Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

Homens no mar

 

Três jovens adultos, depois de muitos dias de jornada, encontram pela primeira vez o mar. “Ah, então é isso, o famoso mar!”, diz um deles. Logo os três estão rolando pela areia e se atiram nas ondas, como se dançassem.

 

Um dos jovens encontra na água uma estrela do mar. “O que é isso?”, pergunta. “Isso é uma estrela do mar”, responde outro. “Mas é uma estrela de verdade?” “Não, é um bicho”.

 

Damouré, Illo e Lam são os três personagens de “Jaguar”, documentário iniciado em 1954, e lançado em 1967, do cineasta e antropólogo francês  Jean Rouch. O filme acaba de sair em DVD, pela coleção videofilmes.

 

Jean Rouch acompanhou a vida de Damouré, Illo e Lam durante aproximadamente um ano. Eles saem da região seca do planalto nigeriano rumo ao que na época era chamado de Costa do Ouro, Gana, hoje em dia. Lá existe trabalho, e eles sonham em voltar ricos para sua aldeia natal.

 

No começo, não conhecem coisa nenhuma. Nunca viram um coqueiro. “Deus pôs os frutos lá no alto, porque são muito gostosos”, diz um deles. Escalam com agilidade o tronco da árvore. Quebram o coco verde como podem. “É melhor do que leite”, diz um deles, comendo a polpa.

 

A viagem até Gana, que dura vários dias, resume uma história de séculos. Saindo da aldeia, o trio encontra uma tribo onde todos vivem nus, em cabanas à margem do rio, como índios. Dias depois, é a cidade, com ruas asfaltadas, carros, um imenso mercado ao ar livre, onde se juntam povos, línguas e religiões as mais variadas.

 

A fotografia acompanha lindamente esse percurso: do azul claro, branco e areia do início do filme ao colorido úmido e intenso da cidade à beira-mar. A grande beleza de “Jaguar”, entretanto, está num achado poético de Jean Rouch: ele fez inicialmente o filme inteiro sem som, para depois encarregar da narração em “off” os próprios personagens do documentário. Assim, os diálogos e explicações que ouvimos ao longo do filme –como os que citei no começo do texto-- não são autênticos: foram inventados, com incansável senso de humor, pelos três jovens.

 

Aparentemente, não há nenhum choque cultural a que não sobrevivam com espírito esportivo e altivez. Um deles, apelidado “Jaguar” (em homenagem ao carro de luxo) se dá bem em tudo que faz, e se considera um conquistador irresistível. Como conhece um pouco de aritmética, logo consegue emprego de capataz numa carregação de madeira. Compra óculos escuros e despreza, com ironia, seus comandados: “mexam-se, seus preguiçosos... seus negros!”

 

Não há nenhum branco, ao que me lembro, em cena no documentário. O sistema colonial funciona –caoticamente, mas a contento—por si mesmo. Passada a temporada na Costa do Ouro, os amigos retornam à aldeia de origem, carregados de presentes para todos. O dinheiro que juntaram é distribuído entre os parentes.

 

“Eu, um Negro”, outro documentário de Jean Rouch disponível na mesma coleção, segue o mesmo princípio narrativo, com um personagem reinterpretando as cenas projetadas. É bem mais amargo, duro e violento. Mas “Jaguar” não mostra menos uma situação contraditória e demente, na qual homens e mulheres são atirados, sem saber direito como, a um mar que desconhecem.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h32

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Dança, vida, doença

                

 

 

Recebo um DVD com o curta-metragem “Maria Duschenes, o Espaço do Movimento”. Trata-se de um documentário, dirigido por Inês Bogéa, crítica de dança da Folha, e Sérgio Roizenblit, a respeito de uma das pioneiras da dança moderna no Brasil.

 

Maria Duschenes nasceu em Budapeste, em 1922, e com 15 anos foi estudar na Inglaterra, onde seria aluna de  Rudolf Laban, para quem, esclarece In~es Bogéa, “o movimento da dança moderna é constituído pelo trajeto entre diferentes pontos no espaço, e não por uma sucessão de poses”. Laban seria também o inventor do conceito de “dança coral”, para grandes grupos, que seria implantado entre nós por Maria Duschenes. Ela chegou em !940 ao Brasil, onde vive até hoje.

 

O documentário é feito com grande tato, delicadeza e bom gosto. Começamos vendo algumas imagens do rosto e das mãos da bailarina, naquele granulado típico das filmagens em preto-e-branco da década de 50; surgem aos poucos imagens, não menos antigas aos nossos olhos, de vídeos e gravações caseiras da década de 80: as cores da fotografia, os cabelos das pessoas, a vontade dos dançarinos em fazer “expressão corporal”, aquele ambiente de improvisação, liberdade sexual e descoberta, também parecem algo do passado, algo tão histórico quanto as cenas de 1950.

 

Contribui para essa impressão o registro, gravado agora, dos ex-alunos de Maria Duschenes, já bastante idosos, revivendo os movimentos de dança que aprenderam da mestra.

 

Para quem, como eu, assiste com intensa inveja as exibições de vigor e agilidade física dos espetáculos de dança contemporânea, o que mais impressiona ao longo deste documentário é a presença, sutil e leve como uma sombra, da doença e da morte, em meio a tantas celebrações da espontaneidade, do improviso e da vida.

 

Uma informação essencial é apresentada com grande discrição: Maria Duschenes teve poliomielite aos 22 anos. Trechos de um filme antigo mostram-na, ainda jovem e bonita, numa paisagem de montanha. Ela dança em silêncio, apoiada no tronco de um pinheiro, e faz de seu desequilíbrio um ato de harmonia e de inteligência expressiva.

 

Já no fim do documentário, ficamos sabendo que há anos ela sofre do Mal de Alzheimer; seu rosto, filmado bem de perto, guarda apenas um vestígio de vida. Os olhos se fecham; depois se reabrem, e fitam o mundo, brevemente, numa última coreografia.

 

                      

                    Cena de "Magitex", espetáculo de Maria Duschenes (1978)

Escrito por Marcelo Coelho às 22h49

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hoje, nada

Hoje não vai dar para postar nada aqui. Estou gripado, desde que voltei do Rio ontem à tarde. Ainda tenho de escrever um artigo para a Folha de sábado, e às 19h tenho de dar uma palestra no Itaú Cultural, naquele famoso ciclo do "Esquecimento da Política". Com a agravante de estar totalmente afônico, de modo que ficarei lá na mesa fazendo cara de Aldo Rebelo enquanto alguém lê o texto em meu lugar. Nem a coluna do Voltaire, no "agora" de hoje, merece grande propaganda. Dias melhores virão.  

Escrito por Marcelo Coelho às 11h52

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pequena pianista

Aimi Kobayashi hoje tem dez anos, e talvez tivesse menos quando tocou o "Concerto da Coroação" de Mozart, numa performance disponível no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=32gsiqbjbk8 Dizer que ela toca feito gente grande não é exagero: a postura do corpo, os movimentos dos braços, são de um pianista adulto, e criam uma coreografia que, apesar da precariedade da transmissão do vídeo (pelo menos no meu computador) é uma obra de arte em si mesma, e que vale a pena ver.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h39

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do blog de César Maia

O prefeito do Rio, César Maia, tem enviado e-mails diários aos assinantes de seu antigo blog, com raciocínios e mais raciocínios sobre as pesquisas eleitorais. A mensagem de hoje é interessante, e reproduzo aqui, sem poder distinguir o que é "wishful thinking" dos partidários de Alckmin e o que é prognóstico científico. Aqui vai.

ELEIÇÃO PRESIDENCIAL: HOJE JÁ DARIA SEGUNDO TURNO !

1. O Ibope e o Data-Folha divulgaram suas pesquisas realizadas entre segunda e ontem. Lula teve 49% no DF e 48% no IB. Alckmin teve 33% no DF e 32% no IB. HH teve 8% e Cristovam 2% em ambos. Para o Data-folha a diferença foi de 5 pontos e para o Ibope de 6 pontos. Diga-se de passagem números radicalmente diferentes dos publicados ontem pelo Sensus e criticados duramente aqui.

2. Com esta diferença de 5/6 pontos esse Ex-Blog afirma que teremos segundo turno.  São quatro as razões, cumulativas e que se reforçam. E que foram amplamente discutidas tecnicamente aqui nestes 3 meses de campanha.

3. A mais evidente é que Alckmin ainda crescerá alguma coisa acompanhando a tendência dos últimos 15 dias. Digamos que ele chegue -a pelo menos 35%. Isso seria suficiente para estarmos tratando de uma diferença de 3 pontos entre Lula e os demais. Mesmo dividindo entre Lula e os demais este crescimento de Alckmin, teríamos 4 a 5 pontos.

4. A segunda é a demonstração empírica que numa eleição com reeleição nunca se tem mais voto na urna que a avaliação ótimo+bom, que para o DF são 47% e para o IB são 44%.

5. A terceira, mais sofisticada, é que as pesquisas feitas no meio da semana distorcem -na margem- o resultado a favor dos que tem mais voto entre a NÃO-PEA. Repetindo: num dia de semana a coleta nos bairros e municípios metropolitanos não encontra o perfil exato do eleitorado já que parte dele se desloca para trabalhar em outro bairro, em geral a PEA. Esse Ex-Blog voltou a demonstrar isso para Estados em que o Ibope trouxe a pesquisa para o fim de semana e encontrou resultados de 7 a 10 dias atrás em pesquisas feitas. Esse efeito é de entre dois e quatro pontos a favor de quem tem sua base maior na NÃO-PEA, ou seja Lula. Usando 2%, melhor hipótese, teríamos: Lula 47% ou 46%, e a soma dos demais 35%,( tendência mínima), +8%+2% nos daria 45%. Ou seja 1 a 2 pontos no máximo. Uma pesquisa sobre este fato está sendo concluída este ano na UNICAMP.

6. A quarta razão é a taxa de abstenção+brancos+nulos. As pesquisas são feitas sobre o total do universo dos eleitores, em base ao censo e distribuição estadual pelo TSE. Se usarmos os números das 3 ultimas eleições presidenciais e escolhermos a melhor hipótese teremos 17,74% de abstenção e 7,39% de brancos e nulos em 2002. Não há nenhuma razão para se supor números menores em 2006 depois dos escândalos. O DF e o IB informam uns 7% a 9% de brancos/nulos/indecisos. Vamos supor que esses serão os brancos e nulos no dia da eleição. Os 17,74% de abstenção, devem ser analisados na sua composição. Parte deles se deve a falecimentos, parte a pessoas que estão viajando,parte a pessoas muito idosas, parte aos doentes sem mobilidade, parte aos que estão presos, parte aos que são doentes mentais ou alcoólatras, parte aos que tem mandado de prisão e não podem se apresentar, parte a migrantes recentes, parte quem não tirou o título,...Os estudos que fizemos nos últimos anos mostram uma tendência muito maior de concentração nos níveis menores de renda e instrução. Quando não há uma forte polarização com estes níveis, o impacto é quase nulo. Quando há, deve-se aplicar este fator sobre o resultado. É o caso de Lula. Trabalhamos com uma proporção de 60% a 80% contra 40% a 20%. Como a melhor hipótese para Lula é de 60% e os demais de 40%, a diferença de 20% de 17,74% alcança 3,5%. Durante a campanha esse Ex-Blog usou 4 pontos como redutor da intenção de voto de Lula no caso dessa eleição.

7. Esses quatro fatores se reforçam e criam uma rede de segurança que permite a esse Ex-Blog afirmar que haverá segundo turno. Aceitam-se apostas !

Escrito por Marcelo Coelho às 16h18

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pechinchas

De novo, no site www.laserland.com.br , aparecem mais de 800 cds de música clássica com desconto. O bom ´´e que não há apenas coisas batidas do repertório, mas também obras raras. Reservei um disco de Celibidache regendo concertos de Darius Milhaud (um para marimba, imagine), outro de obras corais de Schoenberg, outro com peças para quarteto de cordas de  George Antheil (este modernista era citado por Mário de Andrade na sua "História da Música", mas só recentemente ouvi, num CD da Naxos, seu interessante "Ballet Mécanique").

Escrito por Marcelo Coelho às 16h12

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crítica e autocrítica

crítica e autocrítica

Na reta final da campanha, alguns candidatos resolvem bater pesado. Mas a atitude pode levar a mal-entendidos, como ocorreu no comitê do dr. Augusto. Leia a coluna do Agora (para assinantes) em http://tinyurl.com/e4wxt

Escrito por Marcelo Coelho às 16h07

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perigo para o Sesc?

Um amigo observa que o verdadeiro Ministério da Cultura do Brasil, pela quantidade de serviços que presta, é o Sesc. É estranho, com efeito, que haja tantos teatros e cinemas do Sesc em várias cidades, e nada nesse gênero, que eu saiba, do Ministério da Cultura. Sem contar o fomento a livros, espetáculos, atividades de lazer em geral. Corre pela internet um manifesto alertando para as conseqüências danosas que o projeto do Supersimples --diminuindo a carga tributária de pequenas e médias empresas-- pode ter sobre as finanças do Sesc. Não conheço o assunto, mas repasso: está no link http://www.sescsp.org.br/sesc/emenda/ 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h02

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Um poeta do Rio (4)

É nos retratos de sua cidade, dividida entre praias, favelas, sol e tráfico, que Armando Freitas Filho atinge os pontos mais expressivos de seu livro Raromar:

 

                               GERAL

              Multidão-manifesto posta à margem/da cidade construída, opera e circula/porém, no seu território interior./A pé, descalça, mancha na pedra/ arranha o que passa: a frente dos dias/ com voz, gesto e gosto, /na contramão/ do sentido, correndo entre os carros/ apontados para o sul, onde o sol/ é particular, domesticado, nas piscinas/ oposto àquele --público-- que queima/ que pega na praia e no asfalto/ que assalta cheio de dor e sangue oculto.

            No contracampo se resiste: em riste, não. /Mas no empate, cara a cara, buscando/ miscigenar-se com a outra margem. / Alguns para minar, repetindo/ a base, o posicionamento do começo./ Vida-vírus, mutante adiante, meta/ morfose antiteratológica, quase clônica,/ em constante recapitulação:/versões, sinais diacríticos, interferência/invisível ao olhar desarmado, na letra sob a lente/microscópica da revisão, geram o código/impuro e certo, alterando-se desde a origem.

Também no poema seguinte a questão da paisagem como escrita, e da sociedade como risco, erro, rasura na  natureza, aparece de modo talvez mais claro:

 

                       LITORAL

Cidade em armas, rabiscada. /Cheiro de suor morto à luz latejante/da sirene, com sonoplastia feita/de rumores, dos sustos curtos sob o cerco/ das amontoadas montanhas atomentadas/não pelo raio, nem por nuvens pretas/ ou chuva de pedra, trovoada, tempestade./A natureza, num instante, sai do lugar/da margem de risco que o mapa permite:/ nada, como um dia depois do outro, nada./O insulto do azul automático reina/ absurdo e indiferente, e sugere/ sol, férias, verão, que ocorrem, paralelos/ ao desastre deste dia intransitável:/ na calçada, calçada de corpos/ no sinal vermelho coagulado em cima/ dos malabaristas do mal-estar/ diante dos carros de caras amarradas/ nas praias, de mar impróprio.

JB on line

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h43

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Um poeta do Rio (3)

Menos felizes, a meu ver, são certos poemas de Raromar em que Armando Freitas Filho dá livre curso aos temas da sensualidade e do amor físico. Ocorre, não somente com ele mas com outros poetas modernos (nem mesmo alguns poemas de Drummond e Bandeira escapam a esta crítica), uma certa tendência a tratar do sexo com um tipo de eufemismo, de circunlóquio, que não é pudico ou moralista, mas sobretudo grave e solene, como se fossem aqueles poemas da fase católica de Vinícius de Morais. Uma carga metafórica algo espessa e sem alegria encobre aspectos fisiológicos que o leitor decifra sem esforço:

                              SEGREDO

         Boca rasgada vertical, costura/fechada de cabelos ao longo./Negror e cor cinza-rosa murcha/no fundo, no centro, botão perceptível/que se exaspera/chegando até o escarlate, ao esmalte/vermelho vivo das unhas molhadas/ao sangue mesmo --entre, no meio.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h26

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Um poeta do Rio (2)

Um poeta do Rio (2)

Armando Freitas Filho também traz, em Raromar, vários poemas sobre Drummond. Seleciono este, de certo modo um gêmeo do anterior, sobre Machado de Assis:

 

                              LAUDO

      Sua mão de enxada imprópria/para a pena, cheia de nós e veias/não combina com a magreza/do braço, do corpo, do corte reto/do perfil que o nariz conduz na face/feita a traço, com a linha fina/da boca, da voz travada. taquigráfica/com os olhos de bola de gude azul/atrás do aro dos óculos de tartaruga.

      Sua mão grossa é para medir/o espaço das perdidas fazendas/e anotar no livro-razão, não o ar/o céu que as cobre, o sublime/controle das nuvens, a palavra/ precisa e preciosa descoberta/mas o deve & haver da criação/no dia corriqueiro que a vida/ e a morte transpassam indiferentes.

 Carlos Drummond de Andrade

Escrito por Marcelo Coelho às 23h17

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Um poeta do Rio

Um poeta do Rio

Acaba de sair, pela Editora Companhia das Letras, Raromar, livro de poemas de  Armando Freitas Filho. Vários textos, ali, oferecem uma interpreação lírica da obra de outros escritores. O que Armando escreve sobre Machado de Assis combina com o meu post mais abaixo, que assinalava a função das omissões, das elipses, do estilo machadiano.

                          PERFIL

        Machado não tem o corte/do machado, nem o gume, o gesto/brutal do braço que o empunha,mas/ a firmeza da mão que escreve o livro/(tirado da árvore abatida pelo golpe)/com pena afiada, atroz, e tinta medida/onde a gente se lê, lendo-o/e se corta, desprevenido, de surpresa/no fio da folha do papel fino.

 

       

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h10

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Uma carta de Machado de Assis

Uma carta de Machado de Assis

           Machado de Assis, por H. Bernardelli

 

 

 

Na revista “Língua Portuguesa”, comento mensalmente algum texto clássico da literatura, procurando assinalar particularidades de estilo, gramática e vocabulário. Para a próxima edição, analisei uma carta de Machado de Assis, reeditada agora na Correspondência Machado de Assis/ Joaquim Nabuco( editora Topbooks).

Machado de Assis tinha 65 anos quando Carolina, sua mulher, morreu em 1904; viveria ainda quatro anos. Joaquim Nabuco, um de seus melhores amigos, era dez anos mais moço, e correspondia-se com Machado desde a adolescência.

Essa carta é uma das mais comoventes da literatura brasileira, principalmente porque estamos longe das levezas e ironias típicas de Machado. Ao mesmo tempo, o estilo da carta tem outras características que são igualmente fortes na literatura do autor. Em primeiro lugar, uma certa indulgência com o egoísmo dos outros, ou melhor, a percepção de que nossas dores só são integralmente percebidas por nós mesmos. Em segundo lugar, um estilo que funciona maravilhosamente pela omissão, pela elipse, pelo corte: às vezes, é uma palavra só que desaparece, sem que notemos exatamente qual era. Outras vezes, é o simples uso de uma partícula banal (um “me”, um “e”) que faz toda a diferença. Em vez de dizer “Fico aqui”, ou “continuo aqui”, por exemplo, Machado de Assis escreve “Aqui me fico” –e sua solidão, dentro da casa em que vivia com Carolina, ganha um tom pungente só por isso.

Nabuco tinha escrito um telegrama de condolências a Machado, e este respondera apenas com um “obrigado”. A carta veio depois.

 

 

                                     Rio de Janeiro, 20 de novembro de 1904

Meu caro Nabuco,

 

 

         Tão longe, e em outro meio, chegou-lhe a notícia da minha grande desgraça, e você expressou a sua simpatia por um telegrama. A única palavra com que lhe agradeci

é a mesma que ora lhe mando, não sabendo outra que possa dizer tudo o que sinto e me acabrunha. Foi-se a melhor parte da minha vida e aqui estou só no mundo. Note que a solidão não me é enfadonha, antes me é grata,  porque é um modo de viver com ela, ouvi-la, assistir aos mil cuidados que essa companheira de 35 anos de casados tinha comigo; mas não há imaginação que não acorde, e a vigília aumenta a falta da pessoa amada. Éramos velhos, e eu contava morrer antes dela, o que seria um grande favor; primeiro, porque não acharia a ninguém que melhor me ajudasse a morrer; segundo, porque ela deixa alguns parentes que a consolariam das saudades, e eu não tenho nenhum. Os meus são os amigos, e verdadeiramente são os melhores; mas a vida os dispersa, no espaço, nas preocupações do espírito e na própria carreira que a cada um cabe. Aqui me fico, por ora na mesma casa, no mesmo aposento, com os mesmos adornos seus. Tudo me lembra a minha meiga Carolina.

Como estou à beira do eterno aposento, não gastarei muito tempo em recordá-la.

Irei vê-la, ela me esperará.

Não posso, caro amigo, responder agora à sua carta de 8 de outubro; recebi-a dias depois do falecimento de minha mulher, e você compreende que apenas posso falar deste fundo golpe.

         Até outra e breve; então lhe direi o que convém ao assunto daquela carta que, pelo afeto e sinceridade, chegou à hora dos melhores remédios. Aceite este abraço do triste amigo velho

 

                  Machado de Assis

Escrito por Marcelo Coelho às 22h55

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Com Deus no bagageiro

Faz tempo que eu não vendia um carro, e me atrapalhei muito com a burocracia. Quantos documentos! E é preciso ir pessoalmente a um cartório, reconhecer firma, para passar o certificado de propriedade ao comprador. Vou lá saber onde estão os comprovantes de pagamento do IPVA de 2004...

 

Na lista das coisas que me pedem, está a presença de um extintor de incêndio com a carga em ordem (nunca verifiquei se havia carga no meu extintor) e, naturalmente, a existência de um bom estepe de pneu no compartimento adequado.

 

O estepe eu sabia que não tinha. Fôra roubado algumas semanas antes, sem que eu me desse ao trabalho de comprar outro. Você pode intuir, por essa informação, que também o cronograma das revisões do meu carro estava longe de ser exemplar. Talvez eu não seja a pessoa ideal de quem você devesse comprar um carro usado.

 

Enfim, pagas as várias multas de que eu não tomara conhecimento, conferidos os papéis de que eu dispunha, o homem da concessionária avaliou o carro em 18 mil reais. Muito bem, eu disse, e aprontava-me para assinar os documentos que fechavam o negócio, quando julguei necessário lembrar ao meu interlocutor que o estepe tinha sido roubado.

 

A leve sombra de um susto passou pelo rosto do funcionário. Ele não tinha lembrado de verificar, quando avaliara o preço do veículo, a presença ou não de um estepe. Pior ainda: o próprio compartimento do estepe, no ato do furto, havia sido avariado.

 

No mínimo, seria necessário reavaliar o preço da venda. Mas o homem da revendedora deixou ficar tudo por isso mesmo. Manteve o preço de 18 mil reais. Foi um incômodo para mim.

 

O caso é dos mais corriqueiros, mas sugere uma reflexão moral. Saí da revendedora com a sensação de que havia algo de errado, de anti-ético, no episódio. O certo, pensei, seria eu aparecer na loja com o estepe e seu compartimento em perfeita ordem, e vendê-lo pelo preço combinado.

 

Bem, mas se o comprador não fez questão de nada, manteve o preço do carro sem ligar para o problema, e ficou satisfeito com o negócio, por que eu haveria de sair dali com um certo mal-estar?

 

Ocorreu-me que há dois padrões de comportamento ético. Num padrão mais pragmático e simples, nada de errado aconteceu. O comprador aceitou o carro pelo preço que considerou justo, eu fiquei contente, ele também: nossos interesses se conciliaram, sem nenhum engano de parte a parte, de modo que, eticamente, tudo estava limpo.

 

Ao mesmo tempo, nada estava limpo do ponto de vista ético, se pensarmos que há mais coisas em jogo além do meu interesse e do interesse do comprador. Existe algo de errado em um carro ser vendido por 18 mil reais na presunção de que está tudo em ordem, quando é vendido pelo mesmo preço sabendo-se que na verdade nem tudo está em ordem. Alguma injustiça, alguma desarmonia, algum erro ético, parece-me, está em curso.

 

Mas se as duas partes estavam de acordo, quem poderia estar em desacordo? Meu desconforto ético nascia da sensação de que uma “terceira entidade”, além do comprador e de mim, havia ficado descontente com a transação. Não é preciso pensar muito para saber de quem se trata: era Deus, velho zelador da ordem universal, que havia sido insultado nesse negócio, do qual o homem da concessionária e eu saíramos satisfeitos.

 

Duas éticas, portanto: uma, pragmática, onde o que importa é o negócio limpo entre as pessoas de que dele participam. E outra, talvez religiosa, onde é injusto que um carro seja vendido pelo mesmo valor, com estepe ou sem estepe.

 

Eu me sentiria melhor se tivesse comprado o estepe novo antes de ir à concessionária. Teria sido um gasto de dinheiro inútil; a concessionária saiu lucrando de qualquer jeito. Claro que, a esta altura, não vou comprar estepe nenhum. Ainda assim, fiquei, não digo culpado, mas em estado de dívida moral. O caso não deixa de ser ilustrativo de um problema mais complexo.

 

É possível pensar numa ética sem Deus? Certamente, sim. Mas, por mais ateu que eu seja, serei capaz de dispensar a idéia de Deus quando quero agir eticamente? Não tenho certeza. Saí da concessionária sem culpa, mas sem me sentir com a alma limpa. Dentro do carro novo, prossegui com minhas convicções irreligiosas. Mas talvez esteja levando Deus no babageiro. Só espero que ele não me fure o pneu como castigo.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h20

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obras-primas da publicidade

Ouvi no rádio o anúncio de uma seguradora de automóveis, que informa o consumidor das vantagens de um novo "produto". A coisa atende pelo nome de "Sinistro Fácil".

 

                                    

                                    Cliente da seguradora se apossa de indenização

Escrito por Marcelo Coelho às 13h21

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quem sabe faz a hora

quem sabe faz a hora

Como hoje a coluna de Voltaire de Souza não está disponível no site do "Agora", publico-a aqui.

 

PROJETO RADICAL

 

Os escândalos se sucedem no cenário nacional.

Camilo estava desanimado. Velho militante socialista.

A garrafa de vodca ouvia suas confidências.

--Traíram nosso povo, caramba.

Camilo acendeu um cigarro.

--Nunca acreditei nessa coisa de democracia.

Lágrimas e fúria misturavam-se em sua voz.

--Luta armada, pô.

Ergueu um brinde ao quadro do Che Guevara grudado na parede.

--Viva a Revolução. Agora é na metranca.

Procurou no caderninho o telefone dos antigos companheiros de guerrilha.

--Fundar um partido. Começar tudo de novo.

O brilho da esperança surgiu em seus olhos injetados.

--Às armas, cidadãos! Xi. Acabou o cigarro.

Camilo dirigiu-se à padaria em passo cambaleante e marcial.

Na esquina, o imprevisto. Traficantes trocavam tiros com a polícia.

Uma rajada certeira atingiu Camilo. Interrompendo seus últimos projetos. Seus últimos sonhos.

Para entrar na luta armada, ninguém precisa de utopias.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 13h18

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resumo do caso

Uma frase, dita jocosamente num corredor da USP, sintetiza a situação do PT: "Puxa, logo agora que as massas se beneficiam da corrupção querem acabar com ela!"

Escrito por Marcelo Coelho às 13h09

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racismo cotidiano

 Recebi esta mensagem por e-mail, e entrei em contato com o serviço de atendimento ao cliente dos Supermercados Extra, que me comunicaram estar em contato direto com o autor da queixa. Reproduzo-a, entretanto, por seu interesse intrínseco.

 

Imagine você sair com sua companheira para fazer compras no supermercado onde freqüenta há vários anos e, de repente, diante de todas as outras pessoas que ali se encontram, ser abordado por policiais, colocado numa viatura de polícia e levado preso para uma delegacia, sem sequer compreender o que está acontecendo. Pois é, aconteceu comigo!

Meu nome é Paulo Roberto de Sousa Silva, 39 anos, graduado em Pedagogia, pela Universidade Federal do Ceará (UFC), especialista em Educação do Campo e Desenvolvimento, pela Universidade de Brasília (UnB). Atualmente, ocupo o cargo de Coordenador Pedagógico Municipal do Programa Nacional de Inclusão de Jovens (PROJOVEM), junto à Prefeitura Municipal de Fortaleza. (...)

Ah, um detalhe: somos negros!

Na noite de sexta-feira, 04 de agosto de 2006, eu e minha companheira nos dirigimos ao Extra Montese para comprar um computador e alguns produtos diversos. Após escolher o equipamento desejado, apresentei meu cartão do Bradesco (conta salário) para a operadora de caixa para que fizesse o débito em conta, à vista. Digitei minha senha, a transação foi autorizada, e o comprovante impresso. No entanto, a operadora o reteve e me informou que o sistema estava apresentando um problema e não havia autorizado a compra, de modo que precisaria chamar o fiscal para que efetuasse a operação noutro caixa.

O fiscal pegou meu cartão e o comprovante, que fora impresso, pediu que aguardasse e afastou-se. Após alguns minutos, ele retorna e me comunica que o débito havia sido duplicado, que seria necessário fazer um estorno e que, portanto, eu precisaria aguardar um pouco mais. Após uns dez minutos retorna, novamente, com o cartão e o comprovante de autorização da transação e me comunica que o problema fora resolvido e, portanto, poderia dirigir-me ao vendedor para receber o produto.

Enquanto isso, minha companheira efetuou a compra de um aparelho de DVD e fez o pagamento com débito em sua conta corrente do Banco do Brasil. Escolhemos então vários outros produtos diversos, que pretendíamos comprar e enquanto ela se dirigia para o setor de caixas, fui receber o computador e emitir as notas fiscais dos dois produtos adquiridos. Após receber as notas fiscais dirigi-me ao caixa onde ela encontrava-se para ajudá-la com os outros produtos.

Porém, ao aproximar-me fomos abordados por três homens que se identificaram como policiais e nos comunicaram que estávamos sendo detidos, em flagrante delito de estelionato, pois ambos os cartões que utilizávamos eram falsificados.  Tomaram-nos as bolsas e telefones celulares, bem como os equipamentos que já havíamos comprado; colocaram-nos numa viatura de polícia; fizeram uma série de acusações e nos submeteram a um interrogatório, com o tratamento próprio que a polícia costuma dar aos marginais que apreende. Para agravar a situação, havíamos deixado em casa nossa filha caçula, com 06 meses de idade, cuja única alimentação é o leite materno e que se encontrava com problemas de saúde, sob os cuidados de terceiros.

Constrangidos; humilhados e sem compreender o que se passava fomos conduzidos ao 34º distrito policial; com a certeza expressa pelos agentes de que havíamos sido presos em flagrante; de que havia provas claras e que seguramente seríamos encaminhados para algum presídio. Ao chegar à delegacia de polícia ficamos aguardando num banco de cimento por um longo período, enquanto os polícias conversavam em particular com o delegado. Após a espera fomos conduzidos à sala do delegado, onde encontramos todo o conteúdo de nossas bolsas espalhados pela mesa e cadeiras da sala e fomos novamente, submetidos a um longo interrogatório.

Nenhum registro nosso foi encontrado nos bancos de dados  da polícia; Em nossas bolsas foram encontrados vários documentos, extratos bancários, documentos de trabalho, comprovantes de pagamentos, que comprovavam a legitimidade dos cartões bancários que portávamos, bem como a origem dos recursos financeiros utilizados; Nada nos foi apresentado que pudesse por em dúvidas a veracidade dos cartões bancários por nós utilizados; Nada foi apresentado que indicasse que houvéssemos cometido qualquer delito;
Na delegacia encontrava-se de plantão um profissional sério e prudente, que exerceu sua autoridade policial com retidão e diante dos fatos nos informou que não encontrava nenhum indício de que tivéssemos cometido qualquer delito, mas de que éramos vítimas de constrangimento ilegal.

Aguardamos, então, a presença de funcionários do Extra Supermercados para que apresentassem os fatos, a partir dos quais se basearam para formulação da acusação. Após um longo período chegaram três funcionários, dentre os quais a operadora do caixa e o fiscal que me atenderam. O fato apresentado: havia um número impresso no comprovante de autorização da transação que apresentava dois dígitos diferentes dos exibidos em meu cartão.

Agora eu lhes pergunto: E eu com isso?! Este é o procedimento padrão assumido por essa empresa todas às vezes que encontra divergências em dados dos clientes ou é tratamento exclusivo aos clientes negros? Tenho procurado objetivamente alguma explicação que justifique o fato de que ao verificar divergências nos dados de algum cliente a empresa chegue à inequívoca conclusão de que se trata de criminosos e imediatamente acione a polícia.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h17

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perguntas sobre o escândalo (5)

Houve exagero da oposição, sem dúvida, quando se tomou uma frase casual de Lula, num encontro de empresários, como sinal de uma secreta intenção de fechar o Congresso. Mas foi mais do que uma frase impensada a proposta de uma nova Constituinte para fazer a reforma política. O balão de ensaio foi lançado, recebeu críticas de pessoas insuspeitas como o jurista Dalmo Dallari, e foi esquecido rapidamente. O exemplo de Chávez e Evo Morales é, entretanto, incontornável. Se a cultura do PT se mostra tão rápida em negar princípios éticos básicos, considerando-os "moralismo de classe média", "udenismo da oposição", etc., não no PT há impedimento ideológico nenhum para que qualquer proposta chavista de perpetuação de Lula no poder seja apoiada cegamente.

De resto, PSDB e PFL não têm nenhum grande crédito a seu favor nessa questão. O governo Fernando Henrique se opôs à criação de CPIs, como o de Lula agora, e contou com seus filósofos de plantão para justificar a "amoralidade da política". Aprovando, com os métodos mais anti-éticos, a emenda para a reeleição, FHC pôs em prática a tentação continuísta que parece ser endêmica na América Latina. Tentando manietar o Ministério Público, e reclamando do "denuncismo" dos adversários, tucanos e pefelistas foram tão pouco democráticos quanto o PT. Um pouco menos antidemocráticos, talvez. É que o PT, justamente, servia como barreira a abusos maiores por parte do governo. Era depositário de uma aura de pureza moral que agora desapareceu.

É nesse sentido que a generalização dos casos de corrupção termina ameaçando a própria democracia; com todos os agentes da cena política desmoralizados em seu discurso, não há argumento republicano ou princípio impessoal que se sustente; vale apenas o exercício do poder, nas mãos de quem é mais forte.

Duas considerações moderadamente otimistas, para encerrar. As tentativas de impugnar a candidatura Lula, de derrubá-lo num "tapetão" jurídico, dificilmente terão prosseguimento. Se tivessem, o cenário seria dos mais preocupantes: ainda que houvesse dezenas de provas de irregularidades e delitos contra Lula, tentar tirar de cena um presidente eleito com esmagadora maioria de votos seria o caminho mais rápido para o caos institucional. Creio, entretanto, que os ânimos vão se aquietar um pouco depois das eleições; e também que, com a vitória de Aécio e Serra, a própria oposição terá mais interesse em se compor com Lula do que em investir no rompimento. Veremos.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h48

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perguntas sobre o escândalo (4)

Há perigo para a democracia? Há golpismo da oposição? Há chavismo no PT? Começo a ficar um pouco preocupado --não demais-- com o rumo dos acontecimentos. Em setores representativos do PT, parece fortalecer-se a idéia de que nenhum princípio institucional ou ético é sagrado o bastante para não ser desrespeitado, quando está em jogo derrotar "as elites". A argumentação de que a minoria branca não se conforma com a presença de um operário no poder serve para desqualificar toda crítica contra o PT, e todo fato que desmoraliza o partido é tratado como se fosse mentira, fantasmagoria ou invenção. Todos, a começar de Lula, se dizem democratas. Mas toda CPI, toda notícia, todo limite ao poder de Lula é visto como conspiração burguesa e, como tal, deve ser destruído.

 A liberdade de imprensa e os ataques da oposição são tratados pelo PT como algo que deve ser "tolerado", na melhor das hipóteses, e abafado, sempre que possível, na prática. Pela primeira vez desde a ditadura militar, pretendeu-se expulsar um correspondente estrangeiro do país. Tentou-se aprovar uma lei para controlar, a partir de um órgão corporativo e com forte presença da burocracia sindical, as atividades jornalísticas no país. Não é pouca coisa. Lula até que é dos menos antidemocráticos dentro da estrutura petista. Mas é como se a liberdade de expressão fosse uma espécie de dádiva concedida pelo Estado, pelo espírito tolerante do governo. Não fossem os ataques da "imprensa burguesa", não fosse a "conspiração das elites", Silvio Pereira e Delúbio Soares estariam ainda com cargos de direção no PT. A democracia, a crítica, a vigilância, servem para melhorar qualquer governo, não para destruí-lo.

As coisas emperram no Congresso? Emendas de fundamental importância, como a do Fundeb, são combatidas pelo espírito sectário e negocista da oposição (ou da própria base parlamentar do governo?) Isso faz parte da luta política, e me parece de resto inaceitável que um partido supostamente com grande base na sociedade civil organizada não tenha apostado em mecanismos de aprofundamento da democracia para levar adiante seus compromissos de campanha. Ao contrário, aposta em mecanismos de negação da democracia, corrompendo deputados, loteando cargos, propagandeando teses obscurantistas conta o Congresso e a imprensa. Criticam as elites, fazendo aliança com Jader Barbalho, Newton Cardoso e José Sarney. Criticam a imprensa, loteando emissoras de TV para quem faz parte da base parlamentar. Aí não dá. Mas continuo no próximo post.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h25

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perguntas sobre o escândalo (3)

A oposição exagera em suas reações ao episódio? Em dois aspectos, é possível dizer que sim. O primeiro, a meu ver, está na tentativa de vincular a crise do dossiê a um processo de instabilidade econômica. Noticiou-se que o risco-país subiu, nestes dias em que Freud Godoy parecia ser uma espécie de Gregório Fortunato de Lula. O paralelo, em si, já vai perdendo em consistência. As pesquisas não mostram queda significativa na popularidade de Lula; e não deixa de ser um paradoxo que uma eventual subida de Alckmin nas pesquisas viesse a ter efeitos indesejáveis sobre o mercado...

O segundo aspecto é que publicar dossiês e denúncias contra o candidato A ou B faz parte do jogo normal da política. Se Berzoini autorizou contatos com a revista Época para dar informações a respeito de Serra e Barjas Negri, isto em si não chega a caracterizar um escândalo --embora fique muito mal o recuo de Berzoini com relação a declarações suas no dia anterior, negando contatos com a revista. Mas toda a imprensa, "burguesa" ou não, supostamente tucana ou supostamente petista, sempre dependeu de fontes para seus furos de investigação.

O problema realmente grave está na origem do dinheiro com que se quis comprar o dossiê. Que um diretor do Banco do Brasil tenha parte ativa nesse episódio, repetindo o que aconteceu com Henrique Pizzolato na crise anterior, já é uma evidência de aparelhamento do Estado que ultrapassa o nível aceitável de "denuncismo" com o qual o PT, durante o governo Fernando Henrique e antes disso, sempre se deu bem. 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h59

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perguntas sobre o escândalo (2)

Qual a responsabilidade de Lula no episódio? Pessoalmente, acho que ele de fato não sabia das negociações com Vedoin. Mas o problema já não é se Lula "sabia" ou "não sabia". O problema é que, com Lula no governo, criou-se uma máquina agindo independentemente de qualquer controle, capaz de articular os interesses eleitorais do PT a fontes de financiamento público, e que se julga autorizada a fazer qualquer negociata em nome dos chamados "interesses populares". A aliança de Lula com essa máquina é das mais íntimas, por mais que ele se diga traído, decepcionado, iludido. Os principais atores deste escândalo, como dos anteriores, são pessoas que Lula conhece há décadas, provenientes da própria base sindical do partido. É impossível que Lula não conhecesse bem figuras como Delúbio, Silvinho Pereira, Lorenzetti. É a burocracia partidária, que sofreu um abalo no caso do mensalão, mas que foi mantida, com apoio de Lula, no momento em que Berzoini assumiu a presidência do partido, sepultando as idéias de uma "refundação ética" do PT. Como eu escrevi no artigo de hoje para a "Folha", é um caso em que Lula "não sabe", mas "não sabe sabendo".

Escrito por Marcelo Coelho às 14h41

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perguntas sobre o escândalo

Arrisco algumas perguntas e respostas sobre o escândalo do dossiê.

1) É capaz de levar Alckmin ao segundo turno? Nada pior do que o "wishful thinking" tucano, de que eram exemplos os comentários de César Maia em seu "ex-blog". Os raciocínios sociológicos mais sutis eram desenvolvidos na esperança de que a candidatura Alckmin decolasse. Não gostaria de me confundir com esse tipo de especulação. O escândalo continuará a ser explorado no horário eleitoral, mas é duvidoso que sensibilize a grande parcela do eleitorado que não se sensibilizou com o caso do mensalão. Imagino que exista, entretanto, uma faixa de eleitores na qual a candidatura de Alckmin pode crescer significativamente: a dos paulistas que votam em Serra para governador e em Lula para presidente. Um terço dos eleitores de Lula no Estado de São Paulo são eleitores de Serra também. Podem, talvez, migrar para Alckmin se considerarem Serra uma vítima do esquema petista. Isso depende da articulação do marketing de Serra e do de Alckmin.   

Escrito por Marcelo Coelho às 14h30

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preocupações de um candidato

preocupações de um candidato

O comércio de dossiês intensifica as paixões políticas. Mas para o político Julinho Gazua, pode significar uma mudança de rumos. Leia a coluna do "Agora" em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2309200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 11h48

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festa no comitê

festa no comitê

Em meio à tensão política, também há espaço para festas em determinados comitês eleitorais. Churrasco e dossiês, entretanto, podem não combinar bem quando se juntam no cardápio. Leia a coluna do "agora" em http://tinyurl.com/j3ny9

Escrito por Marcelo Coelho às 20h10

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desfiladeiros urbanos

Mostrei outro dia uma pintura de UOL Busca Mark Innerst, que retrata a cidade de Nova York pós- 11 de setembro como o cenário de uma catástrofe iminente. No mesmo número da revista "Art in America", há um quadro bem parecido, como perspectiva, tema e "pathos", feito por UOL Busca Ken Rush, tirado de uma série que se chama "Canyons-Cityscapes". Aqui vai o quadro de Innerst novamente:

                              

 

E agora o de Kenneth Rush (exposto na UOL Busca Katharina Rich Perlow Gallery de Nova York):

 

                                           

Escrito por Marcelo Coelho às 21h20

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o momento literário (3)

o momento literário (3)

No artigo sobre o livro de João do Rio, assinalei essa impressão de vida que as entrevistas com literatos tão antigos, antiquados como Olavo Bilac acabam despertando no leitor:

Há alguns entrevistados bem patetas, é verdade. Mas não havia mais patetas em 1904 do que em 2006, apesar de nossa resistência em admitir o fato. Mesmo algumas figuras totalmente presas às convenções de sua época emergem das entrevistas como indivíduos únicos, com seu grau de loucura, de alegria, de furor particular.

O Padre Severiano de Resende, “com voz passada em seda”, odeia Castro Alves, a quem chama de “insuportável metralhador de sílabas”; mas concede a Machado de Assis o mérito de ser “o único prosador honesto que temos”. Lima Campos improvisa em voz alta: “Ah! João! A crítica é sempre a água da análise pedantocrática vazada malevolamente na açorda saborosa da produção”.

Tudo tem vida nesse livro: as recordações de infância de Silvio Romero, o entusiasmo de Medeiros de Albuquerque ao saber do assassinato de um ministro russo, ou o sarcasmo de Frota Pessoa contra a ABL (“nunca, jamais, nenhum imortal, ali penetrando, fez, no seu caráter de imortal, outra coisa que não partir para a bem-aventurança”).

Isto é macabro”, completa Frota Pessoa. Sem dúvida. Estão todos mortos. Mas as entrevistas de Joâo do Rio não são daqueles retratos antigos, de homens bigodudos, usando pincenê, rígidos como cadáveres. Mostram pessoas que estão vivendo intensamente o seu tempo, pessoas únicas, irrepetíveis. Podem não ter sobrevivido literariamente, mas viveram. Já é alguma coisa.

Eu estava pensando, mas não tinha espaço para citar, num poema de  James Elroy Flecker, intitulado "Para um poeta daqui a mil anos". Ele se dirige a um "amigo que ainda não nasceu, que não vi, que desconheço", para quem "foi escrita esta canção doce e arcaica"; pede ao "estudante da nossa doce língua inglesa" que "leia estas palavras à noite, sozinho: eu era um poeta, e era moço." Cito as duas últimas estrofes em inglês.

O friend unseen, unborn, unknown,/Student of outrsweet English tongue,/Read out my words at night, alone:/I was a poet, I was young.//Since I can never see your face,/And never shake you by the hand,/I send my soul through time and space/To greet you. You will understand.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 08h24

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o momento literário (2)

o momento literário (2)

Em 1904,  João do Rio entrevistou a nata dos escritores da época. Olavo Bilac é o primeiro, o príncipe, o primus inter pares. O entrevistador se desvanece em descrições:

A casa do poeta é de uma elegância delicada e sóbria. Ao entrar no jardim, que é como um país de aromas, cheio de rosas e jasmins, ouvindo ao longe o vago anseio do oceano, eu levava n'alma um certo temor. Eram oito horas da manhã, apenas oito horas. A rua parecia acordar naquele instante, os transeuntes passavam com o ar de quem ainda tem sono, e o próprio sol, muito frio e formoso, parecia bocejar no lento adelgaçar das névoas.

--Só muito cedo encontrar-me-ás em casa, dissera ele, e eu mesmo sabia que o cantor do Caçador de Esmeraldas acorda às cinco da madrugada, escreve até as dez, sai e não se recolhe senão depois da meia-noite, porque o entristece ficar num gabinete sem alma, à luz dos bicos de gás.

Quando, porém, ia tocar o timbre do velho bronze, o meu receio desapareceu.

Estavam as portas da sala abertas e eu via Bilac curvado sobre a mesa a escrever.

--Pode-se importunar?

--Ó ave madrugadora! Tu por aqui?

Algumas coisas merecem comentário nesse início de entrevista. Nada mais "1904" do que a emoliente descrição inicial, com névoas que se adelgaçam e assim por diante. Estamos, sem dúvida, em outro mundo, feito de luxos, prazeres e jasmins. Mas a surpresa, a meu ver, vem logo em seguida: Bilac é um sujeito que começa a trabalhar às cinco da manhã. Com jasmins ou sem jasmins, tratava-se de alguém que não estava a passeio; levava a sério a função de escritor. De todo modo, a descrição continua de tal modo idealizada, que experimentamos quase que um choque quando Bilac começa a falar: "ó ave madrugadora! Tu por aqui?" E há bom humor, simpatia nessa pergunta. Ele não está falando como um "Poeta"; está falando como alguém que sabe que o tomam por Poeta. O diálogo prossegue com naturalidade, apesar do estilo de época.

--Oito horas já? Há não sei quantas escrevo eu.

--Versos?

--Oh! Não, meu amigo, nem versos nem crônicas --livros para crianças, apenas isso que é tudo.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 08h10

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o momento literário

o momento literário

No artigo de ontem para a Ilustrada, falei de "O Momento Literário", livro de João do Rio, publicado em 1907, e relançado agora por uma editora de Curitiba (www.criarediçoes.com.br) O livro reúne os resultados de uma enquete feita por João do Rio em 1904. O escritor e jornalista enviou um questionário aos mais representativos autores da época, com as seguintes perguntas:

--Para sua formação literária, quais os autores que mais contribuíram?

--Das suas obras, quais as que prefere?

--Lembrando separadamente a prosa e a poesia contemporâneas, parece-lhe que no momento atual, no Brasil, atravessamos um período estacionário, há novas escolas (...)? Neste último caso, quais são elas?

--O desenvolvimento dos centros literários dos Estados tenderá a criar literaturas à parte?

--O jornalismo, especialmente no Brasil, é um fator bom ou mau para a arte literária?

Esqueci de informar no artigo que esta última pergunta foi retomada por Cristiane Costa, no livro Pena de Aluguel  (www.companhiadasletras.com.br) que entrevistou escritores-jornalistas atuais, como Heitor Ferraz, Bernardo Carvalho, Marçal Aquino, Michel Laub e Fabrício Marques. Vale citar o pequeno poema de Fabrício Marques sobre as relações entre escritores e cadernos culturais:

Me suplica que eu te publico/Me resenha que eu te critico/Me ensaia que eu te edito/Me critica que eu te suplico/Me edita que eu te cito/Me analisa que eu te critico/Me cita que eu te publico/Me publica

E assim continuamos, disputando migalhas de público.

O artigo de ontem está disponível, para assinantes do Uol, em http://tinyurl.com/z958f 

Escrito por Marcelo Coelho às 07h55

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alison taylor

alison taylor

Aqui vai uma marchetaria de Alison Elsiabeth Taylor, artista com exposição atualmente na galeria  James Cohan de Nova York. São imagens de carros, e cenas de famílias no oeste americano, num estilo neo-naif que lembra os cartazes de rua de que gosto.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h14

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deslizes dos releases

Recebo e-mail de uma editora, divulgando a reedição de um livro de  Antonio Carlos Villaça, falecido recentemente. Aqui vai o começo.

           Mestre dos pequenos retratos da vida literária e da vida religiosa de seu tempo, Antonio Carlos Villaça escrevia como quem respira. Em O NARIZ DO MORTO, considerada obra-prima do autor [...]

Escrito por Marcelo Coelho às 20h51

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mãos limpas

mãos limpas

Será a baixaria inevitável numa campanha política? O doutor Teobaldo estava em desacordo com seus assessores no comitê. Leia a crônica do "agora" em http://tinyurl.com/f6x3v

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h18

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a traição dos intelectuais (3)

Contra os adeptos de uma “filosofia nacional”, de um pensamento submetido aos valores da conveniência política, Julien Benda contrasta dois trechos sobre o mesmo assunto. Inicialmente, um texto de  Maurice Barrès, e em seguida uma passagem clássica, proveniente do século 17 francês: a Logique de Port-Royal.

 

Não é apenas a moral universal, diz Benda, que os clérigos modernos lançaram ao desprezo, mas também a verdade universal. Aqui os clérigos se mostraram verdadeiramente geniais no seu empenho de servir às paixões laicas. Evidentemente a verdade é um grande empecilho para aqueles que pretendem se colocar no distinto [no particular]: ela os condena, a partir do momento em que a adotam, a se colocarem no universal. Que alegria para eles convencer-se que esse universal não passa de um fantasma, que só existem verdades particulares, “verdades lorenas, verdades provençais, verdades bretãs, cujo acordo, levado a cabo pelos séculos, constitui aquilo que é benéfico, respeitável, verdadeiro na França” (o vizinho fala do que é verdadeiro na Alemanha).

 

A frase entre aspas provém de L’appel au soldat, de Barrès. Benda

 prossegue.

 

Compare-se com o ensinamento tradicional francês, de que Barrès se diz herdeiro: “Qualquer que seja o vosso país de origem, só devereis acreditar naquilo em que acreditaríeis se fôsseis de outro país.” (Logique de Port Royal, III, XX). -- Não se pense que o dogma das verdades nacionais vise somente à verdade moral. Vimos recentemente pensadores franceses se indignarem do fato de que as doutrinas de Einstein fossem adotadas sem precaução por nossos compatriotas.

 

         Não apenas a idéia de verdade, mas também a de justiça, passa a ser submetida às conveniências do nacionalismo, e às seduções de um “Estado forte”, que os intelectuais a rigor deveriam repudiar. Contrastando as teorias de Barrès com o ensinamento de Sócrates, Benda observa:

 

Homens de pensamento pregando que a toga se curvasse diante da espada --eis algo que é novo em sua corporação [...] Eu não poderia fazer sentir de modo melhor qual é esta novidade na atitude do clérigo do que lembrando a célebre réplica de Sócrates ao realista do Górgias: “Exaltas na pessoa dos Temístocles, dos Cimon, dos Péricles, homens que alimentaram bem os seus cidadãos oferecendo-lhes tudo o que eles desejavam, sem se preocupar de ensiná-los o que é bom e honesto em termos de alimentação. Eles engrandeceram o Estado, exclamam os atenienses; mas eles não vêem que esse engrandecimento é apenas inflamação, um tumor cheio de corrupção. Eis tudo o que fizeram esses antigos políticos para encher a cidade de portos, de arsenais, de muralhas, de impostos e outras tolices semelhantes, sem acrescentar-lhes a temperança e a justiça” Podemos dizer que até nossos dias, pelo menos em teoria (mas é de teorias que tratamos aqui), a supremacia do espiritual proclamada nessas linhas foi adotada por todos que, explicitamente ou não, propuseram ao mundo uma escala de valores; pela Igreja, pela Renascença, pelo século 18. Hoje, adivinha-se o riso de um Barrès ou de algum moralista italiano [...] diante desse desdém da força em proveito da justiça e a severidade deles com relação ao modo com que aquele filho de Atenas julga os que fizeram sua cidade poderosa do ponto de vista temporal. Para Sócrates, perfeito modelo quanto a isso do clérigo fiel a sua essência, os portos, os arsenais, as muralhas são “tolices”; a justiça e a temperança é que são as coisas sérias. Para os que hoje em dia ocupam seu lugar, a justiça é que uma tolice --uma “nuvem”--, são os arsenais e as muralhas que são as coisas sérias. O clérigo se fez hoje ministro da Guerra.Mais do que isso, um moralista moderno, e dos mais reverenciados, claramente aprovou os juízos que, bons guardiães dos interesses da terra, condenaram Sócrates; coisa que nunca se vira entre os educadores da alma humana desde a noite em que Críton baixou as pálpebras de seu mestre.

 

Benda não nega que o nacionalismo se justifique na prática política. Diante das investidas da Alemanha, um patriota francês poderia até mesmo chegar ao “fanatismo”. Mas --e nesta citação se resume a tese de todo seu livro--

 

os clérigos que praticaram esse fanatismo traíram sua função, que é precisamente a de ressaltar, em face dos povos e da injustiça a qual os condenam as religiões terrenas, uma corporação cujo único culto é o da justiça e da verdade.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 09h15

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A traição dos intelectuais (2)

 

 

 

Filósofo e polemista de centro-esquerda, Julien Benda nasceu em 1867, militou contra os monarquistas, militaristas e anti-semitas durante o Caso Dreyfus, e foi dos primeiros a alertar, na França, sobre a ameaça fascista nas décadas de 20 e 30. É já nesse contexto antifascista que ele publicou A Traição dos Clérigos em 1927. Prefere falar de “clérigos” em vez de “intelectuais”. Se os dois termos são na prática intercambiáveis (pois Benda pode dar o título de “clérigo” qualquer poeta, pintor, dramaturgo, filósofo ou cientista), o emprego de um termo mais arcaico que o de “intelectual” serve para acentuar a continuidade, desde a Idade Média, de uma categoria de homens claramente identificáveis. São aqueles 

 

cuja atividade, por essência, não busca atingir fins práticos, mas que, encontrando sua alegria no exercício da arte, da ciência ou da especulação metafísica, numa palavra: na posse de um bem não temporal, dizem de algum modo: “meu reino não é deste mundo”.

 

 A Traição dos Clérigos começa citando Tolstoi, que em um de seus escritos lembrava sua experiência como oficial do exército russo. O autor de Guerra e Paz acompanhava um pelotão em marcha, quando viu um de seus colegas espancar brutalmente um soldado que se distanciava do grupo. Tolstoi perguntou para o oficial se ele não se envergonhava de tratar assim um semelhante: “o senhor nunca leu o Evangelho?” Ao que o oficial respondeu: “e o senhor? Nunca leu o regulamento militar?” Esta resposta, diz Benda, é a que o poder temporal, o poder terreno,  sempre dirigirá ao poder espiritual, às pessoas que representam os imperativos “que não são deste mundo”.

 

Para Benda, a traição dos clérigos surge no momento em que estes  passam a dizer: “não somos de modo algum os servidores do espiritual; somos os servidores do temporal, de um partido político, de uma nação. Só que, em vez de servi-los com a espada, nós os servimos por meio da escrita. Somos a milícia espiritual do temporal.”

 

Benda visava sobretudo os escritores e filósofos de direita, os ultranacionalistas de diversos países, tanto Kipling, na Inglaterra, quanto d’Annunzio na Itália e Barrès na França. É principalmente uma frase escandalosa de Maurice Barrès, que para Benda traduz todo o sistema da “traição dos intelectuais”. O célebre esteta conservador, ídolo de uma geração inteira de escritores, declarou certa vez que “a pátria, mesmo se estiver errada, temos de lhe dar razão”. “Right or wrong, my country”: o conhecido lema dos países anglo-saxões recebe, das mãos de Barrès, uma formulação um pouco mais alambicada, embora inequívoca.

 

Benda critica todas as variantes desse tipo de raciocínio. Em especial, a idéia de que exista uma “verdade particular”, uma “moral particular”, própria a cada época e a cada país, ou, se quisermos, a cada classe e cada pessoa. Eis um em que as idéias de Benda parecem inapelavelmente antiquadas. Com efeito, nada mais comum hoje em dia do que ouvirmos frases como “cada um tem a sua verdade”, ou “esta é a minha verdade, pode não ser a sua”... O problema é que a partir daí, institui-se, é claro, o vale-tudo –na ética, na política, na filosofia.


 

Escrito por Marcelo Coelho às 08h57

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A traição dos intelectuais

A traição dos intelectuais

 Zola, por Manet

Acaba de sair, pela  editora Companhia das Letras, uma coletânea de ensaios organizada por Adauto Novaes, a partir do  ciclo de palestras  O Silêncio dos Intelectuais, realizado há cerca de um ano em várias capitais brasileiras. No texto que escrevi para o livro, falo de alguns momentos especialmente desastrosos da carreira de engajamentos políticos de Sartre, da independência de André Gide diante da União Soviética, do papel brilhante de Zola durante o  Caso Dreyfus, onde a luta por "Verdade e Justiça" não era simples defesa de "abstrações burguesas", mas exigência de vincular valores universais, imutáveis, a sua aplicação concreta, sem ceder aos imperativos da "razão do Estado".

Para mim, o intelectual que se submete à "razão de Estado" --ou do partido-- deixa de ser intelectual para se transformar em ideólogo, ou marqueteiro de luxo. A tese, em pleno calor da luta antifascista, foi apresentada por  Julien Benda em 1927, e falo bastante sobre o seu livro A Traição dos Intelectuais. Parte substancial dessa obra foi traduzida para o português, na coletânea Intelectuais e Política. A Moralidade do compromisso, organizada por Elide Rugai Bastos e Walquíria Domingues Leão Rego, para a editora Olho d'Água. Informações sobre o livro no site da livraria Cultura:http://tinyurl.com/glgbn

  

Escrito por Marcelo Coelho às 08h56

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palavras inspiradoras

palavras inspiradoras

Velhos sociólogos podem animar, com suas palavras, o marasmo de comitês eleitorais. Leia o cronista do "Agora" em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1909200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 08h14

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A um toureiro morto

A um toureiro morto

 

Edouard Manet, "Toureiro Morto" (1864)

 

Transcrevo a terceira parte de um poema de  Eucanaã Ferraz, no livro Rua do Mundo (ed. Cia. das Letras):

Sou a camisa do toureiro morto,/a cal magra, a casca, a casa que ele vestia/à maneira de um pássaro/que o calçasse inteiro/e protegesse, de modo que/seu peito já não se lembrasse

que o maciço compacto de minha alvenaria/era só uma fiada e outra/de algodão e fresta,/nó e fenda./Sou o muro/estreito

e bem cortado, o reboco, a parede/delgada, a camisa que morreu/com ele, o muro, o metro/exato e reto que, no entanto,/ já não pode tal corpo/ que, extático, parece alastrar-se

como árvore, ao avesso, porque morta,/rio, ao avesso, morto, poça/de terra e não de água, de terra/que se derramou para voltar à terra./O que em mim era casa/deixou fugir as vigas, descolou-se,

emagreceu dos ossos, tornou-se aéreo./Um morto é inquilino que não me serve e já/ outras paredes vêm chegando:o paletó/ de pinho ostenta cadeados definitivos,/colarinho de barro e lata.Morto,/nenhum veludo orna as ruas

sinuosas de seu intestino; músculos nus,/açúcar o que era arame. Sou a camisa/ encharcada de água em que se ferveu a carne,/o peixe, o adubo gorduroso da cabeça,/da língua, dos olhos daquele que amei, que amei/como uma casa ama a chama de sua régua.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h03

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carros e caminhões

carros e caminhões

Escrito por Marcelo Coelho às 22h45

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Os carros na pintura

Os carros na pintura

 

Um estudo poderia ser feito sobre a presença do automóvel na pintura brasileira. Há sempre alguma coisa de “antipictórico”, de pouco plástico, na maioria das representações do tema; um quadro de Carlos Oswald, se não me engano, é exemplo desse mal-estar, em inícios do século 20; a idéia era mostrar uma paisagem urbana chuvosa, com um fordeco brilhando seus faróis amarelos na neblina. Talvez porque os modelos dos carros involuntariamente contribuam para “datar” a paisagem, o efeito é sempre  de uma intromissão.

 

A capa de  "Oswaldo Goeldi: Iluminação, Ilustração", de Priscila Rossinetti Rufinoni (ed.  cosacnaify), mostra um raro exemplo de pureza e estilização do carro, numa xilogravura não muito conhecida, acho, do mestre brasileiro. Evoca aqueles subúrbios poeirentos da década de 40, onde o carro parava no fim do caminho, simplesmente porque a cidade, não como hoje, “acabava” em algum lugar; piqueniques em Santo Amaro, um último poste de iluminação...  Carro e poste parecem defrontar-se, mirando um ao outro, sem presença humana por perto.

 

Na minha série de fotos de cartazes populares, os carros ocupam um lugar à parte. Gosto muito de notar as dificuldades que há em desenhá-los na perspectiva correta. Postos de gasolina, revendedoras de carros, mecânicas, estacionamentos e lava-rápidos são um tesouro nesse campo, desde que perdidos em alguma estrada do interior. Abaixo, uma pequena obra-prima, retratando um furgão antigo.

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h16

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O desânimo de Belmiro

O desânimo de Belmiro

Máfias, sanguessugas, vampiros...para Belmiro, a conclusão só pode ser uma: não há nada a fazer. Sua esposa, entretanto, tem visão diferente. Leia a coluna do "Agora" em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1809200603.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 13h58

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arte urbana

O artista plástico  Eduardo Srur faz mais uma de suas intervenções em prédios de São Paulo. Agora é no Museu Brasileiro da Escultura, lugar dos mais burgueses, em pleno Jardim Europa. Sobre a rigorosa estrutura de concreto de Paulo Mendes da Rocha, instalou, como se numa favela, montes de antenas de TV.

 

 

 

 

A intenção, aqui, é evidentemente crítica, mas Srur já fez modificações muito doces em prédios da cidade.

Num hotel da rua das Palmeiras, que estava para ser desativado, ele grudou uma âncora de ferro, fortíssima. Na carcaça de um hospital inconcluso, na Doutor Arnaldo, ele montou uma espécie de instalação vertical, a que chamou de “Acampamento dos Anjos”. Cito um trecho do artigo que escrevi na Folha sobre essa obra.

São umas vinte barracas de camping de várias cores, iluminadas por dentro com luz fria, saindo das sacadas do prédio; parecem lanternas japonesas, ou talvez uma decoração de Natal. Só que uma decoração de Natal seria muito mais carregada e em pisca-pisca.

Assimétricas e esparsas, as barracas ocupam o prédio com muita delicadeza e, mais importante do que isso, sem motivo --surgiram do nada, de repente, e se de noite, de longe, como as vejo do meu apartamento, têm algo de infantil ou de “naif”, dão uma espécie de susto quando a gente as vê de perto. 

  Quem sai das imediações do estádio do Pacaembu e se encaminha em direção à avenida Paulista é forçado a subir um ladeirão, quase sempre congestionado, que se chama rua Major Natanael. É uma rua larga, entre duas espécies de abismo: à esquerda, a boca de um túnel, do qual saem carros em contra-mão; à direita, o compridíssimo muro de um cemitério.

Algum artista do passado lembrou-se de colocar, num nicho desse muro, a estátua de Cronos: um velho sentado, de barba comprida, tendo em mãos uma ampulheta. Seria para nos lembrar da Morte, da Velhice e do Tempo, mas como há um semáforo interminável no alto dessa ladeira, a tendência do paulistano que repara na escultura é das menos contemplativas: buzina e bufa, pensando no compromisso a que chegará, mais uma vez, com grande atraso.

Essa ladeira dá de cara com o prédio em que foi montado o “Acampamento dos Anjos” --e é então que a obra de Eduardo Srur provoca no motorista (quase não há pedestres por ali) seu maior impacto. Com os olhos grudados no carro em frente, tive uma sensação de surpresa muito feliz --uma surpresa de ordem “respiratória”, por assim dizer-- quando o tal edifício de repente pareceu atrair minha atenção. Levantei os olhos e vi aqueles andares, sempre vazios, como que habitados de forma ao mesmo tempo fantasmagórica e festiva.

Posso estar sugestionado, é claro, pelo título da obra. O próprio movimento do olhar, para quem chega no fim da ladeira, é ascensional; e que os anjos acampem num prédio logo em cima do cemitério, eis o que não deixa de ser boa notícia.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 10h59

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chapeuzinho nervoso

chapeuzinho nervoso

Há três ou quatro montagens diferentes de "Chapeuzinho Vermelho" em cartaz na cidade. Fui ver uma muito elogiada, a da  cia Le Plat du Jour, sábados e domingos às 13h 30 no Sesc Pompéia (http://www.sescsp.com.br/sesc/home/index.cfm). Duas atrizes, usando quatro chapéus, trocam de papéis o tempo inteiro, num espetáculo engenhoso do ponto de vista narrativo. É boa a solução encontrada para pôr em cena a barriga de lobo mau, de a aparição do personagem, ao mesmo tempo surpreendente e esperada, cria um clima onírico que, infelizmente, não foi explorado no resto da peça. Ao contrário. Usando de recursos circenses, as atrizes participam daquela síndrome que comentei em post anterior, que é a de confundir entretenimento com excitação. Desde o começo, o sorriso crispado, caricato das atrizes/clowns, a voz agudíssima, no gênero Iara Jamra, de Chapeuzinho, as piadinhas metalingüísticas fáceis, tudo vai impondo uma tensão desnecessária, forçada, ao que podia ser encantatório ou mesmo assustador. O procedimento cômico básico é o de repetir incansavelmente um mesmo diálogo, feito de duas frases curtas, pronunciadas num ritmo cada vez mais acelerado e frenético. Estamos sempre no limiar da histeria, que felizmente não contamina o público infantil; antes o aborrece.

É curioso como atores de teatro infantil, a exemplo de animadores de festinhas, surgem no palco tensos, contraídos, histéricos, como se encarnar um personagem de conto de fadas envolvesse a mais deliberada crítica à famosa "willing suspension of disbelief" (voluntária suspensão da descrença) teorizada por  Coleridge. Enquanto isso, a maioria dos atores de teatro adulto patina numa espécie de desatenção, de relaxamento, de desleixo técnico, como se ficassse no meio termo entre o personagem e o que eles são na vida cotidiana. Nos dois casos, a tolerância do espectador é sempre posta à prova.

 numa ilustração antiga, obssessividade e repetição.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h44

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imobiliária

imobiliária

"Data venia", como dizem os juristas, ampliei a área de cobertura desta seção, passando a reproduzir desenhos populares não só de pizzas, mas de outros temas. Alguns cartazes de imobiliária, por exemplo.

  

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h57

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voltaire de souza

Pesquisas eleitorais podem ser interpretadas de muitas formas. Na coluna de hoje do "Agora", o sociólogo Ademar se mostra bastante criativo. http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1609200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 14h37

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Felicidade ao alcance da mão

          Géo Norge, 1898-1990

 

 Géo Norge é um grande e desconhecido poeta belga. Traduzo algumas de suas curtas composições em prosa, que a meu ver secretamente compartilham um único tema.

           (Sem título)

No jardim de uma fada, um passarinho se lamentava, fazendo de seu exílio motivo para um canto triste. Um dia, a fada se comoveu com aqueles pedidos.

--Belo pássaro, diga qual é o seu desejo: tenho poderes para atendê-lo.

E a sua varinha já se preparava para algum prodígio.

--Gentil desconhecida, respondeu ele, meu sonho é ser um pássaro no jardim de alguma fada.

                                                                         (de O Impostor, 1937)

      NO CIRCO

E agora, respeitável público, apresentamos, pela primeira vez na face da Terra, fora de sua jaula, com seu peitoral multicor e toda sua crina ao vento: a Felicidade. (Música, rufar de tambores). Ela apareceu. Era verdade, tratava-se da felicidade. E que tamanho enorme! Como estava solta, atirou-se em direção ao público, rugindo, e devorou a maior parte dos espectadores.

 

       O CÉU

Nunca viu o céu, aquele menino criado no fundo de uma mina. Nada de estações, nada de sol. A beleza do carvão e a beleza das lâmpadas, a beleza dos rostos, sim. Mas o céu: nunca viu, nunca acreditou que existisse. As árvores, os pássaros: nem vale a pena falar. E você, viu o céu mesmo?

                                                                                     (de Cebolas, 1956)

            (sem título)

Que olhar seria agudo o bastante para distinguir das outras noites esta noite tão redonda?

E para perceber este rumor quase inexistente, existirá um ouvido suficientemente intacto, suficientemente puro? Somente alguns diamantes se riscaram, somente –no fundo dos salões forrados de feltro—algumas harpas mais atentas fizeram um chamado com sua nota mais grave.

E pálida, abandonada em meio a todas as dobras daquele feitiço, a catedral se dissipou como se feita de névoa.

O nascer do sol aponta um grande vazio esculpido que ninguém ousa atravessar.

Revoadas de andorinhas procuram as torres.

                                                            (de O Impostor)

 

        MARÇO

As chaves que adormecem há cem anos debaixo da terra recolheram muitos segredos.

Acariciadas pelas estações, visitadas pelos ossos de andorinhas, pelas raízes, pelas nascentes, impregnadas das mais finas seivas, elas pensam, e se enriquecem.

Quando uma enxada brutal vem desvelar seu sono fértil (belas chaves de ferro, belas chaves de ouro), elas se tornaram sábias e sutis.

Abrem outras fechaduras, que não são aquelas dos homens.

 (de Calendário, 1933)

 Creio que em todos esses poemas existe a idéia de que a maior mágica está em devolver as coisas à sua própria natureza; em promover um desaparecimento, uma retirada daquilo que nos impede de ver o que as coisas de fato são; uma abolição, talvez, de toda fé, de toda esperança naquilo que não pertence, desde sempre, ao nosso mundo.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h37

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cristiano mascaro

Por falar em fotos de cidades, o fotógrafo Cristiano Mascaro está com uma exposição, intitulada "Cidades Reveladas", no Museu da Casa Brasileira (http://www.mcb.sp.gov.br/mcbItem.asp?sMenu=P002&sTipo=5&sItem=641&sOrdem=0). Aqui vai uma, também em preto e branco, de Recife, onde a própria água do mar funciona como uma espécie de papel fotográfico, como uma película de nitrato de prata diante da realidade.

                          

Escrito por Marcelo Coelho às 23h55

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pechincha

Para quem se interessa em fazer downloads de música clássica, o www.classicalmusicmobile.com oferece obras inteiras, independentemente da duração, ao preço de 1 euro (1 dólar e 30 cents aproximadamente). Sinfonias de Brahms com Furtwängler, o seu "Réquiem Alemão" com Karajan e Schwartzkopf, e quartetos de Bartók com o quarteto Vegh fazem parte do (não muito extenso) catálogo.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h29

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em preto e branco

 

                    

                    Centro de São Paulo, noite, em foto de Tuca Vieira

Fotos de São Paulo, em especial á noite, para mim ficam muito mais bonitas se forem em preto e branco. Fiz com o fotógrafo Tuca Vieira, há um ano, um livro para a coleção "Cidades do Brasil", editado pela Publifolha. Eram coloridas, e organizavam um panorama bastante pessoal de pontos turísticos e cuturais mais ou menos "inevitáveis" de São Paulo, num livro também voltado ao público estrangeiro. Mas nada se compara, a meu ver, às fotos em que o anonimato dos habitantes se traduz no anonimato das grandes estruturas de cimento sem nome e sem letreiros, como a que vai abaixo. Há outras disponíveis no blog que Tuca Vieira acaba de inaugurar, o http://tucaleidoscopio.zip.net

Escrito por Marcelo Coelho às 19h14

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Walter Benjamin e o arco-íris

A menina cega, de J. E. Millais

 A gente sempre se espanta com o fato de que, a partir de apenas sete notas (doze, na verdade), seja possível criar um número infinito de músicas. Mas é também espantoso que todas as cores do mundo, igualmente infinitas, se originem apenas da mistura de três. Quem tem um tempo de brincar no computador já experimentou escolher cores diferentes de tela ou mesmo dos caracteres do word, e tem à sua disposição uma paleta lindamente nuançada , com seus vários arco-íris desdobrados em várias escalas de intensidade e luz.

Antes de seus estudos sobre Baudelaire e sobre o Drama Barroco Alemão, o crítico e filósofo Walter Benjamin dedicou-se a algumas especulações sobre a essência das cores --tema clássico no pensamento romântico alemão, desde Goethe. Cito um trecho muito bonito de "A visão das cores de uma criança", texto escrito entre 1914 e 1915:

A cor é algo espiritual, algo cuja claridade é espiritual, pois quando as cores se misturam, elas produzem novas cores, não um borrão. O arco-íris tem a pureza da infância.

O que interessava Benjamin era a idéia de que, de uma realidade sensível, empírica, material, como a cor, pudesse deduzir-se algo de espritual e infinito. O peso, a espessura, a grosseria da matéria tenderiam a fazer com que tentativas de superposição de muitas cores resultassem numa massa obscura e feia. É o que nos acontece quando, na infância, aprendemos que azul com amarelo dá verde; logo tentamos fazer isso com a tinta guache, e dá razoavelmente certo. Só que, depois de mais umas experiências e misturas, o resultado acaba sendo a famosa cor-de-burro quando foge. No computador, assim como na natureza, a mistura entretanto dá certo, novas cores sempre se criam, porque qualquer que seja a dosagem entre as três cores básicas, está sempre garantindo o resultado uma quantidade fixa de transparência e luz.

Segundo Martin Jay ("Is Experience Still in Crisis? Reflections on a Frankfurt School Lament", in The Cambridge Companion to Adorno), que cita os estudos de Howard Caygill (Walter Benjamin: The Colour of Experience) Oo que move a obra de Walter Benjamin é a esperança de ver em qualquer dado da realidade concreta, material, a presença do infinito.

Ainda sobre crianças e cores, Arthur Nestrovski publicou, pela  Cosacnaify, com ilustrações de Marcelo Cipis, um pequeno e imensamente poético livro infantil sobre a experiência de ver cores: mesmo as que não existem. Há em Cores das cores ilustrações sobre "a cor da cozinha de manhã", "a cor da noite na varanda", e sobre os diferentes verdes do jardim: ao sol, na chuva, na sombra. Uma página não tem cor nenhuma: fala-se da cor que o irmão mais velho diz ter como preferida, e que na verdade o irmão caçula sabe que não é a preferida dele... Não deixa de ser, a seu modo, uma experiência do infinito: cada cor se desmaterializa quando confrontada com o tempo, com a imaginação, com o que -sabemos-- não existe. Do mesmo modo, um arco-íris se dissolve antes que consigamos encontrar o tesouro que se esconde em seu fim.

 Capa de Cores das cores, tirada do site da cosacnaify

Escrito por Marcelo Coelho às 14h53

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voltaire de souza

Com a proximidade das eleições, cresce o nervosismo em alguns comitês eleitorais. Na crônica de hoje no "Agora", um irritado assessor político conta com os pontos que faltam para o segundo turno.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h23

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esqueçam Paulo Betti

A frase de Paulo Betti é fichinha perto do artigo escrito por Rose Marie Muraro, na Folha desta terça-feira. Para a autora, os grandes empresários e políticos da classe dominante

 

fabricaram a noção de moralidade para que os dominados continuassem pobres, sem competir com eles [...] Ser moral dentro de um sistema imoral é legitimar a imoralidade. A ética só é verdadeira quando trata o problema a partir de suas raízes, transformando um sistema mortal e competitivo num outro em que as decisões sejam tomadas pela sociedade organizada de baixo para cima e que, portanto, possa suprir as necessidades de todos, e não apenas as de uma classe treinada desde que nasce para ter seus interesses atendidos a qualquer preço. Acho que só é honestidade a luta contra a injustiça.

 

Vale repetir a frase-chave do raciocínio. “Ser moral dentro de um sistema imoral é legitimar a imoralidade”. Não dá para acreditar nessa enormidade.

Se alguém está, de fato, legitimando a imoralidade, é Rose Marie Muraro. A partir daí legitima-se qualquer coisa, a rigor, em nome da luta contra a injustiça social. Condenar o assassinato num sistema assassino é compactuar com o assassinato. Não ser torturador num regime que tortura é legitimar a tortura. Qualquer fuzilamento será apoiado desde que para construir um regime socialmente justo. O menos que se pode dizer é que isso já foi tentado, e não se conseguiu criar um sistema capaz de “suprir as necessidades de todos”, com “decisões tomadas de baixo para cima”.

 

Tudo era mais fácil numa época em que o PT podia acusar a falência ética das elites, e apresentar-se como defensor, não digo nem mesmo de uma moralidade abstrata, mas de princípios republicanos e democráticos essenciais, como o de uma gestão transparente do orçamento, o não-loteamento de cargos para partidos fisiológicos, a distribuição de verbas segundo critérios técnicos, sem privilegiar prefeituras do próprio partido, o fim das concessões de rádio e TV a apaniguados... Rose Marie Muraro considera que, agora, vale tudo.

 

Ela desenvolve uma curiosa teoria psicossociológica segundo a qual, desde a infância, os ricos são acostumados a ter seus desejos satisfeitos, enquanto os pobres, convivendo com a frustração, “apreendem” (?), sem questionar, “o mundo como expropriador de seus direitos essenciais”. Tornam-se então honestos. Muraro continua:

 

Ou seja, a honestidade e a moralidade da maioria da população sempre foram o esteio da sociedade de classes.

 

Não podemos negar então que Delúbio e Silvinho Pereira estavam, desse ponto de vista, exercendo uma obra de inestimável valor pedagógico. Ensinavam à população pobre que a moralidade era apenas um instrumento utilizado pelo opressor. Pena que tenham sido afastados de seus cargos. Eram legítimos revolucionários.

Mas não nos preocupemos em demasia. Se o PT ainda está dando seus primeiros passos na crítica à honestidade, Marcola e os pessoal do PCC são prova de que há desonestos e imorais à vontade, junto aos setores dominados da população, capazes de nos levar rapidamente ao mundo socialmente justo e democrático que tanto almejamos.

 

Podemos então desistir de ética na política. Para que moral? Temos Muraro.

íntegra do artigo em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1209200608.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 22h20

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Morte de um coronel

Leio nas notícias de última hora que o coronel Ubiratan, responsável pelo massacre do Carandiru, foi morto com um tiro no peito em sua casa.  E que o diretor do Carandiru na época do massacre morreu em outubro, em crime atribuido ao PCC.

         De modo que todo nosso horror diante do massacre do Carandiru recebe, agora, resposta hedionda em assassinatos.

         Os defensores dos direitos humanos estão perdendo sua segunda batalha. Perderam pela primeira vez, quando os adeptos do coronel Ubiratan identificavam como ingênua e cúmplice dos bandidos qualquer pessoa que quisesse humanizar os presidios. Perdem pela segunda vez, quando a bandeira da humanização dos presídios, quando a bandeira da condenação aos massacres, é tomada de suas mãos e serve a assassinos.

         Lembo, Alckmin, Lula, Covas, Marcio Thomaz Bastos, Saulo, Fleury, Montoro, Maluf: em todos há responsabilidade pelo assassinato da ordem, pelo fascismo apolítico que toma conta de um país que descrê da lei.

Descrê da lei ao ver o Estatuto da Criança proteger psicopatas e estupradores; descrê da lei quando os simples principios de uma cadeia com regras mínimas de funcionamento se vêem adulterados pela corrupção.

Não apenas se faz justiça com as próprias mãos, com o recurso a “justiceiros” e policiais privatizados, num recurso extremo ao banditismo legal. Passa-se, agora,  à criminalização dos direitos humanos, à sua instrumentalização em nome do PCC. Por pura incompetência (outro nome para a estupidez e para a barbárie governamental), a civilização se torna sinônimo de assassinato. 

 

PS em 12 de setembro: os indícios apontam, como notaram vários leitores nos comentários, no sentido de um crime passional, sem relação com o PCC. Isso invalida o "gancho" do texto, e seu tom exasperado, mas a situação básica permanece: o crime organizado, desde aquele "manifesto" lido na Globo, assume bandeiras legítimas como a humanização dos presídios para dar livre curso à sua bestialidade. A idéia dos direitos humanos morre, então, pelas mãos dos fascistas e pela mãos dos criminosos.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h43

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O 11/9 segundo Chauí

Transcrevo, sem comentário, uma consideração da filósofa Marilena Chauí sobre o impacto do atentado ao World Trade Center, que está em seu livro "Simulacro e Poder- Uma análise da mídia". No rádio e na televisão, diz ela, a desinformação adquire várias formas, entre elas a "ausência de referência espacial ou atopia":

as diferenças próprias do espaço percebido (perto, longe, alto, baixo, grande, pequeno) são apagadas: o aparelho de rádio e a tela da televisão tornam-se o único espaço real. As distâncias e as proximidades, as diferenças geográficas e territoriais são ignoradas, de tal modo que algo acontecido na China, Índia, Estados Unidos ou Campina Grande apareça  igualmente próximo e igualmente distante. É assim, por exemplo, que os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 na cidade de Nova York (quando foram destruídas as duas torres do Centro Mundial de Comércio, ou World Trade Center) foram sentidas com grande emoção no Brasil, tendo algumas pessoas se referido ao fato como se fosse algo muito ´próximo e que as atingia, embora continuassem olhando calmamente e sem nenhuma emoção para crianças esfarrapadas e famintas pedindo esmolas nas esquinas das ruas de suas cidades.

 

No filme "King Kong", um momento marcante da luta antiglobalização.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h12

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onze de setembro

Cinco anos depois do atentado ao World Trade Center, o pintor neo-realista Mark Innerst inaugura uma exposição de quadros em Nova York, na Paul Kasmin Gallery (www.paulkasmingallery.com) Divulgo um trabalho anterior do artista, que tem um modo muito sinistro e ameaçador de retratar a paisagem urbana.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h01

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voltaire de souza

A questão do voto nulo é objeto de comentário equilibrado na crônica de hoje do "Agora": http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0909200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 09h19

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FHC perde o rumo (2)

 

Assessoria de FHC comemora sucesso da sua carta

 

 

Fico sem entender totalmente o que quis Fernando Henrique com a carta aos peessedebistas que ele divulgou hoje. Em parte, é um programa de governo para Geraldo Alckmin (que até agora não apresentou nenhum). Mas é também um programa para o não-governo de Alckmin. Nesse sentido, é como se FHC dissesse não só que tucanos são diferentes de petistas (tema em que ele insiste ultimamente), mas também que o PSDB não acaba com o naufrágio da atual candidatura. Ele poderia esperar a derrota de Alckmin para aí surgir como "refundador do partido". Mas FHC não quis deixar passar a oportunidade de estimular o voto no candidato ao mesmo tempo, para poder posar, no caso de uma ida ao segundo turno, como "salvador da candidatura Alckmin". O resultado é que o texto faz críticas à política de segurança do Estado de S. Paulo, faz críticas ao partido no caso Azeredo ("nós nos calamos muito tempo") e ao mesmo tempo elogia Alckmin, e insiste que os desvios do PSDB em termos de ética não são os mesmos que os do PT. Quanto mais ele quer se diferenciar, mais se aproxima dos famosos "erros" do PT. Quanto mais quer apoiar a candidatura Alckmin, mais acentua a fraqueza da mesma. No PSDB, afinal, cada um joga por si: o apoio de FHC a Alckmin tem o sabor de "não disse que era melhor o Serra?", enquanto a crítica a Lula significa "não permito que o Aécio se alie com o Lula". Enquanto isso, não há alckmista que não fuja do apoio de FHC, dada a impopularidade do ex-presidente. Como em toda derrota, o movimento é centrífugo, e o texto de Fernando Henrique dá voltas em torno de si mesmo.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h09

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FHC perde o rumo

Fernando Henrique Cardoso escreve uma longa carta aos militantes e simpatizantes do PSDB. Há muita coisa a comentar --escrevi um artigo para a Folha de sábado-- mas quero analisar aqui em mais detalhe o que FHC disse sobre o Bolsa-Família. Primeiro: "resultou de programas que nós criamos". Segundo: "vem sendo desvirtuada pela velocidade eleitoreira com que cresce". Terceiro: há "descuido na verificação dos requisitos para sua obtenção." Quarto: "tem sido feita no embalo da pura propaganda eleitoral, tornando um propósito saudável, pois inauguramos estes programas como um 'direito do cidadão', numa benesse do papai-Presidente." Com isso, diz FHC, forma-se uma "nova clientela do governo", o "maior exército de reserva eleitoral da História".

Não dá para engolir. Com Fernando Henrique, a política de assistencialismo seria "direito do cidadão". Com Lula, é "benesse do papai-Presidente". Com Fernando Henrique, não seriam auferidos benefícios eleitorais. Com Lula, sim. E o que seriam os "requisitos" para obtenção do Bolsa Família? Se isso implica exigência de estar com os filhos na escola, por exemplo, parece-me claro que tudo vira mesmo uma coisa de "papai-Presidente". Quem não levar as crianças direitinho na escola, eu corto a mesada... O miserável anda se comportando mal? Papai-presidente não gosta. A exigência de contrapartidas para uma política que visa, afinal, a minimizar a miséria extrema é mais "paternalista", nesse sentido, do que simplesmente dar o dinheiro sem controlar o comportamento do cidadão.

Íntegra da carta de FHC em http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u82171.shtml

Meu artigo na Folha de sábado: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0909200607.htm

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h48

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O que você faria?

O que você faria?

Não tenho nenhuma experiência com entrevistas de seleção profissional, nem vocação para executivo, mas "O Que Você Faria?" ( El Método), filme de Marcelo Piñeyro atualmente em cartaz, me pareceu de um simplismo total. Sete candidatos a um posto importante numa empresa se reúnem para uma espécie de dinâmica de grupo: numa sala, monitorada por câmeras ocultas, eles interagem sozinhos, tratando de não serem os eliminados nos vários testes que lhes são propostos na tela de computador.

O problema é que os testes são meio bobocas, a meu ver, e as reações dos diferentes personagens se tornam inconvincentes à medida que eles se mostram destituídos do mínimo de malícia que seria exigido das funções que pretendem ocupar. Um exemplo tolo: servem para todos os candidatos uma comida na hora do almoço. A comida tem aspecto horrível, cheira mal, e é intragável. A-há! Um teste. A maior parte dos candidatos come tudo, para mostrar sua "disposição ao sacrifício". Ou será que é o filme que está querendo mostrar de que modo o Sistema leva os indívíduos a progressivos estágios de abjeção? O fato é, que se eu estivesse fazendo aquele teste, pararia de comer na hora. Vai que aquilo me faz passar mal, me dá enjôo... como eu poderia me desempenhar bem nas etapas seguintes da seleção? Será que nenhum daqueles candidatos pensou nisso? Em situações mais complexas, as decisões dos candidatos são ainda mais furadas, com farrapos de cálculo estratégico que, acho eu, tende a ser primário para qualquer pessoa com algum treino no assunto; ou com treino em games de raciocínio. 

É o mesmo caso daquele "A Experiência", filme alemão que imagina pessoas normais colocadas num presídio de segurança máxima. Em pouco tempo todos viram animais; o filme foi baseado numa experiência real, feita por um psicólogo na década de 70. Para dramatizar e didatizar a situação, esse tipo de filmes torna tão sumário o comportamento dos personagens que, em vez de iluminar a realidade, fazem o espectador  preferir um reality show. E há também  O Corte, de Costa Gavras (estranho esse gosto por títulos com uma só palavra). O realismo da encenação conflita com a alegoria política que se quer transmitir: mundo corporativo, globalização, concorrência entre iguais, tudo isso resultando em desumanização. Nada contra a tese, mas a distância dos roteiristas diante de qualquer realidade concreta nessa área torna tudo implausível, tolo demais; situações falsamente concretas, personagens abstratos. Os executivos de uma multinacional são, infelizmente, menos tolos do que imaginam alguns de seus críticos de esquerda.  

Escrito por Marcelo Coelho às 16h15

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voltaire de souza

Entre o desencanto e o patriotismo, Elpídio vive um 7 de Setembro tumultuado na crônica "Comoção Interna", do Agora de hoje. Para quem ama o Brasil e não tem medo de escatologia: http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0709200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 09h46

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Teologia em debate

O inferno, segundo UOL Busca Van der Weyden

 

Estive em Minas no começo da semana, para falar num ciclo de debates. Entrei no hotel às duas da tarde, a palestra era às sete da noite, e nessas ocasiões sinto nervosismo, paralisia, prazer e fome. Estou sozinho no quarto, o texto da palestra já está pronto –não que eu tenha qualquer segurança a seu respeito--, e , fora reler o que escrevi uma ou duas vezes, não há o que fazer exceto esperar que chegue a hora do sacrifício. Sair, passear pela cidade? Às vezes; outras vezes prefiro ficar quieto. No frigobar, há uma ou duas barras de chocolate. Farei uma palestra: tenho o direito de devorá-las.

 

Mas o melhor, nessa situação, é ligar a TV, impregnar-me de um vazio semântico, de uma ausência de pensamento, que irá acomodar qualquer coisa que eu venha a dizer dali a algumas horas. O curioso, em Minas, é que parece haver ainda mais programas religiosos do que nas TVs de outras capitais.

 

Topei com uma preciosidade. Um debate entre seis teólogos, três protestantes, três católicos. Tema principal: o inferno. Tema secundário: a Salvação. O que é o inferno? As pessoas torram lá dentro? Peguei o debate no meio do caminho, e ninguém concordava, evidentemente, com essa concepção. Ao contrário: tudo estava tão agradável e ameno que um pastor luterano lembrou-se de ressaltar, timidamente, que “alguma dimensão de castigo” tem de ser contemplada pelo conceito. Conceito, de resto, que unifica muitas coisas: do Hades à Geena, há idéias como espaço de tormento ou simples cenáculo de mortos.

 

Mas as questões foram se tornando, hum, mais candentes quando o assunto foi a salvação, e a ressurreição dos corpos. Por exemplo: o que acontece com os grandes nomes do Antigo Testamento? Adão terá ido para o Céu ou para o Inferno? E Moisés? Tem assegurada a vida eterna? O bom Noé: terá sido salvo por Jesus?

 

Certamente, eles foram salvos e vivem a vida eterna. Mas Noé morreu séculos antes de Jesus chegar a este mundo. Enquanto Jesus não vinha, sua alma terá penado em algum lugar? Não, dizem os teólogos. Ao morrer, a alma de Noé já está num plano a-histórico, sem antes nem depois, e encontra-se diretamente com Jesus. Mas –pensei—se isso for verdade, a passagem de Jesus pela Terra não terá sido tão necessária assim. Para tudo há resposta, de todo modo, e, no meu quarto de hotel, atravessado de contingência humana, eu estava sozinho e não fiz nenhuma pergunta aos teólogos de plantão. Devia haver um serviço de atendimento telefônico.

 

Mas outras questões já eram discutidas. A da ressurreição dos corpos, por exemplo. Sabe-se, pela Bíblia, que no Dia do Juízo os mortos ressuscitarão não só em alma, mas em corpo também. Um momento, explicam alguns teólogos. Isso não quer dizer que seja o corpo da gente mesmo. Uma pessoa com transplante de coração não ressuscitará com o coração do outro, nem vice-versa; não ressuscitarei com minhas orelhas cabanas ou quatro graus de astigmatismo.

 

A palavra mais adequada, disse um teólogo, é “corporeidade”: significa a teia de memórias, relações materiais, vivências afetivas e familiares que se formaram ao longo de nossa existência física atual. Sim, é desse “corpo” num sentido mais amplo que se trata, concordou um teólogo protestante. Mas não devemos esquecer de determinada passagem da Bíblia (ele leu para as câmeras) que conta a visita de Cristo ressuscitado aos seus discípulos. Ele atravessou uma parede, sem precisar mexer no trinco ou na maçaneta. Entretanto, logo em seguida sentou-se à mesa e pediu um peixe para comer.

 

Corpo ou não corpo? Peixe ou símbolo teológico de um Peixe? Comeu mesmo o peixe? A discussão foi ficando cada vez mais séria. Como sempre acontece nesses debates, o programa já estava estourando o horário, as questões ficaram nesse ponto, e eu também já estou no limite dos caracteres permitidos neste post.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h27

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Os argumentos de Paulo Betti

A cobrança em cima de Paulo Betti talvez tenha sido excessiva, e ele tem o direito de se defender como pode, depois de ter dito uma frase de que certamente se arrependeu. Mas também não dá para passar em branco o artigo que ele escreveu para a seção Tendências/Debates desta terça-feira. Em alguns momentos, a confiança de Paulo Betti na falta de senso crítico do leitor vai longe demais.

Betti diz que sua trajetória, e a do "maestro Wagner Tiso", são conhecidas. Aqueles que o atacam sabem que ele está associado não apenas ao PT, mas "à memorável batalha de Betinho 'Pela Ética na Política'", e sabem que "constatar as transgressões como inevitáveis não é o mesmo que defendê-las."

Acontece que Paulo Betti não estava apenas "constatando as transgressões como inevitáveis". Saía de um encontro de apoio a quem as cometeu. Quando disse "não se faz política sem sujar as mãos", não estava lamentando o fato, mas justificando que Lula as sujasse também. A menção às batalhas de Betinho fica ridiculamente deslocada. Não faria nenhum sentido participar do memorável movimento Pela Ética na Política" e ao mesmo tempo apoiar um candidato que confessadamente fez uso do caixa 2.

De resto, essa versão de que tudo foi apenas um caso de caixa 2 vai sendo martelada pelo PT, desde que Marcio Thomaz Bastos a formulou pela primeira vez. O problema do mensalão não se resume a "um sistema de financiamento privado de campanhas" que contamina todos os políticos. Quando o Partido dos Trabalhadores consegue empréstimos milionários, tendo como avalistas José Genoino e o dono de uma empresa de publicidade, e quando essa empresa de publicidade tem contratos com o governo, é de favorecimento público a uma pessoa privada, que repassa dinheiro a um partido, que se está falando. Se o sr. Marcos Valério fizesse doações por baixo do pano à campanha de Lula, seria de estranhar, mas seria apenas um indesejável acontecimento de caixa 2. Mas se o sr. Marcos Valério tem contratos de publicidade com o governo, está-se usando o governo para financiar o PT. Mais que isso: se um banco de segunda ou terceira linha empresta dinheiro ao PT, e consegue ser o primeiro a se beneficiar oficialmente de um sistema que não contempla os outros bancos (passando a ser o único, durante meses, que concede empréstimos a trabalhadores mediante desconto direto em folha de pagamento), o caso não é de caixa 2: oferecem-se milhões a um partido, sabendo que dificilmente serão pagos, em troca de um privilégio concedido pelo governo. 

Que os outros partidos, ao receberem dinheiro de caixa 2, promovam favorecimento público a seus doadores, é mais que provável. O PT, que se comprometia com "uma outra forma de fazer política", e que promovia movimentos e mais movimentos pela ética na política, não tinha o direito de fazê-lo. Muito bem; "o PT caiu nesse antigo alçapão", diz Paulo Betti. Ele poderia então estar liderando um movimento pela ética na política, ou ao menos pela ética no PT. Preferiu apoiar Lula, sugerindo que "política é assim mesmo" --logo, estamos todos nesse alçapão, e não sei, de minha parte, por que chamar de "erro", como ele e todo o PT gostam de dizer, uma coisa absolutamente inevitável. Se era inevitável, qual seria o "acerto"? De que "erro" eles se penitenciam?

Na exploração da frase, diz Betti, há "um misto de autoritarismo com oportunismo político". O autoritarismo estaria em "desqualificar os que não se alinham com o pensamento dominante". Paulo Betti não foi desqualificado por ninguém. Ele desqualificou a própria trajetória, que era a de um defensor da ética na política e agora considera que, para chegar ao poder, o recurso a financiamentos irregulares é necessário: "enquanto fez campanhas vendendo bonés e estrelinhas", diz, "o PT não teve chances de chegar ao poder".

Seus adversários são também "oportunistas", porque a onda de ataques em torno de sua frase "explora a minha condição de artista, e as identidades que isso acarreta, para auferir dividendos eleitorais". Seria bom avisar o Lula disso: quem sabe assim ele não convidaria mais artistas para apoiar sua campanha.

 íntegra do artigo de Paulo Betti em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0509200608.htm

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h13

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imagens do dia (2)

A artista plástica Marlette Menezes faz todo dia, em seu blog (http://marlettemenezes.blogspot.com) uma gravura digital com imagens veiculadas no UOL. Ao longo de algumas semanas, diferentes tipos de gravura podem ser identificados: as que, casualmente, se construíram por meio de diversos retratos superpostos, aquelas em que a matéria-prima predominante foram cenas de esportes... e parece sugerir que inquiríssemos, como num mapa astral ou numa foto meteorológica, ou como os arúspices faziam com a entranha dos pássaros, o indecifrável segredo de um dia. No post abaixo, dou um exemplo e comento. 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h49

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imagens do dia

Marlette Menezes, designer gráfica, inventou uma nova forma de gravura digital. São imagens como esta:

A gravura foi construída pela superposição de todas as "imagens do dia" que são veiculadas em seção específica do Uol. Neste caso, de 4 de setembro, as imagens eram as seguintes: 01. Policial do Gate inspeciona mala, com suspeita de bomba, deixada no canteiro central da rua Vieira de Carvalho, região central de São Paulo (08h04) 02. Artista finaliza esculturas da deusa Durga, que serão usadas no festival Navratri a partir do dia 23 deste mês, em Bhopal, na Índia (08h19) 03. Homens olham incêndio causado pela explosão de um carro-bomba em Bagdá. O ataque, que tinha como alvo policiais iraquianos, deixou 4 feridos (08h54) 04. Soldados inspecionam local da explosão de um homem-bomba em Cabul, no Afeganistão. O atentado deixou ao menos 5 mortos (09h11) 05. Família deixa flores em frente ao parque onde trabalhava o naturalista australiano Steve Irwin, que morreu, hoje, após ser aferroado por uma arraia-prego (10h52) 06. Homem navega por enchente em rua da cidade de Srinagar, na Índia. Inundações no leste do país já deixaram mais de dois milhões de desabrigados (14h45) 07. Bombeiro tentam controlar fogo em floresta na região de Caxarias no centro de Portugal (18h41) 08. Bombeiro procura operário desaparecido nos escombros de usina de concreto, na zona norte de São Paulo (19h15) 09. Pedestre olha ondas provocadas por ressaca após frente fria atingir a cidade de Santos, no litoral de São Paulo (20h04) 10. Trabalhadores da Volkswagen da unidade Anchieta (ABC), decidem interromper greve após a direção da empresa suspender as demissões já comunicadas (20h36) 11. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa da cerimônia de entrega dos aviões Mirage 2000, os novos aviões da Força Aérea Brasileira, em Anápolis (GO) (21h15) 12. O técnico Dunga conversa com Kaká durante treino da seleção brasileira para o jogo contra o País de Gales, em Tottenham (Londres) (22h42) 13. Manifestantes usam pneus para protestar contra a importação de pneus usados, ao lado de fora do Congresso Nacional, em Brasília (DF) (23h37)

É possível ver as imagens uma a uma, no link http://www1.folha.uol.com.br/galeria/imagemdodia/dia20060904.shtml

Tudo se torna, evidentemente, quase ilegível depois da manipulação artística. Dá certa vontade de imprimir a gravura, para que pelo menos com o dedo a gente pudesse identificar as diferentes camadas de imagem que se superpuseram. A idéia de superpor camadas de tinta, de cores diferentes, é clássica na gravura. Aqui, isso foi feito digitalmente. As imagens tornam-se de alguma forma presas na tela do computador, com tamanho reduzido, e o vidro do monitor parece um aquário a que nunca teremos acesso.

Fico pensando se não é essa mistura confusa aquilo que, no fim de um dia, se imprime em nosso cérebro, e que o sonho de cada noite irá secretamente desfiar, desagregar e recompor. 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h42

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voltaire de souza

Como escolher entre o péssimo e o pior? Na fantasia feminina, não há perguntas sem resposta. Leia a crônica do "Agora" em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0509200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 17h59

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segredos de Harry Potter (3)

Muita literatura infanto-juvenil acaba ficando chata porque se preocupa demais em levar “ensinamentos de vida” aos seus leitores. Recorre-se a uma armação ficcional mais ou menos pobre, para no fim dar alguns conselhos que são quase de auto-ajuda. Eu mesmo, em “A Professora de Desenho e Outras Histórias” e em “Minhas Férias” (Editora Companhia das Letrinhas) não fugi muito a essa regra. Pega-se uma situação cotidiana (menino tímido no colégio procura namorada, colega burrinho que pede cola ao mais estudioso, grupo de grandalhões que humilha cdfs) e, depois de alguma peripécia, instila-se uma lição de autoconfiança e independência no leitor. Que, se é bom leitor de livrinhos, justamente está no grupo dos humilhados pelos grandalhões. Juntem-se algumas frases sobre a importância da Leitura, e sobre a vacuidade dos videogames, e está pronta mais uma história para que professores indiquem às autoridades competentes.

 

A estrutura desses livros, muitas vezes em primeira pessoa, é do tipo: “eu era assim... fiquei assim... e finalmente aprendi que...” No fundo, é uma adaptação, uma facilitação do antigo “bildungsroman”, o “romance de formação”, ao estilo do grandioso, ao mesmo tempo límpido e enigmático, “Wilhelm Meister” de Goethe.

 

Claro que em “Harry Potter” também existe a intenção didática, moral, que permeia quase toda literatura juvenil. Harry logo fica amigo de um pequeno bruxo de família pobre, Ronny Weasley, e se solidariza com ele quando o vê humilhado pelos bandidinhos escolares reunidos em torno de Draco Malfoy. Atos de nobreza e coragem, que exigem muitas vezes desrespeito às regras do colégio, são protagonizados por Harry e Ronnie. A delinqüência de Draco é contraposta ao excessivo “bom-alunismo” de Hermione Granger, que por sua vez será corrigida desse defeito ao se tornar amiga da dupla. Tudo isso é ensinamento moral, mas com a qualidade de não ser explicitado por nenhum narrador; nenhum locutor em “off” toma a palavra para ensinar o que quer que seja.

 

Mas o que é mais interessante, do ponto de vista narrativo, não é apenas a inexistência de um narrador “sabichão”. É o fato de que o protagonista da história, Harry Potter, está descobrindo os mistérios da trama ao mesmo tempo que o leitor. Ele sabe tão pouco sobre si mesmo, sobre sua vocação de bruxo, sobre sua predestinação heróica, quanto o leitor. Descobrimos ao mesmo tempo que Harry o seu talento especial para voar de vassoura, na primeira aula de vôo da escola de Hogwarts. O tempo da aventura e o tempo da sua decifração coincidem: creio que isso, tanto quanto os aspectos que abordei nos posts anteriores, ajuda enormemente a tornar a leitura de “Harry Potter e a Pedra Filosofal”. Vamos ver como ficam os volumes seguintes. 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h34

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Brahms e Edison

A gravação a que me referi em post anterior, com a voz de Johannes Brahms (autenticidade contestada) saudando o inventor do gramofone pode ser encontrada em http://www.measure.demon.co.uk/sounds/Brahms.html

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h47

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ódio a Parati

No link abaixo, o escritor Marcelo Mirisola dá vazão a seu desprezo pela festa literária de Parati (recuso-me ao "y" turistóide). Sobra para todo mundo, e me dou por contente de ter sido poupado. Em todo caso, o estilo de Mirisola sempre tem achados surpreendentes. No meio de suas considerações, ele diz que está escrevendo "de frente para o mar e para a bandeja de queijadinhas". Sempre aparece, nos textos dele, um vidro de Toddy, um disco de Odair José, uma bermuda Petistil, quando menos se espera... é o familiar e constrangedor da infância que vem perturbar, denunciando sua fragilidade, o desdém bukowskiano do narrador. Argh... ele seria o primeiro a notar a canastrice da última frase. Em todo caso, aqui vai. Foi publicado no blog de Mario Bortolotto:

http://atirenodramaturgo.zip.net/arch2006-08-20_2006-08-26.html

Escrito por Marcelo Coelho às 15h44

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voltaire de souza

Troquei o nome de um doce na coluna de sábado passado do "Agora"; transcrevo aqui a história, corrigida:

 

DE MÃE PARA FILHO

 

O horário político prossegue. Rostos. Promessas. Ilusões.

Altair era candidato à reeleição. A mãe dele morava em Valinhos.

Ao telefone, sua voz trazia notas de dor.

--Meu filho... vi você no horário político... tão mudado, filhinho...

--Como assim, mãe?

--Parece com todos os outros...

O riso de Altair foi mecânico. Dona Germana continuou.

--Cara de corrupto... de mensaleiro... sanguessuga.

--Um momento, mamãe. Alto lá. Não aceito acusações infundadas.

A voz de Altair assumiu um tom firme e decidido.

--Não compactuarei jamais com a falta de lisura no trato da coisa pública.

--Promete, filhinho?

--Se eu errei, mãezinha, você me desculpa, tá bom?

--Fica direitinho aí que eu te mando o pão de mel caseiro que você adora.

--Pão de mel? conseguiu encontrar de novo aquela receita?

Dona Germana disse que manda o doce pelo sedex.

Altair promete honestidade total. E fala em dobrar a pensão dos aposentados.

Como a mentira, a corrupção tem por vezes o doce gosto do mel.

2/9/2006

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h18

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entreter ou excitar?

entreter ou excitar?

Levei meus filhos para o recém-inaugurado  Aquário de São Paulo ( http://www.aquariodesaopaulo.com.br),  perto do Museu do Ipiranga. O aquário é pequeno, mas tem lá seus jacarés (grande atração para meu filho menor) e peixes ornamentais bem coloridos (pequena atração para o pai dele). O filho mais velho, de quatro anos, ficou interessado numa exposição com modelos de dinossauros; modesta, mas suficiente para impressioná-lo, pois os bonecos rugiam e moviam olhos, braços e cabeças.

 

O problema veio depois. É que no mesmo lugar existe um planetário, e não me esqueço da primeira vez em que vi, quando pequeno, a projeção do imenso céu estrelado que as luzes da cidade nos impedem de admirar. Havia uma voz fazendo a exposição didática, explicava-se um pouco dos planetas, as imagens das constelações se moviam diante dos nossos olhos, e tudo servia como sugestão do que há de insolúvel e de sublime no céu.

 

No planetário do Ipiranga, há gritos o tempo todo. Não das crianças, coitadas. É que resolveram agregar à cena um ator de teatro infantil, misto de palhaço e animador de auditório, com uma peruca em forma de labareda, e um microfone desajustado nas mãos. Uma música pop altíssima fala dos planetas, e o ator pula e faz graça sem parar. Mais do que isso, há explosões, sustos, contorções no pequeno palco.

 

Explica-se o que são asteróides. Muito bem. Um deles, ao cair na Terra, teria provocado a extinção dos dinossauros. O ator faz gestos de dinossauro, o som atinge decibéis astronômicos, uma catástrofe se esfalfa para acontecer. O que importa é deixar as crianças com medo, com vontade de dançar, com vontade de virar asteróide, com vontade de virar dinossauro.

 

O básico, em tudo isso, é que não se concebe entretenimento sem excitação. Tudo o que possa haver de divertido, maravilhoso e –vá lá o termo—instrutivo é sistematicamente demolido pela mesma máquina que movimenta os shows da Xuxa, os bufês infantis. Há nisso o medo de ser chato, talvez, e o medo de não suscitar nenhum tipo de resposta física da platéia (o encanto e o maravilhamento não agitam o corpo). A criança não se distraiu: foi excitada, até o limite do cansaço e dos ouvidos, e depois será entregue de volta aos pais, para fazer compras na lojinha.

 

O programa sai caríssimo: a entrada é de uns vinte reais por pessoa, o valet cobra 12 para estacionar o carro, e as lembrancinhas não custam menos de dez reais.

 

“Ora”, direis, “ouvir estrelas... certo/ Perdeste o senso!” Perdi mais de cinqüenta reais e um pouco da minha sanidade mental também.   

Escrito por Marcelo Coelho às 16h50

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Os palavrões de Lula

Em artigo para a "Folha" de hoje, quis comentar o uso de palavrões por Lula e Paulo Betti, como vinha sendo noticiado ao longo da semana. Claro que as falas de Lula a respeito de países como Chile e Argentina foram ditas num momento de exaltação patriótica, e se referiam menos às características reais de cada país e sim às atitudes dos respectivos governos com relação ao Mercosul. Como factóide, acho menos importante do que a informação, que também constava do livro de UOL Busca Eduardo Scolese e Leonêncio Nossa, a respeito da rudeza com que Lula trata seus subordinados.

O grande "frisson" da campanha eleitoral foi, entretanto, a frase de  Paulo Betti, justificando os "erros" do PT e Lula pelo raciocínio de que fazer política é mesmo "botar a mão na merda". Claro, faz-se política com aquilo que se tem, não com o que se gostaria de ter, como disse Lula em outro contexto. Não é errado; apenas acaba com a esperança de que o PT pudessse, como se dizia antigamente, apontar para uma nova forma de fazer política. É a mesma defesa das alianças em torno da governabilidade que justificou todos os fisiologismos, compra de votos etc. que ocorreram no governo FHC. Mais conchavo, menos transparência, mais acordo, menos democracia, mais Jeffersons, Crivellas, Newtões Cardosos, menos comunidades de base, orçamentos participativos, decisões tomadas "de baixo para cima".

Eis aí uma expressão em desuso: antigamente, o PT e as forças mais democráticas da sociedade insistiam na tese de que tudo tinha de vir "de baixo para cima". Agora, com as teorias da governabilidade --que não são erradas, apenas anti-utópicas, conservadoras-- tudo vem de "cima para baixo"; a merda, principalmente.

Mas hesito em publicar o palavrão, que com tanta alegria os comentaristas repetem no momento. O artigo de hoje na Folha tentou ser um exercício de escrita, falando do asssunto sem mencionar uma única vez o termo explícito. Mas o resultado talvez tenha ficado um pouco "pointless", não muito claro como análise política, e a ironia que se quer muito sutil, quando o sentimento de quem escreve não é de sutileza, corre o risco de não dar certo. Enfim, confira no link abaixo

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0209200610.htm .   

Escrito por Marcelo Coelho às 08h36

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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