Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

Bartleby, o Escrivão

Bartleby, o Escrivão

Bartleby (M. Hernandez) e o patrão (M. Galdino), na Aliança Francesa

No artigo de hoje da "Ilustrada", escrevi sobre "O Escrivão", peça baseada na novela curta de UOL Busca Hermann Melville, "Bartleby, o Escriturário". Esse termo, "escriturário", seria o mais correto, pois a função de Bartleby é trabalhar num escritório privado de advocacia, não num cartório ou numa delegacia; mas claro que "escrivão" é uma palavra muito melhor para um título de livro ou peça. Não consegui encontrar espaço no artigo para elogiar a direção de Antonio Abujamra nem os atores. Todos funcionam muito bem comicamente: do magro e melancólico Bartleby (Miguel Hernández), que se recusa a obedecer as ordens do patrão ('prefiro não fazê-lo") ao proprietário do imóvel (Abraão Farc), insistente, com voz gritada de surdo, passando especialmente pelo chefe do escritório (Marcelo Galdino), sempre pimpão, caridoso, autoconfiante e sem saber o que fazer, há em todos eles um ar de obtusidade e inquietação ao mesmo tempo, que combina perfeitamente com a situação estranha e ridícula que  vivem. Adriano Stuart e André Corrêa, colegas de Bartleby no escritório, respondem pelos melhores momentos cômicos do espetáculo.

Cada vez que o patrão aparece com uma ordem, o educado e modesto Bartleby responde polidamente: "prefiro não fazê-lo". O caso é tão inusitado que o patrão simplesmente não consegue despedi-lo. Lembrei no artigo, o que não é nenhuma originalidade, a semelhança do conto de Melville com Beckett, Kafka e Ionesco. Esqueci de mencionar o "Anjo Exterminador" de Buñuel, filme em que todos os personagens se vêem inexplicavelmente incapazes de sair de uma festa. Aqui também, não é apenas Bartleby quem não sai de sua obstinação desobediente e tranquila; chefe e colegas de escritório ficam também paralisados. "Por que esse Bartleby não é despedido de uma vez?", era a pergunta que eu fazia. No começo, pensei que havia algum truque simples no enredo. Por exemplo: se o chefe dissesse claramente: "isto é uma ordem!", então Bartleby passaria a obedecer. Pois, numa situação altamente civilizada como um escritório do século 19, mais inglês que novaiorquino até, o patrão se dirige a Bartleby educadamente: "você poderia fazer o favor de copiar este texto?" Talvez faltasse a ordem explícita.

Mas não; todo o caso permanece inexplicado. Ocorreu-me também que o patrão incapaz de despedir o empregado suscita a mesma estranheza que temos ao ver "Hamlet": por que ele não consegue matar o padrastro? Goethe, creio, disse que a chave de Hamlet era o descompasso entre o desejo e a capacidade de levá-lo à ação. Aqui poderia estar ocorrendo o inverso: o mundo moderno nos põe em ação, sem indagar nosso desejo. Se fôssemos apenas peças passivas numa engrenagem, se fôssemos meras "coisas" num sistema, entretanto, haveria um paradoxo: imóveis, como objetos de ferro ou de madeira, nada nos faria trabalhar... o cúmulo da obediência ao sistema seria a inação subversiva... Mas é interpretação que não acaba mais. Leia o artigo em

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq3008200623.htm 

Escrito por Marcelo Coelho às 09h32

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voltaire de souza

Redecorar o apartamento pode ser uma boa opção. Mas será possível mudar o interior do ser humano? Leia o colunista do "Agora SP" em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co3008200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 08h55

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segredos de Harry Potter (2)

Continuo falando sobre Harry Potter. Em geral se diz que a criança (e mesmo adulto) não tem paciência para longas descrições; se quisermos estimulá-la para a leitura, o melhor é contar uma história simples e “empolgante”, com ênfase na ação rápida. Ora, estou mais ou menos na metade do primeiro volume da série de J. K. Rowling, e não posso dizer exatamente “do que se trata” ao longo da história do livro.

 

O romance se chama  Harry Potter e a Pedra Filosofal. Um livro infanto-juvenil padrão faria com que em poucas páginas os personagens fossem avisados do roubo de uma pedra mágica, e o resto da história seria em torno de como conseguiriam derrotar os inimigos e recuperar o tesouro.

 

Há notícias de um roubo, sim, aí pela página 40 do livro; mas o fato está totalmente em segundo plano, e sequer sabemos o que foi roubado. Os próprios inimigos de Harry Potter se apresentam muito discretamente até a metade do livro, e seu potencial maléfico está na verdade apenas sugerido sob o que aparenta ser simplesmente uma antipatia corriqueira entre colegas de escola.

 

Feito de vagas ameaças e incipientes sucessos, é o cotidiano escolar de Harry –coberto de detalhes que seriam “inúteis” na perspectiva simplificadora que comentei acima— que prende a atenção do leitor. Em determinado momento, por exemplo, transcreve-se o hino oficial da escola de Hogwarts. São (ou eram, em inglês) versos rimados, convencionais, ocupando meia página do livro. Qualquer autor infanto-juvenil padrão teria hesitado em colocar um hino daqueles, que supostamente “afastaria” o interesse do leitor. O problema é que, quando se presume um leitor preguiçoso, o que se esconde é a preguiça do próprio autor.         

Escrito por Marcelo Coelho às 13h20

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segredos de Harry Potter

 

Vou lendo aos poucos para meu filho maior, com as adaptações necessárias de linguagem, o primeiro volume da série de Harry Potter. Nós dois estamos nos divertindo bastante, à medida que aparecem os personagens que, bem ou mal, já tínhamos ouvido falar ou visto em algum trecho de filme (o filme inteiro ele não vê, porque as sessões são suspensas conforme a cena).

 

Creio já ter lido julgamentos desfavoráveis a “Harry Potter”, referindo-se a um possível abuso de clichês e à facilitação intelectual. Não foi minha experiência. O interessante do livro é que os primeiros capítulos estão longe de deixar claro para o leitor o que está acontecendo; alguns nomes e personagens só serão esclarecidos mais tarde.

 

Ao contrário do que pode parecer, isso torna a leitura irresistível. Nada mais chato do que um texto “fácil”. Só mesmo um texto “difícil”. O jogo da leitura, e, se podemos dizer assim, o “segredo de Harry Potter” está em deixar sempre alguma pergunta irrespondida, para ser esclarecida mais tarde. Não apenas a pergunta “o que vai acontecer?”, que se mal interpretada pode conduzir apenas a uma seqüência relatorial de fatos. Trata-se de “quem é aquele?” “o que pretende Sicrano?”, “qual o significado desse objeto?”, “por que ele não abriu o presente?” e assim por diante.

 

A coisa vale também para a técnica jornalística. Não adianta ser apenas claro. Se quisermos que o leitor siga o texto até o fim, é preciso deixar no final de um parágrafo a semente de uma pergunta para que a frase ou o parágrafo seguinte a respondam. Quem não responde se torna confuso; quem não pergunta, quem não deixa a semente da pergunta, se torna chato. Os americanos são especialistas nessa "plantação" de perguntas.

 

Basta ler algum texto de Gay Talese, por exemplo, no livro “Fama e Anonimato”, editado pela Companhia das Letras. Cada parágrafo tende a dar todas as informações necessárias, menos uma ou duas, que só virão no parágrafo seguinte. Com textos assim, o leitor nem tem tempo de prestar atenção nas ilustrações.

 

Por isso, as ilustrações não fazem falta nenhuma em “Harry Potter”. Há um erro em querer que as crianças se interessem pela leitura, enchendo-as então de livros ilustrados. Nada contra os livros ilustrados, na idade certa. Mas com o tempo o resultado acaba sendo que elas vão se tornar grandes consumidoras de livros ilustrados, e não leitoras de fato. Vão gostar de livros, não de ler. 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h29

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oportunidade imperdível

Recebo um desses e-mails com as atrações que fazem de São Paulo uma cidade única no mundo. 

 

Talvez um dos maiores destaques da 44ª Equipotel, que acontece entre os dias 12 e 15 de setembro no Pavilhão de Exposições do Anhembi, em São Paulo, será trazido pela Libermac.

É que a empresa trará uma máquina de café fabricada pela italiana Victoria Arduino que faz parte de uma linha limitada, de apenas cem unidades no mundo, comemorativas do centenário da empresa européia.

O inusitado é que a unidade de número um da máquina foi enviada de presente para o Papa Bento XVI no Vaticano. A que vem ao Brasil é a de número 12 e poderá ser comprada na Equipotel por R$ 50 mil.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h17

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intervalo

Hoje participo da entrega do prêmio "Barco a Vapor", para literatura infanto-juvenil. Tento blogar mais tarde sobre isso; agora escrevo o artigo para quarta-feira, sobre "O Escrivão", peça baseada numa novela curta de Hermann Melville, já quase kafkiana. São inúmeras as interpretações possíveis dessa história, sobre um pequeno funcionário burocrático que começa a se recusar a cumprir ordens superiores. Tento ver o que sai daí.  

Escrito por Marcelo Coelho às 14h11

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voltaire de souza

Também a astrologia sofre na mão de pessoas inescrupulosas. Leia a crônica de hoje no "Agora" (para assinantes do Uol): http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2808200602.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 14h07

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Martha Argerich

Ainda sobre pianistas. Acabo de ver um recital de UOL Busca Martha Argerich com Claudio Abbado, no canal "Film and Arts" da TV a cabo. Ela é, sem sombra de dúvida, uma das maiores pianistas do século. Mas seu virtuosismo termina levando a verdadeiras aberrações estéticas no Concerto no. 2 de Beethoven. Abbado começou como que sabendo que a ordem, naquele primeiro movimento, era acelerar. Argerich entrou desembestada, e o  resultado foi uma correria sem fim. Esperei que no Adagio as coisas melhorassem; a velocidade foi substituída por um sentido de ênfase sem beleza nenhuma, e, é claro, no rondó final as coisas se ajustaram, no objetivo puramente virtuosístico do furor. Depois, Argerich concedeu de bis uma sonata de Scarlatti que nunca vi executada tão brutalmente. Um horror, em suma, consumado por grandes artistas. 

Mas faço um adendo: tratava-se de gravação ao vivo, e é muito difícil saber o quanto daquele furor, de resto marca registrada da pianista, não foi exagerado em função do clima da platéia, do espírito do dia. Não é a mesma coisa, mas penso em determinadas cenas de peça de teatro, quando as vemos pela televisão. Mesmo em espetáculos bons, com grande grau de intimidade entre público e platéia, a gravação na TV parece mostrar tudo mais gritado, com menos nuance. E um bis, como a sonata de Scarlatti, pode ser dado já num espírito mais abrutalhado, entregando para o apetite do público o filé mal passado que ele está pedindo.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h49

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Rubinstein

                 

Talvez a cena mais interessante de "The Golden Age of Piano", DVD que comento há horas, é a que mostra uma sessão de Arthur Rubinstein gravando uma peça de Schumann, "Aufschwung", ("Ascensão"). A filmagem é em preto e branco, Rubinstein devia ter uns sessenta ou setenta anos, está de camisa preta, e ataca os acordes de Schumann com decisão compenetrada. Vemos então os técnicos de gravação do estúdio, perguntando-lhe se quer fazer outra tomada; ele diz que não, e reproduzem o que foi gravado para ele ouvir. Rubinstein ouve; suas curtíssimas, quase invisíveis sobrancelhas se abrem, circunflexas, ou se fecham, firmes, à medida que a música progride. Pouco a pouco, um sorriso, menos que isso, se desenha em seu rosto. Ele tocou divinamente. Ouça um trechinho em http://www.amazon.com/gp/music/clipserve/B00005427I001023/1/ref=mu_sam_ra001_023/103-2845816-6957400

Escrito por Marcelo Coelho às 00h32

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mensagem de Brahms

Uma coisa extraordinária aparece no documentário "The Golden Age of Piano", que venho comentando nos últimos posts. É a voz de Johannes Brahms. Entusiasta da nova invenção de Edison, o gramofone, ele gravou, das distâncias nebulosas de Hamburgo ou de Viena, uma saudação ao gênio da tecnologia americana, e podemos ouvir, sob a mais furiosa tormenta de ruídos, algumas palavras em alemão: "Doktorrr Edison... Grrruesse von doktorrr Brahms.... Johannes Brahmmms"...

Talvez, para Edison, aquelas palavras tivessem o valor de uma saudação da compositora italiana contemporânea Elisabetta Brusa ou do brasileiro Cristóvam Buarque: um ilustre, ilustríssimo desconhecido. Para nós, é o grande Brahms, um homem capaz de preencher sozinho uma enciclopédia inteira de música, um monstro maior que Stravinski e Schoenberg juntos, quem se esgoela naquela pobre e precária mensagem.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h13

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Bradesco, Brailowski

Podemos entender melhor todo o ódio de Theodor Adorno diante da indústria cultural quando vemos as primeiras transmissões de música clássica no cinema ou na TV. “The Golden Age of The Piano” recupera alguns arquivos históricos de grandes pianistas, como Josef Hofmann e Alexander Brailowski. Josef Hofmann, talvez o maior pianista de todos os tempos, aparece já em declínio, tocando contrafeito um banal prelúdio de Rachmaninov; o caso de Brailowski é pior.

 

Nada mais kitsch do que a filmagem que fazem dele, tocando uma valsa de Chopin. O pianista está em cima de uma espécie de escada feita de dominós brancos, irregularmente dispostos em escala ascendente. Sério, reluzente na casaca e na brilhantina, ataca acordes de modo heróico; à medida que a música cresce em intensidade, a câmera vence os degraus da escadinha, numa encenação de solenidade que tem tudo a ver com a irritação adorniana: o austero crítico espumava cada vez que ouvia, no rádio, um concerto “trazido para você graças ao patrocínio de... General Electric", ou Omo, tanto faz.

 

 Eram tempos em que a indústria tentava se nobilitar com a intensidade e a grandeza de uma arte que ela não compreendia bem. Hoje em dia, o Bradesco pode contar com isenção fiscal no patrocínio do “Cirque du Soleil” sem que a idéia de "profanação da arte" estejam envolvidos. O visual exagerado e cansativo do “Cirque du Soleil” já se apresenta, ele próprio, como propaganda, como espetáculo de mídia. Mesmo assim, nobilita o Bradesco. Ou será que “nobilitar” é um termo fora de moda? Representa-se, apenas, a convergência entre ilusionismo e lucro bancário, a eficiência de ambos se mostra uma “coisa para quem pode”, a admitir apenas o elogio boquiaberto da platéia. A platéia de Horowitz e Brailowski podia ficar boquiaberta também; mas a tentativa de ligar a arte ao capital mantinha, de certa forma, separadas as duas esferas. Ao menos, para quem vê esses pianistas hoje em dia; Adorno certamente não achava isso. 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h55

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pianistas

Rudolf Serkin, tentando tocar depressa demais a “Appassionata” de Beethoven, é um exemplo de falta de carisma, compartilhada em certa medida por Claudio Arrau nos “Jeux d’Eau à Villa d’Este” de Liszt. Não pensaria em Serkin ou em Arrau como símbolos de uma escola romântica, inesquecível, cintilante da arte pianística. Mas é assim que eles aparecem em “The Golden Age of Piano”, DVD que comprei outro dia; estão ao lado de Vladimir Horowitz, esse sim um mago sem limites, artista até o ponto da extravagância, que encarna melhor que Arrau e Serkin a idéia do virtuose-poeta-demiurgo no mundo da música.

 

Mas o documentário “The Golden Age of Piano” não se limita às três figuras. Imagens de todo mundo –quase todo mundo: Busoni é o grande ausente—aparecem nesse DVD: e gênios de toda espécie não faltam nesse espantoso zoológico musical. Glenn Gould, o gênio por excelência, capaz de transfigurar cada nota, cada inflexão da partitura num rasgo de seus dedos; Wanda Landowska, a Madre Teresa de Calcutá do cravo bachiano. Enquanto isso, o locutor repete toda série de clichês de capa de disco que alguém é capaz de memorizar.

 

Seguem-se duros esbarrões de Myra Hess, de novo na “Appassionata” de Beethoven. Nunca pensei que essa sonata fosse tão difícil... Mas quem sou eu para reclamar de Myra Hess?

 

Depois de alguma enrolação, surge Arthur Rubinstein, sem ser apresentado pelo locutor. Ele toca maravilhosamente uma “Canção sem Palavras” de Mendelssohn, repetindo o tema, como se antes do tempo,  com a graça luminosa que era o seu segredo.

 

Aparece então Alexander Brailowski numa valsa de Chopin: mas isso é assunto para outro post.

 

Glenn Gould, ao piano....

 

 

 

 

e Wanda Landowska, ao cravo: rivais em Bach

Escrito por Marcelo Coelho às 23h34

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O Shakespeare de Borghi

O Shakespeare de Borghi

 

Acho que nunca vi Renato Borghi tão bem num papel como no de “Timão de Atenas”, peça de Shakespeare em cartaz no teatro do Sesi. De modo muito brechtiano, ele nunca inspira piedade nem simpatia, seja quando está no auge da glória, na primeira parte do espetáculo, seja quando se lamenta na desgraça, durante a segunda parte. Nos dois momentos sabemos que Timão está errado, e seu pequeno corpo, seus olhos piscantes de engano, seu leve deboche não caem nunca no comportamento de certa vulgaridade, algo deslocada para o papel, que me lembro de ter visto nas montagens de “Édipo Rei” e “Galileu Galilei”, vários anos atrás.

 

Timão de Atenas é um potentado riquíssimo na primeira parte da peça, cercado de bajuladores, incapaz de perceber a falsidade do mundo, embora seja advertido o tempo todo pelo radical Apemanto de Mauricio Paroni. Em vários momentos Paroni assume, de sua cadeira de rodas, o centro do espetáculo, e é ele quem avisa a platéia de que haverá um intervalo. O papel de dizer a verdade a Timão de Atenas implica uma avalanche de xingamentos, a que a voz rouca e o sotaque indefinível de Paroni dão sabor popular, desestabilizador. Na noite da pré-estréia, houve problemas com o som, principalmente na primeira parte. O bom conjunto musical, encarregado de executar a trilha especialmente composta para o espetáculo, sobrepôs-se aos atores.

 

De qualquer modo, a peça de Shakespeare se estende demasiado em mostrar uma situação clara desde o início para os espectadores: Timão pensa que tem amigos, gasta dinheiro com presentes, e conhecerá rapidamente a desgraça. Depois do intervalo é que a peça ganha em profundidade e mesmo em poesia. Shakespeare parece dizer que, diante de uma atitude errada, o erro inverso não é necessariamente verdadeiro.

 

Vivendo como eremita, Timão agora odeia os homens, não vê em ninguém os sinais do amor e da sinceridade. Cabe a Apemanto discutir com ele mais uma vez, e Mauricio Paroni passa a um tom de voz coloquial e claro; só que agora o espetáculo está inteiro a cargo da amargura de Renato Borghi, uma amargura que nunca atinge o melodrama (como talvez o texto de Shakespeare sugerisse), mas é sempre irônica e simpática, à medida que vão aparecendo os antigos comensais de seus banquetes.

 

Timão de Atenas, nessa segunda parte, é uma espécie de Jó, importunado pelos amigos, mas um Jó crítico, espantando-os como moscas para longe de sua dura dieta de raízes. Como peça, “Timão de Atenas” carece de um conflito dramático real. Funciona sobretudo como ocasião para grandes tiradas retóricas, a que a tradução de Vadim Nikitin, até onde posso ver, dá contornos atuais e eficazes. A platéia vibra, e imagino que quanto mais popular ela for (o espetáculo no Sesi é gratuito na maior parte dos dias), vibrará mais ainda. Nada melhor do que ver alguém amaldiçoar o mundo injusto e a humanidade; nada melhor do que ver a desgraça ridícula de um antigo poderoso.

 

O papel de equilíbrio entre os dois extremos da peça cabe a Alcibíades, um guerreiro que conhece a fraqueza dos homens, mas não abandona o seu convívio. Está, de resto, bem acompanhado por duas prostitutas, uma das quais sexy o bastante para levar ao arrependimento mais de um eremita. Ariel Borghi, no papel de Alcibíades, tem uma bela figura e uma bela voz, mas sua contenção gestual e o rosto inexpressivo retiram a função pedagógica, de apelo ao meio-termo, que pudesse ter.

 

No Brasil contemporâneo, não há lugar para conciliações: passa-se da ilusão completa ao desencanto absoluto. “Timão de Atenas” encena esse drama, sem meios-termos, e provavelmente será graças a isso que encontrará sucesso. Mas, com Renato Borghi, esse drama não é tão dramático assim –e o espetáculo ganha com isso em complexidade e beleza.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h56

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2 poemas nostálgicos

Recebi há tempos o livro "O Passeio do Duque a Cavalo e outros poemas", de Luiz Carlos de Moura Azevedo (editora Scortecci). Lamento não ter lido o livro antes. Moura Azevedo tem paisagens muito paulistas, uma capacidade descritiva invulgar, e sabe, como raros, "não pontuar" um poema. Os dois que reproduzo aqui não tratam de cenas urbanas, mas têm um humor comedido, muito agudo e hábil em deixar o leitor suspenso pelas palavras:

lettera 22

saudades da pequena olivetti portátil/ apoiada no colo/como clarice

saudades de escrever direto e de frente/face a face com o inimigo/o barulho das teclas acordava os vizinhos/a tinta manchava os dedos/ as teclas emperradas sugavam sangue

saudades da pequena olivetti portátil/ pedindo colo/ como criança

os sábados passados

há muitos sábados atrás/nos anos de celi campelo/vendiam-se sofás-camas a prestação/ as praias eram desertas e inacessíveis

há muitos sábados atrás/ quando uma viagem era uma viagem/compravam-se livros ainda virgens/e a lâmina da adaga estalava/ ao abrir cada página do romance

há muitos e muitos sábados atrás/quando o passeio era uma aventura/éramos felizes e ninguém percebia/seu vestido de bolero e meus sapatos bicolores/o clube de campo os anjinhos de bochechas/atrás do campo de golfe uns matinhos as formigas/ as salsichas de mentira as bolachas com manteiga/éramos felizes como ursos de pelúcia

há muitos sábados atrás/ íamos ao aeroporto só para tomar café/há muitos e muitos sábados atrás/o cinema oásis era um teto de ventiladores/os anéis de saturno nossos dropes salva-vidas/há tantos e tantos sábados atrás/quando celi campelo era uma menina de saia rodada/nem eu nem você havíamos nascido

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 19h01

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irrelevância da mídia?

Por razões óbvias, espero que não. Mas Josias de Souza está pessimista, pelo que leio no seu blog. “Se os meios de comunicação fossem levados a sério, Lula estaria agora debatendo com os tribunais, não com os eleitores”, diz ele. “Poucos governos mereceram da mídia exposição tão negativa quanto a administração petista. A despeito disso, o eleitorado atribui ao presidente um volume de intenções de voto que, por ora, humilha os concorrentes. Humilha também a mídia.”

 

Do ponto de vista eleitoral, não há dúvida. As denúncias sobre o mensalão pouco podem contra os benefícios concretos do Bolsa-Família, do Pro-Uni, da inflação baixa, do computador popular, do crédito facilitado... Certamente, o eleitor não ignora os desvios e irregularidades do governo; e, na minha opinião, acredita que existiram sim. Entretanto, faz uma ponderação na hora de escolher o próximo presidente. Está cansado de ver corrupção em todos os governos; por que não escolher, pelo menos, o que fez o Bolsa-Família?

 

Há outro fator: embora não duvide do mensalão e dos dólares na cueca, o eleitor acredita ou quer acreditar na inocência de Lula. Quanto a esse ponto, a mídia não lhe deu grandes convicções. Não acho, como diz Josias, que “Lula estaria debatendo com os tribunais” se dependesse da mídia. Nem a mídia, nem as CPIs, nem o procurador-geral da República reuniram evidências suficientes contra o presidente. Se tivessem reunido, talvez a história fosse outra. Não sei.

 

Sei que a mídia não foi irrelevante para tirar Zé Dirceu, Palocci, Gushiken e José Genoino de seus lugares. Heloísa Helena também pode dar graças à mídia pelos índices que obtém nas pesquisas. A mídia não pode tudo, mas alterou profundamente o papel do PT na administração federal.

 

O governo Lula mudou, para melhor, na minha opinião, quando Zé Dirceu saiu. Será que, se Lula soubesse que teria a reeleição garantida, ele manteria Zé Dirceu? Em outras palavras: se soubesse que a mídia é irrelevante, será que ele manteria todos no ministério? A pergunta é irrespondível. Lula se liberou do “comissariado petista”; talvez quisesse precisamente isto. A mídia não pode tudo; mas entre irrelevância e onipotência ela está no seu lugar. 

Leia no blog de Josias de Souza: http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/arch2006-08-13_2006-08-19.html

Escrito por Marcelo Coelho às 15h30

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pechincha

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Escrito por Marcelo Coelho às 11h58

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voltaire de souza

Os pequenos partidos muitas vezes se caracterizam pelo oportunismo. Mas isso pode ter seu lado positivo, segundo a crônica de hoje no "Agora": http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2508200604.htm

A política também foi discutida na edição de ontem. O cronista conta de que modo o horário eleitoral pode colocar uma vocação em crise. A história do cineasta Dênis está em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2408200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 16h32

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A vingança de Plutão

Como assim? O rebaixamento de Plutão é a pior notícia gerada por uma comunidade de sábios desde o dia nefasto em que João Paulo 2o resolveu banir a camisinha. Rigor de cientistas, rigor de eclesiásticos, ambos desumanos nos seus dogmas. Em nome de um critério científico antipático, deu-se um desastre para a imaginação dos terráqueos.

 

Quero meu dinheiro de volta. Ou, para ser mais exato: quero que me devolvam o que já dediquei de sonhos e certezas científicas à existência de Plutão. Já escrevi sobre o conforto de saber que um pequeno planeta gelado existia lá longe, estendendo para além do previsto e do razoável o nosso sistema solar. Os confins do sistema não ficavam apenas entregues ao domínio de marmanjões como Urano e Netuno.

 

Além disso, havia uma beleza muito grande em saber que o deus das Trevas, dos Infernos, dos Espaços Inferiores e Obscuros contava com um planeta só para ele. Nem que fosse um ponto gelado e ínfimo na noite: era, bem ou mal, um planeta, girando em torno do sol como Vênus, Marte e nós. Tinha os documentos aparentemente em ordem, embora sua conduta fosse suspeita e misteriosa. Talvez fosse malévolo, mas era modesto, estava em seu lugar, nunca pretendeu mais do que lhe deram.

 

Tiraram Plutão do sistema solar e jogam-no de repente para dentro de nossa alma: é lá, mas sem endereço nem ocupação definida, que ficará girando essa pequena esfera silenciosa e demoníaca, antes longínqua demais para perturbar alguém.

 

Centro diminuto da negatividade e do supérfluo, Plutão era o lugar sem brilho para onde se dirigiam nossos esquecimentos, nossas preocupações desimportantes, nossas crenças arbitrárias, como uma espécie de última água-furtada, dificilmente visitável, da nossa consciência. O Deus do subterrâneo estava exilado para além dos principais planetas, e lá sobrevivia quieto, como uma criança de castigo, a quem dirigimos um sorriso interior de compaixão.

 

Baniram-no para sempre do sistema solar, sem piedade, sem psicologia. Esses cientistas são monstros dickensianos; temos agora de guardar Plutão dentro de nós mesmos, como a criança antiga que já fomos, onde ele viverá em desconforto e mágoa, astro frio e amaldiçoado, gravitando seu rancor.  

Escrito por Marcelo Coelho às 16h15

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o esquecimento da política

Começou no Rio o ciclo de palestras sobre “O Esquecimento da Política”, de que participo no próximo mês. O sociólogo Francisco de Oliveira reafirmou a tese, há algum tempo exposta em entrevista à Folha, de que no mundo globalizado a política se tornou “irrelevante”.

 

Os Estados nacionais são hoje incapazes de fazer política econômica, com a subordinação das suas finanças ao sistema mundial. A arena dos conflitos locais, em cada país, enfraqueceu-se, e com ela o papel dos sindicatos e dos partidos. “Na ausência da política, o que acontece? O que estamos vendo. Uma sociedade de mônadas. Não existe mais sociedade, mas indivíduos. Nem indivíduos, mas mônadas, sem capacidade de intervenção”, afirmou Francisco de Oliveira, segundo reportagem da “Ilustrada” de hoje.

 

Na publicação que resume as intervenções do ciclo organizado por Adauto Novaes, o texto de Francisco de Oliveira acrescenta:

 

Este é um fenômeno mundial que na periferia capitalista tem efeitos devastadores; daí que, ao invés de concordar com a irrelevância da política, deve-se mais do que nunca ressaltar a sua importância, a importância de reinventá-la, e por isso os caminhos são muito parecidos, na essência, com os propostos por Evo Morales e Hugo Chávez. As formas particulares vão ser dadas pela situação e pela correlação de forças políticas de cada país. Ou retomamos a política, ou estaremos condenados à velha situação de satrápias do Império e dos Impérios.

 

Há muita coisa discutível nessas afirmações. Tento sistematizar algumas críticas, enquanto preparo minha própria palestra nesse ciclo. Imagino que não seja deselegância minha.

 

Não fica claro, nesses trechos, se o fenômeno da irrelevância da política já se consolidou ou se está em vias de consolidar-se. Se já se consolidou, as propostas de Chávez e Morales estão fadadas ao fracasso: seriam delírios de rebeldia. Como as finanças nacionais estão subordinadas ao sistema internacional, este esmaga qualquer coisa que se insurja contra o seu domínio.

 

Mas, se as políticas de Chávez e Morales têm futuro, então não há como falar em irrelevância da política nem numa situação diferente daquela que sempre existiu sob o capitalismo. Romper com o mercado internacional é difícil, mas sempre existiu e existirá quem tente: Lênin, Mao, Fidel, e agora Chávez e Morales. A política não é nem mais nem menos irrelevante do que em 1917.

 

Nesta hipótese, Chico de Oliveira aponta não propriamente a irrelevância da política, embora uma parte importante de sua tese subsista: partidos e sindicatos estão enfraquecidos em toda parte. Desse modo, uma nova forma de intervenção revolucionária, anticapitalista, deve ser pensada. Quem seriam seus protagonistas? Se a sociedade está ou está em vias de compor-se apenas de indivíduos isolados, ou “mônadas”, não haveria massas a mobilizar. Mas há governantes como Chávez e Morales. Para levar adiante suas alternativas ao capitalismo, podem então voltar a mobilizar as massas, reconstituí-las sem partidos ou sindicatos. Ou então governar sem mobilizá-las diretamente, levando adiante seu programa de forma mais “administrativa”, a partir do Estado.  Nos dois casos, não vejo muita originalidade ou “reinvenção” da política, de suas habituais formas latino-americanas de relacionamento entre líder e população, entre Estado e sociedade.

 

Faço esta análise utilizando termos razoavelmente neutros. Pensar em Morales e Chávez como modelos é algo de que discordo integralmente. Pretendo desenvolver uma discordância mais profunda, entretanto: não acho que estejamos vivendo um “esquecimento da política”. Acho que está em crise um tipo de política, baseado na disputa ideológica entre partidos pelo poder do Estado. Mas num sentido mais amplo a política está tão ou mais presente do que nunca.

Links:

matéria na Ilustrada: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2308200615.htm

programa do ciclo:

http://www.cultura.gov.br/foruns_de_cultura/cultura_e_pensamento/2006/debates/index.php?p=17329&more=1&c=1&pb=1 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h08

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do fonógrafo ao celular

O encontro entre a arte tradicional e a tecnologia do século 20 foi, como se sabe, um dos principais fatores a constituir a estética modernista; o material da Missão de Pesquisa Folclórica, organizada por Mário de Andrade em 1938, como que encenava "em bruto" --fonógrafos registrando cantos do Nordeste-- aquilo que a arte moderna, anos antes, produzira no plano da criação intelectual. Hoje em dia, o curto-circuito ou a interpenetração entre o contemporâneo e o arcaico se faz de modos ainda mais rápidos, embora envolva, como antes não ocorria, um grande processo de mediação social, de "trabalho junto às comunidades", como se fala na linguagem das ONGs.

Para não reclamarem que não falo do Rio Grande do Norte, abaixo está um link curioso. Trata-se de uma amostra de toques para aparelho celular, com gravações de cocos da Praia da Pipa. Nesse lugar se desenvolve um projeto de capacitação para trabalho em informática junto à população carente, organizado pela Cidade do Conhecimento, da USP: http://www.cidade.usp.br/blog/

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h51

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adendo sobre folclore

O leitor Marcos Aurélio me envia um e-mail sobre o artigo de hoje, que trata da edição de CDs com material folclórico recolhido na viagem de pesquisadores organizada por Mário de Andrade em 1938. Transcrevo um trecho:

Aquela viagem, tanto para Mario de Andrade quanto para os estudos do folclore brasileiro, essencialmente, trouxe grandes frutos. Primeiramente, porque, ao passar pelo Rio Grande do Norte, descobriu o embolador-de-coco Chico Antônio, cuja riqueza musical ainda hoje é reverenciada por músicos e pela academia; segundo, porque rendeu muitos elementos para que Luis da Câmara Cascudo (autor do livro Dicionário do Folclore Brasileiro - um dos estudos mais ricos sobre o tema) desenvolvesse cada vez mais sua obra. Agora, por que diabos, cargas-dágua e espíritos excomungados, em nenhum momento, você cita o Rio Grande do Norte, Chico Antônio e Luis da Câmara Cascudo, hein? Isso não é bairrismo (risos).

Escrito por Marcelo Coelho às 13h55

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descoberta do folclore (2)

Link para o artigo de hoje na Ilustrada, sobre a Missão de Pesquisas Folclóricas organizada por Mário de Andrade: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2308200619.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 11h18

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voltaire de souza

Os erros de um casamento podem nos ensinar sobre a política. Na coluna do "Agora SP", Martinico reencontra seu antigo amor: http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2308200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 11h17

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maledicência literária

maledicência literária

Terminei de resenhar "Os Detetives Selvagens", de Ernesto Bolaño (Ed. Companhia das Letras), um livro a meu ver demasiado extenso,e preocupado demais com a mediocridade da vida literária mexicana, seus poetas frustrados e vocações errantes. Em todo caso, há uma passagem bastante engraçada no livro, que parece vir direto daquelas conversas de bar boêmio, e que não pude reproduzir mais extensamente na resenha. Vai aqui um trecho mais longo. É o momento em que o poeta Ernesto San Epifanio desenvolve uma curiosa tipologia dos poetas de todo o mundo. Cito Bolaño.

Dentro do imenso oceano da poesia, [San Epifanio] distinguia várias correntes: bichonas, bichas, bicharocas, bichas-loucas, bonecas, borboletas, ninfos e bâmbis. Walt Whitman, por exemplo, era um poeta bichona. Pablo Neruda, um poeta bicha. William Blake era uma bichona, sem sombra de dúvida, e Octavio Paz, bicha. Borges era bâmbi, quer dizer, de repente podia ser bichona e de repente simplesmente assexuado. Rubén Dario era uma bicha-louca, na verdade a rainha e o paradigma de todas as bichas-loucas (...) Uma louca, segundo San Epifanio, estava mais próxima do hospício florido e das alucinações em carne viva, enquanto as bichonas e as bichas vagavam sincopadamente da Ética à Estética, e vice-versa. Cernuda, o querido Cernuda, era um ninfo e, em ocasiões de grande amargura, um poeta bichona, enquanto Guillén, Aleixandre e Alberti podia ser considerados bicharoca, boneca e bicha, respectivamente. Os poetas tipo Carlos Pellicer eram, via de regra, bonecas, enquanto poetas como Tablada, Novo, Renato Leduc eram bicharocas. (...)

O panorama poético, afinal de contas, era basicamente a luta (subterrânea), o resultado da pugna entre poetas bichonas e poetas bichas para se apropriarem da palavra. As bicharocas, segundo San Epifanio, eram poetas bichonas no sangue, que por fraqueza ou comodidade acatavam --se bem que nem sempre-- os parâmetros estéticos e vitais das bichas. [Na Itália], bichas feito Ungaretti, Montale e Quasimodo [rivalizam com] um poeta bichona feito Leopardi (...) Com Pavese não me meto, era uma bicha-louca triste, exemplar único em sua espécie, nem me meto com  Dino Campana, que come em mesa à parte, a mesa das bichas-loucas terminais.

E por aí vai. É possível, em parte, identificar o segredo dessa classificação. Bichas loucas seriam os românticos (Leopardi) e bichas os clássicos do modernismo (Montale, Quasimodo).

 

Escrito por Marcelo Coelho às 19h43

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Pragas de Shakespeare

Assisti ontem na Fiesp a uma pré-estréia de Timão de Atenas, de Shakespeare, com Renato Borghi no papel principal. Comento quando chegar o fim-de-semana. Por enquanto, registro apenas o prazer que há em ouvir os grandes, vulcânicos xingamentos shakespeareanos. Há até um livro só com eles, mas ainda não me lembro do título correto; e creio nenhuma peça os têm em tão grande número quanto "Timão de Atenas". O protagonista passa metade do tempo amaldiçoando a humanidade. Algumas frases eu gostaria de não esquecer. Cito uma:

"Tenho pena", diz Timão, "tenho pena da pedra que irá esmagar a tua cabeça."

Mas a melhor frase do gênero não é de Shakespeare, e sim da fala popular americano. Cito de memória, e traduzo com um pouco de invenção, mas é mais ou menos assim:

"Eu não gastaria o meu mijo apagando o fogo que irá transformá-lo em churrasco".

 

Escrito por Marcelo Coelho às 19h22

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voltaire de souza

A corrupção está no centro do debate político. Mas isso não tira a animação de Lourival, candidato a deputado. Para ele, "o povo esquece rapidinho". A história é contada no "Agora SP": http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2208200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 08h45

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descoberta do folclore

No artigo de amanhã, escrevo sobre uma caixa de 6 Cds e quatro livrinhos, editada pelo Sesc e pela Secretaria da Cultura de São Paulo. É um verdadeiro tesouro de gravações históricas: com ótimo som, está selecionada ali uma parte do material recolhido na famosa expedição organizada por Mário de Andrade em 1938, levantando a música folclórica brasileira. A "Missão de Estudos Folclóricos" viajou por Minas, Pará, Paraíba e outros Estados do Nordeste, gravando desde canções de ninar até pajelanças e cantos de carregadores de piano. Não tive espaço para notar a ironia que há no fato de gravar o canto desses trabalhadores pernambucanos. É como se os folcloristas ignorassem a música dos salões da elite, valorizando a de quem "carrega o piano"... Tratava-se, entretanto, de um trabalho de união nacional, de consolidação de pontes entre os formuladores da cultura "culta" e as manifestações populares. Não acho que exista populismo nisso. Por falar em ismos, seria o caso de ligar a iniciativa de Mário de Andrade ao modernismo e também ao romantismo. Mas isso eu desenvolvo no artigo. Aqui, coloco o link para o site do Sesc, que não faria sentido transcrever inteiro no artigo de amanhã:

http://www.sescsp.org.br/sesc/hotsites/missao/index.html

 

Escrito por Marcelo Coelho às 08h38

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Mário de Andrade

Mário de Andrade

 

 

Escrevo mensalmente para a revista “Língua Portuguesa”, comentando em detalhe, no estilo e até na gramática, trechos da literatura brasileira. Agora andei analisando uma carta de Mário de Andrade a Carlos Drummond. Do ponto de vista do estilo, acho curiosa a oscilação do texto entre o coloquialismo sistemático e um ou outro instante de mais formalidade literária. Mas o que vale é a beleza da carta.

Obs: Mário tinha feito uma operação cirúrgica, e ainda se recuperava dos efeitos da anestesia.

 

S. Paulo, 14- X- 926

  

Carlos,

         recebi por estes dias uma carta de você porém agora não acho e ando tão bestificado  ainda que carecia dela pra ver se arranjo assunto pra responder. Me lembro que você augurava melhoras prontas e o mais engraçado é que comentava minha força interior e que eu naturalmente não me deixaria abater com o sofrimento. [...] Já me sinto revivendo prá vida cotidiana, prá cotidiana, que prá geral nunca estive em perigo de vida propriamente. O diabo é que qualquer doença me declancha uma neurastenia danada que está sempre preparadinha pra aparecer e contra a qual eu reajo todo dia. Desta vez então eu saio completamente alquebrado. Uma fadiga uma tristeza um abatimento enorme. [...]

 

         Eu acho covarde a posição contemplativa diante da vida. Isso de se tornar espectador duma coisa de que a gente participa me parece o mais ignóbil dos egoísmos porém palavra que tem momentos em que dá vontade da gente ser cínico mesmo de deveras e olhar para o sofrimento dos outros e da gente mesmo como se fosse um espetáculo... A única censura até agora íntima que eu faço séria ao Osvaldo [Oswald de Andrade]  é justamente essa [...] Fez da vida um espetáculo de circo de que ele é o clown.  Faz as graças e ainda se ri das próprias graças. Sacrifica tudo por uma blague, uma caçoada. [...] Acho isso um mal. Toda a gente acha graça na minha alegria e como eu me divirto quando estou na festa mais pau. Creio que essa riqueza me vem de eu compreender a vida e vivê-la em toda a variedade dela [...] na dor sei que a dor é prá gente sofrer e sofro pra burro, sofro sério, sofro sofrendo e não espetacularmente, é lógico. Que sucede? A minha variedade de viver é tão incomensurável que não me fatigo dela nunca. Osvaldo como Paulo Prado, dois homens que tomam a vida como um divertimento eterno, vivem enfarados. [...]

 

A vida considerada como um divertimento é de uma monotonia enorme e não diverte. Porém se a gente aceita a vida como vida, séria na seriedade, amigo com os amigos, apaixonado nos amores, honrado nos sofrimentos e sempre aprendendo pra si e pra compreender e aceitar (não digo propriamente perdoar) os outros, a gente representa e pra si mesmo essa representação é sempre fecunda, não enfara nunca [...] Isso tudo que estou te falando parece duma banalidade sem parada e não é descoberta minha porém o certo é que sou feliz. Mas agora estou imaginando que não é nisso que está a receita da minha felicidade. Será talvez de eu aceitar de antemão tudo o que vai se passar nos atos seguintes da peça... Isso. Porém não aceito como espectador e sim como artista que representa. Eu censurarei os ruins, chorarei a morte da minha mãe, e amarei os meus amigos.

         Com um abraço sincero do

              Mário

Escrito por Marcelo Coelho às 18h12

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voltaire de souza

Candidatos sérios e preparados, como o doutor Luiz Mário, têm às vezes dificuldade no contato com o eleitor. Leia a crônica de hoje do "Agora SP" no link: http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2108200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 11h30

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Café da Manhã em Plutão

Café da Manhã em Plutão

 

Cillian Murphy, no papel de Patrick Mc Cabe

 

“Isto está ficando sério demais”. Não há nada que Patrick abomine mais que a seriedade. O protagonista de “Café da Manhã em Plutão” é um transexual irlandês na década de 70, e está cercado de seriedade por todos os lados. Principalmente, do lado político. As ações terroristas do IRA estão por toda a parte; o catolicismo conservador marcou terrivelmente a sua história pessoal. Mas Patrick (o excelente Cillian Murphy) é aquilo que em outros tempos se chamava de “bicha louca, inconseqüente e desvairada”. Indiferente aos colegas de escola, age como mulherzinha e provoca-os o tempo todo. Mais tarde, veste-se como mulher e se joga em Londres sem saber minimamente o que fazer pela própria sobrevivência. Não quer saber de política, nem de coisa nenhuma, aliás.

 

O excelente filme de Neil Jordan parece mostrar que essa negação quase psicótica da realidade –pela qual, aos olhos de Patrick, tudo é lindo e maravilhoso, mesmo uma sessão de interrogatório pela polícia britânica dos anos de chumbo—termina funcionando como recurso de sobrevivência. Patrick escapa da morte várias vezes.

 

De resto, Patrick não é o único a negar a realidade. Toda a sua biografia pessoal, todo o processo que o constitui como pessoa simpaticíssima, inteligente, amorosa e louca, deve-se ao fato de que muita gente à sua volta também negou a realidade. O “café da manhã em Plutão” seria um despertar em mundo estranho, infernal, subterrâneo; é ao mesmo tempo uma forma de encarar a realidade, mas de encará-la como uma forma hostil e mortal de funcionamento das coisas.

 

O terrorismo irlandês, as forças policiais anti-terroristas, o catolicismo, o instinto maternal de determinada personagem, a profissão de outra –o excelente mágico vivido por Stephen Rea– são outras formas de negar a realidade, promovendo morticínio, violência, filhos ou ilusões de ótica. A negação que Patrick faz do sexo biológico ganha, no filme, o caráter de uma bela afirmação da vida e do amor. E, lá para o final do filme, vemos que tudo gira em torno do perdão. O perdão talvez seja, de fato, uma negação da realidade com sinal positivo. Apesar de suas passagens duríssimas, “Café da Manhã em Plutão” é um filme otimista como poucos; imenso e profundo como poucos, também.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h55

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Os Detetives Selvagens

Os Detetives Selvagens

O escritor chileno Roberto Bolaño

 

 

O poeta Júlio César Álamo, junto com uma dezena de outros poetas mexicanos, está em Manágua, no ano de 1982, participando de uma comitiva de escritores que tem como missão prestar apoio moral à Revolução Sandinista. Ocorre que um dos participantes da excursão, o poeta real-visceralista Ulises Lima, desaparece em Manágua. Um inspetor da polícia nicaragüense é convocado, e se reúne com os escritores mexicanos. O trecho a seguir faz parte do romance Os Detetives Selvagens, de Roberto Bolaño, que acaba de ser editado pela Companhia das Letras.

 

Álamo tirou do bolso seu maço de Delicados e ofereceu a todos (...) o inspetor rejeitou a oferta com um gesto e acendeu um cigarro cubano, estes são mais fortes, disse com certo sarcasmo que não nos passou despercebido. Foi como se dissesse: nós, homens de verdade, fumamos tabaco de verdade, nós, que agimos objetivamente sobre a realidade, fumamos tabaco real. Mais forte que um Delicados? Labarca [o nome de outro poeta da comitiva] perguntou. Tabaco negro, companheiros, tabaco autêntico. Álamo riu baixinho e disse: parece mentira que tenhamos perdido um poeta, mas na realidade queria dizer: desde quando você entende de tabaco, seu puto de merda? Estou cagando e andando para o tabaco cubano, Labarca disse quase sem se alterar. O que disse, companheiro?, o inspetor devolveu. Que para mim o tabaco cubano não está com nada, onde arde um Delicados que se apaguem os demais.

 

Não digo que a cena não seja interessante. Há em todo romance de Bolaño o mesmo tipo de sarcasmo leve, ironizando o oportunismo político e a audácia inconseqüente de um grupo de boêmios literários sem talento, que gira em torno da ausência, do desaparecimento, dos descaminhos de Ulises Lima e seu amigo Arturo Belano.

 

Há nisso material para um romance longo, de mais de 600 páginas, com uns trinta ou quarenta narradores que se alternam? Eu diria que sim. Mas, ao mesmo tempo, não parece haver muito sentido para que o romance tenha sido escrito. No fundo do sarcasmo e da construção bem-feita há pouca coisa mais, desconfio, que certa impaciência com a mediocridade da vida literária latino-americana. Quem participa dela pode divertir-se com o livro de Bolaño; mas não sei se o livro merece a atenção de setores mais amplos do gênero humano.   

Escrito por Marcelo Coelho às 00h12

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fantasmas na passeata

O prefeito de uma cidadezinha do interior pretende demolir o antigo teatro construído por seu avô em 1897. Quer um shopping center no lugar. A comunidade então se mobiliza: a classe teatral faz seus contatos, a imprensa do local reage com veemência, um repórter de rádio ajuda na campanha, passeatas surgem diante da prefeitura. O prefeito ironiza; “cultura... cultura... o que eu faço com essa tal de cultura?”

 

Ele não esperava a intervenção de novos e decisivos agentes sociais nesse processo. Quem aparece é Gasparzinho, o Fantasminha Camarada, ou melhor, “O Fantasminha Atrapalhado”. É este o título da peça infantil em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso.

 

Gasparzinho e seus três amigos assustadores, Trovão, Relâmpago e Faísca, moram no velho teatro e montam uma estratégia para assustar o antipático prefeito.

 

Como peça infantil, “Gasparzinho, o Fantasminha Atrapalhado”, funciona razoavelmente, pecando pelos diálogos excessivamente repetitivos, por uma iluminação nem sempre eficaz, e pelo figurino nada convincente do protagonista. Mas mobiliza as crianças pequenas, com algumas situações que parecem tiradas do teatro de fantoches: assim, em determinada cena o prefeito não enxerga o fantasminha, enquanto o público se esgoela na torcida para que o tão esperado susto finalmente se dê.

 

O que me chama a atenção nessa peça é o quanto reflete da situação desesperada  que nós próprios, na imprensa e na cultura, vivemos. Duas entidades que já tiveram mais força no passado –a imprensa e o teatro—se aliam aos fantasmas para vencer o Poder, a Especulação Imobiliária, a Corrupção e o Capital. Naturalmente, a população que adere ao movimento, gritando numa passeata, não aparece em cena; tampouco é de se crer que o teatrinho do interior vivesse lotado. No fundo, o grande espectro, que não aparece, são as Massas. A nós resta acreditar nos pequenos sustos que, com habilidade variável, possamos pregar nos adversários.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h33

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voltaire de souza

As ações do PCC trazem pânico à cidade. Mas podem ajudar o mundo da moda. Na crônica de hoje no "Agora", a estilista Leinha Caiuby passa por uma crise de criatividade. Leia em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1908200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 17h57

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verborragia numérica

As preferências culinárias de Alckmin, e a força da propaganda eleitoral de Lula, são comentadas no artigo que escrevi hoje na editoria de Política da "Folha": http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1908200605.htm

Não acho que esteja sendo "lulista" acentuar as razões do favoritismo do candidato, mas que as coisas estão difíceis para Alckmin, isso me parece cada vez mais claro. A esperança de que com o começo do horário eleitoral ele pudesse subir nas pesquisas se tornam distantes, a julgar pelos programas apresentados até aqui. A campanha de Lula, ocultando naturalmente os escândalos e incoerências do candidato, dá razões e números para que seus simpatizantes assumam com mais firmeza a decisão de votar nele. A propaganda de Alckmin, mostrando realizações do governo paulista, não tem grande apelo. Aliás, até resolveram tirar um ponto fraco que eu ressaltava no artigo de hoje. Não falam mais o número de restaurantes populares criados por Alckmin. Eram apenas 26, coisa ridícula num estado tão populoso como São Paulo.

De certo modo, segue-se em toda a propaganda eleitoral uma técnica que mereceria o nome de "close  político". Os candidatos nanicos conhecem-na bem. Como há pouca gente nas aparições públicas que eles promovem, as câmeras mostram apenas o close de alguns correligionários, evitando tomadas de maior distância --estas mostrariam o vazio à volta do grupinho minúsculo reunido pelo candidato. Os mais fortes na disputa, Lula e Alckmin, também fazem coisa parecida: mostram uma pessoa, uma família, beneficiada por este ou aquele programa de governo, sem que saibamos qual a proporção real entre beneficiados e o conjunto da população. Números absolutos, do tipo 150 mil casas, 8 milhões de pessoas, etc., não dizem o quanto ainda há por fazer. A constatação é banal, mas não deixa de ser um contraponto necessário à verborragia numérica que toma conta do horário político.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h55

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voltaire de souza

O horário eleitoral incomoda muitas pessoas. Mas o senhor Armindo não desiste do voto consciente. A crônica de hoje está no link http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1808200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 00h10

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Um tema e três poetas

Um tema e três poetas

Dentro de algumas semanas participo de um ciclo de conferências intitulado “O Esquecimento da Política”, organizado por Adauto Novaes. Para esquentar um pouco, leio o programa das conferências, que tem o resumo de cada participação.

 

Logo no início, Adauto Novaes coloca uma epígrafe de Paul Valéry, na qual o tema ganha formulação poética. Ou melhor, não propriamente o tema do “esquecimento da política” mas sim aquele, mais amplo, dos planos, sonhos, utopias que desaparecem:

 

Para onde vão as idéias rejeitadas, os projetos esquecidos, as crenças arruinadas?

A árvore está imóvel, permanece parada no seu banho de luz.

Mas ontem mesmo ela se agitava com todas as suas folhas, ramos e galhos, até mesmo seu potente tronco, cor de pedra e quase pedra.

Onde está sua agitação, seu entusiasmo, suas torções de braços e mãos?

 

Gestos inúteis, diria Valéry, cujo alter ego, Monsieur Teste, prezava a imobilidade corporal: “matei minha marionete”, dizia ele.

 

Mas eu andava lendo os poemas de Mário Quintana, e encontrei um trecho que girava em torno de tema parecido. O poema em prosa, que pertence ao livro Sapato Florido, chama-se “Objetos Perdidos”:

 

Os guarda-chuvas perdidos... aonde vão parar os guarda-chuvas perdidos? E os botões que se desprenderam? E as pastas de papéis, os estojos de pince-nez, as maletas esquecidas nas gares, as dentaduras postiças, os pacotes de compras, os lenços com pequenas economias, aonde vão parar todos esses objetos heteróclitos e tristes? Não sabes? Vão parar nos anéis de Saturno, são eles que formam, eternamente girando, os estranhos anéis desse planeta misterioso e amigo.

 

A menção às “gares”, como gosta de dizer Quintana, lembra uma imagem marcante de Bóris Pasternak, que também cabe neste contexto: as estações de trem são como “cofres-fortes das despedidas”.

 

Mas sobre o tema dos objetos perdidos o melhor poema talvez seja de Rilke:

 

Lembras-te daquelas coisas que se perderam no dia anterior?

Por uma última vez, elas imploram em vão

para ficar ainda um pouco perto de ti.

Mas o anjo da Perda roçou-as com uma asa distraída:

não mais se prendem, nada as faz parar.

Receberam, sem que saibamos quando,

os estigmas da ausência.

Apesar das janelas fechadas, um vento

sutil avança em sua direção.

Abandonam a ordem precisa

da posse que as nomeia;

logo mais, qual será a vida que terão,

a vida que não será mais a vida do homem

que as amara? Sentirão, elas também,

saudades em meio ao moroso pó?

Ou será que as coisas se ajudam mutuamente

em favor de um mais pronto olvido?

O vago contentamento de ser matéria

retoma-as, devolvendo-as à cega mãe que as toca,

e mal as recrimina

por terem consentido a passar pelo pensamento humano.

 

E a política, com tudo isso? Esqueci-a também.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h08

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vida urbana (2)

 
 
Num post anterior, mostrei uma obra do artista plástico Alexandre Órion: pinturas nos muros da cidade que parecem interagir com o ambiente. Ele me mandou fotos de seu novo trabalho, "Ossário", e relata o que se segue. 
 
Na madrugada do dia 13 de julho, comecei uma intervenção no túnel entre a Av. Europa e a Cidade Jardim. A intervenção ocorre por processo de subtração, limpando a fuligem depositada nas paredes do túnel produzo imagens de crânios humanos. Estou recolhendo os retalhos de pano com a fuligem removida que futuramente transformarei em pigmento para que, através de um processo de adição, eu crie novas obras.
 
Como previsto, ninguém podia me impedir de desenhar as caveiras no túnel, pois não havia crime em "limpar".
O crime era ambiental: poluição pra ninguém botar defeito.
E, como também era previsto, o Estado não deixou barato.
Só existia um jeito de impedir a "limpeza" a minha maneira, limpando também.
E assim foi!
Abaixo, estão imagens da intervenção que já tinha alcançado 300 metros de extensão e da limpeza realizada pela prefeitura.
 
Mas, ao contrário do que eu esperava, eles não removeram a sujeira de todo o túnel.
O que realmente me impediria de continuar seria a remoção de toda a matéria-prima utilizada no trabalho.
A intenção do Estado foi apenas remover a intervenção, anular a mensagem deixando o restante do túnel sujo como deve ser.
 
O crime passou a ser outro: censura! Rs...
 
Mas como a matéria-prima continuou por lá, voltei com a provocação no dia 13 de agosto. Mas depois de meia hora de trabalho, a equipe da prefeitura, acompanhada da CET e da Polícia Militar, apareceu para efetuar a limpeza.
 
Desde de então, todos os túneis da cidade estão sendo limpos.
 
A limpeza do túnel da Cidade Jardim foi concluída, assim como a do túnel da Rebouças.
As equipes estão terminando a limpeza da passagem subterrânea que liga a Juscelino e a rua Sena Madureira.
 
Tudo bem. É ano de eleição.
Mas será que haverá uma manutenção periódica?
Melhor do que limpar seria pararmos de poluir.
 
Abaixo, foto das catacumbas de Paris, por Jim Rees:
 

Escrito por Marcelo Coelho às 09h02

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vida urbana

Parabéns ao Internacional de Porto Alegre, que ganhou a Taça Libertadores da América. Mas eu gostaria de saber por que, aqui em São Paulo, a  1100 km de Porto Alegre, rojões estouraram até 1h30 da manhã –e voltaram à ação aí pelas 7. Que o time perdedor desperte tantos ódios de seus rivais, mal posso compreender. Que desperte os inocentes de seu sono, já é sinal de uma certa patologia da violência e da impunidade. Sabendo que não pode ser identificado, o autor dos estrondos aproveita, não para comemorar, mas para incomodar; para contribuir, na medida de suas possibilidades, com a baderna urbana vivida no momento.

 

O sujeito dos rojões se sentiu ameaçado pelas bombas do PCC; vê um criminoso lendo manifestos na TV e outros se candidatando a cargos públicos; no mesmo dia, uma greve de protesto contra a privatização de uma linha de metrô estabelece novo recorde de congestionamento; e as enchentes ainda não começaram. Não há nada a comemorar; por isso mesmo, estouram-se rojões.

 

Num padrão mais “civilizado”, começa em frente de casa a construção de um prédio de apartamentos. Casas antigas foram derrubadas; providencia-se uma fachada publicitária no terreno, com aquelas imagens cujos truques de perspectiva transformam em parque quilométrico um gramado liliputiano. Pois bem: começam as obras.

 

E, morador do prédio em frente, recebo uma pequena cesta de cortesia no Dia dos Pais, contendo duas maçãs e uma caneca, evidentemente com o logotipo da construtora. Acompanha-as uma carta educada, pedindo desculpas pelo desconforto causado no quarteirão, e comunicando um gesto generoso: em vez de começar a bateção às 6 da manhã, como gostariam, eles trabalham só a partir das 7.

 

Esclarecem também que estão comprometidos com uma série de causas sociais: fundação criança feliz, fundação meninada, fundação moleques de rua, não sei qual. Tomo o café na caneca deles; o bate-estaca me diz bom dia, inculcando em meu cérebro o nome de mais um patrocinador da infância sorridente de amanhã. 

Escrito por Marcelo Coelho às 08h31

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Salvemos Plutão

Uma conferência internacional de astrônomos decide nos próximos dias, em Praga, se Plutão deve ser considerado um planeta, ou se merece um rebaixamento de status. Não entendo nada do assunto, mas encaro um rebaixamento de Plutão como uma perda pessoal. É como querer tirar de São Jorge o status de santo. Pior que isso.

De certo ponto de vista, Plutão é a maior riqueza do sistema solar. Todos poderiam se dar por satisfeitos com Saturno e Júpiter. Um é o maior de todos, o outro o mais interessante com seus anéis. Daí ficamos sabendo --pelo menos é essa a ordem de nosso aprendizado na infância-- que ainda existem Netuno e Urano. Já é um baita presente. Mas... esperem! Chega um convidado atrasado em nossa festa de aniversário, já quando se apagaram as velinhas, quando já quase todo mundo foi embora, e esse convidado aparece com um pequeno embrulho em papel pardo, minúsculo, obscuro, modesto. É Plutão. O menor presente, o quase esquecido, o mais desinteressante talvez, será também o mais valioso; o que prolongou, numa surpresa de curto alcance, a nossa festa, a nossa vida. Salvemos Plutão. Notícias sobre as decisões da conferência podem ser acessadas em http://www.iau.org/PlutoPR.html

Em tempo: escrevi este comentário baseado em reportagem publicada na Folha de terça-feira:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1508200603.htm Matéria de Reinaldo José Lopes, na Folha desta quarta-feira, apresenta perspectivas mais sorridentes para a periferia do sistema:

  

A reforma há muito adiada do mal-ajambrado Sistema Solar pode estar próxima de sair do papel. Se for aprovada, na semana que vem, por uma assembléia de astrônomos do mundo todo, pode elevar para 12 o número de planetas nos domínios do Sol, resgatando um "ex-planeta" e promovendo dois novatos. Os livros didáticos, que trazem a tradicional imagem dos nove planetas em torno do Sol, podem ter de mudar.
O rascunho da proposta será apresentado durante o encontro da IAU (União Astronômica Internacional), que está acontecendo em Praga, capital tcheca. Os membros da IAU vão discutir a idéia em assembléia-geral e votar a proposta em plenário na tarde do dia 24. Se ela for aprovada, o asteróide Ceres, entre Marte e Júpiter, Caronte, atual satélite de Plutão, e o misterioso "Xena" (apenas um apelido provisório), nas fronteiras geladas do Sistema Solar, passarão a ser planetas.

leia mais em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1608200601.htm

Parece que o planeta --sim, o planeta-- é pardo e sem brilho. Poucas imagens estão disponíveis, na net ou fora dela. Abaixo, uma que pesquei no site www.the-planet-pluto.com Não é boa, mas é a mais nítida de que os humanos dispõem, em cores, do planeta:

Escrito por Marcelo Coelho às 23h09

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bloguite

Andei meio atrapalhado nestes dias, porque participo do júri de um concurso literário e me pus a ler livros um atrás do outro, que naturalmente não posso comentar no blog. Com exceção de uma ou outra atividade ligada a jornalismo, isso de ser jurado só tinha me acontecido uma vez, há muito tempo, e o concurso era de projetos teatrais, não de obras de ficção. Lembro de ficar sentado durante umas duas ou três semanas numa poltrona rodeada de pacotes, examinando idéias para tudo que era peça de teatro. Desta vez, não foram tantos livros assim, e não muito longos de ler. De qualquer modo, é interessante notar como os concorrentes vão se agrupando segundo a lei dos grandes números; forma-se uma média de textos razoavelmente semelhantes na temática, no estilo, no enfoque, e a escolha acaba sendo menos difícil do que parece.

 

Difícil foi fazer posts sobre literatura e espetáculos enquanto durava esse período de leituras. A conjuntura política salva o comentarista nessas horas, mas traz seus riscos. Sem dúvida, o número de comentários dos leitores cresce, e isso vira uma tentação terrível para o blogueiro iniciante; sem contar que logo se instaura o automatismo de reagir aos fatos do dia, da última hora, da última tolice que aparece no programa eleitoral gratuito... como tudo que se relaciona com computador, blog vira uma espécie de videogame, com você dando tiros um atrás do outro para acertar “o inimigo” –e há tantos... Mas aos poucos tento voltar ao normal. 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h49

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obras-primas da publicidade

O lema da campanha de Antonio Palocci para a Câmara dos Deputados merece registro:

"Fez muito pelo Brasil. Vai fazer mais por São Paulo".

Menos, Palocci, menos.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h18

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voltaire de souza

Corrupção e romantismo dividem espaço na crônica de hoje.

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1508200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 14h37

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Alckmin e o seqüestro (2)

Lendo o jornal de hoje, vejo que foram as declarações de Alckmin foram ainda mais comprometedoras do que assinalado no post anterior. Ele foi longe, considerando a ação do PCC um ato de "terrorismo político-eleitoral"  voltado "contra sua candidatura".

O tom prudente das declarações reproduzidas no noticiário da Folha Online anteriormente citado se vê substituído, então, por uma estridência quase desesperada. Não sei se isso tem efeito benéfico sobre sua candidatura. A tentativa de instrumentalizar um ato terrorista para fins eleitorais teve mau desfecho na Espanha, quando o primeiro-ministro José Maria Aznar tentava, na campanha à sua reeleição, fazer passar por terrorismo basco o que era ação da Al Qaeda.

Podemos concordar com Alckmin quando ele afirma que a questão da segurança tem uma dimensão federal preponderante --tráfico de armas e de drogas se faz pelas fronteiras--, mas as ações do PCC estão centradas, em toda esta crise, na questão do controle dos presídios, e nisso a principal responsabilidade, tanto pelas falhas quanto pelos acertos, é do governo estadual. Quando Alckmin diz que o seqüestro é contra sua candidatura, ele então não deixa de estar certo: indiretamente, reconhece a ineficiência do seu governo em lidar com a questão.

Leia mais em http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u81342.shtml

Escrito por Marcelo Coelho às 07h58

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Alckmin e o seqüestro

Posso estar enganado, mas desde a entrevista de Alckmin a Fátima Bernardes e William Bonner,na semana passada,  já se esboçava a nova estratégia do candidato tucano a respeito de como lidar eleitoralmente com os últimos ataques do crime organizado. Alckmin começou um raciocínio, no Jornal Nacional, mas não o levou às últimas conseqüências. Ele dizia que “bandido não ataca a polícia, bandido foge da polícia”.

 

A frase ficou meio solta, dentro da espécie de fumaça verbal que cercava o candidato. Havia desde números favoráveis à situação da segurança pública (declínio dos homicídios, aumento das prisões) até generalidades do tipo “não vamos ter medo de cara feia...” etc. Mas se o raciocínio de Alckmin naquele momento fosse levado até o fim, a idéia era dizer que os atentados não são coisa de bandido –porque bandido que é bandido foge da polícia—e sim, outra coisa qualquer.

 

Certamente, o PSDB vai apalpando o terreno para ver até que ponto cola a tese de que há um jogo político anti-Alckmin nos atentados em São Paulo. O candidato José Serra deu mais um passo hoje, afirmando que “O crime organizado não gosta do PSDB”. A questão, obviamente, não é essa, mas sim o quanto o PSDB tolera o crime organizado. Minha resposta é que tolera, tanto quanto o PT e os demais partidos, à medida que se prolonga uma situação de verdadeiro caos no sistema prisional do país.

 

Quanto a Alckmin, suas declarações são um pouco mais prudentes: o sequestro de Portanova “tem todas as características de um atentado político, mas não nos cabe agora... Vou deixar para me pronunciar daqui a algumas horas”. Esperemos, então, sua troca de idéias com assessores, marqueteiros, etc., e sua aparição no debate entre candidatos a presidente promovido pela Bandeirantes.

 

Em si, a frase de Alckmin diz e não diz muita coisa. O seqüestro tem todas as características de atentado político, porque o PCC agiu não em busca de resgate, nem apresentando reivindicações específicas, mas para divulgar um manifesto, apresentar-se como uma instância à procura de sustentação na opinião pública –por mais extremistas que sejam seus métodos e mais criminosos que sejam seus integrantes. Nesse sentido, o PCC está de fato agindo como um grupo político.

 

Alckmin, por outro lado, fez questão de frisar que o sequestro não constitui uma atividade partidária, mas sim política, num sentido suficientemente amplo para que não seja o caso de dar nomes aos bois. A dúvida, entretanto, fica no ar. E que outra coisa podem os tucanos de São Paulo dizer, do ponto de vista eleitoral? Se acusam o governo federal de ser o responsável pela crise, porque não liberou verbas ou não construiu presídios federais, fica evidente o esforço de se eximirem das responsabilidades que têm. Não podem assumir, às vésperas da eleição, culpa pelo estado atual das coisas. Tratam de reagir à estratégia bem mais inteligente do Planalto, que com poucos movimentos verbais deixa a bomba estourar em Alckmin.

 

A rigor, o que um candidato poderia fazer neste momento é anunciar um pacote gigante de medidas contra o crime organizado, que incluísse mudanças legislativas óbvias –prevendo a proibição do uso de celulares nos presídios, por exemplo—e radicais –esvaziando em massa as prisões dos condenados de menor periculosidade. Mas aí entram os problemas técnicos, o medo de parecer radical demais, e o jogo de forças dentro das assessorias (imagino) a diluir qualquer discurso.

Declarações de Alckmin podem ser lidas no link: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u81327.shtml

Escrito por Marcelo Coelho às 14h42

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voltaire de souza

Como o artigo de hoje do cronista não está disponível no site do "Agora", transcrevo-o na íntegra.

MINUTOS DE TENSÃO

 

O Dia dos Pais é sempre um momento emocionante.

Para Neilor, era a hora de rever a família.

Os dois filhos pequenos e a mulher o aguardavam na porta da prisão.

O maiorzinho estava ligado no noticiário.

Primeiro, o abraço carinhoso. Depois, dúvidas nasceram em sua mente infantil.

Em casa, a massa do bolo de coco estava pronta para ir ao forno.

Veio a pergunta.

--Papai.

--O que foi.

--Você é bandido? Mamãe disse que é.

Os olhos de Neilor ganharam um brilho gelado.

--Você disse isso, Sueline?

O fósforo aceso tremeu na mão da pobre mulher.

Neilor tinha uma faca de manteiga na mão.

Sueline deu um grito. O fósforo saltou de sua mão. Caiu no forno ligado.

A explosão teve dimensões de um atentado médio.

No pronto-socorro, a família recebe cuidados e negocia uma ampla reconciliação.

O terror, muitas vezes, aparece sem aviso.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h40

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o video do pcc

A íntegra do plantão da Globo, contendo o vídeo feito pelo PCC, está disponível no site youtube. Creio que é do interesse público ver o seu teor, ainda que isso possa parecer um destaque indevido a uma associação criminosa. De resto, o destaque que eles têm não depende disso.

 Vale a pena perceber o total descompasso entre a locução do criminoso e o conteúdo do texto: ele lê sem nada entender, e o já bastante apontado erro de confundir "Ilusionismo" e "Iluminismo" foi provavelmente problema do leitor, não do texto escrito. Pretendo comentar tudo no artigo de quarta-feira na Folha; mais tarde adianto alguma coisa

Link: http://www.youtube.com/watch?search=&mode=related&v=bwPHGk0ifb4

Escrito por Marcelo Coelho às 11h42

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ciúmes de irmãos

ciúmes de irmãos

Tenho dois meninos pequenos, de dois e quatro anos, e naturalmente a questão do ciúme entre eles é das mais difíceis de administrar. Uma ou duas experiências que tive nesse campo talvez valha a pena registrar aqui.

Ao contrário do que geralmente acontece, é o menino menor quem se revela mais ciumento e se sente mais rejeitado. Creio que tanta atenção quisemos dar ao mais velho, quando ele "ganhou um irmãozinho" (frase meio cafona esta, em seu eufemismo), que a sensação de ser posto do lado ficou mais forte no menino menor. Com o passar do tempo, isto até se intensificou. As brincadeiras de que participa uma criança de quatro anos tendem freqüentemente a rejeitar a participação de uma criança de dois; enquanto eu dedicava atenção a histórias de Batman e Power Rangers, o menorzinho se via encostado num canto, enciumado, às voltas com um joguinho de encaixe ou um pião que teimava em não girar.

O leitor não precisa ficar excessivamente comovido, porque o pequeno se vingava do irmão mais velho com mordidas e tapas, que eram recebidos com tolerância e raríssimos revides. Cenas de ciúme tremendas, com gritos e surtos, eram protagonizadas pelo caçula, e era difícil evitá-las, porque todos em casa sabíamos que, em boa medida, o pequeno tinha razão.

Uma experiência curiosa se deu, entretanto, por acaso. Estávamos vendo uma série de fotos, e a atenção do menorzinho se fixou sobre uma foto que nos mostrava todos juntos: pai, mãe, dois irmãos. Ainda mal aprendendo a falar, o menino ficou um bom tempo pedindo que apontássemos os nomes de cada pessoa representada na foto. "Mamãe", "Papai", "Dedé" (o apelido do irmão} "Tomás"(o nome dele). O exercício se repetiu longamente, provocando prazer e risos na criança.

Creio que, de algum modo, ele conseguiu entender pela primeira vez o lugar de cada membro da família, a sua condição de igualdade face ao irmão, e o fato de todos juntos formarmos uma espécie de unidade de afeto. Tenho impressão que o ciúme dele diminuiu bastante depois disso; seu comportamento também foi-se modificando, conforme narrado em posts anteriores.

A segunda experiência é um pouco mais complexa. Falei, no último post, do papel paterno na administração da justiça doméstica. Sem dúvida, isso envolve eliminar sinais evidentes de favoritismo, qualquer indício de proteção a uma criança em detrimento da outra. À medida que o pequeno ia ficando mais ciumento, tentei naturalmente reequilibrar a balança, insistindo para que o mais velho cedesse seus brinquedos quando "solicitado" pelo menor, e garantindo a primazia do pequeno numa série de circunstâncias. Claro que é isso o que eu tinha de fazer; entretanto, por vezes isso teve um efeito negativo.

Não é que o maior reagisse e se tornasse revoltado por sua vez.. Ao contrário, em geral ele consentia em dar pequenos privilégios ao irmãozinho. O problema foi inverso. O irmãozinho se sentia cada vez mais no direito de exigir, reclamar, e dar demonstrações de ciúme: isso foi se tornando uma segunda natureza para ele, em certa época. Um dia, já um tanto impaciente com essa situação, deixei de proteger o enciumado. O brinquedo era do mais velho, e impedi o menor de requisitá-lo. "É o André que está brincando, o brinquedo é dele, procure outra coisa". Em vez de protagonizar uma cena de ciúme, o menor se convenceu miraculosamente de que não tinha razão.

Acho que, de alguma forma, ele foi levado a perceber os direitos do irmão mais velho; sentiu que havia, por assim dizer, um espaço separado para cada um, e não a constante rotina de partilhar coisas e brinquedos que queríamos impingir; sentiu também a existência de uma lei superior aos seus supostos direitos, ainda que "legítimos", por ser em tese o "menos privilegiado" da família. Seja como for, também depois disso o seu comportamento enciumado baixou ainda mais de intensidade. Sem dúvida, a balança das relações fraternais terá de ser sempre aferida e alterada; mas vivemos em casa uma situação de relativo conforto e equilíbrio desde então.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h45

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é dando que se recebe

é dando que se recebe

Associa-se a função paterna à função, nem sempre simpática, de administrar a justiça no lar. "Vou contar para o seu pai", diz a mãe em desespero; e não conheço, na prática da língua portuguesa, quem use a expressão "autoridade materna", enquanto a paterna, mal e mal, sobrevive até mesmo nas piores famílias. Já comentei na Folha os anúncios do Dia dos Pais deste ano, no que tinham de cinismo ou de involuntário aspecto de rancor edípico. Pensei também em outra coisa, que tento expor agora.

Quase todos esses anúncios insistem na importância da retribuição. Você não está apenas dando um presente para o seu pai, mas retribuindo o que tirou dele: horas de sono, noites de preocupação, anos de vida. Um anúncio de uísque sugere que, afinal, uma garrafa seria um presente modesto. Seu pai lhe deu a vida, você lhe devolve doze anos. Fora o conteúdo freudiano mais evidente –você gostaria de tirar a vida do seu pai, contente-se em deixá-lo mais pra lá do que pra cá--, talvez a conta dos doze anos tenha um sentido mais secreto.

É, provavelmente, a idade em que a criança deixa de ser tratada apenas como criança pelo seu pai. Tudo varia muito de pessoa para pessoa e de família para família, é claro. Mas penso numa distinção do velho Durkheim, segundo a qual as sociedades arcaicas praticavam formas de justiça baseadas no terror e na vingança, enquanto que as sociedades diferenciadas tendem a um modelo de justiça mais compensatório e civil. No limite, seria a diferença entre prender um corrupto ou conseguir apenas que devolvesse, com juros, o dinheiro que roubou.

O início da adolescência, ou quem sabe da idade adulta, talvez marque uma passagem semelhante no mundo da autoridade paterna; a celebração do Dia dos Pais, para além de efusões forçadas ou reais de sentimento nas crianças, ganha outro sentido quando o filho passa a gastar seu próprio dinheiro na compra de um presente: o mundo da retribuição, da troca, da "indenização", da "negociação", é assim conquistado sobre as ruínas da onipotência arcaica do pai infantil.

Mas talvez o arcaico, nessa história, seja só eu mesmo. Fico com a impressão, por alguns comentários enviados ao blog, que minha imagem como educador familiar não resulta das mais simpáticas. Gostaria de retificá-la dizendo que não sou nenhum carrasco, muito ao contrário. Não vou me estender sobre o quanto o espírito da diversão prevalece sobre o das broncas no cotidiano familiar; mas espero, de todo modo, que quando meus filhos dispuserem de certa autonomia financeira, não se esqueçam de prover a boa cota de retribuição que os anúncios de shopping estão a sugerir.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h56

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voltaire de souza

Em meio aos ataques do PCC, o cronista do "Agora" lembra que há mais coisas entre o céu e a terra do que simples coquetéis molotov. Leia no link:http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1108200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 11h45

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Lula no JN

Faz diferença a entrevista do Jornal Nacional ter sido feita em pleno gabinete da Presidência, como agora com Lula, em vez de nos estúdios da Globo. O fundo azul e a bancada metálica do Jornal Nacional acabam dando um ar de certa fragilidade mercadológica aos candidatos que lá se submetem ao duro teste da entrevista. Diga-se a favor de Fátima Bernardes e de William Bonner que não se intimidaram nem um pouco com a aparência mais solene do ambiente. Talvez nunca um presidente da República tenha sido tão apertado, ainda que num tempo exíguo, por seus entrevistadores. Lula, por sua vez, parecia não exatamente acuado, mas triste, envelhecido, maduro talvez: longe do estilo pimpão dos comícios, estava mais ou menos resignado aos pontos que poderia perder nos muitos de que dispõe nas pesquisas eleitorais.

 

Claro, o universo das metáforas familiares e corriqueiras não foi abandonado. Quantos pais, quantas famílias, apelou o presidente, ignoram o que acontece com seus filhos, e só sabem pelos jornais de seus atos de delinqüência? As armadilhas da metáfora foram desfeitas por Fátima Bernardes.

 

Ao contrário do que se pensava, o tema da corrupção ocupou mais do que apenas uma pergunta protocolar por parte da dupla. Novamente, Lula só respondeu o que não era irrespondível; afastou Dirceu, afastou Palocci... o que não o impediu de reiterar sua filiação ao PT. Pouca coisa mais do que ele disse convenceu: tentou jogar suas apostas mais para o alto quando disse que, em outros tempos, não era dado a acusar, sem provas, as pessoas de serem corruptas.

 

Passe esta. Mas em todo caso, Lula transmitiu uma imagem de certa preocupação e seriedade, se não com os escândalos em si, pelo menos com as perguntas que teve de ouvir. Tanto do ponto de vista da Globo quanto do presidente, a aparência de um comportamento mais adulto, menos superficial com relação à política prevaleceu. Não é o suficiente para abalar os índices de Lula, mas teve o efeito, não de uma facada, mas de uma boa alfinetada pelas costas.

 

Registrem-se dois atos falhos de Lula: dizer que iria “combater a ética” e que “o salário nunca foi tão baixo neste país”; ele queria falar da inflação. Fazem falta entrevistas desse tipo. Como mecanismo de esclarecimento do eleitor, de longe são melhores do que o carnaval deprimente dos debates.

 

leia também o blog de Fernando Rodrigues, com a carta de despedida de Lula a Zé Dirceu, bem longe do que se poderia esperar de quem demite um auxiliar envolvido em escândalo --como Lula quis, agora, dar a impressão de ter feito. http://uolpolitica.blog.uol.com.br/#2006_08-11_09_13_50-9961110-0

Escrito por Marcelo Coelho às 20h21

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Danuza Leão

Por mais que a experiência política nos deixe céticos e desenganados, parecem sempre ressurgir crenças e esperanças a cada eleição. Uma vontade de confiar nas pessoas talvez seja necessária ao nosso equilíbrio psíquico; mesmo assim, não dá para concordar com o que Danuza Leão escreve hoje na Folha, a propósito de Heloísa Helena.

"duvido que, se eleita, HH vá frustrar quem votou nela e virar outra pessoa, como aconteceu com Lula. Porque Heloísa Helena é mulher, e mulheres costumam ser confiáveis."

Podemos ou não admirar Heloísa Helena, e certamente discordo da opinião de Danuza quanto ao seu desempenho na entrevista do "Jornal Nacional". Mas confiar nela porque é "mulher"... eis um argumento espantoso. Quando Lula era Lula, muitos votavam nele porque era operário, porque tinha sido torneiro mecânico, porque foi pobre...

Votar em alguém porque é negro, mulher, operário ou até milionário ("esse não precisa roubar") talvez seja sinal de um problema político a que aludi aqui: não se representam mais interesses, e sim "identidades". O candidato não é visto como instrumento possível de políticas de governo A ou B, mas como "bandeira", "símbolo" de alguma idéia, de algum movimento, e o simples fato de estar em campanha, de eleger-se, de acenar para o público, já esgotaria sua missão política.

Curioso que antigamente as mulheres estavam associadas à imagem de volublidade, perfídia, inconfiabilidade. Meus filhos ouvem um disquinho de histórias infantis em que o Zangado se opõe a hospedar Branca de Neve na sua casinha. "Ela é mulher! Mulheres são traiçoeiras!" Fico feliz de ver esse estereótipo desaparecer completamente. Mas não precisamos ir ao extremo contrário, e confiar na Madrasta. Não que HH seja uma Madrasta. Mas de todo modo não acredito em fadas.

Link para o artigo de Danuza Leão: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1008200619.htm

 

Escrito por Marcelo Coelho às 13h52

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voltaire de souza

Um candidato nanico apresenta aos eleitores suas cinco prioridades de governo. Mas há coisas mais básicas em jogo, segundo o colunista do "Agora": http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1008200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 13h39

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William e Fátima se dão mal

Desta vez, concordo com quem falou mal de William Bonner e Fátima Bernardes. Tentaram encurralar Cristóvam Buarque no "Jornal Nacional" de hoje, mas algumas de suas perguntas foram apenas ridículas. Cristovam não se reelegeu governador do Distrito Federal. Não seria mostra, perguntam os entrevistadores, de que a população rejeita o desempenho administrativo do candidato? É muito primarismo para uma pergunta só... 

Havia mais munição, contudo. Ao assumir o Ministério da Educação no governo Lula, Buarque tinha prometido acabar com o analfabetismo. Depois de um ano, segundo dados do IBGE, o número de analfabetos aumentou. Tipo da estatística que dá trabalho para contestar. Com seu jeito apressado e voz pouco sonora, o candidato do PDT conseguiu, entretanto, colocar os pingos nos is. Afinal, falar em números absolutos nesse caso distorce qualquer raciocínio; novos analfabetos (maiores de 15 anos) estão surgindo a cada ano, mesmo que aumentem fortemente os programas de alfabetização adulta. E Cristovam, afinal, não ficou o tempo suficiente no Ministério para cumprir (cumpriria?) sua promessa.

Os entrevistadores poderiam ter apertado um pouco mais o ex-ministro com o tema do Provão, uma ótima iniciativa do governo FHC submetida a um desmonte sob a gestão de Cristovam Buarque. Seja como for, a relativa desimportância do candidato permitiu que a entrevista não se dispersasse em ataques a um número excessivo de flancos. A discussão pôde focar-se sobre pontos concretos, acima da pura falação eleitoral. Mas o mundo da pura demagogia marqueteira desta vez revelou o seu avesso: uma espécie de antidemagogia jornalística, supostamente desmistificadora e agressiva, e na verdade quase tão primária quanto aquilo que pretende denunciar.    

mais informações sobre a entrevista em http://eleicoes.uol.com.br/2006/campanha/ultnot/2006/08/09/ult3750u141.jhtm

Escrito por Marcelo Coelho às 21h09

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Legislativo, adeus

 

 

Apesar de ser contra o voto obrigatório, uma das coisas que me deixam feliz nas eleições é saber que todo mundo, absolutamente todo mundo, vai votar. Gosto daquelas filas em que, uma vez a cada quatro anos, somos todos iguais.

 

Mas reconheço de longe a “marca da morte”. É como naqueles filmes antigos de Hollywood: há um pelotão qualquer, cinco companheiros inseparáveis, e logo adivinhamos qual deles vai morrer logo no início do filme: geralmente é o gorducho simpático, o mais sorridente de todos; ou então aquele que mais insistentemente fala sobre seus planos para o futuro.

 

Determinadas coisas vão aos poucos ganhando a “marca da morte”. Na década de 70, um amigo olhava para um enorme disco de vinil; aquilo era grande demais, sem cor, pouco prático, exigia agulhas... “coisa mais arcaica”. Anos depois, inventaram o CD; mas a “marca da morte” já tinha pousado sobre o vinil.

 

Pousa sobre uma infinidade de objetos: óbvio que os fios, cabos, conexões de um computador, o benjamim de uma tomada, encarapitado sobre outro benjamim como barracos numa favela, tudo isso está com os dias contados. O aparelho de fax estrebucha, o esparadrapo será em breve uma lembrança do tempo dos faraós, os fogões terão o destino dos tílburis e cabriolés.

 

E, tanto quanto a velha urna onde se punha um papelzinho dentro, acho que as filas para o voto eletrônico logo terminarão. Provavelmente não há grande problema técnico em votar pela internet, usando uma senha especial, a que corresponderia, de resto, o próprio título de eleitor. Logo os computadores serão tão comuns quanto os celulares, e a coisa de se deslocar fisicamente até um ponto de votação me parece mais e mais ultrapassadas. Se usamos senha para lidar com dinheiro, por que não na escolha democrática de um representante?

 

E, afinal, para que representantes? A prosseguir nesse caminho, dentro de uma ou duas décadas uma série de questões públicas poderia ser discutida e deliberada diretamente via internet. Democracia direta por meio eletrônico. Alguém já deve ter pensado nisso.

 

Pelo menos num caso como o plebiscito das armas, não haveria grande dificuldade. E por que não mais plebiscitos? Você acorda de manhã, lê suas notícias, acessa seu blog e vota uma lei ou uma emenda orçamentária...

 

O sistema de representação parlamentar, com aquelas figurinhas de paletó marrom e gravata prateada, óculos bifocais com armação de massa e brilhantina no cabelo, está obviamente em colapso, não só aqui como em qualquer parte do mundo. Aos poucos, vai-se depositando sobre eles a marca da morte. Será um enterro bem dispendioso, por certo.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h35

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críticos e pianistas

 

 

 

Nelson Freire foi extremamente elogiado no último número da revista inglesa “The Grammophone”, mas a maior sensação pianística por lá, nestes últimos tempos, parece ser o luxemburguês de 25 anos Francesco Tristano Schlimé, que depois do sucesso de seu CD com a obra completa de Luciano Berio lançou um disco com o Concerto em Sol, de Ravel, e o Quinto Concerto de Prokofiev (com a Orquestra Nacional da Rússia, dirigida por Mikhail Pletnev). No que chega a ser sacrilégio nos meios clássicos, Schlimé acrescentou ao CD três faixas com improvisos jazzísticos, apresentando sua “outra face” musical.

 

A crítica se divide. Na revista inglesa, o “adágio” do concerto de Ravel “emerge como um devaneio intemporal, fazendo com que seja difícil nos lembrarmos de uma interpretação que apresente tamanha magia ou traslucência sonora, a léguas de uma tradição mais superficial que emana de Marguerite Long, a quem o concerto foi dedicado”.

 

Os franceses reagem: “Nada mais que uma decepção esse Concerto de Ravel frio e metrificado, com os andamentos excessivamente longos, absolutamente desprovido de expressividade... as qualidades pianísticas estão fora de questão; é o espírito que falta”, escreve  “Diapason”.

 

Diferenças de gosto e avaliação individual sem dúvida são incontornáveis, mas o que me acha a atenção é a persistência, mesmo em plena globalização, de diferentes “estilos nacionais” tanto na execução quanto na apreciação da música. Os franceses são, ou se tornaram, responsáveis por tudo o que for “racionalista” e “límpido”; aos ingleses, romantismo, brumas, idílios. O estilo dos dois críticos citados (Bryce Morrison e Etienne Moreau) dão bons exemplos das dificuldades e limites de se escrever sobre música para o público leigo. Os elogios, no artigo de  “Grammophone”, tendem a ser hiperbólicos, metafóricos. O Concerto de Prokofiev, diz o articulista, se cerca de uma aura misteriosa, como um conto de fadas invernal”. Mesmo quando fala bem, o crítico francês é mais preciso e técnico: no Concerto de Ravel, “a cadência do primeiro movimento é impecável, as semicolcheias nos tutti do Adagio perfeitamente legíveis (...)”

 

Legibilidade ou imersão na música, duas sensações difíceis de conciliar. O site de Francesco Schlimé traz um mínimo trecho do disco, assim como de outras gravações suas: Luciano Berio e Bach. Um minutinho da  “ária” das Variações Goldberg de Bach soa maravilhosamente, como se tocado por um conjunto de sopros.

www.francescoschlime.com

Escrito por Marcelo Coelho às 17h06

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voltaire de souza

No dia dos Pais, um narcotraficante se lembra de limpar a barra. Link para a coluna de hoje:

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0908200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 15h15

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Dia dos Pais

Comento anúncios sobre o Dia dos Pais na Ilustrada: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0908200622.htm

Impliquei especialmente com o do Shopping Iguatemi, que recomenda aos filhos capricharem no presente, uma vez que vão herdar tudo depois. Estranho que, para mim, a foto do anúncio parecia ser a de um menino, vestido de executivo. Leitores mostraram o erro: trata-se de uma menina, de cabelo puxado para trás.  

Escrito por Marcelo Coelho às 10h57

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Heloisa Helena, horrível

Entendo que a oportunidade de falar durante doze minutos no “Jornal Nacional” é uma oportunidade que se deve agarrar com unhas e dentes. Mas foram tantas as unhas e os dentes de Heloisa Helena, na sua entrevista de hoje, que o efeito termina sendo prejudicial à candidatura do PSOL –e de nada adianta, para compensar,  o irritante sistema da candidata de chamar os apresentadores da Globo de “minha flor”, “meu amor”, “meu querido”.

 

Heloisa Helena agiu como um rolo compressor, ignorando o máximo possível as perguntas de William Bonner e Fátima Bernardes. Uma palavra ou duas dos entrevistadores era solapada por gigantescas ondas de propaganda abstrata, com lugar para combate implacável ao narcotráfico, a lembranças da mãe costureira que sustentava a candidata na infância, à menção da Bíblia como lição de socialismo e a uma série de frases estranhas.

 

Por exemplo, aquela em que Heloisa Helena dizia que “sua estrutura físico-neurológica”, ou seu “arcabouço psico-físico”, não tenho como reproduzir exatamente, não iria ver realizada a maior declaração de amor à humanidade que é o socialismo. Quer dizer, talvez, que em outra encarnação haverá de presenciá-lo. Quanto ao que é o socialismo, se é que este é um tema eleitoral no atual estágio de desenvolvimento psiconeurológico da humanidade, naturalmente ela não disse.

 

Disse apenas ser a favor da “democratização da propriedade”, no que podemos estar de acordo, mas em seu discurso isso aparece apenas como uma fórmula para algo mais simples: distribuição de renda. Os exemplos que ela deu apontavam para a questão da desigualdade de renda, não para qualquer modelo de gestão democrática ou autônoma dos meios de produção. Naturalmente Heloisa Helena está às voltas com uma série de compromissos ideológicos e programáticos que não pode renegar, mas que foram tomados em momentos nos quais sua perspectiva eleitoral era muito mais reduzida do que é agora.

 

O resultado é conhecido, repetindo o antigo ensaboamento de Lula nos anos 80. Somos socialistas, mas não seguimos nenhum modelo, dentre os já experimentados –de resto, nenhum modelo já experimentado foi socialista. A senhora é contra a invasão de terras e de órgãos públicos? Clássica forma de encurralar candidatos de esquerda. Clássica resposta: sou contra jogarem paralelepípedos na cabeça de pessoas.

 

Então, seria o caso de perguntar, a senhora é a favor de invasões pacíficas ou de ocupações de terras e õrgãos públicos? Ela devia, uma vez que é sincera, dizer que sim. Prefere o velho sofisma: num governo como o meu, isso não acontecerá, porque estaremos atendendo antes a todas as reivindicações legítimas que originam esse tipo de movimento.

 

Pessoalmente, considero esse tipo de resposta detestável. Esperava de Heloísa Helena coragem para desagradar, mantendo o que sempre disse. O discurso eleitoral contamina de subterfúgios e eufemismos até a candidata mais autêntica desta eleição. Por que não assumir o risco de dizer aquilo que realmente pensa? De nada adianta, depois disso, tentar afogar sobre uma maré de palavrório as perguntas que naturalmente eram suscitadas pelas frases mais duvidosas e eufemísticas de seu discurso.

 

Para evitar perguntas difíceis –e nem tão difíceis assim—Heloísa Helena sobrepunha sua voz à dos entrevistadores. Mistura a idéia de ganhar no grito com um suposto jeito carinhoso, maternal (“o governo deverá acolher as reivindicações populares como uma mãe acolhe os filhos”) dos mais primários e infantilizadores. Que ela chame “Wiliams” e Fátima  de meu amor, é uma questão de mau gosto pessoal; que rebaixe o espectador a níveis piores dos que o da novela das seis, realmente é uma tristeza.

Escrito por Marcelo Coelho às 20h22

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obrigado por fumar

obrigado por fumar

Pode ser qualquer profissão: matemático, pistoleiro, professor primário, gladiador, traficante, repórter, jogador de pôquer... uma das coisas que me fascinam no cinema americano é o modo com que o protagonista da história sempre se mostra  inacreditavelmente bom naquilo que faz. A história não importa muito: de Matt Damon, em “Cartas na Mesa”, só me lembro que era o maior gênio que já apareceu diante de um pano verde em Las Vegas. Nicholas Cage podia ser repulsivo no papel de um comerciante de armas, mas seu virtuosismo ao negociar com ditadores era admirável.

 

Sempre é a história da pistola mais rápida do Oeste. Em  “Obrigado Por Fumar”, o personagem principal é relações públicas e lobista número 1 da indústria de cigarros. Nick Naylor é seu nome. Ele é capaz das mais inacreditáveis proezas na defesa do negócio tabagista. Num debate para a TV, está ao lado de médicos, militantes antifumo, e de um menino de 15 anos, que sofre de câncer. Com sorriso imperturbável e convicção estonteante, arranca aplausos da audiência e dá as mãos, em triunfo, para o menino doente.

 

Aaron Eckhart, no papel de Nick Naylor, está na medida certa entre o cansativo e o sedutor, entre o simpático e o infame. “Obrigado por Fumar” brinca o tempo inteiro com todo tipo de implausibilidade: tanto com os argumentos diabólicos de Naylor, quanto com as convenções do cinema hollywoodiano. Sim, Naylor tem um filho pré-adolescente, que o idolatra, e certos conflitos de consciência resultam disso. Sim, há uma espécie de grande duelo final entre pistoleiros (Nick, de um lado, e o senador antitabagista vivido pelo ótimo William H. Macy). Sim, uma surpreendente (surpreendente?) virada no destino há de impor lições a Nick. Mas vamos nos dando conta ao longo desta comédia leve e ácida, que nada é muito para valer.

 

O que vale é o ritmo dos diálogos, a precisão com que cada personagem entra em cena, e, naturalmente, as circunstâncias reais que inspiram o filme. Com um excelente estado de ânimos, o filme denuncia –mas este não é bem o termo -- a cultura do “spin”, que faz o preto virar branco, o branco virar preto. Não há amargura, ressentimento ou revolta em “Obrigado por Fumar”, quando o diretor e roteirista Jason Reitman mostra que com um bom profissional você defende o que quiser, e que não só de advogados na Justiça, mas de “spin doctors” na mídia, vive a criminalidade empresarial norte-americana. A intenção não é deixar ninguém indignado ao sair do cinema; mas com muita graça e bons truques, “Obrigado por Fumar” nos convida a ficar mais espertos por nossa própria conta.  O filme estréia dia 18 de agosto.   Site: http://microsites2.foxinternational.com/br/obrigadoporfumar/

Escrito por Marcelo Coelho às 15h42

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futuro das vanguardas

Antigamente, no começo do século 20, alguns artistas se reuniam, publicavam um manifesto, ganhavam um nome --cubistas, fauvistas, surrealistas-- e estava formado um movimento de vanguarda. Hoje, parece que alguém tem uma idéia original, única, não estando atrelado a nenhum movimento formalizado, até que se vai pesquisar na internet e há uma verdadeira comunidade de pessoas de todas as partes do mundo pesquisando na mesma direção. Em vez de "movimentos", surgem "comunidades", como se vê pelo site de fotos www.flickr.com, e provavelmente no www.youtube.com, quando se trata de videoarte. O "espaço público" único e integrado, onde um artista aparecia e todos os interessados em arte se escandalizavam, discutiam e aderiam, ramificou-se, parcelizou-se em "grupos de interesse", em microplatéias, comunidades quase que domésticas, ainda que globalizadas. Não se trata de uma "aldeia global", mas de "tribos globais".

Também na política, ocorre um fenômeno semelhante. O "esquecimento da política", a "irrelevância da política", tal como descrita por Chico de Oliveira (http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u80641.shtml), é antes um caso de substituição. A política que se fazia em torno do "universal" --uma ideologia ou outra concorrente, que seria válida para todos, e teria uma solução para todos os problemas-- vai sendo substituída por um sistema em que competem diferentes grupos de interesses em torno de questões específicas, e  se faz por meio de lobbies e grupos de identidade --dos gays aos fabricantes de cigarro, da "bancada da bala" aos funcionários da Varig--, e não mais através de partidos que buscariam organizar todas as reivindicações específicas em torno de uma proposta comum.

Escrito por Marcelo Coelho às 07h56

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demolition art

Ainda sobre as fotos de Lina Faria. No site flickr, há um grupo de fotógrafos dedicados justamente a tirr fotos de paredes de casas demolidas, com lindos efeitos: http://www.flickr.com/groups/demolitionart/pool/

Esta aqui é de alguém que assina desdibuix, e tem seus direitos de reprodução regulados pelo creative commons:

Escrito por Marcelo Coelho às 07h45

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mundo flickr

Deixei nas indicações de links o site que compartilha fotos digitais do mundo inteiro, agrupadas por todo tipo de tema, blog, etc. O "flickr" já tem seus subprodutos, como este www.metaatem.net/words , divertido para quem gosta de brincar na net. Você digita qualquer palavra, e o site reescreve-a, usando letras tiradas de fotografias anteriormente publicadas. Assim, "music" vira:

M
U
S - Eagle Rock Flowers - LSJ Furniture Gallery
I
C 
 
om

Escrito por Marcelo Coelho às 00h27

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voltaire de souza

Os perigos de uma liqüidação de shopping, no link para assinantes:

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0708200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 23h56

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Uma hora eles acertam

foto: Ary Vignoli- Folha Online

 

 

 

A vida de candidato não deve ser nada fácil. Geraldo Alckmin não pára de comer pastéis, bolinhos de bacalhau, o que puserem na frente dele; e quando não está num balcão de padaria, acaba tendo de participar de atividades para as quais não está muito preparado. Na “Folha” de hoje apareceu sua foto jogando malha em Cidade Tiradentes.

 

Aparentemente, o jogo não tem segredos. Um disco de metal deve ser arremessado contra uma estaca de madeira. Mas tudo pode se transformar num desafio de estadista –ou, pelo menos, numa situação difícil. Ele tentou uma, duas, três vezes, e o disco rodopiava, sem atingir o alvo. O que fazer, então? Desistir? Complicado, porque Alckmin criou em torno de si a imagem de político que não desiste. Ele parou um pouco, diz a reportagem de Lilian Christofoletti, e fez o que todo governante sensato deve fazer nessas horas: reuniu-se com a assessoria, isto é, com o pessoal do clube de malha. Acabou acertando na 16a tentativa. O que criou dois novos problemas.

 

Como mostrar-se persistente sem parecer chato? De algum modo, Geraldo Alckmin tem conseguido isso: não é propriamente um Maluf nesse aspecto, talvez porque fale pouco, e sua insistência venha acompanhada de modos suaves. Não afasta, entretanto, a idéia do “mico”: os momentos de empolgação necessários a toda campanha eleitoral são mais raros, no seu caso, do que os do embaraço, da vontade de estar em outro lugar.

 

O segundo problema foi: como acertar a maldita estaca? Aí, uma certa tolerância com a ilegalidade foi a solução. Alckmin foi-se aproximando cada vez mais do objetivo, que inicialmente distava 50 m do local do arremesso, e só acertou quando, de passo em passo, ficou apenas a dois metros da tal estaca.

 

Não deixa de ser uma aula de política: regras estão aí para serem respeitadas, mas ninguém precisa ser caxias. O governante sempre tenta avançar na linha; só pára se alguém se o impedir. No caso, ninguém estava interessado nisso. Fico pensando no que faria Suplicy em seu lugar. Ou Heloísa Helena.

 

Mas a candidata do PSOL estava em outra parte: uma vaquejada no sertão alagoano, que permitiu ao público um certo descanso visual. Pela TV, foi possível vê-la de gibão e chapéu de couro, o que é um alívio depois de tantos meses seguidos de jeans e camiseta branca.

 

A campanha eleitoral às vezes me parece um daqueles brinquedos de boneca feitos de cartolina, em que quando se puxa uma lingüeta lateral diferentes roupas vão surgindo debaixo do mesmo rosto. Ou, se não quisermos ser tão arcaicos, as coleções de Barbie e de Ken. Barbie no cabeleireiro, Ken no deserto africano, Barbie astronauta, Ken com a maleta preta. 

 

O melhor, em vez de tantas mudanças de situação e figurino, seria que os candidatos adotassem coletes à prova de balas. Circulam sem cessar pelos bairros das principais metrópoles brasileiras, e não só nas periferias e morros o risco de bala perdida é considerável.

 

Na terceira onda de ataques do PCC este ano em São Paulo, dois postos de gasolina perto da minha rua foram atingidos. Já está virando rotina, e como tudo foi durante a madrugada, a interrupção de linhas de ônibus na cidade parece ter sido o maior sinal de pavor. Em todo caso, é como o jogo de malha do candidato Alckmin: o PCC vai jogando suas bombas, uma tentativa após a outra, aproximando-se cada vez mais do alvo, a saber, o controle completo do país.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h15

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voltaire de souza

Entre a televisão e o bingo, numa tarde de frio, Dona Virgínia terá de escolher. Link para assinantes do uol:

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0608200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 00h46

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Doris Salcedo

Continuando a série de lugares murados, janelas vedadas e clausuras em geral, sigo a sugestão de uma leitora e publico um exemplo do trabalho da colombiana Dorís Salcedo, que expôs na 24a. Bienal de São Paulo. Aqui, em vez de casas, móveis são fechados com cimento; ainda estamos "dentro de casa", num lugar nosso, mas algo "de dentro" está inacessível; alguns psicanalistas falam do "encriptamento psíquico", quando nosso inconsciente não está apenas funcionando como um centro cego de energia e memória com o qual nos comunicamos, mas guarda um lugar emparedado --na verdade, é todo objeto de desejo subitamente perdido, do qual não pudemos dar conta pelo trabalho do luto, que se preserva nessa cripta, indigerido, mas virtualmente capaz de ressurgências apavorantes. É o mundo dos vampiros dentro da alma,  sugerem Abrahms e Torók em "L´Écorce et le Noyau". Verdade ou não neste caso, os móveis murados de Doris Salcedo, ao contrário das "almas domésticas" de Whiteread (ver post anterior) e das casas que nos excluem. de Alexander Apóstol, trazem o luto bem perto do espectador.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h38

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Lições de FHC (2)

No seu artigo para o Estado de hoje, Fernando Henrique poderia  poderia apontar várias razões para não ter feito a reforma política em seu governo. Diz que havia questões mais urgentes na economia e na administração, esquecendo-se de mencionar as energias que consumiu na emenda que lhe garantisse a reeleição.

 

Poderia, em todo caso, reconhecer que essa reforma não houve, e continuar seu raciocínio. Mas o que se segue é outra pirueta: depois de dizer que não houve condições de propor a reforma, FHC diz que  apoiou, sim, medidas de reforma política. A mais importante das quais, lembra ele, foi... a introdução do voto eletrônico! Nessa linha, Lula poderia dizer que reformou a aviação brasileira ao aposentar o Sucatão. Não faltam modernizadores em nosso Estado.

 

Já na metade do artigo, FHC aborda a questão da candente da moralidade pública, da “ladroagem que ronda o Congresso e o governo”.

Ronda? O termo é prudente. Mas o que chama atenção é a estrutura lógica do trecho seguinte.

 

É contra isso que a população se revolta e é disso que deriva o mal estar corrente no país, a despeito de os indicadores sociais e econômicos mostrarem algum avanço. É por isso que a reforma política se transformou em precondição para o êxito de quaisquer políticas públicas. A restauração da seriedade das instituições e o respeito à ética se tornaram necessários para o próprio crescimento da economia.

 

Enunciam-se três banalidades num raciocínio desconexo. Primeiro, há um mal-estar em função da ladroagem. Por causa desse mal-estar, diz FHC, a reforma política é precondição da eficiência das políticas públicas. Conclui-se que o respeito à ética é necessário para o crescimento econômico.

 

No plano das sugestões concretas, há a defesa do voto distrital, que para FHC nem precisa ser misto. “Para que complicar a compreensão do eleitor?” O povo brasileiro agradece, mas a simplicidade da fórmula defendida por FHC teria o efeito de trazer grandes distorções na representatividade do eleitorado. No voto distrital puro, se um partido tivesse 49% dos votos num distrito, e perdesse de outro com 51% dos votos, não elegeria ninguém nesse distrito: o resultado seria exatamente o mesmo se tivesse 2% contra 98% de seu concorrente. Para evitar tais distorções é que existe o sistema misto, que reequilibraria a composição do Legislativo com representantes “extra-distritais”, eleitos proporcionalmente. Mas para que complicar? Importa posar de estadista. E ainda, num romântico floreio final, permitir-se dizer que “nâo se faz boa política sem sonhar”. O sonho seria a introdução do parlamentarismo. Prefiro chamar de conversa para boi dormir.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h57

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Lições de FHC

Não é uma confissão fácil de fazer, mas acho que meu ex-presidente favorito é o José Sarney. Leio o que ele escreve às sextas-feiras na Folha, e não me sinto agredido na inteligência; ele não posa de dono da verdade, e passa pelo fato de ter sido chefe de governo com a elegância de um anfitrião à moda antiga, que cuida de entreter seus convidados sem ligar se está pisando em alguma sujeira debaixo do tapete.

 

Com Fernando Henrique Cardoso é outra história. Envolve-se no bate-boca político, sem abandonar o tom professoral. Quando ataca seu sucessor, é sempre deselegante e gabola ao mesmo tempo; faz pose de magistrado, mas suas sentenças, quando não banais, servem apenas como tentativa de auto-absolvição.

 

O artigo dele hoje no Estado, propondo um “Plano Real político”, é dessas peças de antologia. FHC diz que é preciso fazer com as instituições políticas o que se fez, na década de 90, com as econômicas. Logo no segundo parágrafo, uma pirueta de artista:

 

Sei que os críticos perguntarão: vocês que estiveram no governo, por que não fizeram isso?

 

Segue-se uma frase virtuosística, que tem de ser analisada aos poucos.

 

Embora o não tê-lo feito não invalide a premência de atuar agora, já respondi inúmeras vezes que (...)

 

Calma, que já ficou bem confuso. Se uma reforma necessária não foi feita, é óbvio que com o tempo sua necessidade se torna cada vez mais premente sua necessidade. Nada invalidaria nada, ao contrário do que sugere FHC. Quando os críticos lembram que FHC deixou de fazer essa reforma, não estão dizendo que ela é desnecessária. Dizem apenas que FHC não tem muita moral para exigir essa reforma, porque não a fez.

 

E por que não fez? Primeira razão apontada por FHC: havia outras reformas mais urgentes, na área da economia e da reorganização do Estado. Certo.

 

O incrível é que no seu artigo FHC esquece uma outra coisa, muito urgente na época, que foi a emenda de sua reeleição. Foi isso, e não a reorganização da economia, que tomou o espaço de uma reforma política mais ampla. As duas coisas poderiam ter sido feitas; mas FHC preferiu apenas cuidar do seu mandato.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h55

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Psicólogos na sala de interrogatório

Que princípios éticos devem ser seguidos pelos psicólogos, quando participam de interrogatórios policiais de pessoas suspeitas de envolvimento com terrorismo e outras ameaças à segurança nacional americana?

 

A American Psychological Association andou às voltas com esse difícil dilema. Mais e mais o auxílio técnico de psicólogos se mostra requisitado nessas atividades, não digo de tortura, claro, mas de obtenção de informações relevantes junto a indivíduos que não as querem fornecer; a entidade dos psicólogos americanos, com 150 mil membros, viu-se obrigada a estudar esse assunto, reiterando o compromisso da entidade com os direitos humanos e com a condenação da tortura.

 

O psicólogo deve estar atento, diz o comitê encarregado de discutir o assunto, a quaisquer situações que envolvam o constrangimento, a inibição ou o desconforto do interrogado; seu conhecimento científico deve ser útil, ademais, para indicar que o desconhecimento de aspectos particulares da cultura e da etnicidade do interrogado podem levar a mal-entendidos por parte das forças de segurança.

 

Além disso, “os psicólogos devem encorajar, e engajar-se em, pesquisas mais aprofundadas para avaliar e incrementar a eficácia e a eficiência da aplicação da ciência psicológica a questões, preocupações e operações relevantes para a segurança nacional” A íntegra do documento, publicado em junho de 2005, está disponível em http://www.apa.org/releases/PENSTaskForceReportFinal.pdf

Discussões em torno desse documento andam intensas nas páginas da revista eletrônica Salon (www.salon.com). Ver, por exemplo, este artigo: http://www.salon.com/news/feature/2006/08/04/apa/

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h25

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Rachel Whiteread

Ainda na linha das casas fechadas, inabordáveis, há o exemplo famoso da britânica Rachel Whiteread. Ao contrário de Apostol e Lina Faria (ver posts anteriores), não se trata a meu ver de uma arte melancólica, apocalíptica, de algum modo evocativa da morte e da fantasmagoria. Aqui, o "negativo" se torna positivo, o "espaço em branco", inexistente, ocupado pelo ar, é o que ganha solidez e presença. Representa-se, rigorosamente, o espaço que não vemos no cotidiano. É a "alma" de uma casa que ganha corpo, como se paredes e muros fossem apenas a casca de um ovo que se rompeu. Nas fotos anteriores, de Lina Faria e Alexander Apostol, as casas se fecharam para nós, guardaram seu segredo. Aqui, se mostram desprotegidas, respirando pela primeira vez.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h41

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Alexander Apostol

 

Num post anterior, mostrei uma foto de Lina Faria: muros e paredes desfeitos de casas em reforma, janelas muradas, portas sem saída. Aqui vâo duas fotos do venezuelano Alexander Apostol, que sem apostar na variedade de cores, parece compartilhar das mesmas preocupações, da mesma simbologia. Casas ganham a opacidade de corpos, excluem qualquer visitante; poderíamos dizer que se tornam esculturas de casas. Talvez assim, quando morrermos, iremos ver as casas que agora habitamos.

Apostol esteve na 25a. Bienal de São Paulo, em 2002.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h23

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Gozolândia

Gozolândia

 

Corrupção e cinismo na política brasileira são os temas de “Gozolândia”, espetáculo de teatro de rua que estréia hoje um ciclo de exibições nos principais parques públicos de São Paulo. Hoje e amanhã, às 16h, a peça será apresentada no Parque do Ibirapuera. A programação completa está em www.ivo60.com.br

 

É teatro popular, feito com muito pique, graça, música e improvisação. Não há menções específicas a escândalos e políticos mais recentes –quando vi “Gozolândia”, no ano passado, uma espécie de Marta Suplicy arquetípica contracenava com um malufo-tucano engomado, e com uma espécie de pastor-Enéas, mas para ser sincero não me lembro bem dos “candidatos” que disputavam o voto da platéia. A função catártica e carnavalesca do espetáculo parece varrer, com alegria, as expectativas que se tenha de análise mais precisa da conjuntura.

 

Mais deboche que paródia, e mais arquétipo que caricatura, o espetáculo começa com Cabral chegando ao Brasil, e termina num debate entre candidatos levado com grande animação. A peça foi inicialmente apresentada nos CEUs, no ano passado, atraindo muitas crianças, como se pode ver pela foto. O talento e o cinismo dos atores, a pura felicidade de atuar perto do público, de fazer teatro que não seja sinônimo de chatice, empostamento e pretensão, contagiam o espectador. E que a política vá plantar batata.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h01

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Galinhas aéreas

Galinhas aéreas

Meninos pequenos, pela minha experiência, gostam de morcegos; meninos e meninas, cada qual a seu modo, ficam sempre intrigados quando ovos e galinhas estão em pauta. O desaparecimento de um ovo, e as responsabilidades de morcegos e outros bichos nessa história, garantem o interesse de “Galinhas aéreas”, peça infantil em cartaz no Teatro Cultura Inglesa Pinheiros, sábados e domingos às 16h. Duas atrizes-acrobatas-comediantes, disfarçadas de todo tipo de ave, combinam a representação teatral com momentos de espetáculo circense, fazendo com que as galinhas de fato voem pelo palco, conforme a promessa do título. “Galinhas Aéreas” significa, também, “galinhas distraídas”, e a surpresa final da trama, elucidando a relação das personagens com ovos, ninhos e bebês, tem tudo para ser ao mesmo tempo apaziguadora e estimulante para crianças pequenas. Pessoalmente, fico um pouco aflito com números de equilibrismo e acrobacia, mas as atrizes parecem crianças totalmente à vontade com  suas brincadeiras e fantasias em cena. 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h21

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Inéditos de Elizabeth Bishop

Inéditos de Elizabeth Bishop

Acaba de ser publicado em Nova York um livro com mais de 350 páginas com todos os inéditos de Elizabeth Bishop, incluindo trinta ou quarenta esboços de poemas escritos no Brasil. Ela viveu por mais de vinte anos em nosso país, de 1951 até o começo da década de 70.

 

Os trabalhos agora revelados em “Edgar Allan Poe & the Jukebox” (Farrar, Straus and Giroux) raramente podem ser considerados poemas completos, e muitas vezes funcionam como registro de observações cotidianas, com variantes de possíveis versos à margem do texto principal. De qualquer modo, há muitas curiosidades para o leitor brasileiro, como as estrofes dedicadas a Carlos Lacerda por ocasião da morte de Getúlio Vargas. Têm por título “Suicídio de um Ditador Moderado”, e dizem, por exemplo, que

 

Os jornais já tinham sido vendidos; as bancas/já estavam fechadas. Mas de qualquer modo, durante a noite/as manchetes se escreveram sozinhas (...) Este é um dia que está bonito também,/e quente e calmo. Às sete da manhã eu vi/os cachorros sendo levados para passear pela praia famosa/como sempre, numa aurora de brilho cinza e verde,/deixando a marca de suas patas na areia úmida./(...)Às oito, dois meninos empinavam pipas.

 

Nada além de um esboço, talvez, mas pode-se intuir a sugestão de uma indiferença natural diante da história –mesmo num evento incomparavelmente traumático como a morte de Getúlio. A beleza esmagadora da paisagem carioca teria o efeito de acentuar a desproporção brasileira entre História e Natureza. De resto, para quem nasceu num país em que vários presidentes foram assassinados, a idéia de um presidente suicida deve ter um componente a mais de estranheza; é nesse sentido que “as manchetes se escreveram por si mesmas”, como que sem intervenção humana.

Dedicando o poema a Carlos Lacerda, principal carrasco político de Vargas, Elizabeth Bishop parece investir sobretudo numa idéia de purificação. Cumpriria, em tese, celebrar o fim de um governo corrupto e elogiar a atividade de denúncia jornalística; numa estrofe anterior ela fala de uma “verdade” que finalmente aparecerá, como o conteúdo de um cinzeiro sujo. Ao mesmo tempo, o quadro da praia de Copacabana ao amanhecer mistura imagens de pureza cotidiana com uma sensação de neutralidade, acima do mundo das responsabilidades políticas reais. “Parabéns, o ditador está morto, mas não se sinta um assassino em função disso”: se esta interpretação é correta, o poema estava enveredando em caminhos emocionais e éticos de tal modo tortuosos que não admira ter sido abandonado.

 

Transcrevo, de qualquer modo, o original em inglês.

 

This is a day when truths will out, perhaps;/leak from the dangling telephone ear-phones/sapping the festooned switchboards’ strength;/fall from the windows, blow from off the sills,/ --the vague, slight unremarkable contents/of emptying ash-trays; rub off on our fingers/like ink from the un-proof-read newspapers,/crocking the way the unfocused photographs/of crooked faces do that soil our coats,/our tropical-weight coats, like slapped-at moths.// Today’s a day when those who work/are idling. Those who played must work/and hurry, too, to get it done,/with little dignity or none./The newspapers are sold; the kiosk shutters/crash down. But anyway, in the night,/The headlines wrote themselves, see, on the streets/and sidewalks everywhere;/a sediment’s splashed/ even to the first floors of apartment houses.//This is a day that’s beautiful as well,/and warm and clear. At seven o’ clock I saw/ the dogs being walked along the famous beach/as usual, in a shiny gray-green dawn,/leaving their paw prints draining in the wet./The line of breakers was steady and the pinkish,/segmented rainbow steadily hung above it./ At eight two little boys were flying kites.

 

   

Escrito por Marcelo Coelho às 23h59

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Nelson Freire

A revista Diapason, não só a brasileira mas também na edição francesa, exulta de elogios a cada novo CD de Nelson Freire. Leio agora na britânica The Gramophon o seguinte comentário sobre a gravação dos dois concertos de Brahms, com Nelson Freire e Riccardo Chailly regendo a Gewandhaus de Leipzig:

Este é o álbum dos concertos de Brahms que estávamos esperando há longo tempo. Nelson Freire e Riccardo Chailly oferecem interpretações que mesclam triunfalmente a percepção sutil com a abordagem direta, a força e o lirismo, e um virtuosismo incandescente, que deixa poucos detalhes despercebidos, e ao mesmo tempo sempre leva em conta o quadro mais amplo da obra. ... Assim como os ciclos de George Szell e da Orquestra de Cleveland com Serkin e Fleischer, e o de Gilels com Jochum, foram marcos no passado, estas interpretações generosas no temperamento, espantosamente executadas e soberbamente gravadas ficarão como referências para as gerações futuras.

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h28

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João Alexandre Barbosa (1937-2006)

 

 

Crítico literário e professor na USP, João Alexandre Barbosa morreu ontem, aos 69 anos. Conheci-o superficialmente, numa mesa-redonda na Folha, encontrando-o também em alguns lançamentos literários e andanças prosaicas aqui pelo bairro de Perdizes: correio, supermercado...

 

“Superficialmente” é um jeito horrível de dizer, porque João Alexandre era uma daquelas personalidades que se dão por inteiro, e num simples aperto de mão, num simples olhar, ele transmitia um afeto imenso; coisa não muito comum em homens de letras, ele parecia viver  consciente que os homens são tão ou mais importantes quanto as letras. Na mesa-redonda de que participei, debatia-se um livro do jovem crítico gaúcho Marcelo Backes, uma antologia de escritos polêmicos da literatura alemã. Backes defendia, com vigor, a idéia de uma crítica valorativa, que saiba espinafrar e elogiar, sem acomodações corporativas e cupinchagens.

 

“Pois bem”, dizia João Alexandre, se se trata de “meter o pau”, vamos lá. E com um ardor quase apavorante, criticou de cabo a rabo o livro de Backes, que a meu ver não merecia tanta raiva. Claro que Backes não gostou. Mas dava para perceber –e esse era um traço precioso na personalidade de João Alexandre—que sua raiva, sua violência até, não tinham veneno, e nem mesmo muita justificação; provinham da mesma fonte daquele seu afeto, também injustificado, eu acho, ou gratuito, que seu olhar dedicava a qualquer pessoa.

 

João Alexandre era, assim, uma fonte de calor; pelo menos era assim que eu o via, de mãos dadas com uma netinha, pelas ruas de Perdizes, ou num acontecimento qualquer da vida literária.

 

Vida literária que, como crítico, ele sempre acompanhou de perto. Manteve uma coluna fixa na revista “Cult”, cuidando de divulgar tanto os lançamentos recentes quanto os nomes de seus clássicos de cabeceira. Dostoiévski, Machado de Assis, e especialmente Valéry e João Cabral, estavam sempre por perto, assim como Haroldo de Campos e Sebastião Uchoa Leite; mas a tradição crítica brasileira mais antiga, de Silvio Romero e José Verissimo a Augusto Meyer, eram referências de que ele não abria mão. De certo modo, misturavam-se em João Alexandre o gosto pelas correntes “frias” da literatura (concretismo, Joâo Cabral) e o interesse pelas figuras mais acaloradas e explosivas da crítica, como Silvio Romero.

 

Ele escreveu, para a Publifolha, o volume dedicado a João Cabral na coleção “Folha Explica”; trinta anos antes, em 1975, seu estudo sobre o poeta (“A Imitação da Forma”, ed. Duas Cidades) já era uma referência indispensável. Várias coletâneas de ensaios de João Alexandre se encontram nas livrarias: “A Leitura do Intervalo”, (que resenhei com certa secura para a Folha, há anos), “A Biblioteca Imaginária”, “Mistérios do Dicionário”. São livros isentos de jargão, amigos do leitor, da obra e da análise paciente; seu olhar equilibrado, desconfiando do fogo-de-artifício teórico, como se quisesse proteger o texto, cuidar bem dele, é o mesmo olhar, cheio de afeto e compreensão, que eu encontrava em seu rosto.

 

Link para texto de Manuel da Costa Pinto sobre João Alexandre: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0408200619.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 10h27

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Elizabeth Schwarzkopf

A soprano Elizabeth Schwarzkopf morreu hoje, aos 90 anos, mas suas maravilhosas gravações das décadas de 40 e 50 cantando Schubert, Hugo Wolf, Richard Strauss, Mozart e Bach são relativamente fáceis de encontrar. (Há trechinhos para ouvir em http://www.opuscds.com/track/146736) Há os admiradores fanáticos de Maria Callas --um outro tipo de voz e de música--, entre os quais não me incluo; mas há também os fãs de Schwarzkopf, a que nem mesmo sua adesão ao nazismo (a exemplo de Kempff, Karajan e Furtwängler) é capaz de afastar. É que a pureza da voz, a graça no modo de desenhar as melodias, são incomparáveis: mesmo as canções mais difíceis de Hugo Wolf, onde o texto e o piano tornam a parte da voz às vezes dura de seguir, ficam feito água da fonte quando ela canta. Mais tarde Elizabeth Schwarzkopf adotou a cidadania britânica e, no que talvez se trate de um indulto pelo passado, ganhou o título de "Dame", o equivalente feminino de "sir". O nazismo é imperdoável. Mas que não seja mais um de seus malefícios o de impedir-nos de ouvir essa cantora.

  

Escrito por Marcelo Coelho às 16h24

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voltaire de souza

Link para "Tempo de bonés", a coluna de hoje do Agora: http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0308200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 15h55

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rapapé jurídico a Lula

Episódio inócuo, mas ainda assim constrangedor, foi a entrega da "Carta Pela Valorização das Comissões Parlamentares de Inquérito" ao presidente Lula. Por encomenda do Planalto, onze juristas elaboraram um documento curto e melífluo, que ficou entre a obviedade, a prudência e o desastre. Claro que o governo não anda contente com as CPIs. Pode-se imaginar o que passa na cabeça de algum assessor: "tudo isso é um absurdo! é ilegítimo! estão arrastando o nome de pessoas honradas (Zé Dirceu, Palocci, João Paulo) na lama! E a gente não pode fazer nada??" Mais raciocínios. "Até o STF já se pronunciou, pô. Como é que fazem uma CPI dos Bingos em que não há nada de bingo sendo discutido ali? É inconstitucional."

Certo, mas se o Executivo tomasse iniciativas mais fortes do que as que tomou (e não foram poucas) para melar o jogo das CPIs, seu comportamento seria considerado autoritário. Resove-se então fazer com que "a sociedade" (vide post anterior) se manifeste. Convida-se um grupo de juristas representativos, para que seja de algum modo fortalecido o debate e as críticas sobre o sistema, tão incômodo, das atuais CPIs.

Os juristas, que não são autoritários, mas que não querem desagradar quem os convidou, e afinal concordam com quem os convidou, e pareceres são assim mesmo, produzem um documento cauteloso. Muita coisa errada na CPI, claro. Mas comecemos ressaltando a importância desse instituto parlamentar, fazemos um histórico breve do negócio, mostramos que a democracia, o Congresso, etc. etc. Daí, as críticas --aliás plenamente respaldadas pelo que diz a nossa constituição, ora viva. E no fim, umas sugestões, que o presidente vai gostar de ouvir, e para isso mesmo é que nos tinha chamado.

Na parte das sugestões, ficou difícil evitar o desastre. Porque o objetivo é legitimar "em tese" uma proposta PARTINDO DO PODER EXECUTIVO para limitar, ou melhor, aperfeiçoar, desculpem o lapso, as CPIs. Politicamente, é um erro: nunca, a rigor, poderia partir do executivo uma proposta mexendo no funcionamento do Legislativo. Por que não fazer isso com a mão do gato de uma vez por todas, e encarregar alguma liderança petista de entrar em contato com esses juristas ou outros, e então propor uma emenda constitucional? Os signatários da "Carta" perceberam a encrenca, e escreveram que o Executivo "poderá tomar a iniciativa" dessa emenda, "hélas!", mas lembrando, o que é óbvio juridicamente, que devem ser "respeitadas as competências constitucionais dos Poderes da República", etc. Fizeram o serviço para atender o interesse presidencial, sem deixar de ter cuidado, mas sem deixar de revelar, involuntariamente, a afronta que isso representa ao Legislativo do ponto de vista político.

Seria uma bobagem palaciana, um rapapé jurídico, uma coreografia de salão, não fosse coisa pior: uma violência política sem ninguém capaz de se responsabilizar integralmente por ela. 

íntegra do documento em <http://www.planalto.gov.br/sri/Boletim/22-06-06/CPI%20-%20final.doc>

Escrito por Marcelo Coelho às 09h29

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Lula, debates, constituinte

Em entrevista à apresentadora Ana Paula Padrão, Lula demonstra pouco entusiasmo em participar de debates entre os candidatos do primeiro turno na TV. Eis a transcrição de sua fala no "Folha On Line":

"Vai depender de como vai ser o debate. O presidente da República é uma instituição. Quais as regras? As pessoas agem com uma certa insanidade. Algumas perguntas nem são pertinentes a uma campanha eleitoral. Se tem coisa que eu gosto é ser provocado em debate. Mas não estou lá como Lula candidato, preciso preservar a instituição".

Mas é claro que ele está lá como candidato. Se quisesse preservar completamente a instituição presidencial, o certo seria não se expor à própria campanha pela reeleição, que evidentemente traz ações "de certa insanidade" por parte dos adversários. Só não é mais ridículo porque Fernando Henrique fez o mesmo quando era presidente.

Na mesma entrevista a Ana Paula Padrão, Lula tratou do tema da possível convocação de uma Assembléia Constituinte para votar a reforma política. O assunto pipocou ao longo do dia na internet, mas tem por enquanto uma forte aura de factóide.

A idéia teria surgido num encontro entre Lula e juristas, sem que haja evidência de ter sido Lula o autor da sugestão. Pode ser daquelas coisas com que se concorda por simples questão de cortesia com os convidados; a tese pode fazer até sentido, uma vez que deputados e senadores, mesmo recém-eleitos, resistirão a mexer com os privilégios que acabaram de conquistar. Mas é claro que se Lula encampa a proposta de uma Constituinte, o rótulo de "chavismo" vai pegar. Por isso Lula afirma que só concordaria com a idéia de uma Constituinte se "a sociedade" quiser convocá-la. Certamente, é um jeito de apoiar desapoiando, e de desapoiar apoiando.

Governo e oposição terminam, desse modo, jogando na confusão, e com a falta de propostas e notícias da campanha surge, assim, uma polêmica que, a meu ver, não vai dar em nada.  

 Leia as declarações de Lula em http://eleicoes.uol.com.br/2006/campanha/ultnot/2006/08/02/ult3750u119.jhtm


Escrito por Marcelo Coelho às 23h37

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Só um adendo: a foto de Lina Faria ficou cortada do lado direito ao ser publicada no blog. Era mais simétrica, mas dá para ver que tipo de fantasmas a fotógrafa encontra à luz do dia.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h09

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As fotos de Lina Faria

A fotógrafa Lina Faria fez há tempos uma exposição mostrando as celas de um presídio feminino. "Pentimento" é o nome da sua nova série de trabalhos, com muros, portas e fachadas "desfeitas" pelo tempo ou no curso de alguma reforma ou demolição. Há várias fotos suas na revista Et Cetera/ Literatura e Arte número 8, que acaba de ser publicada pela Travessa dos Editores (http://www.travessadoseditores.com.br/index.php?tras=secao.php&area=11&idmodelo=1&id=1&outra=5#).

A revista vale a pena, com textos de Luiz Ruffato, João Carrascoza, poemas de Estrela Ruiz Leminski e ilustrações espetaculares por toda parte. 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h03

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quase um acidente

Junto com o psicanalista Bernardo Tanis, participei no sábado de um programa na TV Cultura, que vai ao ar em setembro, sobre a solidão. O tempo na TV é curtíssimo, e havia muita coisa a falar: da solidão "criativa", indispensável para os artistas, por exemplo, à solidão na velhice ou na adolescência; suas relações com drogas ou depressão. Acabei sem citar um poema do sueco Tomas Tranströmer http://www.kirjasto.sci.fi/trastt.htm, que li numa tradução para o inglês de Robin Robertson, publicada no TLS de 17 de março deste ano. Aqui vai em português.

Solidão

 

 

Quase morri aqui, numa noite de fevereiro.

Meu carro balançou, e foi derrapando de lado sobre o gelo,

rumo à pista oposta. O tráfego indistinto

veio com suas luzes em direção a mim.

 

Meu nome, minhas filhas, meu trabalho, tudo

escorregou rapidamente e fui deixado para trás, pequeno, cada vez menor,

longe, cada vez mais longe. Eu era um ninguém:

um menino no jardim da infância, de repente rodeado por estranhos.

 

Os faróis dos carros em sentido contrário

avançavam sobre mim enquanto eu lutava com a direção através de uma pátina

de terror, clara e escorregadia como clara de ovo.

Cada segundo crescia e crescia –abrindo espaço para mim—

estendendo-se enorme como as alas de um hospital.

 

Quase pensei que poderia descansar

e tomar fôlego

antes do acidente.

 

Então alguma coisa funcionou: um pouco de areia providencial

ou uma rajada de vento na hora certa. O carro

agarrou-se nisso, esterçando de volta pela pista.

Uma placa de sinalização surgiu e quebrou, com um estrondo nítido,

rodopiando para longe na escuridão.

 

E eu fiquei quieto. Recostei-me, arrumando o cinto de segurança,

e vi alguém caminhando incerto através da neve que girava

para ver o que tinha sobrado de mim.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h28

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artigo na Ilustrada

Escrevo hoje sobre o centenário de Mario Quintana, avaliando as qualidades e riscos da sua poesia. Para assinantes, no link: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0208200619.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 16h10

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voltaire de souza

De volta, depois das férias, no link (para assinantes do uol)  http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0208200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 16h07

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manhas e birras, o retorno

manhas e birras, o retorno

Chegou a vez de meu filho menor, de dois anos e pouco, entrar na famosa fase das manhas insuportáveis, da qual seu irmão, já com quatro, foi ejetado com sucesso há tempos (conforme já narrei neste blog). Depois de ter conseguido me livrar de meses ou anos de malcriações seguidas, naturalmente vi com tolerância mínima a nova fase de provações que se avizinhava.

 

No começo, essa fase do caçula mostrou-se pior do que a de seu irmão  mais velho (ou por uma questão de temperamento do menino, ou porque minha paciência, antes pouca, já se esgotara definitivamente). Atirar-se no chão, estapear os mais velhos, gritar pedindo coisas que ele próprio não sabia o que eram, tudo isso já estava no programa, e em parte tinha como motivos, pensei, a entrada na escolinha, a despedida da babá, a dificuldade em abandonar as fraldas (projeto emancipatório que foi adiado para depois das eleições), e, principalmente, a meu ver, a irritação que se deve ter quando se começa a aprender a falar e ninguém entende o que queremos dizer.

 

Seja como for, por mais legítimos que fossem esses motivos, ninguém em casa estava disposto a ser estapeado porque determinado biscoito de polvilho ou bolinho de morango era oferecido com pequena imperfeição de fábrica ou diferença de tamanho. Muito menos parece tolerável que uma empregada doméstica leve uma mordida no ombro capaz de transformar-se em verdadeira chaga de mártir renascentista caso não passasse por um cuidadoso tratamento de enfermagem.

 

O arsenal costumeiro de broncas, gritos, internações no quarto de dormir e supressões súbitas de privilégios teve efeito mínimo sobre a criança. Repetiu-se então, mais por esgotamento meu do que por espírito de planejamento pedagógico, a mesma estratégia que terminou dando certo, há tempos, no caso do meu filho mais velho. Não o acesso de fúria, mas um período longo de frieza e desinteresse paterno, operou a modificação no comportamento do menino.

 

Tinha havido não sei que birra monumental, ou agressão ao irmão maior, a que reagi com velocidade irada, carregando o infrator até o berço, fechando a porta com estrondo, e deixando-o lá por uns quinze minutos. O berreiro, do berço, não foi dos maiores. Busquei o menino, trouxe-o de volta à sala, e enquanto tomava café acompanhei seus esforços de reconciliação. Ele dançava, com graça irresistível, alternando piruetas e sapateados, para que eu sorrisse.

 

Mas resisti. O pequeno espetáculo durou uns cinco minutos, durante os quais não dirigi meu olhar ao pequeno artista. Com a voz carregada de tédio e sinceridade, só então comuniquei ao menino. “Quer saber? Não gostei. Não achei graça. Não quero ver.”

 

Foi o suficiente para que todo o remorso e todo o choro que o castigo não fora capaz de impor irrompessem dolorosamente da criança. Mantive-me imóvel. Ao longo de todo o dia, e um pouco ainda durante o dia seguinte, persisti –com muita força de vontade, devo dizer--, não na braveza, mas na antipatia, no desdém pelo meu filho.

 

As birras comigo absolutamente acabaram desde então; e diminuíram muitíssimo no que se refere às demais vítimas. Concluo que nenhum castigo cuja reparação seja imediata produz efeito duradouro; que a ameaça de uma separação prolongada, de um “estado de desgraça” continuado, invadindo as atividades do cotidiano, é que se torna capaz de fazer maturar na criança uma dúvida interna quanto ao seu próprio comportamento. Elas vivem no instantâneo: esquecem a punição e seu motivo, repetindo-os. A temporalidade da reação, a meu ver, é o que pode instituir um novo padrão, uma nova rotina no relacionamento: e mais depressa do que eu pensava.

 

Ou talvez tudo simplesmente tenha sido fruto de um esgotamento mútuo; mesmo assim, não teria mudado, acho, tão repentinamente.

Não sei se nada disso é testável ou comprovável pela experiência de outras crianças e outros pais, mas vejo que deu certo duas vezes comigo.  

Escrito por Marcelo Coelho às 21h44

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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