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A semana está decididamente teatral para este blog. Preparo-me para ir a Recife, onde falo sobre "Víúva Porém Honesta", de Nelson Rodrigues. Na peça, há um personagem chamado Dorothy Dalton, "crítico teatral da nova geração" e "fugitivo do SAM" (Serviço de Assistência ao Menor, equivalente à Febem de hoje). A idéia dos organizadores do Festival de Recife é que a peça de Nelson Rodrigues sirva para se discutir o papel dos críticos de teatro... Coisa boa não há de vir.
Em todo o caso, andei lendo um pouco sobre o tema. Reproduzo algumas anotações para a palestra.
Um artigo de Sábato Magaldi, escrito em 1987, discorre de modo interessante e equilibrado sobre a função da crítica teatral. Foi reeditado agora no livro Depois do Espetáculo (editora Perspectiva). Sábato Magaldi defende de certa forma uma “política” da crítica, que não se confunde com a adoção de um princípio estético dogmático.
Exemplo dessa política seria a atuação de escritores como Décio de Almeida Prado, lutando, nas décadas de 40 e 50, pela superação do modelo das comédias superficiais de Procópio Ferreira. Foi uma luta necessária contra um modelo, então predominante.
Sábato Magaldi prossegue: “o crítico precisa ser sensível às mutações contínuas da realidade teatral. Num momento, ele ressalta a figura do encenador e do teatro de equipe. Logo vê que essa fórmula é insatisfatória: contra o domínio do repertório estrangeiro, deve prestigiar-se o autor nacional. Transformada a peça brasileira em moeda corrente dos elencos, cabe ser mais rigoroso no seu juízo ... etc.” Tarefa infindável, como se vê, de correção de tendências e de apoio ao que fugir do já banalizado.
Mas essa política crítica tem um pressuposto, a meu ver: o de que haja uma tendência predominante no ambiente teatral do país, o que era possível detectar, por exemplo, na década de 40 ou 50; hoje em dia, parece haver coisas tão diferentes em cena, atendendo a tipos de público tão diversos, que uma função “corretiva” se torna muito mais difícil. Coexistem musicais de grande apelo, imitados da Broadway, com produções convencionais, com grandes experimentações artísticas, e com muita coisa que não se encaixa em lugar nenhum. O mero dever de acompanhar, de noticiar com um mínimo de detalhe tudo o que se passa, já se torna quase irrealizável pelo crítico.
Entre as muitas agravantes do problema, há uma que valeria a pena destacar: é que a tarefa de “servir ao público do jornal”, de atender minimamente às suas necessidades de informação e de debate, choca-se com o fato de esse público ser tão heterogêneo quanto os espetáculos em cena. Podíamos imaginar um “terreno comum” entre o crítico, o público e o leitor de jornal nos anos 60 ou 70. Isso, a meu ver, desapareceu, com a tribalização do público, a multiplicação das ofertas de espetáculo e a própria descaracterização do leitor e do jornal.
Numa época centrífuga, dispersa, torna-se quase contraditória a existência de um ou dois “cadernos culturais” apenas em cada cidade, com um ou dois críticos –quando muito—em cada um. Uma cultura fragmentada requer, cada vez mais, meios de comunicação fragmentados também... o que, aliás, seria mais um novo problema do que uma solução.
Escrito por Marcelo Coelho às 22h10
Participei ontem à noite de um debate promovido pelo grupo teatral IVO60, voltado para o teatro de rua. Eles fazem apresentações em parques e nos CEUs; vi uma no Tendal da Lapa, centro cultural na zona Oeste de São Paulo, bastante divertida. O tema principal dos espetáculos do grupo é a política brasileira, que eles ironizam a valer, com falsos debates entre falsos candidatos, em falsas redes de TV.
O ciclo de debates se intitulava arte e política, e fui convidado a falar sobre as relações entre imprensa e intelectuais. Seleciono o trecho final do que escrevi para a palestra.
Quero destacar, para fins de nossa discussão aqui, que o princípio que rege a imprensa moderna é esse princípio de apartidarismo. Pode-se questionar se, na prática, ele está sendo plenamente obedecido, mas o princípio, o compromisso é esse. E é um instrumento importante na defesa da procura da verdade fatual. Cada denúncia é uma pista, o começo de uma procura das verdades que todo governo quer esconder.
Bem, um problema que acaba acontecendo é que esse princípio, que é em certa medida “metodológico” –não podemos aderir a um partido porque todo partido, em princípio, está sob suspeita—, vai deixando de ser “metodológico” para se tornar “ontológico”, ou seja, envolve um julgamento de como as coisas são. Uma coisa é ser apartidário por princípio. Outra é dizer que “todos são iguais, não há diferença real nenhuma entre os vários partidos e políticos.” Uma coisa é o mandamento : “tratarás os políticos como se forem todos farinha do mesmo saco”. Outra coisa é dizer “Todos os políticos são farinha do mesmo saco”. Isso deixa de ser princípio para se tornar opinião, julgamento –e vale tanto quanto qualquer outro, do ponto de vista da procura da verdade fatual.
Pois bem, é aqui que eu entro na terceira parte da discussão, que é a das relações entre arte e política, mais precisamente do teatro e da política, hoje em dia. Meu medo, ou melhor, minha pergunta, é se muitas peças de teatro não acabaram caindo nessa armadilha da imprensa a que eu me referi. Ou seja, se muitas peças que pretendem encenar, digamos, a farsa da política brasileira hoje em dia –e eu não digo que não seja uma farsa--, não
adotaram um paradoxal “parti-pris” apartidário, uma espécie de sistemática de criticar todos os partidos, de modo que se é feita uma crítica ao malufista de direita é forçoso “equilibrar” essa crítica com uma crítica ao militante de esquerda caricato.
O aspecto “apartidário” da peça se preserva assim. Mas temos de levar em conta que o apartidarismo da imprensa é, a meu ver, um meio, um instrumento para detectar verdades fatuais, que dependem de investigação, esclarecimento, detalhamento, especiificidade. E eu desconfio um pouco quando peças tratando de política adotam esse princípio, porque nas peças o princípio não é meio para chegar a outras verdades, de cunho especificamente jornalístico, mas se torna um fim em si, uma opinião em si: “nossa peça vem aqui para dizer ao público que todo político mente, é tudo uma farsa...” Mas o público já acha isso!
E a peça acaba tendo um significado puramente catártico, de aliviar o espectador, em vez de aprofundar a questão. Em vez de mostrar que as coisas são mais complexas do que parecem, certas peças políticas tendem a mostrar que tudo é tão simples quanto sempre se pensou que era.
Acho que há muitos exemplos desse problema no teatro, embora eu não acompanhe a área como deveria. Penso no Cacá Rosset, quando se vestia de Ubu em todas as eleições, para denunciar a “farsa”... e mesmo o Casseta e Planeta, que faz graça mas não esclarece, não aprofunda, não avança um ponto além do senso comum. Acho que divertimento e arte têm sempre de avançar, não de repetir o que se sabe...
Curiosamente, enquanto os espetáculos teatrais se impregnam desse apartidarismo jornalítico, muita gente na imprensa adota na verdade uma estética teatral. Se pensarmos em José Simão, ou em Arnaldo Jabor, eu diria que eles se transformam em personagens, em atores, representando um papel... E esse papel não é o propriamente o do intelectual –que está obrigado a apostar na idéia de que a verdade é complexa, não se reduz a simplificações, e precisa ser procurada sem cessar. Eu espero que o teatro faça o mesmo.
Escrito por Marcelo Coelho às 13h38

O chargista e ilustrador Nicoliello, que trabalhou bastante tempo na "Folha" e na "Folha da Tarde", inaugura uma exposição nesta terça-feira, dia 21, no Shopping Villa- Lobos. Grandes cartuns geralmente dispensam o uso de palavras. O que selecionei acima parece, entretanto, ser ainda mais "silencioso" do que a média...
Escrito por Marcelo Coelho às 08h54
No artigo de hoje para a “Folha”, falei do fenômeno do “ Bullying”, ou seja, quando um grupo de valentões do colégio resolve humilhar e perseguir o “patinho feio” da classe. Argumentei, sem esconder meu rancor pessoal, que basicamente falta coragem para a instituição escolar, na figura de professores, vigilantes, diretores, ser ela própria respeitada como um ambiente de igualdade e respeito à lei. O tema tem implicações, digamos, republicanas, o que vem mais ou menos a calhar com data de hoje.
Não tive espaço para falar da escola pública, um pilar básico do próprio espírito republicano; pelo menos era para ser assim. Na França, o “exército negro” dos professores de escola desenvolveu, na passagem do século 19 para o 20, a mais sistemática e organizada luta em favor dos princípios da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, contrapondo-se ao tradicionalismo do ensino religioso. Quem foi criança aí pelas décadas de 1920, 1930 ou 1940, viveu esse espírito nas escolas-modelo e ginásios de Estado (que, embora exemplares, não cobriam evidentemente toda a demanda educacional da população).
Uma amiga trabalha numa escola de dança, que se preocupa em integrar adolescentes da periferia. Um dos inúmeros problemas que ela enfrenta é o de como “chegar” até esses adolescentes –divulgar seu projeto, selecionar os interessados, etc. Para isso, ela recorre às associações de bairro, às ongs que trabalham (ou não trabalham) no local. Perguntei-lhe se o mais natural não seria procurar as escolas, e desenvolver cursos e atividades diretamente no lugar onde os jovens estudam. Ela respondeu-me que escola é a coisa que menos funciona nos bairros que ela conhece.
E mesmo nos colégios particulares, a descrença e falta de autoconfiança são crescentes. Acho estranho, por exemplo, que nos dias de hoje as escolas não sejam em tempo integral. É absolutamente maluco o sistema de vida da classe média alta, que paga pela escola particular de manhã e depois, à tarde, fica inventando todo tipo de “atividades” para os filhos. Na escola pública, então, oito horas por dia seria essencial. Mas não se pagam professores para isso –e no curto horário de aulas vigentes, as faltas e trocas de professores são rotina.
Depois falam de “cortar gastos”. Mas isso é tema para depois.
íntegra do artigo na "Folha": http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1511200615.htm
Escrito por Marcelo Coelho às 15h13
razões para a guerra

“Medeni, medeni, rapdavir, palivir, palivir”. Transcrevo como posso essas palavras árabes. Significam “civil, dona-de-casa, criança”. Quem as recita, como se fossem versos do Corão, é um funcionário do cemitério de Bagdá. Ele mostra para as câmaras os registros dos funerais. Estão num caderno de capa dura, de folhas bastante ensebadas, preenchidas a lápis e caneta esferográfica, como as antigas cadernetas de quitanda que ainda devem existir pelos cafundós do Brasil.
A cena pertence ao documentário “Razões para a Guerra” (“Why we Fight”), recém-lançado em DVD. O filme de Eugene Jarecki foi premiado no Festival de Sundance, e não se limita aos conflitos no Iraque. Seu ponto de partida é o último discurso de Eisenhower na presidência dos EUA, no fim dos anos 50, em que ele alertava para o surgimento de um “complexo industrial-militar”, capaz de ameaçar as próprias instituições democráticas americanas.
O filme adota uma técnica meio “pontilhista”, com imagens de diversas épocas e declarações de personagens variados, sem grande intuito expositivo ou historiográfico. Tudo acaba funcionando como um jeito de manter a atenção do espectador, que sempre espera da cena seguinte uma explicação mais ampla para o que está assistindo.
O diretor Eugene Jarecki não está muito interessado, entretanto, em narrar a longa história dos conflitos em que os EUA se envolveram depois da Segunda Guerra; de seu ponto de vista, o contexto e os motivos de cada intervenção armada são menos importantes do que o fato de que a máquina bélica americana tem sempre de funcionar, com ou sem motivos reais para tanto.
A derrota dos republicanos nas últimas eleições fortalece, finalmente, uma tese que todo o planeta, menos os Estados Unidos e Inglaterra, parecem conhecer à saciedade: a de que o envolvimento americano no Iraque se baseia em duas mentiras básicas: a de que Saddam tinha armas de destruição em massa, e a de que os bombardeios americanos poderiam ser feitos com precisão cirúrgica, reduzindo ao mínimo as vítimas civis.
O uso sistemático da mentira não começa, todavia, no governo Bush, e ainda que Donald Rumsfeld apareça no documentário como um farsante consumado, o principal a se notar é que qualquer governo, democrata ou republicano, e praticamente qualquer deputado ou senador, termina entrando em aventuras militares. Um especialista entrevistado no filme explica com clareza o que ocorre: o “complexo industrial-militar” denunciado por Eisenhower não se baseia apenas no conluio entre o Pentágono e as grandes indústrias de armamentos, mas também na cumplicidade do Congresso. Deputados que votarem contra gastos militares são punidos eleitoralmente por suas bases locais, que não querem ver diminuídos os postos de trabalho.
O forte de “Razões para a Guerra” não é, contudo, a tese abstrata, mas sim as suas personagens. Simpáticas senhoras americanas, operárias na fabricação de mísseis, dão seu ponto de vista, totalmente razoável: a “banalidade do mal” não precisa de um Eichmann para repetir-se todos os dias. Um ex-policial, cujo filho morreu nos ataques de 11 de setembro, e uma técnica oriental na fabricação de bombas de alto impacto, destacam-se: têm biografias extremamente ricas, dramáticas e contraditórias –mostrando que, apesar do sistema ser aparentemente inalterável, as posições individuais do cidadão americano podem ser extremamente mutáveis e abertas à violenta ironia dos acontecimentos.
É, como sempre, um documento da confiança americana no individualismo, na independência de cada pessoa diante da força do Estado e das grandes indústrias. O documentário não consegue ir muito longe nessa confiança, entretanto: por mais que tentasse, não poderia evitar doses equivalentes de desprezo diante da atitude nacionalisteira e desinformada de largos contingentes da população. Crianças de colo são levadas pelos pais a desfiles militares e a feiras de armamento, com bandeirinhas de seu país. O conservadorismo de massas, na conjuntura pós-11 de setembro, atrapalha bastante o espírito democrático que “Razões para a Guerra” não quer abandonar. Enquanto isso, o funcionário do cemitério iraquiano conta os seus mortos.
site do filme: http://www.sonyclassics.com/whywefight/
Fotos de alta qualidade da guerra do Iraque podem ser vistas em www.pigbird.com/images_war.html --foi de onde tirei a que está no começo do post.
Escrito por Marcelo Coelho às 13h50
Barney e seus amigos

Tudo bem que programas de televisão ensinem as crianças a escovar os dentes, a respeitar os sinais de trânsito e a confiar em médicos e bombeiros. Mas fiquei assistindo com meu filho ao programa do Barney, no canal Discovery Kids, e acho que ali o impulso didático passa um bocado das medidas.
Quando meu filho era menor, ele adorava o Barney, imagino que justamente pelo fato que agora motiva minhas críticas: não há ficção naquele programa, só músicas e ensinamentos. Não se apela à imaginação ou a essa outra coisa bastante diferente da imaginação, que é a capacidade de representar ficcionalmente um ensinamento qualquer.
No programa de Barney, tudo é abertamente pedagógico e edificante. Não me oponho a isso, sabendo a que faixa etária a coisa se dirige. Mas quando Barney resolve dizer, a sua crédula platéia de crianças recrutadas nos mais variados estratos étnicos que compõem a população britânica, que devemos confiar em policiais, que os policiais estão aí para nos servir e para levar crianças perdidas ao colo de suas mães, tudo fica um pouco suspeito aos meus olhos.
Pior que isso. O simpático dinossauro roxo de espuma de borracha exclama, a um dado momento: “Policiais são maravilhosos!” Penso no sutil e nada ideológico espírito crítico do Manda-Chuva, às voltas com o Guarda Belo, nos desenhos animados dos anos 60, e concluo que o ambiente ficou terrivelmente sufocante hoje em dia. Há correção política no elenco multiétnico de Barney; mas o medo dos produtores diante de qualquer ironia, de qualquer espírito crítico, de qualquer leveza que os livre do intuito edificante, é ao mesmo tempo contrapeso e reiteração desse programa benfazejo.
Escrito por Marcelo Coelho às 02h21
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PERFIL
Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.
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