Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

olhar estrangeiro

O subúrbio de Realengo, segundo o quadrinista francês Jano.

 

 

Escrevi para a “Ilustrada” de hoje uma crítica bastante negativa de “Olhar Estrangeiro”, documentário de Lúcia Murat sobre o modo com que o cinema europeu e americano retrata o Brasil. É sempre um paraíso de sensualidade feminina e de selvas tropicais.

Tudo indica que a diretora teve dificuldades em reproduzir algumas cenas do cinema americano, a começar dos desenhos de Zé Carioca e dos filmes de Carmem Miranda. Nessa hora, só aparecem montagens de fotos. Um filme de Hitchcock, com Ingrid Bergman, também mostra uma ceia à beira-mar, com um cartão postal de Copacabana ao fundo.

Seja como for, Lúcia Murat mostrou cenas de “Orquídea Selvagem”, com Mickey Rourke, e fez uma entrevista o diretor Zalman King. O filme é dos mais delirantemente exóticos, e o diretor, tendo de engolir as acusações dos entrevistadores, defende seu ponto de vista: quis fazer um filme de fantasia, e não tem necessariamente a obrigação de retratar o “Brasil real”.

O interessante seria procurar no filme dele as ocasiões em que o Brasil real, apesar de tudo, aparece ou é reprimido. Penso que não só os estereótipos se baseiam de fato na realidade (como muita gente entrevistada no filme repete à exaustão) como também que a realidade, mesmo reprimida, reaparece de alguma forma em cada filme.

Isso é uma espécie de crença minha, talvez baseada numa fé psicanalítica, mas em geral dá certo: na publicidade, por exemplo, é fácil verificar como a tentativa de mentir muitas vezes termina revelando a realidade apesar de tudo.

Acontece que essa realidade se revela em lugares inusitados. Por exemplo: será que a história, o enredo, ou algum personagem específico de “Orquídea Selvagem” não trariam algum princípio de contradição, sob a aparência visual exótica? Uma hipótese a verificar.

 Lúcia Murat fez um filme “cobrando” realismo dos diretores. Poderia ter dado mais atenção, nas entrevistas, ao processo de produção do filme. Como foi filmar no Brasil? Que dificuldades tiveram? Foi preciso cercar o cenário da praia, desviar a câmera, cortar cenas inconvenientes? Que belo material não haveria a descobrir, caso tivéssemos acesso aos trechos cortados na edição final...

Tudo isso seria mais complicado de fazer, e talvez exigisse entrevistas com críticos. Mas é muito fácil reclamar de que os personagens brasileiros falam com sotaque espanhol, como no caso de “Próxima Parada, Wonderland”. Ficamos apenas na aparência das coisas.

E o cinema e a televisão brasileiros? Não abusam de clichês para exportação também? De que modo tratamos os americanos, os fazendeiros, os industriais? Qual a diferença entre um tipo social, contraditório, complexo, e o estereótipo de uma narrativa comercial, seja ela brasileira ou estrangeira? Dá até pena de ver um diretor como Lauzier (também famoso como excelente autor de histórias em quadrinhos), que fala ótimo português, viveu anos na Bahia, sendo mal-tratado no filme de Murat.

De qualquer modo, há estrangeiros que de fato têm uma idéia mais ampla do Brasil, sem deixar de insistir naquilo que imediatamente lhes chama a atenção, a saber, os biquínis e a beleza física das mulheres que encontram na praia. Um exemplo é o quadrinista Jano, que publicou recentemente um álbum de histórias em quadrinhos maravilhoso sobre o Rio, e depois foi tema de um documentário, que infelizmente não vi (“O Rio de Jano”). Ele de certo modo “desnaturaliza” a representação, fazendo todos os brasileiros terem corpo humano e cara de cachorro, como a admitir que não pretende um quadro realista do pais. O resultado é muito bom, porque seu Rio de Janeiro não é apenas o Rio turístico, mas também o do subúrbio.

Ao mesmo tempo, está implícito em todo filme comercial que a “realidade” foi posta entre parênteses. Um subúrbio de Los Angeles não é tampouco o subúrbio real, o faroeste não é o faroeste real, etc. O problema, aí, não é ser preconceituoso ou desinformado com relação ao Brasil ou a qualquer outro país, mas é ser artisticamente fraco.

Do jeito que Lúcia Murat fez o filme, parece ser culpa dos estrangeiros; educadamente, muitos pedem desculpas à diretora ao longo da entrevista. Ficou bastante tolo. O filme estréia nesta sexta-feira em São Paulo.

site do filme: www.taigafilmes.com/olhar

minha crítica na "Ilustrada": http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq3011200622.htm

site de "O Rio de Jano" (lindas imagens): http://www.hybrazilfilmes.com/riodejano/

sobre a série de quadrinhos "Cidades Ilustradas", com autores estrangeiros retratando cidades como Rio e Belo Horizonte, é imperdível o site http://www.quadrinho.com/casa21/cadernosdeviagem/index.html

Escrito por Marcelo Coelho às 09h33

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um belo recorde

um belo recorde

No artigo de hoje para a "Ilustrada", tentei situar o fenõmeno da anorexia num contexto mais amplo. Não acho que a doença seja causada apenas por um "ideal de beleza", nem que possa resumir-se a um distúrbio com relação à própria imagem. Claro que não sou psiquiatra, mas o que me chama a atenção é a semelhança da anorexia com uma série de outras manifestações, como workahlismo, consumismo extremo etc., que envolvem sempre a idéia de superar os próprios limites. No mundo dos esportes, aparentemente oposto ao ideal da fragilidade anoréxica, a idéia de "superar limites" é vendida como se fosse excelente; mas já se acumulam os casos de jogadores de futebol tendo enfarte no meio do campo. Para nada dizer das inúmeras vítimas que, sem dúvida, as academias de ginástica e os anabolizantes são capazes de produzir.

Os recordes mais bizarros são quebrados o tempo todo, e o Livro Guinness, que acaba de sair, está cheio deles. Mas nesse post quero falar de um belo recorde mundial. Na primeira metade do século 19, um inglês chamado UOL Busca James Holman tornou-se, provavelmente, o homem que mais viajou na história humana. Foram cerca de 400 mil quilômetros; para se ter uma comparação, Marco Polo viajou cerca de 22 mil, e o legendário viajante árabe UOL Busca Ibn Batutta alcançou a marca de 120 mil quilômetros.

Até aí, é uma pura questão de quantidade. O detalhe que torna tudo mais admirável é que James Holman era cego. Seus relatos de viagem são, entretanto, de extrema acuidade; os sons e cheiros do Rio de Janeiro --onde ele esteve, aclamado como "o célebre viajante cego" pela imprensa local-- foram objeto de seu registro.

Uma biografia de James Holman acaba de sair na Inglaterra, pela Simon and Schuster: trata-se de A Sense of The World: How a blind man became histoy's greatest traveller; tem 400 páginas e foi escrita por Jason Roberts.

Link para o meu artigo de hoje: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2911200624.htm

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h59

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reencontro

reencontro

Depois de muitas décadas, chega a hora de antigos colegas de escola fazerem uma confraternização de fim de ano. A arrogância de alguns é posta em xeque na coluna de hoje do "Agora": http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2811200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 15h20

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voltaire em debate

voltaire em debate

Duas companhias teatrais preparam um espetáculo com textos de Voltaire de Souza para o ano que vem. O projeto, que envolve meus amigos Maurício Paroni de Castro (Atelier de Manufactura Suspeita) e Ziza Brisola (Companhia Linhas Aéreas) contou com o programa de fomento ao teatro da Prefeitura Municipal. Faz parte das exigências desse financiamento oficial a realização de workshops e programas de interação com a população, além da simples realização de espetáculos.

Dia 5 de dezembro, na Biblioteca Mário de Andrade, às 19h30, participo de um seminário sobre o projeto "Voltaire de Souza, o intelectual periférico." Alguns contos serão lidos pelos atores e comentados por mim. Sobre o espetáculo em si, ainda em preparação, nada sei. O que os atores estão fazendo, por enquanto, é algo de mais experimental, anterior à consolidação do texto: saem pela cidade, nos lugares mais diversos, encarnando alguns dos personagens das histórias, vendo as reações das pessoas,  e criando situações ainda mais bizarras, creio, que as próprias crônicas publicadas no "Agora". Se você encontrar a espetacular morena Gilvanka passeando pela Bienal, junto com uma excursão de cegos, isso é obra dos atores do projeto. 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h17

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livros em oferta

Descontos de 50 a 80 % em tinta mil títulos portugueses, na Livraria Portugal: Rua Martins Fontes, 81, São Paulo, até dia 30 de dezembro.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h09

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Alencastro na blogosfera

O historiador Luiz Felipe de Alencastro, uma das maiores autoridades brasileiras no estudo da escravidão, estreou há alguns dias o seu blog: http://sequenciasparisienses.blogspot.com/ . A propósito do Dia da Consciência Negra, ele publicou vários posts sobre o caráter da escravidão brasileira, e suas diferenças com a escravidão nos Estados Unidos. Vale acompanhar.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h08

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A sina de Niemeyer

Estive em Brasília no fim-de-semana, por conta do Festival de Cinema, onde participei de uma mesa-redonda sobre crítica de cinema e –este o tema do debate com Ismail Xavier—“as astúcias da representação”. O texto que se segue foi escrito antes do debate. Não consegui acessar a internet para enviá-lo, porque me hospedaram no velho Hotel Nacional, cujo “office center” não funciona nos fins-de-semana. Mais incrível: eles não aceitam nenhum cartão de crédito. Imagino a dor de cabeça para turistas estrangeiros.

 

Mesmo assim o hotel, obra de Oscar Niemeyer, ainda tem seus encantos.

 

Por exemplo: tive de subir ao mezanino, para apanhar as credenciais. De lá, vi o saguão do hotel, numa iluminação clara e suave, com o vaivém dos hóspedes, alegre e surpreendente de tanta nitidez. Só depois descobri o truque: é que o parapeito do mezanino era baixíssimo, proporcionando uma visão que nenhum mezanino comum é capaz de oferecer. O custo, obviamente, é enorme: a pouco mais de trinta centímetros do chão, o parapeito não traz nenhuma segurança ao visitante, que pode cair sobre o concierge num acidente de proporções, digamos, monumentais.

 

Mas o velho Niemeyer estaria tendo acessos de fúria se vissem o que fizeram com a decoração do hotel. Em volta da piscina, há “chaises-longues” que parecem carruagens de faroeste, cercadas por mesinhas de mármore com pedestais em formas de colunas gregas. No quarto, três quadros horrorosos de flores cor-de-rosa estão enfiados em molduras mais horrorosas ainda, de um dourado cor de alça de caixão de defunto. As janelas dos quartos que dão para a piscina ganharam minúsculos toldos com cara de capa de chuva. O modernismo arquitetônico, como se sabe, é um ideal tão traído (e inexeqüível, sem dúvida) como os da Revolução Russa.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h38

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Robert Altman

Vou concordar se disserem que Robert Altman foi um grande diretor, capaz de desafiar as censuras vigentes em Hollywood, e assim por diante. Tenho um problema, entretanto, com os filmes que eles fez. Não ficam na memória. Sei que saí de “Shortcuts”, por exemplo, dizendo que era um ótimo filme. Não me lembro de nada do que aconteceu –exceto da ameaça de um terremoto que abalava, segundo creio, um enxame de morcegos numa caverna californiana.

 

A cena mais marcante de Altman, para mim, aproxima-se da banalidade: o desfile de mulheres nuas em “Prêt à Porter”. Se aquilo significava uma crítica cabal ao mundo moda, convenhamos que era de uma obviedade lancinante. Os aplausos que acompanhavam o desfile –incluindo o da sarcástica editora-anã que vivia do “mundinho fashion” no filme— eram mais aplausos à idéia do diretor do que reações coerentes com o enredo imaginado por ele.

 

Em “Prêt à Porter” há também uma cena constrangedora, não pelo sexo em si, mas pelas intenções sentimentais e anti-hollywoodianas do diretor: a do encontro entre Sophia Loren e Marcello Mastroianni, ambos provectos, incapazes de levar às últimas conseqüências o romantismo ligado ao encontro íntimo entre os dois. Não consegui me convencer de que aquilo era bom cinema.

 

“Gosford Park”, o último dos filmes de Altman a que assisti, prende o interesse com frases e situações memoráveis, mas carece de real dramaticidade. Há uma frieza nos filmes de Robert Altman que ultrapassa o que seria necessário ao intuito de crítica, de corrosão. Em “Cerimônia de Casamento”, talvez o filme de que mais gostei, comicidade e frieza se combinam, por exemplo, no close da adolescente que sorri com aparelhos nos dentes; mesmo assim, a velhota que morre enquanto a festa prossegue, com moscas cercando o seu cadáver, é mostra suficiente de que o diretor tinha, como se diz, “mão pesada”. Elogiam-no, quem sabe, por ser uma espécie de Mario Monicelli em Hollywood. Mas Mario Monicelli (Parenti Serpenti) era um diretor medíocre, um Altman em Cinecittà.

 

O uso de tramas paralelas, com múltiplos personagens, funciona formalmente nas obras de Altman, e “Gosford Park” é uma obra-prima se quisermos pensar no cinema como um “raio-X” da sociedade. Mas nesta frase –“raio-X da sociedade”—estão os limites de gosto, o trivial, a falta de profundidade do diretor. Ele horizontaliza a visão; picota o enredo; provoca sorrisos, não inquietação, no espectador. Compará-lo a Kubrick ou David Lynch, a meu ver, é uma desmesura. Altman seria um bom autor de comédias ligeiras, se não pretendesse mais do que isso.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h37

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uma palavra nova

Todo mundo, a esta altura, já ouviu falar de anorexia e bulimia, mas é interessante ficar atento para um novo termo, no universo das patologias contemporâneas. Vem do japonês: karoshi. Leio no livro "Devagar", de Carl Honoré (ed. Record), que significa "morte por excesso de trabalho".

Uma das mais famosas vítimas de "karoshi" foi Kamei Shuji, corretor hiperativo que invariavelmente trabalhava 90 horas por semana [ou seja, 16 horas de segunda a sexta e mais 10 horas no sábado] durante o boom do mercado de ações no Japão, no fim da década de 1980. Sua empresa alardeava toda essa energia super-humana nos boletins internos e manuais de treinamento, transformando-o no padrão ouro a ser imitado por todos os empregados. Numa rara iniciativa de rompimento do tradicional protocolo japonês, Shuji foi convidado a treinar colegas mais graduados na arte das vendas, o que significou pressão ainda mais forte em seus ombros já sobrecarregados. Quando explodiu em 1989 a bolha japonesa do mercado de ações, Shuji passou a trabalhar ainda maior número de horas para compensar as perdas. Em 1990, morreu subitamente de um ataque cardíaco. Tinha 26 anos. 

Escrito por Marcelo Coelho às 08h48

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alexandre órion

 

Falei num post anterior dos trabalhos do artista plástico Alexandre Órion. Ele agora lança um livro, "Metabiótica", dia 9 de dezembro, na Pinacoteca do Estado. Ás 11h haverá um debate com Diógenes Moura, Rubens Fernandes e José de Souza Martins (este sociólogo colabora com lindos textos sobre São Paulo no caderno Metrópole do "Estadão"). e o lançamento começa a partir das 12h 30.

Alexandre Órion faz pinturas em muros de várias cidades do mundo, e em seguida, com uma câmera fotográfica, surpreende imagens dos habitantes do lugar "interagindo", sem saber, com as imagens que pintou. É comose ele criasse uma série de "armadilhas visuais" para pegar as pessoas em seu habitat.

Abaixo, mais algumas fotos do artista.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 08h40

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vôo místico

vôo místico

A imagem de Santos Dumont contrasta com a confusão reinante nos aeroportos. Leia a crônica de hoje no "Agora" (para assinantes do uol): http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2311200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 08h31

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concerto na TV

            

Domingo às 21h, na TV Cultura, Martha Argerich interpreta uma de suas especialidades, o concerto número 3 de Prokofiev. É no programa de Salomão Schwartsmann, conforme ele próprio avisou no rádio, hoje de manhã.

Escrito por Marcelo Coelho às 08h18

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pechinchas

A pedido de um leitor, confirmo a informação: de hoje a sexta, no prédio da História da USP, há uma feira de livros com descontos de 50% no mínimo.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h03

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consciência negra

capa da primeira edição de "Viagem ao céu". Nastácia vai junto.

No artigo de hoje para a Ilustrada, cito dois clássicos da literatura infantil, "Viagem ao Céu", de Monteiro Lobato, e "Clarita da Pá Virada", de Maria Clarice Villac. Nada mais fácil do que julgar um autor do passado a partir de critérios ideológicos do presente. Havia racismo aos montes nesses livros, importantíssimos na formação da mentalidade média do brasileiro letrado de vinte ou quarenta anos atrás. O que acho interessante não é a forma com que o racismo aparece nesses textos, mas sim o que eles podem revelar de nosso "anti-racismo" também. Depois de caracterizar Tia Nastácia como uma negra "beiçuda", supersticiosa, rindo com a "gengivada vermelha", etc., o texto se encarrega de "corrigir" o preconceito, afirmando que Tia Nastácia "também é gente"... É como se os brasileiros, reconhecendo "in extremis" a igualdade humana, não reconhecessem entretanto a cidadania, ou mesmo a nacionalidade brasileira dos negros com que convivem. Outros países são xenófobos; o negro, aqui, é que é o grande estrangeiro. Leia o artigo em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2211200623.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 09h34

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as elites brancas

as elites brancas

No Dia da Consciência Negra, as coisas não correm bem na mansão de dona Henriqueta. Veja a crônica do "Agora" em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2211200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 09h23

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Florianópolis

Florianópolis

Com o fotógrafo Tuca Vieira, fiz um livro sobre São Paulo no ano passado, para a coleção "Cidades do Brasil", da Publifolha. Faço a publicidade de mais um volume da série, escrito pelo José Geraldo Couto, com fotos de Caio Vilela. É sobre Florianópolis, e terá lançamento nesta quarta-feira, a partir das 19h, na Fnac Pinheiros. Abaixo, uma foto da praia de Lagoinha para enfeitar este blog. 

Escrito por Marcelo Coelho às 19h05

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na hora de dormir

na hora de dormir

Alguns pais e mães sofrem nas refeições. Em casa, o drama chega na hora de pôr as crianças para dormir. Há o problema dos pesadelos, que não sei como resolver, e constitui forte motivo para o meu filho mais velho lutar como pode para ficar acordado. E agora o menor, de dois anos e meio, aprendeu a sair do berço; contente com a descoberta, sem dúvida, levanta-se umas cinco vezes antes de finalmente se resignar ao sono.

 

Sem dúvida, eles pressentem perfeitamente a verdade das coisas: os pais, nessa hora, estão querendo livrar-se deles. Como chego mais ou menos tarde em casa, é também provável que minha presença signifique uma dose tardia de adrenalina e excitação, num momento do dia em que já deveriam estar passando do “allegro con fuoco” e do “presto furiante” para o “andantino meno mosso” e para o “adagietto semplice”.

 

Acontece que eu também sou notívago, e compreendo que seja muito chato para uma criança abandonar tantas possibilidades de entretenimento em favor da inconsciência e da escuridão. Resolvi, nos últimos dias, esticar ao máximo, com o menorzinho, o chiclete das horas. Às 21h15, ele esperneava, recusando-se a entrar no seu quarto. Ás 21h30, sessão de cócegas e palhaçadas. Ás 21h45, historinha; às 22h, música (o “Carnaval dos Animais”, com direito a figurações e mímica sobre cada bicho retratado na orquestra –tartaruga, peixe dourado, elefante, etc.) Às 22h30, finalmente, ele dormiu. Horário nada saudável, procedimento cansativo, que me tomou mais de uma hora (sem contar o tempo dedicado ao filho mais velho, pouco antes). Mas só assim é que o sono chegou.

 

O problema é abordado num livro interessante, que talvez eu comente depois. Trata-se de “Devagar” (ed. Record), do jornalista Carl Honoré. Ele parte do movimento contra o “fast food” para relatar as experiências em diversos âmbitos de atividade, e em diversos países, que procuram valorizar a lentidão. Há desde a “slow food” –pratos demoradíssimos de fazer, refeições que duram três horas—criada pelo italiano Carlo Petrini, às ações do Clube de Preguiçosos do Japão. Trata-se, com certeza, de um movimento minoritário, mais um luxo do que uma alternativa real para o mundo contemporâneo.

 

Carl Honoré conta suas dificuldades para fazer os filhos pegarem no sono, e cita um dos absurdos à disposição das famílias que enfrentam o problema. Trata-se de um livro de contos de fada condensados, que podem ser lidos em cerca de um minuto. No começo, Carl Honoré se entusiasmou. “Metralhar seis ou sete histórias, e ainda assim acabar em menos de dez minutos –que poderia ser melhor? Mas eu já estava começando a tentar adivinhar o tempo que a Amazon levaria para me mandar a série inteira quando vem a redenção, na forma de uma outra pergunta: Mas será que eu fiquei completamente maluco?”

 

Como se vê pelo trecho, o texto é levemente engraçado, e o ritmo de elaboração dos raciocínios do autor já reflete certa tendência para a lentidão. 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h35

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anorexia nas bancas

As três maiores revistas semanais do país publicaram reportagens de capa sobre anorexia. O assunto surge em função da pobre modelo que morreu na semana passada, pesando 40 quilos (para se ter uma idéia, apesar das diferenças de altura, a Gisele Bündchen pesa 52). Naturalmente, o conteúdo das diversas reportagens é de alerta e de preocupação. Mas não deixa de ser questionável o fato de que, nas capas colocadas à venda nas bancas de jornais, ainda se explore a beleza da vítima, magra e belíssima numa foto de editorial de moda. "Veja", nesse sentido, foi um tanto mais ética, mostrando ao lado da modelo a foto de um corpo feminino morbidamente magro, ainda que não dos mais chocantes. É terrível, em todo caso, que, mesmo morta, a beleza da modelo ainda sirva para vender. Em tempo: A Folha também publicou na primeira página uma foto da modelo.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h15

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depois do espetáculo (2)

Outro aspecto levantado por  Sábato Magaldi no seu texto sobre as funções da crítica teatral (ver post anterior) é a “precarização”, se podemos dizer assim, da atividade do crítico:

 

Os comentaristas mais antigos ainda são funcionários do jornal, com direito a vencimentos fixos, férias remuneradas, décimo-terceiro salário e benefícios sindicais, incluindo-se a aposentadoria. O registro sindical, privativo dos que fizeram curso de jornalismo, a crise econômica, obrigando à restrição de despesas, e, eventualmente, o desejo de não concentrar num só indivíduo, por muito tempo, o poder da crítica, estão transformando todos os comentaristas em colaboradores, remunerados por artigo.

 

Desse ponto de vista, é claro que a ‘política do crítico” também fica desbaratada, perdendo em continuidade. E as observações de Sábato Magaldi sugerem também um outro fenômeno, que não é tão freqüente no teatro quanto no cinema, que é o surgimento do “crítico improvisado”. Ao contrário de outras áreas, como música clássica ou artes plásticas, “todo mundo” –ponho o todo mundo entre aspas, evidentemente—é capaz de fazer crítica de cinema hoje em dia. Claro que a crítica de cinema bem-feita ganha muito se o seu autor tiver conhecimento técnico, souber como foram criadas determinadas soluções de filmagem, e tiver conhecimento da história do cinema, podendo avaliar o quanto há de originai, de copiado ou de alusivo em determinado filme. Mas precisamente porque o cinema ainda é uma linguagem que, em 90% dos casos, segue um modelo predominante, o intervalo entre o conhecimento do público e o conhecimento do crítico não é especialmente vasto; e um representante bem articulado do público, sem conhecimento técnico específico, pode de fato sustentar uma opinião circunstanciada e informativa a respeito de um filme “médio”, de um “filme normal”.

 

Tenho a impressão de que o teatro está mais ou menos no meio do caminho entre o cinema, digamos, e as artes plásticas. De um lado, como no cinema, apela para problemas, conteúdos, formas narrativas, que permitem a um espectador médio, sem grande informação técnica, ter uma visão razoavelmente clara da qualidade e do sentido do espetáculo –o que não acontece nas artes plásticas contemporãneas. De outro lado, o teatro é capaz de suscitar perplexidade e aborrecimento num grau que o cinema raramente produz.

 

De qualquer modo, se hoje em dia é mais ou menos comum o “crítico de cinema improvisado”, o “crítico teatral improvisado” não surge com tanta facilidade –não só porque os jornais dão menos importância ao teatro que ao cinema, como também porque, como eu dizia antes, o teatro já não apresenta uma linguagem dominante tão caracterizada, hoje em dia, como quarenta ou cinqüenta anos atrás.

 

(Nota: estas considerações genéricas serviram de introdução à palestra que fiz no festival de teatro de Recife, em que o tema era a crítica teatral e a peça “Viúva Porém Honesta”, de Nelson Rodrigues. Como se sabe, um dos personagens da peça é o crítico teatral “improvisado” Dorothy Dalton, que um belo dia entra na redação do jornal A Marreta pedindo socorro: ele na verdade é um delinqüente juvenil que acaba de fugir do SAM, a Febem da época). 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h09

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depois do espetáculo

A semana está decididamente teatral para este blog. Preparo-me para ir a Recife, onde falo sobre "Víúva Porém Honesta", de Nelson Rodrigues. Na peça, há um personagem chamado Dorothy Dalton, "crítico teatral da nova geração" e "fugitivo do SAM" (Serviço de Assistência ao Menor, equivalente à Febem de hoje). A idéia dos organizadores do Festival de Recife é que a peça de Nelson Rodrigues sirva para se discutir o papel dos críticos de teatro... Coisa boa não há de vir.

Em todo o caso, andei lendo um pouco sobre o tema. Reproduzo algumas anotações para a palestra. 

Um artigo de Sábato Magaldi, escrito em 1987, discorre de modo interessante e equilibrado sobre a função da crítica teatral. Foi reeditado agora no livro Depois do Espetáculo (editora Perspectiva). Sábato Magaldi defende de certa forma uma “política” da crítica, que não se confunde com a adoção de um princípio estético dogmático.

 

Exemplo dessa política seria a atuação de escritores como Décio de Almeida Prado, lutando, nas décadas de 40 e 50, pela superação do modelo das comédias superficiais de Procópio Ferreira. Foi uma luta necessária contra um modelo, então predominante.

 

Sábato Magaldi prossegue: “o crítico precisa ser sensível às mutações contínuas da realidade teatral. Num momento, ele ressalta a figura do encenador e do teatro de equipe. Logo vê que essa fórmula é insatisfatória: contra o domínio do repertório estrangeiro, deve prestigiar-se o autor nacional. Transformada a peça brasileira em moeda corrente dos elencos, cabe ser mais rigoroso no seu juízo ... etc.” Tarefa infindável,  como se vê, de correção de tendências e de apoio ao que fugir do já banalizado.

 

Mas essa política crítica tem um pressuposto, a meu ver: o de que haja uma tendência predominante no ambiente teatral do país, o que era possível detectar, por exemplo, na década de 40 ou 50; hoje em dia, parece haver coisas tão diferentes em cena, atendendo a tipos de público tão diversos, que uma função “corretiva” se torna muito mais difícil. Coexistem musicais de grande apelo, imitados da Broadway, com produções convencionais, com grandes experimentações artísticas, e com muita coisa que não se encaixa em lugar nenhum. O mero dever de acompanhar, de noticiar com um mínimo de detalhe tudo o que se passa, já se torna quase irrealizável pelo crítico.

 

Entre as muitas agravantes do problema, há uma que valeria a pena destacar: é que a tarefa de “servir ao público do jornal”, de atender minimamente às suas necessidades de informação e de debate, choca-se com o fato de esse público ser tão heterogêneo quanto os espetáculos em cena. Podíamos imaginar um “terreno comum” entre o crítico, o público e o leitor de jornal nos anos 60 ou 70. Isso, a meu ver, desapareceu, com a tribalização do público, a multiplicação das ofertas de espetáculo e a própria descaracterização do leitor e do jornal.

 

Numa época centrífuga, dispersa, torna-se quase contraditória a existência de um ou dois “cadernos culturais” apenas em cada cidade, com um ou dois críticos –quando muito—em cada um. Uma cultura fragmentada requer, cada vez mais, meios de comunicação fragmentados também... o que, aliás, seria mais um novo problema do que uma solução.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h10

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teatro, política, jornais

Participei ontem à noite de um debate promovido pelo grupo teatral IVO60, voltado para o teatro de rua. Eles fazem apresentações em parques e nos CEUs; vi uma no Tendal da Lapa, centro cultural na zona Oeste de São Paulo, bastante divertida. O tema principal dos espetáculos do grupo é a política brasileira, que eles ironizam a valer, com falsos debates entre falsos candidatos, em falsas redes de TV.

 

O ciclo de debates se intitulava arte e política, e fui convidado a falar sobre as relações entre imprensa e intelectuais. Seleciono o trecho final do que escrevi para a palestra.

 

Quero destacar, para fins de nossa discussão aqui, que o princípio que rege a imprensa moderna é esse princípio de apartidarismo. Pode-se questionar se, na prática, ele está sendo plenamente obedecido, mas o princípio, o compromisso é esse. E é um instrumento importante na defesa da procura da verdade fatual. Cada denúncia é uma pista, o começo de uma procura das verdades que todo governo quer esconder.

 

Bem, um problema que acaba acontecendo é que esse princípio, que é em certa medida “metodológico” –não podemos aderir a um partido porque todo partido, em princípio, está sob suspeita—, vai deixando de ser “metodológico” para se tornar “ontológico”, ou seja, envolve um julgamento de como as coisas são. Uma coisa é ser apartidário por princípio. Outra é dizer que “todos são iguais, não há diferença real nenhuma entre os vários partidos e políticos.” Uma coisa é o mandamento : “tratarás os políticos como se forem todos farinha do mesmo saco”. Outra coisa é dizer “Todos os políticos são farinha do mesmo saco”. Isso deixa de ser princípio para se tornar opinião, julgamento –e vale tanto quanto qualquer outro, do ponto de vista da procura da verdade fatual.

 

Pois bem, é aqui que eu entro na terceira parte da discussão, que é a das relações entre arte e política, mais precisamente do teatro e da política, hoje em dia. Meu medo, ou melhor, minha pergunta, é se muitas peças de teatro não acabaram caindo nessa armadilha da imprensa a que eu me referi. Ou seja, se muitas peças que pretendem encenar, digamos, a farsa da política brasileira hoje em dia –e eu não digo que não seja uma farsa--, não

adotaram um paradoxal “parti-pris” apartidário, uma espécie de sistemática de criticar todos os partidos, de modo que se é feita uma crítica ao malufista de direita é forçoso “equilibrar” essa crítica com uma crítica ao militante de esquerda caricato.

 

O aspecto “apartidário” da peça se preserva assim. Mas temos de levar em conta que o apartidarismo da imprensa é, a meu ver, um meio, um instrumento para detectar verdades fatuais, que dependem de investigação, esclarecimento, detalhamento, especiificidade. E eu desconfio um pouco quando peças tratando de política adotam esse princípio, porque nas peças o princípio não é meio para chegar a outras verdades, de cunho especificamente jornalístico, mas se torna um fim em si, uma opinião em si: “nossa peça vem aqui para dizer ao público que todo político mente, é tudo uma farsa...” Mas o público já acha isso!

 

E a peça acaba tendo um significado puramente catártico, de aliviar o espectador, em vez de aprofundar a questão. Em vez de mostrar que as coisas são mais complexas do que parecem, certas peças políticas tendem a mostrar que tudo é tão simples quanto sempre se pensou que era.

 

Acho que há muitos exemplos desse problema no teatro, embora eu não acompanhe a área como deveria. Penso no Cacá Rosset, quando se vestia de Ubu em todas as eleições, para denunciar a “farsa”... e mesmo o Casseta e Planeta, que faz graça mas não esclarece, não aprofunda, não avança um ponto além do senso comum. Acho que divertimento e arte têm sempre de avançar, não de repetir o que se sabe...

 

Curiosamente, enquanto os espetáculos teatrais se impregnam desse apartidarismo jornalítico, muita gente na imprensa adota na verdade uma estética teatral. Se pensarmos em José Simão, ou em Arnaldo Jabor, eu diria que eles se transformam em personagens, em atores, representando um papel... E esse papel não é o propriamente o do intelectual –que está obrigado a apostar na idéia de que a verdade é complexa, não se reduz a simplificações, e precisa ser procurada sem cessar. Eu espero que o teatro faça o mesmo.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 13h38

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sem palavras

O chargista e ilustrador Nicoliello, que trabalhou bastante tempo na "Folha" e na "Folha da Tarde", inaugura uma exposição nesta terça-feira, dia 21, no Shopping Villa- Lobos. Grandes cartuns geralmente dispensam o uso de palavras. O que selecionei acima parece, entretanto, ser ainda mais "silencioso" do que a média...

Escrito por Marcelo Coelho às 08h54

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apetite de poder

apetite de poder

Reforma ministerial e filas nos aeroportos são o tema da crônica de hoje do "Agora" (para assinantes do uol):

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1511200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 16h47

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bullying, escolas em crise

No artigo de hoje para a “Folha”, falei do fenômeno do “ Bullying”, ou seja, quando um grupo de valentões do colégio resolve humilhar e perseguir o “patinho feio” da classe. Argumentei, sem esconder meu rancor pessoal, que basicamente falta coragem para a instituição escolar, na figura de professores, vigilantes, diretores, ser ela própria respeitada como um ambiente de igualdade e respeito à lei. O tema tem implicações, digamos, republicanas, o que vem mais ou menos a calhar com data de hoje.

 

Não tive espaço para falar da escola pública, um pilar básico do próprio espírito republicano; pelo menos era para ser assim. Na França, o “exército negro” dos professores de escola desenvolveu, na passagem do século 19 para o 20, a mais sistemática e organizada luta em favor dos princípios da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, contrapondo-se ao tradicionalismo do ensino religioso. Quem foi criança aí pelas décadas de 1920, 1930 ou 1940, viveu esse espírito nas escolas-modelo e ginásios de Estado (que, embora exemplares, não cobriam evidentemente toda a demanda educacional da população).

 

Uma amiga trabalha numa escola de dança, que se preocupa em integrar adolescentes da periferia. Um dos inúmeros problemas que ela enfrenta é o de como “chegar” até esses adolescentes –divulgar seu projeto, selecionar os interessados, etc. Para isso, ela recorre às associações de bairro, às ongs que trabalham (ou não trabalham) no local. Perguntei-lhe se o mais natural não seria procurar as escolas, e desenvolver cursos e atividades diretamente no lugar onde os jovens estudam. Ela respondeu-me que escola é a coisa que menos funciona nos bairros que ela conhece.

 

E mesmo nos colégios particulares, a descrença e falta de autoconfiança são crescentes. Acho estranho, por exemplo, que nos dias de hoje as escolas não sejam em tempo integral. É absolutamente maluco o sistema de vida da classe média alta, que paga pela escola particular de manhã e depois, à tarde, fica inventando todo tipo de “atividades” para os filhos. Na escola pública, então, oito horas por dia seria essencial. Mas não se pagam professores para isso –e no curto horário de aulas vigentes, as faltas e trocas de professores são rotina.

Depois falam de “cortar gastos”. Mas isso é tema para depois.

íntegra do artigo na "Folha": http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1511200615.htm

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h13

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razões para a guerra

razões para a guerra

 

 

“Medeni, medeni, rapdavir, palivir, palivir”. Transcrevo como posso essas palavras árabes. Significam “civil, dona-de-casa, criança”. Quem as recita, como se fossem versos do Corão, é um funcionário do cemitério de Bagdá. Ele mostra para as câmaras os registros dos funerais. Estão num caderno de capa dura, de folhas bastante ensebadas, preenchidas a lápis e caneta esferográfica, como as antigas cadernetas de quitanda que ainda devem existir pelos cafundós do Brasil.

 

A cena pertence ao documentário “Razões para a Guerra” (“Why we Fight”), recém-lançado em DVD. O filme de Eugene Jarecki foi premiado no Festival de Sundance, e não se limita aos conflitos no Iraque. Seu ponto de partida é o último discurso de Eisenhower na presidência dos EUA, no fim dos anos 50, em que ele alertava para o surgimento de um “complexo industrial-militar”, capaz de ameaçar as próprias instituições democráticas americanas.

 

O filme adota uma técnica meio “pontilhista”, com imagens de diversas épocas e declarações de personagens variados, sem grande intuito expositivo ou historiográfico. Tudo acaba funcionando como um jeito de manter a atenção do espectador, que sempre espera da cena seguinte uma explicação mais ampla para o que está assistindo.

 

O diretor Eugene Jarecki não está muito interessado, entretanto, em narrar a longa história dos conflitos em que os EUA se envolveram depois da Segunda Guerra; de seu ponto de vista, o contexto e os motivos de cada intervenção armada são menos importantes do que o fato de que a máquina bélica americana tem sempre de funcionar, com ou sem motivos reais para tanto.

 

A derrota dos republicanos nas últimas eleições fortalece, finalmente, uma tese que todo o planeta, menos os Estados Unidos e Inglaterra, parecem conhecer à saciedade: a de que o envolvimento americano no Iraque se baseia em duas mentiras básicas: a de que Saddam tinha armas de destruição em massa, e a de que os bombardeios americanos poderiam ser feitos com precisão cirúrgica, reduzindo ao mínimo as vítimas civis.

 

O uso sistemático da mentira não começa, todavia, no governo Bush, e ainda que Donald Rumsfeld apareça no documentário como um farsante consumado, o principal a se notar é que qualquer governo, democrata ou republicano, e praticamente qualquer deputado ou senador, termina entrando em aventuras militares. Um especialista entrevistado no filme explica com clareza o que ocorre: o “complexo industrial-militar” denunciado por Eisenhower não se baseia apenas no conluio entre o Pentágono e as grandes indústrias de armamentos, mas também na cumplicidade do Congresso. Deputados que votarem contra gastos militares são punidos eleitoralmente por suas bases locais, que não querem ver diminuídos os postos de trabalho.

 

O forte de “Razões para a Guerra” não é, contudo, a tese abstrata, mas sim as suas personagens. Simpáticas senhoras americanas, operárias na fabricação de mísseis, dão seu ponto de vista, totalmente razoável: a “banalidade do mal” não precisa de um Eichmann para repetir-se todos os dias. Um ex-policial, cujo filho morreu nos ataques de 11 de setembro, e uma técnica oriental na fabricação de bombas de alto impacto, destacam-se: têm biografias extremamente ricas, dramáticas e contraditórias –mostrando que, apesar do sistema ser aparentemente inalterável, as posições individuais do cidadão americano podem ser extremamente mutáveis e abertas à violenta ironia dos acontecimentos.

 

É, como sempre, um documento da confiança americana no individualismo, na independência de cada pessoa diante da força do Estado e das grandes indústrias. O documentário não consegue ir muito longe nessa confiança, entretanto: por mais que tentasse, não poderia evitar doses equivalentes de desprezo diante da atitude nacionalisteira e desinformada de largos contingentes da população. Crianças de colo são levadas pelos pais a desfiles militares e a feiras de armamento, com bandeirinhas de seu país. O conservadorismo de massas, na conjuntura pós-11 de setembro, atrapalha bastante o espírito democrático que “Razões para a Guerra” não quer abandonar. Enquanto isso, o funcionário do cemitério iraquiano conta os seus mortos.  

site do filme: http://www.sonyclassics.com/whywefight/

Fotos de alta qualidade da guerra do Iraque podem ser vistas em www.pigbird.com/images_war.html --foi de onde tirei a que está no começo do post.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h50

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Barney e seus amigos

Barney e seus amigos

 

 

Tudo bem que programas de televisão ensinem as crianças a escovar os dentes, a respeitar os sinais de trânsito e a confiar em médicos e bombeiros. Mas fiquei assistindo com meu filho ao programa do Barney, no canal Discovery Kids, e acho que ali o impulso didático passa um bocado das medidas.

 

Quando meu filho era menor, ele adorava o Barney, imagino que justamente pelo fato que agora motiva minhas críticas: não há ficção naquele programa, só músicas e ensinamentos. Não se apela à imaginação ou a essa outra coisa bastante diferente da imaginação, que é a capacidade de representar ficcionalmente um ensinamento qualquer.

 

No programa de Barney, tudo é abertamente pedagógico e edificante. Não me oponho a isso, sabendo a que faixa etária a coisa se dirige. Mas quando Barney resolve dizer, a sua crédula platéia de crianças recrutadas nos mais variados estratos étnicos que compõem a população britânica, que devemos confiar em policiais, que os policiais estão aí para nos servir e para levar crianças perdidas ao colo de suas mães, tudo fica um pouco suspeito aos meus olhos.

 

Pior que isso. O simpático dinossauro roxo de espuma de borracha exclama, a um dado momento: “Policiais são maravilhosos!” Penso no sutil e nada ideológico espírito crítico do Manda-Chuva, às voltas com o Guarda Belo, nos desenhos animados dos anos 60, e concluo que o ambiente ficou terrivelmente sufocante hoje em dia. Há correção política no elenco multiétnico de Barney; mas o medo dos produtores diante de qualquer ironia, de qualquer espírito crítico, de qualquer leveza que os livre do intuito edificante, é ao mesmo tempo contrapeso e reiteração desse programa benfazejo.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h21

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melhores blogs do mundo

Lista e links para os vencedores do concurso organizado pela Deutsche Welle: http://www.thebobs.com/index.php?l=en&s=1154893190771544ZWFAYZBB-NONE

Escrito por Marcelo Coelho às 01h46

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partidos e empreiteiras

Não é questão de ser petista ou tucano, de ser “empregado do Frias” ou “lulista enrustido”, como quiserem. O fato é que não dá para aceitar a arrogância com que muitos simpatizantes do PT acusam a imprensa de defender interesses burgueses, quando a gente lê uma notícia como a publicada hoje na “Folha”. Segundo dados da Justiça Eleitoral, os candidatos do PT ao Congresso receberam R$ 4,2 milhões das empreiteiras, R$ 1,8 milhão de mineradoras e metalúrgicas, R$ 1,16 milhão de usinas de álcool e de açúcar. Quantias equivalentes foram destinadas a candidatos do PSDB e do PMDB. De um ponto de vista estritamente materialista e dialético, gostaria de saber como é que um partido pode se apresentar como defensor dos trabalhadores, vítima de conspirações burguesas, adversário das elites que há 500 anos dominam o país, com tais fontes de financiamento. 

Íntegra da reportagem em http://tinyurl.com/yfxpu9

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h42

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pérolas da publicidade

Sempre me fascinam os anúncios de novos "empreendimentos imobiliários" no jornal: aquelas piscinas quilométricas, áreas de lazer dignas da Wonderland de Michael Jackson, salas de estar e varandas de dimensões comparáveis à Xanadu do Cidadão Kane... Milagres da "concepção artística" veiculada na publicidade, onde distorções de perspectiva e embelezamentos de computador fazem do mais modesto condomínio de classe média um palácio principesco.

Na "Folha" de hoje, acho que exageraram na dose. Além de um espetacular panorama de piscinas e palmeiras, um anúncio de prédio anexou uma gracinha de péssimo gosto. Vemos a fotografia de um menino loirinho, andando de bicicleta, ilustrando o que seria o bilhete desesperado de uma mãe.

"Cadê o Júnior?", diz o texto. É como se fosse um caso de criança desaparecida. "6 anos de idade, loiro. Desceu para brincar e não quer mais saber de voltar para casa. Se você o encontrar, por favor avise que o jantar está pronto. Lúcia, apartamento 51-B."

Uma das coisas que, imagino, sejam das mais dramáticas na vida de uma família –o desaparecimento de uma criança—é reciclado, aqui, num daqueles lances detestáveis de ironia publicitária.

O anúncio não deixa de revelar, entretanto, as angústias da classe média. Um condomínio fechado, com área de lazer satisfatória, é vendido como solução para todos os medos que cercam o cotidiano urbano. Você não precisa sair de casa, nem viajar no fim-de-semana, prossegue a peça publicitária: o edifício que construímos já traz tudo embutido para você. Seu filho não será seqüestrado, acidentado, nem desaparecerá pelas ruas da cidade. Compre o apartamento, a criança vem junto. Exorciza-se o terror, ou melhor, expulsa-se o terror para fora dos limites murados do edifício. Como sempre, na publicidade, a mentira é mais verdadeira do que a mera verdade.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h53

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limpadores de chaminés

 Charles Lamb (1775-1834) é mais conhecido pelos “Contos de Shakespeare”, o resumo que ele e Mary Lamb fizeram das peças do bardo. Mas sua produção ensaística é muito grande, e certamente está entre as influências de Machado de Assis. Em seus “Ensaios de Elia”, há um texto sobre os limpadores de chaminé, cuja ironia contrasta bastante com o tom sentimental do poema de William Blake citado em post anterior. Reproduzo alguns trechos.

 

... Sou por princípio refratário ao poder de sedução presente no que se costuma chamar de uma bela arcada dentária. Cada par de lábios rosados (as senhoras devem me perdoar neste ponto) é um cofrinho, a guardar presumivelmente essas jóias; mas me parece que devam ser “arejadas” o mais frugalmente possível. A bela senhora, ou o excelente cavalheiro, que me mostra os dentes, mostra-me ossos. Entretanto devo confessar que, da boca de um real limpador de chaminés, uma exibição (mesmo ostentatória) dessas ossificações brancas e brilhantes, exerce sobre mim o efeito de uma agradável anomalia de modos, e como um exemplo permissível de coqueteria (...) É como algum resquício de fidalguia não completamente extinto; um emblema de dias melhores; uma sugestão de nobreza: --e,sem dúvida, sob a escuridão espessa e sob a dupla noite de seu disfarce destituído, muitas vezes pulsa um sangue bom, e uma condição fina, proveniente de uma ancestralidade perdida e de um olvidado pedigree. Os aprendizados prematuros dessas tenras vítimas oferece demasiado estímulo, temo, a raptos clandestinos, quase imediatamente após o nascimento; as sementes de civilidade e verdadeira cortesia, tantas vezes discerníveis nesses pequenos rebentos (...) claramente sugerem alguma adoção forçada.

 

Charles Lamb narra em seguida um caso que “provaria” sua tese. No palácio de um duque, certa vez, um pequeno limpador de chaminés foi encontrado dormindo a sono solto, ao meio-dia, entre os caríssimos lençóis e os dosséis de veludo que ornavam uma luxuosa alcova.

 

A pequena criatura, tendo de algum modo confundido o seu caminho entre a rede intrincada daquelas chaminés senhoriais, por alguma abertura desconhecida deu-se á vista daquela câmara magnificente; e, cansado de suas penosas explorações, foi incapaz de resistir ao delicioso convite para o repouso, que ele viu exibido ali; e assim, esgueirando-se entre as cobertas silenciosamente, recostou-se no travesseiro (...) Seria provável que a criança pobre dessa história, qualquer que tenha sido o cansaço que a visitou, tivesse se arriscado, sob os castigos que isso provavelmente lhe acarretaria, enfiar-se nos lençóis, quando um capacho, um tapete, apresentava-lhe um óbvio divã, por si mesmo já muito acima de suas pretensões? Não seria mais provável, pergunto, que o grande poder da Natureza (...) tenha se manifestado dentro dele, inclinando-o à aventura? Sem dúvida este jovem de sangue nobre (pois é o que a minha mente afirma que ele devia ter) foi atraído por alguma memória, não plenamente consciente, de uma alta condição de nascimento, onde ele estava acostumado a ser cuidado pela mãe, ou pela enfermeira, exatamente naquele tipo de lençóis que ele encontrou ali, e nos quais agora se acomodava de volta, como no seu legítimo incunábulo, e lugar de repouso.   

O ensaio de Lamb pode ser lido na íntegra em http://www.angelfire.com/nv/mf/elia1/chimney.htm

Limpadores de chaminés na década de 1890 (EUA?)

 

 Trabalho em pedreira no interior do Brasil

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h46

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Caso Sader, caso Magnoli (2)

Maria Rita Kehl e Luiz Felipe de Alencastro, signatários do manifesto em favor de Emir Sader, apontam uma diferença entre os dois casos, que também foi assinalada por leitores do blog. Emir Sader foi condenado na Justiça e, absurdamente, pode perder o cargo de professor universitário. Demétrio Magnoli, por enquanto, está sendo apenas processado pelo ex-ministro da Educação Tarso Genro; não sofreu condenação. Abaixo-assinados seriam pertinentes como protesto diante de uma condenação, mas seria loucura se a cada processo --que todo cidadão tem direito de abrir contra qualquer outro-- houvesse uma mobilização geral. A própria Maria Rita Kehl foi processada por Paulo Maluf, e ninguém fez abaixo-assinado a seu favor. De modo que não é "petismo" ou simpatia por Tarso Genro o fato de não se fazerem manifestos a  favor de Magnoli.

Tudo bem, mas acho de todo modo um abuso que ministros ou senadores abram processos contra opiniões de articulistas. O texto de Magnoli era infinitamente menos injurioso que o de Emir Sader. Acho correto se informações errradas, de má-fé, fossem veiculadas para denegrir uma autoridade. Mas no campo da opinião, e mesmo do xingamento, processos desse tipo têm um efeito intimidatório e antidemocrático quando surgem por iniciativa de pessoas no poder.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 09h04

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lixo e história

Ainda sobre o artigo na "Folha" de ontem, recebo indicação de um post sobre a história da coleta do lixo em São Paulo, num blog interessante: http://www.carbonoquatorze.com.br/versaopaulo/ . Há ilustrações e charges antigas a respeito do assunto. 

Escrito por Marcelo Coelho às 08h33

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limpadores de chaminés

           manuscrito de William Blake

 

 

No artigo de hoje para a "Ilustrada" (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0811200624.htm),  falei do fim das utopias e da velha metáfora da “lata de lixo da História”. Acabei mencionando um poema de  William Blake sobre os limpadores de chaminé, que eram crianças de seis ou sete anos. As informações sobre a terrível situação desses meninos, na Inglaterra do século 19, constam do prefácio escrito por Mário Alves Coutinho e Leônidas Gonçalves para o livro de Blake, Canções da Inocência e da Experiência, que eles também traduziram.

 

Reproduzo aqui, mais longamente, o que eles relatam sobre os limpadores de chaminés.

 

Os limpadores de chaminés eram meninos de seis ou sete anos (às vezes de quatro ou cinco) que eram vendidos por seus pais aos empregadores, para que exercessem este ofício. Devido ao trabalho que faziam, tinham a rótula do joelho torcida e a espinha e os tornozelos deformados por toda a vida. Desenvolviam câncer do escroto e a fuligem que limpavam causava inflamação dos olhos e doenças respiratórias. Dormiam, não em cama, colchão ou sofá, mas sobre sacos com fuligem que tinham limpado. Quando o narrador do poema diz “Durmo em fuligem” ele provavelmente não está usando uma metáfora, mas descrevendo uma experiência real. Trabalhavam somente por sete anos; depois disso, ficavam muito grandes para entrarem nas chaminés e, a partir daí, eram aposentados e cuidados pelas paróquias inglesas.

 

Os limpadores de chaminés, além disso, não se lavavam durante cerca de seis meses; talvez por isso, no sonho deste poema, os meninos “riam e saltitavam, desciam o vale,/Para lavar-se num rio e ao sol brilharem.” Eram forçados a fazer esse trabalho sob tapas, alfinetadas nas solas dos pés e também cutucados com estacas. Nas curvas das chaminés ficavam presos e, às vezes, sufocavam. “Quando ele adormeceu, surgiu-lhe uma visão: / Dick, Joe, Ned, Jack e milhares de varredores,/ em negros ataúdes trancados”. Essa visão não faria referência àquela experiência, em vez de ser simplesmente um símbolo? Esses “negros ataúdes” não seriam as negras chaminés? Trabalhavam nus, pois as roupas podiam impedi-los de entrar em espaços muito apertados, e também teriam de ser substituídas com muita rapidez, causando um custo a mais ao empregador. Seus joelhos e cotovelos, usados para subir chaminés, sangravam e ficavam em carne viva.

 

Aqui vai o poema completo.

 

The Chimney Sweeper

 

When my mother died I was very young,/ And my father sold me while yet my tongue,/ Could scarcely cry weep weep weep./So your chimneys I sweep and in soot I sleep.//There’s little Tom Dacre, who cried when his head/ That curl’d like a lamb’s back, was shaved, so I said,/Hush Tom never mind it, for when your head’s bare,/You know that the soot cannot spoil your white hair.//And so he was quiet, & that vey night,/As Tom was sleeping he had such a sight,/That thousand of sweepers Dick, Joe, Ned & Jack/ Were all of them lock’d up in coffins of black,// And by came an angel who had a bright key,/And he open’d the coffins & set all of them free./Then down a green plain leaping laughing they rush/ And wash in a river and shine in the Sun.//Then naked & white, all their bags left behind,/ They rise upon clouds, and sport in the wind./And the Angel told Tom if he’d a good boy,/He’d have God for his father & never want joy.//And so Tom awoke and we rose in the dark/And got our bags & our brushes to work./Tho’ the morning was cold, Tom was happy and warm,/So if all do their duty, they need not fear harm.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h43

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Caso Sader, caso Magnoli

Não acho que o senador Jorge Bornhausen tenha sido racista quando disse que "a gente vai se ver livre dessa raça por, pelo menos, 30 anos". Ele se referia, de forma grosseira e depreciativa, ao PT. Poderia ter usado outro termo, "turma", ou "quadrilha", conforme a sua vontade de injuriar. Usou "raça". Mas usar a palavra "raça", embora seja de péssimo gosto, não faz ninguém ser racista. Racista é quem considera que, por ser negro, branco ou índio, alguém é pior ou melhor do que o resto de seus semelhantes. Não existe nenhuma característica física, nenhum patrimônio étnico associado ao PT. Existia patrimônio ético, mas isso é outra conversa. A que "raça" Bornhausen se referia quando falava do PT? À "raça negra"? "Mulata"? "Amarela"?

Será que, se Bornhausen não tivesse origem alemã, o rótulo de "racista" seria aplicado tão facilmente nele? O sobrenome é alemão; ele é de direita; fácil chamá-lo de nazista, se quisermos... Isto é, se quisermos ser preconceituosos e patrulheiros.

Bem, esta é apenas minha opinião. O sociólogo Emir Sader escreveu um artigo violentíssimo contra Bornhausen no site "Carta Maior", foi processado e condenado a um ano de detenção, pena revertida em serviços para a comunidade; arrisca-se a perder o cargo de professor numa universidade pública. 

Essa situação é absurda. Um senador, protegido pela imunidade parlamentar, pode dizer o que quiser. Um cidadão comum não poderia ser preso por crime de opinião. Não há razão para "judicializar" um conflito que pode ser resolvido pela troca de artigos, e-mails ou insultos, se quisermos. Seria diferente se inverdades, calúnias, fossem repetidas a respeito de alguém, sem nenhum controle ou desmentido, até jogar-se definitivamente na lama o nome da vítima de tais acusações.

 Houve injúria no artigo de Emir Sader? Sim. O artigo dele é furioso e insignificante. Eis alguns trechos: "O senador Bornhausen é das pessoas mais repulsivas da burguesia brasileira... revela agora todo o seu racismo e o seu ódio ao povo brasileiro, com essa frase, que saiu do fundo de sua alma --recheada de lucros bancários e ressentimentos... Não se engane, senador Bornhausen, banqueiro e racista, muito antes do que a sua mente suja imagina, a esquerda, o movimento popular o povo estarão nas ruas... não, senhor Bornhausen, nosso ódio a pessoas abjetas como a sua, não os deixará livre de novo para governar o Brasil como sempre fizeram..."

Quem escreve desse jeito não merece o título de intelectual. Mas não merece ser preso tampouco.

Enquanto isso, o geógrafo Demétrio Magnoli escreveu um artigo contra determinação do então ministro Tarso Genro, que queria levantar a origem "racial" dos estudantes brasileiros. Considerou que essa medida de classificação racial era errada, anticientífica e retrógrada. Chamou Tarso Genro de Ministro da Classificação Racial, e considerou-o imprevisto herdeiro de racistas como Nina Rodrigues. Não o chamou de pessoa abjeta, nem disse que a mente de Tarso Genro era suja. O ministro resolveu processar Demétrio Magnoli. Desconheço se há algum manifesto ou abaixo-assinado a favor de Magnoli. Que, entretanto, nunca foi de direita.

  A íntegra do artigo de Demétrio Magnoli pode ser lida em http://www.clubemundo.com.br/ver.asp

A íntegra do artigo de Emir Sader está em http://cartamaior.uol.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=12736

Escrito por Marcelo Coelho às 09h33

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amor e odontologia

amor e odontologia

O feriado pode ser uma ocasião para fugir da rotina. A necessidade de sonhar não conflita, entretanto, com a manutenção da saúde dentária. É o que explica o cronista do "Agora". Link para assinantes: http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0711200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 09h24

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fumegante

fumegante

Volto a publicar algumas fotos de anúncios de rua e pinturas populares. Neste cartaz, as bordas parecem de esfiha.

Escrito por Marcelo Coelho às 09h19

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Dante e a cannabis

Dante e a cannabis

Causou certa sensação, há alguns anos, a teoria de que Franz Schubert era homossexual. Algumas cartas suas a um belo amigo de juventude permitiam tal gênero de especulações. Recentemente, chegou a vez de Haendel: o pomposo, marcial, jubilante autor da “Aleluia” também faria parte da comunidade.

 

Mas Dante Alighieri, um adepto da maconha? Eis a teoria, na verdade apontada apenas levemente, que Barbara Reynolds, veterana especialista no autor da “Commedia”, apresenta aos leitores de seu “Dante –The poet, the thinker, the man”, recém-lançado pela editora Tauris.

Segundo o livro, Dante e outros poetas com quem ele convivia na juventude, em Florença, turbinavam a sua imaginação visionária ingerindo poções e filtros do amor. Segundo a resenha de Peter Hainsworth, publicada pelo “Times Literary Supplement” do último dia 20, “esses estimulantes herbáceos, cannabis talvez, seriam aquilo a que Dante se refere numa comparação, no início do Paradiso, entre sua própria ‘experiência transumana’ e aquilo que Glauco sentiu ao ‘provar a erva’ (nel gustar dell’ erba) que o transformou num deus do mar.” Barbara Reynolds acrescenta que místicos de todas as épocas utilizaram drogas e jejuns como mecanismos auxiliares na busca da iluminação visionária.

Barbara Reynolds tem 92 anos, e foi amiga de Dorothy Sayers, famosa escritora de novelas policiais, terrivelmente criticadas por Edmund Wilson. Mas apesar da suposta mediocridade de sua ficção detetivesca, Dorothy Sayers era uma grande erudita no assunto Dante Alighieri, tendo quase completado uma tradução da “Divina Comédia”. Foi Barbara Reynolds quem terminou essa tradução, e, além de ter editado as cartas de Dorothy Sayers, traduziu Ariosto para o inglês. Foi também editora do The Cambridge Italian Dictionary.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h53

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tortura e moral

tortura e moral

Toda pessoa que condena a tortura já foi confrontada com um argumento bastante mal-intencionado, envolvendo uma excursão de crianças à Disneylândia e a ameaça de um atentado terrorista. “Você prendeu um fanático extremista, que está a ponto de explodir um avião cheio de crianças. Se você o torturar, ele poderá lhe dar as informações necessárias para desarmar a bomba que ele colocou no avião. Você tem quinze minutos para decidir. Você torturaria o terrorista?”

 

É muito provável que a resposta seja positiva. “Ahá!”, diz nosso questionador. “Então você não é contra a tortura.” O argumento, embora ponderável, tem óbvia dose de desonestidade. Sou contra a tortura, assim como sou contra o assassinato e o canibalismo, mas é claro que diante de uma situação extrema os meus padrões normais de julgamento tendem a vacilar. Não sou a favor de que me amputem a perna direita, mas se eu estiver debaixo dos escombros de um viaduto, e essa for a única maneira de sair dali, serei naturalmente a favor de tal intervenção cirúrgica –rezando para que seja feita com anestesia.

 

O problema, naturalmente, está em definir o que é uma situação extrema. O truque de quem faz a pergunta sobre a Disneylândia está em imaginar uma situação extrema, para em seguida obter, graças à minha resposta positiva, o endosso para a tortura em qualquer situação. “Afinal, você não é contra...”

 

Sem usar esse exemplo, um livro do filósofo britânico David Wiggins, recentemente editado pela Harvard University Press, cuida de dilemas desse tipo. “Ethics” foi resenhado por Thomas Nagel no “Times Literary Supplement” de 20 de outubro. Para David Wiggins, situações como a da bomba no avião terminam escapando da esfera do julgamento moral:

 

Quando uma pessoa aponta um caso de emergência tão grande, a ponto de que um agente benéfico seja obrigado a fazer algo terrível, de modo a prevenir um desastre de conseqüências impensáveis, estaria essa pessoa realmente colocando para o agente a questão do que é certo ou errado fazer? Certamente não. Ela está dizendo para o agente que aquele ato terrível é apenas aquilo que ele tem de fazer, e não o que ele “deveria fazer de um ponto de vista moral”. As questões do certo e do errado, da obrigação ética, dos atos que são moralmente elogiáveis, porque foram feitos em nome de um senso do dever, tudo isso já foi jogado pela janela numa situação desse tipo. Foram substituídas por outra questão, a da cruel necessidade.

 

 

Se você pudesse salvar a existência da humanidade torturando um único homem, que pretende destruir o mundo inteiro com uma bomba atômica superpoderosa, você torturaria? Digamos que a resposta seja sim. Para Wiggins, torturar essa pessoa tornou-se um ato que já não tem a ver com a esfera da moral. Será correto esse raciocínio?

 

Posso pensar que, se a sobrevivência da humanidade depende da tortura de um único homem, essa sobrevivência já “não vale a pena” em termos morais; e, se eu for o encarregado de exercer esse ato abominável, a morte de todos é preferível a uma única abominação. Naturalmente, estarei colocando minhas convicções acima da sobrevivência de todos, o que me iguala, provavelmente, ao assassino da bomba atômica. Mas não deixa de ser uma decisão moral.

 

Ou deixa? Um mundo em que a dúvida diante de necessidades extremas cessa de existir, que é o proposto por Wiggins, não deixa de ser um mundo onde a moral perdeu espaço. Isso pode ser até reconfortante, tornando mais claras e rápidas as nossas decisões, mas certamente aponta para um mundo empobrecido moralmente. Má notícia: este é o mundo em que vivemos.  

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h52

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babás no feriado

babás no feriado

Desovo alguma coisa depois de vários dias sem postar, e peço desculpas a quem acessou o blog neste feriado.

 

Estive na praia com as crianças e a babá, e por maior, por enorme que seja a ajuda oferecida por enfermeiras e babás a pais e mães, em especial os relativamente idosos como é o caso deste blogueiro, no feriado não tem jeito: as crianças querem, precisam e exigem atenção direta de quem os pôs no mundo.

 

Pessoalmente, não encararia a paternidade se não fosse a constante, ininterrupta presença de babás dentro de casa. Como estudar, como ler, como sair, como viver, sem ter ninguém cuidando de crianças? Conheço alguns workaholics que, na verdade, encontram no escritório um refúgio em face das tarefas, imensamente mais exaustivas e estressantes, que as espreitam dentro de casa.

 

Num hotel de praia, já foi muito escrever o que eu tinha de escrever para a Folha. Como diziam os antigos autores de livros nas dedicatórias à esposa e aos filhos, foi possível alinhavar algumas linhas graças “às horas que roubei ao seu convívio”. Sem contar que o único computador conectado à internet estava ocupado pelas crianças e seus joguinhos. Não me queixo, entretanto, nem exagero nas desculpas.

 

Fiquei também às voltas com um livro que tenho de entregar até o dia 15 deste mês (era para ter sido em setembro, mas estiquei o prazo). Trata-se do “Diário de Trabalho” de Voltaire de Souza. Uma espécie de ‘making of” das crônicas que publico sob esse pseudônimo no jornal “Agora”. Acabei inventando a vida privada de Voltaire de Souza, suas paixões (escassas) e seus aborrecimentos (diversos), entrelaçando-os com as crônicas que o leitor deste blog provavelmente já conhece. O diário era para cobrir um ano inteiro de vida, mas concentrou-se nos meses de dezembro a março, e já ficou de bom tamanho.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h51

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a roupa nova do povo

No artigo de hoje da Ilustrada, examino um pouco a imagem que foi projetada de Lula com a reeleição. Talvez o texto não tenha ficado suficientemente claro. Minha idéia é que, em 2002, toda a estratégia foi no sentido de tirar de Lula uma aura excessivamente esquerdista; tudo se transformou, com a ajuda de Duda Mendonça, na história de "sucesso pessoal" de um homem pobre que, cheio de esperança, alcançou a presidência, como numa espécie de conto de fadas, ao lado de Mariza.

Curiosamente, a reeleição mobilizou tantos preconceitos contra o "despreparo" de Lula, que sua imagem agora ficou mais de esquerda do que era há quatro anos. O fato de seu eleitorado ter se concentrado nas faixas mais pobres, a ênfase da campanha nas políticas sociais, a saída de Palocci do governo, a insistência do próprio Alckmin na necessidade de uma preocupação mais "desenvolvimentista", a tranquilidade do mercado financeiro, tudo fortaleceu agora a imagem de um novo governo, mais decididamente "popular". Creio que esssa é uma versão que interessa à oposição interna do PT, como indica a frase de Tarso Genro sobre o fimda "era Palocci". É, entretanto, uma versão que a meu ver não corresponde aos fatos. Creio que interessa a Lula, passada a campanha, mexer o mínimo possível na política econômica, e que, embora a mística de "esquerda" possa ser mais oumenosrequentada em alguns discursos, há mais ilusão do que verdade nisso. Ilusão de que compartilham, talvez, petistas e antipetistas.

Leia o artigo em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0111200631.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 14h54

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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