Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

glenn gould (2)

 

Quem assistiu ao documentário “32 curtas sobre Glenn Gould”, de François Girard, ficou com a impressão de que se trata de um pianista extremamente infeliz, misantropo, intoxicado de pílulas, e finalmente louco. Nos diversos documentários de Bruno Montsaingeon, feitos com uma devoção quase religiosa, o que espanta é o bom-humor, a rapidez de raciocínio, o charme de um grande artista. Há risadas o tempo todo, ao lado de extravagâncias mais conhecidas: Glenn Gould cantarola enquanto toca (mesmo suas gravações mantêm um fundo de gemidos e fuíns de pernilongo), e não se separa de uma cadeira de palhinha baixíssima, que o permite tocar com o rosto quase encostado no teclado do piano. O entrevistador pergunta, algo tolamente, se aquela cadeira está tão perto de sua experiência musical quanto as obras de Bach. “Bem mais perto”, responde Gould.

 

Neste último documentário, “Hereafter”, ou “Mais Além”, Bruno Montsaingeon faz uma homenagem póstuma a Gould (morto em 1982), que reúne os aspectos mais humanos do artista, e os mais extravagantes de seus fãs. Uma jovem britânica tatuou na barriga um frase musical composta por Glenn Gould, e suas explicações a respeito são das mais esquisitas. O ápice da cena constrangedora é o de uma fã italiana, já nos seus sessenta ou setenta anos, que conversa longamente com uma estátua de bronze de seu ídolo.

 

Mas há muitas passagens interessantes e iluminadoras. A conhecida aversão de Gould a dar concertos em público é questionada pelo violinista Yehudi Menuhin, num diálogo que, como tudo nesse filme, oscila do razoável ao puramente ilógico. Valem a pena, também, as curtas cenas em que Menuhin e Gould aparecem tocando a terrivelmente áspera sonata para violino e piano de Schoenberg. Vendo-os tocar, torna-se muito mais fácil acompanhar o pensamento musical do compositor.

 

Glenn Gould também conta como foi sua estréia num concerto, aos 14 anos, tocando o quarto concerto para piano de Beethoven. Tinha um cachorro muito peludo, branco e preto, e no meio do recital percebeu que sua calça preta estava coberta de pêlos do animal. Aproveitou várias passagens orquestrais para tirar os pêlos da calça, o que o deixou perdido na hora de retomar a função de solista. Ouvimos e vemos, então, o pianista adolescente tocando a obra de Beethoven, com um senso de acabamento da frase, uma elegância admiráveis.

 

O principal problema de “Hereafter” é que não há nenhuma peça tocada na íntegra; lindas e tristes cenas da paisagem canadense, ao lado de comentários sempre ótimos e originais de Gould a respeito deste ou daquele trecho interpretado, contrabalançam, entretanto, esse problema.

 

E há o rosto de Gould, múltiplo e expressivo, lembrando um bocado o do Dr. Spock (Leonard Nimoy) de “Jornada nas Estrelas”. Difícil alguém ter na própria face uma aura de tanta inteligência, de tanta acuidade; ele aparece no filme em várias fases da vida, bastante mal-tratado e aburguesado no final, mas sempre magnético. Menuhin, na sonata de Schoenberg, está no auge da técnica e também da fisionomia, cinzelada como a de um asceta ou de um visionário.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h23

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as compras de Glênio

as compras de Glênio

Quando chega o Natal, a cidade recebe muita gente do interior. Na crônica de hoje, passado e presente se misturam quando um decorador de interiores de Ribeirão Preto visita um shopping badalado. Leia em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0112200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 11h34

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glenn gould

Ele toca música como se soubéssemos ler a partitura: não há melhor definição para o jeito com que Glenn  Gould toca as “Variações Goldberg” de Bach, e a frase aparece em "Hereafter", documentário recém-lançado em DVD de Bruno Montsaingeon sobre um dos grandes ídolos e miitos pianísticos do século 20.

 

Houve maiores virtuoses, como Godowski e Horowitz. Pessoas dessa natureza eram capazes das maiores das maiores proezas digitais, e eram dotadas, talvez, de uma compreensão mais profunda, mais íntima, mais modesta da música.

 

Glenn Gould levou a arte da interpretação a níveis mais elevados e místicos. Cada gravação (ele desistiu cedo das performances ao vivo) significava para ele uma vitória contra o acaso, o improviso e inspiração. É como se ele pudesse eliminar todo o fundo irracional da música, ou melhor, o fundo subjetivo da música: cada peça é uma estrutura de tal modo inteligente e intrincada que, ao ouvir Glenn Gould, qualquer outro pianista parece ter sido um pouco cego, ter tocado "de ouvido" apenas.

 

Há entretanto um jogo entre fluência e precisão, entre o líqüido e sólido, o quente e o frio, que um pianista como Nelson Freire é capaz de pôr em cena no seu disco com sonatas de Beethoven, que acaba de ser lançado. Nelson Freire é uma força da natureza; cada gravação sua é demonstração de uma facilidade miraculosa em tornar pública a beleza desta ou daquela composição.

 

Se em Nelson Freire vemos a musicalidade superando virtuosismo, vemos em Glenn Gould o intelecto musical em estado puro –ele está rumando para universos mais metafísicos, quem sabe menos musicais, que os de Nelson Freire.

 

O último documentário de Bruno Montsaingeon  talvez já não acrescente muito a todo o mito criado em torno de Glenn  Gould, mito de que Bruno Montsaingeon, em vários outros documentários, construiu e defendeu como ninguém. Mas há o bastante para ouvir ali para nos fazer entender a grandeza de Glenn Gould: mais leitor que "pianista", no sentido romântico do termo.

Escrito por Marcelo Coelho às 04h15

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olhar estrangeiro

O subúrbio de Realengo, segundo o quadrinista francês Jano.

 

 

Escrevi para a “Ilustrada” de hoje uma crítica bastante negativa de “Olhar Estrangeiro”, documentário de Lúcia Murat sobre o modo com que o cinema europeu e americano retrata o Brasil. É sempre um paraíso de sensualidade feminina e de selvas tropicais.

Tudo indica que a diretora teve dificuldades em reproduzir algumas cenas do cinema americano, a começar dos desenhos de Zé Carioca e dos filmes de Carmem Miranda. Nessa hora, só aparecem montagens de fotos. Um filme de Hitchcock, com Ingrid Bergman, também mostra uma ceia à beira-mar, com um cartão postal de Copacabana ao fundo.

Seja como for, Lúcia Murat mostrou cenas de “Orquídea Selvagem”, com Mickey Rourke, e fez uma entrevista o diretor Zalman King. O filme é dos mais delirantemente exóticos, e o diretor, tendo de engolir as acusações dos entrevistadores, defende seu ponto de vista: quis fazer um filme de fantasia, e não tem necessariamente a obrigação de retratar o “Brasil real”.

O interessante seria procurar no filme dele as ocasiões em que o Brasil real, apesar de tudo, aparece ou é reprimido. Penso que não só os estereótipos se baseiam de fato na realidade (como muita gente entrevistada no filme repete à exaustão) como também que a realidade, mesmo reprimida, reaparece de alguma forma em cada filme.

Isso é uma espécie de crença minha, talvez baseada numa fé psicanalítica, mas em geral dá certo: na publicidade, por exemplo, é fácil verificar como a tentativa de mentir muitas vezes termina revelando a realidade apesar de tudo.

Acontece que essa realidade se revela em lugares inusitados. Por exemplo: será que a história, o enredo, ou algum personagem específico de “Orquídea Selvagem” não trariam algum princípio de contradição, sob a aparência visual exótica? Uma hipótese a verificar.

 Lúcia Murat fez um filme “cobrando” realismo dos diretores. Poderia ter dado mais atenção, nas entrevistas, ao processo de produção do filme. Como foi filmar no Brasil? Que dificuldades tiveram? Foi preciso cercar o cenário da praia, desviar a câmera, cortar cenas inconvenientes? Que belo material não haveria a descobrir, caso tivéssemos acesso aos trechos cortados na edição final...

Tudo isso seria mais complicado de fazer, e talvez exigisse entrevistas com críticos. Mas é muito fácil reclamar de que os personagens brasileiros falam com sotaque espanhol, como no caso de “Próxima Parada, Wonderland”. Ficamos apenas na aparência das coisas.

E o cinema e a televisão brasileiros? Não abusam de clichês para exportação também? De que modo tratamos os americanos, os fazendeiros, os industriais? Qual a diferença entre um tipo social, contraditório, complexo, e o estereótipo de uma narrativa comercial, seja ela brasileira ou estrangeira? Dá até pena de ver um diretor como Lauzier (também famoso como excelente autor de histórias em quadrinhos), que fala ótimo português, viveu anos na Bahia, sendo mal-tratado no filme de Murat.

De qualquer modo, há estrangeiros que de fato têm uma idéia mais ampla do Brasil, sem deixar de insistir naquilo que imediatamente lhes chama a atenção, a saber, os biquínis e a beleza física das mulheres que encontram na praia. Um exemplo é o quadrinista Jano, que publicou recentemente um álbum de histórias em quadrinhos maravilhoso sobre o Rio, e depois foi tema de um documentário, que infelizmente não vi (“O Rio de Jano”). Ele de certo modo “desnaturaliza” a representação, fazendo todos os brasileiros terem corpo humano e cara de cachorro, como a admitir que não pretende um quadro realista do pais. O resultado é muito bom, porque seu Rio de Janeiro não é apenas o Rio turístico, mas também o do subúrbio.

Ao mesmo tempo, está implícito em todo filme comercial que a “realidade” foi posta entre parênteses. Um subúrbio de Los Angeles não é tampouco o subúrbio real, o faroeste não é o faroeste real, etc. O problema, aí, não é ser preconceituoso ou desinformado com relação ao Brasil ou a qualquer outro país, mas é ser artisticamente fraco.

Do jeito que Lúcia Murat fez o filme, parece ser culpa dos estrangeiros; educadamente, muitos pedem desculpas à diretora ao longo da entrevista. Ficou bastante tolo. O filme estréia nesta sexta-feira em São Paulo.

site do filme: www.taigafilmes.com/olhar

minha crítica na "Ilustrada": http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq3011200622.htm

site de "O Rio de Jano" (lindas imagens): http://www.hybrazilfilmes.com/riodejano/

sobre a série de quadrinhos "Cidades Ilustradas", com autores estrangeiros retratando cidades como Rio e Belo Horizonte, é imperdível o site http://www.quadrinho.com/casa21/cadernosdeviagem/index.html

Escrito por Marcelo Coelho às 09h33

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um belo recorde

um belo recorde

No artigo de hoje para a "Ilustrada", tentei situar o fenõmeno da anorexia num contexto mais amplo. Não acho que a doença seja causada apenas por um "ideal de beleza", nem que possa resumir-se a um distúrbio com relação à própria imagem. Claro que não sou psiquiatra, mas o que me chama a atenção é a semelhança da anorexia com uma série de outras manifestações, como workahlismo, consumismo extremo etc., que envolvem sempre a idéia de superar os próprios limites. No mundo dos esportes, aparentemente oposto ao ideal da fragilidade anoréxica, a idéia de "superar limites" é vendida como se fosse excelente; mas já se acumulam os casos de jogadores de futebol tendo enfarte no meio do campo. Para nada dizer das inúmeras vítimas que, sem dúvida, as academias de ginástica e os anabolizantes são capazes de produzir.

Os recordes mais bizarros são quebrados o tempo todo, e o Livro Guinness, que acaba de sair, está cheio deles. Mas nesse post quero falar de um belo recorde mundial. Na primeira metade do século 19, um inglês chamado UOL Busca James Holman tornou-se, provavelmente, o homem que mais viajou na história humana. Foram cerca de 400 mil quilômetros; para se ter uma comparação, Marco Polo viajou cerca de 22 mil, e o legendário viajante árabe UOL Busca Ibn Batutta alcançou a marca de 120 mil quilômetros.

Até aí, é uma pura questão de quantidade. O detalhe que torna tudo mais admirável é que James Holman era cego. Seus relatos de viagem são, entretanto, de extrema acuidade; os sons e cheiros do Rio de Janeiro --onde ele esteve, aclamado como "o célebre viajante cego" pela imprensa local-- foram objeto de seu registro.

Uma biografia de James Holman acaba de sair na Inglaterra, pela Simon and Schuster: trata-se de A Sense of The World: How a blind man became histoy's greatest traveller; tem 400 páginas e foi escrita por Jason Roberts.

Link para o meu artigo de hoje: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2911200624.htm

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h59

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reencontro

reencontro

Depois de muitas décadas, chega a hora de antigos colegas de escola fazerem uma confraternização de fim de ano. A arrogância de alguns é posta em xeque na coluna de hoje do "Agora": http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2811200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 15h20

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voltaire em debate

voltaire em debate

Duas companhias teatrais preparam um espetáculo com textos de Voltaire de Souza para o ano que vem. O projeto, que envolve meus amigos Maurício Paroni de Castro (Atelier de Manufactura Suspeita) e Ziza Brisola (Companhia Linhas Aéreas) contou com o programa de fomento ao teatro da Prefeitura Municipal. Faz parte das exigências desse financiamento oficial a realização de workshops e programas de interação com a população, além da simples realização de espetáculos.

Dia 5 de dezembro, na Biblioteca Mário de Andrade, às 19h30, participo de um seminário sobre o projeto "Voltaire de Souza, o intelectual periférico." Alguns contos serão lidos pelos atores e comentados por mim. Sobre o espetáculo em si, ainda em preparação, nada sei. O que os atores estão fazendo, por enquanto, é algo de mais experimental, anterior à consolidação do texto: saem pela cidade, nos lugares mais diversos, encarnando alguns dos personagens das histórias, vendo as reações das pessoas,  e criando situações ainda mais bizarras, creio, que as próprias crônicas publicadas no "Agora". Se você encontrar a espetacular morena Gilvanka passeando pela Bienal, junto com uma excursão de cegos, isso é obra dos atores do projeto. 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h17

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livros em oferta

Descontos de 50 a 80 % em tinta mil títulos portugueses, na Livraria Portugal: Rua Martins Fontes, 81, São Paulo, até dia 30 de dezembro.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h09

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Alencastro na blogosfera

O historiador Luiz Felipe de Alencastro, uma das maiores autoridades brasileiras no estudo da escravidão, estreou há alguns dias o seu blog: http://sequenciasparisienses.blogspot.com/ . A propósito do Dia da Consciência Negra, ele publicou vários posts sobre o caráter da escravidão brasileira, e suas diferenças com a escravidão nos Estados Unidos. Vale acompanhar.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h08

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A sina de Niemeyer

Estive em Brasília no fim-de-semana, por conta do Festival de Cinema, onde participei de uma mesa-redonda sobre crítica de cinema e –este o tema do debate com Ismail Xavier—“as astúcias da representação”. O texto que se segue foi escrito antes do debate. Não consegui acessar a internet para enviá-lo, porque me hospedaram no velho Hotel Nacional, cujo “office center” não funciona nos fins-de-semana. Mais incrível: eles não aceitam nenhum cartão de crédito. Imagino a dor de cabeça para turistas estrangeiros.

 

Mesmo assim o hotel, obra de Oscar Niemeyer, ainda tem seus encantos.

 

Por exemplo: tive de subir ao mezanino, para apanhar as credenciais. De lá, vi o saguão do hotel, numa iluminação clara e suave, com o vaivém dos hóspedes, alegre e surpreendente de tanta nitidez. Só depois descobri o truque: é que o parapeito do mezanino era baixíssimo, proporcionando uma visão que nenhum mezanino comum é capaz de oferecer. O custo, obviamente, é enorme: a pouco mais de trinta centímetros do chão, o parapeito não traz nenhuma segurança ao visitante, que pode cair sobre o concierge num acidente de proporções, digamos, monumentais.

 

Mas o velho Niemeyer estaria tendo acessos de fúria se vissem o que fizeram com a decoração do hotel. Em volta da piscina, há “chaises-longues” que parecem carruagens de faroeste, cercadas por mesinhas de mármore com pedestais em formas de colunas gregas. No quarto, três quadros horrorosos de flores cor-de-rosa estão enfiados em molduras mais horrorosas ainda, de um dourado cor de alça de caixão de defunto. As janelas dos quartos que dão para a piscina ganharam minúsculos toldos com cara de capa de chuva. O modernismo arquitetônico, como se sabe, é um ideal tão traído (e inexeqüível, sem dúvida) como os da Revolução Russa.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h38

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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