fantasmas obesos

Não tenho notícia de que tenha sido traduzida para o português a famosa "Antologia do Humor Negro", organizada pelo surrealista André Breton durante a Segunda Guerra Mundial, e proibida pelo governo colaboracionista de Vichy. Um dos últimos textos dessa antologia, que segue a ordem cronológica, de Swift e Sade aos dias atuais, é uma curiosa e extensa teoria de
Salvador Dali sobre a obesidade entre os fantasmas. Dadas as preocupações atuais com a gordura, achei que é uma leitura própria para o Halloween. Aqui vai um trecho.
As novas cores do sex-appeal espectral
O peso dos fantasmas
Há algum tempo, e à medida que passam os anos, a noção de fantasma vai-se tornando suave, ganha peso e fica arredondada, em razão daquela obesidade persuasiva, daquela estereotipia de cabaça e daquele contorno analítico e nutritivo que é próprio aos sacos de batata vistos contra a luz, os quais, como todo mundo sabe, são precisamente aqueles que François Millet, pintor involuntário dos fantasmas mais importantes, teve a insistente complacência de nos transmitir, imobilizando-os em suas telas imortais, com toda a baixeza emocional de que pode ser capaz um pintor e com todo aquele aspecto turvo, concreto e único, com o qual todos nós, depois de um tempo, adquirimos o luxo de nos horrorizar.
As razões do alarmante aumento de peso, do engordamento compacto, do rebaixamento realista e extra-mole dos fantasmas atuais nada mais são do que as conseqüências que decorrem da noção absolutamente primeva e originária da própria materialização da idéia de fantasma e que, como iremos ver rapidamente, reside no sentimento do “volume virtual”.
O porquê da obesidade dos fantasmas
O fantasma se materializa pelo “simulacro do volume”. –O simulacro do volume é o envoltório. – O envoltório esconde, protege, transfigura, incita, tenta, dá uma noção enganadora do volume. – Torna tudo ambivalente com relação ao volume e o faz cair num estado de suspeição. – Favorece a eclosão das teorias delirantes do volume. – Provoca a vertigem do conhecimento ideal do volume, do conhecimento inconsistente do volume. O envoltório desmaterializa o conteúdo, o volume, debilita a objetividade do volume, torna angustiante o volume virtual.
A gordura é o elemento angustiante do volume concreto da carne, e nós sabemos que a libido humana torna a angústia antropomórfica, que ele personifica o volume angustiante, que transforma o volume angustiante em tecido vivo concreto, que transforma a angústia metafísica em gordura concreta.
Pois em que consiste essa gordura assustadora da carne?
Não é precisamente aquilo que envolve, esconde, protege, transfigura,
incita, tenta, dá uma noção enganadora do volume, provoca vertigens de conhecimento nutritivo, ideal, do volume, provoca representações gelatinosas do volume, representações extra-finas, “virtuais”, angustiantes do volume.
O pior acontece quando, atrás do lençol dos fantasmas que ainda se “mantinham em forma”, os volumes “virtuais” começam a adquirir esse ar cada vez mais grave e que é o que marca o peso inconfundível da realidade e da gordura substancial; mas pior do que isso é o momento em que esse mesmo lençol, caindo, deixa a descoberto e em seu lugar os volumes suspeitos por sua analítica, pesada, maciça e roliça aparência (características do lamentável estado de obesidade dos fantasmas atuais), deixa a descoberto, repito, a minúscula embora monumental ama de leite recentemente revelada nos meus quadros, a qual continua imóvel, malgrado uma chuva torrencial de primavera, sentada na posição de uma pessoa que tricota, numa lagoa, com a saia integral e desagradavelmente mergulhada, as costas esticadas, hitlerianas, amolecidas e ternas.
