio, cujo pai era epiléptico, viu que não se tratava de um ataque desse tipo. Uma vez, quando o pai teve um ataque, foi destravar o seu maxilar, desenrolar a sua língua, e teve a unha arrancada na convulsão.

 

Ronaldo estava sem ar, desacordado, salivando bastante. César Sampaio tentou abrir as pálpebras ele, mas só via o branco dos olhos. Ronaldo não ofereceu resistência quando César Sampaio apertou a sua boca, a língua não estava enrolada, nem ele espumava como acreditou ver Edmundo. Logo Ronaldo conseguiu respirar e a coisa foi melhorando.

 

Não era convulsão, diz Jorge Caldeira. “Todos os movimentos tinham outra natureza, eram mais contrações musculares do que espasmos. Não havia boca espumando, mas salivação e baba.” O depoimento de César Sampaio parece ser o mais objetivo, de uma pessoa menos assustada com a cena.

 

Os médicos chegaram. Lídio Toledo conta que “ele estava apenas com salivação, limpei. Ele estava deitado todo torto na cama, eu coloquei numa posição fisiológica e auxiliei, coloquei a cabeça em hiperextensão e ele começou a respirar bem e passou tudo”.

 

Os exames na Clinique des Lilas, pouco antes do jogo --eletroencefalograma, exame de fundo de olho, tomografia, ressonância--, afastaram completamente a hipótese de convulsão.

 

Ronaldo, na verdade, estava apenas dormindo: seus movimentos, contrações, falta de ar, são típicos de uma “parassonia”, diz Caldeira. Ou seja: uma espécie de distúrbio de sono, como o terror noturno e o sonambulismo.

 

“Ronaldo tinha um passado bastante marcado por eventos relacionados ao sono. Para começar, ele foi sonâmbulo na infância. Não se tratava apenas de um caso corriqueiro: a criança andava pela casa dormindo, às vezes ia até o quintal, falava com as pessoas em pleno sono. No início da adolescência os sintomas mais fortes diminuíram, mas estiveram longe de desaparecer. Ronaldo continuou falando bastante enquanto dormia: narrava partidas de futebol, discutia, fazia discursos.” O irmão, que dormia no mesmo sofá, acostumou-se com o caso.

 

Quem já viu uma criança tendo terrores noturnos sabe como é: os olhos abertos, como se estivesse acordado, em delírio. Quando passa, a criança volta a dormir, normalmente, deixando todo mundo assustadíssimo em volta.

 

O fato é que naquele dia, Ronaldo acordou normalíssimo, foi tomar banho, enquanto todos na Seleção estavam apavorados, a equipe técnica discutia se devia escalá-lo ou não, e para total estranheza de Ronaldo levaram-no para exames de emergência. Ninguém lhe contou o que tinha passado, e, paradoxalmente, diz Jorge Caldeira, Ronaldo foi o único a entrar em campo absolutamente calmo e confiante.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h30

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Ronaldo (1)

Vale muito a pena ler, nestes dias, o livro de Jorge Caldeira sobre Ronaldo, publicado em 2002 pela editora 34 em parceria com o jornal “Lance”.

 

Fiquei sabendo de uma série de coisas interessantes, que vou postando aos poucos.

 

Em 98, na Copa da França, o médico da Seleção afirmou que Ronaldo estava muito gordo. “Sete quilos a mais”, disse Lídio Toledo à imprensa.

 

Pequeno erro, revela Jorge Caldeira. O médico havia consultado uma ficha médica com dados de 1994, “quando o adolescente Ronaldo era quatro centímetros mais baixo e sete quilos mais magro.”

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h01

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Parada gay

Mais uma edição da Parada Gay. Vejo sempre com alegria um dos raros avanços civilizacionais de nosso tempo, o de que se possa viver e tornar pública, sem perseguição, a própria opção sexual. Um dos efeitos mais notáveis da parada gay é que, agora, não só o homossexualismo masculino, mas também o feminino aparece à luz do dia. Há coisa de cinco anos era impossível ver um casal de lésbicas pela rua; posso não ser um especialista, mas eu não tinha nenhum registro de ver “lésbicas assumidas” como, atualmente, é até comum nas ruas de São Paulo.

 

O preconceito e a repressão contra homossexuais diminuiu muitíssimo, mas ainda existe. Talvez seja difícil que acabe totalmente. A própria construção da identidade heterossexual, que começa na primeira infância, quando os meninos de dois, três anos, saem por aí brincando de espadas e super-heróis, e as meninas se interessam por princesas e balé, conduz a uma sutil e implícita discriminação às “coisas de menininha” (“coisa de maricas” é uma expressão que já sumiu do mapa). Estabelece-se socialmente um padrão “hétero”, e todo estabelecimento de padrão envolve uma valorização positiva. Disso ainda estamos longe de nos livrar, e nem posso imaginar como seria um quadro de absoluta neutralidade valorativa dos padrões de comportamento sexuais nessa idade.

 

Claro, a diferença é entre formas de sexualidade e formas de opção sexual. Há pessoas cuja opção sexual é por indivíduos do mesmo sexo, e que entretanto se comportam segundo todos os padrões da identidade heterossexual, nos gestos, no tipo de agressividade, no biotipo físico etc.

 

Uma criança de três anos já está confrontada com a questão da identidade sexual --é “menino” ou “menina”?-- sem que, evidentemente, a sua opção sexual esteja estabelecida. Nessa idade, implicitamente, o estereótipo positivo da heterossexualidade estará sendo predominante de qualquer modo.

 

O curioso é que, no mundo dos super-heróis e das espadas, implicitamente também está em curso a possibilidade homossexual. Não é por acaso que temos Batman e Robin, e que os “collants” do Super-Homem e do Homem Aranha sejam, digamos, tão charmosos. A fixação da heterossexualidade, valorizando os super-heróis, torna-os atraentes; a convivência guerreira, o companheirismo dos valentões e dos simplesmente valentes, cerca-se desde tempos arcaicos de componentes homossexuais.

 

Penso se o padrão de comportamento heterossexual não se define, assim, antes por sua oposição ao comportamento homossexual (“menino”/”maricas”) do que por sua oposição ao padrão de comportamento do sexo oposto (“menino”/”menina”). O padrão gay está latente no padrão hétero. Uma humanidade “bi” de nascença? Isso seria uma revolução, acho, só para o quarto milênio.   

Escrito por Marcelo Coelho às 19h01

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as metáforas de Lula

Lula está certo ao reclamar do “jogo rasteiro” da oposição. Seu conhecido gosto pelas metáforas futebolísticas resultou, desta vez, numa (hm...) “bola dentro”, quando disse que “hoje a situação é igual àquela do jogador malandro que fica provocando, fica infernizando para cavar a expulsão do adversário”.

 

É verdade que, com árbitros como Nelson Jobim, no máximo Lula levaria um cartão amarelo. Em todo caso, a metáfora funciona.

 

O que não funciona é ele voltar a se comparar com os torturados do regime militar. “Vocês não sabem o que é a gente aprender a apanhar. É mais difícil do que aprender a bater.” Acho que ninguém nunca duvidou disso. Mas Lula continua:

 

“Suportar a dor física é tão duro quanto suportar a dor da infâmia, da leviandade e das falsidades.”

 

Ele fala como se tivesse sido torturado pelo regime militar. Isso sim é que é de uma leviandade, de um desrespeito a toda prova.

 

PS- Vejo na internet que o humorista Bussunda morreu de enfarte na Alemanha. O mundo dos blogs exige resposta imediata a esse tipo de acontecimentos, mas prefiro não escrever sobre isso. Lamento, é claro, a morte de uma pessoa simpática e querida, mas não teria nenhuma palavra de elogio ao programa “Casseta e Planeta”, cujo tipo de humor sempre me horrorizou.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h19

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um poema de Walt Whtiman

um poema de Walt Whtiman

(que pode servir para a Copa do Mundo):

 

Hoje um rude recitativo breve,

De navios singrando os mares, cada um com sua bandeira especial ou seus sinais de navegação,

De heróis sem nome nos navios  -- de ondas que se espalham até onde a vista não alcança,

De espuma violenta, e de ventos que sopram e sibilam,

E de tudo isso um cântico para os marinheiros de todos os países,

Impetuoso, como a maré montante.

 

De capitães jovens ou velhos, de grumetes, e de todos os intrépidos marinheiros,

Dos poucos, muito raros, taciturnos, a quem o destino jamais surpreende nem a morte abate,

Colhidos de quando em quando sem ruído por ti, velho oceano, escolhidos por ti,

Ó mar que arrancas e separas a raça pelo tempo, e unes as nações,

Amamentadas por ti, velha ama de formas volumosas, incorporando-se de ti,

Indomáveis, intratáveis como tu.

 

Ostenta, ó mar, tuas esparsas bandeiras nacionais!

Ostenta, mais visíveis do que nunca, as várias bandeiras e os vários sinais marítimos!

Mas reserva, reserva especialmente para ti e para a alma do homem uma bandeira acima de todo o resto,

Um signo espiritual tecido para todas as nações, emblema do homem exultante sobre toda morte,

Arma de todo capitão corajoso e de todos os intrépidos marinheiros e grumetes,

E de todos que caíram cumprindo seu dever,

Para relembrá-los, trançada de todos os capitães intrépidos velhos ou jovens,

Uma flâmula universal, que sutilmente acena todo o tempo, acima de todos os bravos marinheiros,

De todos os mares, todos os navios. 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h35

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outro centenário

David Smith (1906-1965) é considerado um dos maiores escultores americanos do século 20; ocupa, no cenário da escultura moderna dos Estados Unidos, um papel equivalente ao de Jackson Pollock na pintura. Este ano houve uma retrospectiva das obras dele no Guggenheim de Nova York, que será levada ao Centro Pompidou e à Tate de Londres. Aqui vai uma escultura dele, "interior", de 1937, e uma obra gráfica de 1964, que lembra os desenhos de Flávio de Carvalho.

 

 

 

mais sobre a exposição em http://www.guggenheim.org/smith/overview.html

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h27

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estrelas musicistas

No mundo ultracompetitivo da música clássica, a beleza física de alguns intérpretes começa a ser um valor bastante prezado. Aqui vão os retratos de algumas estrelas da nova geração. A violinista Hilary Jahn:

.

a violoncelista Nina Kotova...

Janine Jansen:

 

A harpista Catrin Finch:

 

o pianista Sergio Tiempo:

e o violinista Benjamin Schmid:

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h50

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Shostakovitch (2)

O crítico David Fanning, em artigo para a The Gramophone deste mês, discute a questão da ironia nas obras de Shostakovitch. Certo, há vulgaridade e estardalhaço retórico em algumas sinfonias do periodo em que Shostakovitch se conformou à ortodoxia estética stalinista. Podemos entender que aquilo era irônico, que na realidade Shostakovich sugeria, com tantas fanfarras enganadoras, seu desgosto com o regime.

 

Fanning observa, entretanto, que “não existe, provavelmente, nenhuma música tão idiota ou incompetente que não possa, em princípio, ser interpretada como um ato de ironia (...) Assim, os detratores de Shostakovitch podem legitimamente reclamar que, tirando do colete a carta da ‘ironia’, pode-se apenas sancionar um abandono dos padrões de qualidade artística. Seria muito fácil pensar que Shostakovitch detestava Lênin e o comunismo sempre, e que assim escreveu uma peça de música “ruim” em homenagem a eles [a Sinfonia número 12] porque esse era o único meio que tinha para expressar essa opinião.”

 

A questão da ironia numa obra de arte vai longe. Creio que um equívoco básico nesse assunto está em confundir as intenções psicológicas secretas de um autor e as intenções expressas por sua obra. O que, no fundo, Shostakovitch estava pensando quando fez a Sinfonia número 12 é difícil de saber, exceto por uma análise de sua correspondência, por exemplo. Pode ser que a raiva diante da encomenda fosse consciente, pode ser que não; pode ser que ele quisesse escrever uma peça triunfal mas simplesmente não tenha conseguido ir além da mediocridade bombástica. Mas essas são as intenções do autor.

 

Acredito que a obra pode ser analisada de outro modo, a saber, o de quais marcadores de intenção ela possui em sua estrutura. Quando falamos ironicamente, por exemplo, nosso tom de voz muda: estamos “significando” que entramos num registro irônico. O uso de aspas ou itálicos num texto é o modo mais óbvio de sugerir isso.

 

Acho até que a própria rima, em poesia, funciona tanto porque é bonito, como também porque indica que o autor está falando de uma maneira “anormal”, não-literal, carregada da máxima intencionalidade possível.

O efeito “eu sei o que estou fazendo aqui” pode ser obtido de inúmeras maneiras: um tema bombástico pode ser a transposição em modo maior de uma melodia que constava de obras anteriores do compositor, por exemplo (e Shostakovitch era especialista nessas auto-citações). Dependeria de uma análise minuciosa da obra, e das descobertas da crítica, saber se existem esses marcadores de intenção na “música ruim” de Shostakovitch. Mas, enquanto nada disso for descoberto em tal ou tal sinfonia dele, não há como deixar de considerá-la ruim mesmo.

 

É ruim porque não se vê, ali, nenhum sinal de que o autor “sabia o que estava fazendo”. Mas nenhum julgamento é definitivo: depende dessas “descobertas” da crítica. E não chamo de descobertas as puras invencionices: a questão é, muitas vezes, quase factual. Claro que, se à falta de evidências concretas, alguém inventa uma interpretação menos convincente, esta será a única coisa que temos para acreditar que Shostakovitch sabia o que estava fazendo naquele momento. O que é muito diferente de dizer que o João Perneta estava sabendo o que fazia quando compôs uma obra ruim. Pois temos suficiente evidência que, na maior parte do tempo, em inúmeras outras obras, Shostakovitch sabia o que estava fazendo.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h54

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de mal a pior

Ainda para falar de frases infelizes, a de José Jorge, candidato a vice do Alckmin, também merece registro. De novo a história de que Lula bebe demais etc. Até aí, é falta de tema no discurso oposicionista, que se cronifica e aumenta com o desespero e a incompetência.

 

Mas o pior é ver que esses ataques estão sendo feitos num comício especial: o do lançamento do candidato da coligação PSDB-PFL ao governo do Distrito Federal.

 

É o José Roberto Arruda! Um dos mais refinados crocodilos do pântano político brasileiro! Renunciou ao mandato para não ser cassado, no escândalo da violação do painel eletrônico do Congresso. Lembro-me de vê-lo chorando, em discurso no plenário, enquanto jurava, pela honra dos filhos. que não sabia de nada. No dia seguinte, dois dias depois no máximo, admitiu que sabia de tudo e renunciou ao mandato.

 

A compulsão para repetir as mesmas frases e os mesmos personagens pode ser pior do que a mania de beber. 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h18

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mais uma bela frase

Mais uma frase, ou fragmento de frase, que merece destaque no jornal de hoje. O presidente do PT, Ricardo Berzoini, escreve um artigo que não foi dos mais brutos já saídos de sua pena. Como não poderia deixar de ser, aponta a “herança maldita” de Fernando Henrique, responsável pelos juros altos, pela desorganização dos serviços públicos e...

 

“pela criminalização dos movimentos sociais”.

 

Pelo que entendi, a idéia é reconhecer que o MSLT, por exemplo, andou agindo como quadrilha ao invadir o Congresso. Mas um outro sentido de “criminalização” seria o de que as autoridades, a direita, a sociedade em geral passaram a “criminalizar” comportamentos em si legítimos.

Neste caso, seria exagerado entretanto atribuir o fenômeno à herança de FHC. Podemos estar ainda pagando pelo tipo de privatização ou de gestão da economia que se consolidou no governo Fernando Henrique. Seria estranho considerar que um “preconceito” contra os sem-terra, criado no governo anterior, continuasse como sua herança.

 

De modo que me inclino pela primeira interpretação: se os sem-terra cometem abusos, crimes e atos de vandalismo, isso se deve ao estado terrível em que FHC deixou os setores desvalidos da população; o atraso na reforma agrária teria contribuído para o desespero e a decorrente delinqüência de alguns movimentos sociais.

 

Faltou, nesse caso, atribuir à herança dos governos anteriores a criminalização do próprio PT. Marcos Valério, afinal, servia ao PSDB antes de ajudar o caixa de Delúbio e Genoino. O valerioduto não foi mais do que uma herança, então... maldita, porém polpuda.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h01

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pior frase do dia

As crônicas de José Sarney na Folha, às sextas-feiras, têm sempre um tom simpático, não-comprometedor, como se a biografia política de quem as escreve fosse posta entre parênteses.

 

Hoje ele fala sobre a Varig, e terminou produzindo a pior frase do dia: “É com nostalgia que assisto os estertores das asas abertas por Berta”.

 

Nunca tinha visto alguém assistir a estertores com “nostalgia”. E “abertas por [Rubem] Berta” é de doer. O mundo do trocadilho, da paranomásia, abandona as exaustas alturas concretistas e aterrisa desastrosamente no cotidiano pseudoliterário da publicidade, dos slogans políticos, dos títulos de jornal, das teses universitárias, da má poesia e, claro, da crônica.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h47

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Shostakovitch

 

 

Mais do que os 250 anos de nascimento de Mozart, a efeméride musical de 2006 está sendo o centenário de Dmitri Shostakovitch (1906-1975). Mozart foi objeto de tantas gravações e livros em 1991, o bicentenário de sua morte, que o compositor russo agora atrai mais discussão.

 

Vulgar, bombástico, esteticamente conservador, propagandista do regime soviético: essa imagem esteve por muito tempo colada a Shostakovitch, até que uma interpretação contrária passou a predominar. Sabe-se com mais detalhes o quanto sua música foi reprimida pela polícia cultural stalinista. Em 1936, o próprio Stálin criticou, no “Pravda”, o “formalismo” dos compositores eruditos soviéticos, forçando Shostakovitch a escrever coisas mais ao gosto popular. Em 1948, o poderoso e célebre ministro da Cultura, Jdanov, voltou a condená-lo. A maior parte de suas obras foi proibida. No ano seguinte, Shostakovitch compôs um hino em louvor a Stálin; em 1951 tornou-se deputado no Soviete Supremo.

 

A questão é saber o quanto Shostakovitch obedeceu de fato às diretivas do regime, e o quanto as ironizou secretamente em suas obras. De modo que a vulgaridade e o triunfalismo de algumas obras, criticáveis se tomadas de forma literal, ganham outra complexidade se as entendermos como sarcasmo.

 

A prudência política do compositor é famosa. O número mais recente da revista “The Gramophone” recorda, por exemplo, uma anedota contada pelo pianista Sviatoslav Richter.  Shostakovitch assistia a um concerto dirigido (muito mal) pelo maestro Alexander Gauk. Ao seu lado, um amigo cochichou: “Dmitri Dmitrievich, que maestro horroroso!” Shostakovitch não ouviu direito o comentário e respondeu “Você tem razão... Esplêndido! Notável!” Percebendo que tinha sido mal entendido, o amigo repetiu a observação anterior. Aí Shostakovitch pôde concordar baixinho: “Horroroso, absolutamente horroroso”.

 

Ótimo artigo de David Fanning em http://www.gramophone.co.uk

Escrito por Marcelo Coelho às 09h34

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Paul Eluard

Paul Eluard

 

 

 

 

Na linha dos poemas de amor, como o de Sharon Olds que citei mais atrás, traduzo um poema do surrealista Paul Eluard (1895-1952), que apesar de surrealista privilegiava os temas e as palavras simples. Esse poema foi lindamente musicado por Francis Poulenc (1899-1963), um dos meus compositores preferidos. A música, naturalmente, compensa e “preenche” a falta de pontuação que sempre foi característica de Eluard, e o curioso, insólito aspecto de fala “recitada”, meio sonambúlica, como se ditada por um médium, desses versos.

 

Apagamos a luz seguro a tua mão continuo acordado

Eu te sustenho com todas as minhas forças

Gravo numa rocha a estrela das tuas forças

Sulcos profundos onde a bondade de teu corpo brotará

Repito para mim mesmo tua voz oculta tua voz em público

Ainda rio da pretensiosa

Que tratas como se fosse mendiga

Dos loucos que respeitas dos humildes em que te banhas

E minha cabeça se põe docemente de acordo com a tua com a noite

Fico maravilhado com a desconhecida em que te transformas

Uma desconhecida parecida contigo parecida com tudo o que eu amo

Que sempre é novo.

 

(Nous avons fait la nuit je tiens ta main je veille

Je te soutiens de toutes mes forces

Je grave sur un roc l’ étoile de tes forces

Sillons profond où ta bonté germera

Je me répète ta voix caché ta voix publique

Je ris encore de l’ orgueilleuse

Que tu traites comme une mendiante

Des fous que tu respectes des humbles où tu te baignes

Et dans ma tête qui se met doucement d’accord avec la tienne avec la nuit

Je m’émerveille de l’inconnue que tu deviens

Une inconnue semblable à toi semblable à tout ce que j’aime

Qui est toujours nouveau.)

Escrito por Marcelo Coelho às 22h36

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garfield

garfield

Nunca tive muita simpatia pelo Garfield, mas a graça do personagem estava na sua falta absoluta de senso moral, no desprezo felino pelo dono, no complexo balanço entre o esforço mínimo e a máxima satisfação de seus desejos ao mesmo tempo imensos e elementares.

 

“Garfield 2”, o filme, estraga muito o caráter da história. Dirigindo-se a crianças e a seus familiares, procura dar um sentido edificante ao que era arrematado cinismo. O gato é transportado para a Inglaterra, onde um sósia seu, Prince, vive num espetacular castelo, e acaba de ser contemplado com uma herança milionária. Um gato herdeiro de milhões não é coisa com que se resigne o principal parente da falecida, que fará tudo para matar Prince e ficar com a herança.

 

Temos assim um vilão suficientemente ridículo e idiota para arrancar alguns risos do público infantil, e para terminar vitimado pelas maldades (mais raras que os risos) de Garfield e Prince.

 

A falta de ritmo do filme é maior do que sua falta de graça. O que poderia ser uma grande apoteose felina, uma infernização completa do nobre malvado, termina de modo fácil e chocho. Especialmente incômoda é a participação de animais reais (gansos, porcos, papagaios, touros) na trama. O realismo e vivacidade dos movimentos de Garfield (a animação do personagem é muito boa) contrasta com a inexpressividade infilmável da bicharada coadjuvante.

 

Só vá se seu filho insistir muito, ou se você adorar o Garfield mais do que ele.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h21

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o pior futebol do mundo

No mesmo site em que está o anúncio do César Maia, há uma quantidade de vídeos, domésticos ou nâo, à disposição dos fanáticos de internet. Uma coleção de jogadas péssimas de futebol (inclusive um pênalti desastroso cobrado por Beckham) pode ser vista neste link : http://www.youtube.com/watch?v=vaFm47lsL2g&feature=Favorites&page=1&t=t&f=b

É para PFL nenhum botar defeito.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h31

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o rei da blogosfera

De todos os políticos brasileiros, o mais internauta é, sem dúvida, César Maia. Seu blog, agora chamado de "ex-blog" chega por e-mail aos "formadores de opinião", e nessa área o prefeito do Rio, com forte vocação de sociólogo, não tem rival. Entrou numa viagem meio estranha de contestar tecnicamente as pesquisas de opinião, com argumentos que não são toscos, mas que parecem insuficientes para fazer alguém duvidar do favoritismo de Lula. Agora, César Maia veio com uma outra inovação: sua futura propaganda para governador do Estado do Rio está disponível num link, para que seja avaliada na primeira "pesquisa qualitativa" entre internautas. Vai aqui o link, como curiosidade, embora o anúncio em si seja menos inovador do que o meio utilizado. http://www.youtube.com/watch?v=NeSJGZ8BMRU

Escrito por Marcelo Coelho às 11h18

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Chico Buarque

O amigo José Paulo Toledo me mandou um e-mail sobre o artigo que escrevi sobre Chico Buarque. Ele queria postar como comentário mas parece que estava travando. Aqui vai:

Em “Subúrbio”,Chico contrapõe a periferia a um Rio que já não há,de cartão postal apenas.O Rio Zona Sul em que de fato se vive--e não aquele meramente visual--,ele já desvelou em “O meu Guri”, “Pivete” e, há dezessete anos, na bela e apocalíptica “Estação Derradeira”.O verso “São Sebastião crivado, nublai minha visão” do samba diz tudo: ali, Chico também se furta a propor solução para os problemas sociais do “seu” lado da cidade. Apenas os diagnostica.  Sua última música politicamente ativa foi “Pelas Tabelas”, na época das Diretas Já. De lá para cá, de desalento em desalento, às vezes apenas grita. Já é muito, numa MPB para a qual a mídia há tempos dá as costas, tal qual o Cristo para o subúrbio. Ouça com atenção todas as faixas de “Carioca”, mesmo que não seja a sua praia. Nada é gratuito no CD, como sempre ocorre em se tratando de Chico: metáforas, frases de duplo sentido, citações-- Montaigne, Drummond, Vinícius, Tom, Quintana. Para mim,o melhor, desde"Ópera do Malandro".

Escrito por Marcelo Coelho às 11h03

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voltaire de souza: link...

 

... da coluna de hoje

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1506200602.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 10h30

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questão técnica

Essa coisa de ficar mandando posts “picados” pode transformar alguns assuntos em novela, em seriado. De certo modo, é o princípio do “folhetim”, que para nós têm o sentido de um romance serializado, que os jornais publicavam em capítulos, como foi o caso das obras de José de Alencar e Machado de Assis. Mas o termo “feuilleton”, em francês, tem também o sentido de página de variedades, suplemento cultural. Até hoje, nos jornais alemães, o caderno de cultura é chamado “feuilleton”.

 

O problema dos posts em continuação é que eles acabam sendo lidos, no blog, em ordem inversa: o número 2 aparece antes do 1, etc. Qualquer dia inventam um dispositivo para ler os blogs de trás para diante. E para mim não teria graça escrever “ao contrário”: fazer o texto inteiro e depois picá-lo segundo a ordem de leitura. Problemas técnicos, enfim.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h12

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uma fada (2)

uma fada (2)

 

Estava contando a história de “Ondina”, romance de La Motte-Fouqué. A aparição da pequena jovem, no capítulo 1, é de um encanto muito grande, pelo que tem de mistura do natural e do sobrenatural.

 

No início, há uma floresta fantasmagórica, da qual nada sabemos; os personagens --um velho pescador e o belo cavaleiro Huldbrand-- referem-se apenas indiretamente aos poderes assustadores da floresta. Tudo, por enquanto, está num clima de domesticidade hospitaleira e simples. Huldbrand é convidado a passar a noite na cabana do pescador, a mulher do pescador, uma velhinha, está sentada costurando, uma cadeira meio bamba é oferecida para Huldbrand.

 

Ouve-se o chapinhar da água; depois, borrifos na janela; um risinho. É Ondina, querendo entrar. O pescador diz que se trata da sua filha adotiva. A mulher do pescador reclama das constantes traquinagens da menina, que já teria uns dezoito anos. Não tem paciência para tanta indisciplina, para tantos caprichos de menina mimada. Nada mais corriqueiro e prosaico. A arte de La Motte-Fouqué está em introduzir aos poucos uma sensação de estranheza, sem perder em nenhum momento a extrema naturalidade da narrativa, e das atitudes dos personagens.

 

“Nesse momento a porta foi aberta bruscamente e uma linda loirinha entrou ágil e sorridente, dizendo:

 

--O senhor estava apenas fazendo troça de mim, meu pai. Onde está afinal o seu hóspede?

 

No mesmo instante, porém, ela já divisara o cavaleiro e ficou parada, atônita, diante do belo mancebo. Huldbrand deleitou-se à vista da graciosa figura e dispôs-se a fixar na memória com muita atenção aqueles traços encantadores, supondo que só teria tempo para isso enquanto durasse o assombro da donzela, pois, logo a seguir, ela se esconderia de seus olhares, tomada de acanhamento redobrado. Sucedeu, porém, algo bem diferente. Pois, após o observar durante um bom tempo, ela aproximou-se confiante, ajoelhou-se diante dele e, brincando com um pequeno adorno de ouro que ele trazia ao peito em uma preciosa corrente, disse:

 

--Ah, como foi que você, meu belo e gentil hóspede, chegou por fim até a nossa pobre cabana? Terá sido mesmo necessário que vagasse anos a fio pelo mundo até nos encontrar? Você está vindo da floresta erma, meu formoso amigo? (...)

 

O velho pescador agiu como costumam agir os pais de crianças mimadas: fez como se não tivesse notado a má conduta de Ondina e fez menção de introduzir um outro assunto. Mas a jovem não lhe deu chance para isso, pois disse:

 

--Perguntei de onde veio nosso amável hóspede, e ele ainda não me respondeu.”

 

Sentimos que Ondina sabe alguma coisa que os demais personagens desconhecem; é senhora da situação, e ao mesmo tempo procura algo que só os outros lhe podem dar.

O pescador se inquieta; não quer que ninguém fale da floresta. Furiosa, impulsiva, atrevida, Ondina abre a porta da cabana. “E correu pela tenebrosa noite adentro”.

O primeiro capítulo pode ser lido na íntegra no site da livraria cultura: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=5043740&sid=201130358615407797259946&k5=267AB340&uid==

Escrito por Marcelo Coelho às 09h56

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uma fada

uma fada

“Ondina”, de Friedrich de La Motte-Fouqué (1777-1843) é uma das mais encantadoras histórias de amor e de fadas do romantismo alemão, e acaba de ser traduzido por Karine Volobuef para a editora Landy.

 

Em poucas linhas, sem nenhuma descrição desnecessária, o primeiro capítulo dessa curta novela (148 págs.) nos apresenta a jovem Ondina, com uma graça, uma arte incomparáveis.

 

A história começa com o clássico “Era uma vez...” e fala de um velho pescador, morando numa cabana à beira de um lago, que vê uma forma branca se aproximar. O pescador se inquieta: ali perto existe uma floresta cheia de lendas e fantasmagorias.

 

Mas não é nenhum fantasma. É um belo cavaleiro que pede abrigo: “há diante de nós um extenso lago, e, quanto a retornar à estranha mata ao cair do crepúsculo, Deus me proteja disso!”

 

“Não falemos demasiado sobre isso --disse o pescador, e conduziu seu hóspede para dentro da cabana.”

 

Lá dentro, o interior doméstico, tão do agrado dos alemães, dissipa toda ameaça fantástica. A velha mulher do pescador, sem sair de onde está sentada, indica-lhe uma pequena cadeira de braços “bastante cômoda”; “apenas o senhor não deve empurrá-la para lá e para cá muito impetuosamente, pois uma das pernas já não está lá muito segura.”

 

O pormenor prático, corriqueiro, nos leva de volta ao mundo real. A conversa flui entre o cavaleiro e o pescador, mas é interrompida...

 

“Ao longo da conversa, o forasteiro já tinha ouvido de quando em quando um chapinhar junto à janela pequena e baixa, como se alguém estivesse borrifando água contra ela. Sempre que se faziam ouvir esses ruídos, o velho pescador franzia a testa, contrafeito. Ao final, porém, quando todo um jato foi lançado contra as vidraças, respingando água para a saleta através da esquadria mal vedada, ele ergueu-se aborrecido e bradou ameaçadoramente em direção à janela:

 

--Ondina, pare de uma vez com essas infantilidades! Ainda mais hoje, quando temos um senhor estranho na cabana!

 

Do lado de fora realmente se fez silêncio, ficando audível apenas uma risadinha em voz baixa, e o pescador disse ao retornar:

 

--O senhor, meu honrado hóspede, terá que desculpar isso e provavelmente algumas diabruras mais, contudo, ela não o faz por mal. Trata-se de nossa filha adotiva, Ondina, que não consegue perder o costume de fazer traquinices, muito embora já deva contar dezoito anos. Mas, como já disse, no fundo, ela tem um ótimo coração.”

 

Logo em seguida Ondina aparecerá, uma mocinha linda, tão instável, graciosa e fugitiva como um regato... e o encanto começa.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h37

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Bilac (2)

Bilac (2)

De volta a Olavo Bilac. Os dois volumes de suas crônicas completas (espero que completas: mais um livro desses e peço água) somam umas 1500 páginas. Escrevendo sem parar, num tempo em que os artigos de jornal tinham de ser bem maiores do que hoje, o poeta ficava sem fôlego e recorria a lugares-comuns.

“Ah! a fome do ouro! Em que arriscados passos não se mete a gente, por amor do lindo metal, que a Natureza previdente armazenou no seio da terra, disfarçando-o em amálgamas vários, como para esconder da nossa cobiça essa fonte perene de horrores e sangueiras! Por amor dele, a alma se endurece, o coração fica seco como um areal, afiam-se as unhas à Rapina, aguçam-se os dentes à Traição, e o espírito, excitado pelas tentações, inventa requintes de crueldade, cria prodígios de astúcia”.

Outras vezes, depois do muito que “torce, aprimora, alteia e lima”, como diz seu poema “Profissão de Fé”, Bilac faz reluzir uma pepita de expressão em meio ao seco areal em que se esfalfa. Guarda-a com ciúme, para engastá-la nas mais variadas ocasiões.

Desse modo, Bilac celebra a derrota de Canudos com exaltações retóricas preciosas: “Enfim, assaltada e vencida a furna lôbrega, onde a ignorância, ao mando da ambição, se alapardava perversa! Enfim, desmantelada a cidadela-igreja, onde o Bom-Jesus facínora, como um cura Santa Cruz de nova espécie, oficiava, tendo sobre o espesso burel a coronha da pistola assassina!”

Dez dias depois, outro assunto: dois cadáveres de passageiros clandestinos são encontrados no porão de um navio inglês. “Pobres! quando no primeiro dia de viagem o ar começou a faltar naquela furna lôbrega, quando a sede cruel começou a requeimar-lhes as entranhas, gritaram, choraram, rugiram. Quem poderia ouvi-los? no navio, as máquinas trabalhavam com fragor; fora do navio, as ondas estardalhaçavam; os ventos zuniam. E todo mundo na tolda, trabalhava, ria, conversava, --vivia... e ninguém poderia imaginar que ali em baixo estavam duas criaturas que se estorciam, que lentamente agonizavam, no mais cruel, no mais trágico, no mais espantoso dos martírios!” 

“Furna lôbrega”? Às vezes, é melhor deixar os mortos em paz.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h20

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presidente Parreira

Pronto. Um jogo e todo mundo já virou técnico da Seleção. “Tirem o Ronaldo”. O pobre jogador virou uma espécie de Zé Dirceu, e os brasileiros, como Roberto Jefferson, ordenam a uma só voz: “Sai, Ronaldo. Sai daí.”

 

Tenho a impressão de que o governo Lula ganhou em agilidade, de fato, quando Zé Dirceu saiu. Coincidência ou não, uma série de projetos do Executivo começaram a aparecer, fortalecendo a impressão de que Zé Dirceu travava demais o jogo, centralizando tudo em dezenas de comissões.

 

Que Dilma seja uma espécie de Robinho, e que Robinho seja uma espécie de Dilma, é paralelo que não arrisco. Mas o papel de Parreira não deixa de ser tão “político” quanto “técnico”, envolvendo a administração de pessoas reais, e não a substituição de peças num mecanismo qualquer. Seguir o movimento público de execração de Ronaldo exigiria muita insensibilidade para com a circunstância humana do jogador. Não sei que efeitos isso teria sobre a equipe, sobre o grau de confiança mútua entre jogadores e técnico.

 

Tudo o que Ronaldo não mostrou no jogo já deveria estar evidente nos treinos. Se fosse para deixá-lo no banco, isso deveria ter sido feito desde a primeira partida. Agora, seria admitir um erro. Coisa difícil de fazer para governantes, embora muitas vezes inevitável no fim das contas. Qual o peso, sobre Robinho, de escalá-lo no lugar de Ronaldo? Qual o peso de não escalá-lo? Cuidar das vaidades, das rivalidades, da autoconfiança da equipe, não é tarefa sobre a qual se possa opinar de fora  --e Parreira tem de pensar em tudo isso também.    

Escrito por Marcelo Coelho às 09h25

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voltaire de souza

É este o link de hoje: http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1406200603.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 23h45

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Bilac em BH

Bilac em BH

Para uma resenha, leio as crônicas de Olavo Bilac, editadas por Antônio Dimas (“Bilac, o Jornalista”- Edusp). Há muita literatice por enquanto, descrições de paisagens que são, ou eram, puro clichê.

 

Em 1893, ele está a caminho de Ouro Preto, e escreve para a “Gazeta de Notícias” coisas assim: “caio na vida simples dos campos, com a alma a espreguiçar-se voluptuosamente no seio verde e fecundo da natureza.”

 

Quatro anos depois, ele ocuparia o lugar de Machado de Assis como cronista fixo do jornal.

 

Mais interessante é a sua descrição de Belo Horizonte, que acabava de ser designada como futura capital do Estado. Tratava-se, na época, de uma vila, que atendia pelo nome de Curral del Rei. Olavo Bilac tem uma surpresa.

 

“Supunha eu encontrar em Belo Horizonte uma ou duas dúzias de casas rústicas, num arraial quase morto, mergulhado num silêncio melncólico. Em vez disso, acho uma área povoada de mais de dois mil metros quadrados, em que levantam talvez duzentas casas --comércio animado, lavoura, curtumes, igrejas, dois hotéis, população alegre, sadia, obsequiadora sem aborrecer, discreta sem matutice, e --principalmente... muitas moças que nada têm de feias...”

 

Gosto desse “discreta sem matutice”; e, quanto às moças, Olavo Bilac podia ser parnasiano, mas nada tinha de marmóreo.

O Curral del Rei, onde mais tarde seria construída Belo Horizonte

 

Escrito por Marcelo Coelho às 21h02

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o balde

No post anterior, falei de tsunami. Bem disse um leitor: é que eu não tinha assistido a porcaria do jogo. Não foi tsunami: foi um balde de água fria. O que mais me irrita é que, mesmo me considerando lúcido, entrei no mesmo otimismo de todo mundo. Reencontro agora os motivos que me fazem perder o interesse pelos jogos da Seleção (dos outros nem falo): as conhecidas vitórias suadíssimas, aquele tetra que ganhamos nos pênaltis, o corpo mole dos craques pagos a peso de ouro. E me vem o espírito de recriminação: alguns exemplos.

Vejo os jogadores fazendo propaganda de tudo: pepsi-cola, celular, bancos, e logo invento uma explicação: eles ficam gravando tanto anúncio que não têm tempo de treinar direito.

Depois a raiva se concentra na Rede Globo. Fátima Bernardes, por exemplo, diz que a vitória contra a Croácia foi difícil, foi suada etc... para concluir em seguida: "como todo jogo de Copa do Mundo". Ou seja: caro espectador, você não pode se decepcionar, não pode sair do clima que armamos para você. Se nós, da Globo, ficarmos excessivamente desanimados, isso seria um crime de lesa-pátria. Você tem um compromisso conosco: sua esperança é nossa audiência. Os políticos, desde Juscelino, Médici e Maluf, pegaram carona nos sucessos da seleção. A Globo não pega carona; é o próprio carro, e faz de todo jogo um sucesso, mesmo quando admite que não foi fácil.

Por último, vem a recriminação contra mim mesmo. Não só por ter entrado na onda. Mas também por me decepcionar depois. Então eu estava torcendo mais do que pensava. Pior: fui vítima de uma ilusão retrospectiva, de um engano ao avesso. Explico: também na Copa de 70, passamos por dificuldades, houve erros e problemas. Não tantos, é verdade, mas houve. Acontece que, na minha memória, recomposta por centenas de repetições dos gols e das melhores cenas, parece que desde o momento em que entramos no campo contra a Tchecoslováquia a nossa vitória já estava inscrita no destino. Como tudo deu certo, já estava certo desde o início. Esqueço os sufocos contra a Inglaterra e contra o Uruguai, e cada jogador daquela época se torna perfeito. Não há, assim, comparação possível com os nossos zumbis de Berlim.

Melhor ter calma. A temporada de bolas fora está apenas começando.

,  

Escrito por Marcelo Coelho às 20h53

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tsunami

Não sou ligado em futebol, mas no momento em que escrevo (11 da manhã) o clima da cidade vai-se cercando de uma expectativa quase insuportável. A calmaria, o silêncio interrompido raramente pelo som bovino de uma corneta, dá idéia de uma força imensa represada, do mesmo modo que, antes do famoso tsunami, o mar recuou quilômetros sem dar aviso.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h03

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trailer

Para o artigo de quarta-feira na Folha, fiquei ouvindo o novo disco de Chico Buarque, “Carioca”. Concentrei-me na primeira faixa, “Subúrbio”, que me pareceu recriar, quase quarenta anos depois, o clássico “Gente Humilde”, que Chico Buarque fez em parceria com Garoto e Vinícius de Morais. Recriação estranha, contudo, como que distorcida, turvada por um sentimento cada vez maior de estranheza entre “o povo” e “as elites”, como virou moda classificar a gente que não é nada humilde.

 

Só o fato de se falar em “elites” no plural já tem algo de eufemístico. O subtexto é que há várias elites, a cultural, a social, a política, a esportiva... o que desencarna o conceito de qualquer pessoa real, e permite pensar que também esse mínimo estrato da sociedade há pluralidade, pessoas de todos os tipos, multidão. Se alguém condenasse apenas “a elite”, a conotação seria de que é possível substituí-la ou eliminá-la. Quando se fala de “elites”, o suposto inimigo fica sem endereço certo.

 

Mais eufemístico ainda é o termo “classe média alta”. Não há bairros de classe alta no Brasil: só “de classe média alta”. Mas enfim, para quem quiser ler mais sobre o novo disco de Chico Buarque, Arthur Nestrovski escreveu uma análise aprofundada e extremamente atenta na revista eletrônica “Erratica”: http://www.erratica.com.br/opus/59/index/html

Escrito por Marcelo Coelho às 09h22

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Sharon Olds

Sharon Olds

Escrevi sobre um filme infantil, referindo-me de forma depreciativa ao fato de ser “de mulheres, sobre mulheres, para mulheres”. O poema do post anterior foi escrito de uma ótica feminina a mais não poder, mas diz respeito a seres humanos de todos os sexos, e vai bem para um Dia dos Namorados. Tirei-o da “Antologia de Poesia Norte-americana Contemporânea” (editora da UFSC/coleção Paideuma). Tomei a liberdade de mudar só duas palavras da ótima traduçãode Maria Lúcia Milléo Martins, uma logo no começo do poema, que ficaria estranha assim de cara: “comados”, que substituí por “envoltos”. No final, usei um gerúndio em vez da forma verbal simples, por razões que ficarão claras, acho, quando o leitor chegar lá.

Outro poema da autora, e dados biográficos, podem ser encontrados em http://www.revistazunai.com.br/traducoes/sharon_olds.htm

veja mais em http://www.english.uiuc.edu/maps/poets/m_r/olds/olds.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 22h24

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um poema

um poema

 

O CONHECER

 

Sharon Olds

 

Depois de termos dormido, paraíso-

envoltos, e acordado, ficamos um bom tempo

olhando um para o outro.

Não sei o que ele vê, mas vejo

olhos de extrema ternura

e calma, uma calma como a dignidade

da matéria. Amo o mar aberto

verde-cinza-azul de sua íris, amo

a curva que desenha contra o branco,

a visão daquela curva que me fez

gozar, quando ele estava imóvel, fundo

dentro de mim. Nunca vi uma curva

como aquela, exceto a Terra vista

do espaço. Não sei de onde vem

sua bondade sem amor a si mesmo,

quase sem si mesmo, e ainda assim

escolheu uma mulher, ao invés das outras.

Por conhecê-lo, passo a entender

a pureza do animal

que se acasala pela vida. Às vezes ele sorri

levemente, mas quase sempre apenas olha-me fixo o olhar,

o rosto todo iluminado. Amo

vê-lo mudar quando choro -- não há cuidado,

não há pena, um brilho mais grave. Se

nos deitamos de costas, lado a lado,

com nossos rostos inteiramente voltados um para o outro,

posso ouvir uma lágrima do meu olho mais baixo

tocar o lençol, como se fosse o começo de um dia na terra,

e então as lágrimas do olho mais alto

trançam e inundam a sobrancelha de baixo,

como a invenção de lavrar a terra, irrigar, um povo não-nômade.

Tenho tanta sorte de poder conhecê-lo.

Esta é a única forma de conhecê-lo.

Sou a única a conhecê-lo.

Quando acordo de novo, ele ainda está olhando para mim,

como se fosse eterno. Por uma hora,

acordamos e cochilamos, e lentamente percebo

que mesmo saciados, mesmo quase não nos

tocando, esse é o limite do gozo

a que nos trouxe o outro gozo --entramos

mais e mais fundo, olhar por olhar,

nesse lugar além dos lugares,

além do próprio corpo, estamos fazendo

amor.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h22

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voltaire de souza

O link para a coluna do voltaire de hoje é

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1306200603.htm

infelizmente, como já avisado, por orientação da Folha Online trata-se de conteúdo exclusivo dos assinantes.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h24

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a piada pronta

Segundo a “Folha”, os organizadores da campanha de Alckmin pretendem mudar o nome do candidato para “Geraldo”, de modo a conquistar os indecisos. É mesmo o país da piada pronta. 1) O PSDB não consegue nem sequer decidir qual o nome a ser utilizado pelo candidato, e espera que o eleitorado indeciso se decida. 2) Sem poder mudar de candidato, como gostaria, pensa em mudar seu nome. 3) Com o PSDB sempre acusado de ambiguidade, o voto dos indecisos deveria ser seu por definição.

 para assinantes do uol, a notícia está disponível em

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1206200607.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 21h15

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Liszt

 

 

A TVA tem sobre a NET uma grande vantagem, que é o canal Film & Arts. Não confunda com o canal People & Arts, que é a banalidade pop dos top models e dos costumes contemporâneos. Liguei agora o Film & Arts e estava no ar um concerto de Lazar Berman, tocando Liszt.

 

“Il Pensieroso”, “Soneto 104 de Petrarca”, “Tarantela”: imagino o quanto aquilo deve ter soado moderno em 1880. Ao mesmo tempo, tudo aquilo soa muito antigo hoje em dia: um certo patetismo de salão, muita ornamentação que, embora angulosa e extravagante, mais do que nunca se revela ornamentação.

 

Não deixa de ser irônico que Liszt, dos compositores românticos o mais comprometido com a “música do futuro” de Wagner, hoje soe como “música do passado”, às vezes um dinossauro da vanguarda técnica sobrevivendo nas salas de concerto, enquanto um modernista como Schumann, um clássico como Brahms, e um intemporal como Chopin, atraem imensamente mais nosso interesse.

 

Em seguida, Lazar Berman toca uma Polonaise de Chopin. Justamente o Chopin mais lisztiano, sobre quem também declinam as atenções.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h48

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limites (4)

Escrevi bastante sobre como impor limites às crianças, e de que modo a coisa deu certo com meu filho de 4 anos. Mas pode ser que entre causa e efeito haja mais do que supõe nossa vã filosofia. Meu filho mudou do dia para a noite desde que cortei televisão e outros privilégios aparentemente inofensivos. Mas nunca podemos saber se isso funcionaria em outro dia, em outra criança, em outra situação. Há também o misterioso fator que se chama “a fase”, a mudança de fase a que estão repentinamente submetidas as vicissitudes do desenvolvimento infantil.

 

Um paralelo que talvez seja ilustrativo. Algum tempo antes de meu primeiro filho nascer, passei a sofrer com problemas de coluna. Depois do nascimento dele, piorou muito, é claro, pois eu tinha de carregá-lo no colo. Cheguei a usar bengala, porque houve momentos em que cada passo me parecia impossível.

 

Lógico que dezenas de pessoas vieram me dar conselhos. “Acupuntura foi o que resolveu para mim.” “Para mim, hidroginástica.” “Celebra 200, dois comprimidos antes de dormir.” “Use tênis”. “Colchão kenko-patto”. “Ultrassom”.

 

Tentei um monte dessas coisas, e nenhuma fazia efeito. Até que comecei a fazer exercícios muito cuidadosos com uma personal trainer, e tudo passou.

Sem desmerecer os exercícios, a personal trainer e eu mesmo, acho que determinadas coisas passam simplesmente porque era a hora de elas passarem. Acontece que, para o indivíduo X, a dor passou no mesmo tempo em que esse indivíduo fazia acupuntura; para o indivíduo Y, passou na época de  seu ultrassom.

 

Não fosse assim, não haveria tantas receitas diferentes --e eficazes-- contra o mesmo mal. E não haveria explicação para o fato de uma receita eficaz para um indivíduo ser totalmente inócua para outro.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h15

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sorriso

sorriso

Este cartaz, fotografado em São Paulo, mas não me lembro em que bairro, corresponde de certo modo ao subgrupo "canibal" --o dos anúncios de salsicha em que o porquinho está feliz e com apetite, o dos cartazes de dentista em que o dente extraído tem, ele próprio, boca e dentes que sorriem, o dos cartazes de pesqueiro em que o peixe mostra sua euforia... aqui, a boca com apetite é a da embalagem da pizza que será comida.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h48

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Guy Debord

Guy Debord

“A Sociedade do Espetáculo”, de Guy Debord. Para um livro escrito em 1967, é admirável o que tem de profecia:  “O sistema econômico fundado no isolamento é uma produção circular do isolamento. (...) Do automóvel à televisão, todos os bens selecionados pelo sistema espetacular são também suas armas para o reforço constante do isolamento das “multidões solitárias”. O espetáculo encontra sempre mais, e de modo mais concreto, suas próprias pressuposições.”

 

A idéia é que cada indivíduo, na sociedade contemporânea, é resultado de um processo de isolamento mais antigo, o do sistema de produção industrial. Antes, um artesão ou camponês trabalhava em conjunto com seus iguais. No moderno sistema industrial, ele produz apenas uma peça de um produto, num processo que não controla. Como David Riesman, em “A Multidão Solitária” (ed. Perspectiva), Debord vê o tempo livre, o ócio dos indivíduos,  como nada mais que um outro “turno de trabalho” a serviço do capital. Automóvel e televisão são formas de isolar uma pessoa da outra, deixando-a passiva diante da contemplação de poderes que ela não controla.

 

Profético, sem dúvida, porque o computador exacerba esse isolamento.

 

Mas incomoda no texto de Debord o estilo abstrato-filosófico que ele adquiriu das leituras de Hegel e do jovem Marx:  “O espetáculo, como a sociedade moderna, está ao mesmo tempo unido e dividido. Como a sociedade, ele constrói sua unidade sobre o esfacelamento. Mas a contradição, quando emerge no espetáculo, é, por sua vez, desmentida por uma inversão do seu sentido; de modo que a divisão é mostrada unitária, ao passo que a unidade é mostrada dividida.”

 

Frases desse tipo seriam a aplicação de um modelo teórico? Seriam fruto de uma necessidade de exatidão conceitual? Ou --é o que me parece-- seriam antes um pastiche, um simulacro, de Hegel?

Escrito por Marcelo Coelho às 00h44

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de Belém

de Belém

Aqui vai a foto de um cartaz enviada pelo leitor Edelberto, de Belém. Faz parte do subconjunto "garçons".

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h55

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novas doenças

Desculpem. Fiquei nocaute o dia inteiro. A gripe começou com calafrios desde sexta, e passo agora o domingo querendo só dormir. Pode ser um caso de bloguite. Bem que avisei, num dos primeiros posts, que eu não levava jeito para workaholic. Escrever para o blog me viciou rapidamente, e me conheço. Quando dava aulas, a gripe vinha logo na segunda semana do ano letivo: é uma resistência, não apenas ao trabalho, mas ao ato de me oferecer aos outros, de ficar a serviço de alguém; um surto de egoísmo.

 

Mas prometo que este blog não será veículo de confidências pessoais. Há fatos objetivos em jogo também: todo mundo fica com gripe em São Paulo. Pode ser a poluição, etc., mas tenho um suspeito melhor. Para mim, a culpa de tantos surtos de gripe é a vacina antigripe. Quem toma, se livra (talvez). Quem não toma, está às voltas com tipos de vírus cada vez mais poderosos e resistentes. Há fatos obketiobops  

 

Na frase anterior, cometi um erro gramatical, o de separar sujeito e predicado com vírgula. Tentei corrigir e a frase ficou estranha. Talvez a linguagem do blog exija a vírgula, nesse caso, como um marcador da coloquialidade, uma imitação da fala.

 

Antigamente, pneumonia era coisa raríssima, que pegava só em organismos muito debilitados. Hoje é banal. Outra doença de que ouço falar o tempo todo, e que antes não era tão comum, é diabetes. Passei por uma farmácia que tinha até faixa promocional de remédios para diabéticos. Certamente, os hábitos alimentares mudaram: menos gordura, quem sabe, mas também mais açúcar.

 

Existe também a evolução dos diagnósticos médicos. Levei meus filhos pela primeira vez ao dentista. Não havia nenhuma obturação a fazer. “Que bom”, disse a eles, “vocês não têm cárie”. O dentista me corrigiu. Eles tinham vários pontos de enfraquecimento do esmalte, o que modernamente já é considerado cárie, ainda que não existisse nenhum buraquinho. O tratamento para a “cárie” teria de ser feito, com aplicações de flúor. Não era necessário usar o motorzinho, mas cárie havia.

 

Li no “Estado” sobre o aparecimento de nova doença, que já se verifica atingir 7 % da população americana. Surtos de raiva extremada. Antes, dizia-se que a pessoa tinha pavio curto. Essa pessoa acaba de ser transferida para o universo, mais preocupante e supostamente administrável, da doença psíquica.

 

Os exércitos da Normalidade cercam mais um reduto da personalidade individual. O que antes era traço subjetivo, característica individual de Fulano ou Beltrano, torna-se agora uma síndrome de ocorrência generalizada. Logo, a subjetividade desaparecerá, reduzida a um conjunto de variáveis capazes de quantificação e mapeamento, como o genoma. E nosso querido “eu” terminará afundando nas trevas do inconsciente. Caro Ego, adeus. Bem que prometi não fazer confidências neste blog. 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h51

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Caché

Caché

Poucas vezes vi a platéia levar tamanho susto como em “Caché”,  extraordinário filme de Michael Hanecke. Não é filme de terror, nem mesmo um policial psicológico: trata-se de uma história de paranóia e culpa, em que um bem-sucedido apresentador de televisão (Daniel Auteuil) começa a receber fitas de vídeo registrando suas próprias atividades, além de bilhetinhos com imagens sinistras: o desenho de uma criança vomitando sangue, por exemplo.

 

Nas fitas de vídeo, não se vê nada de anormal. Uma delas mostra apenas a frente da casa do apresentador, filmada horas a fio, com o tedioso vaivém dos que passam pela rua.

 

Muita gente reclama de filmes europeus e iranianos  porque neles pouca coisa acontece. Um dos segredos de Michael Hanecke foi de empregar esse estilo do “não-acontecimento” num contexto de extrema tensão e ameaça, de modo que o espectador, assim como os personagens ameaçados, ficam com os olhos grudados na tela, à procura do menor indício suspeito, enquanto a câmera se fixa longamente num mesmo cenário.

 

Outro segredo de “Caché” está no fato de o protagonista não despertar muita confiança. Embora certamente esteja sendo vítima de alguma vingança do passado, ele se comporta de modo reticente, esconde informações de sua mulher (Juliette Binoche, excelente), tem algo de inconfessável na memória.

Ao passo que as pessoas de quem ele desconfia, sendo pobres e argelinos, transmitem uma impressão de máxima simplicidade e inocência.

 

Pensei um bocado no final do filme, que aparentemente deixa tudo no ar. O apresentador de televisão não nos convence, mas a sua versão dos fatos é a única que daria coerência a tudo o que se passou. Se for assim, para entender a história do filme precisamos recorrer a certo grau de incorreção política  --culpando os argelinos, e tomando como vítima um europeu que se comportou de modo odioso no passado.

 

Duas questões políticas estão em jogo: a primeira, muito contemporânea, é a da invasão da privacidade, da sensação de podermos estar sendo vigiados o tempo todo por câmeras ocultas, correndo o risco, em seguida, de sofrer com  manipulações e montagens do material gravado. A segunda questão é a da herança do passado colonial na Europa: a discriminação atual contra os povos árabes, e a carga de culpas pelos crimes cometidos nas guerras coloniais. A institucionalização do uso da tortura pelo exército francês e os assassinatos em massa cometidos pelo chefe de polícia de Paris, Maurice Papon, nos anos 60, constituem o pano de fundo de “Caché”.

 

Que grau de consciência poderia ter um menino de 6 anos (idade do protagonista nessa época) sobre os atos de perfídia que cometeu? Quarenta anos depois, o personagem, constantemente nega ter tido alguma culpa no que quer que seja. Mas, escondendo a culpa que diz não ter tido, torna-se culpado mais uma vez. As suspeitas do espectador são alimentadas habilmente, e para isso Michael Hanecke se serve de um recurso simples e genial: por vezes, não sabemos se o que está sendo projetado na tela é o filme propriamente dito, ou se são as gravações suspeitas que o protagonista recebeu.

 

De novo, a questão da verdade e da “mentira moderna” de que falava Hannah Arendt (ver mais abaixo). E uma questão psicológica ligada a isso: quanto de fatos reais, e de culpa real, é preciso para se construir uma paranóia?    

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 10h41

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bingos

O relator da CPI dos Bingos propõe que estes sejam regulamentados. Recebo da psicanalista Anna Veronica Mautner um artigo sobre o tema, cujos trechos principais transcrevo.

 

Falar sobre “jogo” exige de imediato que se diferencie distração de compulsão. De vez em quando, fazer um joguinho ou participar de um Bingo beneficente é bem diferente da forma de jogar, apesar de ser o mesmo jogo, daqueles que são dependentes desta atividade para continuar vivendo.

Enquanto joga, a gente se desliga. Isto mesmo, esquecemos dores e todos desconfortos do dia-a-dia. No ritmo do – de vez em quando – é um entretenimento inocente como qualquer outro. Quando vira compulsão, torna-se fim em si. Isto só ocorre quando, para o jogador, tudo o mais perdeu a graça, quando não espera mais nada, quando a desolação já se instaurou. Neste momento, o que podia ser distração se torna substituta da esperança desvanecida. Na hora em que não sentimos que possa existir qualquer progresso nem perspectiva de mudanças para o bem, quando não ousamos mais desejar -  fomos tomados de uma doença grave –  a falta de esperança, e esta tem graves conseqüências. É por aí que os jogos podem se transformar em pura adrenalina ingerida pelo olho: veio a carta esperada, a bolinha vai cair no número que joguei, fiz Bingo?

A desesperança freqüentemente vem mais cedo para mulheres e é por isso que a freqüência dos Bingos tem predominância feminina. Já tiveram seus filhos, não se sentem mais desejadas, o mercado de trabalho as rejeita.

O vazio interior que acompanha a desesperança é facilmente preenchido por uma frequentação em lugar onde o que vale é a Sorte, não beleza, forças de mercado ou mesmo competência. Não se trata de atividade que dura alguns minutos – são horas e horas que as pessoas podem viver a sua própria solidão sem dor. Ali, exercendo o vício de jogar, seja Bingo, carta ou roleta, estão a salvo de suas angústias.

Poderia contar muitos casos de viciados em jogo que têm dificuldades de sociabilidade. Jogar é fugir da solidão, é não ter com quem ou o que conversar, basta  ter o comportamento adequado para não ser excluído. No carteado, jogar bem exige sorte, competência e entrosamento interpessoal; no Bingo, nem isso é preciso. É cada um por si – solitários desligados de sua própria solidão. O Bingo é herdeiro dos velhos cassinos, com uma diferença importante: a freqüência aos cassinos era menos democrática do que aos Bingos, que atingem em cheio as classes populares. Basta que a gente veja a localização dos Bingos pela periferia afora.

O Bingo tem uma especificidade: por enquanto é vício de “alta maturidade”. É o vício que ocorre na solidão e a mantém. Bebe-se junto, no começo droga-se junto. O vício da jogatina vem depois que se deixa pra trás toda a esperança.

(...) O curioso é que Bingo não precisa nem de propaganda. O boca a boca alimenta a indústria de adrenalina deste novo ramo da população, o MSE, a saber: Movimento dos Sem Esperança.

Escrito por Marcelo Coelho às 09h47

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dicas (3)

dicas (3)

O ponto forte de “Papagaio Real” (no teatro Folha, sábados e domingos às 17h40, até 25 de junho) são os figurinos, muito inventivos e variados, criando bichos insólitos mas sem o grotesco que freqüentemente assombra os espetáculos infantis. Muito bonitas, também, as cenas em que o Papagaio Real (desnecessário dizer que era um príncipe) visita a heroína em seu quarto de dormir: o jogo de sombras tem delicadeza e fantasia.

 

A história é um conto de fadas que às vezes lembra Cinderela, outras vezes o Pássaro de Fogo, ou tudo o mais que for parecido com isso, sem alcançar um traço próprio. Apesar dos bons efeitos na percussão, os espectadores pequenos talvez se ressintam de falta de música, e para os maiores o final da peça tem algo de chocho.

 
Mas estou sendo crítico demais para um espetáculo cujo encanto é bem maior do que seus defeitos, e que conta com atrizes muito boas no “timing” humorístico, e extremamente hábeis ao alternar vários papéis em cena.

Escrito por Marcelo Coelho às 09h12

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voltaire de souza

Aqui vai o link para a coluna de hoje do Voltaire de Souza: http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0906200602.htm 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h03

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dicas (2)

dicas (2)

“Bibi, a Bruxinha” (Alemanha, 2002) entrou em cartaz no fim-de-semana passado em São Paulo, e tem ingredientes para interessar crianças de 7 anos mais ou menos --em especial, as meninas.

 

Há em tudo uma estética meio televisiva, a que não faltam guarda-roupas de estilo paquita. Os números musicais (raros, o que diminui o interesse das crianças menores) também têm um estilo Xuxa, num pop germanizado. A história poderia ser mais divertida, se não se insistisse tanto nos conflitos entre o pai da bruxinha (um executivo “normal”, avesso à feitiçaria) e sua mãe, que naturalmente é bruxa também.

 

Não há cenas que impressionem demais as crianças menores: a vilã da história, uma feiticeira invejosa que quer reaver sua bola de cristal, onde está escondida a fórmula da eterna juventude, não abusa de seus poderes, e a diretora Herminie Huntgeburth tampouco.

 

No fundo, com uma fabulação simpática, “Bibi, a Bruxinha” é um filme de mulheres, com mulheres, para mulheres. O marido é o idiota que só pensa no trabalho. Será fortemente prejudicado pelas artes em que sua mulher e filha são peritas. O sonho de uma convivência não-competitiva entre mãe e filha se expressa a todo momento. O objeto da disputa entre mocinhas e vilãs é a fórmula da eterna juventude. A reunião das bruxas, numa montanha misteriosa, é um desfile de modas. Rábia, a bruxa má, tem como principal atributo não a sangüinolência, mas a inveja.

 

E mesmo as encarregadas da segurança no sabá das feiticeiras ocupam um nicho no imaginário feminino: são gordíssimas punks de look lésbico e camiseta preta. Sem dúvida, a coisa mais assustadora do filme. 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h17

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ruínas da mercadoria

ruínas da mercadoria

Está saindo uma série de livros sobre a cultura dos anos 70. O mais vistoso, cheio de material tirado da publicidade, de capas de discos e cartazes de cinema --além de largo espaço dado à TV-- é o “Almanaque dos anos 70”, de na Maria Bahiana (Ediouro).

 

 Numa linha parecida, voltando até as décadas de 1960 e 1950, está “O Mundo Acabou”, de Alberto Villas (Editora Globo). A idéia desse livro é muito boa, para quem tem seus 40 anos: trata-se de lembrar de uma série de objetos que não existem mais. Da Rural Wyllis ao Lacto-Purga, das aulas de catecismo ao papel de seda azul que embrulhava as maçãs, forma-se um verdadeiro cemitério de mercadorias, em textos rápidos, com as indispensáveis imagens na página seguinte.

 

Bem mais reflexivos, intelectuais e críticos (nada contra a nostalgia, mas que não seja ofuscamento) são as coletâneas de ensaios “Anos 70: trajetórias” (editora Iluminuras), “Anos 70: Ainda sob a Tempestade” (Aeroplano/Senac-Rio), e  “4 x Brasil. Itinerários da Cultura Brasileira, Décadas de 60/70/80/90” (Artes e Ofícios).

 

Um ensaio de Nicolau Sevcenko, em “Anos 70: Trajetórias”, tem a ver com as imagens de cidade que acabei colocando neste blog. Sevcenko fala de um movimento de vanguarda nascido ainda na década de 50, que criticava a “estética do espetáculo”. A arte não deveria ser colocada como mercadoria a ser absorvida passivamente, mas deveria colocar-se a serviço de uma “construção de situações”.

 

Era o Situacionismo, cujas ramificações políticas e teóricas estou comprometido a estudar. Diz Sevcenko:

 

“Os fundamentos estéticos do Situacionismo baseavam-se em três estratégias criativas básicas: o détournement, a psicogeografia e o urbanismo unitário.

O détournement  implicava o reaproveitamento, a recontextualização e a ressignificação de todo e qualquer resíduo histórico de conotação cultural (...) A psicogeografia envolvia o resgate da memória afetiva dos recantos mais inexpressivos, relegados, temidos ou detestados de uma cidade (ver abaixo nossa Cidade Tiradentes). O urbanismo unitário demandava que a cidade fosse pensada como um todo integrado, mas descontínuo, um estado fluido de coesão atravessado pela diversidade da presença humana,a variedade do desejo e a multiplicidade dos contatos contingentes.

 

Não entendi bem o “urbanismo unitário”, mas a “psicogeografia” pode ser interessante na medida em que questiona a mercantilização, o propagandismo do espaço urbano.

 

Ironia curiosa: o Situacionismo, visando à ruptura social, pensava em resgatar os “resíduos históricos”, apontando para a “ruína das mercadorias”. A reapropriação do passado se dá, agora, não sob o signo da revolução, mas da nostalgia: e adquire forma de almanaque.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h50

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cidade tiradentes

 

Hoje não deu para escrever muita coisa. É que passei o dia inteiro longe daqui: em Cidade Tiradentes, bairro popular a 50 km do centro de São Paulo. Quando você chega no fim da avenida Aricanduva, a coisa ainda está começando.

 

Fui até lá a convite de um cineasta, que pensa em usar o bairro como locação de seu próximo filme. Em tese, seria um lugar ideal para cenas de assaltos, histórias de bebedeira, casos de estupro e tiroteio.

 

Não era nada do que eu pensava. Um morador disse que a violência lá diminuiu muito nos últimos anos. Não vi as estatísticas. Mas o que vi me surpreendeu.

 

São blocos e mais blocos de prédios de cinco andares, como uma espécie de Brasília dos pobres, sob um céu limpo (há uma serra por perto). Da janela do apartamentinho em que entrei, a vista era um bosque de eucaliptos. As ruas são muito largas e asfaltadas, com crianças brincando no meio-fio. Vi dois campos de futebol, do alto de uma pracinha onde há play ground. Um CEU e uma espécie de oficina-fábrica para aprendizes adolescentes são as construções mais importantes do lugar. Além de um vasto e luxuoso, para os padrões locais, templo da Igreja Universal.

 

Há favelas e auto-construções, nas partes mais baixas do bairro (cuja topografia é acidentada, mas nada inóspita). Vi também vacas e mesmo um homem a cavalo, como se já não estivesse em São Paulo.

 

De estranho, o seguinte: a porta de cada apartamento é protegida por um portão de ferro, trancado a cadeado, como se desse para a rua. É que os prédios, evidentemente, não têm porteiros nem guaritas.

 

Incluo aqui três fotos do local: além do panorama do bairro, acima, a foto de uma vendinha, como todas ali, enquistada na parede, ao lado de uma vegetação ainda selvagem; e, por fim, uma cena de rua.

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 19h06

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dica (1)

dica (1)

            Para crianças e pré-adolescentes, a exposição “Ilusão de Verdade”, no Sesc Pompéia, é imperdível. Há uma série de espaços que são um misto de instalação e de brinquedo: iglus brancos por fora, e inteiramente pretos,  verdes ou azuis por dentro; um corredor “de fogo”, feito com ventiladores e fitas de plástico vermelho, um “mar de plástico”, onde se pode pular à vontade. Um dos ambientes preferidos é o que simula areia movediça, feito de pequenos cristais de borracha de pneu. Dito assim, parece banal. Mas as crianças se divertem muito, e as sensações que se exploram ali, envolvendo certo deslocamento dos sentidos, um leve descompasso entre o que se vê e o que se sente corporalmente, fazem da mostra uma espécie de parque de diversões mais poético e sutil.

 

 De tarde, há também show de mágica. Tudo de graça. Dá para almoçar no self service do Sesc.

 

Rua Clélia, 93. Das 9h30 às 20h30. Domingos, até 19h30.

           

Escrito por Marcelo Coelho às 08h35

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zi teresa

zi teresa

Este cartaz é da tradicional pizzaria Zi Teresa, perto da Consolação, em frente ao restaurante Mestiço. Foi bom ter tirado a foto, porque o cartaz foi substituído agora por outro muito sem graça. Gosto das mãos da menininha: é como se fosse Chapeuzinho Vermelho com garras de Lobo Mau.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h19

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voltaire de souza

Para assinantes do uol, o link do Voltaire de Souza de hoje é http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0806200602.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 23h14

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medo? que medo?

medo? que medo?

Vídeo-arte não é o meu forte, mas fui ver o trabalho de Cláudia Jaguaribe, “Você tem medo do quê?”, cujo título obviamente me interessou. A obra se baseia numa pesquisa pela internet, em que 2812 pessoas responderam a essa pergunta. Os depoimentos foram depois editados pela escritora Beatriz Bracher, e são transmitidos por caixas de som enquanto você está dentro de uma sala escura, com o chão preto.

 

Nas paredes, imagens em grandes dimensões de quatro vídeos são projetadas simultaneamente. Há de tudo: desde associações óbvias (um cemitério à noite), e outras um pouco menos (um motorista de táxi entre faróis e anúncios luminosos, espirais de fumaça de cigarro contra um fundo escuro), a algumas cenas de cotidiano familiar que comovem bastante. Por exemplo, uma jovem chorando de rir na mesa do almoço, enquanto uma voz masculina diz ter medo de perder a mulher, de ficar sozinho na vida.

 

Medo de morrer, medo de perder os pais, medo do presidente da república, medo de soldado, de desemprego, de não conseguir manter o padrão de vida depois do casamento. Medo de coisas estranhas: “já vi várias coisas, inclusive mulher no sofá da minha casa”. Medo de borboleta. Medo de plantações de eucaliptos.Alguém declara chorar de medo de lagartixa. Outro tem medo de Deus.

 

Duas ausências relativas nesse catálogo, a menos que eu não tenha percebido. Medo do inferno, eis alguma coisa que não passa muito pela cabeça das pessoas hoje em dia. E, naturalmente (a pesquisa foi feita em 2005, com internautas), medo do PCC.

 

O enfoque principal do trabalho está no medo psicológico, numa espécie de angústia individual diante do futuro, que não se encarna obrigatoriamente na questão da segurança pública. Dentro de uma caixa branca, fixa no chão, há outro vídeo que psicologiza ainda mais a coisa toda: vemos, de cima para baixo, uma mulher como que presa em seu quarto de dormir, andando de um lado para outro ou agachando-se sobre o carpete.

 

Um dos efeitos perturbadores da instalação é que o som das vozes sempre muda de lugar, contrastando, pela nitidez, com as imagens em geral mais confusas que vemos nas paredes. Uma delas ficou na minha memória: é a de um avião, preparando-se para aterrissar, enquanto bombas negras parecem explodir de quando em quando, e focos de fumaça negra surgem à sua volta. Não são bombas: é a própria película do filme que se escurece e ameaça pegar fogo, como se um fósforo se aproximasse dela.

 

Como toda arte se reveste sempre de ironia aos nossos olhos modernos, e como há sempre uma certa frieza em projeções de vídeo, fico na dúvida se a idéia do trabalho não é mostrar que a maioria dos medos são imaginários, e que meu medo individual é pequeno ou questionável, diante da gratuidade das fobias alheias.

 

A imagem do avião evoca os atentados de 11 de setembro, e certamente há o que criticar na cultura de paranóia que se criou depois disso. Mas depois dos ataques do PCC, a palavra “paranóia” perdeu muito de sua conotação pejorativa.

 

Uma experiência interessante seria abrir o Paço das Artes durante uma madrugada, num dia de semana, e ver qual o efeito da mostra em meio à  escuridão erma --onde estupros se registram-- da Cidade Universitária.

 

De minha parte, fui lá numa tarde de sol, e estacionei facilmente na porta do museu. Ao sair, minha barbeiragem habitual fez com que eu desse um tranco no carro estacionado atrás de mim. Um alarme disparou na hora. Acho que até o carro estava morrendo de medo. 

 http://www.pacodasartes.sp.gov.br

 http://claudiajaguaribe.uol.com.br/medo/

Escrito por Marcelo Coelho às 23h10

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rotativas

      

(agência EFE): Ronaldinho Gaúcho sofre acidente no bumbum

 

 

O filósofo Martin Heidegger (1889-1975)     

 

 

 

 

Este blogueiro, que deve ficar antenado com os eventos do dia, abre a página do UOL e sofre terrível sobressalto. Não bastassem as bolhas no pé de um Ronaldo, agora são as nádegas do outro que ameaçam nosso desempenho na Copa. Sim, Ronaldinho Gaúcho feriu seu bumbum. Feriu é modo de dizer. Fazia exercícios com um elástico, quando a ponta deste se soltou, atingindo em cheio seus glúteos geniais. Um creme analgésico, e tudo voltou ao normal. O problema, evidentemente, é um só: excesso de jornalistas versus escassez de fatos. A notícia, como o elástico, afasta-se de seu “gancho” primordial (os jogos da Copa) e se estica até romper-se.

 

            Vai um Heidegger aí? Em “Ser e Tempo”, o filósofo criou o conceito de “falatório” --das Geredete. “O falado no falatório arrasta consigo círculos cada vez mais amplos, assumindo um caráter autoritário. As coisas são assim como são porque delas se fala assim. Repetindo e passando adiante a fala, potencia-se a falta de solidez.”

 

            Naturalmente, o filósofo queria uma linguagem que se “abre” para o Ser, do qual a própria linguagem poderia participar. O falatório é quando a linguagem se fecha, ocupando-se apenas do já falado, da repetição, do que se passa adiante. No falatório, a linguagem perdeu essa possibilidade de relação primordial e originária com o mundo. Chega, no máximo, a uma bola de futebol; ou às bolhas e bumbuns de jogadores. 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h55

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o mercado sou eu

            Celebra-se o “mercado”, como uma entidade impessoal, capaz de conduzir a resultados mais eficientes do que qualquer grupo de planejadores. Com certeza. Mas nunca vi a economia mundial, e a sorte de bilhões de pessoas, dependerem tanto das decisões de um único indivíduo: antes era Alan Greenspan, agora é Ben Bernanke, o presidente do Federal Reserve americano.

           

 Uma única frase dele --transcrita no editorial da “Folha” de hoje-- produz tsunamis no mercado. Eis a frase: “o núcleo da inflação, medido ao longo dos últimos três ou seis meses, chegou a um nível que, se fosse mantido, ficaria no (ou acima do) patamar superior do intervalo que muitos economistas, inclusive eu mesmo, considerariam compatível com a estabilidade de preços.” No mundo do liberalismo, as decisões de uma só pessoa têm mais alcance do que todo o arbítrio de Luís 14.

Escrito por Marcelo Coelho às 09h40

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fotos alteradas

fotos alteradas

Abaixo, um exemplo das fotos em que Trotsky (ao lado de Lênin) foi "apagado" depois que Stalin tomou o poder.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h40

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arendt (4)

arendt (4)

Será que essa diferença, proposta por Hannah Arendt, entre mentira tradicional e mentira moderna se sustenta? Quando Stálin e seus aliados apagavam as fotos em que Trotsky aparecia (“mentira moderna”), tratava-se de uma mistificação em regra --do mesmo modo que algum monge medieval poderia inventar truques para simular que a imagem de Maria em seu convento chorava lágrimas de sangue. No caso do diplomata em negociação com um país estrangeiro (“mentira política tradicional”), a mentira se confunde com a dissimulação, com o segredo de Estado; significa mais esconder o que se sabe do que criar uma ilusão ativamente .

 

Mas poderíamos chamar de “mentiras modernas” os demais exemplos de Hannah Arendt? Quando Adenauer dizia, no pós-guerra, que “apenas uma fração relativamente pequena da população alemã se envolveu na barbárie nazista”, ou quando De Gaulle afirmou que a França foi um país vitorioso na Segunda Guerra, podendo aspirar ao status de potência --para citar os exemplos da autora-- há certamente inverdade “ao pé da letra”, mas ela própria hesita em classificar tais frases como “mentiras”. Usa o termo “pseudoverdades”. São frases que variam de sentido conforme a interpretação que se der. Se eu entender “envolver-se na barbárie” como participar ativamente de um pogrom, ou servir à SS, o número de pessoas “envolvidas” será menor do que o da grande maioria que apoiou Hitler no poder.

 

Estamos aqui, a meu ver, na pior das hipóteses diante de uma “maquiagem” da realidade histórica; mas eu poderia entender essas frases não tanto como “mentiras” mas como “versões” para um mesmo fato. A política é, antes de tudo, uma negociação entre versões da realidade factual. Talvez aquela frase de Adenauer fosse a melhor versão, naquele momento, para reunificar em torno da democracia a população alemã. Versão inexata, por certo, e contrastável com outras. Mas, como eu disse, sua avaliação em termos de verdade factual depende da interpretação que se der ao termo “envolver-se” 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h29

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arendt (3)

arendt (3)

    Hannah Arendt distingue, na política, entre a “mentira moderna” e a “mentira tradicional.” Antigamente --podemos dizer: antes do surgimento de uma “opinião pública”, a mentira referia-se ou a segredos autênticos, a dados que nunca haviam se tornado públicos, ou a intenções que, de qualquer maneira, não possuem o mesmo grau de solidez do que fatos acabados.” A mentira moderna envolve negar, reescrever, alterar fatos diante dos próprios olhos daqueles que testemunharam esses fatos.

 

            “Além do mais”, ela continua (p. 312), “ a mentira tradicional referia-se apenas a particularidades e nunca visava a iludir, literalmente, todas as pessoas; ela se dirigia ao inimigo e visava a iludir apenas ele.” Não se reescrevia o conjunto dos acontecimentos, mas se ocultavam determinados detalhes “estratégicos”. Além disso, a mentira tradicional tem outra limitação: “diz respeito aos que se encontram a serviço da  atividade de iludir. Não era provável que fossem vítimas de suas próprias falsidades, e podiam enganar os outros sem enganar a si mesmos.”

 

            A situação é diferente nos dias de hoje. “As imagens criadas para consumo doméstico, ao contrário das mentiras dirigidas a adversários estrangeiros, podem tornar-se uma realidade para todos e sobretudo para seus próprios criadores (...) sob condições plenamente democráticas, iludir sem se auto-iludir é praticamente impossível.” (p. 315-316)

Escrito por Marcelo Coelho às 17h28

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arendt (2)

arendt (2)

Ao defender a “verdade factual”, a “imparcialidade”, Hannah Arendt não ignora, claro, que nenhum relato dá conta de “toda a realidade”. A realidade, diz ela, é diferente da “totalidade dos fatos”. E mesmo essa “totalidade” é inaveriguável. Aquele que diz a verdade, aquele que “diz o que é --légei tá eonta-- sempre narra uma estória, e nessa estória os fatos particulares perdem sua contingência e adquirem algum sentido humanamente compreensível.” (“Verdade e Política”, p. 323)

 

O problema da objetividade não está na atribuição de um sentido à  narração; não está na necessidade indispensável de se interpretar os fatos relatados. O problema está na veracidade, ou não, dos fatos que se relatam.

Arendt cita a conversa entre Clemenceau, principal arquiteto da vitória francesa na Primeira Guerra Mundial, e um diplomata alemão. A guerra tinha acabado, e os dois discutiam as responsabilidades alemãs no desencadeamento do conflito. O diplomata perguntou a Clemenceau: “O que, em sua opinião, pensarão os historiadores futuros desse tema espinhoso e controverso?” Clemenceau replicou: “Isso não sei. Mas tenho certeza de que eles não dirão que a Bélgica invadiu a Alemanha.”

 

Para Hannah Arendt, nos regimes teocráticos e absolutistas o poder se preocupa especialmente em reprimir as verdades filosóficas, as heresias, as teorizações subversivas. Nas sociedades modernas e democráticas, a especulação filosófica e religiosa está felizmente liberada. O que se reprime não é mais a verdade filosófica, e sim a verdade factual. 

 

Não é só na União Soviética, dizia Arendt, que se fizeram esforços sistemáticos para reescrever a história. É sabido que no regime stalinista, apagaram-se as imagens de Trotsky das fotos oficiais da Revolução, artigos inteiros de enciclopédias foram reescritos, valorizando o papel de Stálin em 1917 e omitindo os atos de seus adversários.

 

Acontece que, depois da Segunda Guerra, “confrontamo-nos com estadistas altamente respeitáveis, como De Gaulle e Adenauer, que conseguiram erigir sua política básica sobre pseudofatos evidentes, tais como estar a França incluída entre os vitoriosos da guerra e ser, portanto, uma das grandes potências, e como “a barbárie do Nacional-Socialismo afetou apenas uma fração relativamente diminuta do país” (“Verdade e Política, pág. 312; Ela cita as “Memórias, 1939-1945” de Adenauer.) 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h04

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Velázquez (2)

            Alguém comentou, a propósito das “Fiandeiras” de Velázquez, que a mão do pintor parece não ter nem sequer tocado ali: é como se o quadro tivesse nascido diretamente de seu pensamento.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h31

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velázquez

Ouço na rádio Cultura, no programa " A Celebração do Dia", que hoje é aniversário de Velázquez (1599-1660). Aqui vai o quadro "As Fiandeiras", que deveria ser tão célebre quanto "As Meninas".

e, abaixo, um detalhe.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h23

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Hannah Arendt

Hannah Arendt

            Fui convidado para dar uma palestra sobre jornalismo, num ciclo intitulado “O Esquecimento da Política”. É a continuação de “O Silêncio dos Intelectuais”, de que participei no ano passado. A idéia é ver de que modo o jornalismo contemporâneo, tanto quanto o marketing --ou em oposição a ele--, seria uma força que tende a degradar o debate político, indiferenciando e ocultando as reais questões em jogo na sociedade. Tenho dúvidas sobre se o jornalismo tem esse papel, mas pensei em estudar a questão do marketing, do espetáculo, na política hoje em dia.

 

Por isso, vou comentar aqui alguns textos relacionados a esse problema. Aqui vai um trechinho.

 

Em “Verdade e Política” (São Paulo: editora Perspectiva,  1979, p. 324) Hannah Arendt fala dessa “curiosa paixão”, a seu ver típica da sociedade ocidental, “pela integridade intelectual a qualquer preço”. O nome dessa paixão, afirma, é objetividade.

           

Nada mais questionado do que esse conceito. Faz bem ler um texto como o de Hannah Arendt, que lhe dá valor real. “Sem a objetividade, ciência alguma jamais poderia ter existido.” A filósofa remonta a origem dessa “paixão” a Homero, no momento em que “decidiu a cantar os feitos dos troianos não menos que os dos aqueus, e louvar a glória de Heitor, o inimigo e homem derrotado, não menos do que a glória de Aquiles, o herói de seu povo. Isso jamais aconteceu em parte alguma antes: nenhuma outra civilização, por mais esplêndida que fosse, fora capaz de olhar com olhos iguais o amigo e o adversário, a vitória e a derrota (...) a imparcialidade homérica ecoa através de toda a história grega, e inspirou o primeiro grande contador da verdade factual, o qual tornou-se o pai da História: Heródoto (...).

           

Sem dúvida, a imparcialidade foi uma conquista. Cabe lembrar, contudo, que Homero não estava escrevendo sua epopéia no momento em que a guerra se travava; e que, mesmo depois de encerrado o conflito, sua imparcialidade e generosidade com Heitor teria sido menor se ele não estivesse do lado vitorioso. 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h44

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Maurício de Souza, Ronaldinho e Galileu

Maurício de Souza, Ronaldinho e Galileu

As historinhas de Maurício de Souza servem para crianças bem pequenas: pouco texto em comparação com as do Pato Donald, desenho menos elaborado, cotidiano reconhecivelmente brasileiro.

 

Tão brasileiro, que revistinhas de “Ronaldinho Gaúcho e a Turma da Mônica” começaram a ser publicadas nesta época de Copa do Mundo. Pelo que vejo, aliás, Ronaldinho Gaúcho é o preferido das crianças: sempre sorridente, um ar de inocência infantil que mesmo Ronaldo Fenômeno, outro dentuço, já perdeu faz algum tempo.

 

A primeira historinha do gibi, apresentando o novo personagem --um Ronaldinho criança, que obviamente fica jogando bola o tempo todo-- começa mostrando uma imagem do planeta Terra, como se fosse um cubo; a idéia será dizer depois que a Terra é uma grande bola, com Ronaldinho dando um chute interestelar.

 

Tudo vai bem até que Maurício resolve ser “instrutivo”, e informa seus leitores que a Humanidade durante longo tempo acreditou que a Terra era quadrada (o que, aliás, é diferente de uma terra cúbica). Até que certo dia um cientista provou que a Terra redonda. O cientista, segundo o gibi, foi Galileu, e perseguiram-no muitíssimo por essa descoberta.

 

Galileu foi condenado pela Igreja em 1633, mas não por ter dito que a Terra era redonda, e sim por sustentar que ela girava em torno do Sol. Desde os gregos se sabia que a Terra é redonda, e teólogos da Igreja, como Orígenes, Beda o Venerável e São Tomás de Aquino partilhavam dessa convicção.

 

Simpaticamente, os quadrinhos mostram Galileu, de barba branca, enfrentando seus algozes. O conhecimento científico continua a tê-los, pelo visto, embora com conseqüências menos assustadoras.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h13

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Centro nervoso

Centro nervoso

De todos os “escritores da violência” surgidos na década de 90, acho Fernando Bonassi o mais talentoso, o mais artista. Seu romance “Subúrbio”, ainda melhor na nova edição (Objetiva, 2006) é forte candidato a clássico, como se fosse uma mistura de “Vidas Secas” e “Angústia” passada para a realidade da periferia paulistana. Bonassi agora estréia como diretor de teatro, com “Centro Nervoso”, peça em cartaz no Sesc Vilanova (de 5a. a sábado, às 21h, domingos às 19h, até dia 27 de agosto). Ah, mas não gostei muito, não. São 13 cenas, no estilo dos textos que ele publica na “Ilustrada” --sempre fortes e indignados, mas que no teatro correm o risco de se tornarem excessivamente discursivos. Quase todas as cenas são monólogos em que se alternam quatro atores. Alguns textos ficam longos demais, e pode ser culpa minha se não consigo prestar atenção em falas tão contínuas. Verdade que a encenação é engenhosa e de ótimo gosto, usando por exemplo fotos ampliadas de placas de automóvel ou de sinais de trânsito para numerar, em contagem regressiva, as cenas do espetáculo. Grandes espelhos verticais são utilizados com criatividade, em especial numa história em que o narrador reconstitui uma tragédia no trânsito: como fantasmas, as imagens das vítimas aparecem nos espelhos, enquanto ouvimos um texto com a típica mistura bonassiana de poesia, revolta, ironia e culpa. Quando passamos da narração concreta para textos que têm característica de discurso político, ou melhor, de antidiscurso, o efeito do espetáculo se enfraquece. Quem lê Bonassi na “Folha” --desculpem-me se critico um colega de jornal, mas eu também fiz elogios-- conhece aquele gênero de prosa rimada, no qual uma mesma estrutura sintática vai sofrendo alterações “minimalistas” e ao mesmo tempo de grande violência no conteúdo. A intenção, ali, é mimetizar o estilo do “rap”, realismo rimado com batida rítmica forte. Mas aquilo que, num grupo de periferia, é uma forma de inserir conteúdo de revolta social numa estrutura musical básica e repetitiva, torna-se complicado no texto escrito. As frases dos artigos perdem em velocidade, em aspereza de elocução, e seu efeito, em vez de inquietante, fica a meu ver cansativo. Talvez até por isso Bonassi tenha achado interessante transpô-las para o palco: na voz dos atores (como Eucir de Souza e o experiente Pascoal da Conceição), o texto ganharia ritmo, e uma espécie de “música cênica” na gesticulação, na postura corporal de quem os enuncia. Um bom momento, nessa tentativa, é a fala de um personagem de cueca e chapéu de caubói, bebendo uísque enquanto grita e gargalha palavras cínicas ao celular. Entretanto, o espírito do “discurso”, mais que do “rap”, é o que prevalece. Em vez de protesto radical e periférico, há cenas em que se chega quase ao oposto: teatro em verso, literatura rimada. A encenação toda parece confiar excessivamente num impacto sobre a platéia, que termina sem conseguir alcançar. O conteúdo é chocante, visa a “despertar” os burgueses acomodados que somos. “Como é que é, você acha que vai conseguir dormir bem esta noite?” --o espetáculo termina com uma frase mais ou menos assim. Ameaçada --mas por atores que receberão acomodados aplausos no final da peça--, a platéia não parece inquieta quanto a esse ponto.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h52

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pizza 1

pizza 1

Um fotógrafo americano, William Swislow, é fanático pelas imagens de cartazes populares, dos anúncios de rua que fazem parte da paisagem de qualquer cidade do mundo. Desenvolveu também um projeto interativo, que se dedica a recensear todos os cartazes de churrasco grego ("gyros", em inglês --e em grego também) existentes na cidade de Chicago. Confira em http://www.interestingideas.com/roadside/gyros/gyros.htm Pensei numa coisa parecida, o "Projeto Pizzas de São Paulo". Aqui vai a primeira imagem de pizza deste blog. Espero que haja contribuições.

contribuições.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h05

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maratona em são paulo


Hoje, domingo, dia de pouco trânsito em São Paulo, saí de casa às 13h (moro em Perdizes) para almoçar na Vila Nova Conceição. Demorei uma hora. A razão é que estavam promovendo uma maratona pelas principais avenidas da Zona Sul. O trânsito estava um caos, com carros dando voltas e voltas pelos mesmos desvios e mesmos quarteirões congestionados.

Cada maratonista que passava pela minha frente me dava vontade de xingar. Depois, resolvi teorizar um pouco a respeito.

Em tese, o direito do cidadão comum, o que está apenas indo almoçar no seu carrinho, me pareceria mais importante do que o de maratonistas que poderiam correr por vias de menor importância para o trânsito da cidade.

Depois, corrigi-me: se fosse uma passeata contra a violência, uma parada gay ou um protesto dos sem-terra, minha irritação seria igual, mas eu teria simpatia pelos direitos da “massa organizada” seria provavelmente maior.

A questão, para fazer uma síntese entre essas duas atitudes contraditórias, talvez seja outra. Os setores organizados da sociedade vão sempre ter mais visibilidade e poderão sempre alterar mais o nosso mundo do que os pacatos cidadãos que só saíram de casa para almoçar.

Mas entre um protesto e uma maratona, há certo grau de diferença. Uma coisa é uma passeata, com mensagens e reivindicações. Outra é um evento, sem palavras de ordem, sem “discurso”.

Ocorre que essa diferença tende a diminuir. A “massa”, hoje em dia, parece se organizar mais em “eventos” do que em “protestos”. Tudo, ou quase tudo, vira “evento”. No caso da Parada Gay, trata-se muito mais de um evento do que de um protesto. Acontece que, nesse caso, o “evento” é instantaneamente político, e se reveste de uma mensagem, porque dar visibilidade a uma opção sexual por tanto tempo reprimida já é, por si, um ato significativo. Mostrar-se já é dizer alguma coisa, já é significar.

E uma maratona? Ninguém está “significando” nada nesse evento. Será? Talvez exista um discurso ali. O de que São Paulo deveria ser ocupada pelos pedestres, e que, mais do que um amontoado de ruas e de carros, deveria ser um lugar onde é possível viver.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h16

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limites (3)

limites (3)

Mais uma coisa sobre limites. Nós, os pais, não sabemos os limites de muita coisa. Não só temos dificuldade em impor limites a nós mesmos, como notou uma leitora --vide os problemas com cartão de crédito, com a balança, com os cigarros etc. -- mas também não sabemos quais são os limites dos filhos. Por vezes, estão cansados e não querem abandonar a diversão. Outras vezes, já não estão se divertindo mais e ainda assim continuam fazendo a mesma coisa. Quando explodem, ficamos espantados. Mas a questão dos “nossos limites” é ainda mais profunda. Não sabemos separar a atitude educadora da atitude afetiva. Para muitas pessoas, dar uma bronca produz culpa, porque de alguma forma se pensa que fazer isso é diminuir o amor infinito que cabe dedicar aos filhos. Vem culpa, insegurança, etc. O que chamo de “atitude educadora” não tem nada a ver com as intimidades de nossa raiva momentânea, de nosso carinho, de nossa pena, de nossa paixão. Infelizmente (ou não, sei lá), trata-se de uma atitude predominantemente técnica. Como escovar os dentes ou preparar a mamadeira. Internamente, tudo pode acontecer em nós enquanto preparamos uma mamadeira. Vai saber quais as ressonâncias inconscientes disso, ou qual a ternura ou o tédio com que nos dedicamos a tais afazeres. Mas dizer “não”, desligar a TV na hora certa, interromper o consumo de balas de goma, etc., são coisas que também se deve fazer “tecnicamente”, sem pensar muito se isso dói na criança, se traumatiza ou não. Quando limitei o horário da TV (meu filho estava bem viciadinho), pensei que ia cair o mundo. Em dois dias, no máximo, ele se acostumou. A plasticidade das crianças é enorme. Elas aprendem rápido, como sabemos. Do mesmo modo que se dermos chocolate três dias em seguida, o vício se estabelece, em três dias, pelo que notei até agora, elas se “desviciam” também. O que seriados como “Supernanny” mostram é que a capacidade de condicionamento das crianças é enorme, e rapidíssima: para o bem ou para o mal.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h16

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limites (2)

limites (2)

Quando se fala em impor limites às crianças, fala-se sempre em reforçar proibições. Mas é óbvio que todo pai proíbe a criança de dar tapas nos coleguinhas, cuspir na babá etc. Descobri coisas diferentes --e que deram certo no caso das pirraças do meu filho. A primeira é que tudo --absolutamente tudo-- deve ser limitado. Se a criança tem o saudável hábito de comer salsão e chuchu, mesmo o salsão e o chuchu devem ser regulados. A sensação de que há coisas absolutamente proibidas e que há outras absolutamente livres, na minha experiência, não é de fácil entendimento para uma criança. Aí é que começa o jogo do “testar os limites”. Se posso comer chuchu à vontade, por que não posso comer um pouco de chocolate antes das refeições? É muito difícil explicar isso. Mas se a criança se acostuma a não ter nada “à vontade”, é o padrão de relacionamento entre pais e filhos que muda. Segunda coisa: limitar muito o horário da TV e dos filminhos foi essencial. Depois de duas horas recebendo informações imediatas pela tela da TV, a criança não consegue esperar, não consegue transigir, não consegue dialogar. Quanto maior a carga de agressividade, de tensão acumulada nos programas que a criança assiste, mais aquilo se libera num acesso violento, quase neurológico de fúria. Brincando com outras coisas, a criança regula seus momentos de frustração e de prazer em intervalos mais curtos, sem deixar tudo represado. Por falar em intervalos curtos, paro aqui e continuo mais tarde.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h57

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limites (1)

limites (1)

Todo mundo acha que as crianças de hoje precisam de limites. Mas todo pai e toda mãe acham que dão, sim, limites para seus filhos. E todo filho reclama, do jeito que pode, dos limites que recebe. É justamente na hora dos “limites” que aparecem as birras, os escândalos, os gritos, mordidas e esperneios. Minha experiência no caso não é diferente. Meus filhos sempre tiveram hora certa para dormir, sempre foram advertidos ou postos de castigo quando faziam manhas exageradas, nunca tiveram permissão para comer o que bem entendessem, nunca deixei que corressem pelo supermercado etc. “Eu imponho limites!” Era o que eu sempre dizia, enquanto meu filho xingava a avó de idiota, dava tapas na mãe, atirava-se no meio da rua como um bicho enfurecido. Depois de algumas semanas especialmente críticas, meu mau humor venceu. Não, não foram tapas nem palmadas. Nas vezes em que isso foi tentado, de nada adiantou. Meu ataque de mau humor foi mais profundo e duradouro. Eu simplesmente não queria conversa com meu filho de quatro anos. Ele vinha com as típicas simpatias de quem quer pedir desculpas, e eu mantinha a cara fechada. Ele queria ouvir um disco de historinhas no carro: que mal haveria? Decidi que não. Sem espírito de castigá-lo. Simplesmente achei que, naquela hora, o meu direito era ouvir meus próprios CDs, não os dele. O gelo continuou o dia inteiro. Nada de brincadeiras, como as que costumamos fazer: eu encarnando Batman, ele Robin, ou Gepeto, e ele Pinóquio. Simplesmente cuidei da minha vida. Na manhã seguinte, era outra criança. Meu filho ficou tranqüilo, de ótimo humor, e tem-se mantido ótimo há alguns meses. Qual a explicação? Isso fica para depois. A história continua.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h53

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a criança

a criança

Deram quatro estrelas para "A Criança", filme franco-belga dirigido por Jean-Pierre e Luc Dardenne. Foi Palma de Ouro em Cannes. Para mim, trata-se de uma das clássicas fraudes do cinema francês: supostamente sério e sem concessões, é previsível e tolo do começo ao fim. Um trambiqueiro (Jérémie Regnier, ótima cara para o papel) tem um filho com a namorada e, precisando de dinheiro, vende a criança sem avisar a mãe. Se fosse um filme americano típico, teríamos closes da criança, obviamente encantadora, e bastante música nas horas de afeto ou de tensão. O truque para fazer de “A Criança” um filme supostamente artístico está em não mostrar o bebezinho rechonchudo, e recorrer apenas a um constante silêncio, entremeado apenas com o ruído de fundo (automóveis e motos em particular) de modo a conferir uma “objetividade” anti-sentimental a tudo o que é exposto ao público. Quando o roteirista e o diretor são inteligentes, isso funciona. A falta de inteligência de “A Criança” se revela, entretanto, desde as primeiras cenas. A intenção é mostrar que o jovem casal é tolo e imaturo. Isso se faz com uma redundância exasperante. O rapaz e a moça fazem “brincadeirinhas de mão” entre si, tipo empurrar o outro para que tropece, fazer guerra de pedregulhos, etc., enquanto o bebê dorme placidamente. Contei quatro cenas seguidas desse tipo. A tensão, o mal-estar são inevitáveis num filme com esse enredo: difícil assistir aos momentos em que o rapaz resolve entregar a criança a uma quadrilha de traficantes de bebês. Momento, aliás, em que o uso de cores quentes na cenografia obtém ótimo efeito. O problema é que, como todas as situações são previsíveis, a tensão se torna impaciência. O final, que não conto, pretende-se abrupto, eloqüente e catártico. Achei simplesmente ridículo. Para uma opinião divergente, assinantes do uol podem clicar em http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u60816.shtml .

Escrito por Marcelo Coelho às 16h32

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o julgamento de suzane

Transmitir ou não pela TV o julgamento de Suzane von Richthofen? Alberto da Silva Franco, desembargador aposentado, tem uma frase bonita no artigo que publicou sábado na “Folha” a esse respeito (se você é assinante uol, clique aqui para ler).
“O primeiro e mais verdadeiro réu de um julgamento é o próprio julgamento (...) Não julgamos pessoas e suas almas, mas, simplesmente, os fatos e a medida da razoável censura.”
Escreveu “censura” pensando na “punição” do crime. Mas a palavra vem a calhar, porque Silva Franco é contra a transmissão do julgamento. Eis como ele justifica sua tese.
“Não se trata de inaugurar espetáculos emotivos e invasivos, com exposições televisivas intensamente dramáticas em redes nacionais de televisão que se movimentam por sentidos concorrenciais e propagandísticos.”
Acontece que um tribunal de júri é sempre um espetáculo “emotivo”. Advogados e promotores tentam emocionar a platéia. O julgamento público, na sala do tribunal, tem muito de teatro.
A questão é saber se, do teatro, passamos ao programa de TV. Sou a favor.
As TVs comerciais agem por sentidos “concorrenciais e propagandísticos”, como diz bem o desembargador. Não fizeram outra coisa ao noticiar o crime, ao mostrar o rosto da acusada, etc.
O julgamento da opinião pública já começou há muito tempo.
A transmissão do julgamento oficial, formal, de Suzane ajudaria a colocar outros argumentos, outros raciocínios, outras teses em ponderação. Apesar da emoção e do teatro de advogados e promotores, pelo menos ali se discute a lei, se examinam os fatos --e isso modera, não intensifica, as emoções em curso.
Concordo com o argumento de Ives Gandra Martins, de que a transmissão serviria ao menos para esclarecer melhor a população sobre os rituais, o funcionamento da Justiça.
Como em toda censura, a questão é simples: ou se confia na maturidade da população ou não se confia --e, assim, continua-se a tratá-la como criança.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h31

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buenos aires 100km

buenos aires 100km

Filmes sobre a educação sentimental dos adolescentes não constituem grande novidade, e Buenos Aires 100km , de Pablo José Meza, é um bom exemplar do gênero. Como em “Os Boas Vidas”, de Fellini, temos aqui um grupo de amigos numa cidadezinha de província, um mais sonhador, outro mais revoltado, todos às voltas com o tédio e os limites da vida que levam. A diferença --uma das muitas diferenças-- é que em “Os Boas Vidas” os personagens tinham para lá de vinte anos, e no filme argentino são garotos de 12 ou 13. Muita gente considera os adultos de hoje muito imaturos, prolongando a adolescência até os 30. Mas a verdade é que o contato com o mundo adulto chega mais cedo para a geração atual: a instabilidade da família, o começo da vida sexual, a percepção das falhas e fraquezas dos mais velhos, é coisa que se experimenta com grande rapidez. Nada mais bonito em “Buenos Aires 100 km” do que as cenas silenciosas, em que só o olhar dos personagens conta a história. Logo no começo, o grupo de meninos vê um casal fazendo sexo dentro de um caminhão. É a mãe de um amigo deles que está tendo um caso com o motorista. A câmera se fixa no rosto dos garotos. Quantas descobertas! Vontade de ver mais, vontade de não estar ali, choque e desejo, curiosidade e delicadeza se misturam. A feminista Germaine Greer publicou recentemente um livro com o título The Beautiful Boy , no qual constata o quanto de brutalidade, o quanto de perdas a procura da masculinidade impõe aos meninos pré-adolescentes. Reclama do fato de tantos seres humanos graciosos e adoráveis de repente se transformarem em brutamontes tomadores de cerveja, destituídos de qualquer sensibilidade moral e cuidado afetivo. Muitas violências morais acontecem em “Buenos Aires 100 km”, sem que necessariamente as crianças estejam apenas no papel de vítimas. A cena final do filme --um campo de futebol vazio-- simboliza o quanto a própria amizade entre os meninos se desfez (ou se aprofundou, quem sabe), pela força das circunstâncias: segredos que precisaram ser rompidos, verdades que tiveram de ser ditas, separações que não é possível evitar. Também é bonita a série de imagens em que o principal personagem do filme luta com as lições de casa. Contra a vontade, ele estuda numa escola de desenho técnico. Começa tendo de desenhar simples formas geométricas, cubos e triângulos. Os desenhos vão se complicando, até dar certo em diagramas de máquinas cheias de detalhes intrincados. Claro, é a passagem da infância para a idade adulta. Crescendo, todos nós nos separamos de nós mesmos. Mas também nos encontramos a nós mesmos: encontramos o que somos, não o que já deixamos de ser.

site do filme: http://www.buenosaires100km.com.ar

 sobre o livro de Germaine Greer: http://www.amazon.com/gp/product/0847825868/102-2668528-3848125?v=glancebn=283155

Escrito por Marcelo Coelho às 16h29

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em 2006 reencarnarei no teu cadáver

“Eu quero que eles coloquem CPI na televisão todo dia, toda hora. Eu quero que eles coloquem as torturas que eles fizeram com muita gente lá.”
A frase de Lula, desafiando a oposição, revela algumas coisas.
1) O papel de denunciar, de fazer CPIs sempre foi do PT. Com Lula no governo, a coisa mudou. Mas querendo que o horário eleitoral de Alckmin mostre as CPIs, é a velha alma petista de Lula que volta à tona.
É o antigo desejo de ver o circo pegar fogo. A saudade dos tempos em que ele podia dizer que no Congresso havia “300 picaretas”.
“Quero reencarnar na oposição”, diz a alma de Lula. Mesmo que seja o PSDB e o PFL.
2) Bornhausen, Tuma, ACM e ACM Neto: nas CPIs e fora delas, eles torturaram nossos companheiros. São os torturadores de sempre que voltam ao ataque.
A alma de Lula volta assim a tempos mais antigos, antes mesmo de o PT ser fundado. Nobilita-se de novo, lembrando a época da resistência ao regime militar.
3) 1968, 1978, 1998 e 2006 se misturam na mesma fraseologia. Por trás disso, um outro sonho de permanência: o da reeleição.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h27

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palavras no ar

Leio na Folha (1/6/2006) que:

1- Orestes Quércia primeiro chamou o PT de fascista.
2- Depois disse que Lula nunca dirigiu nem um carrinho de pipoca.
3- Lula respondeu que também nunca tinha roubado pipoca.
4- Depois Lula disse que nenhuma acusação contra Quércia tinha sido concretizada.
5- Mais tarde, Orestes Quércia disse que respeitava e admirava Lula.


É natural que se façam e refaçam alianças em política. Mas esses ataques e desmentidos, ao longo do tempo, implodem a autoridade moral e intelectual de quem os enuncia.
Talvez seja tudo um efeito da lei da oferta e da procura. Quanto mais se fala, mais o que se fala perde valor.
Boa lição para blogueiros.
Ninguém assina contratos por e-mail. Ninguém acerta o valor de um aluguel pelo telefone ou pelo rádio. O papel impresso ainda é indispensável nesses casos.
A falação dos políticos pelo rádio, em debates de TV, etc., tem esse efeito de sumir com o vento. É preciso muita memória e recorrer a fitas gravadas para provar que Fulano disse de fato isto ou aquilo.
A desvalorização da palavra empenhada tem a ver com esses meios de comunicação. São “líquidos” e “gasosos” (uma tela de computador, uma onda sonora no rádio) contra meios de comunicação “sólidos”, como o papel e, melhor ainda, a pedra, o mármore.
Moisés não podia corrigir ou editar a Tábua dos Dez Mandamentos.
Na internet, entretanto, tudo fica mais ou menos registrado.
O que eu tiver escrito neste blog hoje poderá ser consultado daqui a um ano.
Por via das dúvidas, escrevo primeiro em word para depois postar. E imprimo também.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h12

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workaholics




Um dos fenômenos do jornalismo nacional se chama Heródoto Barbeiro.
De manhã, muito cedo, eu ligo o rádio e lá está ele falando. De tarde, as notícias se acumulam, e Heródoto continua firme e forte ancorando um programa na CBN. Às nove da noite, vejo-o no Jornal da Cultura.
Não digo que, nessa hora, ele pareça recém-chegado de uma viagem de férias. Olheiras, uma cabeça que parece estar saindo do corpo, o gel de cabelo à la vampiro, mas de todo modo, o Heródoto continua bem-humorado e disposto.
Tarde da noite, eu estava guiando o carro e quem é que dava notícias do trânsito na CBN? O Heródoto Barbeiro. Sai do estúdio da TV Cultura, pega o celular, e transmite o estado do tráfego na Marginal do Tietê.
Imagino que, chegando em casa, ele prepare um sanduíche ou um miojo, pegue o telefone, e passe a receita para algum programa de culinária na madrugada... Paro por aqui.

Ou melhor, continuo.
Será que a vida de um blogueiro é parecida? Resolvi arriscar. Antigamente, escrever a coluna semanal na Ilustrada me custava grande esforço. Difícil achar assunto, difícil preencher o espaço reservado no jornal. Quando eu começava a esquentar, já tinha escrito o suficiente, e tinha de cortar as linhas supérfluas.
O número de assuntos “comentáveis” agora me parece maior do que antes, e as linhas, menores do que nunca. Daí essa necessidade de abrir um blog.
“Abrir um blog” é uma expressão bastante feia; parece “abrir uma lojinha”, “abrir um negócio”. Mas a internet tem mesmo um ar de feira livre. Não sou dos que gritam para a Dona Maria, oferecendo mamões e quiabos. Se às vezes escrevo artigos estridentes, logo me arrependo.
Não sei se a intenet é lugar para uma coisa mais reflexiva, com esse título de “Cultura e Crítica”, que escolhi, meio pretensioso talvez.
Seja como for, a cultura do “empreendedorismo” acaba tomando conta do jornalismo também.
Enfim, a barraca está aberta. Mas aqui não há nada à venda, nenhum ganho material em perspectiva. Será workaholismo mesmo de minha parte? Eis aí um vício que nunca tive.


Escrito por Marcelo Coelho às 16h11

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Escrevo uma coluna semanal na “Ilustrada” há quinze anos. Comento livros, filmes, exposições, um pouco de política e dos fatos do cotidiano. Com o tempo, fui sentindo que havia mais assuntos do que dava para colocar nos meus textos das quartas-feiras.
Além disso, fui vendo que uma série de leituras, idéias e observações poderiam render notas curtas, sem a necessidade de virarem um artigo completo.
Perdi também o medo da informática e da internet. Todo dia, antes mesmo de acabar de ler o jornal, sou atraído pela tela do computador: os e-mails, o uol e a página em branco do word logo me convocam, sem que eu mesmo perceba o que estou fazendo. É provável que isso aconteça com um número cada vez maior de pessoas.
Daí a vontade de fazer este blog.


Pensei em algumas seções fixas para começar.
-- Um artigo principal, com assunto livre: política, sociedade, personagens, experiências pessoais.
-- Uma seção de leituras, comentários e citações dos livros que estiverem aparecendo na minha frente. (Recebo e compro muitos livros).
-- O “em cartaz”, com críticas e comentários sobre filmes, peças e exposições.
-- “Pais e filhos”. Como tenho dois filhos pequenos, de dois e quatro anos, tenho condições de dar meus palpites sobre o universo infantil, com dicas de filmes, brinquedos e relacionamento entre adultos e crianças.
--“Pizzas”. Uma seção de fotos, com participação (espero) dos leitores, sobre uma das minhas manias: os cartazes de rua em São Paulo. Pode parecer meio esquisito, mas adoro pinturas mal-feitas, em especial as que anunciam sanduíches, lanches e pizzas. Já colecionei uma boa série de cartazes de pizza, por exemplo, e aos poucos irei fazendo o “delivery” das fotos.
Para os assinantes do UOL, haverá links de acesso aos artigos que publico na “Folha” e à coluna de Voltaire de Souza, que sai diariamente no “Agora”, com histórias humorísticas e grotescas sobre o absurdo cotidiano.
Por enquanto é só. Bom apetite.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h59

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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