Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

fantasmas obesos

fantasmas obesos

Não tenho notícia de que tenha sido traduzida para o português a famosa "Antologia do Humor Negro", organizada pelo surrealista  André Breton durante a Segunda Guerra Mundial, e proibida pelo governo colaboracionista de Vichy. Um dos últimos textos dessa antologia, que segue a ordem cronológica, de Swift e Sade aos dias atuais, é uma curiosa e extensa teoria de UOL Busca Salvador Dali sobre a obesidade entre os fantasmas. Dadas as preocupações atuais com a gordura, achei que é uma leitura própria para o Halloween. Aqui vai um trecho.

As novas cores do sex-appeal espectral

 

 

O peso dos fantasmas

 

         Há algum tempo, e à medida que passam os anos, a noção de fantasma vai-se tornando suave, ganha peso e fica arredondada, em razão daquela obesidade persuasiva, daquela estereotipia de cabaça e daquele contorno analítico e nutritivo que é próprio aos sacos de batata vistos contra a luz, os quais, como todo mundo sabe, são precisamente aqueles que François Millet, pintor involuntário dos fantasmas mais importantes, teve a insistente complacência de nos transmitir, imobilizando-os em suas telas imortais, com toda a baixeza emocional de que pode ser capaz um pintor e com todo aquele aspecto turvo, concreto e único, com o qual todos nós, depois de um tempo, adquirimos o luxo de nos horrorizar.

         As razões do alarmante aumento de peso, do engordamento compacto, do rebaixamento realista e extra-mole dos fantasmas atuais nada mais são do que as conseqüências que decorrem da noção absolutamente primeva e originária da própria materialização da idéia de fantasma e que, como iremos ver rapidamente, reside no sentimento do “volume virtual”.

 

 

O porquê da obesidade dos fantasmas

 

 

         O fantasma se materializa pelo “simulacro do volume”. –O simulacro do volume é o envoltório. – O envoltório esconde, protege, transfigura, incita, tenta, dá uma noção enganadora do volume. – Torna tudo ambivalente com relação ao volume e o faz cair num estado de suspeição. – Favorece a eclosão das teorias delirantes do volume. – Provoca a vertigem do conhecimento ideal do volume, do conhecimento inconsistente do volume. O envoltório desmaterializa o conteúdo, o volume, debilita a objetividade do volume, torna angustiante o volume virtual.

A gordura é o elemento angustiante do volume concreto da carne, e nós sabemos que a libido humana torna a angústia antropomórfica, que ele personifica o volume angustiante, que transforma o volume angustiante em tecido vivo concreto, que transforma a angústia metafísica em gordura concreta.

Pois em que consiste essa gordura assustadora da carne?

Não é precisamente aquilo que envolve, esconde, protege, transfigura,

incita, tenta, dá uma noção enganadora do volume, provoca vertigens de conhecimento nutritivo, ideal, do volume, provoca representações gelatinosas do volume, representações extra-finas, “virtuais”, angustiantes do volume.

 

 

O pior acontece quando, atrás do lençol dos fantasmas que ainda se “mantinham em forma”, os volumes “virtuais” começam a adquirir esse ar cada vez mais grave e que é o que marca o peso inconfundível da realidade e da gordura substancial; mas pior do que isso é o momento em que esse mesmo lençol, caindo, deixa a descoberto e em seu lugar os volumes suspeitos por sua analítica, pesada, maciça e roliça aparência (características do lamentável estado de obesidade dos fantasmas atuais), deixa a descoberto, repito, a minúscula embora monumental ama de leite recentemente revelada nos meus quadros, a qual continua imóvel, malgrado uma chuva torrencial de primavera, sentada na posição de uma pessoa que tricota, numa lagoa, com a saia integral e desagradavelmente mergulhada, as costas esticadas, hitlerianas, amolecidas e ternas.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h31

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tudo já foi ontem

Foi um domingo de sol e céu azul, e uma sensação de tranqüilidade, de distensão psicológica e política pareceu tomar conta da cidade neste dia de eleições. Votar, mesmo quando o candidato perde, alivia as pessoas; não duvido que, nas regiões por onde passei, a maioria do eleitorado se inclinava por Geraldo Alckmin. Mas não percebi choro nem ranger de dentes, apesar do óbvio favoritismo de Lula.

 

As revistas semanais recorreram ao mote do “país dividido” para produzirem capas que possam durar ainda alguns dias nas bancas. Quem acompanhou os comentários postados neste blog, ou em qualquer outro lugar, pôde perceber ao longo da campanha eleitoral um estado de nervosismo e radicalização política muito grande. Tudo levava a crer numa exacerbação ideológica próxima do inconciliável, e em possíveis dificuldades para o futuro governo, no plano da “governabilidade” e mesmo da paz institucional.

 

Talvez as coisas fiquem mais azedas nos próximos meses. Mas o papel de uma eleição é, felizmente, apaziguador. A vitória de um candidato transforma em coisa do passado toda a violência da campanha; já não existe polarização entre Lula e Alckmin. Existe um presidente reeleito, que futuramente fará das suas, e uma oposição –mas a “divisão do país”, pelo menos do ponto de vista subjetivo, das paixões políticas à flor da pele, já é notícia de ontem.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h08

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memórias da corrupção

memórias da corrupção

Quando se fala tanto em malas de dinheiro e favorecimento a banqueiros, vale lembrar um episódio da carreira política de Adhemar de Barros, que transcrevo do livro  O Trevo e a Vassoura, do jornalista Gabriel Kwak, recém-publicado pela editora A Girafa:

 

 

Para incrementar a “caixinha”, Adhemar exigiu do economista Gladstone Jafet, de uma das famílias mais aquinhoadas do Estado, a doação de uma enorme quantia,em troca da direção do Banco do Estado. Constrangidamente, o poeta Salomão Jorge, cujos versos podem ser apreciados em livros como Arabescos e Portas do Céu, transmitiu essa condição a Gladstone, que a ela acedeu incontinenti.

 

No dia marcado para a entrega dos dinheiros, Gladstone chegou no Palácio sobraçando uma grande valise de couro, recheada de notas. Trazia importância tão grande que o economista caminhava até o gabinete do governador vergado pelo peso da mala. Feita a entrega, Adhemar introduziu Gladstone Jafet e Salomão Jorge, seu líder na Assembléia, a uma espécie de porta secreta que havia em seu gabinete. Essa entrada dava para um gabinete de acesso restritíssimo. Nesse cômodo, havia uma escada em caracol, que os três tiveram de escalar para chegar a um pavimento onde havia um armário abarrotado de dinheiro. Pilhas e mais pilhas. O governador contou cuidadosamente a quantia doada por Gladstone Jafet e guardou com carinho no tal armário. Não contente em ter recebido a dinheirama, Adhemar ainda tomou de Gladstone a valise de couro, que achou muito bonita e que o economista tinha comprado em Buenos Aires.

 

Gabriel Kwak cita, como fonte, Fernando Jorge, filho de Salomão.

 

O trevo e a vassoura compara, com muito gosto pelo folclore político, as figuras de Adhemar de Barros e Jânio Quadros. Por vezes, a cronologia dos episódios se torna confusa, e não temos uma visão política geral do adhemarismo e do janismo. Onde Gabriel Kwak se delicia, e pode também deliciar o leitor, é no mundo da micropolítica paulista, com suas traições, seus deslizes, sua retórica ultrapassada. Personalidades como Farabulini Jr., William Salem e Cantídio Sampaio têm lugar certo na galeria de Kwak. Para escrever o livro, ele entrevistou muita gente desse calibre: Ruy Côdo, Yukishigue Tamura, Murilo Antunes Alves... É um apetite e tanto.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h41

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a política no Halloween

a política no Halloween

Na crônica de hoje,os preparativos para uma festa de Halloween podem levar à radicalização política. Para assinantes do uol, clicar em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2810200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 14h02

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Cabíria

 

        

Como não está disponível na internet, reproduzo aqui o texto que escrevi sobre o filme "Cabiria", de 1914, exibido na Mostra Internacional de Cinema. Haverá outras sessões do filme, no Cinesesc, neste sábado, 28/10 às 17h, e na segunda, 30/10, às 17h também.

Não se passaram nem quinze minutos de filme, e já tivemos: 1) a erupção do Etna; 2) a destruição da luxuosa “villa” do nobre romano Batto; 3) o seqüestro de sua filha, a pequena Cabíria, por um bando de piratas fenícios; 4) a venda de Cabíria num mercado de escravos em Cartago; 5) o sacrifício de três ou quatro criancinhas nuas, esperneando, arremessadas a uma fornalha ardente.

Na sala do Cinesesc, o pianista Stefano Maccagno, que acompanha o épico de  Giovanni Pastrone (1883-1959) já esfalfou os dedos numa quantidade industrial de tremolos, ribombos e “roulades”. Mas sua resistência para enfrentar a partitura do compositor clássico Ildebrando Pizzetti (1880-1968), ao longo de três horas de projeção, será comparável à do escravo Maciste, que depois de inúmeros tormentos irá finalmente liberar Cabíria dos bárbaros cartagineses.

A superprodução de Pastrone, datada de 1914 e restaurada agora pelo brasileiro João Sócrates de Oliveira, parece quase tão antiga quanto os eventos das guerras púnicas, roteirizados pelo poeta decadentista Gabrielle d’ Annunzio (1863-1938), que não se esquivou de inserir longos hinos pagãos nos letreiros de “Cabíria”.

Ainda que a história fique um bocado confusa na metade final –tantas as batalhas, trocas de cenário, traições e cataclismas--, o épico de Pastrone ainda pode ser visto com interesse. A cuidada composição visual das cenas  contrasta com o tumulto heróico da trama, e tudo se impregna de um silencioso hausto operístico.

Mas se “Cabíria” merece ser visto, hoje em dia, é sobretudo pelas influências que secretamente exerceu em nosso imaginário. Vendo agora o filme, podemos notar a que tipo de estética –elefantes, camelos, leopardos, escravos-- Fellini se referia em muitos de seus filmes, como “A Entrevista”. O herói Maciste  conheceria, depois desta sua primeira aparição, muitas reencarnações nos épicos italianos até as décadas de 50 e 60. A careca, o perfil, o porte do ator-brutamontes Bartolomeo Pagano já prefiguram, por outro lado, a aparência do ditador Benito Mussolini.

Toda uma fantasia de nobreza romana, com a África prosternada a seus pés, e com abertos toques de anti-semitismo (na personagem do estalajadeiro Bodastoret), funciona em “Cabíria” como “avant-prémière” da sanguinolenta farsa fascista. Mas também o mundo de Nélson Rodrigues tamém se ilumina quando assistimos à morte estrebuchante, interminável, da princesa Sophonisbe (Itália Almirante-Manzini, robusta e não-depilada, mas ainda assim uma diva).

Elefantina, macarrônica, jorrando lava e lágrimas, “Cabíria” ainda vive. De suas erupções arcaicas originou-se, sem dúvida, o solo do qual brotariam os sonhos de muita gente: de Cecil B. de Mille a Fellini, passando pelo tele-catch e pelos desfiles de Carnaval.   

  Italia Almirante-Manzini, no papel de Sophonisbe

Escrito por Marcelo Coelho às 13h37

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debate impossível

Estou vendo –mas não sei o quanto vou agüentar—o último debate entre Lula e Alckmin, na rede Globo. Simplesmente não há tempo para que um candidato explique suas propostas, nem para que o outro as conteste. As perguntas dos eleitores procuram tocar em temas objetivos –a previdência, a qualidade do ensino e da saúde... E o candidato tem um minuto e meio para sua resposta. William Bonner nada faz senão interromper o discurso de cada um, e não há esclarecimento possível. É tudo angustiante. O candidato tenta ser respeitoso com o eleitor, tratando-o pelo primeiro nome, elogiando a pergunta feita... mas é tudo uma farsa estrutural; mesmo os melhores candidatos do mundo, os mais bem intencionados e cheios de propostas, fariam um papel pífio nesta situação.

 

De resto, ninguém mais está interessado em debates... isso é tema de meu artigo amanhã na Folha. Páro por aqui. Não escrevi nada no blog, mas amanhã, além do artigo sobre eleições, há uma crítica ao filme “Cabíria”, de 1914, restaurado agora e exibido na Mostra Internacional de Cinema. E que venham as eleições; a campanha já morreu e todo mundo sabe disso.

artigo sobre eleições na "Folha": http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2810200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 21h36

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terra incógnita

No artigo desta quarta-feira, falei um pouco mais longamente do livro de Pascoe Hill, “Cinqüenta Dias Num Navio Negreiro”, tema de post anterior. Na mesma coleção “Baú de Histórias”, da editora José Olympio, foi lançado um outro título, “Entrevistas com Escravos Africanos na Bahia Oitocentista”, do inglês Francis de Castelnau. Infelizmente, este volume não tem tanto interesse.

 

Castelnau nada pergunta sobre a vida cotidiana dos escravos baianos: está em busca de informações geográficas sobre o continente africano, e quer sobretudo verificar se de fato lá existe uma tribo de homens dotados de rabos. Cada entrevistado oferece sua versão, confirmando ou negando esse rumor. O escravo Meidassara, por exemplo, afirma ter visto “um homem que tinha uma cauda de aproximadamente setenta centímetros. Em geral, ela tem menos de meio metro e pode ter uma polegada e meia de diâmetro. Esta cauda é lisa e preta. De resto, essa gente é completamente semelhante aos outros negros. São antropófagos. A cauda não tem movimento, e eles têm bancos para sentar, para isso cada um faz um buraco para deixar passar este apêndice.”

 

Para um leigo em cultura africana como eu, a informação mais interessante do livro é que a maioria dos entrevistados tinha religião muçulmana. Mohammad-Abdullah, por exemplo, vivia na Bahia há mais de trinta anos quando foi entrevistado por Castelnau. Escravo liberto, trabalhava como carpinteiro, e sabia ler e escrever tanto em português quanto em árabe. “De resto, ele é muito intolerante, muito fanático e procura por todos os meios me converter, embora eu o tenha recebido da melhor maneira possível, nego-me a lhe dar dinheiro, etc., ele então se recusa a voltar à minha casa, dizendo para outro negro que não quer voltar à casa de um cão cristão. Ele deve ter uns setenta anos, era marabu e fez a viagem a Meca.”

 

A cada dia que passa, o Brasil me parece mais difícil de entender, mais desconhecido, mais fascinante também.

link para o artigo: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2510200628.htm

Sobre o assunto, ainda pode ser lido o artigo do pesquisador A. Lovejoy, "jihad e escravidão: sobre a origem dos escravos muçulmanos da Bahia", no link http://www.ifcs.ufrj.br/~ppghis/topoi_1.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 18h01

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oistrakh/rostropovitch

Um dos primeiros discos de música clássica que me lembro de ter ouvido foi uma gravação do Concerto em ré menor, para dois violinos, de Bach, com David e Igor Oistrakh. David Oistrakh foi um dos maiores violinistas do século 20, enquanto seu filho Igor submergiu no esquecimento. Fico pensando de modo acusatório que tipo de pai terrível David Oistrakh deve ter sido, e a carga de ressentimentos que Igor Oistrakh devia guardar por não ter o mesmo talento do pai.

 

Mas que raciocínios noveleiros... talvez Igor Oistrakh tenha sido apenas um crianção talentoso, pronto a agradar ao pai no começo da vida, e depois de um tempo, amistosamente, decidiu que seu interesse era a Física ou o xadrez... E quem sabe David Oistrakh tenha sido apenas um pai amoroso, obtendo para o filho a chance de gravar um disco como evento comemorativo e familiar, sem exigir de Igor maior dedicação à sua tirânica rainha, a Música.

 

Vejo agora um DVD da EMI, com David Oistrakh tocando o Concerto Duplo de Brahms, com Mstislav Rostropovitch ao violoncelo. Oistrakh é um tipo baixote e gordinho, com a bochecha respeitável apoiada ao violino, os olhos baixos, a boca curvada de um burocrata. Sua expressão, ao tocar, é de total indiferença, como a de um maître num restaurante que não varia nunca de cardápio.

 

Rostropovitch, moço nessa gravação, aperta os lábios, e volta o tempo todo para Oistrakh um olhar súplice de cachorro ou de amante. Os dois se entregam às apaixonadas violências do concerto. Rostropovitch não tem, musicalmente, nenhum motivo para ser submisso a Oistrakh. Seus gestos, seus olhares, entretanto pedem e suscitam resposta do violino. É talvez efeito da pura música, como se o violoncelo fosse feminino e quente perto do desenho incisivo e ágil do violino. Talvez Rostropovitch estivesse à procura de um pai. David Oistrakh nem dá bola: tem um filho –o violino—, de quem cuida sem alegria aparente.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h59

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O ano em que meus pais saíram de férias

O ano em que meus pais saíram de férias

 

Michel Joelsas é Mauro, protagonista do filme de Cao Hamburger

 

 

“Misturar-se”, “não se misturar”  -assunto do post anterior— é um dos temas secretos de “O ano em que meus pais saíram de férias”, de Cao Hamburger, que estréia dia 2 de novembro. O filme deve bastante à atual cinematografia argentina, que em “O Segredo de Kamtchatka”, por exemplo, mostra de modo belíssimo o drama de um menino de seus dez ou onze anos, cujos pais são perseguidos pela ditadura. Pelo próprio título, o filme de Cao Hamburger homenageia um clássico de Emir Kusturica, “Quando papai saiu em viagem de negócios”.

 

Aqui, um menino chamado Mauro (Michel Joelsas) é largado pelos pais, militantes de esquerda, na porta do prédio de seu avô, no bairro judeu do Bom Retiro, em 1970. Algumas coisas poderiam ter melhor explicação no roteiro, como por exemplo o fato de que os pais do garoto sequer esperam um pouco para ver se o avô está em casa. Simplesmente o personagem é posto, com sua malinha e uma bola de futebol, na frente do prédio...

 

E, claro, o avô já não está mais lá. A partir desse início um pouco implausível, e que poderia de qualquer modo ser resolvido com uma ou duas linhas de diálogo, desenvolve-se uma história muito tocante e contida. Mauro será mais ou menos adotado pelo vizinho do avô, um velhote judeu que não tem o menor jeito com crianças. Não há cenas previsíveis de rejeição inicial ou de acolhimento posterior, de progresso hollywoodiano da hostilidade até a grande reconciliação afetiva.

 

Ao contrário, ao longo de todo o filme os personagens não abandonam sua introspecção inicial. Embora seu pai seja judeu, o menino não teve nenhum contato com a cultura e a religião a que será jogado de chofre; em plena ditadura militar, ele já é um pequeno exilado no Bom Retiro.

 

Enquanto isso, acontece a Copa do Mundo, e Mauro é, evidentemente, ligado em futebol. Há cenas e cenas, talvez repetitivas, de personagens vibrando com os jogos da seleção; judeus, italianos, gregos, nordestinos e mulatos convivem na mesma torcida, e o filme não deixa de fazer um elogio à diversidade cultural paulistana. Diversidade não das mais calorosas, como se sabe; entre acolhimento e isolamento, assim como entre paixão futebolística e depressão política, a história do filme se equilibra como sobre o fio da navalha.

 

A maior beleza de “O ano em que meus país saíram de férias” está nos detalhes da filmografia. A câmera acompanha, por exemplo, uma longuíssima extensão de telefone, ligando dois apartamentos: é o menino que não perde a esperança de receber uma notícia de seus pais, e é também a dificuldade de se estabelecer um relacionamento mais próximo entre o velho vizinho e o pequeno garoto não-judeu. Imagens de rostos pelo retrovisor, pelo espelhinho pendurado na parede, pelas frestas de um tabique, pelas grades de um terreno, passam pela tela como se toda pessoa, toda possibilidade de contato humano estável e firme, estivesse a ponto de fugir.

 

Ora, a experiência de exílio e de refúgio, vivida pelo menino no Bom Retiro, é também a dos judeus que escaparam do nazismo. Os policiais que invadem um apartamentinho brasileiro, à procura de “subversivos”, reproduzem as famosas “inspeções” dos SS nas casas dos judeus durante o nazismo. Silenciar, esconder-se, viver na desconfiança e na dependência da solidariedade dos outros, manter a própria identidade –eis o que cabe ao protagonista do filme. Tudo isso vai sendo tratado por Cao Hamburger com admirável pudor, sem nenhum apelo sentimental, com diálogos contidos ao extremo. O filme foi aplaudido bastante na pré-estréia, mas há algo nele que suscita uma outra homenagem, a de um longo silêncio quando se encerra a projeção.   

site do filme: www.oano.com.br

Escrito por Marcelo Coelho às 17h58

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não me misturo

“O ano em que meus pais saíram de viagem de férias” é o longo título do novo e tocante filme de Cao Hamburger, que será lançado em novembro. Estive na pré-estréia nesta segunda-feira, muito pouco à vontade, aliás, porque pensava que era um evento mais ou menos “normal”. Mas havia celebridades em número bastante para encher seis salas de uma arteplex, e muita gente ficou de fora; na qualidade de convidado de uma parente do diretor, senti-me “forçando a barra” ao ser finalmente admitido numa das salas. Perto de mim, havia um deputado, estadual ou federal, não sei. Nunca tínhamos sido apresentados: por que eu haveria de cumprimentá-lo? Mas o político já me olhava como se me conhecesse. Decerto não conhecia. Enfiei-me entre as poltronas do cinema. Sempre me lembro, nessas ocasiões, de um poema de Heitor Ferraz:

 

 

         ESTRANGEIRO

 

O café tomado na esquina

--meio de lado

no balcão

a ponto de observar

a manhã que reproduz

e se mistura

em pernas rápidas

(decomposição do movimento)

 

O café pago no caixa

--troco, obrigado, cigarro na boca

de mais uma manhã

 

mais uma manhã

trocando olhares

medindo gestos

(somos todos estrangeiros

nesta cidade

neste corpo que acorda)

 

e não me misturo

--com essa gente,

não me misturo.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h55

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risco de dentadas

risco de dentadas

Na campanha eleitoral, as paixões se radicalizam. Leia a coluna do "Agora" em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2310200603.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 16h32

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León Ferrari

León Ferrari

 

 

Na Argentina, pelo que sei, não há exposição do artista plástico  León Ferrari que não provoque ondas de protesto, abaixo-assinados e orações. Com suas colagens de páginas de jornal e santinhos católicos, ele identifica, por exemplo, a cumplicidade da Igreja com os torturadores do regime militar. Não só o catolicismo parece ser mais intransigente na Argentina do que aqui, como também o processo de investigações sobre os crimes da ditadura Videla tem desdobramentos e traumas que não conhecemos no Brasil.

 

O papel de provocação e choque das obras de Ferrari pode ser meritório, mas talvez se esgote em si mesmo, ou faça mais sentido em outro contexto que não o da Pinacoteca, onde uma pequena retrospectiva sua está agora em cartaz. O impacto visual de seu Cristo crucificado num avião militar americano é inegável; seu verdadeiro valor estético me parece, contudo, reduzido. O que fica bonito nessa obra, de todo modo, é a sombra que ela projeta na parede –o avião vertical, sem Cristo visível, ganha a magia que a escultura em si, justamente, tratava de destruir.

 

Parecem ser de outro artista as construções abstratas em metal, por vezes lembrando Jesús Soto, outras vezes puramente emaranhadas, que também estão expostas na retrospectiva. Alguns desenhos e telas caligrafadas com método e sutileza cromática chamam a atenção pela beleza; mas León Ferrari procura em geral chamar a atenção por outros meios, e me deixa bastante indiferente.

 

Mais duas fotos de obras do autor podem ser vistas em http://www.flickr.com/photos/lilianeferrari/280070149/

Escrito por Marcelo Coelho às 10h57

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A arte de Schwarzkopf

 

 

Um dos papéis mais marcantes da soprano Elizabeth Schwarzkopf, que morreu faz pouco tempo, na glória e no terror dos 90 anos, é o da Marechala, da ópera “O Cavaleiro da Rosa”, de Richard Strauss. Um DVD da EMI, disponível na Fnac, guarda um trecho de seu desempenho, numa gravação de 1961.

 

Elisabeth Schwarzkopf ainda está muito bonita, esbelta e aristocrática, no papel de uma mulher de meia-idade, apaixonada por um homem bem mais moço, o conde Octavian. Quando começa a cena, a Marechala está sozinha, perguntando como é possível que se refiram a ela com um título tão solene –ela que, saindo do convento, era apenas a princesinha Resi. Envelheceu, mas ainda é a mesma... E a mulher vivida que ela é agora se entrega a questionamentos religiosos dignos de uma moça de colégio. Se Deus deixou que seu envelhecimento acontecesse, por que ocultou-lhe o fato?

 

Irrompe, então, Octavian, apaixonado. Na ópera, seu papel é representado por uma mezzo-soprano, o que torna para o espectador mais nítida a impossibilidade de um amor verdadeiro entre o casal.  Octavian está de tal modo embriagado de paixão, que não consegue perceber as preocupações realistas da Marechala: “logo você me abandonará por alguma mulher mais jovem...”  Octaviano acha que tudo isso é charme, artifício de sedução.

 

A beleza da atuação de Elizabeth Schwarzkopf, assim como da música de Richard Strauss, está em oscilar entre coqueteria e dor, entre fingimento e percepção da realidade. No decorrer da cena, a Marechala simula estar feliz, sabendo que sua felicidade é impossível. Faz isso para agradar ao conde, a quem ama; faz isso para mentir a si mesma. Em poucos instantes, cai na realidade, mas isso para o conde é apenas uma mentira, feita para deixá-lo ainda mais louco de amor.

 

A própria Marechala hesita: dispensa o conde, dizendo que terá muito a fazer no decorrer do dia. Um almoço com o velho tio inválido, por exemplo. Mas revela que depois irá passear no parque, e que talvez o conde possa cavalgar ao lado de sua antiquada carruagem. Com esperanças renovadas, o conde se despede. A porta se fecha, e a Marechala cai no mais agudo e dissonante desespero.

 

Mas a música de Richard Strauss permite, ainda, uma dupla leitura, que o grande libreto do poeta Hugo von Hofmannstahl tinha sugerido. A Marechala se levanta e diz: “mas eu me despedi dele sem ao menos beijá-lo!” A espontânea preocupação de uma amante e a dor mais profunda da mulher idosa, que sabe já não ser a amante que ainda é, se reúnem numa mesma música, complexa e pura ao mesmo tempo.

 

Todas as variações de rosto e timbre surgem, como num arco-íris triste e cálido, em Elizabeth Schwarzkopf nessa filmagem. Trata-se de um dos grandes momentos do teatro e da música do século 20.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h08

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nestes dias

Nestes dias, lembro uma frase de Mário Quintana: "a esperança é um urubu pintado de verde".

Escrito por Marcelo Coelho às 23h35

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música clássica on line

Para os descontentes com a Cultura FM, o site a procurar é http://classicalwebcast.com/index.html

Escrito por Marcelo Coelho às 22h54

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Um navio nacional

Um navio nacional

No dia 26 de março de 1843, a nau de guerra britânica H.M.S. Cleópatra, de 26 canhões, capturou um barco brasileiro nas costas de Moçambique. O reverendo Pascoe Hill conta o que havia em nosso bergantim.

 

Figuras negras e nuas passavam pelo convés removendo qualquer sombra de dúvida que pudéssemos ter quanto ao gênero da embarcação e mostrava que ela estava com sua carga humana a bordo. O escaler tendo sido içado, um oficial foi enviado para tomar posse enquanto a bandeira britânica substituía a brasileira... Foi uma cena estranha a que se apresentou aos nossos olhos quando subimos. O tombadilho estava apinhado com o máximo de negros nus, que, segundo rezavam seus papéis, eram 450, na maior confusão, tendo se revoltado antes de nossa chegada contra seus últimos proprietários, que, por sua parte, também mostravam um grande nervosismo... A multidão de negros, com um aspecto de esfomeados, tendo ficado descontrolada, havia se apoderado de tudo o que lhes interessava na embarcação; alguns com as mãos cheias de “farinha”, a raiz da mandioca em pó; outros tendo quebrado os caixotes seguravam grandes pedaços de carne de porco e de boi; e alguns pegaram aves das gaiolas e as devoravam cruas. Muitos estavam ocupadas enfiando nos barris de água as pontas de panos que eles rasgaram e amarraram fazendo um fio.

E, infelizmente, havia outros que pelo mesmo método enfiavam s fios de pano na “aguardente”, um forte rum brasileiro, do qual eles beberam em excesso... A estridente zoeira do barulho, que não consigo nem descrever, era no entanto expressão de selvagem alegria vibrando nos ouvidos, misturada ao retintim das correntes de ferro, pois, por todos os lados, eles estavam arrebentando seus grilhões. Parece que desde o momento em que o primeiro tiro foi dado, eles começaram a trabalhar ativamente para se libertarem, no que os nossos homens não demoraram em ajudar. Eu contei uns trinta acorrentados aos pares; mas depois encontramos embaixo mais pares também acorrentados. Nem por um momento duvidamos de que modo eles nos viam. Eles se arrastavam em grupos e esfregavam carinhosamente nossos pés e passavam a mão nas nossas roupas, até rolavam pelo chão diante de nós, quando havia espaço no convés à nossa frente. E quando ele viram a tripulação do barco empurrando sem cerimônia os prisioneiros para o bote ao lado que ia levá-los para a fragata, eles soltaram um grito longo e universal de triunfo e alegria.

Agora fizeram um registro do número de negros, que somou 447. Destes 189 eram homens, poucos, no entanto, passando dos vinte anos; 45 mulheres; 213 meninos.

 

No livro Cinqüenta Dias a Bordo de Um Navio Negreiro, só agora editado no Brasil pela José Olympio, Pascoe Hill também informa que o nome da embarcação brasileira, vinda do porto de Paranaguá, era “Progresso”.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h33

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descaminhos da Cultura FM

Bem que eu tento me manter fiel à Rádio Cultura FM de São Paulo, que sempre teve o inestimável serviço de transmitir música clássica o dia inteiro. Mas de uns tempos para cá, toda hora que eu ligo o rádio encontro pessoas falando, e muito menos música do que seria de esperar. Acho bons os comentários de Luciano Ramos sobre os filmes em cartaz, mas não digo o mesmo de "O Sabor da Crônica", intervenção diária de Rodolfo Konder na programação. Multiplicam-se os programas de entrevistas, fugindo da função básica da rádio, que é divulgar música clássica. Há, naturalmente, a tentativa de abrir o espectro da programação para um público mais amplo; só que este já é atendido por outras emissoras.

À tarde, começou a triste prática de apresentar apenas movimentos de determinadas obras, numa salada nem sempre bem escolhida. Sempre se pode dizer que é questão de gosto. Mas não sei porque escolhem invariavelmente os clássicos mais apelativos em detrimento de obras mais profundas e exigentes. Sem contar com os casos de populismo desbragado. Entendo que haja horários destinados ao jazz, outro estilo musical a que as emissoras comerciais não dão espaço. Mas cançonetas italianas --já ouvi até Rita Pavone--, MPB em arranjo orquestral, "world music" e tudo o mais acabam tomando tamanho espaço na programação, que são poucos os programas, como o de GIlberto Tinetti, que ainda atendem ao antigo público da emissora. Acabo sintonizando, pelo computador, as rádios de música clássica de outros países, como uma rádio tcheca, uma rádio dinamarquesa... é só abrir o ícone do windows media player e clicar no "sintonizador de rádio". Bom programa.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h37

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a política e os tribunais

Uma das características desta eleição tem sido a presença extremamente forte, para não dizer intrusiva, do Tribunal Superior Eleitoral no processo político. Sempre foi necessária sua participação para reprimir abusos no horário gratuito, por exemplo, mas leio na “Folha” de hoje a notícia de uma decisão que me parece exagerada. Aqui vai um trecho da reportagem:

 

 

O Tribunal Superior Eleitoral concedeu ao presidente Lula dois minutos de direito de resposta contra o candidato do PSDB Geraldo Alckmin, na televisão. O TSE entendeu que a propaganda tucana não poderia ter responsabilizado Lula pessoalmente pela ausência de explicações sobre a origem do dinheiro apreendido com petistas. A data não foi marcada, mas não dever ocorrer hoje.


Os ministros consideraram ofensivo o seguinte trecho: "Lula manda na Polícia Federal, Lula manda nos ministros, Lula manda no PT. E por que será que até agora nem o Lula nem ninguém revela de onde vem o dinheiro preso com petistas para prejudicar Geraldo Alckmin? Hoje faz um mês e Lula diz que não sabe de nada".

 

A meu ver, esse tipo de insinuação da propaganda do PSDB está dentro dos limites da polêmica política. Se o programa de Alckmin dissesse claramente que “Lula sabia de tudo”, certamente a concessão de um direito de resposta seria admissível. Em casos menos evidentes, deveria prevalecer o princípio da “não-intervenção”.

 

O campo da disputa política estrito senso deveria ser suficiente para que respostas, ataques, contra-ataques, argumentos e contra-argumentos viessem a ser trocados pelos candidatos, sem o recurso a uma entidade judicial externa. Se um ou mais candidatos recorrem o tempo todo aos tribunais, isso talvez seja sintoma de uma fraqueza mais profunda no campo político –de sua incapacidade, talvez, de funcionar plenamente como arena para a disputa e a resolução dos conflitos.

 

O cientista político Renato Lessa, numa entrevista ao jornal “Valor Econômico” de quinta-feira passada, mencionou o risco de uma “tribunalização”, ou “judicialização” do conflito político. Fez um paralelo, que espero não se confirme pelos fatos, entre o processo atual de “bater à porta dos tribunais” com o antigo hábito, no período de 1945-1964, de “bater à porta dos quartéis”. Havia, conforme a expressão então em voga, as “vivandeiras dos quartéis”. Será que estamos diante das “vivandeiras dos tribunais”? O rótulo não cabe apenas à oposição, que já se articulou para impugnar a candidatura Lula, mas também ao PT quando solicita direito de resposta no caso mencionado acima.

 

Tendo a achar que todo esse movimento se esvaziará assim que for proclamado o resultado do segundo turno. Mas o grau de radicalização destas eleições talvez seja inédito desde a redemocratização. Pelo menos, nunca tinha ouvido falar de agressões a dentadas em bares do Leblon, aparentemente por razões políticas. 

 

Ainda no assunto eleições, especulo sobre as razões da queda de Alckmin nas pesquisas no artigo de hoje da "Folha": http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2110200603.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 14h20

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Na Bienal (10)

Ainda em relação ao mundo dos cartazes de rua, “Ridin’ Dirty”, obra de Mark Bradford, merece atenção na 27a

Bienal. O artista, nascido em Los Angeles, trabalha com os papeizinhos e cartazes “do comércio local, que existe nas áreas cinzentas da informalidade, no que diz respeito a licenças e imigração”, como ele explica em entrevista publicada no catálogo da Bienal. Camadas de fuligem e cal parecem tentar acentuar a invisibilidade dos trabalhadores clandestinos, ao mesmo tempo em que a obra grita em suas dimensões dramáticas.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h14

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a arte do telemarketing

Fiz uma assinatura de “Època”, há uns dois ou três anos, porque de longe era a revista semanal com melhor seção de cultura –umas quinze páginas ou mais, dando atenção a exposições de arte e a lançamentos de livros que não se resumiam ao ramerrão dos best-sellers. Há alguns meses isso acabou, em benefício de uma abordagem “pop”, com destaque a videogames e bandas adolescentes, além do absurdo de noticiar livros e DVDs em quadradinhos com menos de dez linhas de texto.

 

Mas já estou resignado quanto a isso, e se é para ler alguma coisa de jornalismo cultural o melhor é reservar tempo para o “Times Literary Supplement”. Queria é falar do telemarketing. Não deve ser exclusivo da editora Globo, mas eles desenvolveram uma técnica terrível para fazer você renovar as assinaturas.

 

O telefone toca, pedem seu nome, e dizem que estão confirmando alguns dados. A revista tem chegado direito? Sim. O senhor tem alguma reclamação? De jeito nenhum. A essa altura você já está querendo desligar. Mas tem de repetir seu rg, endereço, cpf... e no meio da conversa, sem que você saiba como, eles dizem que você continuará a receber a revista, e terá grátis alguns exemplares de outra publicação da editora, e mais um livro de brinde... Muito obrigado.

 

A palavra “renovação da assinatura” nunca é pronunciada. Só perto do fim, quando estão reconfirmando tudo de novo, eles dizem que serão descontadas tantas parcelas do seu cartão de crédito, e que a assinatura valerá para os próximos dois anos. Claro que você pode interromper tudo nesse momento. Cansado, concordei. Mas o essencial da tática prevalece: não pergunte nada ao cliente; coloque-o diante de um fato consumado, e ele termina aceitando. Faça com que ele diga tantas vezes a palavra “sim” que, no momento decisivo, ele já não tenha mais condições de pensar no que está fazendo.

 

Talvez a maior parte das nossas supostas “opções” tenham essa estrutura. Imagino um político qualquer; no começo de sua carreira, é intransigente e puro; pronuncia, com o passar dos anos, mais e mais a palavra “sim”. Quando chega um momento realmente importante –apertar ou não a bomba atômica, por exemplo--, será muito difícil para ele dizer um “não”. Ele já carrega, na ponta extrema de seu ato decisório, o peso e a inércia de todas as concessões e iniciativas que já tomou. Sua liberdade decresce com os anos, porque degenerou em hábito.

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 13h32

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aipo e berinjela

aipo e berinjela

Maridos na cozinha gostam de experimentar. Com o de Georgete as coisas não foram diferentes. Veja a crônica de hoje no link http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1910200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 13h31

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O "bundão da escola"

Para quem teve sua formação política no tempo do regime militar, a profissão de prestígio, no campo do Direito, era unicamente a de advogado. Havia certa antipatia com quem “gostasse de prender gente”: promotores, juízes, delegados, estavam de alguma forma associados á famosa “repressão”, e naqueles tempos de pensamento ultraliberal, a própria idéia de punir alguém tinha algo de retrógrado, de arbitrário... Hoje, famosos advogados de esquerda ganham a vida tentando provar a inocência de pessoas bem diferentes daquelas que eram perseguidas pela ditadura. O prestígio político, o papel “cívico” mais importante deslocou-se para o Ministério Público –sem falar da antes tão desprestigiada Polícia Federal. Recebo e-mails do serviço de imprensa do MP de São Paulo, e a notícia abaixo merece destaque. É um exemplo de proteção aos direitos do cidadão, numa área a que não se costuma dar prioridade habitualmente.

Justiça proíbe promoção “Bundão da Escola” da rádio Mix

 

Ministério Público moveu Ação Civil Pública por considerar a campanha ofensiva e desrespeitosa

 

 

O Ministério Público de São Paulo obteve, no dia 11/10, liminar em Ação Civil Pública contra a Rádio Mix (nome fantasia da Cidades do Vale Rádio Ltda.) para proibir a competição entre seus ouvintes na denominada “Promoção Bundão da Escola”.

 

Segundo o MP, a campanha dirigida ao público juvenil estimula a violação ao direito de imagem, em especial de crianças e adolescentes, conclamando-as a pegar “sua máquina, seu celular e sair à caça do maior bundão da escola: pode ser um amigo, o bedel, um professor...”. O site da Rádio Mix informa que a média de ouvinte por minuto é de 152.300 pessoas, sendo 72% com idade entre 10 a 29 anos.

 

“A conduta ilícita da rádio estimula a prática de violência entre indeterminável número de alunos de nossas escolas; violência psíquica e moral, práticas humilhantes, discriminatórias, vexatórias e até de racismo; e violência que pode transbordar para a própria lesão à integridade física de crianças e adolescentes”, destaca a Promotora de Justiça da Infância e Juventude Martha de Toledo Machado, uma das autoras da ação.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h46

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pesquisa rápida

pesquisa rápida

O voto do indeciso é o tema de hoje da coluna no "Agora". A pesquisadora Rejane constata os humores do eleitorado: http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1810200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 16h44

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"Pintar ou fazer amor?"

Sergi Lopez e Amira Casar:  jantarzinho íntimo antes de ir para a cama

 

Apesar das estrelas que andou ganhando, “Pintar ou Fazer Amor?”, de Arnaud e Jean-Marie Larrieu, é um exemplo daqueles filmes franceses da pior espécie: burgueses até a medula, onde uma suposta sutileza psicológica é mera tentativa de nobilitar algumas situações eróticas que nem sequer são filmadas a contento. Mal aparecem, na verdade –seria “demasiado vulgar”—mas a razão mais forte para fazer o filme teria sido mostrá-las.

 

A jovem atriz Amira Casar, sem roupa, é menos interessante do que vestida; só que, vestida, nem mesmo merece o nome de atriz: entra muda e sai calada de toda a história. Sabine Azéma, mulher de meia-idade que oscila entre as duas atividades mencionadas pelo título do filme, incomoda muitíssimo com seus trejeitos e intenções.

 

Natural que os respectivos maridos (Daniel Auteuil, sempre espontâneo e simpático, e Sergi López, intrigante no papel de um deficiente visual) resolvam, depois de alguns pobres diálogos, movimentar um pouco o tédio em que todos se encontram. 

 

Os momentos que mais chamam a atenção em “Pintar ou Fazer Amor” são aqueles em que a tela fica completamente escura, simulando a situação de cegueira em que se encontram os personagens, indecisos diante dos próprios sentimentos, e perdidos, literalmente, na escuridão de um bosque; é o personagem cego quem conduz os outros três a um lugar seguro.

 

O contraste entre escuridão e as paisagens radiosas das montanhas do Vercors propicia aos diretores do filme exercícios estéticos um tanto rasos: é que os cortes abruptos na montagem, que supostamente apontam para o abismo entre o “ver” e o “não-ver”, funcionam na verdade para abreviar a história e poupar trabalho de roteiro. Inventa-se até o casamento da filha de Auteuil com um jovem brasileiro (identificado por trilha sonora típica), apenas para dar ocasião a um reencontro dos personagens principais. O episódio do casamento nada acrescenta ao enredo nem à psicologia dos personagens, servindo apenas como “calço” para encobrir um hiato na história.

 

Tudo oscila entre o prosaico e o implausível, entre o embaraçoso e o inconseqüente. Diante de “Pintar ou Fazer Amor?” o melhor é ficar em casa mesmo.

Para uma opinião divergente, leia http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1210200620.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 15h35

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Na Bienal (9)

Não estão na Bienal, mas permitem ver melhor o trabalho de Raimond Chaves e Gilda Mantilla, as imagens que retirei do site www.dibujandoamerica.net:

 

Escrito por Marcelo Coelho às 08h18

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Na Bienal (8)

Os desenhos de Raimond Chaves e Gilda Mantilla são também de pura inspiração popular. A dupla desenvolve o projeto "Desenhando a América", e as obras expostas na Bienal descrevem sua viagem pelas fronteiras de Peru, Brasil e Colômbia. "Vamos tecer comentários por meio dos desenhos", dizem eles numa entrevista publicada no catálogo da Bienal, "porém, nosso principal interesse é construir desenhos fortes, precisos e de boa qualidade. Nesse sentido, o desenho é o meio e o fim em si mesmo." Mesmo numa Bienal, às vezes as coisas se descomplicam....

 

Estradas, rios, a caixa que um vendedor ambulante carrega no peito, folhas: viagem.

Escrito por Marcelo Coelho às 08h15

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coluna de segunda

coluna de segunda

Como hoje não está disponível no site do Agora, publico aqui a coluna desta segunda-feira:

 

LANCE DE GÊNIO

 

 

Ousadia.  Espanto. Inovação. É a Bienal de São Paulo.

Artistas de todas as partes do mundo vêm confundir a cabeça do brasileiro.

Como se isso fosse necessário.

O nigeriano Nuntendo Bulyuwa desenbarcava em Cumbica.

Sua gigantesca bagagem prometia muita criatividade. Muito delíriio.

Repórteres se apinhavam para entrevistá-lo.

Mas o genial africano preferia não dar explicações.

--Please. Please. I love Brazil. Thank you.

Uma comitiva levou-o diretamente às dependências da Bienal.

O contâiner de Nuntendo foi aberto com estupefação.

O que parecia um belo gramado da savana foi estendido sobre o chão.

A crítica de artes plásticas Marilu Valcarce dava explicações.

--A temática ecológica sempre esteve presente na obra do Nuntendo.

Foi quando apareceu a Polícia Federal.

Operação Girafa no Pasto. O material era maconha de primeira.

O nigeriano na verdade se chamava Jessé de Arimatéia.

Traficante baiano fichado na polícia. E que agora faz performance no xadrez.

Para muita gente, não é preciso arte para viajar na maionese.

 Outra história de Bienal está disponível, para assinantes do uol, em http://tinyurl.com/ye75kh

Escrito por Marcelo Coelho às 15h58

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Na Bienal (7)

No campo da arte popular, bem representada nesta Bienal, o "Projeto Longa Marcha" se destaca. Uma de suas atividades é um levantamento da arte de recorte em papel no município de Yanchuan (China). A cidade tem 180 mil habitantes, e o que se fez ali foi um projeto social recenseando todas as artesãs responsáveis pela elaboração de 15 mil recortes em papel vermelho. Há desde um simples pimentão aos mais elaborados rendilhados. Alguns exemplos, tirados do site http://www.longmarchspace.com/images/cutting/index-e.htm:

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h55

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Na Bienal (6)

Mais algumas imagens dos pratos de Antoni Miralda:

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h45

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Na Bienal (5)

Quem já deu uma olhada na seção "pizzas e cia." deste blog sabe que tenho um fraco por representações populares urbanas, em especial os cartazes de comida; quando menos você espera, vê pela internet que há muita gente aficcionada desse tipo de coisa. Na Bienal, há um artista com o curioso projeto de montar "pratos feitos" artificiais, que retratam diferentes cidades brasileiras. São Paulo, por exemplo, tem pratos feitos com bijuterias no estilo novo-rico; Salvador apresenta composições com grãos crus de arroz e feijão. Seguem algumas fotos que tirei; o artista é Antoni Miralda, e há informações e outros links sobre ele na seção sobre a Bienal do Universo On Line: http://diversao.uol.com.br/27bienal/artistas/antoni_miralda.jhtm 

(acima, um trecho da coleção de pratos sobre São Paulo)

(note, no detalhe, o mouse com teclado e pizza)

Escrito por Marcelo Coelho às 16h43

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Na Bienal (4)

Outro artista encantador e minucioso como Hélio Melo, de quem falei abaixo, é o inglês Simon Evans, nascido em 1972. Ele faz (melhor seria dizer "compõe") quadros de grandes dimensões, representando mapas e diagramas, cobertos de palavras manuscritas com lápis finíssimo, e grudadas com fita adesiva. Num mapa enorme, por exemplo, ele localiza não os lugares reais de uma cidade, mas todas as lembranças e associações de que é capaz, classificadas conforme territórios que ele cria com grande inventividade: há o bairro das coisas que eram interessantes e deixaram de ser, o bairro dos incômodos que não percebemos na hora, o quarteirão das pessoas mortas que a gente conheceu em festas, esse tipo de coisa; é quase uma literatura inesgotável, organizada segundo as cores mais delicadas e com um senso de humor que é sempre sutil, ao contrário das pesadas piadas "críticas" que tantas vezes atulham as bienais. Sobre o artista, ver link: http://tinyurl.com/ynbofm

 www.jackhanley.com 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h33

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Na Bienal (3)

Mais uma pintura de Hélio Melo (1926-2001), cuja "inocência" representativa parece esconder uma silenciosa violência: os instrumentos de trabalho são instrumentos de destruição e também de defesa; a imagem do seringueiro, traçando seus riscos na casca da árvore, é também a de um desenhista. A cena real da extração da borracha se mostra ao lado de uma intenção como que catalográfica, de verbete de dicionário, com os instrumentos de trabalho à esquerda. Tudo com uma grande economia de cores, triste e tímida, que lembra tons de pele, mais do que a exuberância turística da floresta.

A má qualidade da foto é de minha responsabilidade. Deixam o visitante tirar fotografias, e levei minha câmera digital. Cheguei a usar flash, o que deve ser perigoso para pinturas tão frágeis. Depois me toquei e fiz o que pude. Não sabia que a lente distorce tanto. Era para a tela ser retangular. Já a transposição para o blog cortou uma parte da figura do lado direito... vivendo e aprendendo.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h07

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Na Bienal (2)

Aqui vai uma imagem um pouco maior da obra de Hélio Melo, um dos destaques da Bienal. É um tanto "fantástica" demais para o meu gosto; sua fabulação, em geral, é mais sutil, mas este motivo da árvore se repete em várias obras suas; seriam mapas, figuras ameaçadoras, ou quem sabe as próprias trilhas do seringueiro na floresta? Interpretações nascem, neste caso, por falta de informação.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h28

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falta de rótulos

No artigo de hoje na Folha (http://tinyurl.com/upe2p) critico a falta de qualidade da propaganda eleitoral de Alckmin, e a voga petista de qualificá-lo como "privatizante"; o rótulo colou, mas a meu ver oculta problemas mais sérios da candidatura tucana. Critico também a história de vender o Aerolula. É demagogia do candidato, mas quem viu as fotos do interior da aeronave, que circulam pela internet, tem razão de se escandalizar. Nem num emirado árabe aquilo seria aceitável. O que não torna menos ridículo centrar a disputa eleitoral em cima desse ponto. Enfim, minha posição é criticar os dois candidatos. Ou melhor, é a função de quem escreve num jornal. Recebo críticas de alckmistas e lulistas, e me impressiona a raiva de muitos. É bom recebê-las, porque se anulam mutuamente, eu acho, embora não tenha feito a estatística. Meu voto é só um voto; o que interessa é se os comentários que eu faço podem esclarecer alguma coisa ou colocar dúvidas no leitor mais radicalizado.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h51

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Um poema de Alicia Penna

Um poema de Alicia Penna

         Encontro no ótimo Suplemento Literário de Minas Gerais (http://tinyurl.com/vcyxk) dois poemas da arquiteta Alicia Duarte Penna, que deve publicar em breve dois livros: “Espelho Diário”, pela editora UFMG, e “Par de Meias”, em edição independente. Poemas sobre o ato de cozinhar lembram sempre Adélia Prado, e textos sobre o mistério das galinhas sugerem a influência de Clarice Lispector. Mas estar dentro de uma tradição da literatura feminina não é nenhum problema. O corte fino destes versos, seu quase imperceptível tom confessional, revelam uma escritora em plena posse de si mesma.  

 

Limpo corações e

penso nas galinhas.

A cada coração, uma galinha.

Mais do que nos pés, nas asas ou no pescoço,

eis aqui a prova da existência da galinha.

 

Uns grandes corações, uns mínimos.

Uns gordos (as galinhas engordando para que as comamos).

Tiro a película que os envolve,

como numa operação.

Depois, abro a torneira.

A água jorra e

lava o sangue,

lava a alma das galinhas.

É uma missa que celebro.

 

As galinhas,

é uma honra tocá-las no coração.

Às galinhas,

que parecem tão inescrutáveis,

tão inextricáveis,

descubro-lhes o coração:

um coração simples de galinha,

que assim começa, assim termina

Escrito por Marcelo Coelho às 10h01

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Na Bienal

Como sempre, há coisas chatas na Bienal, e pessoalmente não agüento ver tantas televisões numa exposição de arte. Mas depois de vencidos o térreo e o primeiro andar, vou entendendo melhor a “narrativa”, como se diz, que preside a exposição. O tema “Como Viver Junto” vai explicando, ou pelo menos situando, cada uma das obras expostas; pretendo falar mais sobre isso no próximo artigo da Ilustrada. Aqui no blog, destaco os artistas que mais me interessaram.

 

Uma das descobertas é a arte do seringueiro Hélio Melo, nascido no Acre em 1926, e que morreu em Goiânia, em 2001. Faz pinturas com nanquim e sumo de folhas, o que dá uma coloração escura, meditativa, a suas paisagens da floresta equatorial. É um “primitivo”, ou “naif”, se quisermos classificar; nada melhor do que ver a Bienal abrir-se a esse tipo de manifestação. Mas quanto paternalismo em chamar de “manifestação” ou de “primitiva” uma obra tão pensada, tão lentamente feita, tão consciente do desenho e da luz. Nada de exuberâncias amazônicas; nada de um “fantástico” tropical, latino-americano. Se há cenas insólitas, como a de um burro montado no galho de uma árvore, elas aparecem com uma aura de silêncio, com uma “falta de espanto”, absolutamente notáveis.

 

Abaixo, algumas micro-imagens. Tentei publicar as fotos que tirei com a minha máquina digital, mas saem enormes, e estou tentando dar um jeito. Estas aqui podem ser visualizadas melhor no site da Uol sobre a Bienal:  http://diversao.uol.com.br/27bienal/artistas/helio_melo.jhtm

                         

                                          

 

 

 

                                          

 

                                           

Escrito por Marcelo Coelho às 09h44

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"Piauí" (2)

Acabo de ler a revista, e sem retificar a ótima impressão inicial, noto que o risco da gratuidade não foi totalmente afastado em algumas matérias. O horóscopo, por exemplo, recorre a um humor muito fácil, e o recurso de fazer previsões irônicas para cada signo remonta, no jornalismo brasileiro, à revista "Fatos e Fotos", uma antiga concorrente de "Manchete" e do "Cruzeiro", que teve esse gênero de apelação aí por 1967-69. Quanto às anotações feitas por Ivan Lessa, a propósito de seu retorno ao Rio depois de quase trinta anos de ausência, não estão à altura da fama do jornalista; é a autocomplacência no estilo "Pasquim", dando sinais constrangedores de cansaço.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h09

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A revista "Piauí"

Tinha certo preconceito com a revista “Piauí”, a começar pelo nome. Mais do que uma brincadeira amena e levemente provocativa –não se oferecem explicações para a escolha, tornando-a artificialmente “intrigante”--, há nesse título, a meu ver, algo de acintoso: o chique do chique fazendo de conta que é xique-xique. Queijo de coalho na Praça Villaboim.

 

Mas retiro todo o preconceito. Do que li até agora, pouca coisa não merece a qualificação de excelente. Os pequenos textos do início, imitando um pouco o “Talk of The Town” da revista “The New Yorker” têm justamente um forte sentido da realidade nacional, livre da ótica excessivamente paulistana ou carioca a que estamos acostumados na imprensa. Os textos são de grande elegância e não chateiam. Escolhem-se personagens comuns –outra raridade na imprensa, entregue usualmente ao culto das celebridades—sem nenhum ranço populista ou vocação para a platitude.

 

Difícil destacar apenas um ou dois pontos altos naquilo que já li. A reportagem sobre quem trabalha em telemarketing, feita pela jornalista e escritora Vanessa Bárbara, é uma perfeição. Com senso de humor na medida, sem caricatura nem olhar de desprezo disfarçado, Vanessa mostra o absurdo, a violência das condições de trabalho nessa área, que é a que mais abriu vagas no país. Tudo a partir de retratos breves de situações e personagens, que ganham individualidade e graça, sem paternalismo ou condescendência ideológica.

 

O texto da última página vai na mesma direção, contando um acidente de trabalho fatal na construção civil. Tratar o assunto com leveza seria detestável; tratá-lo com mão pesada seria banal. Elegância, aqui, não é enfeite, truque de estilo, água-de-colônia; não é nem mesmo “bom gosto”: é uma certa limpidez de visão, de foco, e um controle muito grande na ordem de exposição dos fatos.

 

Reportagens curiosas, como a que trata das vendedoras evangélicas de acarajé em Salvador, poderiam ser apenas “curiosas”, mas são mais do que isso. A situação é das mais interessantes: uma lei municipal exige que todas as vendedoras de acarajé usem as roupas típicas do culto afrobrasileiro. As vendedoras evangélicas não aceitam, ou não se dão bem, com o figurino “pagão”; encontram-se, portanto, na ilegalidade... ou dão um “jeitinho”. O pastor benze as roupas, livrando-as de qualquer conotação pagã.

 

Um texto desses poderia cair no pecado da “gratuidade jornalística”, faltando-lhe urgência, necessidade, temperatura política. Numa revista mensal, é certo que esse risco existe. Mas a reportagem se sustenta por si mesma, abrindo muitas questões antropológicas e políticas, sem pretender ser uma “alegoria do Brasil”.

 

De fato, o que “Piauí” revela é que o tempo das “alegorias” já passou. O país tornou-se complexo demais para aquele tipo de visão que, inspirado em Glauber Rocha, inspira até hoje os textos de um Arnaldo Jabor, por exemplo. A voga dos documentários, no cinema brasileiro contemporâneo, é prova de que o interesse em assuntos específicos, em pequenas “fatias” da realidade, evidenciadas com o máximo de precisão e imparcialidade possível, supera as ambições exasperadas, pseudomíticas, convulsas, de uma “terra em transe”. O que temos são “notícias de uma guerra particular”. Uma só? Infinitas. “Piauí” tem um longo caminho pela frente.

Escrito por Marcelo Coelho às 09h32

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noite quente

noite quente

A agressividade nos debates políticos pode ter estranhos efeitos na classe média. Verifique a crônica do "Agora" (para assinantes do Uol) em http://tinyurl.com/po2a2

Escrito por Marcelo Coelho às 11h11

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oferecer ou permitir?

oferecer ou permitir?

No artigo desta quarta-feira, voltei ao tema dos presentes para o Dia das Crianças, e o fascínio que eles exercem sobre os adultos. Uma das coisas que me chamam a atenção, quando entro numa loja de brinquedos, é o grau de realismo, de perfeição das bonecas e dos carrinhos à venda. Há uma espécie de duplicação, de clonagem da própria fantasia; o boneco do Shrek é exatamente igual ao Shrek do desenho animado, o Homem-Aranha de brinquedo faz quase tudo o que o Homem-Aranha “real” é capaz de fazer. Desse modo, não sobra espaço para muita coisa a ser reelaborado pela criança, que vive numa satisfação imediata de seus desejos, e no tédio que isso acarreta.

 

Mesmo assim, quem não resiste a comprar os badulaques sou eu; em parte, devido ao meu próprio consumismo. Há outro fator em jogo, contudo, que vai além do mero comportamento econômico.

 

Como a grande maioria dos pais e mães contemporâneos, minha atitude básica diante das crianças pode ser resumida num verbo: oferecer. Sinto que o mundo é cheio de atrações, de coisas a serem desfrutadas e conhecidas. Quero que meus filhos não apenas as desfrutem, mas sobretudo que as conheçam. Tenho satisfação, quando passeio de carro com meus filhos, de ir apontando as coisas que aparecem no caminho: isto é uma igreja, isto é uma padaria... há como que a felicidade edênica de ir nomeando as coisas, uma a uma, no inesgotável e fresco Jardim do Mundo.

 

Também a mãe abre o armário da cozinha e pergunta para o filho: “quer biscoito de polvilho? quer bolacha de doce-de-leite? quer bolinho de chocolate”? Inevitável que, diante de tanta oferta, a criança entre em crise. Não está preparada para decidir; não sabe o que perde e o que ganha com cada opção. Oferece-se, na verdade, a perda, e não o ganho, para ela.

 

Uma das conquistas pedagógicas que presenciei com meus filhos foi o momento em que deixei de conjugar o verbo “oferecer” e passei a ver meus filhos usarem os verbos que lhes cabem: “eu posso? você deixa?” Cada oferecimento, de luxo importuno, passou a ser conquista. Em vez de tentar iluminar novos objetos sobre o fundo ofuscante do “sim”, passei a apresentar cada coisa sobre o fundo negro do “não”. Como num quadro clássico, cada maçã, cada pêssego, adquiriu assim um valor mágico, a preciosidade natural que deve ter na vida.

 

Extraio disso uma conclusão teológica: a única fruta que vale a pena, no Paraíso, é a proibida. Toda a obra da Criação era, na verdade, insípida aos olhos do primeiro homem, da primeira mulher. Saber é experimentar. Conhecer o mundo é conquistá-lo, pouco a pouco, num jogo entre o risco e a permissão, entre a dúvida e o prazer.

 

Meu pai, figura alheia a qualquer autoritarismo e tradição, mas apreciador de formalidades que a meus olhos não tinham nenhum sentido, gostava que toda noite eu lhe pedisse “a bênção”. Talvez esse ritual arcaico tenha um sentido oculto; é como se representasse a autorização, plenária e irrestrita, que se desse a uma criança para fruir e conhecer o mundo. O mundo que se dá “de mão beijada”, ou seja, tomando por automática essa autorização, substituindo permissão por oferecimento, não tem valor.

artigo na Ilustrada: http://tinyurl.com/ety5e

Escrito por Marcelo Coelho às 22h59

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Mozart com bonecos

Mozart com bonecos

 

Poderia haver mais música de Mozart no espetáculo de bonecos "A Flauta Mágica", em cartaz na programação infantil do teatro Alfa (http://tinyurl.com/kseyw). Minha experiência é que as crianças aderem com facilidade às melodias do compositor, e a opção da Companhia Imago de Animação foi no sentido contrário, de privilegiar as falas e a história da ópera. Isso tende a afastar as crianças menores --pelo menos as de colo, e vi muitas na platéia--, que se perdem e choram um bocado durante a representação.

Mesmo assim, "A Flauta Mágica" é o mais elaborado e bonito espetáculo dessa companhia, que já havia encenado com sucesso "Pedro e o Lobo" no Teatro Folha. O número de bonecos, a variedade de recursos e surpresas cresceu muito, e não se passam dois minutos sem que uma aparição fantástica e luminosa encha os olhos do público. A técnica de manipulação de bonecos e objetos, por atores invisíveis no fundo negro da cena, atinge momentos de muita sofisticação. Quando o príncipe Tamino tem de passar pelas provas da água e do fogo, para salvar sua princesa, o simples uso de cordas coloridas, fortemente iluminadas, cria uma ilusão de perigos ao mesmo tempo delicados e de impacto. Borboletas, dinossauros, passarinhos e navios flutuam na escuridão, sempre com um colorido fortíssimo, quase saturado, mas ainda assim sob controle. Vale a pena.

Os habitantes da Zona Oeste da cidade devem, entretanto, munir-se de mapas e utilizar do máximo de atenção para chegar ao teatro Alfa; no final de uma epopéia pela Marginal do Pinheiros, terminei entrando no estacionamento errado: era um centro de exposições onde se realizava uma feira náutica, onde foi difícil achar vaga (a 17 reais) num oceano de carros e trailers, sob ameaça de chuva iminente. Perto disso, a prova da água enfrentada por Tamino é mesmo coisa de criança.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h04

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ecologia para crianças

ecologia para crianças

Não é que eu desaprove, mas vejo com bastante tédio as iniciativas destinadas a conscientizar as crianças sobre a importância da ecologia. Primeiro, porque elas já estão entupidas de consciência ecológica; se tivessem um décimo disso em matéria de consciência social, já seria uma revolução. Segundo, porque uma coisa é ter um distante amor pela floresta amazônica, outra coisa é saber quais os hábitos, preferências de consumo, alimentos que, na nosssa vida real, causam ou não danos no meio ambiente.

A escolinha que não pára de mandar as crianças fazerem trabalho sobre arapongas e sucuris utiliza móveis com selo ecológico? Exige cadernos de papel reciclado? Sabemos se o suco ou o leite de soja que tomamos tem os papéis em ordem do ponto de vista ambiental?

Claro que tudo é um processo lento, mas nada chega tão perto da banalidade quanto a suposta conscientização ecológica que vigora hoje em dia. Será apenas um clichê, como o uso dos gerúndios, enquanto não for acompanhada de informação real. 

Apesar do meu estado de mau humor, é agradável, curta, bem-organizada e grátis a instalação para crianças intitulada "Cochicho da Mata", que ocupa uma parte do andar térreo do Shopping Eldorado. Imita-se o ambiente de uma floresta equatorial, escuro e úmido (os visitantes, reunidos em pequenos grupos, entram com uma capa de chuva). Pisamos sobre folhas secas, o som ambiente reproduz a barulheira da mata, e há árvores falantes, que não gritam demais. Alguns pequenos e agradáveis números musicais se intercalam com vídeos, nada notáveis, de macacos ou passarinhos, se é que me lembro bem. O conteúdo, como eu disse, não escapa do clichê, mas as crianças se distraem, e há certamente um encanto em encontrar, dentro de um shopping de vidro e granito, um outro mundo. Informações e horários no site: http://www.shoppingeldorado.com.br/

                               

Escrito por Marcelo Coelho às 17h38

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indicação

indicação

Carolina Costa foi editora da revista "Educação" e do extinto caderno "Sinapse", da Folha. No seu blog, ela tem uma seção especial sobre lançamentos de literatura infantil. Veja em http://guindaste.zip.net/

Escrito por Marcelo Coelho às 17h08

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brinquedos incorretos

brinquedos incorretos

Acabei não resistindo e já dei aos meus filhos o presente do Dia das Crianças. Consumismo bravo. Eu me vi pagando cerca de cem reais por um equipamento de plástico importado, que valeria uns trinta e poderia ser fabricado por aqui mesmo. Pior: era uma fantasia de caubói, com direito a balas e cartucheira, e nem me dei conta de que a coisa poderia ser politicamente incorreta, ou pelo menos antipedagógica. Nunca liguei, é verdade, para censuras desse tipo no campo dos brinquedos.

 

Com revólver ou varinha mágica, a criança está buscando, acima de tudo, uma fantasia de poder; sua agressividade natural não é mais ou menos estimulada com isso. Pela minha experiência, programas muito agitados e violentos na TV têm, sem dúvida, um efeito ruim sobre as crianças: elas assistem, imóveis, à pancadaria, e depois precisam extravasar a informação absorvida. Roupas de super-herói e armas de brinquedo não têm necessariamente o mesmo impacto; a criança cuida de construir, para si mesma, uma imagem maior, mais forte, fantasiosamente adulta, que compense a fragilidade de seu cotidiano.

 

Mas o espaço entre fantasia e realidade vai aos poucos desaparecendo dos brinquedos contemporâneos. Se fui consumista, tenho pelo menos um consolo: passei longe da invenção mais perigosa e deletéria que, atualmente, encontra-se à venda nas lojas de brinquedos.

 

São motocicletas e carrinhos com motor de verdade, acho que elétrico, que as crianças podem pilotar como se fossem adultos em miniatura. Não sei qual a velocidade que alcançam; mas são carros e motos reais, embora diminutos. A criança, com isso, deixa de estar “brincando” de dirigir um carro: locomove-se, de verdade, sobre quatro rodas –não quero nem imaginar o caso da motocicleta. Será que não deveriam exigir carteira de habilitação?

 

Penso não apenas no perigo –um gato ou um hamster talvez terminem atropelados, na melhor da hipóteses—mas no curto-circuito psicológico da coisa. Um cidadão comum, de carro, já se sente onipotente, superior ao civil pedestre. Uma criança com a chave do veículo no bolso, fazendo manobras, saindo pela calçada, deixa de ser a criança terrível que muitas vezes já é, para tornar-se um adulto vitimado por algum raio que o reduziu de tamanho. Não é outro o espírito da moda chique infantil, especialmente a voltada para os meninos; os anúncios da Daslu ou do Iguatemi capricham em meninos de cárdigã e mocassim italiano, pronto para examinar portfolios de investimento. Prefiro os caubóis.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h24

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é tudo verdade

Comprei o vídeo "Eu, um negro", do mestre dos documentários africanos Jean Rouch, porque anunciavam que vinha junto "Os mestres loucos", um registro de rituais de possessão em que os negros assumiam, no transe, a personalidade dos dominadores brancos. Mexo e remexo no controle remoto, mas "os mestres loucos" simplesmente não consta do menu. Se alguém puder me ajudar, agradeço.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h01

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Um pouco de política

No artigo deste sábado na Folha (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0710200605.htm), comecei falando de uma coisa e acabei mudando de assunto. Tento recuperar a idéia inicial. Minha intenção era comentar os apoios heterogêneos aos dois candidatos. No Rio, na semana passada, houve um festival de ecletismo ideológico. Apoiando Lula, estavam desde o evangélico Crivella à pecedobista Jandira Feghali --cuja derrota eleitoral se atribui, em parte, a suas posições a favor do aborto. Do lado de Alckmin, a fragilidade das alianças era ainda mais explícita, a ponto de Denise Frossard querer desistir de apoiar o candidato tucano ao saber da adesão do casal Garotinho à candidatura deste.

Comecei o artigo com uma avaliação contestável: a de que a confusão dessas alianças demonstrava a incompreensibilidade da política fluminense. A idéia, que me pareceu atraente para um início de texto, era a de que os cariocas reclamam dos paulistas, cujas preferências eleitorais são no mínimo exóticas, haja vista o caso de Maluf ou o de Clodovil. Mas é claro que, se há incompreensibilidade no eleitor paulista (eu mesmo discordo dessa tese, como indiquei em meu post anterior sobre Clodovil), as estranhezas do Rio têm uma explicação bem mais simples: no segundo turno, afinal, juntam-se cães e gatos, gregos e troianos. O planeta Garotinho resolveu apoiar os dois candidatos ao mesmo tempo, mas isso está longe de ser incompreensível: é tática, interesse político.

De qualquer modo, enveredei a partir daí numa defesa da idéia de que Alckmin deveria ter recusado o apoio de Garotinho, fortalecendo a posição de Denise Frossard. Um pouco irrealista, claro, mas eu dizia que falta irrealismo à política brasileira, e se é para alguém se mostrar ético nestas eleições, ou pelo menos defensor de algum princípio claro, certo rigor na seleção dos aliados cairia bem.

A questão que ficou sem ser abordada, entretanto, era outra. Trata-se do problema da famosa "base parlamentar" de sustentação a um futuro governo, que está relacionada, embora não se confunda, com a das alianças exclusivamente eleitorais do segundo turno.

Minha tese é a de que, infelizmente, há no mínimo dois tipos de partido no Brasil. Os partidos "verticais", que lançam candidatos a presidente, governador e prefeito na maior parte dos lugares, e os partidos "horizontais", cuja existência se deve a focos regionais de influência e de poder. O PMDB pertence ao segundo tipo; PSDB e PT ao primeiro. As alianças do segundo turno, assim como a base parlamentar de um governo, dependem desses partidos regionalizados, como PMDB, PTB, PL por exemplo. Acontece que esses partidos têm uma estrutura, uma lógica, que não combina com o universo da política federal, onde opções políticas mais abstratas e genéricas estão em jogo. O PMDB se divide de vários modos, e mesmo na coalizão PSDB - PFL há diferenças regionais insuperáveis --como provam as dificuldades de Alckmin na Bahia, por exemplo.

Os candidatos à Presidência têm uma face pública que é principalmente federal, apresentando --se é que se pode dizer isso-- propostas ou, digamos, atitudes, que têm sentido para o país como um todo. No mundo das negociações políticas, têm contudo outra face, que diz respeito a conchavos e concessões no plano estadual. Os deputados federais, na verdade, agem estadualmente em sua grande maioria; num paradoxo, são os senadores, os representantes em tese dos interesses estaduais, quem cuida de temas federais mais amplos. Isso se deve ao fato de que as eleições para deputado federal são, na prática, eleições distritais (há candidatos fortes em Uberlândia ou Santos, em Quixadá ou Santarém, cuidando dos interesses mais imediatos de seus eleitores) sem que o sistema partidário consiga (o que seria o caso se valesse a regra do voto distrital misto) dar uniformidade e disciplina à atuação desses parlamentares.

O resultado é que temos partidos supostamente nacionais, como o PMDB e o PTB, que são federações de lideranças estaduais e municipais, e que devem dar sustentação a presidentes eleitos por partidos autenticamente nacionais, como PSDB e PT. O número de candidatos viáveis à presidência se afunila, enquanto o número de interesses regionais a atender é por definição mais amplo. A curiosa exceção nesse quadro é o PFL, que tem base regional sólida, oligárquica, ao mesmo tempo em que obedece a uma disciplina "nacional", sob o comando implacável dos ACMs, Bornhausens e Jereissatis. São coronéis radicalizados ideologicamente, o que dá sentido ao paralelo habitualmente feito com o antigo udenismo. O PFL conseguiu unir ideologia e fisiologia ao longo do tempo. É isso o que explica a opção do PT pela fisiologia pura, aliás: PMDB e PTB são suas tábuas de salvação quando se fala em "governabilidade".

Num outro paradoxo, a adesão de Crivella à candidatura Lula terminou sendo a mais digna, do ponto de vista ideológico. O líder evangélico exigiu, ao que consta, que o petista retirasse apoio a determinadas emendas que ferem as convicções de seus eleitores. Se não me engano, é a tese do casamento gay que foi rifada na negociação.

A moral da história é que existe algo de errado na distribuição constitucional das verbas e dos poderes, entre Estado, Federação e municípios. Se emendas orçamentárias dependem da aprovação de deputados federais, como é de praxe nas democracias, provavelmente há falta de autonomia financeira nos Estados e Municípios, ou excessiva concentração de verbas nos ministérios e no orçamento federal, fazendo com que lideranças regionais interfiram com um poder de pressão excessivo, e ao mesmo tempo com demandas "fisiológicas" (na maior parte das vezes justificadas pelas carências locais), sobre a política federal.

O sistema partidário se divide em função desse impasse de atribuições, e toda proposta política de cunho federal paga, assim, o preço de descaracterizar-se em função de alianças frágeis e intermináveis a cada votação importante para o governo. Eis um problema que nem Alckmin nem Lula conseguem resolver.

 

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 21h56

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Um poema de Donald Justice

Sobre a morte de amigos na infância

Nunca os encontraremos usando barbas no Paraíso/ Nem se bronzeando entre os carecas do Inferno;/ Se estiverem em algum lugar, será no pátio deserto da escola ao pôr-do-sol,/Formando uma roda, talvez, ou se dando as mãos/Em brincadeiras de que esquecemos até mesmo os nomes./Vem, memória, vamos procurá-los pelas sombras.

UOL Busca Donald Justice (1925-  2004)

 

Escrito por Marcelo Coelho às 13h53

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O Flautista de Hamelin

O Flautista de Hamelin

 

 

 

  

 

Os contos de fada, como se sabe, eram muito mais violentos e aterrorizantes há cem ou duzentos anos, e foram se suavizando com o tempo. É um pouco difícil suavizar a história do “Flautista de Hamelin”, onde o personagem principal, para vingar-se da cidade que não quis reconhecer os seus serviços de desratização, promove um infanticídio. Talvez o conto corresponda mais à fantasia secreta dos pais que das crianças.

 

Em todo caso, a montagem em cartaz no Teatro Folha, com o palhaço Furunfunfum, apresenta uma solução engenhosa para o problema. As crianças não assistem ao desfecho da peça: são justamente atraídas pelo palhaço flautista até a saída do espetáculo, e somente os pais e responsáveis tomam conhecimento da história original.

 

Meu filho, sabiamente, não quis acompanhar o palhaço até a saída do teatro. Mas não há nada de aterrorizante, nem de barulhento como costuma acontecer nos espetáculos infantis. O vilão é o prefeito da cidade, não seus habitantes: um político corrupto, desses que os pais adoram pichar, quando não o elegem.

 

A peça tem soluções cênicas imaginosas –não é fácil transmitir a ilusão de centenas de ratos infestando a cidade com apenas dois atores--, um pouco prejudicadas pela iluminação, que torna a multidão de ratos mais semelhante a um riacho do que a uma torrente de roedores repulsivos. A música é de bom gosto, o que significa muito quando se trata de espetáculos infantis. Recomendo, não sem antes dizer que o Teatro Folha tem da Folha de S. Paulo só o nome, e nenhuma relação comercial com a empresa em que trabalho.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h46

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depois de Cézanne

“A natureza é sempre a mesma, mas nada resta dela, nada daquilo que vemos”, dizia  Cézanne. O que justificava, segundo o crítico Roger Fry, o extremo cuidado com que o pintor ao mesmo tempo reduzia a formas geométricas essenciais os motivos de seus quadros, e depois revificava-as, na instabilidade de pinceladas curtas, variadíssimas na cor. Contornos rígidos dissimulavam-se, portanto, graças à imensa variedade dos tons empregados na pintura.

 

Mas é um pouco estranho, para nós, pensar nesse conceito de “natureza”, tal como Cézanne o empregava na frase citada. “Natureza”, para Cézanne, é algo muito clássico: um jogo entre a ordem eterna e a precariedade do instante, entre forma ideal e fenômeno passageiro.

 

Quando falamos em “natureza”, hoje em dia, outras associações estão em curso. Pensamos em ciclos regulares, harmoniosos, suavemente dinâmicos no tempo, mais próximos de um equilíbrio benéfico do que de um drama metafísico opondo essências imóveis e mortalidades individuais.

 

É que a Natureza, para nós, já faz parte do passado; o que Cézanne ou Roger Fry experimentavam –sua precariedade concreta, a ser recuperada e salva pela arte—é hoje menos objeto de experiência que de rememoração. O que poderia haver de dramático na luta entre ordem ideal e mortalidade, para Cézanne, hoje tem o aspecto vagamente ridículo de uma batalha perdida.

 

O instável, hoje em dia, não é a natureza, e sim a técnica; as diminutas variações de luz e cor com que Cézanne dava vida e movimento ao substrato geométrico de seus quadros correspondem hoje às variações constantes dos objetos de consumo, sempre votados à obsolescência: câmeras digitais, programas de computador, vivem o tempo de uma libélula, de uma tulipa, de uma estação.

 

Paralelamente, o corpo humano vence de modo incrível –mas certamente ilusório—suas batalhas contra o tempo: as mulheres já não envelhecem como antes.

 

A primeira tentativa de dar conta dessa precariedade, dessa instabilidade da tecnologia foi feita pelos surrealistas, que, como notavam Benjamin e Adorno, escolhiam como objeto privilegiado as máquinas obsoletas, os artefatos paleoindustriais, como se o mundo moderno já tivesse seus cadáveres de ferro, borracha e baquelite, seus sarcófagos movidos a gás e manivela, suas pirâmides de asfalto e de carvão.

 

A experiência da precariedade técnica, hoje, não se evoca entretanto por meio das máscaras egípcias do sono, da morte, da eternidade, como no surrealismo. O sentimento –hesito em qualificá-lo de “experiência”—é mais o de uma atividade maníaca, em que o passado da técnica serve como tema para variações cômico-nostálgicas, sem melancolia. As pessoas envelhecem euforicamente, e compram livros como o  Almanaque Anos 70, o

 Almanaque anos 80, ou “ O Mundo Acabou” para se divertirem com antigas coqueluches de consumo: os Menudos, a Calça Far West, o Ford Galaxy etc. Eternidade e morte, temas tão clássicos, e tão presentes no surrealismo, por exemplo, desapareceram. Corpo e mutação genética, talvez, os substituam na arte contemporânea, enquanto a Natureza, esta, no máximo é reelaborada na idéia de Alteridade. 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h30

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Cézanne e Roger Fry

Sobre o quadro de Cézanne comentado no post anterior, o leitor José Ferreira comenta que aquela mulher, enquanto espera, encontra na poltrona vermelha a sua "fortaleza". Eis como o pintor e crítico britânico  Roger Fry (1866-!934) analisa o mesmo quadro:

[O Retrato de Mme. Cézanne] expressa aquele sentimento característico de Cézanne, o do repouso monumental, da imensa duração dos objetos representados, um sentimento que nos é apresentado pela convicção apaixonada de cada afirmação que faz. Essa paixão, sem dúvida, sempre esteve presente, mas enquanto nas suas obras mais antigas era apressada e carregada, sua força se torna maior ao ser sustentada e contida.

Em seu "Cézanne", Roger Fry acabava de citar uma frase do pintor, que se relaciona bem com as interpretações de Rilke:

"Tudo o que vemos é disperso e desaparece. A natureza é sempre a mesma,mas nada resta dela, nada daquilo que vemos. Nossa arte deveria dar à natureza a emoção da continuidade com a aparência de todas as suas mudanças. Deveria propiciar-nos o sentimento da natureza como algo eterno".

É a partir dessa concepção que Roger Fry interpreta o famoso axioma de Cézanne, segundo o qual tudo na natureza tende para as formas do cone, da esfera e do cilindro. A idéia não seria propriamente "traduzir" o mundo num chato catálogo de formas geométricas:

Sua interpretação da forma natural sempre parece implicar que ele está ao mesmo tempo pensando em termos de formas geométricas extremamente simples, mas permitindo que sejam infinita e infinitesimalmente modificadas em cada ponto por suas sensações visuais. Esta era, com efeito, sua solução para o problema da arte, que é sempre o de encontrar algum método para criar coisas que sejam ao mesmo tempo abordáveis pelo entendimento humano, e que tenham aquela força de realidade concreta que, em qualquer outro tipo de experiência que não a estética, foge de nossa compreensão.

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h09

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Cézanne e Rilke

 

 

 

Em outra carta sobre Cézanne, datada de 1907, Rilke descreve o quadro acima.

 

Nesta poltrona vermelha, que é ela mesma uma personalidade, está sentada uma mulher, as mãos no colo de um vestido largo com listras verticais, muito levemente indicado por pequenos toques esparsos de verde amarelado e amarelo esverdeado, até a margem da jaqueta cinza-azul, fechada na frente por um laço de seda que brinca com reflexos verdes. Na clareza do rosto, a proximidade de todas essas cores é aproveitada para uma modulação simples; mesmo o marrom dos cabelos em coque e o marrom liso dos olhos têm que se manifestar contra aquilo que os cerca. É como se cada ponto soubesse de todos os outros. De tanto que toma parte, de tanto que cada um cuida a seu modo do equilíbrio e o estabelece: como o quadro todo, finalmente, mantém a realidade em equilíbrio. Pois dizem que é uma poltrona vermelha (e é a primeira e mais definitiva poltrona vermelha de toda a pintura): mas só é porque consumou em si uma experimentada soma de cores que, como quer que seja, a reforça e reafirma no vermelho. Para chegar ao máximo de sua expressão, ela está pintada com todo o vigor em torno do retrato suave, de tal maneira, que daí resulta algo como uma capa de cera; e contudo a cor não tem nenhuma preponderância sobre o objeto, o qual aparece tão perfeitamente traduzido em seus equivalentes pictóricos, que, mesmo dado e expresso por completo, sua realidade burguesa perde todo o peso no caráter definitivo de sua existência enquanto quadro (...)

 

No interior de cada cor, prossegue Rilke, desenvolvem-se como que processos digestivos,

 

intensificações ou diluições, cujo auxílio possibilita a sobrevivência no contato com outras cores. Junto a esta atividade glandular inerente à intensidade das cores, quem desempenha o papel principal são os reflexos; (...) cores locais mais fracas entregam-se por completo, contentando-se em refletir a presença da mais forte. Nesse vaivém de influência mútua e múltipla, o interior do quadro vibra, eleva-se e cai de volta em si mesmo, sem que nenhuma parte fique parada.

 

Se entendo bem, a “independência” de cada cor diante do esquema geral do quadro como que anula o modo habitual de se obter harmonia cromática dentro de um quadro: não há um tom predominante, uma luz específica, que desse a chave, o ponto-de-vista único a que as cores todas do quadro devessem se submeter. Opera-se então, no âmbito das cores, aquilo que a arte moderna pretenderia fazer com a perspectiva, no âmbito do desenho: anula-se o ponto de vista do sujeito, que ordena a visão do objeto, e se dá ao próprio objeto um poder autônomo de expressão. Se, em vez de cores, pensássemos nas diferentes facetas de um objeto qualquer –um violão, uma casa—teríamos uma multiplicidade de pontos-de-vista, sem uma perspectiva única: seria essa a tentativa do cubismo.  

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h42

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Um jacaré e Cézanne

Falta a nós, humanos, “aquela imediateza absoluta que o jacaré possui”, diz Mário de Andrade (ver post abaixo). Nosso prazer, nosso desfrute estético, são essencialmente reflexivos, envolvem a consciência de estar desfrutando, de estar tendo prazer. O jacaré, comendo o pato, simplesmente viveu essencialmente seu desejo, seu ato, seu gosto, de modo absoluto e imediato.

 

Interessante notar que Mário de Andrade, na Amazônia, comparava o ato do jacaré com a sua própria experiência diante das obras de cerâmica marajoara: a beleza da arte indígena era apreendida por ele de forma mediata, reflexiva, consciente, mas talvez ele se colocasse diante de um objeto ele próprio “natural”, “irrefletido”, “imediato” como o jacaré. Sua atração pelo primitivo –folclore, arte indígena, etc.—não elimina, é claro, a certeza de que está diante de uma obra humana, pensada, experimentada, criada por seres humanos. Entretanto, sem dúvida a estética moderna privilegia as obras de arte que, embora “humanas”, têm algo dessa mudez, dessa irreflexão, dessa imediaticidade dos fatos naturais.

 

A má obra de arte (falo bastante disso no livro “  Crítica Cultural: Teoria e Prática”) tem, para a estética moderna, o defeito de querer comentar-se a si mesma, de trazer dentro de si mesma a intencionalidade, a vontade de explicitar seus conteúdos, de explicar-se a si mesma. Ao contrário, a obra de vanguarda se apresenta, para o espectador, sem explicação, cabendo a cada um a tarefa de entendê-la, de envolver o intelecto numa experiência ativa de decifração. Em si mesma, ela não se explica, não vem com bulas, letreiros ou traduções.

 

Leia-se agora o comentário do poeta  Rainer Maria Rilke a um auto-retrato feito por Cézanne:

 

Ali está um homem, com o lado direito do rosto virado um quarto para a frente, observando. O cabelo espesso e escuro está agrupado na parte de trás da cabeça, mantendo-se sobre as orelhas, de tal modo que o contorno do crânio fica descoberto; este é desenhado com extrema segurança, duro porém redondo, a testa para baixo em um só pedaço, e sua firmeza ainda se faz valer onde, diluída na forma e na superfície,  ele se torna a extremidade de mil esboços. Nos cantos das sobrancelhas impõe-se de novo a forte estrutura desse crânio moldado desde dentro; mas daí pende o rosto, inclinado para baixo, como que precedido pelo queixo de barba curta. Pende como se cada traço, sozinho, estivesse pendente, em uma inacreditável intensificação e, ao mesmo tempo, reduzido ao mais primitivo, produzindo aquela impressão de espanto incontrolável em que as crianças e os homens do campo podem se perder –só que o estupor inexpressivo de quando ficam abismados foi substituído por uma atenção animal, sustentando uma vigília incansável e objetiva nos olhos que não piscam. E como é grande e inabalável esta objetividade de seu contemplar! É o que se confirma de uma maneira quase comovente pela situação, por ele ter reproduzido a si mesmo sem nem mesmo a mais remota tentativa de interpretar sua expressão, sem vê-la presunçosamente, e com tão humilde objetividade, com a fé e a participação interessada e objetiva de um cachorro, que se vê no espelho e pensa: aí está outro cachorro.

(“ Cartas sobre Cézanne”, tradução de Pedro Süssekind, editora 7 Letras).

 

                         

                          Cézanne, Retrato do Artista (1873-76), 64x 53cm.

 

 

                                          

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h45

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estética da voracidade

estética da voracidade

Eu estava falando do surpreendente apetite de Geraldo Alckmin, mas este post não é sobre tucanos, e sim sobre a voracidade de um jacaré. Trata-se de uma crônica de viagem de Mário de Andrade, publicada em “Turista Aprendiz”. O texto me foi enviado por Roberto Barbato Jr., autor de “Missionários de uma Utopia Nacional-Popular”, sobre os intelectuais em torno de Mário de Andrade no Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, na década de 30.

 

 

SÃO TOMÁS E JACARÉ

 

         Na visita de hoje ao museu Goeldi, o diretor do museu que nos acompanhava, nos proporcionou o espetáculo do almoço do jacareaçu. Que bote angélico!...

         O bicho monstruoso estava imóvel, espiando pra nós, entre-dormindo. O empregado atirou o pato mais de meio metro por cima da água, jacaré só fez nhoque! Abocanhou o pato e afundou no tanque raso. A gente percebia bem, na clareza da água, o pato atravessado na bocarra verde. Nem jacaré nem pato se mexiam. Não houve efusão de sangue, não houve gritos nem ferocidade. Foi um nhoque simples, e "o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas".

         Aquele bote do jacaré me deixou num estado de religiosidade muito sério. Palavra de honra que senti Deus no bote do jacaré. Que presteza! Que eternidade incomensurável naquele gesto! e, sobretudo, que impossibilidade de errar! Ninguém não errará um bote daqueles, e, com efeito, o pato lá estava, sem grito, sem sangue, creio mesmo que sem sofrimento, na boca do bicho. Uma surpresa grande e um delíquio, do qual passara pra morte sem saber. E da morte pra barriga do jacaré.

         E o jacareaçu tão quieto, com os olhos docinhos, longe e puro, tinha um ar de anjo. Não se imagine que chego à iniciativa de povar os pagos celestes com jacarés alados. Não é questão de parecença, é questão de "ar": o jacaré tinha ar de anjo. Percebi no nhoque, invisível de tão rápido, aquele conhecimento imediato, aquela intelecção metafísica, atribuída aos anjos por São Tomás. Eh, seres humanos, a superioridade dos irracionais sobre nós, reside nessa integridade absolutamente angeliforme do conhecimento deles.. É fácil de falar: jacaré intuiu pato e por isso comeu pato. Está certo, porém nós seccionamos em nós mesmos a sensação, a abstração, a consciência e, em seguida a vontade que deseja ou não deseja e age afinal. Nos falta aquela imediateza absoluta que jacaré possui, e que o angeliza. O bicho ficou, por assim dizer, pra fora do tempo naquele nhoque temível. Ver pato, saber pato, desejar, abocanhar pato, foi tudo um. O nhoque nem foi um reflexo, foi de deveras uma concomitância, fez parte do próprio conhecimento. Por isso é que percebi o ar de anjo do jacareaçu.

         Passou um quarto de hora assim. Então, com dois ou três arrancos seguidos, o jacaré ajeitou a comida na bocarra, pra começar o almoço. A água se roseou um bocado, era sangue. Isso me fez voltar daquele contato com a Divindade, a que me levara o bote do bicho. Senti precisão de me ajeitar também dentro do real, e, como era no museu Goeldi, fui examinar a cerâmica marajoara.

         Nossa vingança terrestre é que o jacaré, com a intuição extemporânea, não gozara nada. Só mesmo quando a água principiou roseando é que possivelmente o jacaré terá sentido o gosto na comida. Gostou pato. Gostou de pato, como também a gente abre os olhos e enxerga um desperdício de potes coloridos. A gente exclama "Que boniteza!" com a mesma fatalidade com que o jacareaçu...conheceu "É pato" e nhoque. Com a mesma fatalidade, mas não da mesma forma porém. Nossa racionalidade humana permitiu abstrair dentro do tempo e dos conhecimentos adquiridos, e designar a boniteza da cerâmica marajoara. Mas essa boniteza será para cada qual, uma, e para cada qual diversa e opípara. O jacaré jamais gozará pato nesta vida. O que pra nós é Verdade, Verdade vária e difícil, pra ele não passará nunca de Essencialidade, sempre a mesma e irredutível. Falta princípio de contradição para jacaré, e eles serão eternamente e fatalizadamente...panteístas. Só em nós, além de gosto, bate o gozo do sangue na língua. E a vida principia a ser gozada.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h11

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poluição visual

poluição visual

A proibição dos outdoors em São Paulo é o tema de "A Musa do Minhocão", crônica de hoje no "Agora". Para assinantes, o link: http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0410200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 08h40

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o homem de gelo

Vai aqui o link para o artigo de hoje na "Ilustrada" sobre Geraldo Alckmin: http://tinyurl.com/jggws

Escrito por Marcelo Coelho às 08h38

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O voto em Clodovil

Não é fácil saber o que pretende o eleitor que votou em Clodovil para deputado; o próprio candidato, aliás, é vago no tocante a sua futura atuação parlamentar. Num partido minúsculo, suas possibilidades de intervenção política são reduzidíssimas. Teve quase meio milhão de votos.

 

Absurdo, disparate, prova da inconsciência do eleitor? Em parte, sim. Mas não totalmente. Embora provavelmente inócuo, o voto em Clodovil carrega consigo uma forte significação.

 

Sem dúvida, Clodovil pode ter sido eleito apenas por ser uma “celebridade”; num ambiente em que a enorme maioria dos candidatos é desconhecida, o eleitor talvez sinta que, pelo menos, sabe em quem está votando quando escolhe Clodovil.

 

Há nesse voto uma parcela de protesto contra os políticos profissionais; curiosamente, o cidadão comum pode sentir, desse modo, mais afinidade com uma personalidade bastante rara e idiossincrática, como a do estilista, do que com muitas raposas parlamentares que se escondem sob a normalíssima aparência de pais de família responsáveis, de administradores sérios, de “homens de bem”.

 

Mas Clodovil não é uma celebridade qualquer. Em seus programas de TV, ele sempre encarnou valores claros e eu diria até uma ideologia politica muito definida. Pelo que me lembro dos conselhos que ele dava aos espectadores, trata-se de uma defesa implacável do esforço pessoal. “Vai à luta”, repetia ele com uma ponta de desprezo, a qualquer um que lhe mandasse cartas se queixando da vida. A idéia fundamental, se não estou enganado, é a de que ninguém pode ajudar quem não se ajuda a si mesmo; que o pobre, o derrotado, o oprimido, têm o dever de não se fazerem de vítimas. A sociedade é um mundo hostil, onde vigoram o preconceito, a competição, o prazer com os tropeços do próximo. Quem sobrevive, merece a vitória; e, quem sabe, um mundo de luxo, elegância e beleza.

 

São convicções de que não compartilho, mas que talvez sejam majoritárias na população, em especial na pequena classe média, no mundo dos trabalhadores autônomos que dependem, para sobreviver, apenas de si próprios, ou da existência de uma classe mais abastada que lhes pague pelos serviços: manicures, revendedores, trabalhadores no marketing direto, personal trainers, enfermeiros, empregados domésticos...

 

Se a direita malufista é, a seu modo, idólatra do Estado –visto como tocador de obras e repressor da criminalidade--, a direita representada por Clodovil é ultraliberal. O que inclui, como fator positivo, o princípio de que a vida sexual é assunto de cada um.

 

Um candidato orgulhosamente gay, ainda que num estilo bastante “old fashioned”, está entre os mais votados do país. Piadinhas preconceituosas foram adotadas pelo próprio Clodovil como estratégia de marketing, o que contribui para a folclorização de sua candidatura, mas não deixa de ser expressivo de uma mistura entre incorreção política e vitória contra a discriminação.

 

Que esse conjunto de idéias e representações venha a ser traduzido em prática política real, é outro problema. Mas o voto em candidatos mais “sérios”, tradicionais e consistentes do que Clodovil padece, muitas vezes, da mesma deficiência.

   

Escrito por Marcelo Coelho às 16h48

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decepção de um candidato

decepção de um candidato

A voz das urnas pode ser áspera a alguns candidatos. Diante da rejeição popular, Remígio adota medidas radicais. Link para assinantes: http://tinyurl.com/zeyht

Escrito por Marcelo Coelho às 15h05

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corpos, linhas

Começa neste dia 3, e vai até 3 novembro, uma exposição de desenhos e fotos de Ana Amélia Genioli na  Galeria Eduardo H. Fernandes (Rua Harmonia, 145, SP). Recebi o catálogo pelo correio, e no começo os desenhos pareciam apenas rabisquinhos mais ou menos abstratos:

Flor de Lótus, 200x150 cm

 

Mas são fragmentos de braços e de pernas, superpostos sobre um papel que, informa a crítica Juliana Monachesi, têm as dimensões de um lençol. A superposição se decifra melhor quando a aproximamos das fotos que também fazem parte da mostra:

 

Aqui, as imagens se tornam mais "legíveis", embora sigam o mesmo princípio: trata-se de produzir não propriamente a ilusão de um movimento, mas como que a memória visual do movimento, aquilo que se fixou e se apagou instantaneamente da nossa percepção. O efeito é surpreendente, porque a transparência de um tecido, de uma pele (outro tecido, afinal, sobre nossos corpos) ganha as características de uma linha, de um desenho. Em geral, fotografias são "pinturas" da realidade: mostram volumes, cores, luzes. Ana Amélia Genioli faz com que sejam "desenhos" da realidade: traços, linhas, esboços --como se ainda fosse preciso, na verdade, que o real vivido a cada instante ganhasse, um dia, sua definitiva solidez.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h41

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picolé (2)

picolé (2)

Aqui vai outro... a cor do palito é uma proeza de realismo.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h30

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picolé (1)

picolé (1)

Na série de cartazes populares, alguns picolés, em vez de pizzas, correspondem ao momento.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h27

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Fortuna e virtù

Certa ressaca eleitoral, depois de acompanhar os resultados até tarde, ontem. Nem consegui ler todos os comentários publicados na Folha, todos os comentários postados nos blogs que freqüento... Basta a gente ter um blog que se torna imperativo escrever, escrever. O que eu disse no artigo de sábado --sobre a divisão do país, sobre o fator Aécio e o fator Serra como moderadores das paixões partidárias--, bem, basta ligar o rádio e a gente ouve a mesma coisa de todos os lados. Não devo ter sido o primeiro a falar sobre isso tampouco. Para quarta-feira, faço uma espécie de análise "psicofisiológica" de Alckmin, um pouco no gênero do que escrevi sobre Cláudio Lembo, tempos atrás.

A propósito de Alckmin, cabe uma observação. Os petistas reclamam da imprensa sem parar, mas não houve analista político ou comentarista, eu inclusive, que não tivesse rifado a candidatura Alckmin antes do tempo. Sem dúvida, não tinha aparecido o escândalo do dossiê, e não se sabia o impacto de uma eventual recusa de Lula a participar de debates. O fato é que se tomou, durante meses, como certa a vitória de Lula já no primeiro turno, e não faltaram ironias ao descrédito de Alckmin junto a seus próprios correligionários. Agora, Alckmin pode posar como grande vitorioso político, e mesmo, a meu ver, como favorito no segundo turno. Sem-gracice e discrição, depois dos resultados de ontem, passam a ter a aura de uma estratégia calculada, e seu oposicionismo sem estridência passa a imagem de ser mais eficiente do que o alarido dos tucanos mais exaltados. Para Maquiavel, fortuna e virtù (o acaso e a "garra", a sorte e o senso de oportunidade, poderíamos traduzir) são os elementos fundamentais com que um político deve contar; ambas sorriem para Alckmin no momento.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h24

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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