Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

perguntas sobre o escândalo (5)

Houve exagero da oposição, sem dúvida, quando se tomou uma frase casual de Lula, num encontro de empresários, como sinal de uma secreta intenção de fechar o Congresso. Mas foi mais do que uma frase impensada a proposta de uma nova Constituinte para fazer a reforma política. O balão de ensaio foi lançado, recebeu críticas de pessoas insuspeitas como o jurista Dalmo Dallari, e foi esquecido rapidamente. O exemplo de Chávez e Evo Morales é, entretanto, incontornável. Se a cultura do PT se mostra tão rápida em negar princípios éticos básicos, considerando-os "moralismo de classe média", "udenismo da oposição", etc., não no PT há impedimento ideológico nenhum para que qualquer proposta chavista de perpetuação de Lula no poder seja apoiada cegamente.

De resto, PSDB e PFL não têm nenhum grande crédito a seu favor nessa questão. O governo Fernando Henrique se opôs à criação de CPIs, como o de Lula agora, e contou com seus filósofos de plantão para justificar a "amoralidade da política". Aprovando, com os métodos mais anti-éticos, a emenda para a reeleição, FHC pôs em prática a tentação continuísta que parece ser endêmica na América Latina. Tentando manietar o Ministério Público, e reclamando do "denuncismo" dos adversários, tucanos e pefelistas foram tão pouco democráticos quanto o PT. Um pouco menos antidemocráticos, talvez. É que o PT, justamente, servia como barreira a abusos maiores por parte do governo. Era depositário de uma aura de pureza moral que agora desapareceu.

É nesse sentido que a generalização dos casos de corrupção termina ameaçando a própria democracia; com todos os agentes da cena política desmoralizados em seu discurso, não há argumento republicano ou princípio impessoal que se sustente; vale apenas o exercício do poder, nas mãos de quem é mais forte.

Duas considerações moderadamente otimistas, para encerrar. As tentativas de impugnar a candidatura Lula, de derrubá-lo num "tapetão" jurídico, dificilmente terão prosseguimento. Se tivessem, o cenário seria dos mais preocupantes: ainda que houvesse dezenas de provas de irregularidades e delitos contra Lula, tentar tirar de cena um presidente eleito com esmagadora maioria de votos seria o caminho mais rápido para o caos institucional. Creio, entretanto, que os ânimos vão se aquietar um pouco depois das eleições; e também que, com a vitória de Aécio e Serra, a própria oposição terá mais interesse em se compor com Lula do que em investir no rompimento. Veremos.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h48

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perguntas sobre o escândalo (4)

Há perigo para a democracia? Há golpismo da oposição? Há chavismo no PT? Começo a ficar um pouco preocupado --não demais-- com o rumo dos acontecimentos. Em setores representativos do PT, parece fortalecer-se a idéia de que nenhum princípio institucional ou ético é sagrado o bastante para não ser desrespeitado, quando está em jogo derrotar "as elites". A argumentação de que a minoria branca não se conforma com a presença de um operário no poder serve para desqualificar toda crítica contra o PT, e todo fato que desmoraliza o partido é tratado como se fosse mentira, fantasmagoria ou invenção. Todos, a começar de Lula, se dizem democratas. Mas toda CPI, toda notícia, todo limite ao poder de Lula é visto como conspiração burguesa e, como tal, deve ser destruído.

 A liberdade de imprensa e os ataques da oposição são tratados pelo PT como algo que deve ser "tolerado", na melhor das hipóteses, e abafado, sempre que possível, na prática. Pela primeira vez desde a ditadura militar, pretendeu-se expulsar um correspondente estrangeiro do país. Tentou-se aprovar uma lei para controlar, a partir de um órgão corporativo e com forte presença da burocracia sindical, as atividades jornalísticas no país. Não é pouca coisa. Lula até que é dos menos antidemocráticos dentro da estrutura petista. Mas é como se a liberdade de expressão fosse uma espécie de dádiva concedida pelo Estado, pelo espírito tolerante do governo. Não fossem os ataques da "imprensa burguesa", não fosse a "conspiração das elites", Silvio Pereira e Delúbio Soares estariam ainda com cargos de direção no PT. A democracia, a crítica, a vigilância, servem para melhorar qualquer governo, não para destruí-lo.

As coisas emperram no Congresso? Emendas de fundamental importância, como a do Fundeb, são combatidas pelo espírito sectário e negocista da oposição (ou da própria base parlamentar do governo?) Isso faz parte da luta política, e me parece de resto inaceitável que um partido supostamente com grande base na sociedade civil organizada não tenha apostado em mecanismos de aprofundamento da democracia para levar adiante seus compromissos de campanha. Ao contrário, aposta em mecanismos de negação da democracia, corrompendo deputados, loteando cargos, propagandeando teses obscurantistas conta o Congresso e a imprensa. Criticam as elites, fazendo aliança com Jader Barbalho, Newton Cardoso e José Sarney. Criticam a imprensa, loteando emissoras de TV para quem faz parte da base parlamentar. Aí não dá. Mas continuo no próximo post.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h25

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perguntas sobre o escândalo (3)

A oposição exagera em suas reações ao episódio? Em dois aspectos, é possível dizer que sim. O primeiro, a meu ver, está na tentativa de vincular a crise do dossiê a um processo de instabilidade econômica. Noticiou-se que o risco-país subiu, nestes dias em que Freud Godoy parecia ser uma espécie de Gregório Fortunato de Lula. O paralelo, em si, já vai perdendo em consistência. As pesquisas não mostram queda significativa na popularidade de Lula; e não deixa de ser um paradoxo que uma eventual subida de Alckmin nas pesquisas viesse a ter efeitos indesejáveis sobre o mercado...

O segundo aspecto é que publicar dossiês e denúncias contra o candidato A ou B faz parte do jogo normal da política. Se Berzoini autorizou contatos com a revista Época para dar informações a respeito de Serra e Barjas Negri, isto em si não chega a caracterizar um escândalo --embora fique muito mal o recuo de Berzoini com relação a declarações suas no dia anterior, negando contatos com a revista. Mas toda a imprensa, "burguesa" ou não, supostamente tucana ou supostamente petista, sempre dependeu de fontes para seus furos de investigação.

O problema realmente grave está na origem do dinheiro com que se quis comprar o dossiê. Que um diretor do Banco do Brasil tenha parte ativa nesse episódio, repetindo o que aconteceu com Henrique Pizzolato na crise anterior, já é uma evidência de aparelhamento do Estado que ultrapassa o nível aceitável de "denuncismo" com o qual o PT, durante o governo Fernando Henrique e antes disso, sempre se deu bem. 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h59

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perguntas sobre o escândalo (2)

Qual a responsabilidade de Lula no episódio? Pessoalmente, acho que ele de fato não sabia das negociações com Vedoin. Mas o problema já não é se Lula "sabia" ou "não sabia". O problema é que, com Lula no governo, criou-se uma máquina agindo independentemente de qualquer controle, capaz de articular os interesses eleitorais do PT a fontes de financiamento público, e que se julga autorizada a fazer qualquer negociata em nome dos chamados "interesses populares". A aliança de Lula com essa máquina é das mais íntimas, por mais que ele se diga traído, decepcionado, iludido. Os principais atores deste escândalo, como dos anteriores, são pessoas que Lula conhece há décadas, provenientes da própria base sindical do partido. É impossível que Lula não conhecesse bem figuras como Delúbio, Silvinho Pereira, Lorenzetti. É a burocracia partidária, que sofreu um abalo no caso do mensalão, mas que foi mantida, com apoio de Lula, no momento em que Berzoini assumiu a presidência do partido, sepultando as idéias de uma "refundação ética" do PT. Como eu escrevi no artigo de hoje para a "Folha", é um caso em que Lula "não sabe", mas "não sabe sabendo".

Escrito por Marcelo Coelho às 14h41

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perguntas sobre o escândalo

Arrisco algumas perguntas e respostas sobre o escândalo do dossiê.

1) É capaz de levar Alckmin ao segundo turno? Nada pior do que o "wishful thinking" tucano, de que eram exemplos os comentários de César Maia em seu "ex-blog". Os raciocínios sociológicos mais sutis eram desenvolvidos na esperança de que a candidatura Alckmin decolasse. Não gostaria de me confundir com esse tipo de especulação. O escândalo continuará a ser explorado no horário eleitoral, mas é duvidoso que sensibilize a grande parcela do eleitorado que não se sensibilizou com o caso do mensalão. Imagino que exista, entretanto, uma faixa de eleitores na qual a candidatura de Alckmin pode crescer significativamente: a dos paulistas que votam em Serra para governador e em Lula para presidente. Um terço dos eleitores de Lula no Estado de São Paulo são eleitores de Serra também. Podem, talvez, migrar para Alckmin se considerarem Serra uma vítima do esquema petista. Isso depende da articulação do marketing de Serra e do de Alckmin.   

Escrito por Marcelo Coelho às 14h30

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preocupações de um candidato

preocupações de um candidato

O comércio de dossiês intensifica as paixões políticas. Mas para o político Julinho Gazua, pode significar uma mudança de rumos. Leia a coluna do "Agora" em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2309200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 11h48

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festa no comitê

festa no comitê

Em meio à tensão política, também há espaço para festas em determinados comitês eleitorais. Churrasco e dossiês, entretanto, podem não combinar bem quando se juntam no cardápio. Leia a coluna do "agora" em http://tinyurl.com/j3ny9

Escrito por Marcelo Coelho às 20h10

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desfiladeiros urbanos

Mostrei outro dia uma pintura de UOL Busca Mark Innerst, que retrata a cidade de Nova York pós- 11 de setembro como o cenário de uma catástrofe iminente. No mesmo número da revista "Art in America", há um quadro bem parecido, como perspectiva, tema e "pathos", feito por UOL Busca Ken Rush, tirado de uma série que se chama "Canyons-Cityscapes". Aqui vai o quadro de Innerst novamente:

                              

 

E agora o de Kenneth Rush (exposto na UOL Busca Katharina Rich Perlow Gallery de Nova York):

 

                                           

Escrito por Marcelo Coelho às 21h20

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o momento literário (3)

o momento literário (3)

No artigo sobre o livro de João do Rio, assinalei essa impressão de vida que as entrevistas com literatos tão antigos, antiquados como Olavo Bilac acabam despertando no leitor:

Há alguns entrevistados bem patetas, é verdade. Mas não havia mais patetas em 1904 do que em 2006, apesar de nossa resistência em admitir o fato. Mesmo algumas figuras totalmente presas às convenções de sua época emergem das entrevistas como indivíduos únicos, com seu grau de loucura, de alegria, de furor particular.

O Padre Severiano de Resende, “com voz passada em seda”, odeia Castro Alves, a quem chama de “insuportável metralhador de sílabas”; mas concede a Machado de Assis o mérito de ser “o único prosador honesto que temos”. Lima Campos improvisa em voz alta: “Ah! João! A crítica é sempre a água da análise pedantocrática vazada malevolamente na açorda saborosa da produção”.

Tudo tem vida nesse livro: as recordações de infância de Silvio Romero, o entusiasmo de Medeiros de Albuquerque ao saber do assassinato de um ministro russo, ou o sarcasmo de Frota Pessoa contra a ABL (“nunca, jamais, nenhum imortal, ali penetrando, fez, no seu caráter de imortal, outra coisa que não partir para a bem-aventurança”).

Isto é macabro”, completa Frota Pessoa. Sem dúvida. Estão todos mortos. Mas as entrevistas de Joâo do Rio não são daqueles retratos antigos, de homens bigodudos, usando pincenê, rígidos como cadáveres. Mostram pessoas que estão vivendo intensamente o seu tempo, pessoas únicas, irrepetíveis. Podem não ter sobrevivido literariamente, mas viveram. Já é alguma coisa.

Eu estava pensando, mas não tinha espaço para citar, num poema de  James Elroy Flecker, intitulado "Para um poeta daqui a mil anos". Ele se dirige a um "amigo que ainda não nasceu, que não vi, que desconheço", para quem "foi escrita esta canção doce e arcaica"; pede ao "estudante da nossa doce língua inglesa" que "leia estas palavras à noite, sozinho: eu era um poeta, e era moço." Cito as duas últimas estrofes em inglês.

O friend unseen, unborn, unknown,/Student of outrsweet English tongue,/Read out my words at night, alone:/I was a poet, I was young.//Since I can never see your face,/And never shake you by the hand,/I send my soul through time and space/To greet you. You will understand.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 08h24

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o momento literário (2)

o momento literário (2)

Em 1904,  João do Rio entrevistou a nata dos escritores da época. Olavo Bilac é o primeiro, o príncipe, o primus inter pares. O entrevistador se desvanece em descrições:

A casa do poeta é de uma elegância delicada e sóbria. Ao entrar no jardim, que é como um país de aromas, cheio de rosas e jasmins, ouvindo ao longe o vago anseio do oceano, eu levava n'alma um certo temor. Eram oito horas da manhã, apenas oito horas. A rua parecia acordar naquele instante, os transeuntes passavam com o ar de quem ainda tem sono, e o próprio sol, muito frio e formoso, parecia bocejar no lento adelgaçar das névoas.

--Só muito cedo encontrar-me-ás em casa, dissera ele, e eu mesmo sabia que o cantor do Caçador de Esmeraldas acorda às cinco da madrugada, escreve até as dez, sai e não se recolhe senão depois da meia-noite, porque o entristece ficar num gabinete sem alma, à luz dos bicos de gás.

Quando, porém, ia tocar o timbre do velho bronze, o meu receio desapareceu.

Estavam as portas da sala abertas e eu via Bilac curvado sobre a mesa a escrever.

--Pode-se importunar?

--Ó ave madrugadora! Tu por aqui?

Algumas coisas merecem comentário nesse início de entrevista. Nada mais "1904" do que a emoliente descrição inicial, com névoas que se adelgaçam e assim por diante. Estamos, sem dúvida, em outro mundo, feito de luxos, prazeres e jasmins. Mas a surpresa, a meu ver, vem logo em seguida: Bilac é um sujeito que começa a trabalhar às cinco da manhã. Com jasmins ou sem jasmins, tratava-se de alguém que não estava a passeio; levava a sério a função de escritor. De todo modo, a descrição continua de tal modo idealizada, que experimentamos quase que um choque quando Bilac começa a falar: "ó ave madrugadora! Tu por aqui?" E há bom humor, simpatia nessa pergunta. Ele não está falando como um "Poeta"; está falando como alguém que sabe que o tomam por Poeta. O diálogo prossegue com naturalidade, apesar do estilo de época.

--Oito horas já? Há não sei quantas escrevo eu.

--Versos?

--Oh! Não, meu amigo, nem versos nem crônicas --livros para crianças, apenas isso que é tudo.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 08h10

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o momento literário

o momento literário

No artigo de ontem para a Ilustrada, falei de "O Momento Literário", livro de João do Rio, publicado em 1907, e relançado agora por uma editora de Curitiba (www.criarediçoes.com.br) O livro reúne os resultados de uma enquete feita por João do Rio em 1904. O escritor e jornalista enviou um questionário aos mais representativos autores da época, com as seguintes perguntas:

--Para sua formação literária, quais os autores que mais contribuíram?

--Das suas obras, quais as que prefere?

--Lembrando separadamente a prosa e a poesia contemporâneas, parece-lhe que no momento atual, no Brasil, atravessamos um período estacionário, há novas escolas (...)? Neste último caso, quais são elas?

--O desenvolvimento dos centros literários dos Estados tenderá a criar literaturas à parte?

--O jornalismo, especialmente no Brasil, é um fator bom ou mau para a arte literária?

Esqueci de informar no artigo que esta última pergunta foi retomada por Cristiane Costa, no livro Pena de Aluguel  (www.companhiadasletras.com.br) que entrevistou escritores-jornalistas atuais, como Heitor Ferraz, Bernardo Carvalho, Marçal Aquino, Michel Laub e Fabrício Marques. Vale citar o pequeno poema de Fabrício Marques sobre as relações entre escritores e cadernos culturais:

Me suplica que eu te publico/Me resenha que eu te critico/Me ensaia que eu te edito/Me critica que eu te suplico/Me edita que eu te cito/Me analisa que eu te critico/Me cita que eu te publico/Me publica

E assim continuamos, disputando migalhas de público.

O artigo de ontem está disponível, para assinantes do Uol, em http://tinyurl.com/z958f 

Escrito por Marcelo Coelho às 07h55

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alison taylor

alison taylor

Aqui vai uma marchetaria de Alison Elsiabeth Taylor, artista com exposição atualmente na galeria  James Cohan de Nova York. São imagens de carros, e cenas de famílias no oeste americano, num estilo neo-naif que lembra os cartazes de rua de que gosto.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h14

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deslizes dos releases

Recebo e-mail de uma editora, divulgando a reedição de um livro de  Antonio Carlos Villaça, falecido recentemente. Aqui vai o começo.

           Mestre dos pequenos retratos da vida literária e da vida religiosa de seu tempo, Antonio Carlos Villaça escrevia como quem respira. Em O NARIZ DO MORTO, considerada obra-prima do autor [...]

Escrito por Marcelo Coelho às 20h51

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mãos limpas

mãos limpas

Será a baixaria inevitável numa campanha política? O doutor Teobaldo estava em desacordo com seus assessores no comitê. Leia a crônica do "agora" em http://tinyurl.com/f6x3v

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h18

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a traição dos intelectuais (3)

Contra os adeptos de uma “filosofia nacional”, de um pensamento submetido aos valores da conveniência política, Julien Benda contrasta dois trechos sobre o mesmo assunto. Inicialmente, um texto de  Maurice Barrès, e em seguida uma passagem clássica, proveniente do século 17 francês: a Logique de Port-Royal.

 

Não é apenas a moral universal, diz Benda, que os clérigos modernos lançaram ao desprezo, mas também a verdade universal. Aqui os clérigos se mostraram verdadeiramente geniais no seu empenho de servir às paixões laicas. Evidentemente a verdade é um grande empecilho para aqueles que pretendem se colocar no distinto [no particular]: ela os condena, a partir do momento em que a adotam, a se colocarem no universal. Que alegria para eles convencer-se que esse universal não passa de um fantasma, que só existem verdades particulares, “verdades lorenas, verdades provençais, verdades bretãs, cujo acordo, levado a cabo pelos séculos, constitui aquilo que é benéfico, respeitável, verdadeiro na França” (o vizinho fala do que é verdadeiro na Alemanha).

 

A frase entre aspas provém de L’appel au soldat, de Barrès. Benda

 prossegue.

 

Compare-se com o ensinamento tradicional francês, de que Barrès se diz herdeiro: “Qualquer que seja o vosso país de origem, só devereis acreditar naquilo em que acreditaríeis se fôsseis de outro país.” (Logique de Port Royal, III, XX). -- Não se pense que o dogma das verdades nacionais vise somente à verdade moral. Vimos recentemente pensadores franceses se indignarem do fato de que as doutrinas de Einstein fossem adotadas sem precaução por nossos compatriotas.

 

         Não apenas a idéia de verdade, mas também a de justiça, passa a ser submetida às conveniências do nacionalismo, e às seduções de um “Estado forte”, que os intelectuais a rigor deveriam repudiar. Contrastando as teorias de Barrès com o ensinamento de Sócrates, Benda observa:

 

Homens de pensamento pregando que a toga se curvasse diante da espada --eis algo que é novo em sua corporação [...] Eu não poderia fazer sentir de modo melhor qual é esta novidade na atitude do clérigo do que lembrando a célebre réplica de Sócrates ao realista do Górgias: “Exaltas na pessoa dos Temístocles, dos Cimon, dos Péricles, homens que alimentaram bem os seus cidadãos oferecendo-lhes tudo o que eles desejavam, sem se preocupar de ensiná-los o que é bom e honesto em termos de alimentação. Eles engrandeceram o Estado, exclamam os atenienses; mas eles não vêem que esse engrandecimento é apenas inflamação, um tumor cheio de corrupção. Eis tudo o que fizeram esses antigos políticos para encher a cidade de portos, de arsenais, de muralhas, de impostos e outras tolices semelhantes, sem acrescentar-lhes a temperança e a justiça” Podemos dizer que até nossos dias, pelo menos em teoria (mas é de teorias que tratamos aqui), a supremacia do espiritual proclamada nessas linhas foi adotada por todos que, explicitamente ou não, propuseram ao mundo uma escala de valores; pela Igreja, pela Renascença, pelo século 18. Hoje, adivinha-se o riso de um Barrès ou de algum moralista italiano [...] diante desse desdém da força em proveito da justiça e a severidade deles com relação ao modo com que aquele filho de Atenas julga os que fizeram sua cidade poderosa do ponto de vista temporal. Para Sócrates, perfeito modelo quanto a isso do clérigo fiel a sua essência, os portos, os arsenais, as muralhas são “tolices”; a justiça e a temperança é que são as coisas sérias. Para os que hoje em dia ocupam seu lugar, a justiça é que uma tolice --uma “nuvem”--, são os arsenais e as muralhas que são as coisas sérias. O clérigo se fez hoje ministro da Guerra.Mais do que isso, um moralista moderno, e dos mais reverenciados, claramente aprovou os juízos que, bons guardiães dos interesses da terra, condenaram Sócrates; coisa que nunca se vira entre os educadores da alma humana desde a noite em que Críton baixou as pálpebras de seu mestre.

 

Benda não nega que o nacionalismo se justifique na prática política. Diante das investidas da Alemanha, um patriota francês poderia até mesmo chegar ao “fanatismo”. Mas --e nesta citação se resume a tese de todo seu livro--

 

os clérigos que praticaram esse fanatismo traíram sua função, que é precisamente a de ressaltar, em face dos povos e da injustiça a qual os condenam as religiões terrenas, uma corporação cujo único culto é o da justiça e da verdade.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 09h15

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A traição dos intelectuais (2)

 

 

 

Filósofo e polemista de centro-esquerda, Julien Benda nasceu em 1867, militou contra os monarquistas, militaristas e anti-semitas durante o Caso Dreyfus, e foi dos primeiros a alertar, na França, sobre a ameaça fascista nas décadas de 20 e 30. É já nesse contexto antifascista que ele publicou A Traição dos Clérigos em 1927. Prefere falar de “clérigos” em vez de “intelectuais”. Se os dois termos são na prática intercambiáveis (pois Benda pode dar o título de “clérigo” qualquer poeta, pintor, dramaturgo, filósofo ou cientista), o emprego de um termo mais arcaico que o de “intelectual” serve para acentuar a continuidade, desde a Idade Média, de uma categoria de homens claramente identificáveis. São aqueles 

 

cuja atividade, por essência, não busca atingir fins práticos, mas que, encontrando sua alegria no exercício da arte, da ciência ou da especulação metafísica, numa palavra: na posse de um bem não temporal, dizem de algum modo: “meu reino não é deste mundo”.

 

 A Traição dos Clérigos começa citando Tolstoi, que em um de seus escritos lembrava sua experiência como oficial do exército russo. O autor de Guerra e Paz acompanhava um pelotão em marcha, quando viu um de seus colegas espancar brutalmente um soldado que se distanciava do grupo. Tolstoi perguntou para o oficial se ele não se envergonhava de tratar assim um semelhante: “o senhor nunca leu o Evangelho?” Ao que o oficial respondeu: “e o senhor? Nunca leu o regulamento militar?” Esta resposta, diz Benda, é a que o poder temporal, o poder terreno,  sempre dirigirá ao poder espiritual, às pessoas que representam os imperativos “que não são deste mundo”.

 

Para Benda, a traição dos clérigos surge no momento em que estes  passam a dizer: “não somos de modo algum os servidores do espiritual; somos os servidores do temporal, de um partido político, de uma nação. Só que, em vez de servi-los com a espada, nós os servimos por meio da escrita. Somos a milícia espiritual do temporal.”

 

Benda visava sobretudo os escritores e filósofos de direita, os ultranacionalistas de diversos países, tanto Kipling, na Inglaterra, quanto d’Annunzio na Itália e Barrès na França. É principalmente uma frase escandalosa de Maurice Barrès, que para Benda traduz todo o sistema da “traição dos intelectuais”. O célebre esteta conservador, ídolo de uma geração inteira de escritores, declarou certa vez que “a pátria, mesmo se estiver errada, temos de lhe dar razão”. “Right or wrong, my country”: o conhecido lema dos países anglo-saxões recebe, das mãos de Barrès, uma formulação um pouco mais alambicada, embora inequívoca.

 

Benda critica todas as variantes desse tipo de raciocínio. Em especial, a idéia de que exista uma “verdade particular”, uma “moral particular”, própria a cada época e a cada país, ou, se quisermos, a cada classe e cada pessoa. Eis um em que as idéias de Benda parecem inapelavelmente antiquadas. Com efeito, nada mais comum hoje em dia do que ouvirmos frases como “cada um tem a sua verdade”, ou “esta é a minha verdade, pode não ser a sua”... O problema é que a partir daí, institui-se, é claro, o vale-tudo –na ética, na política, na filosofia.


 

Escrito por Marcelo Coelho às 08h57

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A traição dos intelectuais

A traição dos intelectuais

 Zola, por Manet

Acaba de sair, pela  editora Companhia das Letras, uma coletânea de ensaios organizada por Adauto Novaes, a partir do  ciclo de palestras  O Silêncio dos Intelectuais, realizado há cerca de um ano em várias capitais brasileiras. No texto que escrevi para o livro, falo de alguns momentos especialmente desastrosos da carreira de engajamentos políticos de Sartre, da independência de André Gide diante da União Soviética, do papel brilhante de Zola durante o  Caso Dreyfus, onde a luta por "Verdade e Justiça" não era simples defesa de "abstrações burguesas", mas exigência de vincular valores universais, imutáveis, a sua aplicação concreta, sem ceder aos imperativos da "razão do Estado".

Para mim, o intelectual que se submete à "razão de Estado" --ou do partido-- deixa de ser intelectual para se transformar em ideólogo, ou marqueteiro de luxo. A tese, em pleno calor da luta antifascista, foi apresentada por  Julien Benda em 1927, e falo bastante sobre o seu livro A Traição dos Intelectuais. Parte substancial dessa obra foi traduzida para o português, na coletânea Intelectuais e Política. A Moralidade do compromisso, organizada por Elide Rugai Bastos e Walquíria Domingues Leão Rego, para a editora Olho d'Água. Informações sobre o livro no site da livraria Cultura:http://tinyurl.com/glgbn

  

Escrito por Marcelo Coelho às 08h56

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palavras inspiradoras

palavras inspiradoras

Velhos sociólogos podem animar, com suas palavras, o marasmo de comitês eleitorais. Leia o cronista do "Agora" em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1909200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 08h14

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A um toureiro morto

A um toureiro morto

 

Edouard Manet, "Toureiro Morto" (1864)

 

Transcrevo a terceira parte de um poema de  Eucanaã Ferraz, no livro Rua do Mundo (ed. Cia. das Letras):

Sou a camisa do toureiro morto,/a cal magra, a casca, a casa que ele vestia/à maneira de um pássaro/que o calçasse inteiro/e protegesse, de modo que/seu peito já não se lembrasse

que o maciço compacto de minha alvenaria/era só uma fiada e outra/de algodão e fresta,/nó e fenda./Sou o muro/estreito

e bem cortado, o reboco, a parede/delgada, a camisa que morreu/com ele, o muro, o metro/exato e reto que, no entanto,/ já não pode tal corpo/ que, extático, parece alastrar-se

como árvore, ao avesso, porque morta,/rio, ao avesso, morto, poça/de terra e não de água, de terra/que se derramou para voltar à terra./O que em mim era casa/deixou fugir as vigas, descolou-se,

emagreceu dos ossos, tornou-se aéreo./Um morto é inquilino que não me serve e já/ outras paredes vêm chegando:o paletó/ de pinho ostenta cadeados definitivos,/colarinho de barro e lata.Morto,/nenhum veludo orna as ruas

sinuosas de seu intestino; músculos nus,/açúcar o que era arame. Sou a camisa/ encharcada de água em que se ferveu a carne,/o peixe, o adubo gorduroso da cabeça,/da língua, dos olhos daquele que amei, que amei/como uma casa ama a chama de sua régua.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h03

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carros e caminhões

carros e caminhões

Escrito por Marcelo Coelho às 22h45

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Os carros na pintura

Os carros na pintura

 

Um estudo poderia ser feito sobre a presença do automóvel na pintura brasileira. Há sempre alguma coisa de “antipictórico”, de pouco plástico, na maioria das representações do tema; um quadro de Carlos Oswald, se não me engano, é exemplo desse mal-estar, em inícios do século 20; a idéia era mostrar uma paisagem urbana chuvosa, com um fordeco brilhando seus faróis amarelos na neblina. Talvez porque os modelos dos carros involuntariamente contribuam para “datar” a paisagem, o efeito é sempre  de uma intromissão.

 

A capa de  "Oswaldo Goeldi: Iluminação, Ilustração", de Priscila Rossinetti Rufinoni (ed.  cosacnaify), mostra um raro exemplo de pureza e estilização do carro, numa xilogravura não muito conhecida, acho, do mestre brasileiro. Evoca aqueles subúrbios poeirentos da década de 40, onde o carro parava no fim do caminho, simplesmente porque a cidade, não como hoje, “acabava” em algum lugar; piqueniques em Santo Amaro, um último poste de iluminação...  Carro e poste parecem defrontar-se, mirando um ao outro, sem presença humana por perto.

 

Na minha série de fotos de cartazes populares, os carros ocupam um lugar à parte. Gosto muito de notar as dificuldades que há em desenhá-los na perspectiva correta. Postos de gasolina, revendedoras de carros, mecânicas, estacionamentos e lava-rápidos são um tesouro nesse campo, desde que perdidos em alguma estrada do interior. Abaixo, uma pequena obra-prima, retratando um furgão antigo.

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h16

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O desânimo de Belmiro

O desânimo de Belmiro

Máfias, sanguessugas, vampiros...para Belmiro, a conclusão só pode ser uma: não há nada a fazer. Sua esposa, entretanto, tem visão diferente. Leia a coluna do "Agora" em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1809200603.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 13h58

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arte urbana

O artista plástico  Eduardo Srur faz mais uma de suas intervenções em prédios de São Paulo. Agora é no Museu Brasileiro da Escultura, lugar dos mais burgueses, em pleno Jardim Europa. Sobre a rigorosa estrutura de concreto de Paulo Mendes da Rocha, instalou, como se numa favela, montes de antenas de TV.

 

 

 

 

A intenção, aqui, é evidentemente crítica, mas Srur já fez modificações muito doces em prédios da cidade.

Num hotel da rua das Palmeiras, que estava para ser desativado, ele grudou uma âncora de ferro, fortíssima. Na carcaça de um hospital inconcluso, na Doutor Arnaldo, ele montou uma espécie de instalação vertical, a que chamou de “Acampamento dos Anjos”. Cito um trecho do artigo que escrevi na Folha sobre essa obra.

São umas vinte barracas de camping de várias cores, iluminadas por dentro com luz fria, saindo das sacadas do prédio; parecem lanternas japonesas, ou talvez uma decoração de Natal. Só que uma decoração de Natal seria muito mais carregada e em pisca-pisca.

Assimétricas e esparsas, as barracas ocupam o prédio com muita delicadeza e, mais importante do que isso, sem motivo --surgiram do nada, de repente, e se de noite, de longe, como as vejo do meu apartamento, têm algo de infantil ou de “naif”, dão uma espécie de susto quando a gente as vê de perto. 

  Quem sai das imediações do estádio do Pacaembu e se encaminha em direção à avenida Paulista é forçado a subir um ladeirão, quase sempre congestionado, que se chama rua Major Natanael. É uma rua larga, entre duas espécies de abismo: à esquerda, a boca de um túnel, do qual saem carros em contra-mão; à direita, o compridíssimo muro de um cemitério.

Algum artista do passado lembrou-se de colocar, num nicho desse muro, a estátua de Cronos: um velho sentado, de barba comprida, tendo em mãos uma ampulheta. Seria para nos lembrar da Morte, da Velhice e do Tempo, mas como há um semáforo interminável no alto dessa ladeira, a tendência do paulistano que repara na escultura é das menos contemplativas: buzina e bufa, pensando no compromisso a que chegará, mais uma vez, com grande atraso.

Essa ladeira dá de cara com o prédio em que foi montado o “Acampamento dos Anjos” --e é então que a obra de Eduardo Srur provoca no motorista (quase não há pedestres por ali) seu maior impacto. Com os olhos grudados no carro em frente, tive uma sensação de surpresa muito feliz --uma surpresa de ordem “respiratória”, por assim dizer-- quando o tal edifício de repente pareceu atrair minha atenção. Levantei os olhos e vi aqueles andares, sempre vazios, como que habitados de forma ao mesmo tempo fantasmagórica e festiva.

Posso estar sugestionado, é claro, pelo título da obra. O próprio movimento do olhar, para quem chega no fim da ladeira, é ascensional; e que os anjos acampem num prédio logo em cima do cemitério, eis o que não deixa de ser boa notícia.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 10h59

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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