Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

pérolas acadêmicas

pérolas acadêmicas

Leio, para o artigo de quarta-feira na Ilustrada, as ótimas edições dos livros de Mario Quintana que a Globo publica em homenagem ao centenário do poeta. Vão saindo em volumes individuais, o que muda muito a nossa leitura: a unidade, a fisionomia de cada livro, tal como concebida pelo autor, ficam mais claras do que nas antologias ou reuniões de tudo num volume só.

Cada livro tem uma introdução, escritas por especialistas em Quintana. Em alguns desses textos, há casos de horror. Veja-se isto:

"a aparente simplicidade da forma elude a multiplicidade do significado que nos escapa, transmutando-se a cada tentativa de decifração. Poeta, leitor e poema, recicla-os a diversidade de práticas na suave modulação de passos,gestos e palavras colhidas do ato poético que Mario Quintana concede a quem o lê e o segue no tramado da fina textualidade, inapagável."

Ou:

"Em O Espelho Mágico (1951), livro pouco trabalhado pela crítica, Mario Quintana propõe uma interpretação lúdica da trivialidade de um quotidiano apreendido pela sensibilidade do poeta como um jogo lúcido a partir do qual se percebem os espantos decorrentes de um mundo que, embora simples, desconcerta."

E ainda:

Neste traçado da feição popular das Canções, a questão dos temas ali desenvolvidos deve ser destacada, pois eles são, da mesma forma, importantes, e muitas vezes decisivos, na configuração geral da obra, bem como na receptividade junto ao leitor. Para haver, da parte deste, uma boa aceitação é necessário que a obra seja atraente e interessante para que, por conseguinte, capte e mantenha sua atenção. 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h29

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mais raciocínios

A foto do post anterior foi publicada na primeira página da Folha. Sem negar a barbaridade do ocorrido, análises que contestam sua legitimidade jornalística (o homem que carrega a criança estaria posando na foto) podem ser encontradas em http://eureferendum.blogspot.com/2006/07/milking-it.html Aviso que precisa de estômago.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h05

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quando pensar demais atrapalha

Não sou conhecedor da questão do Oriente Médio, mas tenho lido com interesse as cartas e artigos sobre o que está acontecendo no Líbano. Há todo tipo de raciocínio e comparação, em que se levanta desde a hipótese do que o Brasil faria se as Farc passassem a bombardear nossa população com anuência do governo colombiano, ou a questão de por que Israel não bombardeia o Irã e a Síria de uma vez.

 Há ponderações de todo tipo, lembrando a freqüência fanática com que o Hezbollah atinge Israel, a diferença entre uma democracia parlamentar de tipo ocidental e o terrorismo de facções muçulmanas que nunca se dobrarão a nenhuma proposta de negociação, etc. Discute-se muito a legitimidade da reação israelense ao Hezbollah, se não é legítima, embora possa ser considerada desproporcional. Fala-se dos custos civis em toda guerra, e que houve bombardeios atingindo crianças numa guerra legítima, como a que se fez contra Hitler.

Pode ser, pode ser. Fiquei pensando. Mas depois da manchete de hoje na Folha --mísseis israelenses matam 37 crianças-- cheguei a uma conclusão. Pensar demais, nesse caso, atrapalha. Não há como justificar, nada justifica esse massacre. Chega.

 Criança morta é retirada dos escombros

Escrito por Marcelo Coelho às 13h30

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cesar benjamin

a pedidos, o link (para assinantes do uol) com a entrevista completa do vice do PSOL, Cesar Benjamin, na Folha de 23 de julho.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2307200602.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 12h40

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anish kapoor

Esta é "Ascension", escultura de fumaça que foi "instalada" hoje no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio, dentro da exposição do artista plástico Anish Kapoor.

Uma obra de Kapoor esteve na Bienal de São Paulo há uns dez anos mais ou menos: um bruaco vermelho na parede, que dava a ilusão de não ter fundo. As pessoas atiravam papeizinhos lá dentro para recuperar, por assim dizer, a dimensão material exata daquela obra. A exposição no CCBB-Rio começa amanhã e virá a São Paulo em janeiro do ano que vem.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h26

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tristezas

Quase todas as nossas tristezas são, acredito, estados de tensão que experimentamos como que tolhidos, assustados por já não nos sentirmos viver. Estamos sós com esse desconhecido que penetrou em nós, privados de tudo aquilo a que estávamos habituados a nos confiar.

... O desconhecido uniu-se a nós, penetrou no âmago do nosso coração, pois se mesclou ao nosso sangue e ignoramos o que passou. Seria fácil fazerem-no crer que não passou nada. E, todavia, eis-nos transformados em uma casa pela presença de um hóspede.

...Esse instante aparentemente oco, esse instante de tensão em que o futuro nos penetra, está infinitamente mais próximo da existência do que aqueles outros instantes que se nos impõe do exterior, em pleno tumulto e como que por acaso. Quanto mais silenciosos, pacientes e recolhidos formos nas nossas melancolias, de forma mais eficaz penetrará em nós. O desconhecido é o nosso bem.

(Rilke, "Cartas a um Jovem Poeta". Não é propriamente um melancólico quem escreve essas linhas).

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h04

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solidão

Rilke recomendava ao “jovem poeta”: “ame a sua solidão, suporte as dores que dela vierem, e se essas dores lhe arrancarem queixas, que sejam belas essas queixas. Diz-me que os seus próximos lhe parecem distantes: é que à sua volta se está fazendo um espaço. Se tudo o que está próximo lhe parece distante, é porque esse espaço já toca as estrelas.”

Escrito por Marcelo Coelho às 10h56

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um poema de Adonis

um poema de Adonis

Nascido na Síria em 1930, Ali Ahmed Said adotou o pseudônimo de Adonis. Radicou-se depois em Beirute, no Líbano, e vive atualmente em Paris. É muitas vezes citado como candidato ao Nobel. Cito trechos de seu longo poema "Guia de Viagem pela Floresta do Sentido", a partir da tradução para o inglês publicada na revista Rattapallax número 12 (editora 34).

Que é uma estrada?

Manifesto de partida

escrito numa página chamada terra.

 

Que é uma árvore?

Lago verde

Cujas ondas são vento.

 

Que é um espelho?

Uma segunda face

um terceiro olho.

 

Que é a praia?

Colchão para ondas cansadas.

 

Que é uma cama?

Noite dentro da noite.

 

Que é uma rosa?

Cabeça a decapitar.

 

Que é um travesseiro?

Primeiro degrau na escada da noite.

 

Que é a terra?

Futuro do corpo.

 

...

 

Que são lágrimas?

Uma guerra que o corpo perdeu.

 

...

Que é a nudez?

O começo do corpo.

 

Que é a memória?

Uma casa para abrigar coisas ausentes.

 

...

 

Que é escuridão?

O ventre de uma mulher grávida do sol.

...

Que é um beijo?

Colheita visível do invisível.

 

Que é a angústia?

Vincos na seda dos nervos.

 

Que é uma metáfora?

Um anel no dedo do acaso.

 

Que é um abraço?

O terceiro dos dois.

 

Que é o sentido?

O começo do absurdo

e o fim dele.

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 20h52

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Jules Renard

“Histórias Naturais”, de Jules Renard (1864-1910), é uma coleção de pequenos textos ou crônicas sobre os animais e a vida na fazenda. Nenhum bicho estranho nesses verdadeiros poemas em prosa: só o boi, o sapo, a galinha, o cachorro; um poeta de outra estatura, Francis Ponge, soube aproveitar essa lição. 

 

Jules Renard ficou famoso pelo livro “Poil de Carotte”, aqui traduzido como “Foguinho”: histórias, ao que me lembro bastante cruéis, e torno de um menino ruivo e da estupidez familiar. Há também um bocado de crueldade e estupidez no retrato que traça Renard da vida dos animais. Tudo vem recoberto de certa graça, ou melhor, de “graciosidade” e poesia.

 

A relação entre olhar realista e uma grande sensibilidade para a violência e para a burrice começa na literatura francesa, certamente, com Flaubert; Maupassant e Alphonse Daudet continuaram a tradição, cercando entretanto de muita poesia e suavidade de colorido um objeto que Flaubert queria tratar com rigor clássico imperturbável.

 

Renard é um mestre na observação precisa, e não por acaso alguns trechos de “Histórias Naturais” (o pavão, o grilo) foram musicados por Ravel, outro obcecado pelo recorte limpo das formas e pela objetividade da visão. O belo (e por vezes irritante) “Diário” de Jules Renard traz, por vezes, páginas e páginas só de frases isoladas, colhidas dos modos de expressão popular, a respeito de coisas como o modo exato com que um marreco se desloca ou um touro olha para nós.

 

Em “Histórias Naturais” a mistura talvez desande um pouco, como se o autor se sentisse mais encantador e espirituoso do que realmente é. Há também um certo ar de época, meio “álbum de moça”, mas que apesar de tudo seria antipático desdenhar. Sobre as borboletas, por exemplo, Renard escreve: “essa cartinha de amor dobrada em dois procura um endereço de flor”.

 

Na tradução recém-editada pela Landy saiu “carta doce” (o original é billet doux). E “pintade”, que todo turista leitor de cardápios sabe que é “galinha d’ angola”, ficou sendo “pintada” mesmo.

Mas eis um trecho sobre morcegos que vale a pena reproduzir:

A noite se gasta de tanto que a usam.

Não se gasta no alto, nas estrelas. Gasta-se como um vestido que se arrasta no chão, entre os cascalhos e as árvores, até o fundo de túneis insalubres e porões úmidos.

Não há canto onde não penetre um pano de noite.

O espinheiro o fura, os frios o rompem, a lama o estraga. E toda manhã, quando a noite sobe, farrapos dele se soltam, enroscados ao acaso.

Assim nascem os morcegos (...).

 

O original de “Histórias Naturais” foi publicado pela primeira vez em 1896; já é literatura moderna.

 

ilustração de Toulouse-Lautrec para "´Histórias Naturais"

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h07

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césar maia e a MTV

O prefeito César Maia alerta os leitores de seu "ex-blog" sobre um anúncio da MTV, que ele considera uma agressão à democracia. Transcrevo a mensagem dele, com o link para o anúncio. Vi e revi o anúncio, e não achei nada de mais. É um protesto contra o horário eleitoral gratuito e contra a corrupção na política, e se as emissoras não tiverem ao menos o direito de chiar --no que têm apoio da grande maioria da população--, isso é que seria injusto, a meu ver. Eis o que diz César Maia.

ALÔ TSE! ALÔ LULA! ALÔ ALCKMIN!

O comercial abaixo, é oficial da MTV! Parece-me completamente inconstitucional agredir todos os candidatos e fazer campanha de voto nulo para a juventude.

Uma emissora da importância nacional e internacional da MTV e com o impacto na juventude, agride a democracia com este comercial. E além disso é um concessionário público. Passado esta semana! Clique abaixo, veja e reveja.

http://www.youtube.com/watch?v=rGH252FplLI

Escrito por Marcelo Coelho às 12h40

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moralismo com pimenta (2)

Critiquei declarações da candidata Heloísa Helena sobre a questão de como reduzir os juros. Mas o economista Cesar Benjamin, formulador do programa do PSOL, e candidato a vice-presidente, deu uma entrevista com idéias detalhadas e informações pouco conhecidas sobre o tema. Saiu na "Folha" de domingo passado, e já me tinha chamado a atenção. Devia ter blogado antes, mas aqui vai:

2. O governo Lula manteve a política econômica de Fernando Henrique, transmitindo a idéia de que seria irresponsável mudá-la. Como é possível mudá-la? Quais seriam as primeiras medidas na área econômica? A redução imediata dos juros seria uma delas?

-- Há algo de errado no discurso econômico do governo Lula. De um lado, ele nos diz que os fundamentos da economia brasileira são sólidos. De outro, mantém taxas de juros que são uma anomalia internacional. Boa parte do  mundo, hoje, mantém taxas reais anuais próximas de zero (Inglaterra, 1,57%; Rússia, 1,27%; Chile, 0,44%; China, 0,29%) ou negativas (Estados Unidos, -1,09%; Zona do Euro, -1,89%; Japão, -2,6%; Argentina, -3,66%). Não há outro motivo para as taxas brasileiras, a não ser o de promover uma colossal transferência de renda do mundo do trabalho e da produção para o mundo da especulação financeira.

Os juros brasileiros reais podem e devem cair rapidamente para algo em torno de 4% ao ano, o que ainda nos manteria entre os três países com as maiores taxas do mundo. Como a dívida interna gira em torno de R$ 1 trilhão, e como boa parte dela acompanha a variação da taxa básica do Banco Central, cada ponto percentual de queda representa um alívio imediato de mais ou menos R$ 10 bilhões nas contas públicas. Para se ter uma idéia do que isso representa, basta lembrar que o governo federal investe cerca de R$ 22 bilhões em educação.

Teremos algumas dezenas de bilhões disponíveis para iniciar um programa criterioso de investimentos públicos, basicamente em infra-estrutura econômica e serviços essenciais. Esse programa, por sua vez, alavancará fortemente o investimento privado. Nossa meta é recolocar a taxa de investimento da economia brasileira no patamar mínimo de 25% do PIB, para garantir taxas de crescimento entre 6% e 7% ao ano.

 

4. Isso exigiria um calote na dívida?

-- Alterando algumas resoluções, sem precisar mexer na legislação em vigor, o Banco Central impedirá qualquer ameaça de corrida em direção ao dólar. Com isso, retomará a capacidade de reduzir as taxas de juros a um patamar compatível com a realidade internacional, o equilíbrio das contas públicas e a retomada do crescimento econômico. Se o mercado financeiro recusar as taxas menores oferecidas, ameaçando deixar de comprar títulos públicos, o BC comprará os títulos vencidos ou vincendos, injetando liquidez no mercado interbancário. Os bancos terão de aceitar as novas taxas oferecidas, simplesmente porque não terão alternativas melhores para aplicar os recursos em caixa à sua disposição. Eles é que precisam emprestar, não é o Estado que precisa tomar emprestado, pois temos suprávits fiscal e em conta-corrente. Se resolverem enfrentar o Banco Central serão derrotados.

 

3. Haveria riscos de um retorno da inflação?

-- O Brasil teve uma crise inflacionária em um período em que boa parte do mundo também tinha inflação alta, em muitos casos maior que a nossa. A conjuntura econômica internacional, hoje, é inversa: taxas muito baixas no mundo todo, com tendência a deflação. É ridículo imaginar que o Brasil possa ter sozinho uma crise inflacionária. O grau de interligação das economias e os instrumentos à disposição do Banco Central impedem isso. As pressões inflacionárias que ainda temos não são de demanda, e portanto não devem ser controladas por meio de doses cavalares de juros. Os preços administrados pelo governo respondem por mais de 50% da inflação residual brasileira.

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Escrito por Marcelo Coelho às 09h41

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uma crise no governo Kennedy

uma crise no governo Kennedy

 

 

Em novembro de 1963, dois estudantes negros tiveram garantido pela justiça americana seu direito de estudar numa universidade “para brancos” do Alabama. George Wallace, governador daquele Estado sulista, disse que estaria na porta da Universidade para barrar a entrada deles. O presidente John Kennedy e seu irmão, Bob –ministro da Justiça—tinham de assegurar o cumprimento da decisão judicial.

 

É esta a “crise” a que se refere o documentário de Robert Drew, agora disponível nas locadoras. Já tinha me referido neste blog a um filme anterior de Drew, “Primárias”, em que se acompanha em detalhe a disputa entre Kennedy e Humphrey pela indicação do Partido Democrata às eleições presidenciais.

 

“Crisis” é um filme tremendamente interessante, e mesmo assim decepciona um pouco. Acompanhamos, quase que minuto a minuto, o processo de tomada de decisões dentro da Casa Branca; é a primeira vez, aliás, que um cineasta filmou dentro do Salão Oval. John e Bob conversam sobre as alternativas a tomar diante do desafio do governador racista. Em outro momento, Bob está no telefone, tendo uma conversa decisiva, de Washington, com seu enviado ao Alabama, Katzenbach, quando sua filhinha de três anos aparece no escritório, pedindo atenção.

 

É como se víssemos toda a situação, extremamente tensa --e que teria conseqüências históricas imensas na luta pela superação da segregação racial nos Estados Unidos—através de um microscópio. Alternam-se, a cada momento, os rostos dos personagens principais: a brutal determinação do ex-boxeador Wallace, o perfil aristocrático da estudante negra Vivian Malone, o verdor quase adolescente de Bob Kennedy, a surpreendente falta de emoção de John Kennedy, o cabelo à escovinha dos agentes federais, a careca de Katzenbach.

 

Duas coisas decepcionam, ou pelo menos intrigam um pouco, nesse filme. A primeira é a relativa simplicidade com que tudo se desfaz. A questão parece antes de ordem prática –como fazer os estudantes entrarem fisicamente na universidade—do que de ordem política –o que os democratas do Sul vão achar, qual o peso da opinião pública negra, qual a intenção política de Wallace, até onde ele pode chegar... Naturalmente, julgamentos desse tipo aparecem no filme, mas como não temos nenhuma contextualização política mais ampla da situação –que tipo de sujeito era Wallace, por exemplo?--, o aspecto administrativo da crise é o que prevalece.

 

Mesmo assim, há coisas inacreditáveis e surpreendentes. A estratégia inicialmente montada por Bob para assegurar a entrada dos estudantes na Universidade era de uma simplicidade meio lusobrasileira: imaginava-se que o governador estaria postado à frente de uma porta, sendo possível então chegar com um bolo de agentes federais em volta da estudante, empurrando Wallace fisicamente, na base do ombro e do cotovelo, até que ele desse passagem.

 

Ninguém pensou, inicialmente, que haveria dezenas de câmeras e repórteres presenciando a cena, e que o “teatro” da cena –falas, gestos, etc.— contava mais do que a técnica corporal adotada. Por outro lado, ninguém pensou em juntar organizações anti-racistas para combater Wallace naquele momento.

 

Tratava-se, ao que tudo indica, de um mundo político em que a proximidade física entre os personagens, e ao mesmo tempo a abstração da lei, contavam mais do que dois fatores hoje essenciais: ativismo de ongs e espetáculo televisivo. Aqueles dias de crise talvez marquem, justamente, uma transição entre os dois modelos. E o filme também traduz isso: câmeras fisicamente próximas do rosto dos personagens, íntimas, de um modo que hoje não seria possível, e ao mesmo tempo construindo, minuto a minuto, o espetáculo conflituoso, rico, e cheio de significado histórico, da política. 

 

Ao lado de Katzenbach (esq.), Vivien Malone entra na Universidade do Alabama

Escrito por Marcelo Coelho às 17h41

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aos interessados

Release recebido via e-mail:

 

Consultor da Pet Society e eleito o sexto melhor do mundo, o esteticista canino Sérgio Villasanti  oferece cursos teóricos e práticos sobre cuidados especiais e modernos procedimentos de banho, tosa e penteado em Yorkshire, ao lado do esteticista felino Gerson Alves, que visa desmitificar tabus sobre embelezamento em gatos.

Empresários, gerentes de pet shop, médicos veterinários e profissionais da área de embelezamento animal, como banhistas e tosadores, do Paraná e região, que buscam atualização constante para poder oferecer um serviço diferenciado aos seus clientes terão a oportunidade de participar do melhor curso de estética animal do Brasil, o Programa de Educação Continuada em Estética Animal. Ministrado pelos renomados estilistas pet Sérgio Villasanti (canino) e Gerson Alves (felino), o curso acontece no dia 30 de julho, das 9h às 18h, no Roochelle Park Hotel, em Curitiba (PR).

Fico pensando quais os tabus envolvidos no embelezamento de gatos. O de que não gostam de banho?

Escrito por Marcelo Coelho às 16h08

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moralismo com pimenta

Heloísa Helena destemperou-se um bocado em sua visita a São Bernardo e São Paulo na segunda-feira passada. Eis o que diz a reportagem da Folha.

 

Ao ser questionada como pretendia reduzir a taxa (de juros), e se o decreto presidencial era um dos meios para isso, Heloísa disse que a pergunta mostrava a ignorância do jornalista. Á tarde, durante caminhada na Avenida Paulista, na capital, a candidata voltou à carga, em discurso para militantes.

 

“Sempre aparece alguém, às vezes de bom coração, mas com a ignorância técnica, ou a inocência, e diz: ‘E como vai baixar a taxa de juros? É por decreto presidencial? Ora, poderia ser por decreto presidencial, já que há vários decretos presidenciais no Banco Central que estabelecem a sistemática do cálculo da inflação, que estabelecem a mudança da meta da inflação. Mas não será por decreto presidencial, ignorantes. Ô gentalha de má-fé que tenta vender à opinião pública o pensamento único como única alternativa”, afirmou Heloísa.

 

Calma lá. A questão não é de má fé, bom coração ou vice-versa. Talvez eu seja mais ignorante em economia do que Heloísa Helena, mas a questão de se a taxa de juros pode ser “baixada por decreto” tem um sentido bem diferente do que a candidata faz supor. Pouco interessa qual o instrumento administrativo utilizado.

 

Quando alguém diz que a “taxa de juros não pode ser baixada por decreto”, quer dizer que, se um presidente da República ou ministro resolver baixar a taxa de uma hora para outra, isso tem reflexos e conseqüências não-administráveis pelo Executivo. O presidente pode baixar os juros, claro. Até o Meireles pode, se quiser. Mas com isso –afirmam os ortodoxos, ou seja lá que nome tenham—haveria fuga de capitais, revisão das expectativas inflacionárias, alta do dólar, o diabo a quatro.

 

Isso não significa que a taxa atual não pode ser alterada, que é sacrossanta etc. Significa que baixar bruscamente a taxa de juros é uma decisão complexa, que para muitos economistas contém riscos, e que para outros economistas pode ter vantagens; trata-se de uma aposta, que talvez valha a pena, apesar de alguns perigos que seria imprudente ignorar.

 

Vamos correr esse risco? Sim? Por que? Vale a pena? Aí sim, estaríamos entrando numa discussão madura, ou pelo menos séria, sobre o tema. O que não dá, a meu ver, é atribuir qualquer ato governamental a uma pura “vontade”, a “boa vontade” dos amigos do povo, e a “vontade má” dos “empregadinhos” do mercado financeiro. A coisa não se resume à “vontade” de uns e outros. Se fosse assim, ficamos no jardim da infância: um governante baixa os juros, porque é “bom”, e o mercado, os especuladores, o capital financeiro etc. “reagem” de modo indesejável, porque são “maus”. Nesta hipótese, depois de feito o estrago, não adiantará reclamar dizendo que os capitalistas “não colaboraram”, “puseram tudo a perder”, “foram gananciosos”, etc., porque isso todo governante, mesmo “bom”, tinha obrigação de saber. Era este, aliás, o pressuposto de seu raciocínio.

 

Confunde-se, no discurso político atual, “vontade” (boa ou má) e “interesses” (que não são bons nem maus). Julga-se, com razão, que especuladores financeiros e economistas servem a determinados interesses. Julga-se também que os interesses das classes oprimidas são diferentes, e opostos aos anteriores. Tudo bem. A luta política se faz em torno de interesses. É preciso levá-los em conta, para contrariá-los frontalmente ou negociar com eles. Moralizar a questão, passando do campo dos “interesses” para o dos propósitos nefastos ou benfazejos de cada alma, é uma forma de obscurecer o debate e enganar-se a si mesmo.

 

É claro que, quando um repórter quer –maldosamente, até—levantar dificuldades para um candidato, a resposta será considerá-lo também  serviço dos inimigos. Maldosamente ou não, o repórter está na verdade tentando forçar o candidato a encarar realidades –ou hipóteses—que seu discurso não contempla. O candidato, ou a candidata, em geral reage moralizando tudo novamente: os repórteres ou são ignorantes ou estão de má fé; na verdade, é sua função perguntar e duvidar, quando o eventual simplismo de determinada proposta impõe um exercício de clareza programática por parte do candidato. 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h20

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apagão

Por causa de um clique desastrado, três comentários de leitores ao que escrevi sobre a rádio Naxos (www.naxosradio.com) foram apagados. Peço desculpas.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h40

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Dunga?

Sem nunca ter sido técnico de futebol, Dunga foi escolhido para chefiar nossa desfibrada Seleção. Pronto: já começam os palpites, as polêmicas, as torcidas. Pensei que estaria livre disso por algum tempo.

 

Já que Dunga dava broncas e gritos em campo, liderando os demais jogadores, trata-se do homem certo no lugar certo. Mas a rigor o lugar certo já não existe, já não é o que foi, uma vez que os craques inermes de Berlim sumiram de vista, escafederam-se entre uma sala vip e um free-shop. Temos agora o líder que faltava; mas os liderados serão outros, com novas carências, falhas, pixotadas.

 

Pouco importa. O exasperante é ver renascerem esperanças e raciocínios a respeito de um tema que, como Roberto Carlos, Ronaldo, Ronaldinho, Cafu e o próprio Dunga –para não lembrar de Zinho e Bebeto e cair em depressão profunda— deveria estar agora oculto, como diziam os poetas, nas profundezas do Hades.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h32

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grafites

Um leitor apontou a semelhança entre as fotos de Alexandre Órion (ver abaixo) e o trabalho do grafiteiro inglês Banksy (www.banksy.co.uk) . Aqui vai uma amostra de Banksy:

É um espírito bem "punk". Temos muitos grafiteiros --para não falar de artistas plásticos em geral-- mas, por mais críticos que sejam, é raro que revelem muita impetuosidade política. O "lúdico", como se diz, e a vontade de levar um pouco de leveza irônica aos muros da cidade é o que predomina.

Veja-se ainda esta "colagem" de Banksy:

 

Qualquer adolescente do 2o. grau de escola particular poderia ter tido essa idéia... Mas o fato é que não teve, e a criação de Banksy merece o título de antológica.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h14

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bolsas para escritores

Não sei como são os critérios nem quem julga, mas no link abaixo há informações sobre uma iniciativa da Biblioteca Nacional para ajudar, durante cinco meses, escritores com livros em fase de conclusão.

http://www.vivaleitura.com.br/pnll/mapa_show.asp?proj=153

Escrito por Marcelo Coelho às 11h32

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música do século 20

 

"Nascer do Sol", de Turner (1775-1851)

 

Eu esperava um bocado de “Leaving Home”, a série de seis dvds em que o maestro Simon Rattle, com a Orquestra Sinfônica de Birmingham,  se propõe a explicar a música do século 20 para o grande público. Um programa muito mais curto, com Seiji Ozawa e Winton Marsalis, fazia maravilhas na TV a cabo explicando, com algum detalhamento técnico, os segredos da forma-sonata e as regras básicas da improvisação no jazz.

 

Nada pior do que ver alguém com grande conhecimento do métier, como o maestro Simon Rattle, abandonar tudo o que há de específico em sua área de atuação para entrar na mera literatice: a música de Debussy é “evanescente”, é como uma “aquarela”, e “é incrível como Ravel consegue transmitir a imagem de um nascer do sol (em Daphnis e Chloé). Nada que um redator hábil, empapado dos clichês presentes em programas e contracapas de discos, não pudesse fazer.

 

As imagens que acompanham as peças musicais são tão previsíveis (e bonitas) quanto as próprias peças: nuvens de pássaros migratórios pousando num lago para Ravel, sóis rubros entre árvores para o “Pássaro de Fogo”, quadros de Turner para Debussy. Lindo, mas decorativo e raso.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h51

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Alexandre Órion

Alexandre Órion

Artista visual e fotógrafo, Alexandre Órion explora o conflito entre a pintura e a fotografia, mostrando pessoas contra muros urbanos grafitados por ele. Sua exposição "Metabiótica 8" está em cartaz na Galeria Foley, em Nova York. Aqui vai um trabalho anterior dele.

 

mais imagens e textos em www.alexandreorion.com

Escrito por Marcelo Coelho às 21h40

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Um filme (quase) de John Huston

Não é nada gloriosa a história de “A Glória de Um Covarde” (“The Red Badge of Courage”), filme de John Huston baseado no romance de Stephen Crane. Como era comum na Hollywood dos anos 50, as sutilezas e subentendidos artísticos pretendidos pelo diretor terminaram sofrendo imensamente na mão dos produtores. Cortes, modificações na estrutura da história, e todo tipo de interferência se sobrepuseram à vontade de Huston.

 

Todo o processo está narrado em “Filme”, livro-reportagem de Lillian Ross lançado pela Companhia das Letras, que já comentei rapidamente neste blog.

 

Hoje peguei o filme na locadora, e passei parte da tarde assistindo. “A Glória de Um Covarde”, no fim, ficou bem melhor do que o livro de Lillian Ross fazia crer. Acompanha-se com envolvimento e simpatia o destino do “Jovem Soldado”, o personagem ambíguo vivido por Audie Murphy –que na vida real tinha sido herói da Segunda Guerra. Trata-se de um recruta na Guerra da Secessão, assaltado de dúvidas quanto à própria valentia, enquanto seus colegas de tropa se dizem ansiosos para entrar logo no campo de batalha.

 

Os soldados passam semanas e semanas repetindo os mesmos exercícios e desfiles, até que finalmente vem a ordem para avançar. A coluna se desloca no meio de um bosque: logo se defronta com um primeiro cadáver, estatelado no chão.

 

Lillian Ross conta o capricho com que John Huston cuidou pessoalmente da maquiagem do “cadáver”, e como insistiu para que o rosto dos soldados, ao encontrá-lo, tivesse a dose certa de espanto, frieza e emoção. Apesar dos muitos cortes impostos pelos produtores da Metro Goldwin Mayer, essa cena continua no filme, eficaz e memorável. O jogo entre o drama coletivo e a sorte individual do Jovem Soldado, assim como a alternância entre as tomadas panorâmicas de batalha e os closes dos atores –cada um com seu rosto especialíssimo, em nada semelhante ao estereótipo do “artista de cinema”—preserva-se muito bem na versão final de “A Glória de Um Covarde”.

 

John Huston, depois de um mês e alguns dias de filmagem, nem quis saber do que seria feito da fita. Partiu para a África, onde rodaria uma produção independente com Humphrey Bogart e Katherine Hepburn. Seria o clássico “Uma Aventura na África”. Mas “A Glória de Um Covarde” não se transformou, apesar das modificações a que foi submetido, num filme qualquer.

 

Uma intervenção dos chefões da Metro piorou sensivelmente o filme: a introdução de uma voz narrando trechos do livro de Stephen Crane, para dar a idéia de que aquele filme era uma prestigiosa e importante adaptação de um clássico da literatura americana. O empolamento e o blablablá didático prejudicam o realismo, a humanidade psicológica, a simplicidade da narração.

 

Mas a decisão da Metro tinha suas justificativas em 1950. Lillian Ross conta que o filme, mais ou menos tal como Huston o havia concebido, foi apresentado em “pré-estréias” para a platéia normal das sessões de fim-de-semana, no que hoje seria uma “pesquisa qualitativa de mercado”. As pessoas pensavam que se tratava de um filme de guerra, ou de um faroeste, e não se conformavam com o fato de que a trama era psicológica, centrada apenas num conflito interior. A idéia dos produtores, então, foi introduzir a narração explicando que se tratava de um filme baseado no livro de Stephen Crane, para que ninguém se decepcionasse esperando uma história cheia de eventos e algum caso de amor.

 

No fundo, a estupidez do julgamento estético se resume freqüentemente a uma confusão a respeito do gênero em que determinada obra se inscreve. “Como assim? Isto não é para ser um grande filme de guerra?” Quem espera fidelidade às regras de um gênero quer sempre os mesmos clichês. E não entende quando o filme é “outra coisa”.

 

Esse risco acabou agora: sabemos que se trata, afinal, de um filme de John Huston. Ou quase.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h28

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Conar (2)

Outra decisão do Conar também merece destaque. É sobre um anúncio de maionese.

Consumidores do Rio e de São Paulo consideraram discriminatório comercial para TV da Hellman's que mostra uma tribo de canibais negros que desiste de devorar um prisioneiro branco ao experimentar a maionese.

Anunciantes e agência discordaram da acusação, alegando que a peça teve boa aceitação entre os consumidores em geral e que o filme retrata uma situação bem-humorada e completamente imaginária, sem representar nenhum tipo de discriminação, além de adotar vários referenciais cinematográficos.

O relator concordou com a defesa, e seu voto pelo arquivamento foi aceito por unanimidade.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h35

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rigores publicitários

Deve-se dizer que o órgão de auto-regulamentação da publicidade, o Conar, julga anúncios específicos o tempo todo, conforme apareçam reclamações do público ou da concorrência. Muitas vezes, as reclamações do público são descabidas, e as decisões do Conar são de grande sensatez. Havia, por exemplo, um anúncio de pinga, a Cachaça Sagatiba, que motivou "queixa de consumidora paulista". Aqui vai um trecho do relatório da decisão do Conar.

A consumidora questionava o comercial, pelo "apelo à sensualidade e ao erotismo. Na peça, ao ver um homem nu, uma personagem exclama: 'Que sagatiba, hein!'

Em primeira instância, acordou-se pela alteração do comercial, decisão reformada no recurso ordinário, que recomendou o arquivamento da representação. Para a defesa, o anúncio apenas usa o recurso do humor, não sendo erótico e nem estimulando o uso do produto para melhorar o desempenho sexual.

A queixa acabou sendo arquivada.

E eu, que já estava pensando em ingerir algumas doses de Sagatiba, tenho de me convencer de que não vai adiantar muito; melhor investir minhas esperanças nos feromônios.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h31

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íntegra das normas do Conar

íntegra das normas do Conar

 No site do Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (www.conar.org.br) pode-se encontrar a íntegra das novas regras para publicidade voltada a crianças e adolescentes. Aqui vão:

Os anúncios deverão refletir cuidados especiais em relação à segurança e às boas maneiras e, ainda, abster-se de:

a) desmerecer valores sociais positivos, tais como, dentre outros, amizade, urbanidade, honestidade, justiça, generosidade e respeito a pessoas, animais e ao meio ambiente;
b) provocar deliberadamente qualquer tipo de discriminação, em particular daqueles que, por algum motivo, não sejam consumidores do produto;
c) associar crianças e adolescentes a situações incompatíveis com sua condição, sejam elas ilegais, perigosas ou socialmente condenáveis;
d) impor a noção de que o consumo do produto proporcione superioridade ou, na sua falta, a inferioridade;
e) provocar situações de constrangimento aos pais ou responsáveis, ou molestar terceiros, com o propósito de impingir o consumo;
f) empregar crianças e adolescentes como modelos para vocalizar apelo direto, recomendação ou sugestão de uso ou consumo, admitida, entretanto, a participação deles nas demonstrações pertinentes de serviço ou produto;
g) utilizar formato jornalístico, a fim de evitar que anúncio seja confundido com notícia;
h) apregoar que produto destinado ao consumo por crianças e adolescentes contenha características peculiares que, na verdade, são encontradas em todos os similares;
i) utilizar situações de pressão psicológica ou violência que sejam capazes de infundir medo.

II – Quando os produtos forem destinados ao consumo por crianças e adolescentes, seus anúncios deverão:

a) procurar contribuir para o desenvolvimento positivo das relações entre pais e filhos, alunos e professores, e demais relacionamentos que envolvam o público-alvo;
b) respeitar a dignidade, a ingenuidade, a credulidade, a inexperiência e o sentimento de lealdade do público-alvo;
c) dar atenção especial às características psicológicas do público-alvo, presumida sua menor capacidade de discernimento;
d) obedecer a cuidados tais que evitem eventuais distorções psicológicas nos modelos publicitários e no público-alvo;
e) abster-se de estimular comportamentos socialmente condenáveis.

Parágrafo 1º

Crianças e adolescentes não deverão figurar como modelos publicitários em anúncio que promova o consumo de quaisquer bens e serviços incompatíveis com sua condição, tais como armas de fogo, bebidas alcoólicas, cigarros, fogos de artifício e loterias, e todos os demais igualmente afetados por restrição legal.

Parágrafo 2º

O planejamento de mídia dos anúncios de produtos de que trata o inciso II levará em conta que crianças e adolescentes têm sua atenção especialmente despertada para eles. Assim, tais anúncios refletirão as restrições técnica e eticamente recomendáveis, e adotar-se-á a interpretação mais restritiva para todas as normas aqui dispostas.

Nota: Nesta Seção foram adotados os parâmetros definidos no art. 2º do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/90): “Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade”.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 21h22

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anúncios para crianças

anúncios para crianças

Entra em vigor a partir de 1o de setembro uma série de normas editadas pelo Conselho de Auto-Regulamentação Publicitária, o Conar, visando a disciplinar a publicidade voltada para o público infantil. Segundo o Boletim do Conar, que não as reproduz na íntegra, recomenda-se, por exemplo, que:

a publicidade seja um fator coadjuvante aos esforços de pais, educadores, autoridades e da comunidade na formação de crianças e adolescentes, contribuindo para o desenvolvimento positivo das relações entre pais e filhos, alunos e professores, e demais relacionamentos que envolvam o público alvo.

[Nada de muito concreto, como se vê. Mas o boletim cita outras três determinações um pouco mais específicas]

Não se usará mais apelos imperativos de consumo dirigidos diretamente a crianças e adolescentes ("peça pra mamãe comprar...").

Não se usará mais crianças e adolescentes como modelos para vocalizar apelo direto, recomendação ou sugestão de uso ou consumo por outros menores ("faça como eu, use...")

[Mas se algum produto se apresentar como, por exemplo, "o iogurtinho da Xuxa", ou "o batonzinho da Sandy", pode?]

O planejamento da mídia refletirá as restrições técnica e eticamente recomendáveis, buscando-se o máximo de adequação à mídia escolhida.

São estes todos os pontos destacados no Boletim do Conar no tocante à auto-regulamentação. Parece pouco.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 21h07

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obras-primas da publicidade

Trecho de mais um e-mail que recebo, desta vez tendo no campo "assunto" a frase "seje completamente irresistível": 

Quer ter o mesmo poder de atrair qualquer pessoa que uma cadela no cio de atrair cães? Comprovado cientificamente, Apaixonante é 100% eficaz.

Apaixonante se trata de um produto semelhante a uma colônia, mas é composto de feromônios, o que garante deixar qualquer pessoa 75% mais atraída pelo usuário do produto.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 20h57

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Lillian Ross

A jornalista Lillian Ross está com 79 anos, e participa do Flip este ano em Parati. Acaba de ser lançada no Brasil, pela Companhia das Letras, a tradução de seu famoso livro-reportagem "Filme", que ela escreveu em 1950 --com 23 anos portanto. Ela acompanhou o diretor John Huston durante toda a produção e a filmagem de "The Red Badge of Courage" ("A Glória de um Covarde"), e as longas reportagens que escreveu para a revista "New Yorker" resultaram no volume agora traduzido.

É interessante comparar a visão de Lillian Ross sobre John Huston e aquela deixada por Jean-Paul Sartre, que trabalhou também com o diretor no roteiro de "Freud, Além da Alma". Sartre e Huston passaram juntos algumas semanas, na fazenda que Huston tinha na Irlanda. Huston ficava chocado com Sartre: o homenzinho, conta Annie-Cohen Solal em sua biografia do filósofo (editora L & PM), falava sem parar, era inflexível em suas idéias, intelectualizava tudo (é claro), e tinha um absoluto desprezo pela dor física. Os dentes de Sartre, nessa altura com cinqüenta e poucos anos, eram uma verdadeira ruína, escavada impiedosamente pelas bactérias arqueólogas. Quando um dente doía, Sartre mandava arrancar, e pronto.

E, quando Sartre começava a falar, John Huston saía da sala sem dar maiores explicações. Montava num cavalo e fazia longos passeios pela fazenda. Voltava à sala, e encontrava Sartre ainda falando, como se não tivesse notado a sua ausência. A colaboração entre ambos não durou, é claro.

Na ótica de Lillian Ross, John Huston é o intelectual, ou o que houver de mais próximo disso, em toda a história contada. Com um visor, ele pensa em cada tomada de câmera, e explica para o ator principal porque tal cena será filmada num descampado ("Ele vai morrer num espaço aberto, Audie. Percebe a noção de vastidão lá?"). Audie Murphy, herói condecoradíssimo na Segunda Guerra Mundial, é pouco mais que um catatônico em Hollywood, incapaz de qualquer resposta, de qualquer reação diante do que lhe dizem.

Pouco importa: John Huston, apesar de tratado como artista por Lillian Ross, parece mesmo ter como principal paixão os cavalos, a ponto de querer dirigir o filme montado em um. E procura, nos candidatos a figurante das cenas de batalha, aqueles que tenham rosto de "durão". É a mesma preferência que o leva a admirar os grandes executivos de Hollywood: são durões, vilões de verdade, patifes sem alma.

O livro de Lillian Ross é menos interessante do que parece ser --pelo menos até agora; estou na página 101-- porque não se trata de uma excepcional escritora quando sua tarefa é descrever ambientes, rostos, psicologia. Há o velho truque de falar das roupas que cada um está usando, por exemplo, como se isso fosse o bastante para conferir um toque de realidade à narrativa. Mediana nas paisagens e cenas de conjunto, Lillian Ross é entretanto muito boa nos closes dos personagens e nos diálogos. As falas de cada um dos participantes da produção dizem muito por si sós, e a autora sabe destacá-las no momento certo.

O mais impressionante "durão", nessa incômoda comédia da masculinidade hollywoodiana, é Louis B. Mayer, o inatingível "big shot" da Metro. A fala de Mayer, em seu colossal escritório de trabalho, é o ponto alto do livro até aqui: incoerência, truculência, absurdos e total desconsideração pelo interlocutor são reproduzidos com perfeição técnica e nenhum comentário. 

Nenhum comentário: no jornalismo, este é o lema dos "durões"; Lillian Ross pertence ao time.  

 O diretor John Huston

Escrito por Marcelo Coelho às 17h59

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estratégias do PCC

Várias vezes se noticia que os líderes do crime organizado começaram aprendendo seus métodos de ação com presos políticos, na década de 70, e que ainda hoje o PCC se inspira em técnicas de grupos extremistas de esquerda. Fico pensando se não falta a Marcola e congêneres algum aperfeiçoamento nesse campo. Vejo-os fazendo atentados contra policiais militares, carcereiros, supermercados e caixas de banco fora do horário de funcionamento.

Ora, com a notícia de que existem uns cem deputados envolvidos no escândalo dos sanguessugas, e com baixíssimas probabilidades de que venham a ser cassados por seus pares, uma onda de atentados contra representantes do parlamento não seria, do ponto de vista logístico e operacional, difícil de fazer. A sustentação do crime organizado junto à opinião pública se fortaleceria, imagino, e o caminho para os traficantes se tornarem força política real no país se encurtaria bastante, nãodependendo de acordos com autoridades nem de corrupção a varejo da polícia.

Provavelmente, um projeto de poder político demora ainda alguns anos para se cristalizar. Até uma quadrilha virar partido e finalmente conquistar áreas importantes da administração, é preciso passar um tempinho.  

Escrito por Marcelo Coelho às 17h35

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obras-primas da propaganda

Recebo um anúncio por e-mail que, ao contrário de seus congêneres, não promete a simples felicidade sexual: o que se imita, aqui, é o procedimento da carta anônima, da chantagem. O mundo do segredo, típico da internet, também serve para vender produtos célebres.

 

 

She thinks you are perfect and a wonderful choice for her.
But all this time you have been hiding the problems with your erections.
You tried to postpone sex as long as possible.
But there is no way to hide the truth anymore.
Soft Viagra tabs will make your life easier.
Get them before she finds out the truth.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h22

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rádio naxos

Um dos mais simpáticos selos de cds de música clássica é o selo Naxos, especializado em obras raras e compositores pouco tocados. Os cds da Naxos aparecem em toda parte, porque seus preços são mais baixos do que a média. E isso estimula os ouvintes que querem sair do repertório mais conhecido. Há desde a obra pianística completa de Granados (saindo das usuais "Goyescas" e "Danças Espanholas") até uma série de compositores americanos do século 20, com autores pouco divulgados entre nós, como Roy Harris; das canções de câmera do inglês Somervell a recitais de compositores belgas do século 19, o campo para a aventura, para a descoberta e para o risco auditivo é enorme --e simplesmente não acaba o número de autores que mesmo os  mais experimentados ouvintes de música clássica provavelmente nunca ouviram falar por estas bandas.

A boa notícia é que está acessível pela internet a Rádio Naxos (www.naxosradio.com), a preço baixo: a assinatura varia de dez dólares (para som com qualidade de fm, dizem eles) a cerca de trinta (para som com qualidade de cd). A grande variedade de autores e obras fora da rotina oferecida pelos cds fica assim disponível para o internauta. Nos quinze minutos gratuitos de teste, pude ouvir bonitos trechos de uma sinfonia do contemporâneo Arvo Paart, cujos cds, mesmo nos momentos de mais irresponsável experimentalismo consumista, eu hesitei em adquirir.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h01

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lula e raul cortez

Estranha a nota do presidente Lula lamentando a morte de Raul Cortez: "a obra dele, que marcou a história da dramaturgia brasileira, deixa para as novas gerações um exemplo de seriedade etc." Funcionaria mais para um autor de peças do que para um ator.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h22

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terror

Na "Folha" de hoje, saíram fotos dos protestos da comunidade libanesa do Brasil contra os ataques  de Israel. Sete brasileiros em férias no Líbano foram mortos; como outras dezenas ou centenas de libaneses, não tinham nada a ver com o seqüestro de dois soldados israelenses pelo Hezbollah. Num ato público em Curitiba, havia uma pessoa usando camiseta do Hezbollah. O pior que pode acontecer, nessa escalada militar israelense, é o Líbano inteiro unificar-se em favor dos extremistas muçulmanos, diante das agressões a seu território; e que mesmo aqui, no Brasil, onde libaneses e israelitas convivem perfeitamente, comecem a surgir sementes desse ódio sem fim. 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h19

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empregadinho

Achei infeliz a declaração de Heloísa Helena, chamando Tarso Genro de "empregadinho" de Lula. Certo que a independência e a respeitabilidade intelectual de Tarso Genro, antes um adepto da "refundação" do PT, corroeram-se bastante desde que ele voltou ao ministério. Mas usar "empregadinho" como termo pejorativo não é coisa que uma candidata de um partido socialista -obreiro- libertário, ou seja lá o que for, deva fazer tão prontamente.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h54

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cientistas políticos

Para o cientista político Carlos Melo, do Ibmec, o crescimento de Heloísa Helena nas pesquisas tem algo de deboche. "Parte do eleitorado vota nela mais ou menos como votava no Enéas", diz ele na "Folha" de hoje. Quanto aos motivos do desempenho da candidata no Nordeste, relativamente mais baixo, o cientista político não aponta a alta popularidade de Lula nessa região. "No Nordeste ela é mais conhecida", explica Carlos Melo.

Haverá algo de "científico" nessas frases do cientista político? Ou apenas uma visão desfavorável a respeito de Heloísa Helena? Não respondo de imediato; seria preciso ver, por exemplo, se o perfil do eleitor de Heloísa Helena é semelhante ao de Enéas Carneiro; creio que não. A candidata do PSOL é mais forte entre universitários.

Em todo caso, o que vai me chamando a atenção é a facilidade com que "cientistas políticos" são chamados a opinar sobre a conjuntura eleitoral, e terminam simplesmente dando a sua opinião pessoal, sem ciência nenhuma por trás disso. De todas as ciências humanas, a "ciência política" talvez seja a mais desmoralizada pela facilidade com que, no Brasil, se faz uso de seu nome.

Não vem de uma cientista política, mas de uma comentarista política (Dora Kramer, no "Estado") um raciocínio mais analítico sobre o caso. Ela destaca o fato de que, dos eleitores de Heloisa Helena agora49% admitem mudar sua escolha até o dia da eleição. É um dado, não uma opinião; coisa que os "cientistas políticos" das entrevistas cotidianas nem sempre parecem ter em mãos.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h51

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Raul Cortez

Vi Raul Cortez no teatro várias vezes, mas duas atuações suas me marcaram especialmente. Ele foi Salieri na produção brasileira de "Amadeus", e embora J. Murray Abraham, no filme de Milos Forman, tenha merecido o Oscar por seu trabalho nesse papel, a graça e o carisma de Raul Cortez eram muito maiores. Não sei se foi como Salieri, na década de 70, que Raul Cortez desenvolveu ao máximo aquilo que seria uma de suas características mais memoráveis como ator: o ar de cinismo simpático, em que a voz cheia de malevolência, sotaques e asperezas se mostrava capaz de criar empatia do público com o personagem, e nenhuma indignação. Enquanto o Salieri de Murray Abrahams era sombrio, feio, católico, o de Raul Cortez era adoravelmente sibarita e sedutor, "ganhando" o público para seu ponto de vista; a inveja, sentimento tão carregado e assassino no filme de Forman, tornava-se graças a Raul Cortez uma atitude humaníssima, envolvente, impagável.

Em "As Boas", de Zé Celso, a aparição de Raul Cortez no papel de "Madame", com um turbante azul pavão e cílios postiços, descendo as escadas como se fosse uma versão apocalíptica de Greta Garbo, foi um desses momentos que só o teatro pode produzir --e que, no Brasil, Zé Celso sabe dominar como ninguém. Refiro-me a um certo efeito de paralisação do tempo, em que o espanto da platéia, o silêncio dos atores, constróem um momento em que o "ao vivo" se transforma em seu contrário, e se fixa na eternidade. Ao contrário do cinema, onde tudo é movimento, e onde a administração do tempo em cena é resolvida na sala de montagem, o teatro --quando funciona-- consegue criar, na interação entre os atores e o público, uma elasticidade muito própria no tempo de cada cena, que se estica e se desata, prolonga ou sucumbe conforme a situação. A chegada de "Madame", era um espetáculo dentro do espetáculo; aqui, Raul Cortez transfigurava outro pecado capital; não a inveja de Salieri, mas a arrogância, o orgulho, maravilhosamente espanhóis, como se castanholas ocultas estivessem a seu alcance, vencendo sem mover um músculo o teatro inteiro.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h40

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hotéis-fazenda

Nos últimos quatro anos, acumulei alguma experiência em matéria de hotéis-fazenda no interior paulista, e faço alguns comentários no intuito de ser útil a quem tiver filhos pequenos.

O primeiro que visitei foi o Villa Rossa, perto de São Paulo --queria algum que me pusesse o mais próximo do asfalto possível. O lugar é muito confortável, com boa comida, mas claramente voltado para convenções de trabalho, e eventos de empresas, com poucos ângulos de onde se pudesse ver alguma mata; está praticamente dentro da zona urbana de São Roque, e não cheguei a pisar num só grão de poeira o tempo todo. Não era isso o que eu queria? Sim, mas não tanto.

Dois lugares históricos maravilhosos são a Fazenda Pinhal, em São Carlos, e a Fazenda Capoava, perto de alguma cidade cujo nome não me lembro: Buri? A Fazenda Pinhal não tem praticamente nada para crianças, mas seu pomar, de árvores centenárias, o casarão antiquíssimo, inesgotável em suas descobertas, labirintos de quartos, alcovas, escadas e porões, cercado de jardins igualmente confusos e autênticos --nada da jardinagem de condomínio novo-rico--, além da excelente gastronomia, fazem de uma estada lá uma experiência inesquecível. Conheci o lugar quando ainda não tinha virado hotel; eu tinha uns nove anos e imaginava alguma trama policial entre os herdeiros do velho conde; a noite, incrivelmente brilhante de estrelas entre os altíssimos coqueiros do terreiro escuro, ficou como uma lembrança forte da minha infância. Mas, como eu disse, crianças menores têm hoje em dia pouco a fazer ali.

A Fazenda Capoava oferece algumas atividades para crianças, como andar a cavalo, num casarão bem menor do que o do Pinhal, e tem interessantes excursões para outras fazendas antigas ali por perto. A sede de uma delas, aliás, foge do padrão arquitetônico colonial, tendo sido construída já quase no fim do século 19, seguindo padrões do gosto urbano da época --menos rústico, mais arrebicado-- em meio ao cenário rural; é bem interessante. Na Capoava, os chalés têm lareira, a cozinha para o meu gosto exagerou no alho, e a piscina não é aquecida. Peguei dias muito ventosos por lá, e de noite, não sei se o calor da lareira ou galhos de árvores causavam estrondos assustadores no telhado.

A Fazenda Dona Carolina, também um belo casarão colonial adaptado, é excelente para crianças, sem dispor da estrutura gigantesca de um resort. Há monitores para todo tipo de atividades, duas piscinas (estive no Carnaval, mas apostaria que são aquecidas), uma represa onde o hóspede pode se dedicar à observação de capivaras, belos bambuzais. Seria o melhor lugar para ir, não fosse a qualidade inferior da comida. Adepto de regimes e jejuns, tive minha vida dificultada, ao contrário do que pode parecer. Saladas pouco convidativas e carnes nadando no próprio molho me levaram a um vingativo ataque aos folhados e sobremesas.

O Grande Hotel São Pedro guarda na arquitetura o charme das estações de águas da década de 40: pisos de granilite, certa tendência para o rosa, o âmbar e o verde-turmalina. As piscinas ficam dentro de um parque muito bonito, onde pela manhã é possível encontrar quatis. Os monitores, em grande quantidade e profissionais do alarido, se dão bem com o mundo animal. Há entretenimento para crianças pequenas e grandes, com piscina coberta e aquecida, várias salas de jogos, teatrinho de bonecos todo dia, etc. etc. A comida não é a melhor que conheço, mas a mesa de doces é quilométrica. A música ao vivo, quase todas as noites, recomenda que você procure um quarto que dê para o lado de fora, onde o gramado e os pinheiros oferecem um pouco de paz. Uma certa sensação de superlotamento é inevitável nos feriados, apesar de toda a grandiosidade antiga do local.

Escrevo agora da lan house do Hotel Mazzaropi (estranhamente vazia de adolescentes, o que não acontecia em São Pedro). O hotel, praticamente dentro de Taubaté, não tem vistas bonitas nem muita natureza por perto; mas pela minha experiência parece ser aquele em que as crianças se dão melhor. Parquinho, piscina aquecida com escorregador, pedalinhos e monitores de algum modo se mostram mais acessíveis do que em outros lugares, e há mesmo um cenário imitando pracinha do interior, onde galinhas correm soltas, como se tudo fosse de fato um grande parque de diversões com quartos acoplados. Em outros hotéis, a ´"idéia inicial" era lazer adulto, e depois ocorreu a expansão necessária no rumo do público infantil. Embora o Hotel Mazzaropi tenha sido originalmente a fazenda do ator e diretor, havendo por toda parte homenagens a sua memória, tudo parece ter sido construído a partir do interesse das crianças, para só em seguida cuidar do público adulto. O atendimento é ótimo, a comida não tanto; mas não faltam chickenitos e batatinhas para os interessados. 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h23

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de Lembo a Zé Celso

A comparação entre os atentados do PCC e a revolta de Canudos, feita pelo governador Cláudio Lembo há alguns dias, é mais um exemplo do curto-circuito entre sua formação conservadora e seu recente namoro com a retórica de esquerda.

 

A idéia deve ter surgido depois de Lembo ter-se encontrado com Zé Celso Martinez Corrêa, por ocasião da assinatura de um projeto de lei que beneficia (com justiça) o teatro Oficina.

 

Da equação Zé Celso + Cláudio Lembo só não sai samba do crioulo doido porque os dois são brancos, e o maior candidato a doido não está mais para o minueto e a mazurca do que para o samba no pé.

 

Vejamos o que Lembo diz, em sua entrevista à Folha de domingo passado:

 

Há uma série de elementos. Um é a miséria endêmica. Há uma formação social muito deformada na América Latina. Isso tudo é um caldo cultural muito dramático. Os governos precisam pensar em integração social. A elite ou é muito americanófila, ou está, como sempre, com as costas voltadas para o Brasil e olhando a Europa. Nunca nos debruçamos sobre o Brasil. O que está acontecendo é uma repetição da Guerra de Canudos em plena cidade de São Paulo.

 

 

Se Zé Celso tivesse dito isso, tudo bem: um elogio da marginalidade de Marcola e companhia pode ser tomado como licença poética, num quadro de referências ideológico que permite o elogio da revolta, da rebelião, da revolução.

 

Claro que Lembo, como qualquer pessoa, sabe que a pobreza, ou melhor, a desigualdade social, é causa básica da criminalidade. Mas aí seu raciocínio começa a entortar.

 

Estamos todos prontos a simpatizar com os revoltosos de Canudos, multidão de gente miserável, movida pelo messianismo religioso, num lugar esquecido do sertão nordestino. Mas ninguém está pronto a simpatizar com o PCC e com atentados que, ademais, vitimam principalmente os pobres. “Ora”, deve ter pensado Lembo, “a pobreza dessa gente levou à criminalidade. Tanto em Canudos quanto agora. Tenho de ser simpático com os pobres. Devo criticar as elites. Então, lá vai.” E soltou a bomba.

 

Terminou sendo simpático com criminosos, querendo ser simpático com os pobres;  e com isso insulta quem é pobre e honesto. Ou então, numa virada ideológica final, fez algo que, desde Euclydes da Cunha, ninguém mais chega ao ponto de fazer: equiparou os revoltosos de Canudos a um bando de delinqüentes armados, liderados por um patife. Era a opinião de Olavo Bilac, por exemplo; mas depois de “Os Sertões” essa perspectiva não é mais a de nenhum brasileiro culto. Ou melhor, “de elite”.

 

Não está ao alcance de Lembo resolver o problema da miséria do país ou promover o fim da americanofilia das elites. Mas os horrores do presídio de Araraquara ocorreram agora, sob sua responsabilidade, e foi preciso a reportagem de Laura Capriglione, na Folha (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0607200601.htm ), para que isso viesse ao conhecimento público. Todo o resto, como dizia Verlaine, “est littérature.” 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h50

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borges

borges

 

 

Jorge Luis Borges tratava a própria cegueira com certa ironia, dizendo que lhe dava um ar de sabedoria, um halo profético, irmanando-o a  grandes poetas como Milton e Homero; tratava-se de uma deficiência em geral tratada com respeito, ao passo que a surdez costuma ser associada ao ridículo.

 

Em “Borges- Uma Biografia em Imagens” podemos perceber que seu rosto ganhou profundidade com o tempo. Suas fotos mais conhecidas, as da velhice, de fato aparentam uma espécie de sensibilidade superior, como se ele estivesse ciente de coisas inauditas, recebendo notícias de alguma outra dimensão.

 

O livro –cujo texto vai pouco além de uma cronologia—apresenta, além de muitas reproduções de capas de livros, algumas fotos do “jovem Borges” –e o contraste com as imagens da velhice não poderia ser maior. Enquanto seu amigo Bioy Casares está sempre bonito, elegante, com todo o aspecto “borgeano” de refinamento e inteligência, o próprio Borges parece incaracterístico, com o cabelo preto grudado de brilhantina ao estilo de Perón, e mesmo algo vulgar, na corpulência inexpressiva do rosto.

 

Os admiradores de Borges poderão, sem dúvida, encontrar finalmente as imagens de pessoas sempre citadas em seus prefácios e dedicatórias, como Silvina Ocampo e Carlos Mastronardi, além de sua mãe, Leonor, e de Estela Canto, por quem Borges se apaixonou. Seria interessante, contudo, uma seleção mais extensa dos “lugares” borgeanos: os pátios do Sul de Buenos Aires, tantas vezes lembrados em seus poemas, não aparecem –e de Adrogüé, lugar evocado por Borges de várias formas, temos apenas fotos de um hotel em que a família do autor passava as férias de verão.  Borges e Estela Canto, nos anos 40

 

 O jovem Borges

Escrito por Marcelo Coelho às 16h47

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vincenzo scarpellini

 

 

 

Não estive mais de cinco vezes com o designer e artista plástico Vincenzo Scarpellini, mas bastava conhecê-lo uma vez para ter certeza de se estar entre uma das pessoas mais agradáveis, delicadas e simpáticas do mundo. Não dessas simpatias que se exteriorizam, em performances para o consumo público; nem aquelas de outro tipo, feitas de certo embaraço infantil e tímido. Vincenzo era simpático com a naturalidade, a graça, o encanto de sua própria alma, como se tivesse a  certeza, sem nenhuma arrogância, de que todo ser humano é amigo e bom.

 

Ele ilustrava a coluna de Gilberto Dimenstein no caderno “Cotidiano” da Folha, reinterpretando com cores vivas, saturadas, e um olhar inconfundível, cenas e personagens da cidade de São Paulo. Publicou recentemente dois pequenos livros, pela Ateliê Editorial, com uma seleção dessas imagens e dos textos –pequenas obras de arte também—que as acompanhavam.

 

Eis o que ele escreve sobre o dirigível da Goodyear, por exemplo:

 

Deve-se associar aos veleiros este modo de voar, pois o dirigível, bolha de hélio, também flutua e enfrenta o vento. Mas pela forma e o andar majestoso se assemelha mais a uma baleia: não é difícil imaginar que, em vez de voar, deixou a terra para descer aos abismos, revelando lá em baixo um mundo de corais e cartilagens marinhas.

 

Vincenzo também revelou, em sua estada pelos abismos de São Paulo, um mundo de corais e cartilagens marinhas. Gostaria de pensar que, agora, ele voa em direção a algum lugar mais limpo e puro, como ele próprio foi. Sua morte aos 41 anos, na semana passada, depois de uma luta contra o câncer, é um desses fatos absolutamente injustos, em que a doença parece ter pego a pessoa “errada”, alguém que não poderia de jeito nenhum passar por isso.

 

 

 

desenho de Vincenzo Scarpellini

Escrito por Marcelo Coelho às 16h04

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outra pausa

é, hoje, domingo, não deu para escrever nada. Amanhã compenso. Só que de terça a domingo que vem volto a ficar meio bissexto de novo; estarei num hotel e tentarei dar uma escapadinha para o computador. O blog não é trabalho, são as férias das férias nestes dias.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h20

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nada mais

Alan Bennett é um autor de grande sucesso na Inglaterra, principalmente pelos roteiros cômicos que escreve para a televisão; pertence à mesma geração do comediante Dudley Moore e uma de suas peças, A Loucura do Rei George III, virou um filme bem interessante. Alan Bennett lançou agora um livro autobiográfico, Untold Stories, de que cito um trecho, publicado na "New York Review of Books" de 11 de maio.

Bennet conta que sua mãe passou a sofrer de forte depressão depois de ter-se mudado, com o marido, para uma casa de campo. Ela acabou sendo internada num hospital psiquiátrico. No mesmo dia, Bennet e o pai foram visitá-la. Um atendente do hospital levou-os à ala onde ela estava.

Ele escancarou a porta sobre um cenário de degradação inimaginável. O que primeiro choca a gente é o barulho. Os hospitais que eu conhecia eram calmos e sem pressa; as vozes eram sussurros, e a doença, pelo menos nos horários de visita, irmanava-se ao decoro. Aqui, não. Entulhado de mulheres atônitas e selvagens, deitadas ou encostadas por todos os lados com a desordem de uma gravura de Hogarth, aquilo era um lugar de tumulto tremendo. Algumas daquelas pessoas vestidas de cinza, com os olhos estatelados, choravam; outras davam gritos, enquanto uma desgraçada guinchava, demente, em intervalos regulares e curtos como algum pássaro tropical.

Bennet, diz o resenhista do "NYRB", pensou que estava na ala errada, mas logo seu pai

estacou diante da cama de uma mulher triste, emurchecida, com o cabelo em total desordem, que se enfiava dentro dos travesseiros.

"Essa é a sua mãe", ele disse.

E, claro, tudo isso foi só porque, por uma das crueldades casuais que a rotina inflige, deram-lhe um banho quando ela foi admitida, lavando o seu cabelo, mas sem penteá-lo depois, de modo que o cabelo ficou à sua volta como um halo de loucura, classificando-a imediatamente como um membro a mais dos alienados. Ainda assim a mudança tinha sido tão dramática, a obliteração de sua personalidade habitual tinha sido tão completa, que reconduzi-la ao menos a uma aparência de normalidade já parecia algo além de qualquer esperança. Ela estava louca porque parecia uma louca.

Papai sentou-se a seu lado e pegou na sua mão.

"O que você fez comigo, Walt?", ela perguntou.

"Nada, Lil", ele respondeu, e beijou a sua mão. "Nada, meu bem."

 Melhor não acrescentar nada, também, a essa cena.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h50

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flip e flap

Além da prestigiosa e internacional feira de literatura de Parati, há também a Flap --que, segundo os seus organizadores, é uma sigla nem nenhum significado particular. Será realizada simultaneamente no Rio e em São Paulo --aqui, no Espaço dos Satyros, na Praça Roosevelt-- e a proposta é oferecer uma alternativa mais barata e "estudantil" aos eventos da Flip. Tenho certo medo de ir à Flip, de me sentir esmagado por tantos escritores famosos, de me atirar no oceano num surto de inveja e súbita dor do anonimato. Começo a desconfiar, entretanto, de eventos "alternativos". Por melhores que sejam, há escritores da literatura "marginal" que se especializaram demais na marginalidade. Não que ela seja irreal: sei dos esforços de um excelente autor, Marcelo Mirisola, para viver exclusivamente dos livros que publica; personalidades como Roberto Piva e Hilda Hilst, por mais que cultuados, não deixam nem deixaram de sofrer, ao longo de toda a vida, com o estigma ou a penúria acarretadas por sua "marginalidade". A questão, como sempre, é um autor sobreviver à própria fama, "boa" ou "má", e ser mais do que o que seus contemporâneos pensam que ele é. O sistema literário contemporâneo, entretanto, é muito mais ativo do que era há coisa de trinta ou quarenta anos, e o número de eventos, admiradores, sites e publicações projeta sobre qualquer um, mesmo transgressivo e extravagante, uma notoriedade e seu rótulo; antes mesmo que o escritor perceba, ele já é famoso. Não é ruim isso: ao contrário dos anos 80, os 90 vieram com um ar de "geração", de "movimento", e isso, como nos bons tempos da vanguarda, estimula a produção e o debate, facilita a busca de uma própria identidade literária por parte de cada escritor. Mas entre flip e flap, se há diferenças, há um ponto comum --a cultura do "evento", que me deixa de pé atrás.

Pessoas a quem admiro estarão no Flap de São Paulo: Manuel da Costa Pinto, José Antonio Pasta Jr., e Ivan Marques, meu "chefe" na redação do programa "Entrelinhas" da TV Cultura (colaboro lá com um comentário mensal). No Rio, as coisas parecem menos "alternativas": um dos palestrantes é o acadêmico Arnaldo Niskier. Nesse caso, seria melhor inventar um terceiro festival, o flop.

Mais informações sobre a programação em http://www.cronopios.com.br/site/noticias.asp?id=1560

Escrito por Marcelo Coelho às 15h11

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parquinhos

Muitas coisas --penso no circo, por exemplo-- parecem que vão acabar e mesmo assim sobrevivem graças a uma espécie de milagre nostálgico: é como se atualidade admitisse, dentro dela, diversos nichos ou criptas de tempo, por meio das quais podemos visitar o passado sem nos desgrudar do presente. Cada realejo deve sua permanência ao fato de parecer, a quem o encontra numa rua qualquer, o último exemplar da espécie. Os contos de fada, embora mudem gradualmente com o tempo, permanecem sempre os mesmos --e também as cantigas de roda-- porque cada adulto que os repete às crianças está retornando ao próprio passado; o gênero é passadista por definição, exatamente porque é inédito a quem os escuta, a criança de quatro ou cinco anos. Para cada menino ou menina, o conto ou a cantiga são de uma absoluta novidade: o que garante sua velhice secular.

O mesmo acontece com os parquinhos de diversão, que sempre acabam me comovendo insuportavelmente. Carrinhos, cavalinhos, barquinhos andam em círculo, a baixíssima velocidade, oferecendo uma primavera de cores desbotadas, fantasias capengas e sensações físicas medíocres à criança que, concentrada, atenta, entregue ao sabor inédito da vida, se deixa conduzir ao longo daquela mínima viagem que haverá de deixá-la, poucos minutos depois, no mesmo lugar. E talvez logo se esqueça da experiência que teve; quando for mais velha, com sete ou oito anos, aquilo tudo para ela já terá a aparência doce e triste de um encanto já perdido.

Mas alguns parquinhos de diversão, embora continuem com seus carrosséis e jogos de argolinha, conhecem mudanças radicais. Já não são mais ao ar livre, o que é uma grande coisa, porque nada melhor do que parquinhos nos dias de chuva. E estão cheios de brinquedos novos, em geral estruturas infláveis, escorregadores ou colchões, onde a criança trata de pular, subir, correr, bater num joão-bobo ou montar em falsos cavalos de rodeio. Ao contrário dos brinquedos tradicionais, que pressupunham uma criança imóvel, submetida à pura sensação do deslocamento físico, os brinquedos de hoje a estimulam a um máximo de atividade e gasto de energia.

O carrossel, que inspirou a Verlaine um poema irônico sobre o quanto era capaz de embriagar as pessoas com sua velocidade espantosa, data de um tempo em que mesmo as viagens de trem eram temidas --no século passado, as primeiras estradas de ferro desmentiram a crença de que o organismo humano não suportaria velocidades superiores a dez quilômetros por hora. Hoje, a velocidade é uma experiência física corriqueira; o brinquedo que trouxer mais dispêndio de esforço físico será o mais emocionante.

Esses pula-pulas são também uma experiência de liberdade corporal --poder cair, poder se atirar contra as paredes, sem risco de machucado. Os carrosséis eram --e ainda são-- meios de oferecer uma outra forma de segurança: a de mover-se durante um longo tempo, sem adultos por perto, em plena solidão. Máquinas de expansão física, máquinas de introspecção; as duas coisas são necessárias para as crianças, e convivem lado a lado nos parquinhos atuais.   

Escrito por Marcelo Coelho às 15h46

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o Estado e o PCC

Pelo que entendi da recente onda de atentados do PCC, há duas questões em jogo: quer-se impedir a transferência de criminosos para o presídio federal de Catanduvas, e reivindica-se uma solução para o caso de Araraquara, onde presos se amontoam em condições dantescas. Como toda organização sindical ou política, o PCC atende a duas ordens de interesses. De um lado, cuida de manter os privilégios e o poder de seus dirigentes. De outro, trata de atender aos reclamos de seus representados, de defendê-los, de ajudá-los. À medida que oferece vantagens a seus associados, o dirigente obtém legitimidade para se manter nessa posição. Há, digamos, uma sinergia entre direitos universais --o direito de não ser estuprado, por exemplo-- e privilégios exclusivos da camada dirigente.

Com o Estado brasileiro, parece ocorrer o inverso. É incapaz de atender às reivindicações do eleitorado, porque isso significa alterar privilégios constituídos. A linguagem dos direitos e a realidade dos privilégios estão cronicamente em desacordo.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h10

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um Zidane na CPI

O líder do PCC conhecido como Marcola prestou depoimento à CPI do Tráfico de Armas em junho passado. O "Estado" de hoje divulga trechos de um debate entre ele e o deputado Moroni Torgan, tirados do blog de Reinaldo Azevedo (http://blogdoreinaldoazevedo.blogspot.com ). Em vez de procurar esclarecimentos sobre o que quer que seja, Moroni Torgan polemiza com Marcola. "Eu ia acreditar em PCC, que fosse uma organização boa, se ele trabalhasse para pagar educação para o preso, se ele trabalhasse para conseguir emprego."

Marcola: Trabalhasse como?

Torgan: Ué? com o dinheiro. Esse que vocês arrecadam.

Marcola: Do tráfico e do crime?

Torgan: Não. O dinheiro que vocês arrecadam normalmente.

Marcola: Esse dinheiro é ilícito. Não é ilícito? Como que a gente...

(....) Torgan: Não acontece recuperação (do criminoso)?

Marcola: Eu não vejo como, porque...

Torgan: Não acontece recuperação nenhuma?

Marcola: Não existe. Claro que não.

Pelo visto, Marcola estava dizendo uma trivialidade. Todos sabem que ninguém se recupera. Moroni Torgan, não entendo bem por que, se irrita com isso. Marcola, como tantas pessoas convocadas à CPI, diz com razão que o deputado está querendo intimidá-lo. O deputado retruca:

--Não tem técnica de intimidação aqui.

Marcola: Então não grita comigo.

(...) Torgan: Eu tenho o direito de falar com a voz que quiser.

Marcola: De falar, sem gritar. Com respeito.

Torgan: o PCC existe para explorar os coitados dos presos que têm de sair para rua e trabalhar para eles. Tem que trabalhar, que ser criminoso. Se tu saíres, pagar tua pena, tu tens que ir para a rua para ser criminoso.

Marcola: E o que os deputados fazem? (...) Não roubam também?

Torgan: E isso vai ser outra coisa que tu vai ser indiciado também. (...)

Marcola: Só porque deputado rouba eu vou ser indiciado?

Pelo menos na capacidade de enrolação, de bate-boca, um deputado deveria ser superior a um criminoso. Nem nisso.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h50

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bornhausen e o pt

A oposição foi oportunista, sem dúvida, ao jogar com a tese de uma aliança entre PT e PCC. Como visão conspiratória, é pior do que tudo o que o lulismo inventou durante o mensalão. Naturalmente, Berzoini e companhia reagem à leviandade das acusações. De minha parte, entretanto, já me cansei de acreditar no PT quando ele se diz inocente. As ligações de Jilmar Tatto com perueiros --e o comportamento dele na última eleição para prefeito, quando de forma quadrilhesca resolveu "fechar" o acesso de uma passeata do candidato Serra na zona Sul-- não autorizam acusações levianas, mas autorizam boas investigações.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h35

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flor de ambigüidade

O governador Cláudio Lembo, em entrevista ao "Estado de S.Paulo" de hoje, respondeu às críticas de Lula sobre o descontrole na área de segurança pública. "Aqui está tudo sob controle, dentro do que podemos ter, em uma situação de crise". Ou seja, numa situação em que pouca coisa pode ser controlada, está tudo sob controle.

A declaração é típica das ambigüidades de Lembo. Antigamente, criticava-se o PSDB por sempre estar "em cima do muro", por não tomar partido em nenhuma questão. O caso de Lembo é diverso. Ele assume vários lados ao mesmo tempo. Haja vista sua famosa entrevista sobre as "elites brancas". Depois de suas veementes acusações à elite, o repórter questionou: Lembo, afinal, não era do PFL? Claro que sim. "E o PFL não está no poder há quinhentos anos"? O governador riu simpaticamente. "Essa piada é minha, fui eu que inventei". Ou seja, numa só entrevista, Lembo é anti-elite, é membro do PFL, e ironiza o elitismo do PFL. É a mesma agilidade que lhe permite, um dia, estar em boas graças com Lula e, no outro, mostrar-se oposicionista. Enquanto o velho PSDB não assumia nenhuma posição, Lembo está bem com todas: é, por essência, o papel do cortesão.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h28

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projetos de lei

Dei uma procurada no site da Câmara dos Deputados para ver como andava a regulamentação da publicidade em programas infantis, mas não achei nenhuma deliberação nesse sentido nas reuniões das comissões de ontem. Em compensação, tomei conhecimento de um projeto de lei do deputado Orlando Fantazzini, dos mais combativos no escândalo do mensalão, que resolveu proibir fotos de mulheres nuas nos anúncios visando a estimular o turismo em nosso país. A idéia deve ter surgido em função de denúncias sobre o turismo sexual. Mas tenham a paciência. 

Paciência? Foi aprovado projeto de lei determinando que, nos presídios, os serviços de assistência social façam levantamento das vocações dos presos para promover sua integração em atividades culturais e profissionais, a serem organizadas graças a convênios com entidades privadas. Poderiam começar no presídio de Araraquara; quem sabe tudo aquilo não serve como performance em alguma bienal de arte.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h00

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som e fúria

Nos últimos ataques do crime organizado, repete-se uma polêmica que todos, ao que parece, se empenham em não esclarecer. Deve o governo estadual aceitar ajuda das tropas federais? Na primeira crise, vi Eliseu Eclair Borges, o comandante da PM paulista, dando uma entrevista bastante equilibrada na televisão. Salvo engano meu, ele dizia que a tal Força Nacional não existe em base permanente, constituindo-se, a cada emergência, com a convocação de efetivos das diversas polícias estaduais. O argumento de Eliseu Eclair é que uma força-tarefa desse tipo, formada às pressas, tem menos treino e familiaridade com o crime paulista do que a nossa PM; mais ainda, que a PM paulista é com freqüência chamada para instruir e reciclar as polícias de outros Estados. Em tese, a ação de uma Força Nacional faria sentido se a polícia estadual estivesse inteiramente dominada por uma facção criminosa ela própria, e estivesse sem condições de agir sob um comando próprio.

Há muito o que discutir, sem dúvida, em torno da avaliação do coronel Eclair, se é que a reproduzo com exatidão. Mas o argumento, nesse caso, é absolutamente técnico, e nada disso transparece com clareza no noticiário. No "Estado de S. Paulo" de hoje, há declarações do sempre desastrado e desagradável secretário da segurança, Saulo Abreu, que rejeita a oferta de ajuda do governo federal com frases incompreensíveis ao público leigo: "o governo federal promete o que não pode entregar: uma força nacional que não existe, imaginária, que não resolve". Essa força, acrescenta, é virtual; "onde você encontra essa força? no www forçanacional com br?" Simplesmente publicadas dessa forma, as opiniões de Saulo Abreu parecem pura arrogância, e o jogo retórico do "convoca-não convoca" a tal Força Nacional assume a característica de uma falsa polêmica, sem que ninguém, pelo que eu vejo, saiba exatamente do que está falando.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h27

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litoral paulista

Desculpem, mas o litoral sempre me deixa meio deprimido. Lembro-me das férias intermináveis da infância, da absoluta falta do que fazer naquelas tardes que ferviam de calor e de convívio familiar em pequenas quitinetes, onde o desconforto é uma instituição inamovível --do mesmo modo que a idéia de conforto e aconchego está associada, obrigatoriamente, às casas de montanha, com suas lareiras e tapetes. Aqui, o mundo da esteira, do plástico úmido, do alumínio áspero de areia, se soma a antigas lembranças de mal-estar físico: ao chegar, a umidade pegajosa que se sentia na pele, a ser logo em seguida esturricada e submetida a sessões de falso alívio com os produtos de antigamente: o Caladryl, uma gosma rosa que criava uma película sufocante sobre a epiderme; o hipoglós, a pasta d' água, adquirida depois de filas intermináveis na única farmácia, e também havia as filas do telefone, da padaria, a falta de luz, o racionamento de água. Isso, a infância. Na adolescência, a sensação ainda pior do deslocamento pessoal, enquanto os sentidos atentos à beleza das meninas logo se recolhiam à introspecção humilhada de se ver, no espelho, como um triste e disforme molusco branco enfiado num calção de banho... Péssimo; melhor mudar de assunto.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h14

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pausa

Fiquei ontem sem blogar. Motivo:viagem ao litoral. Simone de Beauvoir tem um texto aterrorizante sobre as viagens que fazia com a família: o nervosismo, os embolos de última hora, os embrulhos e pacotes esquecidos... e conta como mais tarde, emancipando-se da família burguesa, viajar se tornou uma coisa fácil --pegar apenas a bicicleta e sair por aí, naquela disponibilidade a dois que conheceu com Sartre. À medida que o tempo vai passando, parece que a quantidade de coisas que levamos junto com a gente cresce de modo desproporcional; uma mudança de apartamento, antes, para mim era só questão de empacotar livros e móveis. O número de livros se tornou tão grande, ao longo dos anos, que um dia apenas de mudança não seria suficiente para mim, e no último transporte passei quase um mês reorganizando as estantes todas. Depois achamos estranho o caso daquela espanhola que colecionava lixo dentro de casa, e só encontrava lugar para dormir dentro de um Fiat em petição de miséria enfiado na garagem. Talvez essa mulher que junta lixo esteja, na verdade, esvaziando a cabeça de todas as suas memórias, de todas as coisas imaginárias que qualquer pessoa guarda dentro de si.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h06

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publicidade para crianças

Deve ser permitida a veiculação de anúncios dirigidos ao público infantil? A matéria está em discussão no Congresso. Leio a seguinte notícia no site meio e mensagem: (www.meioemensagem.com.br, para assinantes)

10/07 - 10:17

A Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados adiou para esta quarta-feira, 12, a votação do substitutivo da deputada Maria do Carmo Lara (PT/MG) ao Projeto de Lei no 5921/01, que proíbe emissoras de rádio e TV de divulgar propaganda de produtos dirigidos ao público infantil no horário das 7 às 21 horas. O texto estabelece algumas normas para a publicidade voltada às crianças, como veto ao uso de personagens de desenhos animados e de apresentadores de programas infantis. O projeto original, do deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR), determinava a proibição total desse tipo de publicidade. No mês passado, o Conar atualizou os artigos do Código de Auto-Regulamentação Publicitária que tratam do assunto, aumentando o rigor de suas normas sobre publicidade para crianças.

 

Um panorama da legislação mundial a respeito (em geral restritiva) pode ser acessado em http://www.cedecaceara.org.br/seminario%20publicidade%20consumio%20e%20infancia.pdf

A defesa do substitutivo da deputada  Maria do Carmo Lara, mas não sua íntegra, está em: http://www.mariadocarmolara.com.br/noticias.asp?id=736

A idéia do substitutivo é regulamentar, não proibir, mas aqui cessam minhas informações sobre o assunto, colhidas emergencialmente neste fim de noite.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h07

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elsevier

A editora de "Surpreendente!- A televisão e o videogame nos tornam mais inteligentes", de Steven Johnson, é a mesma de outro livro, de outro Johnson, que critiquei recentemente: "Criadores", de Paul Johnson. (ver neste blog, http://marcelocoelho.folha.blog.uol.com.br/arch2006-06-18_2006-06-24.html Trata-se da Campus/Elsevier.

Sem que isso tenha relação com o conteúdo dos livros, observo que a Elsevier andou tendo uns problemas de imagem recentemente. O publisher da editora, Reed Elsevier, é também dono da Reed Exhibitions, grupo empresarial responsável pela realização de feiras de armamentos, daquelas que atraem ditadores de todos os cantos do mundo com novas máquinas de guerra --e mesmo indisfarçados artefatos de tortura. É isso o que afirma, pelo menos, um abaixo-assinado de protesto contra a Elsevier, publicado pelo Times Litterary Supplement de 3 março de 2006. Entre os signatários do manifesto, estão J. M. Coetzee, Nadine Gordimer, Ian Mc Ewan, Nick Hornby e Mike Leigh. 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 21h44

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TV e games (3)

TV e games (3)

Sobre os videogames, Steven Johnson também coloca a questão dos “conteúdos” em segundo plano. Um game pode apresentar um tema pueril, como a salvação de uma princesa no reino dos dragões. Mas, diz o autor de “Surpreendente! A Televisão e o Videogame nos Tornam Mais Inteligentes”,

 

é fundamental não perguntar o que está acontecendo no mundo do jogo, mas,de preferência, o que está acontecendo mentalmente com os jogadores [...] Se você tivesse parado de jogar no início dos anos 90, ou se tivesse conhecimento de jogos por meio de relatos de terceiros, provavelmente pensaria que os objetivos da metade do jogo seriam  algo como o seguinte: Atire naquele cara ali! Ou: Evite os monstros azuis! Ou: Encontre a chave mágica!

 

 

Os games se tornaram incrivelmente mais complexos, diz Johnson, e, ao contrário do xadrez ou das damas, desdobram-se em regras novas e segredos diferentes a cada etapa; Há momentos em que o jogador simplesmente não sabe o que tem de fazer, e sua intuição e criatividade são postas à prova de uma maneira muito mais rica do que um teste de inteligência qualquer seria capaz de imaginar. Afinal de contas, do ponto de vista do conteúdo humano, e do “significado” mais amplo do mundo, um problema de matemática ou de lógica pode ser tão tolo quanto a busca de uma espada mágica num game de aventuras. Johnson cita um teste padrão de vestibular americano:

 

Simon está realizando uma experiência de probabilidade. Aleatoriamente, ele escolhe uma etiqueta num conjunto de etiquetas numeradas de 1 a 100 e, em seguida, ele devolve a etiqueta ao conjunto. Ele está tentando sortear uma etiqueta que corresponda a seu número favorito: 21. Depois de 99 sorteios, ele não escolheu seu número.  Quais são as chances de Simon escolher seu número no centésimo sorteio? A) 1 entre 100; B) 99 entre 100; C) 1 entre 1; D) 1 entre 2.

 

Depois, Johnson cita um problema com que se defrontam os jogadores de “Zelda” :

 

Você precisa atravessar a passagem para chegar a um destino valioso. Em uma extremidade da passagem há uma grande rocha em frente a um rio, impedindo o fluxo de água. Ao redor da extremidade da rocha, diversas flores pequenas estão brotando. Você recebeu um jarro de outro personagem. Como você pode atravessar a passagem estreita? A) Pule-a. B) Carregue pequenos baldes de água do rio e derrame-a na passagem estreita e, em seguida, nade. C) Regue as plantas e, em seguida, use as bombas que elas produzem para explodir a rocha, liberando a água e, em seguida, nade. D) Volte e veja se você deixou escapar alguma ferramenta importante no cenário anterior.

 

Claro, nada sabemos, como diz Johnson, sobre a personalidade de Simon, e porque ele estaria envolvido numa atividade tão tola quanto sortear etiquetas dentro de um balde. É tão idiota quanto tentar atravessar uma passagem para a próxima etapa do game. “Mas o importante não é o conteúdo do mundo de “Zelda”, mas a forma como o mundo foi organizado para por à prova a capacidade de solucionar problemas do jogador.

 

Observo, em todo caso, que o problema de estatística tem uma só solução verdadeira e real (salvo engano, a alternativa A) enquanto que a solução para o problema do videogame é (salvo engano novamente) absolutamente arbitrária, poderia ser qualquer uma, o que reduz, sem dúvida, seu potencial de revelar algo sobre o mundo. O ponto de Johnson, entretanto, é outro: o game nos ensina a ter agilidade, flexibilidade mental e capacidade de tomar decisões intuitivas. Provavelmente, é esta uma das qualidades mais decisivas para a sobrevivência dos indivíduos num mundo em que o arbítrio –do genoma às decisões do Federal Reserve—nos domina por completo.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h31

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TV e games (2)

TV e games (2)

Em “Surpreendente-  A Televisão e o Videogame nos Tornam Mais Inteligentes”, Steven Johnson critica os teóricos que, como Neil Postman em “Amusing Ourselves to Death”, consideram os debates televisivos entre candidatos a presidente algo próximo a uma competição entre maquiadores.  Diz Johnson:

 

A visibilidade da mídia vai além dos penteados e do tom da pele. Quando vemos nossos políticos na sala de estar global da intimidade televisiva, somos capazes de descobrir neles qualidades mais entranhadas: não apenas adornos, mas suas antenas emocionais –suas aptidões para unir, iludir, condenar ou consolar. Nós os vemos como emocionais leitores da mente, e há poucas qualidades em um indivíduo mais proféticas de suas aptidões para governar um país, porque a leitura da mente é fundamental á arte da persuasão. Os presidentes fazem aparições formais e posam para retratos e recepcionam bailes de gala, mas seu trabalho diário é motivar e persuadir outras pessoas a se juntarem a eles. Para motivar e persuadir você tem de ter um radar congênito dos estados mentais de outras pessoas. [...] Ler a reprodução dos debates entre Lincoln e Douglas certamente transmitirá a agilidade da mente de ambos e as diferenças ideológicas que os separavam, mas desconfio que eles não comunicaram quase nenhuma informação sobre como um e outro conduziriam uma reunião de governo, ou que tipo de lealdade inspirariam em seus seguidores.

 

 

Não é incorreto. O problema aí é que estaremos, então, escolhendo entre possuidores de habilidades secundárias –capacidade de persuadir, de inspirar lealdade—sem saber exatamente em nome de que idéias e objetivos essa persuasão e essa lealdade estão sendo conquistadas. Tudo funcionaria se os dois candidatos representassem os mesmos interesses e as mesmas idéias. É nisso, creio, que se fundamentam as críticas à predominância do “cosmético” na política atual. Não que o “cosmético” seja insignificante: Johnson tem razão nisso. A questão é que nossa inteligência para o “cosmético” progrediu, mas não o “autismo” em relação à complexidade do mundo real.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h06

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TV e games

TV e games

Além de “Crianças de Monstros”, de Gerard Jones, saiu pela editora Campus/ Elsevier uma defesa bem mais persuasiva dos programas de TV e dos videogames (mesmo os violentos). Trata-se de “Surpreendente”, de Steven Johnson, um livro muito fluente na escrita e cheio de exemplos concretos, alguns dos quais talvez remotos para o leitor não-americano.

 

 A idéia principal de Johnson é que, ao contrário do que diziam os antigos teóricos da cultura de massa, a tendência do que se veicula na TV e no mundo do entretenimento em geral não é baixar sempre de nível. Seriados como “Os Sopranos” têm uma complexidade de tramas, subtramas e alusões imensamente maior do que os sucessos de décadas anteriores. Mesmo produtos mais vulgares, como “O Aprendiz”, propõem a discussão de comportamentos morais e sutilezas de estratégia que não podemos classificar de cretinice.

 

Assistir a seriados e “reality shows” nos torna mais inteligentes? A argumentação de Johnson é meio bruta, mas não tenho como contestá-la de pronto:

 

A inteligência que os reality shows exploram é a inteligência do microssegundo:a olhadela reveladora, a breve expressão de descrença, uma carranca traiçoeira rapidamente suprimida da face. Os humanos expressam a total complexidade de suas emoções através da linguagem não falada das expressões faciais e sabemos que analisar essa linguagem –em todas as suas sutilezas—é uma das grandes habilidades do cérebro humano. Uma forma de medir essa inteligência é chamada de QA, forma abreviada de “quociente de autismo”. As pessoas com baixos escores de QA são particularmente talentosas em interpretar as dicas emocionais, antevendo os pensamentos e sentimentos íntimos das outras pessoas. (Os autistas sofrem de uma capacidade diminuída para a leitura de linguagem de expressões faciais, motivo pelo qual um alto escore de QA indica aptidões inferiores de leitura da mente. (...) Os reality shows, um por um, desafiam nossa inteligência emocional e nosso QA.

 

“Quociente de autismo” é um termo e tanto. Naturalmente, se for possível medi-lo com alguma exatidão, o teste decisivo seria comparar os QA s de quem passa horas vendo TV e de quem não passa. Em todo caso, é inegável que a qualidade dos atores, no mundo das diversões de massa, melhorou muito se comparado aos dos anos 30 ou 50.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 20h48

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obras-primas da publicidade (5)

Um outdoor do Citibank nos traz esta mensagem:

 

crie filhos, não herdeiros.

 

 

Concluo que, investindo nesse banco, dentro de dez ou quinze anos meu patrimônio estará reduzido a pó, e eu terei criado um filho, não um herdeiro.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h59

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crianças e monstros (6)

crianças e monstros (6)

O leitor Lucas Maia mandou por e-mail sua opinião sobre o que tenho escrito a respeito do livro de Gerard Jones. Teve dificuldades para postar o comentário, de modo que o transcrevo aqui.

 

 

De um modo geral,concordo com suas colocações sobre o absurdo de defender-se a necessidade de estímulo de uma violência que, como defende o próprio Gerard Jones, já é inata. Contudo, é necessário observar que a violência nos Estados Unidos é total tabu. Uma criança nos EUA possui uma educação muito diferente da brasileira. Lá, a destruição de um brinquedo, por exemplo, é vista como uma atitude do mais absoluto vandalismo, enquanto, aqui, nós quase esperamos isso dá criança.
 
 E esse tabu não se restringe ao universo infantil. Nós temos modos de
 expressar de forma mais ou menos sadia nossa agressividade. Seja batendo uma toalha molhada por toda a casa quando estamos irritados, xingando no trânsito (o que, confesso, não é das mais sadias em minha opinião), seja tocando um instrumento musical. Na cultura norte-americana, me parece que a agressividade é vista como um impulso naturalmente negativo. E a agressividade, em meu modo de vê-la, pode ter frutos extremamente positivos, assim como o egoísmo, a ambição e mesmo a inveja podem ser convertidos em impulsos não-destrutivos.

 Por fim, vejo uma diferença significativa entre jogar videogame e
assistir a um desenho violento. Acredito que os pais devem mesmo
acompanhar, monitorar e decidir o que seus filhos absorvem através da
TV. Mas enquanto num desenho a agressividade é absorvida pela criança, em um game a criança será agente dessa agressividade. Obviamente acho horrível essa coisa de matar e assaltar velhinhos, mesmo em jogos de computador, mas me pergunto se ao jogar um game violento, a criança não estaria expressando essa agressividade de um modo positivo.

Obviamente todas as minhas opiniões são fundamentadas unicamente nas minhas observações e na teoria, pois não tenho filhos. De todo o modo, considero o debate longo, porém produtivo e interessantíssimo.



Escrito por Marcelo Coelho às 18h05

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Emily Dickinson

 

 

Traduzo --com a pontuação e as maiúsculas estranhas -- um poema de Emily Dickinson

(1830-1886)

 

Natureza –a Mãe mais Doce,

Impaciente com Criança nenhuma –

As mais fracas –ou mais caprichosas –

Suave sua Reprimenda –

 

Na Floresta –e na Colina—

Pelo Viajante – é ouvida –

Contendo o Esquilo briguento—

Ou a Ave impetuosa demais—

 

Como é bela sua Conversa –

Uma Tarde de Verão –

Seu Lar –sua Assembléia –

E quando o Sol se põe –

 

Sua Voz entre os corredores

Incita a tímida prece

Do mais mínimo Grilo —

Da Flor mais insignificante –

 

Quando todas as Crianças adormecem –

Ela se vai tão longe quanto

For preciso para acender Suas lâmpadas —

E então, inclinando-se do céu—

 

Com Afeto infinito—

E mais infinito Cuidado –

Seu dedo de ouro nos lábios –

Pede Silêncio –Em Toda Parte.

 

 

a integral dos poemas de Emily Dickinson pode ser acessada em http://www.bartleby.com/113/

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h08

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crianças e monstros (5)

crianças e monstros (5)

Na polêmica entre Gerard Jones e os pesquisadores que consideram a TV como estímulo à agressividade, há uma espécie de mal-entendido, que eu chamaria de armadilha da literalidade. É claro que quem vê um boneco matando gente não vai sair por aí matando gente. Gerard Jones está certo. Mas é claro que quem vêm um boneco matando gente vai descarregar sua agressividade em cima de alguma coisa. E não há vantagem nenhuma em ver essa agressividade ser descarregada, ao contrário do que sugere Jones. Pois a um estímulo extra de agressividade, em tese evitável, corresponde uma atitude extra de descarga; por que aceitá-la, se podemos evitar o estímulo? Jones parece acreditar que esse estímulo é necessário. Mas ao mesmo tempo afirma que temos todos uma carga de agressividade que fará mal a nós se não for liberada. Por que estimular mais agressividade, se já a temos? 

Escrito por Marcelo Coelho às 21h26

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crianças e monstros (4)

crianças e monstros (4)

Pesquisas sobre a relação entre agressividade infantil e programas violentos na TV podem ser muito enganosas. Gerard Jones, em “Brincando de Matar Monstros” (editora Conrad) mostra o tipo de pânico que está envolvido nesse tipo de pesquisas.

 

 

“O fundamento de todos os experimentos relacionados à agressividade na mídia foi um estudo de Albert Bandurra, feito em 1963. Ele mostrou que as crianças que haviam assistido às imagens de alguém socando um joão-bobo, na seqüência, socavam um boneco idêntico mais vezes do que crianças que não tinham visto o filme. Centenas de experiências parecidas, com resultados parecidos, foram feitas nas décadas que se seguiram. (...) Todo mundo sabe, por experiência própria, que se uma criança vê algo estimulante na TV a tendência é que imite o que viu em suas brincadeiras imediatamente subseqüentes. Mas é preciso afastar-se da interpretação feita a respeito desses estudos por gerações de analistas críticos, escapar da terminologia que fala de “intensificação de agressividade” e olhar para o que as crianças estão realmente fazendo.

 

Elas estão só socando um joão-bobo.

 

Gerard Jones tem razão neste caso, mas proponho outro tipo de experiência. Tire o joão-bobo, e coloque a babá no lugar.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h19

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crianças e monstros (3)

crianças e monstros (3)

Um dos pontos fortes de “Brincando de Matar Monstros: Por que as Crianças Precisam de Fantasia, Videogames e Violência de Faz-Conta” (ed. Conrad) é a crítica que Gerard Jones faz das pesquisas sobre o assunto. Verdade que ele não cita dados nem fontes. Mas não deixa de ser eloqüente uma passagem como esta:

 

Em janeiro de 2001, um grupo de médicos da Universidade de Stanford publicou um dos estudos mais estimulantes que vi nos últimos tempos. Eles descobriram que, quando alunos do ensino fundamental reduziam voluntariamente o número de horas assistindo à TV e jogando videogames, passaram a agir de maneira menos agressiva.

 

Mas a imprensa não mencionou, diz ele, um dado fundamental.

 

o estudo não estabelecia diferenças entre os tipos de conteúdo da mídia. Não eram só as crianças que assistiam a programas de luta livre e jogavam “Dead on Arrival” que melhoravam de comportamento quando assistiam menos à TV. O mesmo acontecia com garotos e garotas que assistiam apenas a desenhos animados, como “Os anjinhos” e “Arthur”, e programas como “Fica Comigo” e “Show do Milhão”.

 

O que a pesquisa indica, diz Gerard Jones, é que

 

se as crianças tiverem um propósito, elas se sentirão mais contentes consigo mesmas e usarão sua energia de maneira mais construtiva –mesmo que o propósito seja tão simples quanto “vamos diminuir o tempo que passamos na frente da Tv só para ver o que acontece?” Se as crianças perceberem que os adultos estão se preocupando com elas e simplesmente deixarem que elas preencham as horas entre a escola e a cama, e se deixarem de prestar atenção nelas apenas quando se portam mal –sua resposta será positiva.

 

 

As conclusões que Jones tira da pesquisa são tão duvidosas quanto as da imprensa. Podemos pensar que a TV, em si, fornece tamanho grau de satisfação imediata e estímulo renovado, tudo se alternando em questão de segundos, que a violência das crianças aumenta diretamente em função da menor tolerância que tenham a frustrações de qualquer tipo.

 

É perturbador saber que o conteúdo, violento ou não, dos programas, não importa muito. Mas será que não importa? ou será que apenas não foi medido nessa pesquisa? De qualquer modo, o propósito do livro de Jones ao mesmo tempo se fortalece e debilita: tanto faz, então, se as crianças assistirem a programas violentos? Jones parece dizer que sim. Mas não seria melhor impedi-las de assistir a qualquer programa? A resposta também poderia ser positiva. Jones enfatiza, entretanto, o fato de que abandonar a TV precisa ser uma atitude voluntária das crianças... o que leva todo o raciocínio ao universo dos contos da Carochinha.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 20h35

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duas peças infantis

duas peças infantis

Algumas cenas da vida de Mozart, num teatrinho de bonecos, estão em cartaz no Sesc Pompéia, neste domingo às 13h30, com reapresentação nos próximos fins de semana. “Mozart Moments” é um espetáculo breve, delicado, quase tênue, mas crianças pequenas podem dar boas risadas com situações típicas de teatro de fantoches –as brigas entre Mozart e Constanze, seguidas de graciosa reconciliação—e também podem ser confrontadas com dois mistérios essenciais: o nascimento dos bebês (um bebezinho Mozart é tirado lentamente da caixa de bonecos) e a morte dos adultos (o compositor, ao piano, sucumbe de exaustão).

 

 Sempre difícil falar de morte para crianças de três ou quatro anos. A citação do poema de Manuel Bandeira (ou será de Murilo Mendes? preciso conferir) contando que Mozart, ao morrer, virou o mais novo anjo do Céu, serve entretanto como “finale” adequado a esta peça encantadora, a que falta, talvez, um certo ritmo. Mas, em matéria de harmonia e melodia, não se pode querer mais. 

 

 

Ritmo, justamente, e dos mais frenéticos, é o que se tem em “Bruxo Ponto Com”, espetáculo com texto de Mario Viana a cargo de Hugo Possolo e seus “Parlapatões”, que está em cartaz no teatro do Shopping Eldorado. Quem procura feitiços e caldeirões se decepciona: o vilão da peça é menos um bruxo do que uma espécie de super-herói maluco, bastante engraçado, que vive dentro de um computador e consegue raptar a protagonista da peça, “Bonitinha”, que faz jus ao nome.

 

Com cenas projetadas numa tela, que devem ser assistidas com óculos para 3-D, a peça se dirige a crianças de oito ou nove anos, familiarizadas com a linguagem de computador. Vírus, mecanismos de busca, lixeiras e um antivírus chamado Nírton (irmão do famoso Norton) dão movimento e humor aos diálogos de um espetáculo que, feitas as contas, achei desagradável, barulhento, infestado de xingamentozinhos infantis (“fedida”, “cara disso e daquilo”), muitas vezes pronunciados naquela incômoda dicção de criança paulistana comedora de sílabas.

 

A trama da peça –com personagens que desaparecem de cena meio porque não se sabe o que fazer com eles—precisaria de assistência técnica para funcionar melhor; barulho e humorismo circense (a cargo do ótimo auxiliar do vilão) não nos deixam, entretanto, em estado de perceber os defeitos da engenhoca.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 09h44

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perdizes

perdizes

Como discos voadores, três pizzas em Perdizes: muzzarela, calabresa e, claro, meio a meio.

Escrito por Marcelo Coelho às 08h43

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crianças e monstros (2)

crianças e monstros (2)

Em “Brincando de Matar Monstros: Por que as Crianças Precisam de Fantasia, Videogames e Violência de Faz-de-Conta” (editora Conrad), o jornalista e escritor de histórias em quadrinhos Gerard Jones se entrega a alguns momentos de autocongratulação. Narra uma conversa que teve com um psicanalista entusiasmado.

 

“Sentimos tanto medo da agressividade nessa sociedade que não temos sido capazes de conversar sobre isso de maneira inteligente”, disse o psicanalista. “Você está fazendo com a agressividade o que ‘Papa’ Freud fez com a sexualidade!”

 

Certo, todos nós temos agressividade e de algum modo precisamos liberá-la. Games violentos podem servir para isso, em vez de serem vistos apenas como estímulo a mais agressividade. Mas a comparação com Freud e a sexualidade é um bocado enganosa.

 

A sexualidade era reprimida no século 19 por uma série de motivos que hoje em dia nos parecem injustificáveis, imaginários: pecado, ética do trabalho e do sacrifício, interesses relacionados à propriedade e ao casamento. Reconhecer o poder da sexualidade foi um passo para liberar essa sexualidade, e liberar a sexualidade foi bom. Mas liberar a agressividade é evidentemente um problema, não uma solução.

 

Será verdade que temos uma “dose fixa” de agressividade em nosso cérebro, e que essa dose precisa ser liberada de algum modo? Ou será que temos uma dose de agressividade que pode aumentar ou diminuir conforme os estímulos do meio?

 

Jones cita a psiquiatra Lenore Terr, que “compara a agressividade a um coração: se uma artéria for bloqueada, a mesma quantidade de sangue terá de ser bombeada pelas restantes. O órgão continua funcionando, apesar do bloqueio, mas fica mais saudável quando todos os seus vasos estão livres. Se uma criança não brinca de lutar, sua agressividade será liberada por meio de histórias ou outros tipos de fantasia.” Se isso não ocorrer, diz a psiquiatra, “é aí que podemos ter crianças agressivas demais ou tão temerosas a respeito de sua própria agressividade que acabam se fechando em si mesmas”.

 

Certo; não vejo nada de errado em crianças que brinquem de lutar. A comparação com artérias bloqueadas é entretanto discutível. Posso imaginar uma comparação equivalente: quanto mais batatas fritas e sorvete de creme alguém consumir, mais colesterol irá acumular-se em suas artérias. O bloqueio das artérias pode ser maior ou menor, conforme seus hábitos cotidianos. Quanto mais filmes agressivos a criança vê, mais risco de bloqueio –e mais necessidade de liberar a agressividade consumida, atacando quem estiver por perto.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h17

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crianças e monstros

crianças e monstros

Alguns coleguinhas de meu filho, que está com 4 anos, vêem tudo que é barbaridade em DVD. Assistiram –e têm em casa—filmes para crianças bem mais velhas, como “Batman Begins”; mesmo os monstros de Harry Potter, a meu ver, são impressionantes demais para crianças dessa idade. Caiu nas mãos do meu filho o horrível e violento desenho animado “Batman do Futuro”: assisti a cinco minutos daquilo e interrompi a sessão sem culpa. E sem medo das possíveis reações do meu filho à censura paternal.

 

Na minha experiência, as coisas melhoraram muito em casa quando comecei a regular esse tipo de filmes. É óbvia a conexão entre a agressividade do comportamento e o tipo de filme que meu filho acabou de assistir naquele dia.

 

Mesmo assim, merece ser lido e discutido o livro Brincando de Matar Monstros, do jornalista e escritor de histórias em quadrinhos Gerard Jones (editora Conrad). O livro tem um subtítulo auto-explicativo: “Por que as crianças precisam de fantasia, videogames e violência de faz-de-conta”, e defende essa idéia com alguma prolixidade e o típico truque americano de contar historinhas sobre personagens reais (“o pequeno Jimmy”, o pestinha “Dan”, e outros monstrinhos adoráveis).

 

O pequeno Jimmy, por exemplo, tinha vários problemas. A mãe, viciada em drogas, foi afastada dele por ordem judicial. Jimmy passou a ser cuidado pelos avós. “Tinha profundo medo de abandono e sempre ficava ansioso com relação a separações. Tinha asma, enxergava mal e, depois de três anos de luta no ensino fundamental, descobriram que ele era disléxico. Respondia a tudo isso com um temperamento turbulento.”

 

Tudo estava nesse pé quando Jimmy apaixonou-se por videogames de tiroteio. A avó se diz aliviada: o garoto ficava muito mais calmo depois de passar algum tempo massacrando inimigos imaginários.

 

A conclusão de Gerard Jones generaliza, talvez indevidamente, essa historinha particular. “Games de atirar, gangsta rap, Pokémon, tudo se transforma em ferramenta para que pais e mestres ajudem os jovens a se sentirem mais fortes, a acalmarem seus medos e aprenderem mais a respeito de si mesmos”.

 

Para Jones, o apelo de personagens como Hulk e Super-Homem está no fato de que propiciam às crianças uma fantasia, não de violência estrito senso, mas de poder. Imaginar-se forte e poderoso é uma compensação para as inúmeras limitações que as crianças enfrentam no dia-a-dia.

 

Tudo bem, mas se as crianças apenas imaginassem esse poder, seria ótimo. Tornam-se infernais querendo aplicar esses poderes sobre o mundo real, e passam a bater no irmão, nos país, na vovozinha. O caso de Jimmy talvez seja o oposto do que acontece com uma criança “normal”. Jimmy sai do real para entrar no imaginário. A criança não-turbulenta sai do imaginário para entrar no real.

 

Talvez seja preconceito meu com relação a Jimmy. Mas o assunto vai longe.  

Escrito por Marcelo Coelho às 10h42

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wajda (2)

wajda (2)

Quem assistiu a “O Pianista”, de Polanski, certamente se lembra das cenas iniciais, quando um bombardeio interrompe o concerto do protagonista. Pode ser uma homenagem de Polanski ao excelente “Kanal”, o segundo filme da “Trilogia da Guerra” dirigida por Andrzej Wajda nos anos 50. “Kanal” está agora disponível em DVD, e se passa quase que inteiramente nos esgotos de Varsóvia, durante as lutas de resistência dos poloneses à invasão alemã. Um dos personagens é justamente um músico sonhador, que encontra um piano de armário no meio das ruínas de uma casa bombardeada.

 

Poucos filmes europeus têm o grau quase insuportável de tensão presente em “Kanal”. É um filme duríssimo de ver, mas que não se larga por um só instante.

 

Uma informação histórica: em 1944, o exército soviético estava a ponto de derrrotar os nazistas em Varsóvia, mas estacionou de repente, deixando aos resistentes poloneses a tarefa de continuar enfrentando os alemães. Os poloneses foram dizimados, enquanto as tropas de Stalin nada faziam. O raciocínio de Stalin era claro: a resistência dos poloneses fortaleceria as organizações nacionalistas, que posteriormente poderiam se insurgir também contra a URSS. Stálin deixou os alemães fazerem o serviço, para depois dominar o país sem problemas. 

mais informações em http://info-poland.buffalo.edu/classroom/cinema/kanal.html

Cartaz de Jan Lenica (1957)

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h36

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obras-primas da publicidade (4)

Nem sempre fórmulas criativas e surpreendentes são necessárias a um anúncio. Poucas palavras são capazes de dar completamente o seu recado. Um exemplo de quando "menos é mais", neste anúncio de livro que recebi por e-mail.

 

“Vampiros Extraterrestres na Amazônia” (Ensaio)

Autor: Daniel Rebisso Giese

Edição do Autor

As supostas aparições de discos voadores na região Amazônica, principalmente na região nordeste do Pará, com relatos e fotos. Rebisso, ufólogo que é, trata o assunto com muita seriedade.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h07

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wajda

wajda

Os nazistas, com o humorismo sádico de sempre, construíram um parque de diversões encostado no muro que delimitava o Gueto de Varsóvia –onde milhares de judeus foram reduzidos a extremos de miséria e abjeção antes de ser embarcados aos campos de extermínio.

 

Uma das cenas magistrais de “Geração”, o primeiro filme de Andrzej Wajda (que saiu recentemente em DVD) mostra justamente o carrossel e outros brinquedos desse parque, contra os rolos de fumaça que saem do gueto, nas semanas em que se deu o levante dos judeus contra o domínio nazista.

 

“Geração” é o filme de estréia de Wajda –e também do diretor de fotografia, do produtor, do câmera man, de vários atores... entre eles Roman Polanski, que está literalmente de calças curtas no papel de um dos jovens poloneses que resistem à ocupação alemã. Foi feito em 1954, quando a indústria cinematográfica polonesa ainda mal se recuperava dos estragos da Segunda Guerra.

 

Há um tom meio épico e romanesco nesse filme, que tinha de fazer as reverências de praxe às autoridades socialistas. Um velho operário ensina ao aprendiz os fundamentos da mais-valia, citando um “sábio barbudo” chamado Karl Marx; os olhos do aprendiz se perdem num horizonte radioso.

 

Curiosamente, na ótima entrevista com Wajda que faz parte dos extras do DVD, o Politburo polonês –máxima autoridade do regime, que assistia a todos os filmes antes de liberá-los—quis censurar essa cena. Falar em mais-valia e conscientização do operariado, naquela altura, não era recomendável... acharam subversivo demais.

 

Mesmo sendo um filme de estréia, e com certo convencionalismo heróico em alguns momentos, “Geração” tem momentos de mestre. A perseguição numa escadaria circular –quando um dos jovens da resistência, de comportamento e rosto ambíguos, enfrenta uma leva interminável de soldados nazistas—é antológica. O resgate dos judeus que fogem do gueto pelos bueiros mistura tensão e eloqüência com um mínimo de imagens. Abre-se a tampa do bueiro: esperamos que saia alguém de lá. Mas a primeira coisa que sai é uma metralhadora. Nada de coitadinhos por ali.   

 

 

Ao centro, Roman Polanski com os camaradas de "Geração"

Escrito por Marcelo Coelho às 17h15

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Updike e a pintura

Updike e a pintura

“Watson e o Tubarão” é um quadro feito em 1778 pelo americano John Singleton Copley (1738-1815), representando um fato real: Watson, um rapaz de 14 anos, foi salvo dos ataques de um tubarão no porto de Havana. A pintura prenuncia algumas obras clássicas do romantismo, como “A Jangada do Medusa” de Géricault.

 

 

Se eu tivesse de analisar o quadro, tentaria apontar alguns “defeitos”: por exemplo, o fato de o barco estar estranhamente imóvel, como que estacionado num banco de areia, entre as águas tempestuosas. Também implicaria com a figura sentada no bote, à direita, que parece metida entre as pernas da personagem que ataca o tubarão.

 

O romancista John Updike comenta o quadro, em “Still Looking”, segunda coletânea de seus escritos sobre artes plásticas (Knopf, 2005):

 

 

Watson, com quatorze anos na época do incidente, está nu, e tem a aparência de um homem feito. Ele e o tubarão, que partilham o aquoso primeiro plano em proporções exatamente iguais, estão ambos com as bocas escancaradas, e parecem igualmente em dúvida quanto aos próximos passos de seu relacionamento.

 

 

A descrição é tão exata quanto irônica: nisso está a arte do ficcionista.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h52

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um poema de Sean O'Brien

Traduzo (mal e sem rimas), mas vale a pena:

 

 

NEVASCA

 

A neve irá levar o mundo para casa, o outono

Que salva a Corrente do Golfo e a Groenlândia.

Abolidora branca dos calendários e dos mapas,

Seu rigor que se amontoa como os pecados significa

Que esta é a única estação, decaindo sempre sobre ela mesma.

Para acabar com toda analogia, frio puro

Que prova aquilo que jamais precisa ser dito,

O outono nos chama novamente para dentro numa deriva

Em que figura e fundo se confundem –

Sem mais metáfora, sem mais talvez.

 

 

Olhe para os peitorais das janelas, para a grade na vidraça,

Branco depois de branco contra os lençóis cor de creme,

Hóstias de uma comunhão sem piedade

Que transforma um bosque na Mãe Rússia, e a noite

Na vida de além-túmulo, em seguida numa rua bloqueada pela neve.

Com suas cataratas e flocos salpícando os seios,

As sereias numa lingerie de bronze

Esperam bravamente na fonte da praça pública.

Verdes jovens, pensam que é destino delas

Oferecer o ideal para o ar vazio.

 

Perdoem-me por não ter entendido

Que vocês eram reais, não arte apenas,

Que sua fidelidade era coragem, que eu deixei

De honrá-las, de reconhecer a sua dor,

De notar que a neve, quando cai, não cai outra vez.

Tudo fica mais claro agora: o mundo não é um lugar

Mas sim uma ocasião, primeiro de pecado e depois do desejo

Que se reconheça o que sabemos de nós mesmos

Enquanto a neve continua caindo, enquanto

Aprendemos que não há pecado nem salvação.

 

 

 Sobre Sean O' Brien: http://www.contemporarywriters.com/authors/?p=auth02A4J203212626331

Escrito por Marcelo Coelho às 10h27

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Hollywood hoje

Hollywood hoje

O que mudou nos filmes americanos depois da era “clássica” (1930-1960)? David Bordwell, em The Way Hollywood Tells It, analisa alguns aspectos, que menciono a partir de resenha publicada no Times Litterary Supplement de 5 de maio.

 

Depois de 1960, surgiu a tendência de elevar o status de gêneros antes relegados à esfera do “filme B”: policiais, ficção científica, terror, assumiram novo caráter com “Bonnie & Clyde”, “2001: Uma Odisséia no Espaço”, e “O Bebê de Rosemary”.

 

Os filmes da “era clássica” tinham uma regra básica: o final deve ecoar o início da história. (Vendo “Cinderela”, o desenho de Walt Disney, reparei nisso outro dia: numa das cenas iniciais, em que a menina está tendo de lavar uma imensa escadaria no palácio da madrasta, seu tamanco sai do pé, como que prenunciando o final feliz). Depois de 1960, o cinema americano tornou-se “hiperclássicos” em sua forma. “O Poderoso Chefão”, por exemplo, está cheio de antecipações de sentido e “parágrafos suspensos”, por assim dizer, que só serão plenamente resolvidos no final. O que, acrescento eu,  é uma forma de dizer que esses filmes se tornaram mais artísticos, mais autoconscientes do ponto de vista estético.

 

Bordwell destaca também diferenças do ponto de vista técnico. Uma tomada curta, entre os anos 30 e 60, durava de 8 a 11 segundos em média. Hoje, tomadas que duram 6 ou 7 segundos já são exceção, e tudo fica mais rápido a cada ano.

 

Em parte, as mudanças se devem à tecnologia digital. O número de closes aumentou, porque tomadas panorâmicas tendem a mostrar problemas de definição; mas também porque os filmes já procuram favorecer o seu consumo doméstico posterior, na TV ou em DVDs. (Cabe perguntar se o aumento de tamanho nos monitores domésticos não vai alterar isso daqui para a frente).

 

Relacionado a isso, há também maior mobilidade de câmera e muito mais filmagens da mesma cena a partir de ângulos diversos. O filme se monta como um quebra-cabeças, com muitos pedacinhos. Outra conseqüência é que cenas com vários atores fazendo diversas coisas ao mesmo tempo, como num palco de teatro, se tornam mais raras. Num filme como “Gata em Teto de Zinco Quente”, de 1958, “múltiplas coisas acontecem entre os atores ao longo de uma única tomada”; agora, as “tomadas são demasiado curtas e específicas para permitir esse tipo de profundidade”. O que não quer dizer que os filmes tenham piorado. Pessoalmente, acho que melhoraram.

 

Elizabeth Taylor, na cama clássica, em "Gata em Teto de Zinco Quente"

Escrito por Marcelo Coelho às 09h36

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mp3 (2)

Dada a polêmica sobre a matéria a respeito de música clássica em mp3, remeto para o site de Eduardo Paiva, que escreveu na revista Diapason sobre o assunto: http://www.iar.unicamp.br/mediatec/cvpaiva.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 09h01

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site

site

O site infantil da editora Cosac Naify (ainda no começo) está no link: http://www.cosacnaify.com.br/infanto/

Escrito por Marcelo Coelho às 08h51

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férias

Hoje não sai meu artigo na "Ilustrada", e as colunas do Voltaire também sofrem interrupção; as férias duram todo o mês de julho, mas vou postando enquanto isso.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h31

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crítica cultural

Na revista "Trópico", Carlos Alberto Dória faz uma crítica do livro "Crítica Cultural: Teoria e Prática", que publiquei recentemente pela Publifolha. O link é: http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2759,1.shl

Escrito por Marcelo Coelho às 16h30

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dois brinquedos

dois brinquedos

Uma das propostas que eu tinha para esta seção “Pais e Filhos” era fazer crítica de brinquedos –e acabei demorando para entrar no assunto. Com dois meninos, de 4 e 2 anos, minha experiência no ramo ainda é incipiente, mas já dá para avaliar alguma coisa. Tento conciliar os interesses deles com os meus, o que nem sempre é possível. Privilegio, é claro, os brinquedos que dão menos trabalho para os adultos e fazem menos barulho.

 

Em matéria de barulho, o “Hippo Gula-Gula” da Estrela, atinge –numa escala de 0 a 10—algo entre 7 e 8. Mas não se trata daqueles ruídos eletrônicos, ou daquelas musiquinhas do folclore americano ou chinês que tanto nos infernizam. O brinquedo é mecânico, todo de plástico, original e engraçado.

 

Dentro de um círculo, há um monte de bolinhas brancas, que deverão ser engolidas por quatro hipopótamos. Os hipopótamos são acionados por alavancas, de fácil manipulação e montagem um pouquinho difícil. Quatro crianças pequenas, cada uma com seu hipopótamo, podem passar um bom tempo disputando quem consegue devorar mais bolinhas. Adultos não precisam intervir em nenhum momento, exceto no caso de ingestão indevida do material. O conteúdo educativo do brinquedo é nulo, mas seu poder de liberação de energia e agressividade infantil compensa –sem risco de ferimentos ou conflitos graves no seio da família.

 

 

Já o “Acqua-doodle” pode distrair crianças pequenas em absoluto silêncio: mas os pais é que acabam fazendo tudo neste brinquedo. É uma espécie de lousa ou quadrado mágico, mas com uma diferença que torna os desenhos especialmente bonitos e agradáveis. A gente escreve ou desenha com uma caneta de ponta porosa, bem grossa, cuja carga não é tinta, e sim água. Sobre uma tela branca feita de um tecido especial, como se fosse uma toalha, a caneta deixa traços azuis, que não é preciso apagar. À medida que a água seca, o desenho desaparece naturalmente. O brinquedo não envolve maiores riscos, a não ser que a criança resolva usar a caneta como uma espécie de chupeta, sugando a água que está lá dentro. 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h27

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obras-primas da publicidade (3)

Este anúncio não deve ter sido obra de redatores publicitários, mas vale a pena ser mencionado na nossa série de obras-primas. A redação é tão confusa que um porfessor de português poderia propor a seus alunos um exercício de copidescagem. Saiu na Folha de hoje:

 

 

 

              ANÚNCIO CORRETIVO

 

No folheto 3a  e 4a  Extra do Extra Hipermercados, válido para 4/7/2006 e 5/7/2006, veiculado nas lojas de São Paulo, constou erroneamente a litragem do Whisky escocês Johnny Walker Red Label –2 litros. Informamos que não existe esse produto na embalagem de 2 litros, sendo o correto Whisky escocês Johnnie Walker Red Label –1 litro a R$ 55,90.

 

O Extra Hipermercados agradece a compreensão de todos e pede desculpas pelo possível transtorno que isso possa ter causado a seus clientes.

 

 

Fico pensando qual o “possível transtorno”. O freguês, depois de tomar 1 litro de “correto Whisky escocês”, surpreende-se com a garrafa vazia: “Pô, não eram 2 litros?” Outro cliente abre a “embalagem de 2 litros” e leva um susto: “Não existe esse produto!” O mundo das alucinações alcoólicas talvez não seja tão profuso quanto o dos equívocos de redação. Ou vai ver que o redator já não estava de posse de sua lucidez ao escrever o “anúncio corretivo”.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h23

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mp3

Para quem tem preguiça de aposentar o CD, e não tem idéia de como funciona o MP3 (este é o meu caso), a revista Diapason deste mês traz uma análise interessante. Eduardo Paiva, professor da Unicamp, comparou um trecho da Sinfonia no. 1 de Mahler, em gravação de Bernard Haitink, no CD e no MP3. A matéria reproduz os gráficos de espectro sonoro. Em MP3, as freqüências do extremo grave são simplesmente cortadas, os agudos ficam metalizados. “Os sons que antecedem o procedem o som forte em um curto espaço de tempo também são eliminados” .


 


Em música clássica, onde contrastes de dinâmica e de timbres são muito grandes, e onde os “recheios” da orquestração são mais elaborados, a perda de qualidade é muito grande. Pelo menos no gráfico. Para perceber “a ouvido nu”, provavelmente algumas audições repetidas serão necessárias (pelo menos no meu caso, de novo).

Escrito por Marcelo Coelho às 11h06

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rumo ao Sul

“Balada de uma Retina Sul-Americana” (editora 7 Letras) é o terceiro livro de Carlos Machado, mas talvez ainda se ressinta de um certo empenho de estreante –perceptível, a meu ver, no título pouco econômico do livro. Mas há ótimos achados e muita poesia nesse relato da viagem do autor ao sul do Continente. Nascido em Curitiba em 1977, o autor atravessa os pampas de carro, ao som um tanto insistente de sucessos da MPB (Carlos Machado também é letrista e compositor), e por onde passa vai notando traços de sua cidade natal.

 

Alguns trechos.

 

Desse feito, digo que foi só pensar próximo ao Uruguai e ouvir o cheiro da chuva dos pampas. Sempre tinha ouvido que chove muito por esses lados, mas nunca imaginei que pudesse ser como um botão que se aperta ao quase entrar no país. O calor do dia anterior foi esquecido no primeiro passo acinzentado desse campo. A estrada nos leva em uma única reta. Curvas viraram lembranças. Quando as víamos era necessário uma máquina fotográfica em mãos.

 

 

“Curvas viraram lembranças”, percebo agora ao copiar o trecho, é ótimo: em três palavras, muitos significados.

 

Nos Andes, ao chegar na divisa entre Argentina e Chile, o autor observa:

 

O rio nos aguardava gracioso e, cada vez mais, bufava de ansiedade em nos receber. Passou por todos, deixando nas retinas a tatuagem do magnífico: não se vê a beleza da América Latina sem dor. Doeu a dor mais espontânea de beleza. Lá estávamos nós: um bote, remos, correnteza e, embaixo do céu mais azul que os olhos meus já viram, montanhas, montanhas, montanhas. A Cordilheira dos Andes abriu os braços e nos cedeu espaço para um sangramento de orgulho, nos deixando, ao menos uma vez, acariciar suas costas, calmamente.

 

“A tatuagem do magnífico” cai, a meu ver, em certa literatice, mas a ligação entre dor e beleza latino-americana vale a pena.

 

“Montanhas, montanhas, montanhas”. Esse tipo de anotação lembra, certamente, o Oswald de Andrade de “Pau Brasil” e, por extensão, o Blaise Cendrars de “Feuilles de Route”. Importa registrar a impressão fotográfica do momento, como se as “retinas” do título fossem uma câmera; o aspecto temporal da narrativa sempre vai contra esse tipo de literatura, e é natural, desse modo, que a sucessão de palavras ao longo da linha tenha de se fazer pela repetição de vocábulos, pela frase curta, pelo “assindético” da construção. Valeriam como poemas curtos alguns trechos do livro. Experimento montá-los desse jeito.

 

Bienvenidos a Montevidéu!

Um país que é o Paraná.

No lugar das paredes, placas de ceda el paso.

(págs. 34-35)

 

Sobre o Aconcágua, Carlos Machado escreve:

 

Uma luva no meio do chão azul da cordilheira.

 

Ou ainda:

 

Santiago. Uma única rua nos deixou na porta do hotel.

 

e também:

 

O policial só queria a minha carteira de motorista, mas quando viu que eu era brasileiro: e as mujeres?

 

logo em seguida:

 

De frente pro vento, encostamos o corpo no hotel vermelho de colcha amarela.

 

Pau-Brasil. Da melhor qualidade. 

 

Pico do Aconcágua

Escrito por Marcelo Coelho às 15h54

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teorias

Cada dia que passa vejo firmar-se a convicção popular de que a Seleção Brasileira foi “comprada”. Como no suposto “assassinato” de Tancredo Neves, uma infelicidade dura de engolir acaba encontrando sua válvula de escape em alguma explicação racional, por implausível que seja. Quanto teriam de pagar a cada jogador para que passasse por um vexame desses? E quantos contratos de publicidade não seriam renovados e triplicados no caso de vitória da Seleção? Mas o fato é que os jogadores se empenharam tão pouco contra a França que pareciam mesmo comprados. Se não foram, perderam a oportunidade de realizar um excelente negócio.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h10

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Villa-Lobos

No segundo número da revista "Diapason" brasileira --que, como a original francesa, vem com um CD com faixas dos principais lançamentos de música clássica-- o destaque é Villa Lobos. Não só há exemplos, no CD, de gravações com peças não tão conhecidas do compositor (uma valsa para violão, por exemplo, e algumas canções de câmara bem doídas de ouvir) mas também existem curtos trechos de depoimentos do próprio compositor.

Sua voz é levemente ácida, e às vezes atinge decibéis de comício. Bem ao estilo Getúlio Vargas, a cuja ditadura Villa-Lobos apoiou, existe em suas declrações um tom mobilizador, enfático, e a insistência na necessidade de a música cumprir um papel social, como cimento da nacionalidade ou coisa parecida. Com o passar do tempo, essas opiniões sem dúvida se desgastam um pouco, mas explicam muito do projeto estético de Villa-Lobos, que estava longe de ser desprezível.

Villa-Lobos dá mostras também de ser bastante sarcástico, em alguns momentos que o aproximam mais do modernismo de 22 que do varguista de 1940. É quando ele diz, por exemplo, que "Deus nos botou dois ouvidos por uma razão muito simples. As coisas que nos emocionam, a grande arte, as palavras importantes, devemos escutar com os dois ouvidos. No caso da música desimportante, os dois ouvidos servem para que ela entre por um ouvido e saia pelo outro."  

A "Diapason" francesa tem, naturalmente, muito mais páginas e lançamentos no CD. É importante, em todo caso, que sua similar brasileira tenha a maior parte do material produzida aqui mesmo, dando destaque aos (poucos) CDs de música clássica que se fazem no Brasil.

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h40

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Carros

 

Meu interesse por corridas de automóvel é tão pequeno quanto o do meu filho de 4 anos, mas ao contrário dele (que se desinteressou bastante do filme), fiquei encantado com “Carros”, desenho animado da Pixar que estreou neste filme de semana. Pensei, vendo o trailer, que não daria muito certo um desenho animado com personagens sem braços e sem pernas, isto é, com mínima mobilidade para os lados. de resto, o mundo automobilístico para mim é chato por excelência. Quando entro numa revendedora para comprar um carro novo, eles nem acreditam na minha ignorância quanto a modelos e minhas próprias preferências.

 

Mas o desenho –além de começar com uma corrida absolutamente emocionante, das que, a meu ver, não podem existir na vida real—trata de coisas muito mais profundas e bonitas. O personagem principal, um bólido vermelho chamado Relâmpago Mc Queen, está a ponto de ganhar seu primeiro campeonato. Perde-se numa cidadezinha do deserto americano, à beira da famosa “Route 66”. Essa era a primeira rodovia a ligar os Estados Unidos de costa a costa, mas com o surgimento de auto-estradas mais modernas tudo entrou em decadência. Carros antigos, os velhos cartazes de motéis descascando, as paisagens espetaculares do deserto –aqui recriadas com muita ironia, como se as mesetas copiassem capôs e rabos de peixe de enormes carros afundados--, vão ensinando a Relâmpago o valor das amizades, da fidelidade a certos princípios, que o arrogante e deslumbrado candidato a campeão reluta em perceber.

 

Nossos jogadores bem que poderiam assistir. Qualquer adulto também. Para as crianças, talvez a coisa funcione a partir dos 7 ou 8 anos: é preciso saber a diferença entre um promotor, um policial e um juiz de direito, entre a idéia do sucesso a qualquer custo e a de um desenvolvimento econômico mais equilibrado, capaz de estimular uma área decadente sem ferir a auto-estima de ninguém. Coisas de que não há muito exemplo por aqui, e que talvez as crianças desconheçam por completo.

Site do filme:  http://www.disney.com.br/cinema/carros/splash.html

Escrito por Marcelo Coelho às 16h52

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litoral sul

litoral sul

Este cartaz é especialmente caprichado; gosto da gradação de cor dos tomates e da perspectiva da fôrma metálica.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h34

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modesta sugestão

Se eu fosse técnico da Seleção, de agora em diante só escalaria jogadores que jogam no Brasil.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h27

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Nelson Rodrigues

Falta uma crônica no estilo de Nelson Rodrigues, indignando-se com um fenômeno inédito: os jogadores brasileiros não choram mais. Em outras Copas, um derrotado digno do nome teria de jorrar "lágrimas de esguicho", como dizia Nelson. Tampouco os torcedores se jogam no chão em desespero e "tomam formicida". A sensação é que tinha de ser isso mesmo, afinal de contas.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h42

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mensagem de otimismo

Um jogador francês disse que os brasileiros eram craques porque passavam pouco tempo na escola. Finalmente podemos reconhecer que, nos últimos governos, a educação melhorou muitíssimo no país.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h38

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terror

Por falar em tiranos, eis uma frase de Robespierre que eu não conhecia: "Todo aquele que treme é culpado".

Escrito por Marcelo Coelho às 23h56

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Dias de Ira

Dias de Ira

 Lisbeth Movin, a Anne de "Dias de Ira"

“Você me pergunta se já desejei a sua morte... Sim, milhares de vezes”, diz a jovem esposa Anne a seu marido idoso, o pastor calvinista Absalom. Trata-se, relativamente, de uma das falas mais leves e sem complexidade emocional de “Dias de Ira”, clássico dirigido por Carl Dreyer em 1943, agora disponível em DVD nacional.

 

O filme se passa no século 17, em plena caça às bruxas, e a jovem Anne teve sua mãe absolvida da acusação de feitiçaria pelo pastor Absalom. Em troca, teve de casar-se com ele. Mas isso nem aparece no filme.

 

As coisas começam a se complicar quando Anne e Martin, filho do primeiro casamento de Absalom, se apaixonam. O enredo tem muitos ingredientes de dramalhão, mas nada poderia ser mais distante disso. O extremo da situação emocional propicia o mais ambíguo e intenso jogo de luzes e sombras morais, onde bruxas de fato existem, o que não as impede de serem acusadas injustamente, e o intervalo que as separa da mais elevada santidade –ou da simples fraqueza humana—é redimensionado a cada cena. Na mais exigente virtude estaria a salvação dos personagens –clérigos ou feiticeiros--; o problema é que a virtude pode ser ainda mais diabólica e cruel do que a feitiçaria.

 

Tudo isso é filmado com um rigor enorme, o que não significa hieratismo nem pretensão. Cada enquadramento, cada olhar, cada composição dos rostos e dos corpos dos atores é o mais despojado possível, significando apenas e tão-somente o que deve significar. Mas o significado é tão rico e cheio de contradições que só num cenário pobre, com vozes bem timbradas, com entradas em cena de máximo efeito dramático, e movimentos medidos de câmera, podemos nos impregnar de toda a profundidade do que acontece.

 

Nem um minuto de atenção pode ser desperdiçado em “Dias de Ira”. Infelizmente, conforme o aparelho utilizado, o DVD da Magnum Opus é capaz de empacar repentinamente, para desespero de quem quer saber o que vai acontecer no instante seguinte. Talvez o próprio aparelho recue diante da intensidade extraordinária do que está a reproduzir.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h02

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obras-primas da publicidade (2)

Recebi da dramaturga Consuelo de Castro um e-mail, de que transcrevo um trecho.

acabei de ver um  comercial da Ipiranga que ao meu ver é o fundo do esgoto. Ter passado pela agencia, ter chegado a TV e estar sendo veiculado reflete o fim de todo e qualquer valor.O fim do fim. Se v. nao viu, é o seguinte:

Um  garotão pede o carro emprestado ao pai. Que nega veementemente. Porque tem ciume do carro .

  1. O garotão usa o argumento "maior": você é meu pai, logo , tem que me emprestar o carro.
  2. O pai entao, com musica dramatica ao fundo e sob os gritos da mulher em off( "nao, nosso segredo não, oh nào") conta ao garotão que ele nào é seu filho.
  3. E faz uma cara "malandra"para a CAM , tipo , dessa me livrei.
  4. Aparece o logotipo com a obra prima: "O BRASILEIRO É APAIXONADO POR CARRO"

Escrito por Marcelo Coelho às 22h35

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silêncio, por favor

O Brasil perdeu, mas não em volta de casa não param de soltar rojão. Raiva, talvez. Ou simplesmente vontade de esgotar o estoque comprado. Imagino uma terceira razão: o silêncio seria insuportável. Mas é exatamente essa a razão pela qual soltam fogos quando se ganha: o silêncio, para essas pessoas, é sempre insuportável.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h16

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crítica radical

Há muitas maneiras e motivos de criticar Lula, mas a filósofa Maria Sylvia de Carvalho Franco conseguiu uma proeza nas páginas amarelas da Veja desta semana: condenou Lula por ter demitido Palocci. E conclui que tinha de ser assim, porque todo "tirano" termina sozinho.

Leia a entrevista em http://veja.abril.uol.com.br/050706/entrevista.html

Escrito por Marcelo Coelho às 17h08

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auto-engano

A sensação, depois da derrota do time brasileiro, é a de termos sido vítimas de um engano do qual somos nós mesmos os responsáveis. O otimismo em torno da Seleção tinha seus motivos (não me lembro mais quais eram), mas cada jogo da Copa insistia em mostrar um time fraco, que ia ganhando sob vaias, e mesmo assim –a torcida era grande. Torcida e crença, coisas muito próximas. O “clima da Copa” era tal que nos empurrava para uma final imaginária sem que soubéssemos se passaríamos ao jogo seguinte. Como a desmentir milagrosamente nossa incredulidade, passávamos, ganhávamos, melhorávamos; restava, então, acreditar, torcer, imaginar a final –até que a realidade de nossa incompetência finalmente se imprimisse sobre o nosso cérebro. Foi preciso apenas 1 a O para que isso acontecesse.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h00

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voltaire de souza

Link para a coluna de hoje: http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0107200603.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 11h54

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Paris era Ontem

Paris era Ontem

Vou percebendo que os textos escritos para blogs têm características próprias, muito diferentes das de um artigo de jornal. Numa crônica ou resenha de jornal, é preciso contextualizar mais, explicar melhor a informação. O blog, de certa forma, já se dirige a leitores “iniciados” nos assuntos que interessam o blogueiro. A idéia não é só ser mais curto, mas também privilegiar a sugestão, e não tanto a opinião explícita e mastigada.

 

Claro que no jornalismo impresso há antecessores do gênero “post”. A editora José Olympio acaba de publicar “Paris era Ontem”, da jornalista americana Janet Flanner.

 

São pequenas notas sobre o ambiente cultural parisiense nos anos 20. A morte de Diaghilev, a estréia de Josephine Baker no Théâtre des Champs Elysées em 1925, o casamento do dadaísta Tristan Tzara com uma milionária sueca, os primeiros romances de Simenon, o impacto do crack da Bolsa em 1929 sobre o mercado de antiguidades e pinturas, são objeto de notas breves, por vezes de um parágrafo. O estilo é sempre sutil e “antenado”, com o que isso significa de leveza perceptiva no toque.

 

Eis como Janet Flanner noticia a estréia de “O Chapéu de Palha da Itália”, filme de René Clair celebrado até hoje: “Embora não seja, como proclamado, a mais engraçada comédia da Europa atual, é a mais engraçada comédia sobre um chapéu de palha já vista nos bulevares.”

 

O forte de Janet Flanner são os necrológios e os perfis. Um bom exemplo é o que ela escreve sobre uma cantora popular, Yvonne George: “Poucas pessoas têm a melhor parte de suas vidas postumamente. O primeiro informe errôneo do falecimento de Yvonne George, por causa do qual ela foi pranteada em prosa requintada por seus amigos literários, não foi tanto um rumor falso, e mais uma caracterização. (...) Ela foi efêmera. Podia magnetizar apenas pequenos grupos; diante das grandes platéias do Palace, do Olympia e dos grandes music halls ela falhava –geralmente, de maneira magnífica. Carecia da qualidade de domador de leões que assinala os grandes artistas. Era impopular com as massas, que não se intimidavam com uma perfeição tão frágil como a sua. Seu forte eram as canções marítimas; cantava veleiros, que sua ternura reduzia ao tamanho de barquinhos aprisionados em garrafas por marinheiros aposentados.”

 

Esse tipo de texto –o precursor do “post”—não deixa de ser um barquinho engarrafado também.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h40

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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