O Shakespeare de Borghi

Acho que nunca vi Renato Borghi tão bem num papel como no de “Timão de Atenas”, peça de Shakespeare em cartaz no teatro do Sesi. De modo muito brechtiano, ele nunca inspira piedade nem simpatia, seja quando está no auge da glória, na primeira parte do espetáculo, seja quando se lamenta na desgraça, durante a segunda parte. Nos dois momentos sabemos que Timão está errado, e seu pequeno corpo, seus olhos piscantes de engano, seu leve deboche não caem nunca no comportamento de certa vulgaridade, algo deslocada para o papel, que me lembro de ter visto nas montagens de “Édipo Rei” e “Galileu Galilei”, vários anos atrás.
Timão de Atenas é um potentado riquíssimo na primeira parte da peça, cercado de bajuladores, incapaz de perceber a falsidade do mundo, embora seja advertido o tempo todo pelo radical Apemanto de Mauricio Paroni. Em vários momentos Paroni assume, de sua cadeira de rodas, o centro do espetáculo, e é ele quem avisa a platéia de que haverá um intervalo. O papel de dizer a verdade a Timão de Atenas implica uma avalanche de xingamentos, a que a voz rouca e o sotaque indefinível de Paroni dão sabor popular, desestabilizador. Na noite da pré-estréia, houve problemas com o som, principalmente na primeira parte. O bom conjunto musical, encarregado de executar a trilha especialmente composta para o espetáculo, sobrepôs-se aos atores.
De qualquer modo, a peça de Shakespeare se estende demasiado em mostrar uma situação clara desde o início para os espectadores: Timão pensa que tem amigos, gasta dinheiro com presentes, e conhecerá rapidamente a desgraça. Depois do intervalo é que a peça ganha em profundidade e mesmo em poesia. Shakespeare parece dizer que, diante de uma atitude errada, o erro inverso não é necessariamente verdadeiro.
Vivendo como eremita, Timão agora odeia os homens, não vê em ninguém os sinais do amor e da sinceridade. Cabe a Apemanto discutir com ele mais uma vez, e Mauricio Paroni passa a um tom de voz coloquial e claro; só que agora o espetáculo está inteiro a cargo da amargura de Renato Borghi, uma amargura que nunca atinge o melodrama (como talvez o texto de Shakespeare sugerisse), mas é sempre irônica e simpática, à medida que vão aparecendo os antigos comensais de seus banquetes.
Timão de Atenas, nessa segunda parte, é uma espécie de Jó, importunado pelos amigos, mas um Jó crítico, espantando-os como moscas para longe de sua dura dieta de raízes. Como peça, “Timão de Atenas” carece de um conflito dramático real. Funciona sobretudo como ocasião para grandes tiradas retóricas, a que a tradução de Vadim Nikitin, até onde posso ver, dá contornos atuais e eficazes. A platéia vibra, e imagino que quanto mais popular ela for (o espetáculo no Sesi é gratuito na maior parte dos dias), vibrará mais ainda. Nada melhor do que ver alguém amaldiçoar o mundo injusto e a humanidade; nada melhor do que ver a desgraça ridícula de um antigo poderoso.
O papel de equilíbrio entre os dois extremos da peça cabe a Alcibíades, um guerreiro que conhece a fraqueza dos homens, mas não abandona o seu convívio. Está, de resto, bem acompanhado por duas prostitutas, uma das quais sexy o bastante para levar ao arrependimento mais de um eremita. Ariel Borghi, no papel de Alcibíades, tem uma bela figura e uma bela voz, mas sua contenção gestual e o rosto inexpressivo retiram a função pedagógica, de apelo ao meio-termo, que pudesse ter.
No Brasil contemporâneo, não há lugar para conciliações: passa-se da ilusão completa ao desencanto absoluto. “Timão de Atenas” encena esse drama, sem meios-termos, e provavelmente será graças a isso que encontrará sucesso. Mas, com Renato Borghi, esse drama não é tão dramático assim –e o espetáculo ganha com isso em complexidade e beleza.
Escrito por Marcelo Coelho às 22h56
Recebi há tempos o livro "O Passeio do Duque a Cavalo e outros poemas", de Luiz Carlos de Moura Azevedo (editora Scortecci). Lamento não ter lido o livro antes. Moura Azevedo tem paisagens muito paulistas, uma capacidade descritiva invulgar, e sabe, como raros, "não pontuar" um poema. Os dois que reproduzo aqui não tratam de cenas urbanas, mas têm um humor comedido, muito agudo e hábil em deixar o leitor suspenso pelas palavras:
lettera 22
saudades da pequena olivetti portátil/ apoiada no colo/como clarice
saudades de escrever direto e de frente/face a face com o inimigo/o barulho das teclas acordava os vizinhos/a tinta manchava os dedos/ as teclas emperradas sugavam sangue
saudades da pequena olivetti portátil/ pedindo colo/ como criança
os sábados passados
há muitos sábados atrás/nos anos de celi campelo/vendiam-se sofás-camas a prestação/ as praias eram desertas e inacessíveis
há muitos sábados atrás/ quando uma viagem era uma viagem/compravam-se livros ainda virgens/e a lâmina da adaga estalava/ ao abrir cada página do romance
há muitos e muitos sábados atrás/quando o passeio era uma aventura/éramos felizes e ninguém percebia/seu vestido de bolero e meus sapatos bicolores/o clube de campo os anjinhos de bochechas/atrás do campo de golfe uns matinhos as formigas/ as salsichas de mentira as bolachas com manteiga/éramos felizes como ursos de pelúcia
há muitos sábados atrás/ íamos ao aeroporto só para tomar café/há muitos e muitos sábados atrás/o cinema oásis era um teto de ventiladores/os anéis de saturno nossos dropes salva-vidas/há tantos e tantos sábados atrás/quando celi campelo era uma menina de saia rodada/nem eu nem você havíamos nascido
Escrito por Marcelo Coelho às 19h01
Por razões óbvias, espero que não. Mas Josias de Souza está pessimista, pelo que leio no seu blog. “Se os meios de comunicação fossem levados a sério, Lula estaria agora debatendo com os tribunais, não com os eleitores”, diz ele. “Poucos governos mereceram da mídia exposição tão negativa quanto a administração petista. A despeito disso, o eleitorado atribui ao presidente um volume de intenções de voto que, por ora, humilha os concorrentes. Humilha também a mídia.”
Do ponto de vista eleitoral, não há dúvida. As denúncias sobre o mensalão pouco podem contra os benefícios concretos do Bolsa-Família, do Pro-Uni, da inflação baixa, do computador popular, do crédito facilitado... Certamente, o eleitor não ignora os desvios e irregularidades do governo; e, na minha opinião, acredita que existiram sim. Entretanto, faz uma ponderação na hora de escolher o próximo presidente. Está cansado de ver corrupção em todos os governos; por que não escolher, pelo menos, o que fez o Bolsa-Família?
Há outro fator: embora não duvide do mensalão e dos dólares na cueca, o eleitor acredita ou quer acreditar na inocência de Lula. Quanto a esse ponto, a mídia não lhe deu grandes convicções. Não acho, como diz Josias, que “Lula estaria debatendo com os tribunais” se dependesse da mídia. Nem a mídia, nem as CPIs, nem o procurador-geral da República reuniram evidências suficientes contra o presidente. Se tivessem reunido, talvez a história fosse outra. Não sei.
Sei que a mídia não foi irrelevante para tirar Zé Dirceu, Palocci, Gushiken e José Genoino de seus lugares. Heloísa Helena também pode dar graças à mídia pelos índices que obtém nas pesquisas. A mídia não pode tudo, mas alterou profundamente o papel do PT na administração federal.
O governo Lula mudou, para melhor, na minha opinião, quando Zé Dirceu saiu. Será que, se Lula soubesse que teria a reeleição garantida, ele manteria Zé Dirceu? Em outras palavras: se soubesse que a mídia é irrelevante, será que ele manteria todos no ministério? A pergunta é irrespondível. Lula se liberou do “comissariado petista”; talvez quisesse precisamente isto. A mídia não pode tudo; mas entre irrelevância e onipotência ela está no seu lugar.
Leia no blog de Josias de Souza: http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/arch2006-08-13_2006-08-19.html
Escrito por Marcelo Coelho às 15h30
Como assim? O rebaixamento de Plutão é a pior notícia gerada por uma comunidade de sábios desde o dia nefasto em que João Paulo 2o resolveu banir a camisinha. Rigor de cientistas, rigor de eclesiásticos, ambos desumanos nos seus dogmas. Em nome de um critério científico antipático, deu-se um desastre para a imaginação dos terráqueos.
Quero meu dinheiro de volta. Ou, para ser mais exato: quero que me devolvam o que já dediquei de sonhos e certezas científicas à existência de Plutão. Já escrevi sobre o conforto de saber que um pequeno planeta gelado existia lá longe, estendendo para além do previsto e do razoável o nosso sistema solar. Os confins do sistema não ficavam apenas entregues ao domínio de marmanjões como Urano e Netuno.
Além disso, havia uma beleza muito grande em saber que o deus das Trevas, dos Infernos, dos Espaços Inferiores e Obscuros contava com um planeta só para ele. Nem que fosse um ponto gelado e ínfimo na noite: era, bem ou mal, um planeta, girando em torno do sol como Vênus, Marte e nós. Tinha os documentos aparentemente em ordem, embora sua conduta fosse suspeita e misteriosa. Talvez fosse malévolo, mas era modesto, estava em seu lugar, nunca pretendeu mais do que lhe deram.
Tiraram Plutão do sistema solar e jogam-no de repente para dentro de nossa alma: é lá, mas sem endereço nem ocupação definida, que ficará girando essa pequena esfera silenciosa e demoníaca, antes longínqua demais para perturbar alguém.
Centro diminuto da negatividade e do supérfluo, Plutão era o lugar sem brilho para onde se dirigiam nossos esquecimentos, nossas preocupações desimportantes, nossas crenças arbitrárias, como uma espécie de última água-furtada, dificilmente visitável, da nossa consciência. O Deus do subterrâneo estava exilado para além dos principais planetas, e lá sobrevivia quieto, como uma criança de castigo, a quem dirigimos um sorriso interior de compaixão.
Baniram-no para sempre do sistema solar, sem piedade, sem psicologia. Esses cientistas são monstros dickensianos; temos agora de guardar Plutão dentro de nós mesmos, como a criança antiga que já fomos, onde ele viverá em desconforto e mágoa, astro frio e amaldiçoado, gravitando seu rancor.
Escrito por Marcelo Coelho às 16h15
Começou no Rio o ciclo de palestras sobre “O Esquecimento da Política”, de que participo no próximo mês. O sociólogo Francisco de Oliveira reafirmou a tese, há algum tempo exposta em entrevista à Folha, de que no mundo globalizado a política se tornou “irrelevante”.
Os Estados nacionais são hoje incapazes de fazer política econômica, com a subordinação das suas finanças ao sistema mundial. A arena dos conflitos locais, em cada país, enfraqueceu-se, e com ela o papel dos sindicatos e dos partidos. “Na ausência da política, o que acontece? O que estamos vendo. Uma sociedade de mônadas. Não existe mais sociedade, mas indivíduos. Nem indivíduos, mas mônadas, sem capacidade de intervenção”, afirmou Francisco de Oliveira, segundo reportagem da “Ilustrada” de hoje.
Na publicação que resume as intervenções do ciclo organizado por Adauto Novaes, o texto de Francisco de Oliveira acrescenta:
Este é um fenômeno mundial que na periferia capitalista tem efeitos devastadores; daí que, ao invés de concordar com a irrelevância da política, deve-se mais do que nunca ressaltar a sua importância, a importância de reinventá-la, e por isso os caminhos são muito parecidos, na essência, com os propostos por Evo Morales e Hugo Chávez. As formas particulares vão ser dadas pela situação e pela correlação de forças políticas de cada país. Ou retomamos a política, ou estaremos condenados à velha situação de satrápias do Império e dos Impérios.
Há muita coisa discutível nessas afirmações. Tento sistematizar algumas críticas, enquanto preparo minha própria palestra nesse ciclo. Imagino que não seja deselegância minha.
Não fica claro, nesses trechos, se o fenômeno da irrelevância da política já se consolidou ou se está em vias de consolidar-se. Se já se consolidou, as propostas de Chávez e Morales estão fadadas ao fracasso: seriam delírios de rebeldia. Como as finanças nacionais estão subordinadas ao sistema internacional, este esmaga qualquer coisa que se insurja contra o seu domínio.
Mas, se as políticas de Chávez e Morales têm futuro, então não há como falar em irrelevância da política nem numa situação diferente daquela que sempre existiu sob o capitalismo. Romper com o mercado internacional é difícil, mas sempre existiu e existirá quem tente: Lênin, Mao, Fidel, e agora Chávez e Morales. A política não é nem mais nem menos irrelevante do que em 1917.
Nesta hipótese, Chico de Oliveira aponta não propriamente a irrelevância da política, embora uma parte importante de sua tese subsista: partidos e sindicatos estão enfraquecidos em toda parte. Desse modo, uma nova forma de intervenção revolucionária, anticapitalista, deve ser pensada. Quem seriam seus protagonistas? Se a sociedade está ou está em vias de compor-se apenas de indivíduos isolados, ou “mônadas”, não haveria massas a mobilizar. Mas há governantes como Chávez e Morales. Para levar adiante suas alternativas ao capitalismo, podem então voltar a mobilizar as massas, reconstituí-las sem partidos ou sindicatos. Ou então governar sem mobilizá-las diretamente, levando adiante seu programa de forma mais “administrativa”, a partir do Estado. Nos dois casos, não vejo muita originalidade ou “reinvenção” da política, de suas habituais formas latino-americanas de relacionamento entre líder e população, entre Estado e sociedade.
Faço esta análise utilizando termos razoavelmente neutros. Pensar em Morales e Chávez como modelos é algo de que discordo integralmente. Pretendo desenvolver uma discordância mais profunda, entretanto: não acho que estejamos vivendo um “esquecimento da política”. Acho que está em crise um tipo de política, baseado na disputa ideológica entre partidos pelo poder do Estado. Mas num sentido mais amplo a política está tão ou mais presente do que nunca.
Links:
matéria na Ilustrada: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2308200615.htm
programa do ciclo:
http://www.cultura.gov.br/foruns_de_cultura/cultura_e_pensamento/2006/debates/index.php?p=17329&more=1&c=1&pb=1
Escrito por Marcelo Coelho às 17h08
O encontro entre a arte tradicional e a tecnologia do século 20 foi, como se sabe, um dos principais fatores a constituir a estética modernista; o material da Missão de Pesquisa Folclórica, organizada por Mário de Andrade em 1938, como que encenava "em bruto" --fonógrafos registrando cantos do Nordeste-- aquilo que a arte moderna, anos antes, produzira no plano da criação intelectual. Hoje em dia, o curto-circuito ou a interpenetração entre o contemporâneo e o arcaico se faz de modos ainda mais rápidos, embora envolva, como antes não ocorria, um grande processo de mediação social, de "trabalho junto às comunidades", como se fala na linguagem das ONGs.
Para não reclamarem que não falo do Rio Grande do Norte, abaixo está um link curioso. Trata-se de uma amostra de toques para aparelho celular, com gravações de cocos da Praia da Pipa. Nesse lugar se desenvolve um projeto de capacitação para trabalho em informática junto à população carente, organizado pela Cidade do Conhecimento, da USP: http://www.cidade.usp.br/blog/
Escrito por Marcelo Coelho às 14h51
O leitor Marcos Aurélio me envia um e-mail sobre o artigo de hoje, que trata da edição de CDs com material folclórico recolhido na viagem de pesquisadores organizada por Mário de Andrade em 1938. Transcrevo um trecho:
Aquela viagem, tanto para Mario de Andrade quanto para os estudos do folclore brasileiro, essencialmente, trouxe grandes frutos. Primeiramente, porque, ao passar pelo Rio Grande do Norte, descobriu o embolador-de-coco Chico Antônio, cuja riqueza musical ainda hoje é reverenciada por músicos e pela academia; segundo, porque rendeu muitos elementos para que Luis da Câmara Cascudo (autor do livro Dicionário do Folclore Brasileiro - um dos estudos mais ricos sobre o tema) desenvolvesse cada vez mais sua obra. Agora, por que diabos, cargas-dágua e espíritos excomungados, em nenhum momento, você cita o Rio Grande do Norte, Chico Antônio e Luis da Câmara Cascudo, hein? Isso não é bairrismo (risos).
Escrito por Marcelo Coelho às 13h55
maledicência literária
Terminei de resenhar "Os Detetives Selvagens", de Ernesto Bolaño (Ed. Companhia das Letras), um livro a meu ver demasiado extenso,e preocupado demais com a mediocridade da vida literária mexicana, seus poetas frustrados e vocações errantes. Em todo caso, há uma passagem bastante engraçada no livro, que parece vir direto daquelas conversas de bar boêmio, e que não pude reproduzir mais extensamente na resenha. Vai aqui um trecho mais longo. É o momento em que o poeta Ernesto San Epifanio desenvolve uma curiosa tipologia dos poetas de todo o mundo. Cito Bolaño.
Dentro do imenso oceano da poesia, [San Epifanio] distinguia várias correntes: bichonas, bichas, bicharocas, bichas-loucas, bonecas, borboletas, ninfos e bâmbis. Walt Whitman, por exemplo, era um poeta bichona. Pablo Neruda, um poeta bicha. William Blake era uma bichona, sem sombra de dúvida, e Octavio Paz, bicha. Borges era bâmbi, quer dizer, de repente podia ser bichona e de repente simplesmente assexuado. Rubén Dario era uma bicha-louca, na verdade a rainha e o paradigma de todas as bichas-loucas (...) Uma louca, segundo San Epifanio, estava mais próxima do hospício florido e das alucinações em carne viva, enquanto as bichonas e as bichas vagavam sincopadamente da Ética à Estética, e vice-versa. Cernuda, o querido Cernuda, era um ninfo e, em ocasiões de grande amargura, um poeta bichona, enquanto Guillén, Aleixandre e Alberti podia ser considerados bicharoca, boneca e bicha, respectivamente. Os poetas tipo Carlos Pellicer eram, via de regra, bonecas, enquanto poetas como Tablada, Novo, Renato Leduc eram bicharocas. (...)
O panorama poético, afinal de contas, era basicamente a luta (subterrânea), o resultado da pugna entre poetas bichonas e poetas bichas para se apropriarem da palavra. As bicharocas, segundo San Epifanio, eram poetas bichonas no sangue, que por fraqueza ou comodidade acatavam --se bem que nem sempre-- os parâmetros estéticos e vitais das bichas. [Na Itália], bichas feito Ungaretti, Montale e Quasimodo [rivalizam com] um poeta bichona feito Leopardi (...) Com Pavese não me meto, era uma bicha-louca triste, exemplar único em sua espécie, nem me meto com Dino Campana, que come em mesa à parte, a mesa das bichas-loucas terminais.
E por aí vai. É possível, em parte, identificar o segredo dessa classificação. Bichas loucas seriam os românticos (Leopardi) e bichas os clássicos do modernismo (Montale, Quasimodo).
Escrito por Marcelo Coelho às 19h43
Assisti ontem na Fiesp a uma pré-estréia de Timão de Atenas, de Shakespeare, com Renato Borghi no papel principal. Comento quando chegar o fim-de-semana. Por enquanto, registro apenas o prazer que há em ouvir os grandes, vulcânicos xingamentos shakespeareanos. Há até um livro só com eles, mas ainda não me lembro do título correto; e creio nenhuma peça os têm em tão grande número quanto "Timão de Atenas". O protagonista passa metade do tempo amaldiçoando a humanidade. Algumas frases eu gostaria de não esquecer. Cito uma:
"Tenho pena", diz Timão, "tenho pena da pedra que irá esmagar a tua cabeça."
Mas a melhor frase do gênero não é de Shakespeare, e sim da fala popular americano. Cito de memória, e traduzo com um pouco de invenção, mas é mais ou menos assim:
"Eu não gastaria o meu mijo apagando o fogo que irá transformá-lo em churrasco".
Escrito por Marcelo Coelho às 19h22

No artigo de amanhã, escrevo sobre uma caixa de 6 Cds e quatro livrinhos, editada pelo Sesc e pela Secretaria da Cultura de São Paulo. É um verdadeiro tesouro de gravações históricas: com ótimo som, está selecionada ali uma parte do material recolhido na famosa expedição organizada por Mário de Andrade em 1938, levantando a música folclórica brasileira. A "Missão de Estudos Folclóricos" viajou por Minas, Pará, Paraíba e outros Estados do Nordeste, gravando desde canções de ninar até pajelanças e cantos de carregadores de piano. Não tive espaço para notar a ironia que há no fato de gravar o canto desses trabalhadores pernambucanos. É como se os folcloristas ignorassem a música dos salões da elite, valorizando a de quem "carrega o piano"... Tratava-se, entretanto, de um trabalho de união nacional, de consolidação de pontes entre os formuladores da cultura "culta" e as manifestações populares. Não acho que exista populismo nisso. Por falar em ismos, seria o caso de ligar a iniciativa de Mário de Andrade ao modernismo e também ao romantismo. Mas isso eu desenvolvo no artigo. Aqui, coloco o link para o site do Sesc, que não faria sentido transcrever inteiro no artigo de amanhã:
http://www.sescsp.org.br/sesc/hotsites/missao/index.html
Escrito por Marcelo Coelho às 08h38
Mário de Andrade
Escrevo mensalmente para a revista “Língua Portuguesa”, comentando em detalhe, no estilo e até na gramática, trechos da literatura brasileira. Agora andei analisando uma carta de Mário de Andrade a Carlos Drummond. Do ponto de vista do estilo, acho curiosa a oscilação do texto entre o coloquialismo sistemático e um ou outro instante de mais formalidade literária. Mas o que vale é a beleza da carta.
Obs: Mário tinha feito uma operação cirúrgica, e ainda se recuperava dos efeitos da anestesia.
S. Paulo, 14- X- 926
Carlos,
recebi por estes dias uma carta de você porém agora não acho e ando tão bestificado ainda que carecia dela pra ver se arranjo assunto pra responder. Me lembro que você augurava melhoras prontas e o mais engraçado é que comentava minha força interior e que eu naturalmente não me deixaria abater com o sofrimento. [...] Já me sinto revivendo prá vida cotidiana, prá cotidiana, que prá geral nunca estive em perigo de vida propriamente. O diabo é que qualquer doença me declancha uma neurastenia danada que está sempre preparadinha pra aparecer e contra a qual eu reajo todo dia. Desta vez então eu saio completamente alquebrado. Uma fadiga uma tristeza um abatimento enorme. [...]
Eu acho covarde a posição contemplativa diante da vida. Isso de se tornar espectador duma coisa de que a gente participa me parece o mais ignóbil dos egoísmos porém palavra que tem momentos em que dá vontade da gente ser cínico mesmo de deveras e olhar para o sofrimento dos outros e da gente mesmo como se fosse um espetáculo... A única censura até agora íntima que eu faço séria ao Osvaldo [Oswald de Andrade] é justamente essa [...] Fez da vida um espetáculo de circo de que ele é o clown. Faz as graças e ainda se ri das próprias graças. Sacrifica tudo por uma blague, uma caçoada. [...] Acho isso um mal. Toda a gente acha graça na minha alegria e como eu me divirto quando estou na festa mais pau. Creio que essa riqueza me vem de eu compreender a vida e vivê-la em toda a variedade dela [...] na dor sei que a dor é prá gente sofrer e sofro pra burro, sofro sério, sofro sofrendo e não espetacularmente, é lógico. Que sucede? A minha variedade de viver é tão incomensurável que não me fatigo dela nunca. Osvaldo como Paulo Prado, dois homens que tomam a vida como um divertimento eterno, vivem enfarados. [...]
A vida considerada como um divertimento é de uma monotonia enorme e não diverte. Porém se a gente aceita a vida como vida, séria na seriedade, amigo com os amigos, apaixonado nos amores, honrado nos sofrimentos e sempre aprendendo pra si e pra compreender e aceitar (não digo propriamente perdoar) os outros, a gente representa e pra si mesmo essa representação é sempre fecunda, não enfara nunca [...] Isso tudo que estou te falando parece duma banalidade sem parada e não é descoberta minha porém o certo é que sou feliz. Mas agora estou imaginando que não é nisso que está a receita da minha felicidade. Será talvez de eu aceitar de antemão tudo o que vai se passar nos atos seguintes da peça... Isso. Porém não aceito como espectador e sim como artista que representa. Eu censurarei os ruins, chorarei a morte da minha mãe, e amarei os meus amigos.
Com um abraço sincero do
Mário
Escrito por Marcelo Coelho às 18h12
Café da Manhã em Plutão

Cillian Murphy, no papel de Patrick Mc Cabe
“Isto está ficando sério demais”. Não há nada que Patrick abomine mais que a seriedade. O protagonista de “Café da Manhã em Plutão” é um transexual irlandês na década de 70, e está cercado de seriedade por todos os lados. Principalmente, do lado político. As ações terroristas do IRA estão por toda a parte; o catolicismo conservador marcou terrivelmente a sua história pessoal. Mas Patrick (o excelente Cillian Murphy) é aquilo que em outros tempos se chamava de “bicha louca, inconseqüente e desvairada”. Indiferente aos colegas de escola, age como mulherzinha e provoca-os o tempo todo. Mais tarde, veste-se como mulher e se joga em Londres sem saber minimamente o que fazer pela própria sobrevivência. Não quer saber de política, nem de coisa nenhuma, aliás.
O excelente filme de Neil Jordan parece mostrar que essa negação quase psicótica da realidade –pela qual, aos olhos de Patrick, tudo é lindo e maravilhoso, mesmo uma sessão de interrogatório pela polícia britânica dos anos de chumbo—termina funcionando como recurso de sobrevivência. Patrick escapa da morte várias vezes.
De resto, Patrick não é o único a negar a realidade. Toda a sua biografia pessoal, todo o processo que o constitui como pessoa simpaticíssima, inteligente, amorosa e louca, deve-se ao fato de que muita gente à sua volta também negou a realidade. O “café da manhã em Plutão” seria um despertar em mundo estranho, infernal, subterrâneo; é ao mesmo tempo uma forma de encarar a realidade, mas de encará-la como uma forma hostil e mortal de funcionamento das coisas.
O terrorismo irlandês, as forças policiais anti-terroristas, o catolicismo, o instinto maternal de determinada personagem, a profissão de outra –o excelente mágico vivido por Stephen Rea– são outras formas de negar a realidade, promovendo morticínio, violência, filhos ou ilusões de ótica. A negação que Patrick faz do sexo biológico ganha, no filme, o caráter de uma bela afirmação da vida e do amor. E, lá para o final do filme, vemos que tudo gira em torno do perdão. O perdão talvez seja, de fato, uma negação da realidade com sinal positivo. Apesar de suas passagens duríssimas, “Café da Manhã em Plutão” é um filme otimista como poucos; imenso e profundo como poucos, também.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h55
Os Detetives Selvagens

O escritor chileno Roberto Bolaño
O poeta Júlio César Álamo, junto com uma dezena de outros poetas mexicanos, está em Manágua, no ano de 1982, participando de uma comitiva de escritores que tem como missão prestar apoio moral à Revolução Sandinista. Ocorre que um dos participantes da excursão, o poeta real-visceralista Ulises Lima, desaparece em Manágua. Um inspetor da polícia nicaragüense é convocado, e se reúne com os escritores mexicanos. O trecho a seguir faz parte do romance Os Detetives Selvagens, de Roberto Bolaño, que acaba de ser editado pela Companhia das Letras.
Álamo tirou do bolso seu maço de Delicados e ofereceu a todos (...) o inspetor rejeitou a oferta com um gesto e acendeu um cigarro cubano, estes são mais fortes, disse com certo sarcasmo que não nos passou despercebido. Foi como se dissesse: nós, homens de verdade, fumamos tabaco de verdade, nós, que agimos objetivamente sobre a realidade, fumamos tabaco real. Mais forte que um Delicados? Labarca [o nome de outro poeta da comitiva] perguntou. Tabaco negro, companheiros, tabaco autêntico. Álamo riu baixinho e disse: parece mentira que tenhamos perdido um poeta, mas na realidade queria dizer: desde quando você entende de tabaco, seu puto de merda? Estou cagando e andando para o tabaco cubano, Labarca disse quase sem se alterar. O que disse, companheiro?, o inspetor devolveu. Que para mim o tabaco cubano não está com nada, onde arde um Delicados que se apaguem os demais.
Não digo que a cena não seja interessante. Há em todo romance de Bolaño o mesmo tipo de sarcasmo leve, ironizando o oportunismo político e a audácia inconseqüente de um grupo de boêmios literários sem talento, que gira em torno da ausência, do desaparecimento, dos descaminhos de Ulises Lima e seu amigo Arturo Belano.
Há nisso material para um romance longo, de mais de 600 páginas, com uns trinta ou quarenta narradores que se alternam? Eu diria que sim. Mas, ao mesmo tempo, não parece haver muito sentido para que o romance tenha sido escrito. No fundo do sarcasmo e da construção bem-feita há pouca coisa mais, desconfio, que certa impaciência com a mediocridade da vida literária latino-americana. Quem participa dela pode divertir-se com o livro de Bolaño; mas não sei se o livro merece a atenção de setores mais amplos do gênero humano.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h12
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