Vou concordar se disserem que Robert Altman foi um grande diretor, capaz de desafiar as censuras vigentes em Hollywood, e assim por diante. Tenho um problema, entretanto, com os filmes que eles fez. Não ficam na memória. Sei que saí de “Shortcuts”, por exemplo, dizendo que era um ótimo filme. Não me lembro de nada do que aconteceu –exceto da ameaça de um terremoto que abalava, segundo creio, um enxame de morcegos numa caverna californiana.
A cena mais marcante de Altman, para mim, aproxima-se da banalidade: o desfile de mulheres nuas em “Prêt à Porter”. Se aquilo significava uma crítica cabal ao mundo moda, convenhamos que era de uma obviedade lancinante. Os aplausos que acompanhavam o desfile –incluindo o da sarcástica editora-anã que vivia do “mundinho fashion” no filme— eram mais aplausos à idéia do diretor do que reações coerentes com o enredo imaginado por ele.
Em “Prêt à Porter” há também uma cena constrangedora, não pelo sexo em si, mas pelas intenções sentimentais e anti-hollywoodianas do diretor: a do encontro entre Sophia Loren e Marcello Mastroianni, ambos provectos, incapazes de levar às últimas conseqüências o romantismo ligado ao encontro íntimo entre os dois. Não consegui me convencer de que aquilo era bom cinema.
“Gosford Park”, o último dos filmes de Altman a que assisti, prende o interesse com frases e situações memoráveis, mas carece de real dramaticidade. Há uma frieza nos filmes de Robert Altman que ultrapassa o que seria necessário ao intuito de crítica, de corrosão. Em “Cerimônia de Casamento”, talvez o filme de que mais gostei, comicidade e frieza se combinam, por exemplo, no close da adolescente que sorri com aparelhos nos dentes; mesmo assim, a velhota que morre enquanto a festa prossegue, com moscas cercando o seu cadáver, é mostra suficiente de que o diretor tinha, como se diz, “mão pesada”. Elogiam-no, quem sabe, por ser uma espécie de Mario Monicelli em Hollywood. Mas Mario Monicelli (Parenti Serpenti) era um diretor medíocre, um Altman em Cinecittà.
O uso de tramas paralelas, com múltiplos personagens, funciona formalmente nas obras de Altman, e “Gosford Park” é uma obra-prima se quisermos pensar no cinema como um “raio-X” da sociedade. Mas nesta frase –“raio-X da sociedade”—estão os limites de gosto, o trivial, a falta de profundidade do diretor. Ele horizontaliza a visão; picota o enredo; provoca sorrisos, não inquietação, no espectador. Compará-lo a Kubrick ou David Lynch, a meu ver, é uma desmesura. Altman seria um bom autor de comédias ligeiras, se não pretendesse mais do que isso.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h37
Todo mundo, a esta altura, já ouviu falar de anorexia e bulimia, mas é interessante ficar atento para um novo termo, no universo das patologias contemporâneas. Vem do japonês: karoshi. Leio no livro "Devagar", de Carl Honoré (ed. Record), que significa "morte por excesso de trabalho".
Uma das mais famosas vítimas de "karoshi" foi Kamei Shuji, corretor hiperativo que invariavelmente trabalhava 90 horas por semana [ou seja, 16 horas de segunda a sexta e mais 10 horas no sábado] durante o boom do mercado de ações no Japão, no fim da década de 1980. Sua empresa alardeava toda essa energia super-humana nos boletins internos e manuais de treinamento, transformando-o no padrão ouro a ser imitado por todos os empregados. Numa rara iniciativa de rompimento do tradicional protocolo japonês, Shuji foi convidado a treinar colegas mais graduados na arte das vendas, o que significou pressão ainda mais forte em seus ombros já sobrecarregados. Quando explodiu em 1989 a bolha japonesa do mercado de ações, Shuji passou a trabalhar ainda maior número de horas para compensar as perdas. Em 1990, morreu subitamente de um ataque cardíaco. Tinha 26 anos.
Escrito por Marcelo Coelho às 08h48

Falei num post anterior dos trabalhos do artista plástico Alexandre Órion. Ele agora lança um livro, "Metabiótica", dia 9 de dezembro, na Pinacoteca do Estado. Ás 11h haverá um debate com Diógenes Moura, Rubens Fernandes e José de Souza Martins (este sociólogo colabora com lindos textos sobre São Paulo no caderno Metrópole do "Estadão"). e o lançamento começa a partir das 12h 30.
Alexandre Órion faz pinturas em muros de várias cidades do mundo, e em seguida, com uma câmera fotográfica, surpreende imagens dos habitantes do lugar "interagindo", sem saber, com as imagens que pintou. É comose ele criasse uma série de "armadilhas visuais" para pegar as pessoas em seu habitat.
Abaixo, mais algumas fotos do artista.



Escrito por Marcelo Coelho às 08h40

Domingo às 21h, na TV Cultura, Martha Argerich interpreta uma de suas especialidades, o concerto número 3 de Prokofiev. É no programa de Salomão Schwartsmann, conforme ele próprio avisou no rádio, hoje de manhã.
Escrito por Marcelo Coelho às 08h18
A pedido de um leitor, confirmo a informação: de hoje a sexta, no prédio da História da USP, há uma feira de livros com descontos de 50% no mínimo.
Escrito por Marcelo Coelho às 10h03

capa da primeira edição de "Viagem ao céu". Nastácia vai junto.
No artigo de hoje para a Ilustrada, cito dois clássicos da literatura infantil, "Viagem ao Céu", de Monteiro Lobato, e "Clarita da Pá Virada", de Maria Clarice Villac. Nada mais fácil do que julgar um autor do passado a partir de critérios ideológicos do presente. Havia racismo aos montes nesses livros, importantíssimos na formação da mentalidade média do brasileiro letrado de vinte ou quarenta anos atrás. O que acho interessante não é a forma com que o racismo aparece nesses textos, mas sim o que eles podem revelar de nosso "anti-racismo" também. Depois de caracterizar Tia Nastácia como uma negra "beiçuda", supersticiosa, rindo com a "gengivada vermelha", etc., o texto se encarrega de "corrigir" o preconceito, afirmando que Tia Nastácia "também é gente"... É como se os brasileiros, reconhecendo "in extremis" a igualdade humana, não reconhecessem entretanto a cidadania, ou mesmo a nacionalidade brasileira dos negros com que convivem. Outros países são xenófobos; o negro, aqui, é que é o grande estrangeiro. Leia o artigo em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2211200623.htm
Escrito por Marcelo Coelho às 09h34
Florianópolis
Com o fotógrafo Tuca Vieira, fiz um livro sobre São Paulo no ano passado, para a coleção "Cidades do Brasil", da Publifolha. Faço a publicidade de mais um volume da série, escrito pelo José Geraldo Couto, com fotos de Caio Vilela. É sobre Florianópolis, e terá lançamento nesta quarta-feira, a partir das 19h, na Fnac Pinheiros. Abaixo, uma foto da praia de Lagoinha para enfeitar este blog.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h05
na hora de dormir
Alguns pais e mães sofrem nas refeições. Em casa, o drama chega na hora de pôr as crianças para dormir. Há o problema dos pesadelos, que não sei como resolver, e constitui forte motivo para o meu filho mais velho lutar como pode para ficar acordado. E agora o menor, de dois anos e meio, aprendeu a sair do berço; contente com a descoberta, sem dúvida, levanta-se umas cinco vezes antes de finalmente se resignar ao sono.
Sem dúvida, eles pressentem perfeitamente a verdade das coisas: os pais, nessa hora, estão querendo livrar-se deles. Como chego mais ou menos tarde em casa, é também provável que minha presença signifique uma dose tardia de adrenalina e excitação, num momento do dia em que já deveriam estar passando do “allegro con fuoco” e do “presto furiante” para o “andantino meno mosso” e para o “adagietto semplice”.
Acontece que eu também sou notívago, e compreendo que seja muito chato para uma criança abandonar tantas possibilidades de entretenimento em favor da inconsciência e da escuridão. Resolvi, nos últimos dias, esticar ao máximo, com o menorzinho, o chiclete das horas. Às 21h15, ele esperneava, recusando-se a entrar no seu quarto. Ás 21h30, sessão de cócegas e palhaçadas. Ás 21h45, historinha; às 22h, música (o “Carnaval dos Animais”, com direito a figurações e mímica sobre cada bicho retratado na orquestra –tartaruga, peixe dourado, elefante, etc.) Às 22h30, finalmente, ele dormiu. Horário nada saudável, procedimento cansativo, que me tomou mais de uma hora (sem contar o tempo dedicado ao filho mais velho, pouco antes). Mas só assim é que o sono chegou.
O problema é abordado num livro interessante, que talvez eu comente depois. Trata-se de “Devagar” (ed. Record), do jornalista Carl Honoré. Ele parte do movimento contra o “fast food” para relatar as experiências em diversos âmbitos de atividade, e em diversos países, que procuram valorizar a lentidão. Há desde a “slow food” –pratos demoradíssimos de fazer, refeições que duram três horas—criada pelo italiano Carlo Petrini, às ações do Clube de Preguiçosos do Japão. Trata-se, com certeza, de um movimento minoritário, mais um luxo do que uma alternativa real para o mundo contemporâneo.
Carl Honoré conta suas dificuldades para fazer os filhos pegarem no sono, e cita um dos absurdos à disposição das famílias que enfrentam o problema. Trata-se de um livro de contos de fada condensados, que podem ser lidos em cerca de um minuto. No começo, Carl Honoré se entusiasmou. “Metralhar seis ou sete histórias, e ainda assim acabar em menos de dez minutos –que poderia ser melhor? Mas eu já estava começando a tentar adivinhar o tempo que a Amazon levaria para me mandar a série inteira quando vem a redenção, na forma de uma outra pergunta: Mas será que eu fiquei completamente maluco?”
Como se vê pelo trecho, o texto é levemente engraçado, e o ritmo de elaboração dos raciocínios do autor já reflete certa tendência para a lentidão.
Escrito por Marcelo Coelho às 17h35
As três maiores revistas semanais do país publicaram reportagens de capa sobre anorexia. O assunto surge em função da pobre modelo que morreu na semana passada, pesando 40 quilos (para se ter uma idéia, apesar das diferenças de altura, a Gisele Bündchen pesa 52). Naturalmente, o conteúdo das diversas reportagens é de alerta e de preocupação. Mas não deixa de ser questionável o fato de que, nas capas colocadas à venda nas bancas de jornais, ainda se explore a beleza da vítima, magra e belíssima numa foto de editorial de moda. "Veja", nesse sentido, foi um tanto mais ética, mostrando ao lado da modelo a foto de um corpo feminino morbidamente magro, ainda que não dos mais chocantes. É terrível, em todo caso, que, mesmo morta, a beleza da modelo ainda sirva para vender. Em tempo: A Folha também publicou na primeira página uma foto da modelo.
Escrito por Marcelo Coelho às 16h15
Outro aspecto levantado por Sábato Magaldi no seu texto sobre as funções da crítica teatral (ver post anterior) é a “precarização”, se podemos dizer assim, da atividade do crítico:
Os comentaristas mais antigos ainda são funcionários do jornal, com direito a vencimentos fixos, férias remuneradas, décimo-terceiro salário e benefícios sindicais, incluindo-se a aposentadoria. O registro sindical, privativo dos que fizeram curso de jornalismo, a crise econômica, obrigando à restrição de despesas, e, eventualmente, o desejo de não concentrar num só indivíduo, por muito tempo, o poder da crítica, estão transformando todos os comentaristas em colaboradores, remunerados por artigo.
Desse ponto de vista, é claro que a ‘política do crítico” também fica desbaratada, perdendo em continuidade. E as observações de Sábato Magaldi sugerem também um outro fenômeno, que não é tão freqüente no teatro quanto no cinema, que é o surgimento do “crítico improvisado”. Ao contrário de outras áreas, como música clássica ou artes plásticas, “todo mundo” –ponho o todo mundo entre aspas, evidentemente—é capaz de fazer crítica de cinema hoje em dia. Claro que a crítica de cinema bem-feita ganha muito se o seu autor tiver conhecimento técnico, souber como foram criadas determinadas soluções de filmagem, e tiver conhecimento da história do cinema, podendo avaliar o quanto há de originai, de copiado ou de alusivo em determinado filme. Mas precisamente porque o cinema ainda é uma linguagem que, em 90% dos casos, segue um modelo predominante, o intervalo entre o conhecimento do público e o conhecimento do crítico não é especialmente vasto; e um representante bem articulado do público, sem conhecimento técnico específico, pode de fato sustentar uma opinião circunstanciada e informativa a respeito de um filme “médio”, de um “filme normal”.
Tenho a impressão de que o teatro está mais ou menos no meio do caminho entre o cinema, digamos, e as artes plásticas. De um lado, como no cinema, apela para problemas, conteúdos, formas narrativas, que permitem a um espectador médio, sem grande informação técnica, ter uma visão razoavelmente clara da qualidade e do sentido do espetáculo –o que não acontece nas artes plásticas contemporãneas. De outro lado, o teatro é capaz de suscitar perplexidade e aborrecimento num grau que o cinema raramente produz.
De qualquer modo, se hoje em dia é mais ou menos comum o “crítico de cinema improvisado”, o “crítico teatral improvisado” não surge com tanta facilidade –não só porque os jornais dão menos importância ao teatro que ao cinema, como também porque, como eu dizia antes, o teatro já não apresenta uma linguagem dominante tão caracterizada, hoje em dia, como quarenta ou cinqüenta anos atrás.
(Nota: estas considerações genéricas serviram de introdução à palestra que fiz no festival de teatro de Recife, em que o tema era a crítica teatral e a peça “Viúva Porém Honesta”, de Nelson Rodrigues. Como se sabe, um dos personagens da peça é o crítico teatral “improvisado” Dorothy Dalton, que um belo dia entra na redação do jornal A Marreta pedindo socorro: ele na verdade é um delinqüente juvenil que acaba de fugir do SAM, a Febem da época).
Escrito por Marcelo Coelho às 16h09
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