Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

partidos e empreiteiras

Não é questão de ser petista ou tucano, de ser “empregado do Frias” ou “lulista enrustido”, como quiserem. O fato é que não dá para aceitar a arrogância com que muitos simpatizantes do PT acusam a imprensa de defender interesses burgueses, quando a gente lê uma notícia como a publicada hoje na “Folha”. Segundo dados da Justiça Eleitoral, os candidatos do PT ao Congresso receberam R$ 4,2 milhões das empreiteiras, R$ 1,8 milhão de mineradoras e metalúrgicas, R$ 1,16 milhão de usinas de álcool e de açúcar. Quantias equivalentes foram destinadas a candidatos do PSDB e do PMDB. De um ponto de vista estritamente materialista e dialético, gostaria de saber como é que um partido pode se apresentar como defensor dos trabalhadores, vítima de conspirações burguesas, adversário das elites que há 500 anos dominam o país, com tais fontes de financiamento. 

Íntegra da reportagem em http://tinyurl.com/yfxpu9

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h42

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pérolas da publicidade

Sempre me fascinam os anúncios de novos "empreendimentos imobiliários" no jornal: aquelas piscinas quilométricas, áreas de lazer dignas da Wonderland de Michael Jackson, salas de estar e varandas de dimensões comparáveis à Xanadu do Cidadão Kane... Milagres da "concepção artística" veiculada na publicidade, onde distorções de perspectiva e embelezamentos de computador fazem do mais modesto condomínio de classe média um palácio principesco.

Na "Folha" de hoje, acho que exageraram na dose. Além de um espetacular panorama de piscinas e palmeiras, um anúncio de prédio anexou uma gracinha de péssimo gosto. Vemos a fotografia de um menino loirinho, andando de bicicleta, ilustrando o que seria o bilhete desesperado de uma mãe.

"Cadê o Júnior?", diz o texto. É como se fosse um caso de criança desaparecida. "6 anos de idade, loiro. Desceu para brincar e não quer mais saber de voltar para casa. Se você o encontrar, por favor avise que o jantar está pronto. Lúcia, apartamento 51-B."

Uma das coisas que, imagino, sejam das mais dramáticas na vida de uma família –o desaparecimento de uma criança—é reciclado, aqui, num daqueles lances detestáveis de ironia publicitária.

O anúncio não deixa de revelar, entretanto, as angústias da classe média. Um condomínio fechado, com área de lazer satisfatória, é vendido como solução para todos os medos que cercam o cotidiano urbano. Você não precisa sair de casa, nem viajar no fim-de-semana, prossegue a peça publicitária: o edifício que construímos já traz tudo embutido para você. Seu filho não será seqüestrado, acidentado, nem desaparecerá pelas ruas da cidade. Compre o apartamento, a criança vem junto. Exorciza-se o terror, ou melhor, expulsa-se o terror para fora dos limites murados do edifício. Como sempre, na publicidade, a mentira é mais verdadeira do que a mera verdade.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h53

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limpadores de chaminés

 Charles Lamb (1775-1834) é mais conhecido pelos “Contos de Shakespeare”, o resumo que ele e Mary Lamb fizeram das peças do bardo. Mas sua produção ensaística é muito grande, e certamente está entre as influências de Machado de Assis. Em seus “Ensaios de Elia”, há um texto sobre os limpadores de chaminé, cuja ironia contrasta bastante com o tom sentimental do poema de William Blake citado em post anterior. Reproduzo alguns trechos.

 

... Sou por princípio refratário ao poder de sedução presente no que se costuma chamar de uma bela arcada dentária. Cada par de lábios rosados (as senhoras devem me perdoar neste ponto) é um cofrinho, a guardar presumivelmente essas jóias; mas me parece que devam ser “arejadas” o mais frugalmente possível. A bela senhora, ou o excelente cavalheiro, que me mostra os dentes, mostra-me ossos. Entretanto devo confessar que, da boca de um real limpador de chaminés, uma exibição (mesmo ostentatória) dessas ossificações brancas e brilhantes, exerce sobre mim o efeito de uma agradável anomalia de modos, e como um exemplo permissível de coqueteria (...) É como algum resquício de fidalguia não completamente extinto; um emblema de dias melhores; uma sugestão de nobreza: --e,sem dúvida, sob a escuridão espessa e sob a dupla noite de seu disfarce destituído, muitas vezes pulsa um sangue bom, e uma condição fina, proveniente de uma ancestralidade perdida e de um olvidado pedigree. Os aprendizados prematuros dessas tenras vítimas oferece demasiado estímulo, temo, a raptos clandestinos, quase imediatamente após o nascimento; as sementes de civilidade e verdadeira cortesia, tantas vezes discerníveis nesses pequenos rebentos (...) claramente sugerem alguma adoção forçada.

 

Charles Lamb narra em seguida um caso que “provaria” sua tese. No palácio de um duque, certa vez, um pequeno limpador de chaminés foi encontrado dormindo a sono solto, ao meio-dia, entre os caríssimos lençóis e os dosséis de veludo que ornavam uma luxuosa alcova.

 

A pequena criatura, tendo de algum modo confundido o seu caminho entre a rede intrincada daquelas chaminés senhoriais, por alguma abertura desconhecida deu-se á vista daquela câmara magnificente; e, cansado de suas penosas explorações, foi incapaz de resistir ao delicioso convite para o repouso, que ele viu exibido ali; e assim, esgueirando-se entre as cobertas silenciosamente, recostou-se no travesseiro (...) Seria provável que a criança pobre dessa história, qualquer que tenha sido o cansaço que a visitou, tivesse se arriscado, sob os castigos que isso provavelmente lhe acarretaria, enfiar-se nos lençóis, quando um capacho, um tapete, apresentava-lhe um óbvio divã, por si mesmo já muito acima de suas pretensões? Não seria mais provável, pergunto, que o grande poder da Natureza (...) tenha se manifestado dentro dele, inclinando-o à aventura? Sem dúvida este jovem de sangue nobre (pois é o que a minha mente afirma que ele devia ter) foi atraído por alguma memória, não plenamente consciente, de uma alta condição de nascimento, onde ele estava acostumado a ser cuidado pela mãe, ou pela enfermeira, exatamente naquele tipo de lençóis que ele encontrou ali, e nos quais agora se acomodava de volta, como no seu legítimo incunábulo, e lugar de repouso.   

O ensaio de Lamb pode ser lido na íntegra em http://www.angelfire.com/nv/mf/elia1/chimney.htm

Limpadores de chaminés na década de 1890 (EUA?)

 

 Trabalho em pedreira no interior do Brasil

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h46

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Caso Sader, caso Magnoli (2)

Maria Rita Kehl e Luiz Felipe de Alencastro, signatários do manifesto em favor de Emir Sader, apontam uma diferença entre os dois casos, que também foi assinalada por leitores do blog. Emir Sader foi condenado na Justiça e, absurdamente, pode perder o cargo de professor universitário. Demétrio Magnoli, por enquanto, está sendo apenas processado pelo ex-ministro da Educação Tarso Genro; não sofreu condenação. Abaixo-assinados seriam pertinentes como protesto diante de uma condenação, mas seria loucura se a cada processo --que todo cidadão tem direito de abrir contra qualquer outro-- houvesse uma mobilização geral. A própria Maria Rita Kehl foi processada por Paulo Maluf, e ninguém fez abaixo-assinado a seu favor. De modo que não é "petismo" ou simpatia por Tarso Genro o fato de não se fazerem manifestos a  favor de Magnoli.

Tudo bem, mas acho de todo modo um abuso que ministros ou senadores abram processos contra opiniões de articulistas. O texto de Magnoli era infinitamente menos injurioso que o de Emir Sader. Acho correto se informações errradas, de má-fé, fossem veiculadas para denegrir uma autoridade. Mas no campo da opinião, e mesmo do xingamento, processos desse tipo têm um efeito intimidatório e antidemocrático quando surgem por iniciativa de pessoas no poder.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 09h04

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lixo e história

Ainda sobre o artigo na "Folha" de ontem, recebo indicação de um post sobre a história da coleta do lixo em São Paulo, num blog interessante: http://www.carbonoquatorze.com.br/versaopaulo/ . Há ilustrações e charges antigas a respeito do assunto. 

Escrito por Marcelo Coelho às 08h33

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limpadores de chaminés

           manuscrito de William Blake

 

 

No artigo de hoje para a "Ilustrada" (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0811200624.htm),  falei do fim das utopias e da velha metáfora da “lata de lixo da História”. Acabei mencionando um poema de  William Blake sobre os limpadores de chaminé, que eram crianças de seis ou sete anos. As informações sobre a terrível situação desses meninos, na Inglaterra do século 19, constam do prefácio escrito por Mário Alves Coutinho e Leônidas Gonçalves para o livro de Blake, Canções da Inocência e da Experiência, que eles também traduziram.

 

Reproduzo aqui, mais longamente, o que eles relatam sobre os limpadores de chaminés.

 

Os limpadores de chaminés eram meninos de seis ou sete anos (às vezes de quatro ou cinco) que eram vendidos por seus pais aos empregadores, para que exercessem este ofício. Devido ao trabalho que faziam, tinham a rótula do joelho torcida e a espinha e os tornozelos deformados por toda a vida. Desenvolviam câncer do escroto e a fuligem que limpavam causava inflamação dos olhos e doenças respiratórias. Dormiam, não em cama, colchão ou sofá, mas sobre sacos com fuligem que tinham limpado. Quando o narrador do poema diz “Durmo em fuligem” ele provavelmente não está usando uma metáfora, mas descrevendo uma experiência real. Trabalhavam somente por sete anos; depois disso, ficavam muito grandes para entrarem nas chaminés e, a partir daí, eram aposentados e cuidados pelas paróquias inglesas.

 

Os limpadores de chaminés, além disso, não se lavavam durante cerca de seis meses; talvez por isso, no sonho deste poema, os meninos “riam e saltitavam, desciam o vale,/Para lavar-se num rio e ao sol brilharem.” Eram forçados a fazer esse trabalho sob tapas, alfinetadas nas solas dos pés e também cutucados com estacas. Nas curvas das chaminés ficavam presos e, às vezes, sufocavam. “Quando ele adormeceu, surgiu-lhe uma visão: / Dick, Joe, Ned, Jack e milhares de varredores,/ em negros ataúdes trancados”. Essa visão não faria referência àquela experiência, em vez de ser simplesmente um símbolo? Esses “negros ataúdes” não seriam as negras chaminés? Trabalhavam nus, pois as roupas podiam impedi-los de entrar em espaços muito apertados, e também teriam de ser substituídas com muita rapidez, causando um custo a mais ao empregador. Seus joelhos e cotovelos, usados para subir chaminés, sangravam e ficavam em carne viva.

 

Aqui vai o poema completo.

 

The Chimney Sweeper

 

When my mother died I was very young,/ And my father sold me while yet my tongue,/ Could scarcely cry weep weep weep./So your chimneys I sweep and in soot I sleep.//There’s little Tom Dacre, who cried when his head/ That curl’d like a lamb’s back, was shaved, so I said,/Hush Tom never mind it, for when your head’s bare,/You know that the soot cannot spoil your white hair.//And so he was quiet, & that vey night,/As Tom was sleeping he had such a sight,/That thousand of sweepers Dick, Joe, Ned & Jack/ Were all of them lock’d up in coffins of black,// And by came an angel who had a bright key,/And he open’d the coffins & set all of them free./Then down a green plain leaping laughing they rush/ And wash in a river and shine in the Sun.//Then naked & white, all their bags left behind,/ They rise upon clouds, and sport in the wind./And the Angel told Tom if he’d a good boy,/He’d have God for his father & never want joy.//And so Tom awoke and we rose in the dark/And got our bags & our brushes to work./Tho’ the morning was cold, Tom was happy and warm,/So if all do their duty, they need not fear harm.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h43

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Caso Sader, caso Magnoli

Não acho que o senador Jorge Bornhausen tenha sido racista quando disse que "a gente vai se ver livre dessa raça por, pelo menos, 30 anos". Ele se referia, de forma grosseira e depreciativa, ao PT. Poderia ter usado outro termo, "turma", ou "quadrilha", conforme a sua vontade de injuriar. Usou "raça". Mas usar a palavra "raça", embora seja de péssimo gosto, não faz ninguém ser racista. Racista é quem considera que, por ser negro, branco ou índio, alguém é pior ou melhor do que o resto de seus semelhantes. Não existe nenhuma característica física, nenhum patrimônio étnico associado ao PT. Existia patrimônio ético, mas isso é outra conversa. A que "raça" Bornhausen se referia quando falava do PT? À "raça negra"? "Mulata"? "Amarela"?

Será que, se Bornhausen não tivesse origem alemã, o rótulo de "racista" seria aplicado tão facilmente nele? O sobrenome é alemão; ele é de direita; fácil chamá-lo de nazista, se quisermos... Isto é, se quisermos ser preconceituosos e patrulheiros.

Bem, esta é apenas minha opinião. O sociólogo Emir Sader escreveu um artigo violentíssimo contra Bornhausen no site "Carta Maior", foi processado e condenado a um ano de detenção, pena revertida em serviços para a comunidade; arrisca-se a perder o cargo de professor numa universidade pública. 

Essa situação é absurda. Um senador, protegido pela imunidade parlamentar, pode dizer o que quiser. Um cidadão comum não poderia ser preso por crime de opinião. Não há razão para "judicializar" um conflito que pode ser resolvido pela troca de artigos, e-mails ou insultos, se quisermos. Seria diferente se inverdades, calúnias, fossem repetidas a respeito de alguém, sem nenhum controle ou desmentido, até jogar-se definitivamente na lama o nome da vítima de tais acusações.

 Houve injúria no artigo de Emir Sader? Sim. O artigo dele é furioso e insignificante. Eis alguns trechos: "O senador Bornhausen é das pessoas mais repulsivas da burguesia brasileira... revela agora todo o seu racismo e o seu ódio ao povo brasileiro, com essa frase, que saiu do fundo de sua alma --recheada de lucros bancários e ressentimentos... Não se engane, senador Bornhausen, banqueiro e racista, muito antes do que a sua mente suja imagina, a esquerda, o movimento popular o povo estarão nas ruas... não, senhor Bornhausen, nosso ódio a pessoas abjetas como a sua, não os deixará livre de novo para governar o Brasil como sempre fizeram..."

Quem escreve desse jeito não merece o título de intelectual. Mas não merece ser preso tampouco.

Enquanto isso, o geógrafo Demétrio Magnoli escreveu um artigo contra determinação do então ministro Tarso Genro, que queria levantar a origem "racial" dos estudantes brasileiros. Considerou que essa medida de classificação racial era errada, anticientífica e retrógrada. Chamou Tarso Genro de Ministro da Classificação Racial, e considerou-o imprevisto herdeiro de racistas como Nina Rodrigues. Não o chamou de pessoa abjeta, nem disse que a mente de Tarso Genro era suja. O ministro resolveu processar Demétrio Magnoli. Desconheço se há algum manifesto ou abaixo-assinado a favor de Magnoli. Que, entretanto, nunca foi de direita.

  A íntegra do artigo de Demétrio Magnoli pode ser lida em http://www.clubemundo.com.br/ver.asp

A íntegra do artigo de Emir Sader está em http://cartamaior.uol.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=12736

Escrito por Marcelo Coelho às 09h33

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amor e odontologia

amor e odontologia

O feriado pode ser uma ocasião para fugir da rotina. A necessidade de sonhar não conflita, entretanto, com a manutenção da saúde dentária. É o que explica o cronista do "Agora". Link para assinantes: http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0711200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 09h24

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fumegante

fumegante

Volto a publicar algumas fotos de anúncios de rua e pinturas populares. Neste cartaz, as bordas parecem de esfiha.

Escrito por Marcelo Coelho às 09h19

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Dante e a cannabis

Dante e a cannabis

Causou certa sensação, há alguns anos, a teoria de que Franz Schubert era homossexual. Algumas cartas suas a um belo amigo de juventude permitiam tal gênero de especulações. Recentemente, chegou a vez de Haendel: o pomposo, marcial, jubilante autor da “Aleluia” também faria parte da comunidade.

 

Mas Dante Alighieri, um adepto da maconha? Eis a teoria, na verdade apontada apenas levemente, que Barbara Reynolds, veterana especialista no autor da “Commedia”, apresenta aos leitores de seu “Dante –The poet, the thinker, the man”, recém-lançado pela editora Tauris.

Segundo o livro, Dante e outros poetas com quem ele convivia na juventude, em Florença, turbinavam a sua imaginação visionária ingerindo poções e filtros do amor. Segundo a resenha de Peter Hainsworth, publicada pelo “Times Literary Supplement” do último dia 20, “esses estimulantes herbáceos, cannabis talvez, seriam aquilo a que Dante se refere numa comparação, no início do Paradiso, entre sua própria ‘experiência transumana’ e aquilo que Glauco sentiu ao ‘provar a erva’ (nel gustar dell’ erba) que o transformou num deus do mar.” Barbara Reynolds acrescenta que místicos de todas as épocas utilizaram drogas e jejuns como mecanismos auxiliares na busca da iluminação visionária.

Barbara Reynolds tem 92 anos, e foi amiga de Dorothy Sayers, famosa escritora de novelas policiais, terrivelmente criticadas por Edmund Wilson. Mas apesar da suposta mediocridade de sua ficção detetivesca, Dorothy Sayers era uma grande erudita no assunto Dante Alighieri, tendo quase completado uma tradução da “Divina Comédia”. Foi Barbara Reynolds quem terminou essa tradução, e, além de ter editado as cartas de Dorothy Sayers, traduziu Ariosto para o inglês. Foi também editora do The Cambridge Italian Dictionary.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h53

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tortura e moral

tortura e moral

Toda pessoa que condena a tortura já foi confrontada com um argumento bastante mal-intencionado, envolvendo uma excursão de crianças à Disneylândia e a ameaça de um atentado terrorista. “Você prendeu um fanático extremista, que está a ponto de explodir um avião cheio de crianças. Se você o torturar, ele poderá lhe dar as informações necessárias para desarmar a bomba que ele colocou no avião. Você tem quinze minutos para decidir. Você torturaria o terrorista?”

 

É muito provável que a resposta seja positiva. “Ahá!”, diz nosso questionador. “Então você não é contra a tortura.” O argumento, embora ponderável, tem óbvia dose de desonestidade. Sou contra a tortura, assim como sou contra o assassinato e o canibalismo, mas é claro que diante de uma situação extrema os meus padrões normais de julgamento tendem a vacilar. Não sou a favor de que me amputem a perna direita, mas se eu estiver debaixo dos escombros de um viaduto, e essa for a única maneira de sair dali, serei naturalmente a favor de tal intervenção cirúrgica –rezando para que seja feita com anestesia.

 

O problema, naturalmente, está em definir o que é uma situação extrema. O truque de quem faz a pergunta sobre a Disneylândia está em imaginar uma situação extrema, para em seguida obter, graças à minha resposta positiva, o endosso para a tortura em qualquer situação. “Afinal, você não é contra...”

 

Sem usar esse exemplo, um livro do filósofo britânico David Wiggins, recentemente editado pela Harvard University Press, cuida de dilemas desse tipo. “Ethics” foi resenhado por Thomas Nagel no “Times Literary Supplement” de 20 de outubro. Para David Wiggins, situações como a da bomba no avião terminam escapando da esfera do julgamento moral:

 

Quando uma pessoa aponta um caso de emergência tão grande, a ponto de que um agente benéfico seja obrigado a fazer algo terrível, de modo a prevenir um desastre de conseqüências impensáveis, estaria essa pessoa realmente colocando para o agente a questão do que é certo ou errado fazer? Certamente não. Ela está dizendo para o agente que aquele ato terrível é apenas aquilo que ele tem de fazer, e não o que ele “deveria fazer de um ponto de vista moral”. As questões do certo e do errado, da obrigação ética, dos atos que são moralmente elogiáveis, porque foram feitos em nome de um senso do dever, tudo isso já foi jogado pela janela numa situação desse tipo. Foram substituídas por outra questão, a da cruel necessidade.

 

 

Se você pudesse salvar a existência da humanidade torturando um único homem, que pretende destruir o mundo inteiro com uma bomba atômica superpoderosa, você torturaria? Digamos que a resposta seja sim. Para Wiggins, torturar essa pessoa tornou-se um ato que já não tem a ver com a esfera da moral. Será correto esse raciocínio?

 

Posso pensar que, se a sobrevivência da humanidade depende da tortura de um único homem, essa sobrevivência já “não vale a pena” em termos morais; e, se eu for o encarregado de exercer esse ato abominável, a morte de todos é preferível a uma única abominação. Naturalmente, estarei colocando minhas convicções acima da sobrevivência de todos, o que me iguala, provavelmente, ao assassino da bomba atômica. Mas não deixa de ser uma decisão moral.

 

Ou deixa? Um mundo em que a dúvida diante de necessidades extremas cessa de existir, que é o proposto por Wiggins, não deixa de ser um mundo onde a moral perdeu espaço. Isso pode ser até reconfortante, tornando mais claras e rápidas as nossas decisões, mas certamente aponta para um mundo empobrecido moralmente. Má notícia: este é o mundo em que vivemos.  

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h52

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babás no feriado

babás no feriado

Desovo alguma coisa depois de vários dias sem postar, e peço desculpas a quem acessou o blog neste feriado.

 

Estive na praia com as crianças e a babá, e por maior, por enorme que seja a ajuda oferecida por enfermeiras e babás a pais e mães, em especial os relativamente idosos como é o caso deste blogueiro, no feriado não tem jeito: as crianças querem, precisam e exigem atenção direta de quem os pôs no mundo.

 

Pessoalmente, não encararia a paternidade se não fosse a constante, ininterrupta presença de babás dentro de casa. Como estudar, como ler, como sair, como viver, sem ter ninguém cuidando de crianças? Conheço alguns workaholics que, na verdade, encontram no escritório um refúgio em face das tarefas, imensamente mais exaustivas e estressantes, que as espreitam dentro de casa.

 

Num hotel de praia, já foi muito escrever o que eu tinha de escrever para a Folha. Como diziam os antigos autores de livros nas dedicatórias à esposa e aos filhos, foi possível alinhavar algumas linhas graças “às horas que roubei ao seu convívio”. Sem contar que o único computador conectado à internet estava ocupado pelas crianças e seus joguinhos. Não me queixo, entretanto, nem exagero nas desculpas.

 

Fiquei também às voltas com um livro que tenho de entregar até o dia 15 deste mês (era para ter sido em setembro, mas estiquei o prazo). Trata-se do “Diário de Trabalho” de Voltaire de Souza. Uma espécie de ‘making of” das crônicas que publico sob esse pseudônimo no jornal “Agora”. Acabei inventando a vida privada de Voltaire de Souza, suas paixões (escassas) e seus aborrecimentos (diversos), entrelaçando-os com as crônicas que o leitor deste blog provavelmente já conhece. O diário era para cobrir um ano inteiro de vida, mas concentrou-se nos meses de dezembro a março, e já ficou de bom tamanho.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h51

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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