Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

entreter ou excitar?

entreter ou excitar?

Levei meus filhos para o recém-inaugurado  Aquário de São Paulo ( http://www.aquariodesaopaulo.com.br),  perto do Museu do Ipiranga. O aquário é pequeno, mas tem lá seus jacarés (grande atração para meu filho menor) e peixes ornamentais bem coloridos (pequena atração para o pai dele). O filho mais velho, de quatro anos, ficou interessado numa exposição com modelos de dinossauros; modesta, mas suficiente para impressioná-lo, pois os bonecos rugiam e moviam olhos, braços e cabeças.

 

O problema veio depois. É que no mesmo lugar existe um planetário, e não me esqueço da primeira vez em que vi, quando pequeno, a projeção do imenso céu estrelado que as luzes da cidade nos impedem de admirar. Havia uma voz fazendo a exposição didática, explicava-se um pouco dos planetas, as imagens das constelações se moviam diante dos nossos olhos, e tudo servia como sugestão do que há de insolúvel e de sublime no céu.

 

No planetário do Ipiranga, há gritos o tempo todo. Não das crianças, coitadas. É que resolveram agregar à cena um ator de teatro infantil, misto de palhaço e animador de auditório, com uma peruca em forma de labareda, e um microfone desajustado nas mãos. Uma música pop altíssima fala dos planetas, e o ator pula e faz graça sem parar. Mais do que isso, há explosões, sustos, contorções no pequeno palco.

 

Explica-se o que são asteróides. Muito bem. Um deles, ao cair na Terra, teria provocado a extinção dos dinossauros. O ator faz gestos de dinossauro, o som atinge decibéis astronômicos, uma catástrofe se esfalfa para acontecer. O que importa é deixar as crianças com medo, com vontade de dançar, com vontade de virar asteróide, com vontade de virar dinossauro.

 

O básico, em tudo isso, é que não se concebe entretenimento sem excitação. Tudo o que possa haver de divertido, maravilhoso e –vá lá o termo—instrutivo é sistematicamente demolido pela mesma máquina que movimenta os shows da Xuxa, os bufês infantis. Há nisso o medo de ser chato, talvez, e o medo de não suscitar nenhum tipo de resposta física da platéia (o encanto e o maravilhamento não agitam o corpo). A criança não se distraiu: foi excitada, até o limite do cansaço e dos ouvidos, e depois será entregue de volta aos pais, para fazer compras na lojinha.

 

O programa sai caríssimo: a entrada é de uns vinte reais por pessoa, o valet cobra 12 para estacionar o carro, e as lembrancinhas não custam menos de dez reais.

 

“Ora”, direis, “ouvir estrelas... certo/ Perdeste o senso!” Perdi mais de cinqüenta reais e um pouco da minha sanidade mental também.   

Escrito por Marcelo Coelho às 16h50

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Os palavrões de Lula

Em artigo para a "Folha" de hoje, quis comentar o uso de palavrões por Lula e Paulo Betti, como vinha sendo noticiado ao longo da semana. Claro que as falas de Lula a respeito de países como Chile e Argentina foram ditas num momento de exaltação patriótica, e se referiam menos às características reais de cada país e sim às atitudes dos respectivos governos com relação ao Mercosul. Como factóide, acho menos importante do que a informação, que também constava do livro de UOL Busca Eduardo Scolese e Leonêncio Nossa, a respeito da rudeza com que Lula trata seus subordinados.

O grande "frisson" da campanha eleitoral foi, entretanto, a frase de  Paulo Betti, justificando os "erros" do PT e Lula pelo raciocínio de que fazer política é mesmo "botar a mão na merda". Claro, faz-se política com aquilo que se tem, não com o que se gostaria de ter, como disse Lula em outro contexto. Não é errado; apenas acaba com a esperança de que o PT pudessse, como se dizia antigamente, apontar para uma nova forma de fazer política. É a mesma defesa das alianças em torno da governabilidade que justificou todos os fisiologismos, compra de votos etc. que ocorreram no governo FHC. Mais conchavo, menos transparência, mais acordo, menos democracia, mais Jeffersons, Crivellas, Newtões Cardosos, menos comunidades de base, orçamentos participativos, decisões tomadas "de baixo para cima".

Eis aí uma expressão em desuso: antigamente, o PT e as forças mais democráticas da sociedade insistiam na tese de que tudo tinha de vir "de baixo para cima". Agora, com as teorias da governabilidade --que não são erradas, apenas anti-utópicas, conservadoras-- tudo vem de "cima para baixo"; a merda, principalmente.

Mas hesito em publicar o palavrão, que com tanta alegria os comentaristas repetem no momento. O artigo de hoje na Folha tentou ser um exercício de escrita, falando do asssunto sem mencionar uma única vez o termo explícito. Mas o resultado talvez tenha ficado um pouco "pointless", não muito claro como análise política, e a ironia que se quer muito sutil, quando o sentimento de quem escreve não é de sutileza, corre o risco de não dar certo. Enfim, confira no link abaixo

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0209200610.htm .   

Escrito por Marcelo Coelho às 08h36

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Bartleby, o Escrivão

Bartleby, o Escrivão

Bartleby (M. Hernandez) e o patrão (M. Galdino), na Aliança Francesa

No artigo de hoje da "Ilustrada", escrevi sobre "O Escrivão", peça baseada na novela curta de UOL Busca Hermann Melville, "Bartleby, o Escriturário". Esse termo, "escriturário", seria o mais correto, pois a função de Bartleby é trabalhar num escritório privado de advocacia, não num cartório ou numa delegacia; mas claro que "escrivão" é uma palavra muito melhor para um título de livro ou peça. Não consegui encontrar espaço no artigo para elogiar a direção de Antonio Abujamra nem os atores. Todos funcionam muito bem comicamente: do magro e melancólico Bartleby (Miguel Hernández), que se recusa a obedecer as ordens do patrão ('prefiro não fazê-lo") ao proprietário do imóvel (Abraão Farc), insistente, com voz gritada de surdo, passando especialmente pelo chefe do escritório (Marcelo Galdino), sempre pimpão, caridoso, autoconfiante e sem saber o que fazer, há em todos eles um ar de obtusidade e inquietação ao mesmo tempo, que combina perfeitamente com a situação estranha e ridícula que  vivem. Adriano Stuart e André Corrêa, colegas de Bartleby no escritório, respondem pelos melhores momentos cômicos do espetáculo.

Cada vez que o patrão aparece com uma ordem, o educado e modesto Bartleby responde polidamente: "prefiro não fazê-lo". O caso é tão inusitado que o patrão simplesmente não consegue despedi-lo. Lembrei no artigo, o que não é nenhuma originalidade, a semelhança do conto de Melville com Beckett, Kafka e Ionesco. Esqueci de mencionar o "Anjo Exterminador" de Buñuel, filme em que todos os personagens se vêem inexplicavelmente incapazes de sair de uma festa. Aqui também, não é apenas Bartleby quem não sai de sua obstinação desobediente e tranquila; chefe e colegas de escritório ficam também paralisados. "Por que esse Bartleby não é despedido de uma vez?", era a pergunta que eu fazia. No começo, pensei que havia algum truque simples no enredo. Por exemplo: se o chefe dissesse claramente: "isto é uma ordem!", então Bartleby passaria a obedecer. Pois, numa situação altamente civilizada como um escritório do século 19, mais inglês que novaiorquino até, o patrão se dirige a Bartleby educadamente: "você poderia fazer o favor de copiar este texto?" Talvez faltasse a ordem explícita.

Mas não; todo o caso permanece inexplicado. Ocorreu-me também que o patrão incapaz de despedir o empregado suscita a mesma estranheza que temos ao ver "Hamlet": por que ele não consegue matar o padrastro? Goethe, creio, disse que a chave de Hamlet era o descompasso entre o desejo e a capacidade de levá-lo à ação. Aqui poderia estar ocorrendo o inverso: o mundo moderno nos põe em ação, sem indagar nosso desejo. Se fôssemos apenas peças passivas numa engrenagem, se fôssemos meras "coisas" num sistema, entretanto, haveria um paradoxo: imóveis, como objetos de ferro ou de madeira, nada nos faria trabalhar... o cúmulo da obediência ao sistema seria a inação subversiva... Mas é interpretação que não acaba mais. Leia o artigo em

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq3008200623.htm 

Escrito por Marcelo Coelho às 09h32

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voltaire de souza

Redecorar o apartamento pode ser uma boa opção. Mas será possível mudar o interior do ser humano? Leia o colunista do "Agora SP" em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co3008200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 08h55

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segredos de Harry Potter (2)

Continuo falando sobre Harry Potter. Em geral se diz que a criança (e mesmo adulto) não tem paciência para longas descrições; se quisermos estimulá-la para a leitura, o melhor é contar uma história simples e “empolgante”, com ênfase na ação rápida. Ora, estou mais ou menos na metade do primeiro volume da série de J. K. Rowling, e não posso dizer exatamente “do que se trata” ao longo da história do livro.

 

O romance se chama  Harry Potter e a Pedra Filosofal. Um livro infanto-juvenil padrão faria com que em poucas páginas os personagens fossem avisados do roubo de uma pedra mágica, e o resto da história seria em torno de como conseguiriam derrotar os inimigos e recuperar o tesouro.

 

Há notícias de um roubo, sim, aí pela página 40 do livro; mas o fato está totalmente em segundo plano, e sequer sabemos o que foi roubado. Os próprios inimigos de Harry Potter se apresentam muito discretamente até a metade do livro, e seu potencial maléfico está na verdade apenas sugerido sob o que aparenta ser simplesmente uma antipatia corriqueira entre colegas de escola.

 

Feito de vagas ameaças e incipientes sucessos, é o cotidiano escolar de Harry –coberto de detalhes que seriam “inúteis” na perspectiva simplificadora que comentei acima— que prende a atenção do leitor. Em determinado momento, por exemplo, transcreve-se o hino oficial da escola de Hogwarts. São (ou eram, em inglês) versos rimados, convencionais, ocupando meia página do livro. Qualquer autor infanto-juvenil padrão teria hesitado em colocar um hino daqueles, que supostamente “afastaria” o interesse do leitor. O problema é que, quando se presume um leitor preguiçoso, o que se esconde é a preguiça do próprio autor.         

Escrito por Marcelo Coelho às 13h20

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segredos de Harry Potter

 

Vou lendo aos poucos para meu filho maior, com as adaptações necessárias de linguagem, o primeiro volume da série de Harry Potter. Nós dois estamos nos divertindo bastante, à medida que aparecem os personagens que, bem ou mal, já tínhamos ouvido falar ou visto em algum trecho de filme (o filme inteiro ele não vê, porque as sessões são suspensas conforme a cena).

 

Creio já ter lido julgamentos desfavoráveis a “Harry Potter”, referindo-se a um possível abuso de clichês e à facilitação intelectual. Não foi minha experiência. O interessante do livro é que os primeiros capítulos estão longe de deixar claro para o leitor o que está acontecendo; alguns nomes e personagens só serão esclarecidos mais tarde.

 

Ao contrário do que pode parecer, isso torna a leitura irresistível. Nada mais chato do que um texto “fácil”. Só mesmo um texto “difícil”. O jogo da leitura, e, se podemos dizer assim, o “segredo de Harry Potter” está em deixar sempre alguma pergunta irrespondida, para ser esclarecida mais tarde. Não apenas a pergunta “o que vai acontecer?”, que se mal interpretada pode conduzir apenas a uma seqüência relatorial de fatos. Trata-se de “quem é aquele?” “o que pretende Sicrano?”, “qual o significado desse objeto?”, “por que ele não abriu o presente?” e assim por diante.

 

A coisa vale também para a técnica jornalística. Não adianta ser apenas claro. Se quisermos que o leitor siga o texto até o fim, é preciso deixar no final de um parágrafo a semente de uma pergunta para que a frase ou o parágrafo seguinte a respondam. Quem não responde se torna confuso; quem não pergunta, quem não deixa a semente da pergunta, se torna chato. Os americanos são especialistas nessa "plantação" de perguntas.

 

Basta ler algum texto de Gay Talese, por exemplo, no livro “Fama e Anonimato”, editado pela Companhia das Letras. Cada parágrafo tende a dar todas as informações necessárias, menos uma ou duas, que só virão no parágrafo seguinte. Com textos assim, o leitor nem tem tempo de prestar atenção nas ilustrações.

 

Por isso, as ilustrações não fazem falta nenhuma em “Harry Potter”. Há um erro em querer que as crianças se interessem pela leitura, enchendo-as então de livros ilustrados. Nada contra os livros ilustrados, na idade certa. Mas com o tempo o resultado acaba sendo que elas vão se tornar grandes consumidoras de livros ilustrados, e não leitoras de fato. Vão gostar de livros, não de ler. 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h29

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oportunidade imperdível

Recebo um desses e-mails com as atrações que fazem de São Paulo uma cidade única no mundo. 

 

Talvez um dos maiores destaques da 44ª Equipotel, que acontece entre os dias 12 e 15 de setembro no Pavilhão de Exposições do Anhembi, em São Paulo, será trazido pela Libermac.

É que a empresa trará uma máquina de café fabricada pela italiana Victoria Arduino que faz parte de uma linha limitada, de apenas cem unidades no mundo, comemorativas do centenário da empresa européia.

O inusitado é que a unidade de número um da máquina foi enviada de presente para o Papa Bento XVI no Vaticano. A que vem ao Brasil é a de número 12 e poderá ser comprada na Equipotel por R$ 50 mil.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h17

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intervalo

Hoje participo da entrega do prêmio "Barco a Vapor", para literatura infanto-juvenil. Tento blogar mais tarde sobre isso; agora escrevo o artigo para quarta-feira, sobre "O Escrivão", peça baseada numa novela curta de Hermann Melville, já quase kafkiana. São inúmeras as interpretações possíveis dessa história, sobre um pequeno funcionário burocrático que começa a se recusar a cumprir ordens superiores. Tento ver o que sai daí.  

Escrito por Marcelo Coelho às 14h11

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voltaire de souza

Também a astrologia sofre na mão de pessoas inescrupulosas. Leia a crônica de hoje no "Agora" (para assinantes do Uol): http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2808200602.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 14h07

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Martha Argerich

Ainda sobre pianistas. Acabo de ver um recital de UOL Busca Martha Argerich com Claudio Abbado, no canal "Film and Arts" da TV a cabo. Ela é, sem sombra de dúvida, uma das maiores pianistas do século. Mas seu virtuosismo termina levando a verdadeiras aberrações estéticas no Concerto no. 2 de Beethoven. Abbado começou como que sabendo que a ordem, naquele primeiro movimento, era acelerar. Argerich entrou desembestada, e o  resultado foi uma correria sem fim. Esperei que no Adagio as coisas melhorassem; a velocidade foi substituída por um sentido de ênfase sem beleza nenhuma, e, é claro, no rondó final as coisas se ajustaram, no objetivo puramente virtuosístico do furor. Depois, Argerich concedeu de bis uma sonata de Scarlatti que nunca vi executada tão brutalmente. Um horror, em suma, consumado por grandes artistas. 

Mas faço um adendo: tratava-se de gravação ao vivo, e é muito difícil saber o quanto daquele furor, de resto marca registrada da pianista, não foi exagerado em função do clima da platéia, do espírito do dia. Não é a mesma coisa, mas penso em determinadas cenas de peça de teatro, quando as vemos pela televisão. Mesmo em espetáculos bons, com grande grau de intimidade entre público e platéia, a gravação na TV parece mostrar tudo mais gritado, com menos nuance. E um bis, como a sonata de Scarlatti, pode ser dado já num espírito mais abrutalhado, entregando para o apetite do público o filé mal passado que ele está pedindo.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h49

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Rubinstein

                 

Talvez a cena mais interessante de "The Golden Age of Piano", DVD que comento há horas, é a que mostra uma sessão de Arthur Rubinstein gravando uma peça de Schumann, "Aufschwung", ("Ascensão"). A filmagem é em preto e branco, Rubinstein devia ter uns sessenta ou setenta anos, está de camisa preta, e ataca os acordes de Schumann com decisão compenetrada. Vemos então os técnicos de gravação do estúdio, perguntando-lhe se quer fazer outra tomada; ele diz que não, e reproduzem o que foi gravado para ele ouvir. Rubinstein ouve; suas curtíssimas, quase invisíveis sobrancelhas se abrem, circunflexas, ou se fecham, firmes, à medida que a música progride. Pouco a pouco, um sorriso, menos que isso, se desenha em seu rosto. Ele tocou divinamente. Ouça um trechinho em http://www.amazon.com/gp/music/clipserve/B00005427I001023/1/ref=mu_sam_ra001_023/103-2845816-6957400

Escrito por Marcelo Coelho às 00h32

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mensagem de Brahms

Uma coisa extraordinária aparece no documentário "The Golden Age of Piano", que venho comentando nos últimos posts. É a voz de Johannes Brahms. Entusiasta da nova invenção de Edison, o gramofone, ele gravou, das distâncias nebulosas de Hamburgo ou de Viena, uma saudação ao gênio da tecnologia americana, e podemos ouvir, sob a mais furiosa tormenta de ruídos, algumas palavras em alemão: "Doktorrr Edison... Grrruesse von doktorrr Brahms.... Johannes Brahmmms"...

Talvez, para Edison, aquelas palavras tivessem o valor de uma saudação da compositora italiana contemporânea Elisabetta Brusa ou do brasileiro Cristóvam Buarque: um ilustre, ilustríssimo desconhecido. Para nós, é o grande Brahms, um homem capaz de preencher sozinho uma enciclopédia inteira de música, um monstro maior que Stravinski e Schoenberg juntos, quem se esgoela naquela pobre e precária mensagem.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h13

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Bradesco, Brailowski

Podemos entender melhor todo o ódio de Theodor Adorno diante da indústria cultural quando vemos as primeiras transmissões de música clássica no cinema ou na TV. “The Golden Age of The Piano” recupera alguns arquivos históricos de grandes pianistas, como Josef Hofmann e Alexander Brailowski. Josef Hofmann, talvez o maior pianista de todos os tempos, aparece já em declínio, tocando contrafeito um banal prelúdio de Rachmaninov; o caso de Brailowski é pior.

 

Nada mais kitsch do que a filmagem que fazem dele, tocando uma valsa de Chopin. O pianista está em cima de uma espécie de escada feita de dominós brancos, irregularmente dispostos em escala ascendente. Sério, reluzente na casaca e na brilhantina, ataca acordes de modo heróico; à medida que a música cresce em intensidade, a câmera vence os degraus da escadinha, numa encenação de solenidade que tem tudo a ver com a irritação adorniana: o austero crítico espumava cada vez que ouvia, no rádio, um concerto “trazido para você graças ao patrocínio de... General Electric", ou Omo, tanto faz.

 

 Eram tempos em que a indústria tentava se nobilitar com a intensidade e a grandeza de uma arte que ela não compreendia bem. Hoje em dia, o Bradesco pode contar com isenção fiscal no patrocínio do “Cirque du Soleil” sem que a idéia de "profanação da arte" estejam envolvidos. O visual exagerado e cansativo do “Cirque du Soleil” já se apresenta, ele próprio, como propaganda, como espetáculo de mídia. Mesmo assim, nobilita o Bradesco. Ou será que “nobilitar” é um termo fora de moda? Representa-se, apenas, a convergência entre ilusionismo e lucro bancário, a eficiência de ambos se mostra uma “coisa para quem pode”, a admitir apenas o elogio boquiaberto da platéia. A platéia de Horowitz e Brailowski podia ficar boquiaberta também; mas a tentativa de ligar a arte ao capital mantinha, de certa forma, separadas as duas esferas. Ao menos, para quem vê esses pianistas hoje em dia; Adorno certamente não achava isso. 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h55

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pianistas

Rudolf Serkin, tentando tocar depressa demais a “Appassionata” de Beethoven, é um exemplo de falta de carisma, compartilhada em certa medida por Claudio Arrau nos “Jeux d’Eau à Villa d’Este” de Liszt. Não pensaria em Serkin ou em Arrau como símbolos de uma escola romântica, inesquecível, cintilante da arte pianística. Mas é assim que eles aparecem em “The Golden Age of Piano”, DVD que comprei outro dia; estão ao lado de Vladimir Horowitz, esse sim um mago sem limites, artista até o ponto da extravagância, que encarna melhor que Arrau e Serkin a idéia do virtuose-poeta-demiurgo no mundo da música.

 

Mas o documentário “The Golden Age of Piano” não se limita às três figuras. Imagens de todo mundo –quase todo mundo: Busoni é o grande ausente—aparecem nesse DVD: e gênios de toda espécie não faltam nesse espantoso zoológico musical. Glenn Gould, o gênio por excelência, capaz de transfigurar cada nota, cada inflexão da partitura num rasgo de seus dedos; Wanda Landowska, a Madre Teresa de Calcutá do cravo bachiano. Enquanto isso, o locutor repete toda série de clichês de capa de disco que alguém é capaz de memorizar.

 

Seguem-se duros esbarrões de Myra Hess, de novo na “Appassionata” de Beethoven. Nunca pensei que essa sonata fosse tão difícil... Mas quem sou eu para reclamar de Myra Hess?

 

Depois de alguma enrolação, surge Arthur Rubinstein, sem ser apresentado pelo locutor. Ele toca maravilhosamente uma “Canção sem Palavras” de Mendelssohn, repetindo o tema, como se antes do tempo,  com a graça luminosa que era o seu segredo.

 

Aparece então Alexander Brailowski numa valsa de Chopin: mas isso é assunto para outro post.

 

Glenn Gould, ao piano....

 

 

 

 

e Wanda Landowska, ao cravo: rivais em Bach

Escrito por Marcelo Coelho às 23h34

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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