memórias da corrupção
Quando se fala tanto em malas de dinheiro e favorecimento a banqueiros, vale lembrar um episódio da carreira política de Adhemar de Barros, que transcrevo do livro O Trevo e a Vassoura, do jornalista Gabriel Kwak, recém-publicado pela editora A Girafa:
Para incrementar a “caixinha”, Adhemar exigiu do economista Gladstone Jafet, de uma das famílias mais aquinhoadas do Estado, a doação de uma enorme quantia,em troca da direção do Banco do Estado. Constrangidamente, o poeta Salomão Jorge, cujos versos podem ser apreciados em livros como Arabescos e Portas do Céu, transmitiu essa condição a Gladstone, que a ela acedeu incontinenti.
No dia marcado para a entrega dos dinheiros, Gladstone chegou no Palácio sobraçando uma grande valise de couro, recheada de notas. Trazia importância tão grande que o economista caminhava até o gabinete do governador vergado pelo peso da mala. Feita a entrega, Adhemar introduziu Gladstone Jafet e Salomão Jorge, seu líder na Assembléia, a uma espécie de porta secreta que havia em seu gabinete. Essa entrada dava para um gabinete de acesso restritíssimo. Nesse cômodo, havia uma escada em caracol, que os três tiveram de escalar para chegar a um pavimento onde havia um armário abarrotado de dinheiro. Pilhas e mais pilhas. O governador contou cuidadosamente a quantia doada por Gladstone Jafet e guardou com carinho no tal armário. Não contente em ter recebido a dinheirama, Adhemar ainda tomou de Gladstone a valise de couro, que achou muito bonita e que o economista tinha comprado em Buenos Aires.
Gabriel Kwak cita, como fonte, Fernando Jorge, filho de Salomão.
O trevo e a vassoura compara, com muito gosto pelo folclore político, as figuras de Adhemar de Barros e Jânio Quadros. Por vezes, a cronologia dos episódios se torna confusa, e não temos uma visão política geral do adhemarismo e do janismo. Onde Gabriel Kwak se delicia, e pode também deliciar o leitor, é no mundo da micropolítica paulista, com suas traições, seus deslizes, sua retórica ultrapassada. Personalidades como Farabulini Jr., William Salem e Cantídio Sampaio têm lugar certo na galeria de Kwak. Para escrever o livro, ele entrevistou muita gente desse calibre: Ruy Côdo, Yukishigue Tamura, Murilo Antunes Alves... É um apetite e tanto.
Escrito por Marcelo Coelho às 14h41

Como não está disponível na internet, reproduzo aqui o texto que escrevi sobre o filme "Cabiria", de 1914, exibido na Mostra Internacional de Cinema. Haverá outras sessões do filme, no Cinesesc, neste sábado, 28/10 às 17h, e na segunda, 30/10, às 17h também.
Não se passaram nem quinze minutos de filme, e já tivemos: 1) a erupção do Etna; 2) a destruição da luxuosa “villa” do nobre romano Batto; 3) o seqüestro de sua filha, a pequena Cabíria, por um bando de piratas fenícios; 4) a venda de Cabíria num mercado de escravos em Cartago; 5) o sacrifício de três ou quatro criancinhas nuas, esperneando, arremessadas a uma fornalha ardente.
Na sala do Cinesesc, o pianista Stefano Maccagno, que acompanha o épico de Giovanni Pastrone (1883-1959) já esfalfou os dedos numa quantidade industrial de tremolos, ribombos e “roulades”. Mas sua resistência para enfrentar a partitura do compositor clássico Ildebrando Pizzetti (1880-1968), ao longo de três horas de projeção, será comparável à do escravo Maciste, que depois de inúmeros tormentos irá finalmente liberar Cabíria dos bárbaros cartagineses.
A superprodução de Pastrone, datada de 1914 e restaurada agora pelo brasileiro João Sócrates de Oliveira, parece quase tão antiga quanto os eventos das guerras púnicas, roteirizados pelo poeta decadentista Gabrielle d’ Annunzio (1863-1938), que não se esquivou de inserir longos hinos pagãos nos letreiros de “Cabíria”.
Ainda que a história fique um bocado confusa na metade final –tantas as batalhas, trocas de cenário, traições e cataclismas--, o épico de Pastrone ainda pode ser visto com interesse. A cuidada composição visual das cenas contrasta com o tumulto heróico da trama, e tudo se impregna de um silencioso hausto operístico.
Mas se “Cabíria” merece ser visto, hoje em dia, é sobretudo pelas influências que secretamente exerceu em nosso imaginário. Vendo agora o filme, podemos notar a que tipo de estética –elefantes, camelos, leopardos, escravos-- Fellini se referia em muitos de seus filmes, como “A Entrevista”. O herói Maciste conheceria, depois desta sua primeira aparição, muitas reencarnações nos épicos italianos até as décadas de 50 e 60. A careca, o perfil, o porte do ator-brutamontes Bartolomeo Pagano já prefiguram, por outro lado, a aparência do ditador Benito Mussolini.
Toda uma fantasia de nobreza romana, com a África prosternada a seus pés, e com abertos toques de anti-semitismo (na personagem do estalajadeiro Bodastoret), funciona em “Cabíria” como “avant-prémière” da sanguinolenta farsa fascista. Mas também o mundo de Nélson Rodrigues tamém se ilumina quando assistimos à morte estrebuchante, interminável, da princesa Sophonisbe (Itália Almirante-Manzini, robusta e não-depilada, mas ainda assim uma diva).
Elefantina, macarrônica, jorrando lava e lágrimas, “Cabíria” ainda vive. De suas erupções arcaicas originou-se, sem dúvida, o solo do qual brotariam os sonhos de muita gente: de Cecil B. de Mille a Fellini, passando pelo tele-catch e pelos desfiles de Carnaval.
Italia Almirante-Manzini, no papel de Sophonisbe
Escrito por Marcelo Coelho às 13h37
Estou vendo –mas não sei o quanto vou agüentar—o último debate entre Lula e Alckmin, na rede Globo. Simplesmente não há tempo para que um candidato explique suas propostas, nem para que o outro as conteste. As perguntas dos eleitores procuram tocar em temas objetivos –a previdência, a qualidade do ensino e da saúde... E o candidato tem um minuto e meio para sua resposta. William Bonner nada faz senão interromper o discurso de cada um, e não há esclarecimento possível. É tudo angustiante. O candidato tenta ser respeitoso com o eleitor, tratando-o pelo primeiro nome, elogiando a pergunta feita... mas é tudo uma farsa estrutural; mesmo os melhores candidatos do mundo, os mais bem intencionados e cheios de propostas, fariam um papel pífio nesta situação.
De resto, ninguém mais está interessado em debates... isso é tema de meu artigo amanhã na Folha. Páro por aqui. Não escrevi nada no blog, mas amanhã, além do artigo sobre eleições, há uma crítica ao filme “Cabíria”, de 1914, restaurado agora e exibido na Mostra Internacional de Cinema. E que venham as eleições; a campanha já morreu e todo mundo sabe disso.
artigo sobre eleições na "Folha": http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2810200604.htm
Escrito por Marcelo Coelho às 21h36
No artigo desta quarta-feira, falei um pouco mais longamente do livro de Pascoe Hill, “Cinqüenta Dias Num Navio Negreiro”, tema de post anterior. Na mesma coleção “Baú de Histórias”, da editora José Olympio, foi lançado um outro título, “Entrevistas com Escravos Africanos na Bahia Oitocentista”, do inglês Francis de Castelnau. Infelizmente, este volume não tem tanto interesse.
Castelnau nada pergunta sobre a vida cotidiana dos escravos baianos: está em busca de informações geográficas sobre o continente africano, e quer sobretudo verificar se de fato lá existe uma tribo de homens dotados de rabos. Cada entrevistado oferece sua versão, confirmando ou negando esse rumor. O escravo Meidassara, por exemplo, afirma ter visto “um homem que tinha uma cauda de aproximadamente setenta centímetros. Em geral, ela tem menos de meio metro e pode ter uma polegada e meia de diâmetro. Esta cauda é lisa e preta. De resto, essa gente é completamente semelhante aos outros negros. São antropófagos. A cauda não tem movimento, e eles têm bancos para sentar, para isso cada um faz um buraco para deixar passar este apêndice.”
Para um leigo em cultura africana como eu, a informação mais interessante do livro é que a maioria dos entrevistados tinha religião muçulmana. Mohammad-Abdullah, por exemplo, vivia na Bahia há mais de trinta anos quando foi entrevistado por Castelnau. Escravo liberto, trabalhava como carpinteiro, e sabia ler e escrever tanto em português quanto em árabe. “De resto, ele é muito intolerante, muito fanático e procura por todos os meios me converter, embora eu o tenha recebido da melhor maneira possível, nego-me a lhe dar dinheiro, etc., ele então se recusa a voltar à minha casa, dizendo para outro negro que não quer voltar à casa de um cão cristão. Ele deve ter uns setenta anos, era marabu e fez a viagem a Meca.”
A cada dia que passa, o Brasil me parece mais difícil de entender, mais desconhecido, mais fascinante também.
link para o artigo: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2510200628.htm
Sobre o assunto, ainda pode ser lido o artigo do pesquisador A. Lovejoy, "jihad e escravidão: sobre a origem dos escravos muçulmanos da Bahia", no link http://www.ifcs.ufrj.br/~ppghis/topoi_1.htm
Escrito por Marcelo Coelho às 18h01
Um dos primeiros discos de música clássica que me lembro de ter ouvido foi uma gravação do Concerto em ré menor, para dois violinos, de Bach, com David e Igor Oistrakh. David Oistrakh foi um dos maiores violinistas do século 20, enquanto seu filho Igor submergiu no esquecimento. Fico pensando de modo acusatório que tipo de pai terrível David Oistrakh deve ter sido, e a carga de ressentimentos que Igor Oistrakh devia guardar por não ter o mesmo talento do pai.
Mas que raciocínios noveleiros... talvez Igor Oistrakh tenha sido apenas um crianção talentoso, pronto a agradar ao pai no começo da vida, e depois de um tempo, amistosamente, decidiu que seu interesse era a Física ou o xadrez... E quem sabe David Oistrakh tenha sido apenas um pai amoroso, obtendo para o filho a chance de gravar um disco como evento comemorativo e familiar, sem exigir de Igor maior dedicação à sua tirânica rainha, a Música.
Vejo agora um DVD da EMI, com David Oistrakh tocando o Concerto Duplo de Brahms, com Mstislav Rostropovitch ao violoncelo. Oistrakh é um tipo baixote e gordinho, com a bochecha respeitável apoiada ao violino, os olhos baixos, a boca curvada de um burocrata. Sua expressão, ao tocar, é de total indiferença, como a de um maître num restaurante que não varia nunca de cardápio.
Rostropovitch, moço nessa gravação, aperta os lábios, e volta o tempo todo para Oistrakh um olhar súplice de cachorro ou de amante. Os dois se entregam às apaixonadas violências do concerto. Rostropovitch não tem, musicalmente, nenhum motivo para ser submisso a Oistrakh. Seus gestos, seus olhares, entretanto pedem e suscitam resposta do violino. É talvez efeito da pura música, como se o violoncelo fosse feminino e quente perto do desenho incisivo e ágil do violino. Talvez Rostropovitch estivesse à procura de um pai. David Oistrakh nem dá bola: tem um filho –o violino—, de quem cuida sem alegria aparente.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h59
O ano em que meus pais saíram de férias

Michel Joelsas é Mauro, protagonista do filme de Cao Hamburger
“Misturar-se”, “não se misturar” -assunto do post anterior— é um dos temas secretos de “O ano em que meus pais saíram de férias”, de Cao Hamburger, que estréia dia 2 de novembro. O filme deve bastante à atual cinematografia argentina, que em “O Segredo de Kamtchatka”, por exemplo, mostra de modo belíssimo o drama de um menino de seus dez ou onze anos, cujos pais são perseguidos pela ditadura. Pelo próprio título, o filme de Cao Hamburger homenageia um clássico de Emir Kusturica, “Quando papai saiu em viagem de negócios”.
Aqui, um menino chamado Mauro (Michel Joelsas) é largado pelos pais, militantes de esquerda, na porta do prédio de seu avô, no bairro judeu do Bom Retiro, em 1970. Algumas coisas poderiam ter melhor explicação no roteiro, como por exemplo o fato de que os pais do garoto sequer esperam um pouco para ver se o avô está em casa. Simplesmente o personagem é posto, com sua malinha e uma bola de futebol, na frente do prédio...
E, claro, o avô já não está mais lá. A partir desse início um pouco implausível, e que poderia de qualquer modo ser resolvido com uma ou duas linhas de diálogo, desenvolve-se uma história muito tocante e contida. Mauro será mais ou menos adotado pelo vizinho do avô, um velhote judeu que não tem o menor jeito com crianças. Não há cenas previsíveis de rejeição inicial ou de acolhimento posterior, de progresso hollywoodiano da hostilidade até a grande reconciliação afetiva.
Ao contrário, ao longo de todo o filme os personagens não abandonam sua introspecção inicial. Embora seu pai seja judeu, o menino não teve nenhum contato com a cultura e a religião a que será jogado de chofre; em plena ditadura militar, ele já é um pequeno exilado no Bom Retiro.
Enquanto isso, acontece a Copa do Mundo, e Mauro é, evidentemente, ligado em futebol. Há cenas e cenas, talvez repetitivas, de personagens vibrando com os jogos da seleção; judeus, italianos, gregos, nordestinos e mulatos convivem na mesma torcida, e o filme não deixa de fazer um elogio à diversidade cultural paulistana. Diversidade não das mais calorosas, como se sabe; entre acolhimento e isolamento, assim como entre paixão futebolística e depressão política, a história do filme se equilibra como sobre o fio da navalha.
A maior beleza de “O ano em que meus país saíram de férias” está nos detalhes da filmografia. A câmera acompanha, por exemplo, uma longuíssima extensão de telefone, ligando dois apartamentos: é o menino que não perde a esperança de receber uma notícia de seus pais, e é também a dificuldade de se estabelecer um relacionamento mais próximo entre o velho vizinho e o pequeno garoto não-judeu. Imagens de rostos pelo retrovisor, pelo espelhinho pendurado na parede, pelas frestas de um tabique, pelas grades de um terreno, passam pela tela como se toda pessoa, toda possibilidade de contato humano estável e firme, estivesse a ponto de fugir.
Ora, a experiência de exílio e de refúgio, vivida pelo menino no Bom Retiro, é também a dos judeus que escaparam do nazismo. Os policiais que invadem um apartamentinho brasileiro, à procura de “subversivos”, reproduzem as famosas “inspeções” dos SS nas casas dos judeus durante o nazismo. Silenciar, esconder-se, viver na desconfiança e na dependência da solidariedade dos outros, manter a própria identidade –eis o que cabe ao protagonista do filme. Tudo isso vai sendo tratado por Cao Hamburger com admirável pudor, sem nenhum apelo sentimental, com diálogos contidos ao extremo. O filme foi aplaudido bastante na pré-estréia, mas há algo nele que suscita uma outra homenagem, a de um longo silêncio quando se encerra a projeção.
site do filme: www.oano.com.br
Escrito por Marcelo Coelho às 17h58
“O ano em que meus pais saíram de viagem de férias” é o longo título do novo e tocante filme de Cao Hamburger, que será lançado em novembro. Estive na pré-estréia nesta segunda-feira, muito pouco à vontade, aliás, porque pensava que era um evento mais ou menos “normal”. Mas havia celebridades em número bastante para encher seis salas de uma arteplex, e muita gente ficou de fora; na qualidade de convidado de uma parente do diretor, senti-me “forçando a barra” ao ser finalmente admitido numa das salas. Perto de mim, havia um deputado, estadual ou federal, não sei. Nunca tínhamos sido apresentados: por que eu haveria de cumprimentá-lo? Mas o político já me olhava como se me conhecesse. Decerto não conhecia. Enfiei-me entre as poltronas do cinema. Sempre me lembro, nessas ocasiões, de um poema de Heitor Ferraz:
ESTRANGEIRO
O café tomado na esquina
--meio de lado
no balcão
a ponto de observar
a manhã que reproduz
e se mistura
em pernas rápidas
(decomposição do movimento)
O café pago no caixa
--troco, obrigado, cigarro na boca
de mais uma manhã
mais uma manhã
trocando olhares
medindo gestos
(somos todos estrangeiros
nesta cidade
neste corpo que acorda)
e não me misturo
--com essa gente,
não me misturo.
Escrito por Marcelo Coelho às 16h55
León Ferrari

Na Argentina, pelo que sei, não há exposição do artista plástico León Ferrari que não provoque ondas de protesto, abaixo-assinados e orações. Com suas colagens de páginas de jornal e santinhos católicos, ele identifica, por exemplo, a cumplicidade da Igreja com os torturadores do regime militar. Não só o catolicismo parece ser mais intransigente na Argentina do que aqui, como também o processo de investigações sobre os crimes da ditadura Videla tem desdobramentos e traumas que não conhecemos no Brasil.
O papel de provocação e choque das obras de Ferrari pode ser meritório, mas talvez se esgote em si mesmo, ou faça mais sentido em outro contexto que não o da Pinacoteca, onde uma pequena retrospectiva sua está agora em cartaz. O impacto visual de seu Cristo crucificado num avião militar americano é inegável; seu verdadeiro valor estético me parece, contudo, reduzido. O que fica bonito nessa obra, de todo modo, é a sombra que ela projeta na parede –o avião vertical, sem Cristo visível, ganha a magia que a escultura em si, justamente, tratava de destruir.
Parecem ser de outro artista as construções abstratas em metal, por vezes lembrando Jesús Soto, outras vezes puramente emaranhadas, que também estão expostas na retrospectiva. Alguns desenhos e telas caligrafadas com método e sutileza cromática chamam a atenção pela beleza; mas León Ferrari procura em geral chamar a atenção por outros meios, e me deixa bastante indiferente.

Mais duas fotos de obras do autor podem ser vistas em http://www.flickr.com/photos/lilianeferrari/280070149/
Escrito por Marcelo Coelho às 10h57

Um dos papéis mais marcantes da soprano Elizabeth Schwarzkopf, que morreu faz pouco tempo, na glória e no terror dos 90 anos, é o da Marechala, da ópera “O Cavaleiro da Rosa”, de Richard Strauss. Um DVD da EMI, disponível na Fnac, guarda um trecho de seu desempenho, numa gravação de 1961.
Elisabeth Schwarzkopf ainda está muito bonita, esbelta e aristocrática, no papel de uma mulher de meia-idade, apaixonada por um homem bem mais moço, o conde Octavian. Quando começa a cena, a Marechala está sozinha, perguntando como é possível que se refiram a ela com um título tão solene –ela que, saindo do convento, era apenas a princesinha Resi. Envelheceu, mas ainda é a mesma... E a mulher vivida que ela é agora se entrega a questionamentos religiosos dignos de uma moça de colégio. Se Deus deixou que seu envelhecimento acontecesse, por que ocultou-lhe o fato?
Irrompe, então, Octavian, apaixonado. Na ópera, seu papel é representado por uma mezzo-soprano, o que torna para o espectador mais nítida a impossibilidade de um amor verdadeiro entre o casal. Octavian está de tal modo embriagado de paixão, que não consegue perceber as preocupações realistas da Marechala: “logo você me abandonará por alguma mulher mais jovem...” Octaviano acha que tudo isso é charme, artifício de sedução.
A beleza da atuação de Elizabeth Schwarzkopf, assim como da música de Richard Strauss, está em oscilar entre coqueteria e dor, entre fingimento e percepção da realidade. No decorrer da cena, a Marechala simula estar feliz, sabendo que sua felicidade é impossível. Faz isso para agradar ao conde, a quem ama; faz isso para mentir a si mesma. Em poucos instantes, cai na realidade, mas isso para o conde é apenas uma mentira, feita para deixá-lo ainda mais louco de amor.
A própria Marechala hesita: dispensa o conde, dizendo que terá muito a fazer no decorrer do dia. Um almoço com o velho tio inválido, por exemplo. Mas revela que depois irá passear no parque, e que talvez o conde possa cavalgar ao lado de sua antiquada carruagem. Com esperanças renovadas, o conde se despede. A porta se fecha, e a Marechala cai no mais agudo e dissonante desespero.
Mas a música de Richard Strauss permite, ainda, uma dupla leitura, que o grande libreto do poeta Hugo von Hofmannstahl tinha sugerido. A Marechala se levanta e diz: “mas eu me despedi dele sem ao menos beijá-lo!” A espontânea preocupação de uma amante e a dor mais profunda da mulher idosa, que sabe já não ser a amante que ainda é, se reúnem numa mesma música, complexa e pura ao mesmo tempo.
Todas as variações de rosto e timbre surgem, como num arco-íris triste e cálido, em Elizabeth Schwarzkopf nessa filmagem. Trata-se de um dos grandes momentos do teatro e da música do século 20.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h08
Nestes dias, lembro uma frase de Mário Quintana: "a esperança é um urubu pintado de verde".
Escrito por Marcelo Coelho às 23h35
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