Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

balanço 2006 (2)

De romances, não li quase nada: “Subúrbio”, de Fernando Bonassi, reeditado agora com muitas e bem-vindas alterações, firmou-se na minha opinião como um dos clássicos da literatura brasileira contemporânea. “O Adiantado da Hora”, de Carlos Heitor Cony, é uma trama rocambolesca, que acrescenta pouco à obra do autor, mas que ajuda a esclarecer suas obsessões, seus aspectos mais esquisitos de personalidade literária. O grande romance que não li –está começado, mas sempre surgem outras coisas para ler no meio—é o “Portrait of a Lady”, de Henry James. Sempre tive um medo danado de Henry James: frases complexas demais, situações sutis ao extremo, e certa monotonia em alguns de seus contos (“Os Papéis de Aspern”, por exemplo) me faziam recuar frente a seus romances mais significativos. Mas este, aliás traduzido no Brasil por José Geraldo Couto, é fascinante deste a primeira linha; difícil imaginar tantos sentimentos e relações concentrados ao mesmo tempo num único diálogo; impressionante como o autor, quanto mais analisa e explica seus próprios personagens, mais é capaz de torná-los misteriosos e imprevisíveis. Só que ainda me falta acabar o livro...

 

Também “Os Deuses têm Sede”, de Anatole France, ficou pendurado em 2006. Vai sair no ano que vem uma tradução, pela editora Boitempo. Pediram-me para fazer o prefácio. Ainda estou lendo. E gostando muito. Anatole France é por vezes um pouco aguado, leve demais: “L’Anneau d’Améthyste”, o primeiro volume de sua “Histoire Contemporaine”, que fala dos conflitos entre Igreja e Estado na 3a República Francesa, é uma obra-prima; cada capítulo é quase independente dos demais, e cada um deles mostra com muita ironia e humanidade de que modo os interesses individuais, o acaso biográfico, uma reviravolta política qualquer, fazem com que uma única realidade adquira características completamente distintas para cada personagem. O último volume da série, “Monsieur Bergeret à Paris”, que me interessava especialmente porque tratava do Caso Dreyfus, é entretanto excessivamente vago, sem vigor. “Les Dieux ont Soif”, que se passa na Paris de 1793, em pleno Terror portanto, me parece dos romances mais ágeis, precisos e límpidos do autor. Vamos ver no que dá.

 

Por enquanto é só. Amanhã ou depois eu continuo. 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h57

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balanço 2006

Faço um balanço de 2006, mas não do que aconteceu de relevante culturalmente. Listas dos melhores livros e filmes do ano me deixam um pouco intimidado, porque tenho consciência de não ter acompanhado bem as novidades, as estréias, os lançamentos. Misturo muito o que acaba de sair com o que já apareceu há séculos, e que acabo lendo e vendo com atraso. De modo que este balanço é das minhas atividades, dos meus destaques, não o das coisas que saíram em 2006.

 

Li pouco neste ano: pelas minhas estatísticas, que com certa infantilidade guardo num fichário inaugurado em 1976, o número de páginas caiu pela metade com relação ao ano passado. Escrevi muito mais, entretanto, e o blog naturalmente tem parte de responsabilidade nessa inflexão do gráfico.

 

Leituras, agrupadas tematicamente: muita coisa sobre intelectuais e engajamento, em função do artigo que escrevi para a coletânea “O Silêncio dos Intelectuais”. Em geral, foram monografias sem muito brilho, como “Treason, Tradition and the Intellectual”, de Ray Nichols (sobre o meu admirado Julien Benda), e “The Spectrum of Political Engagement”, sobre Sartre, Camus e Benda, de David Schalk. Li também o famoso “Les Chiens de Garde”, de Paul Nizan, uma defesa raivosa e ressentida do engajamento dos intelectuais, escrita em resposta a Julien Benda, poucos anos depois de este ter escrito “La Trahison des Clercs”. O livro de Nizan está entre as decepções do ano para mim. “O Intelectual”, de Steve Fuller, lançado este ano no Brasil, é muito fraco, também.

 

Concordo com um leitor que disse, num comentário, que Proust é infinitamente superior a Gide. Mas a personalidade de Gide me interessou muito neste ano, pela coragem com que denunciou o estalinismo, já na década de 30, e pela honestidade de sua vida intelectual: esteve sempre procurando sua verdade política e pessoal, por mais complexa e mutável que pudesse ser. Por isso, li uma minuciosa e extremamente inteligente análise da obra de Gide, escrita por seu amigo Charles du Bos: “Le Dialogue avec André Gide”, que inclui o estudo “Le Labyrinthe à Claire-voie”, em que, de uma perspectiva rigorosamente católica, surgem fortes hostilidades com relação às atitudes libertárias de Gide. Como texto de crítica literária, o estudo de du Bos talvez se aproxime, pela penetração, daqueles terríveis perfis escritos por Sartre a respeito de seus (ex) amigos Merleau-Ponty e Camus. Sartre é melhor, mas bem mais desagradável também.

 

Ainda na linha dos intelectuais católicos, com certa inclinação conservadora, mas que no final das contas tiveram uma posição digna e corajosa diante da barbárie política da esquerda e da direita, a figura de François Mauriac (romancista de quem não tive boa impressão ao ler “Thérèse Desqueyroux”) cresceu em minha admiração; li dele “Mémoires Intérieurs”, uma espécie de autobiografia de suas experiências como leitor, livro de velhice, pessimista e melancólico como poucos: certamente, para repetir um clichê sobre Mauriac, ele acredita mais no inferno e na danação do que em Cristo e no homem. O extraordinário, para ele, é que do fundo do horror humano, do poço infecto que é o mundo, subsiste uma coisa, que não é nem a bondade dos homens, nem a amizade ou a beleza: é a Graça. Nisso Mauriac acredita. E se aflige com o homossexualismo de Gide, sua irreligiosidade teimosa. Lamenta que Gide tenha morrido sem se converter ao catolicismo. Mas pode ser, raciocina, que mesmo assim, no momento final, ele tenha se reconciliado em silêncio com Deus: é o mistério da Graça que, quem sabe, salvará a alma de seu amigo...

 

“O Ano do Pensamento Mágico”, é uma tocante e aflitiva obra memorialística de Joan Didion, a respeito da morte súbita de seu marido e da experiência da viuvez. Não há grandes maravilhas do ponto de vista de estilo, de imagens, de construção literária, mas é um livro notável pela exatidão dos detalhes, pelo poder de introspecção.

 

A obra jornalística de Olavo Bilac, numa cuidadosa e monumental organização de Antônio Dimas, é para quem se interessa pelo cotidiano carioca em princípios do século 20, mas literariamente não oferece grande recompensa.

 

Indo um pouco para trás no tempo, li uma biografia de José de Alencar (“O Inimigo do Rei”) e “Duelos no Serpentário”, uma antologia de polêmicas entre escritores brasileiros do passado (Silvio Romero contra José Veríssimo, por exemplo). São leituras que cativam pelo pitoresco, e que deprimem pela fraqueza da chamada “inteligência brasileira” daqueles tempos.

 

Continuo depois.   

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h31

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jornalismo em tempos de beabá

Pelas minhas esparsas leituras, fiquei com a opinião de que os jornais ingleses (não falo dos tablóides) são os mais interessantes e bem-feitos que conheço. Um leitor estrangeiro pode tropeçar com o jargão num jornal americano, mas os ingleses são em geral claros e compreensíveis. No jornalismo cultural, apesar de toda a fama que tem, o "New York Review of Books" não chega aos pés do "Times Literary Supplement", em ironia, apuro de texto, grau de especialização dos colaboradores.

Mas o estilo "be-a-bá", pão-pão queijo-queijo, parece estar chegando também à imprensa britânica. Transcrevo o final de um artigo de Patrick Cockburn, no "Independent", sobre a condenação de Saddam Hussein, traduzido na edição de hoje da "Folha":

Se morto num atentado há 20 ou 30 anos, a história do Oriente Médio teria sido diferente. Mas sua morte não fará agora nenhuma diferença.
Nascido em Ouija, em 1937, ele era filho de um camponês que morreu pouco antes ou pouco depois de seu nascimento. Foi criado pela mãe e por dois tios. Tornou-se membro do partido Baath, que apenas tinha uma boa implantação no Exército e que se tornou poderoso em 1968.
Viveu em palácios esplendorosos. Gostava de charutos cubanos. Dizia escrever romances históricos. Desta vez, teve sua grande derrota.

Dizer que alguém, ao ser enforcado, conhece uma "grande derrota" não é propriamente a melhor maneira de gastar papel e tinta.

  

Escrito por Marcelo Coelho às 15h05

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Em direção ao sul

Em direção ao sul

 

 

Charlotte Rampling e Menothy César

Difícil encontrar um filme tão sério e desencantado como “Em Direção ao Sul”, de Laurent Cantet, que estreou nesta sexta-feira. O ponto de partida já é bastante carregado do ponto de vista emocional. Mulheres de meia-idade, para não dizer já idosas, costumam passar férias num hotelzinho de praia do Haiti (estamos na década de 70), em busca de prazer sexual com os rapazes negros do lugar.

 

O ambiente para a decepção pessoal, para o surgimento de ilusões românticas, para o confronto entre o mundo desenvolvido e a violência da América Latina, está evidentemente armado desde o início. O que é extraordinário nesse filme é a variedade de respostas pessoais que cada uma das personagens oferece a essa mesma situação.

 

Charlotte Rampling, velha e bonita, tem um papel que é uma mina de ouro para uma excelente atriz como ela: trata-se de uma mulher inteligente, agressiva e amarga, que insiste em resumir todo seu relacionamento com um gigolô haitiano a uma mera troca de interesses, sem nenhuma dimensão amorosa.

 

O ciúme e a paixão, que ela reprime, aparecem de forma mais pura e hesitante em outra personagem, vivida com grande senso de fragilidade, quase à beira da depressão, por Karen Young.

 

Ao longo do filme, não sabemos mais quem manipula quem: se os rapazes haitianos, valendo-se do dinheiro das burguesas, ou se elas próprias, atraindo variadas e ambíguas formas de amor por parte de seus galãs; a pobreza material dos negros é comparável à pobreza sexual das brancas. Tudo poderia redundar facilmente no patetismo e no melodrama, mas não há personagem neste filme que não saiba, de forma estupenda, controlar suas próprias emoções, ao mesmo tempo em que não consegue controlar seus próprios desejos, seu próprio destino. “Em Direção ao Sul”, como certas histórias de Colette, é coisa para gente adulta.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h33

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O Ilusionista

O Ilusionista

Jessica Biel e Edward Norton no filme de Neil Burger

Edward Norton não é exatamente o tipo de ator ideal para encarar um jovem apaixonado, capaz de lutar anos e anos por um amor impossível. Mas tem uma boa cara de mágico, e seus truques, no papel do misterioso sr. Eisenheim, são um dos prazeres de “O Ilusionista”.

 

É uma boa trama romântica e policial, que se passa na Viena de finais do século 19. Não li o conto de Steven Millhauser em que o filme se baseia, mas posso imaginar que houve uma mudança de foco narrativo na passagem para o cinema. Visivelmente, todo o mistério da história ficaria bem mais difícil de descobrir, e ao mesmo tempo mais fácil de ser explicado no final, se tudo fosse narrado a partir da ótica do detetive (Paul Giamatti) que investiga os truques de Eisenheim. Mas aí o filme perderia seu apelo romântico imediato. Pelas convenções do cinema comercial, o protagonista é quem se apaixona, quem se vinga, quem brilha pelo talento... e a narrativa de “O Ilusionista” terá então de pôr a câmera sempre perto do par romântico, mesmo que isso fragilize a construção do quebra-cabeças policial.

 

Mas estes reparos à estrutura formal do filme não importam muito: intriga, amor, bons truques de magia, além de luxuosas imagens do decadente império austríaco, garantem a diversão do espectador.

 

Uma coisa curiosa em “O Ilusionista”,  que também aparece em “O Segredo de Beethoven”, é o gosto por uma certa pré-história da tecnologia, um pouco como no desenho animado dos “Flintstones”, só que levado a sério. Na Viena de 1815, o compositor surdo recorre a cornetas acústicas acopladas à cabeça, como se fossem modernos fones de ouvido. Beethoven está ensaiando a orquestra, e precisa ter as duas mãos livres para reger. O espectador tem a impressão de estar vendo uma sessão de gravação em estúdio, com o músico testando a qualidade do som...

 

Em “O Ilusionista” as aparições de fantasmas nos shows do mágico Eisenheim são obtidas graças a um aparato tecnológico ainda incipiente, uma espécie de ancestral do cinematógrafo. As mágicas de Eisenheim e a arte de Beethoven recebem ovações do público. Mas é como se esses filmes quisessem sempre nos lembrar que a tecnologia está por perto; que, em vez de teatros com platéia assistindo a espetáculos ao vivo, a mágica do cinema é que se mostra capaz de insuperáveis prodígios.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h58

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4 anos de Lula

Na Folha de hoje, escrevi um artigo avaliando o primeiro mandato de Lula. Tentei ser equilibrado. Diante de todos os medos que sua posse suscitava em alguns, e de todas as esperanças que suscitava em outros, nenhuma previsão se confirmou. O resultado foi administrativamente fraco, economicamente neutro, socialmente positivo, e politicamente ruim. Os avanços sociais, a meu ver, foram acompanhados de retrocesso político. Acho especialmente grave ter sido eleito com bandeiras que, logo em seguida à posse, foram esquecidas. Uma quantidade de coisas que se criticavam em Fernando Henrique passaram a ser aceitas alegremente... como se todos aqueles discursos a favor de CPIs, contra reformas na previdência, contra juros altos, fossem conversa para boi dormir. Lula, em todo caso, foi menos arrogante do que muitos petistas, que continuaram a se fazer de donos da verdade enquanto desmentiam todo o seu passado. Se querem ser cínicos ou pragmáticos, têm esse direito: mas combinar essa atitude isso com o velho papel de moralistas indignados é que não convence. Leia no link http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2912200614.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 17h47

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estética do chocolate

Acabo de comer duas barras de chocolate. Uma, da Garoto, de chocolate branco e frutas cristalizadas. Outra, da Lindt, de chocolate meio-amargo com metades de avelã. O grau de “prazer” que ambas me proporcionam é equivalente. Entretanto, percebo no chocolate da Lindt uma “qualidade” superior. O chocolate da Lindt é, de algum modo, mais interessante: o meio-amargo, a consistência da barra produzem um jogo entre facilidade e desprazer, entre a suavidade do derretimento e o amargor, entre o doce, o amargo e o salgado da avelã, de que o chocolate da Garoto é incapaz.

 

A barra da Lindt me leva a uma sensação estética, isto é, intelectual; sabe do prazer que é capaz de administrar em mim, e, sabendo disso, tem condições de negá-lo, de adiá-lo. Por ignorância com relação aos próprios meios, o chocolate da Garoto me dá prazer imediato, sem saber dos poderes que é capaz de ter sobre mim.

 

Valor estético é prazer adiado; quando mais austero, mais estético; ou melhor: quanto mais consciente de si mesmo, mais duradouro.

Escrito por Marcelo Coelho às 03h52

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mulheres pianistas

 

Recomendei um site de tangos (http://www.todotango.com.ar) para quem se deprime, como eu, no final de ano. Mas para quem quiser começar 2007 num estado mais eufórico, nada melhor do que ouvir a primeira faixa de “Women at the Piano vol. 1” coletânea de gravações históricas lançada recentemente pela Naxos.

 

O CD, com boa qualidade sonora, abre com a legendária pianista Monique de la Bruchollerie (1915-1972) interpretando uma “Toccata” de Saint-Saëns, no típico estilo virtuosístico das paráfrases de concerto. No caso, trata-se de uma fantasia pianística em torno de temas do Concerto número 5, “O egípcio”, do próprio Saint-Saëns. Como em todas as outras faixas de CDs, há um terrível acúmulo de trabalheira digital, com dedinhos saltitantes à direita e trovoadas monstruosas à esquerda, mas a música de Saint-Saëns é de uma alegria, de um repique de notas repetidas, de uma sabedoria psicológica em deixar o ouvinte feliz a cada retorno de seus temas, que é capaz de garantir um ano auspicioso a pessimistas bem mais tenazes do que eu.

 

Na segunda faixa, a brasileira Guiomar Novaes (1895-1979) é quem faz bonito, numa peça cintilante de seu professor no Conservatório de Paris,  Isidore Phillip. “Feux-follets” é uma obra de grande virtuosismo, e bastante bonita; dá pena que não tenham incluído nessa coletânea outros momentos de grande bravura técnica de Guiomar Novaes, como a marcha das “Ruínas de Atenas” de Beethoven, e uma memorável gravação do Capricho de Saint-Saëns sobre melodias de “Alceste” de Gluck; isso está disponível num CD nacional que também traz Guiomar Novaes e Otto Klemperer no 4o concerto de Beethoven.

 

Outras preciosidades de “Women at the Piano 1” são Marguerite Long tocando uma peça de Milhaud (“Alfama”, uma miniatura comparável às de “Saudades do Brasil”), Myra Hess brincando lindamente com os “Poissons d’ Or” de Debussy, e Reah Sadowsky (quem??) tocando nada menos que o “Corta-Jaca” de Fructuoso Vianna.

 

Música leve, sem dúvida. O lado mais pesado, se há algum, fica a cargo de Gaby Casadesus, que despeja toneladas numa pobre peça de Couperin, e de Harriet Cohen, que desvencilha-se de uma enfarruscadíssima espécie de passacaglia escrita por sir Arnold Bax. A foto no alto deste post mostra Harriet Cohen, muito bonita com seu curioso decote quadrado, ao lado de Bax. A legenda do site em que pesquisei nos informa que Bax e Cohen foram “close friends, and occasional lovers.” 

Escrito por Marcelo Coelho às 19h41

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natal funesto

natal funesto

Cuidados com a saúde são importantes nesta época do ano, lembra o cronista do "Agora". Assinantes podem ler em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2812200604.htm 

Escrito por Marcelo Coelho às 19h00

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overbooking ao molho branco

Lembro dos começos da TAM, quando além do tapete vermelho para os passageiros havia um piano e bufê na sala de embarque... O tipo da coisa que você olha e pergunta quanto tempo vai durar. Na última viagem que fiz pela companhia, destroços daquela época tentavam ainda levantar-se aos olhos do passageiro incauto. Eles anunciavam com voz séria o sensacional “festival de massas” que seria servido aos viajantes.

 

Nunca, nem nos meus tempos de bebê, pus na boca uma massamorda tão viscosa e repugnante. Era uma espécie de mingau branco e frio, de consistência tão incerta e densa que era impossível distinguir entre o que era molho e o que era capelete.

 

Festival de massas? Para encontrá-lo, basta ficar no saguão do aeroporto, onde as filas se trançam num confuso e fervente macarrão, entre almôndegas de bagagem, num alarido “all’ arrabiata”.

 

Avião, para mim, devia ser como ônibus: uma catraca e um cobrador. È transporte de massas mesmo, e foi com alívio que vi entrar em funcionamento o sistema da Gol, onde em vez daquele cartão de embarque grandão, que temos medo de dobrar e pôr no bolso, foi adotado um papelzinho com cara de nota fiscal, sem nenhuma pretensão.

 

Há vinte anos, fiz um vôo doméstico na Alemanha, no qual o serviço de bordo fora simplesmente abolido. Havia um cabidão, tipo mancebo, no portão de embarque, onde se penduraram lancheiras com um sanduíche ou coisa que o valha. Você pegava a lancheira, comia quando e se quisesse, e nada mais.

 

Coisa atrasada e ridícula é aquele carrinho que as comissárias vão empurrando no corredor estreitíssimo, e que bloqueia por meia hora o cidadão que quer entrar ou sair do banheiro... Basta ver aquilo para perceber que está com os dias contados, como se fosse uma carroça de catador de papel no meio de uma avenida congestionada.

 

Mas a própria TAM deu um passinho à frente, quando adotou o check-in eletrônico. Comprar passagem pela internet, chegar num terminal do aeroporto, digitar a senha e sair com o cartão de embarque já é um grande avanço. Quando, naturalmente, há vôos.

 

Termino com duas considerações impopulares. A primeira é que, por mais justa que seja a indignação dos passageiros com o caos atual, as coitadas das atendentes no balcão das companhias aéreas deveriam ser tratadas com mais respeito e compreensão. Mesmo em épocas normais, a primeira coisa que todo mundo faz é xingá-las a qualquer pretexto. Em geral, elas não podem mesmo fazer nada.

 

A segunda é sobre a questão do overbooking. Deve haver exagero nas empresas brasileiras. Mas acabar totalmente com qualquer overbooking, como prometeu o ministro Waldir Pires, é uma medida que as empresas aéreas podem contestar com certa razão. Numa revista da British Airlines, que não é nenhuma Varig, li uma explicação convincente sobre o overbooking.

 

Quando você compra uma entrada no teatro, e por algum motivo não vai ao espetáculo, você perde o dinheiro da entrada. Se quiser ir de novo, tem de comprar outra. Mas quando por algum motivo você não aparece no vôo, o bilhete que você comprou continua valendo para os vôos seguintes. Há um número de pessoas que não se apresentam no check-in, e com base nesta porcentagem estatística é lícito calcular um índice de overbooking. Claro que, quando há mais passageiros do que lugares, o procedimento das companhias decentes é oferecer vantagens financeiras para quem desistir. Mas, como princípio geral, não é tão absurdo quanto parece.

 

É só um raciocínio. Naturalmente, espero comentários dizendo que sou financiado pela TAM e pela Gol, como os que me acusaram, num artigo a favor dos trens, de ser financiado pelas construtoras de rodovias. Cada um viaja como bem entende.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h07

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um poema de João Cabral

Estava com este poema de João Cabral de Melo Neto na cabeça quando escrevi sobre a troca de presentes, no artigo para a Ilustrada de ontem (ver post anterior). Acabei não citando, uma leitora fez a mesma associação, mandando o poema por e-mail. Aqui vai.

 

 

Tecendo a Manhã

    Um galo sozinho não tece uma manhã:
    ele precisará sempre de outros galos.
    De um que apanhe esse grito que ele
    e o lance a outro; de um outro galo
    que apanhe o grito que um galo antes
    e o lance a outro; e de outros galos
    que com muitos outros galos se cruzem
    os fios de sol de seus gritos de galo,
    para que a manhã, desde uma teia tênue,
    se vá tecendo, entre todos os galos.
                     2.   

    E se encorpando em tela, entre todos,
    se erguendo tenda, onde entrem todos,
    se entretendendo para todos, no toldo
    ( a manhã) que plana livre de armação.
    A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
    que, tecido, se eleva por si, luz balão.
                            

Escrito por Marcelo Coelho às 10h06

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voando com Papai Noel

voando com Papai Noel

As dificuldades para viajar no Natal mostraram-se especialmente agudas para o sr. Petrelli. Leia a crônica do "Agora" em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2712200602.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 17h30

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presente e veneno

No artigo de hoje, sobre o hábito de trocar presentes, citei uma famosa análise de Marcel Mauss, publicada entre os anos de 1923 e 1924, o “Ensaio sobre a Dádiva”, mas não dei a indicação bibliográfica da tradução. Faz parte da coletânea “Sociologia e Antropologia”, publicada pela Editora Pedagógica Universitária e pela Edusp, nos anos 70. O livro conta com uma fundamental introdução de Lévi-Strauss, que contesta, em parte, a argumentação do autor.

O trecho mais bonito, e mais “mágico”, do raciocínio de Mauss está na idéia de que, para os indígenas, a troca de presentes não envolve apenas uma relação entre pessoas, ou grupos, mas sim a circulação de uma espécie de força espiritual. As coisas, e não as pessoas, têm vida, não são objetos inertes.

Se eu der um presente a alguém, e essa pessoa o repassar a uma terceira, o “hau” daquele objeto, que veio de mim, poderá tornar-se uma carga maléfica. Se a terceira pessoa retribuiu o presente recebido com outro presente, esse presente terá necessariamente de ser devolvido a mim, para que se complete o círculo. Se não houver retribuição, isto é, troca de “haus”, o hau acumulado em quem ganhou o presente poderá matá-lo.

Uma associação interessante é feita por Mauss: em inglês, “gift”, “presente”, é a mesma palavra, “Gift”, que os alemães usam para designar “veneno”.

Se for assim, melhor do que investir nossos presentes de afetividade pessoal, talvez seja mesmo indicado que sirvam apenas como objetos neutros numa relação de troca... o feitiço pode virar-se contra o feiticeiro.

Mas é bonito que em nossa cultura, marcada pela impessoalidade dos amigos secretos, intervenha uma entidade que dá sem receber nada em troca: antigamente, tratava-se do Menino Jesus, e hoje é o Papai Noel. Os brinquedos que as crianças recebem nessa ocasião estão dotados, sem dúvida, de uma força mágica suplementar graças a essa intervenção. E do “olho por olho, dente por dente”, do Antigo Testamento, passa-se a esse tipo de doação incondicional, sem troca, puro sacrifício, que é o sentido que deveria ter o Natal para os cristãos. Mas no próprio cristianismo, vale acrescentar, existe o “é dando que se recebe”, de São Francisco de Assis. Reciprocidade, afinal, é questão de justiça; a caridade, por sua própria natureza, tem um papel suplementar em qualquer lugar do mundo. “Ama teu próximo como a ti mesmo” já é um paradoxo, à medida que supõe algum egoísmo de base... sobre isso –e o tamanho deste “isso” é gigantesco—vale a pena ler um livro do filósofo Vladimir Jankélévitch publicado pela Papirus, “O Paradoxo da Moral”.

Texto do artigo na "Ilustrada": http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2712200618.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 17h27

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saudade dos trens

saudade dos trens

 

 

Sempre se diz que o trânsito não melhorará nunca em São Paulo, a não ser que se invista em transporte coletivo –o que significaria, basicamente, aumentar as linhas de metrô (quando haverá dinheiro para isso?) e melhorar os serviços de ônibus (mais ônibus? e qual o dono de carro que se dispõe a usar um ônibus?).

 

Mas o problema do trânsito não se limita ao perímetro urbano.  Quando se vê a bagunça nos aeroportos, e os congestionamentos gigantes na saída para o litoral, fica claro que o transporte coletivo também teria de ser incentivado nas viagens para fora de São Paulo. Seria ótimo, nesta conjuntura de crise, se houvesse trens de passageiros para Santos, Guarujá, Rio, Londrina ou Curitiba; algum desafogo isso haveria de trazer.

 

Só que ferrovias são coisa do passado. Em O trem, belo livro organizado por Angélica de Moraes  para a editora Metalivros, com quadros de Thomaz Ianelli e textos de escritores como Ignácio de Loyola Brandão, Carlos Heitor Cony e Lygia Fagundes Telles, é como se entrássemos em contato com uma realidade completamente extinta, contemporânea dos tílburis e dos lampiões de gás.

 

Nascido em Araraquara, em 1936, Ignácio de Loyola Brandão aparece com uma evocação extremamente precisa do cotidiano das estações de trem (seu tio José era chefe de estação). Também o texto de Carlos Heitor Cony revela uma infância acostumada às viagens de trem, às minúcias dos horários e das composições. O S-5, que levava o narrador de férias à cidade de Rodeio, saía do Rio às 17h30. Fazia uma parada em Japeri; hora de comer sanduíches de presunto. E então “um apito comprido, lancinante, anunciava três coisas: que a noite caíra; que começaríamos a subida da serra, passando por diversos túneis de tamanhos diversos mas de cheiro único; e que o S-5 ia partir.”

 

Partiu, partiram todos. As imagens de Ianelli, pintadas com as cores da memória, e turvas como se nos mostrassem o mundo debaixo d’água, evocam esses trens de sonho, perdidos em muitas infâncias de outros tempos.

 

           Gravura de Thomaz Ianelli

Escrito por Marcelo Coelho às 22h32

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tango argentino

Para os que se deprimem no final de ano, como eu, não há melhor site de tangos do que este: http://www.todotango.com/spanish/main.html

Escrito por Marcelo Coelho às 01h56

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Gide numa festa

Gide numa festa

Das memórias de infância de André Gide, que compõem boa parte de seu livro Se o Grão não Morre, retiro este trecho, que é sobre uma festa, mas faz sentido numa véspera de Natal:

Já estou deitado, mas um rumor singular, um frêmito na casa de alto a baixo, aliados a vagas harmoniosas, afastam o sono de mim. Sem dúvida eu tinha notado, durante o dia, os preparativos. Sem dúvida tinham me dito que iria haver um baile nessa noite. Mas um baile, o que é? Eu não tinha dado importância e estava na cama como nas outras noites. Mas esse rumor agora...  Eu escuto; tento surpreender um som mais distinto, compreender o que se passa. Apuro o ouvido. No fim, sem agüentar mais, me levanto, saio da cama às apalpadelas no corredor escuro e, descalço, ganho a escada cheia de luz. Meu quarto é no terceiro andar. As ondas de som sobem do primeiro; tenho de ir ver; e à medida que me aproximo de degrau em degrau, identifico sons de vozes, o roçar de tecidos, murmúrios e risos. Nada tem o ar de costume; parece-me que vou ser iniciado de repente numa outra vida, misteriosa, diversamente real, mais brilhante e patética, e que começa só quando as crianças foram para a cama. Os corredores do segundo andar, tomados pela noite, estão desertos; a festa é lá embaixo. Avanço um pouco mais? Vão me ver. Serei castigado por não dormir, por ter visto. Passo minha cabeça entre os ferros da balaustrada. Justamente, os convidados estão chegando, um militar em uniforme, uma senhora toda em laços, toda em seda; ela segura um leque; o empregado, meu amigo Vitor, que eu não reconheço de imediato por causa de sua calça-culote e das meias brancas, se posta diante da porta aberta do primeiro salão e anuncia os convidados. De repente alguém salta em minha direção: é Marie, minha babá, que como eu está tentando ver o baile, escondida um pouco mais abaixo, no primeiro ângulo da escada. Ela me toma em seus braços; acho primeiro que ela vai me levar de volta ao meu quarto, me prender lá; mas não, ela faz questão de me levar para baixo, ao contrário, até o lugar em que ela estava, onde o olhar colhe um fiozinho da festa. Agora eu ouço perfeitamente a música. Ao som dos instrumentos que não consigo ver, cavalheiros turbilhonam com suas damas enfeitadas, que são todas muito mais bonitas que as mulheres do meio do dia. Cessa a música. os dançarinos estacam; o som das vozes substitui o dos instrumentos. Minha babá vai me levar de volta, mas nesse momento uma das belas damas, que se encostara perto da porta e abanava o leque, repara em mim, vem, me beija e ri porque não a reconheço. É evidentemente aquela amiga de minha mãe que eu vi precisamente nesta manhã; mas ainda assim eu não estou muito certo que seja mesmo ela, que seja ela realmente. E quanto volto à minha cama, tenho as idéias todas confusas e penso, antes de mergulhar no sono, confusamente: existe a realidade e existem os sonhos; e depois existe uma segunda realidade.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h45

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Regina Silveira

"Silhueta" em homenagem a Duchamp,  da década de 80.

Projeção no Centro Cultural Banco do Brasil, 2003.

São sempre belíssimas e paradoxais as obras da artista plástica Regina Silveira. Ótimo que tenha inaugurado um site no uol: http://reginasilveira.uol.com.br/

Escrito por Marcelo Coelho às 16h18

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Faço um pedido a Papai Noel, mas não é diretamente para mim. Gostaria que ele desse óculos novos a Monica Serra e a Marco Aurélio Garcia. A superexposição de algumas pessoas leva a gente a implicar com alguns pormenores de sua aparência, e pessoalmente não agüento mais ver aqueles dois modelitos.

 Marco Aurélio Garcia...

e Monica Serra (aqui ficou um modelito mesmo, dada minha inépcia com editores de foto):

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h13

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clássicos tarja preta

Os operadores do mercado financeiro têm uma gíria muito própria, e não será pleonasmo dizer que é riquíssima. Determinados fundos de investimento, excessivamente conservadores, isto é, envolvendo pouco risco, são considerados “calmos”. Há os “nervosos”, como se sabe; e há os absolutamente arriscados: são os “tarja preta”.

 

Tendo a ser “tarja preta” em minhas apostas musicais. Gosto de comprar CDs de compositores sobre os quais não tenho nenhuma informação, fugindo de Brahms ou Béla Bartok, investimentos “seguros”, mas de quem já possuo, em todo caso, o essencial em muitos LPs.

 

Inicio aqui uma série de posts que podem constituir um guia para quem gosta de música clássica “tarja preta”; obras desconhecidas de compositores ainda mais.

 

Arrisquei comprando um Cd de compositores contemporâneos da África. Achei que seriam capazes de uma invenção rítimica comparável, no século 21, à revolução que Stravinsky representou no século 20. Mas o CD da Naxos “Five African Songs”, com obras do sul-africano Mzilikazi Khumalo, do holandês Peter van Dijk e do nigeriano Samuel Akpabot soa excessivamente comportado, como um pastiche de Aaron Copland, ou comida mexicana em restaurante de hotel cinco estrelas na Califórnia.

 

Uma boa surpresa, embora também convencional, é a obra da compositora italiana Elisabetta Brusa, nascida em 1954, que aparece em dois CDs, também  da Naxos. Como tanta música orquestral do século 20, seu comprometimento com a tonalidade romântica dá às obras de Elisabetta Brusa o ar de serem scores para filmes que ainda não foram feitos. Os dois discos apresentam, na maior parte do tempo, poemas sinfônicos que lembram fortemente as lições de Respighi e Malipiero. Mas “Florestan”, que abre seus “Orchestral Works, vol. 1”, tem um grande poder hipnótico, graças a um fantasmagórico tema de três notas ascendentes, como se –desculpem-me se incorro em algum erro técnico—uma tríade menor tivesse o efeito de resolver-se em tom maior. Tudo é grandiloqüente, e mesmo carregado de certa obesidade; um crítico inglês disse que Elisabetta Brusa é excelente no uso das tubas. Mas achei bonito mesmo assim.

 

Outra boa surpresa foi o Concerto para Violino de Paul Hindemith, que saiu numa série de CDs homeageando o regente Karel Ancerl, do antigo selo tcheco Supraphon. Durante um bom tempo, Hindemith (1895-1963) foi considerado um dos cinco grandes compositores do século 20, ao lado de Stravinsky, Schoenberg, Bártok e Prokofiev. Sua estrela declinou bastante, à medida que o século 20 avançava, e foi-se percebendo a chatice neoclássica do autor, uma espécie de Bruckner descarnado. Sempre gostei do tom afirmativo e austero, quase “românico”, de sua sinfonia “Mathis der Maler”. No Concerto para Violino (heroicamente interpretado por André Gertler neste CD) austeridade e afirmação se transformam em pura alegria, desde os primeiros toques de tímpano que iniciam a obra, numa homenagem clara ao concerto para violino de Beethoven. Há um tom jocoso, brilhante e peremptório em todo o primeiro movimento da obra, que a faz merecedora de muitas audições.

 

Do dinamarquês Carl Nielsen (1865-1931) eu conhecia sua famosa e ampulosa Quarta Sinfonia, não sei se numa involuntária ironia cognominada “A Inextingüível”. Valeu a pena sobreviver àquela rimbombante obra orquestral para conhecer seu Concerto para Violino, op. 33, que começa numa intrincada, quase feia, cadenza para o instrumento solo, e se abre em seguida numa radiosa e calculada primavera. O tema inicial do primeiro movimento, ingênuo e dançante, é encantador em suas notas pontuadas, e logo se ensombrece na orquestra, com uma instabilidade “meteorológica”, por assim dizer, que exige novas cadências do violinista; raras vezes amabilidade e virtuosismo técnico foram combinados tão harmoniosamente como nesse concerto. A inspiração, aqui, vem de Concerto no. 1 de Max Bruch; mas Nielsen evita as vulgaridades de seu modelo. 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h13

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Os lampiões de Quintana (2)

Segue-se uma breve análise de outro poema de Mário Quintana.

         SEGUNDA CANÇÃO DE MUITO LONGE

 

 

                  Havia um corredor que fazia cotovelo:/Um mistério encanando com outro mistério, no escuro.../Mas vamos fechar os olhos/E pensar numa outra cousa...//Vamos ouvir o ruído cantado, o ruído arrastado das correntezas no algibe,/Puxando a água fresca e profunda./Havia no arco do algibe trepadeiras trêmulas./Nós nos debruçávamos à borda, gritando os nomes uns dos outros,/         E lá dentro as vozes ressoavam fortes, cavernosas como vozes de leões,/Nós éramos quatro, uma prima, dois negrinhos e eu./Havia os azulejos reluzentes, o muro do quintal, que limitava o mundo,/Uma paineira enorme e, sempre e cada vez mais, os grilos e as estrelas./Havia todos os ruídos, todas as vozes daqueles tempos.../As lindas e absurdas cantigas, tia Tula ralhando os cachorros,/O chiar das chaleiras.../         Onde andará agora o pince-nez da tia Tula/         Que ela não achava nunca?/A pobre não chegou a terminar a Toutinegra do Moinho,/Que saía em folhetim no Correio do Povo!.../A última vez que a vi, ela ia dobrando aquele corredor escuro./Ia encolhida, pequenininha, humilde. Seus passos não faziam ruído./E ela nem se voltou para trás![i]

 

         A força deste poema, sem dúvida, está no enganoso contraste que propõem suas duas estrofes iniciais. Recusando-se a persistir na imagem sinistra do “corredor que fazia cotovelo”, o poeta convida o leitor a “fechar os olhos/ e pensar noutra cousa...” Todavia, o que se segue não é uma paisagem solar e radiosa, mas outro espaço sombrio e enigmático; ao corredor escuro sucede-se um poço profundo, e o maior contraste entre os dois lugares está, apenas, na contraposição entre a dimensão horizontal, “que faz cotovelo”, e a vertical, do algibe. Este possui, entretanto, uma virtualidade acústica que o corredor não apresenta; na beira do poço, “havia todos os ruídos, todas as vozes daqueles tempos”, enquanto a tia Tula some pelo corredor, e “seus passos não faziam ruído”. No plano horizontal, a sucessão do tempo terá forçosamente de ser interrompida, como a leitura dos folhetins publicados no Correio do Povo. Já o plano vertical, feito de interioridade e de memória, pode guardar –e mesmo amplificar—os sons de outro tempo, que se puxam, se arrastam e seguem o andar das trepadeiras, vencendo, como a água que se retira com esforço do poço, a escuridão.

         Esse jogo entre o horizontal e o vertical, entre o desaparecimento e a memória, não seria também o jogo entre a prosa e o verso, entre as sonoridades recolhidas no poema e a fala passageira do jornal? “Non, je ne veux ni prose, ni vers”, declarava famosamente o M. Jourdain de Molière, lembrado na epígrafe de Sapato Florido. A vasta e constante produção de circunstância de Mario Quintana, em especial a de seu Caderno H, por muitos anos publicada no Correio do Povo, surge assim quase como resultado de um “parti-pris” programático. Esquecimento e memória, corredor e poço, tudo o que é passagem e horizontalidade, assim como tudo o que é permanência e profundidade, pertencem a um mesmo “sistema”, onde, para lembrar o verso do autor, há “um mistério encanando com outro mistério".

Escrito por Marcelo Coelho às 00h14

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Os lampiões de Quintana

Os lampiões de Quintana

Acabo de escrever um artigo mais ou menos longo sobre Mário Quintana, para uma revista de Minas. Abordei as relações de sua poesia com a experiência da vida urbana, em especial a das cidades de província, onde ainda existiam ruas com lampiões. O tema é recorrente na obra do escritor gaúcho; neste post, transcrevo a análise que diz de um pequeno poema em prosa.

Na poesia de Mário Quintana, as luzes do subúrbio como que brilham eternamente.

         Por vezes, a menção ao “último lampião de rua” é apenas isso, uma menção, capaz de por si mesma resumir toda a emoção poética do autor:

 

 

                            BOCA DA NOITE

 

 

O grilo canta escondido... e ninguém sabe de onde vem seu canto... nem de onde vem essa tristeza imensa daquele último lampião de rua...

 

Na simplicidade extrema do poema em prosa de Sapato Florido, pode-se de qualquer modo notar uma leve ambigüidade: o primeiro pronome demonstrativo, referindo-se a “essa tristeza imensa”, dá uma idéia de proximidade que justamente o pronome seguinte (“daquele”) mergulha novamente na distância. Entre o próximo e o distante, há o som do grilo, que “ninguém sabe de onde vem”. Sem usar de rimas, naturalmente, o texto ressoa de ecos em suas vogais repetidas de quando em quando: “ninguÉm/ vEm/nEm”, como se fossem, ao mesmo tempo, os gritos do grilo repetidos na noite, e as lâmpadas enfileiradas, a intervalos, da iluminação de rua. Estamos, de qualquer modo, a acompanhar as sensações de uma subjetividade estática, contemplativa, cujas interrogações e dúvidas se diluem em reticência, e que permite, em silêncio, ao ritmo do poema ser ocupado apenas pela pontuação sonora dos grilos, e visual, dos lampiões.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h07

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luzes do Natal

luzes do Natal

Casas enfeitadas são uma alegria nesta época do ano. Mas podem dar origem a situações difíceis, para o cronista do "Agora". Leia em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2212200603.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 00h00

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site de humor

O prazer das abobrinhas, desde que articuladas, pode ser encontrado no site "A Hortaliça"  http://www.hortifruti.org/ É tão criativo que dá nos nervos, tão inspirado que deixa a gente sem ar, tão juvenil que você fica cansado depois de alguns minutos, mas vale a pena dar uma olhada.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h57

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um poema de Joë Bousquet

um poema de Joë Bousquet

Citei num post anterior uma frase do poeta francês Joë Bousquet (1897-1950). Aqui vai um poema inteiro, alternando verso e prosa, sobre dois tipos de noite e escuridâo: a da Terra, quando o sol se põe, e a que existe dentro de nosso próprio corpo.

 

A ANDORINHA BRANCA

 

 

Não há noite sobre a terra; a escuridão está à ronda e erra em volta do negrume. E sei de trevas tão absolutas que toda forma passeia um clarão por ela e lá se torna o pressentimento, talvez a aurora de um olhar.

 

Essas trevas estão em nós. Uma escuridão devoradora nos habita. O frio do pólo estão mais perto de mim que esse inferno fétido onde eu não poderia respirar a mim mesmo. Nenhuma sonda medirá essas espessura: pois minha aparência está num espaço e minhas vísceras estão em outro; ignoro-o, porque meus olhos, minha voz, nem o ver, nem o ouvir, não estão nem num nem noutro.

 

É dia teu olhar exilado do rosto/Não mais encontra teus olhos rodeados de ti mesmo/Mas sim um duplo espelho fechado sobre outro espaço/Do qual a estrela mais alta se extinguiu em tua voz.//Sobre um corpo que se prateia no avanço das marés/O dia amadurece o esquecimento de um pólo imaculado/E molha em teus longos cílios uma estrela morta/Com o arco-íris que ele canaliza até as raízes do trigo.//Os dias que o odor do trigo faz dormir em teus rosados flancos/Se colhem em teus olhos que se abrem sem te ver/E suas asas de seda envolvem na tua noite cerrada/A terra onde toda noite é apenas o fruto de um dia./A sombra esconde um passante de ausências perfumadas/Faz perder em tuas mãos o dia que foram teus olhos/E como na corola de um lírio sua brancura consumada/Desfaz ao fio da tarde um céu grande demais para ela.

 

Escurece em mim, mas não sou essa treva embora tenha peso bastante para nela afundar um dia. Essa noite existe: é como se tivesse feito meus olhos de hoje e me fechasse ao que eles vêem. Cores azuladas daquilo que só vejo com minha fundura, vermelhos que meu sangue ilumina, negror que vê meu coração...

 

Noite do céu, pobre sombra que desabrocha, é noite só para meus cílios.

 

Bem pouca cinza produziu este buquê de pálpebras/E o que é essa cinza e esse mundo apagado

/Quando seus punhos de adormecido guardam toda a terra/Onde o amor e a noite não começaram jamais.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h43

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subindo de nível

subindo de nível

Nesta época de donativos, a moralidade das ongs pode, por vezes, entrar em discussão. Leia a crônica do "Agora" em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2112200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 14h38

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peixaria

peixaria

Na série de cartazes populares, esta fachada de peixaria é uma obra-prima de invenção.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h19

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uma frase de Bachelard

Releio "A Poética do Espaço", de Gaston Bachelard, porque estou terminando um ensaio sobre a poesia de Mário Quintana, em que trato de sua fixação na imagem dos "útimos lampiões de rua", das esquinas que vão dar no desconhecido, e do interesse do poeta na profundidade dos pátios e dos poços. Haveria, no meu entender, um jogo entre a horizontalidade temporal das ruas que vão dar em lugar nenhum, e a profundidade dos poços e porões onde se guarda a memória do passado.

"A Poética do Espaço", de Bachelard, que para mim é mais um livro de crítica literária que de filosofia, insiste na experiência psicológica da "casa". Combatendo o existencialismo de Heidegger e de Sartre, para os quais a experiência de viver é a de ser "jogado" (geworfen) no mundo, Bachelard lembra que, antes de ter essa experiência metafísica, quem nasce, em geral, nasce dentro de uma casa; a experiência fenomenológica de uma casa é anterior a toda metafísica...

Será? Quem nasce não "entra" numa casa, e sim "sai" de outra muito melhor. O desamparo diante da ausência da mãe é mais constitutivo do que a aventura, infinitamente doce e assustadora, proporcionada pela casa da nossa infância. Lembro-me dos lugares que me amedrontavam na casa dos meus pais: a sala de estar, onde havia o quadro de uma mulher com um olho só... E havia o imenso prosaísmo iluminado da copa, os babados e debruns perfumados da penteadeira de minha mãe, o atulhado quarto da cozinheira, com seu cheiro de arruda e a imagem de São Jorge...

Esqueço-me da frase de Bachelard, que denuncia a "doce mania de acreditar que sempre sou o sujeito do que penso". Na verdade, pensar é também usar de imagens criadas pelos outros; ele descreve uma insônia em Paris, onde o ruído dos caminhões se torna suportável e embalador se recorrermos a uma imagem banal, a de que a cidade é um vasto oceano cheio de rumores.

Mas, se o sentido de "pensar" for esse, o de incutir no mundo das sensações a vida das imagens, o resultado será o de adormecer, não o de ficar desperto... è por isso, aliás, que os bebês dormem tanto: passam da experiência física à faneroscopia, ao devaneio ótico, com aventurada rapidez. 

escrevo estas linhas, talvez, como aquela pessoa descrita poeta Joë Bousquet, também citado por Bachelard: "é um homem de um só andar: tem seu porão em seu sótão". 

 

 O poeta Joe Bousquet

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h33

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Os filmes de Fernando Sabino

Não são curtas-metragens; são curtíssimas-metragens os documentários sobre escritores brasileiros feitos por Fernando Sabino e David Neves, agora reunidos num único DVD, “Encontro Marcado com o Cinema de Fernando Sabino”.

 

Dessa série de perfis (enfocando Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, Afonso Arinos de Mello Franco, José Américo de Almeida, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, João Cabral de Melo Neto, Pedro Nava e Érico Veríssimo), poucos escapam de ser uma decepção completa.

 

A narração, com uma voz típica de Primo Carbonari ou da “Voz do Brasil” dos anos 70, carrega nos clichês. Érico Veríssimo está contemplando uma bela paisagem de trigais maduros, perto de sua Cruz Alta natal. O locutor considera que a fertilidade da terra gaúcha tem na obra de Veríssimo um legítimo representante; recolhido à intimidade de sua bela casa na praia de Tambaú, José Américo de Almeida ainda vê acorrerem em busca de seus sábios conselhos políticos os líderes de sua região... e por aí vai. Mesmo quando um grande crítico, como Alceu de Amoroso Lima, fala da obra de José Américo (que um artigo seu consagrou na década de 1930), a generalidade e o clichê de suas declarações rapidíssimas é o que mais chama a atenção.

 

Sem aspirar à condição de minibiografias, os documentários passam rapidamente por fotos de arquivo, quase nunca identificando quem é quem; as declarações e frases dos próprios escritores quase sempre são rápidas, preguiçosas. Caso extremo é o do filme sobre Guimarães Rosa, em que a voz do autor só é ouvida nos últimos segundos: trata-se do áudio de algumas frases de seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras. O principal do filme são imagens de boiadas e das capas dos livros de Rosa; há também, para que tudo não fique perdido, um “causo” bastante tosco narrado pelo mitológico Manuelzão, e alguns depoimentos dos boiadeiros que acompanharam o escritor em sua conhecida viagem pelos sertões de Minas. Ficamos sabendo, se é que não sabíamos, que Guimarães Rosa anotava tudo o que lhe diziam, num caderninho; escrevia sem parar, mesmo montado no cavalo.

 

Frases genéricas, mas ainda assim sábias e ditas num português admirável, são as de Afonso Arinos de Mello Franco sobre os hábitos da velhice; a entrevista que apresenta conceitos mais sofisticados, de todo modo, é a de Pedro Nava, discorrendo sobre o caráter infinito da memória: o instante que acabou de passar já está a milhares de quilômetros de nós, e por isso o memorialismo é feito de matéria inesgotável.

 

No fundo, o que os documentários de Fernando Sabino têm de mais interessante não é o que os escritores dizem de si mesmos, mas sim as casas em que moram. O palacete branco em Botafogo de Afonso Arinos, o apartamento escuro, atulhado de fotos, de Pedro Nava, as mesas limpas ou bagunçadas de Érico Veríssimo ou Jorge Amado. A casa de Jorge Amado no Rio Vermelho é um ponto turístico, atulhada de visitantes; a de Érico Veríssimo, cheia de netos, é o palco de suas brincadeiras: ei-lo fingindo-se de samurai ou de mágico, atraindo as vaias ou a admiração da criançada. O apartamento de Nava, com vista para a baía da Guanabara, sufoca de reclusão.

 

Mas o lugar mais solitário, o filme mais solitário, a vida mais solitária são sem dúvida os de Manuel Bandeira. O curta de Fernando Sabino aproveita na íntegra um filme anterior de Joaquim Pedro de Andrade, em preto e branco: poucos minutos de intensa expressividade. Manuel Bandeira mora num apartamento minúsculo, num daqueles prédios brancos de mil janelas perto do centro do Rio. Levanta-se, vai à rua, com o litro de leite vazio nas mãos, pára numa banca de jornais, segue em direção a uma vendinha; volta para casa e faz o café com leite numa panelinha que só dá para uma xícara; único luxo, para a época, é uma torradeira onde ele põe duas fatias de pão Pullman, que pegou com dificuldade, subindo na ponta dos pés (é baixinho), na parte mais alta do armário da cozinha.

 

A impressão de tristeza na vida de Manuel Bandeira se deve ao fato de que, além de solitário, ele tinha uma feiúra sem precedentes em nossa história literária (João Cabral, que não era nenhum Apolo, surge como um elegante James Bond em outro filme, abrindo portas escondidas entre os lambris do Itamarati). Mas logo vemos Bandeira atender o telefone (um aparelho enorme, como seus óculos) e rir maravilhosamente. Essas cenas, filmadas sem som, não poderiam ser mais comoventes –e mais distintas do blablablá convencional que marca a maior parte desses documentários.

 

 Manuel Bandeira

 

 

 João Cabral

Escrito por Marcelo Coelho às 20h10

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a batalha do Chile

No artigo de hoje para a "Ilustrada", comentei a série de documentários dirigidos por Patricio Guzman sobre a crise final do governo Allende e o golpe de Pinochet. Não é preciso insistir no caráter sanguinário da ditadura de Pinochet. O que me choca, no documentário "A batalha do Chile", é a ausência de espírito crítico com relação aos erros da esquerda naquele período, como se ninguém soubesse dos limites impostos pela situação geopolítica da América Latina à radicalização da estratégia socialista. E também dos limites institucionais: sem maioria no parlamento, Allende tinha dificuldades em aprovar o mais insignificante projeto de lei. O pior é que o documentário, sem deixar de acusar o boicote da direita, trata a situação parlamentar de Allende como se tivesse sido resultado de uma "vitória" nas urnas. Vitória com apenas 40% das cadeiras a seu favor? O empenho em não ter uma visão real do processo histórico é irritante. Marx pode ter errado em seus prognósticos e cálculos econômicos, mas não lhe faltava lucidez. O martírio de Allende certamente inibe críticas a seu governo, mas sem avaliar o que aconteceu não se dá nenhum passo à frente.

Imagino mesmo que uma importante lição do caso Allende foi aprendida por Lula: manter a inflação baixa é essencial para a estabilidade de um governo; o poder, em certa medida, depende de sua capacidade de evitar o caos econômico. Não por acaso, o palácio onde Allende perdeu a vida se chamava Palácio de La Moneda.

Um ex-correspondente no Chile me mandou um importante e simpático e-mail, considerando que eu minimizei o poder do boicote americano à economia daquele país, e que a prática de sumir com alimentos essenciais desapareceu no dia seguinte ao golpe. Não estive no Chile, e respeito muito essas observações. Mas não invalidam o argumento do meu artigo: se isso tudo era evidente, foi assustadora a disposição de Allende e da esquerda de radicalizar o confronto, caminhando a largos passos para o suicídio político.

A íntegra do meu artigo está em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2012200624.htm

Um leitor me encaminhou um link para um texto publicado por organização inglesa simpática a Pinochet, que naturalmente contém fortes condenações a Allende e às ilegalidades dos movimentos de esquerda no período. Está em http://www.geocities.com/CapitolHill/Congress/1770/harris.pdf

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h17

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tempo quente

tempo quente

A indignação com o aumento salarial dos parlamentares toma conta da população. Mas um pouco de calma faria bem ao sr. Varela. Leia a crônica do "Agora" em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1912200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 13h18

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O crocodilo

O crocodilo

Nanni Moretti fez um filme ao mesmo tempo divertidíssimo e bastante complicado. Basicamente, “O Crocodilo” conta a história de um produtor de filmes “trash”, atolado de dívidas, sem nenhuma credibilidade, que há dez anos procura em vão um financiamento para realizar um filme sobre Cristóvão Colombo. Uma jovem e linda aspirante a cineasta põe em suas mãos um roteiro explosivo: trata-se de um filme-denúncia sobre a carreira do primeiro-ministro Berlusconi, o “crocodilo” (em português, a palavra mais exata seria “tubarão”). Sem ter lido o roteiro, o produtor se compromete a arranjar patrocínio para fazer o filme.

 

O projeto se revela de execução impossível numa Itália totalmente desinteressada de discutir política, intimidada pelo poder mafioso de Berlusconi, e sobretudo narcotizada pela televisão (Berlusconi é dono de vários canais). O país inteiro foge da verdade; e quem a conhece já se cansou de repeti-la.

 

Na vida pessoal, o produtor trash é igualmente incapaz de ser sincero e enfrentar os fatos. Está se separando da mulher, mas não consegue explicar a situação para os filhos.  Prefere entretê-los contando passagens malucas de seus antigos filmes. Cenas reais do cotidiano se misturam às aventuras absurdas de “Adria”, a sensual serial-killer de história em quadrinhos que é protagonista de suas produções. E se misturam também às passagens imaginárias do filme sobre Berlusconi.

 

Diversos níveis de “irrealidade” se combinam, portanto, em “O crocodilo”, com os mais variados efeitos cômicos. Mas conforme a história vai-se desenvolvendo, o filme se torna mais e mais sério –como se o aspecto bufão de Berlusconi fosse dando lugar a seu substrato mais sinistro e criminoso: na cena final, em que Nanni Moretti encarna com seriedade assustadora o papel do primeiro-ministro, não há mais como rir.

 

Ao mesmo tempo, a maluquice de história em quadrinhos e de comédia de costumes dá lugar, em algumas seqüências finais, a um outro tipo de irrealidade, mais poética, em que “o impossível acontece”, mas é um impossível impregnado de real. Assim, no meio da noite, uma enorme caravela cruza as ruas de Roma: está sendo levada, num caminhão especial, para um set de filmagem (a cena lembra claramente o cinema de Fellini). Ou então uma escavadora destrói os cenários do filme que o produtor tentava fazer: a cena é fantástica, bizarra, mas representa a violência dos fatos contra a falsidade do cinema –de um certo cinema, que Nanni Moretti critica de modo ao mesmo tempo profundo e brincalhão.

 

No fim, não sabemos se o filme contra Berlusconi foi “realmente” feito pelo produtor trash. Mas um outro filme, de verdade, contra Berlusconi foi feito: por Nanni Moretti.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 09h54

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o homem que não gostava de beijos

Não é para quem gosta de textos bem-comportados o novo livro de Edward Pimenta  , recém-lançado pela  editora Record. Cascas de psoríase, odores corporais, felação e pedofilia compõem boa parte das preocupações de seu protagonista, o misterioso Horace Catskill. Em cerca de trinta textos curtos, que oscilam entre ser contos e capítulos de romance, o personagem adquire diferentes idades e feições, e pode estar vivendo numa fazenda brasileira do século 18 ou transformar-se numa drosófila entrando no nariz de Michael Jackson.

 

Apesar desse jeitão “pós-moderno”, não há frivolidade nem maneirismo em “O homem que não gostava de beijos”. Edward Pimenta escreve com força, quase com brutalidade, mas sem abandonar o refinamento e a precisão. Eis um trecho.

 

 

Enquanto os pixels forem quadrados, a impressão de uma foto digital será sempre artificial. Estas imagens dispostas na tela, que há meses decidi guardar, são do funeral de um parente. Ela está imóvel em sua aterradora esqualidez, e o medonho derrame de suas veias faciais é improvável como um pictograma branco. Alta definição da morte, em vários ângulos, registro das presenças no enterro, tudo intermediado por uma imprecisão ultra-real de pixels quadrados.

 

Não seria preciso relatar essa atroz limitação –minhas palavras não ensejam nuanças mais verossímeis--, não fosse o senso de responsabilidade que anda me oprimindo; há tempos tenho pensado em apagá-las da memória. Mas sucede que a morte desta mulher de noventa anos ocorreu naturalmente, como se havia de supor naquele verão, perturbando uma ordem inatural de coisas. Mãe de minha mãe, lembro de vagos cafunés por ela desempenhados burocraticamente, e as gemadas, um pó-de-arroz onipresente, suas orelhas brancas de velha com brincos vaidosos, um sistema circulatório-tegumentar frágil como nata de leite.

 

Seria natural que mamãe estivesse presente. Teria pleiteado um caixão um pouco menos ordinário, compartilhado algumas dores com os irmãos. Mas, recém-saída de uma mesa de cirurgia, depois de uma angioplastia, duas safenas, e a troca de uma mitral de pele de carneiro por uma metálica, era de se imaginar que o médico proibiria fortes emoções. E, mesmo que quisesse, estava atada aos respiradores e provedores de soro, renascendo à base diária regular de hipnóticos.

 

(...) HC intuiu que a mãe, depois de recuperada, viveria um desconforto por não ter visto o coveiro negro rebocando as paredes da sepultura caiada. Daí as fotos “dirigidas” por ele em todos os detalhes. Algumas realmente imprestáveis, sem luz e foco, enquadramento ou piedade.

 

 Em verdade, as peripécias da mãe no Instituto do Coração davam a impressão, note bem, de que a parentalha logo se reuniria na mesma morgue, para o mesmo ritual, dentro de algumas semanas. Mas hoje em dia, como se diz, a medicina está um colosso. E a mãe recebeu alta com prognósticos de larga sobrevida. Antes de ir para casa [a] enfermeira deu-lhe a notícia do “passamento”. Presenciei seu choro impreciso, com soluços burocráticos de quem saía dali para a vida. Em uma semana, as visitas vieram com os melhores desejos e os pêsames embrulhados no mesmo pacote. A impressão era de que tudo não passara de um jogo de luzes. (...)

 

Sem contar a dramaticidade seca da situação -- a avó morta, a mãe na UTI, o registro fotográfico do enterro para que a mãe, recuperada, possa ver como foi—, o texto de Edward Pimenta dispõe de recursos muito inquietantes e sutis. Rimas internas, por exemplo (“recuperadas/caiadas”, “piedade/em verdade”) e repetições de palavras (“burocraticamente”/”burocráticos”) parecem indicar o espelhamento das duas situações hospitalares, resumida na frase “tudo não passara de um jogo de luzes”. O espelhamento e as luzes remetem, por outro lado, à tela do computador, ou da máquina digital, com sua lógica binária e sua técnica “objetiva” de preservar a memória em pixels, “fora”, por assim dizer, da subjetividade humana. E esse personagem impreciso, desumano, é quem vive, no livro de Pimenta, as experiências mais corporais, mais desagradavelmente humanas que se possa imaginar.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h58

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assédio telefônico

Houve um tempo em que me ligavam do banco sem parar. Não eram dívidas, felizmente. Era a oferta de “novos produtos”: seguro disso ou daquilo, planos de capitalização premiados, cartões, não sei mais o quê. Desconfio agora que, por trás desse constante assédio telefônico, estava em curso um assédio moral sobre minha gerente.

 

Já tratei do tema em post anterior, falando de horrores que aconteceram com funcionários da Ambev. Na “Folha” de hoje, há o caso de uma funcionária do HSBC, que ouviu de seu chefe a seguinte frase: “Caga sangue, mas faz”. Era para ela cumprir as metas de “vendas de produtos” do HSBC. Ele chegava perto dela, amassava um copo de plástico e dizia: “Olha o que acontece com quem não cumpre as metas desse mês.”

 

Melhor, em todo caso, do que ter um bode amarrado à própria mesa, o que acontecia com um funcionário da Ambev no Rio Grande do Norte.

 

Um dos efeitos desse sistema de incentivos à produtividade é que começam a ligar para a gente sem parar, propondo todo tipo de quinquilharia e vantagem; os campeões em casa são a Telefonica e a Net. Seria bom saber o que acontece do outro lado da linha.

 

Leia reportagem da "Folha" em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1712200610.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 10h02

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manifesto contra o aumento

Não é muito, mas já é alguma coisa. No site "petition on line", especializado em abaixo-assinados pela internet, já circula um manifesto contra o aumento de 91% autoconcedido pelos senadores e deputados federais. O link é http://www.petitiononline.com/oeleitor/petition-sign.html?

Escrito por Marcelo Coelho às 19h11

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comercial turco

Recebi por e-mail um arquivo com um belo anúncio de banco feito na Turquia. O link no youtube é http://www.youtube.com/watch?v=LYGqE9IODB8

Escrito por Marcelo Coelho às 18h23

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o cúmulo do cúmulo

O deputado José Múcio, do PTB de Pernambuco, defende o aumento de 91% do próprio salário porque a medida evitaria uma “fuga de cérebros”. Tendo a ser tolerante e respeitoso das instituições democráticas, mas num caso desses só esganando.

 

Pelo menos, um deputado do PT presentes à reunião conseguiu fugir da desmoralização geral, alinhando-se, como em outros tempos, aos rigores de Heloisa Helena e Chico Alencar. Foi Henrique Fontana, que não me havia impressionado bem durante a crise do mensalão.

 

Mas o cúmulo do cúmulo é o fato de que a maioria das assembléias legislativas estaduais já promoveram aumento salarial, em tempo recorde, na seqüência da decisão que beneficiou senadores e deputados federais. A assembléia legislativa de Rondônia fugiu à regra, e não decretou aumento nenhum. È que o presidente da casa estava preso até o fim do mês passado, não foi reeleito, e junto com 23 dos 24 parlamentares da assembléia está sob investigação policial.

 

Será que nenhuma organização da sociedade civil consegue organizar um protesto público? Isso, para mim, é o mais chocante. Não sei se seria impossível uma convocação via internet para um apitaço qualquer nas principais cidades do país... E também sonho com a eventualidade, num horizonte um pouco mais distante, de organizarem-se associações civis de eleitores, por exemplo: “grupo dos pefelistas insatisfeitos”, ou “bases de Antonio Palocci”, que pudessem pressionar seus representantes. Volta e meia, a avenida Paulista era ocupada por militantes conta a globalização ou categorias como bancários e estudantes protestando contra isso ou aquilo.

 

Será que a única mobilização de estudantes com chances de sucesso, hoje, seria uma passeata quando os cinemas decidirem acabar com a meia entrada? 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h54

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coluna de hoje

coluna de hoje

De um Papai Noel, podemos esperar boas e más surpresas. Leia a crônica do "Agora" em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1512200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 13h45

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imagens de Beethoven

Há sempre a necessidade de representar um Beethoven enfarruscado e furioso, o que está de acordo, afinal, com os ímpetos mais freqüentes de suas composições. è muito ruim ver no cinema as tentativas de reproduzir o seu rosto, que afinal foi surpreendido pelos artistas numa pose expressiva, não no seu cotidiano de homem. O retrato mais conhecido de Beethoven é aquele em que os atores se fixam, ficando desarvorados quando têm de rir ou sorrir nos filmes a respeito do compositor. Eis o retrato clássico, que Gary Oldman e Ed Harris tentam imitar:

Sem fugir à imagem clássica, o escultor Bourdelle recriou esse rosto inúmeras vezes, com um poder que o cinema não foi capaz de imitar:

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h32

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O segredo de Beethoven

O segredo de Beethoven

 

 

“Uma mulher compositora?” Na Viena de 1824,  isso era um absurdo patente, e ninguém menos do que Ludwig van Beethoven dá risada diante da idéia. “Todo mundo tenta ensinar um cachorro a andar sobre duas patas, e apesar dos resultados ridículos, continuam tentando”. A frase aparece no novo filme de Agnieszka Holland, “O Segredo de Beethoven”, com Richard Harris no papel do mestre, e a inexpressiva loirinha Diane Kruger no papel de Anna Holtz, uma jovem aspirante a compositora que se emprega como ajudante e copista na casa do gênio abusado e irascível.

 

A frase sobre um cachorro tentando andar sobre duas patas poderia ser aplicada a todo filme que tenta colocar Beethoven como personagem principal. O drama da surdez, a face compenetrada e furiosa, a genialidade do compositor dão péssimo resultado quando transplantadas para o meio prosaico da tela de cinema. Abel Gance, que fez maravilhas com o jovem Napoleão Bonaparte, caiu no melodrama ingênuo quando tentou biografar Beethoven; ainda assim, a ingenuidade era perdoável num filme feito nos primórdios do cinema falado. Uma cinebiografia mais recente, com Gary Oldman no papel do compositor, assumia o “kitsch” de maneira tão desastrada que conseguia ser comovente: um Beethoven ainda criança aparecia levitando no céu estrelado, ao som da “Nona Sinfonia”, e o aspecto surreal e barato da cena não deixava de ter impacto no público.

 

Também é a “Nona Sinfonia” a responsável pelo efeito mais certeiro e comovente de “O segredo de Beethoven”. Acompanhamos no filme as tensões da estréia. Beethoven, apesar de surdo, insiste em reger a sua grande obra. Sua assistente é convocada na platéia, à última hora, para exercer ocultamente o papel de maestrina junto à orquestra, indicando a Beethoven os gestos que ele tinha de fazer. O suspense da cena (“será que vai dar certo? será que não vai acontecer uma catástrofe colossal?”) prende a atenção do espectador, e é lindamente reproduzido nos diversos closes que são feitos dos cantores do coro: todos estão ansiosos para saber o momento de começar a cantar a “Ode à Alegria”, e mal se agüentam antes do prazer de entoar a retumbante, grandiosa melodia.

 

Há outros bons momentos no filme, quando Beethoven se mostra capaz das mais surpreendentes brutalidades, para arrepender-se logo depois. O maior problema é que Ed Harris nunca é totalmente Beethoven, e nunca é Ed Harris; parece um cowboy cuidadosamente amestrado para o papel de gênio musical, incapaz de um momento de interioridade e silêncio. O Mozart de Tim Hulce, em “Amadeus”, de Milos Forman, era convincente no papel de criança terrível e vulgar, em parte porque o filme o retratava tal como parecia aos olhos de Salieri, seu antagonista na história. A vulgaridade de Ed Harris é apenas a tentativa de fazer um Mozart mais estúpido e carrancudo, pronto a alternar acessos de fúria e de palhaçada, mas profundamente antiintelectual. O antiintelectualismo de Mozart corresponde, bem ou mal, à força de seu talento, e de sua naturalidade, como compositor. A genialidade de Beethoven, ao mesmo tempo incrivelmente mais emotiva e mais cerebral, não se presta do mesmo modo aos espetáculos de esquisitice encenados no filme. Tudo, no Beethoven de Agnieszka Holland, reafirma o clichê; era justamente contra o clichê angelical de Mozart que Milos Forman fez seu filme.

 

Some-se a isso a profunda mediocridade dos personagens secundários de “O Segredo de Beethoven”: Karl, o sobrinho do compositor, e Martin, o namoradinho de Anna Holz, são personagens tirados diretamente de uma telenovela ou seriado histórico de televisão. O feminismo açucarado do ponto de partida (uma jovem talentosa e bonita servindo ao mestre misógino) encontra na passividade da atriz principal, Dianne Kruger, uma fiel tradução. O resultado desagrada, sem dúvida, mais aos fãs de Beethoven do que ao público que quiser um primeiro contato com a colossal e mítica figura do compositor.  

 

“O segredo de Beethoven” (Copying Beethoven) tem estréia prevista para dia 22 de dezembro.

 

Outro Beethoven: Gary Oldman, em "Minha Amada Imortal"

 

Um Beethoven mais velho e convincente: Harry Baur, na "Amada Imortal" de Abel Gance:

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h55

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conexão

Fiquei fora do ar por artes do speedy, mas retomo as atividades em seguida.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h44

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entrelinhas

Ao lado de Manuel da Costa Pinto, Joca Reiners Terron e outros colaboradores, participo como comentarista de um programa sobre literatura na TV Cultura, o "Entrelinhas" (quartas-feiras, 22h30). O programa agora conta com um site, onde trechos do programa, textos e resenhas podem ser acessados: http://www.tvcultura.com.br/entrelinhas/ 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h06

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Walt Whitman

Alguns versos de Walt Whitman:

Ousarás agora, minha Alma,

Caminhar comigo no rumo da região desconhecida,

Onde não existe chão em que se pise, nem caminho que se siga?

Nenhum mapa, nem guia,

Nem voz que soe, nem toque de mão humana,

Nem rosto num florir de carne, olhos, lábios,

Existem nessa terra.

Não a conheço, minha Alma,

Tampouco a conheces, tudo é vazio à nossa frente,

Tudo lá está insonhado à nossa espera,

Nessa terra inacessível,

Até que se soltem todos os laços,

Todos os que não sejam eternos, o Tempo e o Espaço;

Não a cegueira, a gravidade, a sensação,

nem qualquer elo que nos prenda.

 

Então rompemos caminho, flutuamos,

No Tempo e no Espaço, minha Alma, preparados,

Iguais, prontos finalmente (ó alegria! Ó fruto de tudo!)

para preenchê-los então, minha Alma.

 

Leio essas palavras no folheto de um disco com a obra coral de  Vaughan Williams (1872-1958), editado pela Naxos, com o barítono Roderick Williams e o Coro e Orquestra de Liverpool, regidos por David Lloyd-Jones. O disco se chama "Willow-Wood", e esta peça se intitula "Toward the Unknown Region". A música segue lindamente as sugestões dos versos iniciais, com uma melodia que lembra uma conhecida canção do século 17, "Weep you no more, sad fountains", enquanto as cordas fazem um acompanhamento discreto, parecido com o tema do "Dies Irae". Infelizmente ou não (tenho dúvidas sobre o que acho da música) tudo termina no habitual tom triunfante e afirmativo de Vaughan Williams; o texto de Whitman, ao contrário, parece falar de uma espiritualização crescente, quase que além do próprio espírito. Difícil encontrar uma visão da morte tão imaginativa, e ao mesmo tempo tão isenta de mitologia e fabulação.

 

 

A fisionomia de ave inquisidora do compositor Vaughan Williams merece uma ilustração.   

Escrito por Marcelo Coelho às 17h38

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aerossol

aerossol

 

Continuando a série de cartazes populares (não só de pizzas) eis uma bonita advertência numa rua da Lapa. Difícil saber por que razão o aerossol está inclinado; como se fizesse uma cortesia, talvez. O detalhe azul do tubo combina bem com a parede do fundo.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h29

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que classe média?

A notícia de que a classe média perdeu 46% de sua renda nos últimos seis anos contrasta com o que vemos numa cidade como São Paulo, em especial nesta época do ano: uma febre de consumo, estacionamentos de shopping lotados, restaurantes sempre cheios, e principalmente uma propensão psicológica para gastar em qualquer ocasião: não entendo como tanta gente dá oito ou dez reais sem piscar ao manobrista do restaurante, ou paga alegremente pela garagem VIP de um shopping center, e depois reclama da alta carga tributária no Brasil.

O segredo da contradição está no conceito de classe média. Todo mundo se diz de classe média, mas para a estatísticas já é de classe média quem ganha mil e poucos reais por mês. Se a classe dos que ganham mil ou dois mil reais por mês está esmagada financeiramente, isso é de preocupar. Mas que pessoas com mais de dez mil reais mensais se sintam injustiçadas, é um bocado absurdo num país como o Brasil. Leia mais no meu artigo para a Ilustrada de hoje em http://tinyurl.com/ujy6w

Escrito por Marcelo Coelho às 17h23

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Macunaíma

Macunaíma

 

 

 

Macunaíma, o filme de Joaquim Pedro de Andrade, teve uma cópia restaurada, que está sendo lançada agora em DVD. Outro dia levei um puxão de orelhas de uma importante autoridade cultural porque me aventurei a falar mal do filme. Precisaria revê-lo; prometo que faço isso em outra encarnação.

 

Tudo ali me desagrada, a começar pelo Grande Otelo, de quem tenho horror: uma caricatura de si mesmo, comparecendo no filme para significar coisas de que ele não parece estar consciente. A opção tropicalista pelo feio, pelo escrachado, pelo alegórico me deixa sempre muito incomodado. É como se, fingindo uma aparência crítica, a mensagem fosse ao mesmo tempo desesperada e conformista: o Brasil é assim mesmo, você que está errado em querer imitar padrões europeus de civilização e de bom gosto. Mas se estou errado, a partir de quais os padrões se pode dizer que há algo de criticável no Brasil?

 

Sem contar aquela atmosfera típica do cinema brasileiro dos anos 70: a luz crua, os saltos na montagem, uma espécie de “silêncio”, de “vácuo visual” causado pela indigência cenográfica, que se quer inutilmente compensar com o detalhe bizarro, a gesticulação grotesca, o humor elefantino, a catástrofe armada em carnaval.

 

Em todo caso, posso estar sendo cego às sutilezas do filme. Recebi um exemplar de uma revista de cinema editada pela Universidade Federal de Sâo Carlos, intitulada Cinema olhar, com um artigo do pesquisador Leonardo Côrtes Macário sobre Macunaíma. O filme de Joaquim Pedro, segundo diversos estudiosos, é um “filme de citações”, aproximando-se portanto do livro de Mário de Andrade em que se baseia, ele próprio uma “colcha de retalhos” de outros textos.

 

Macário identifica em Macunaíma citações engenhosas das velhas chanchadas da Atlântida, em especial de Aviso aos Navegantes, filme de 1950 dirigido por Watson Macedo. Na chanchada, Grande Otelo está num navio, e finge passar mal, para atrair as atenções da tripulação, “e permitir que Oscarito fosse ao camarote onde o imediato Alberto (Anselmo Duarte) estava detido”. No filme de Joaquim Pedro, Grande Otelo reaparece “como Macunaíma fugindo do monstro e tentando evitar que ruídos escapem por seus orifícios.”

 

O gestual é bastante semelhante: Azulão (Grande Otelo) finge procurar com as mãos onde dói, como se algo tivesse entrado por sua roupa e estivesse a machucá-lo (suas mãos passam pelo peito, pelos bolsos do paletó e da calça, pelo topo da cabeça). Macunaíma (Grande Otelo, novamente), após comer a carne da perna do Curupira e se espreguiçar, percebe que o monstro corre em sua direção com uma faca, gritando insistentemente “Carne de minha perna”. A carne responde, por dentro do herói, que tenta impedir com as mãos, inutilmente, que o grito saia.

 

A análise prossegue, identificando de forma convincente as referências de Macunaíma ao filme anterior.Há, naturalmente, uma cultura cinematográfica (e cinéfila) brasileira que conheço mal, e que provavelmente é capaz de ver qualidades e alusões onde vejo apenas absurdo e derrisão. Padrões de “bom gosto” muitas vezes são apenas ignorância do crítico; é difícil não ser arrogante quando não se conhece a regra do jogo. Mas é que há outros jogos tão mais bacanas de se ver...

Escrito por Marcelo Coelho às 23h26

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Num post anterior falei da obra de Miyamoto Musashi, O Livro dos Cinco Anéis, e das belas passagens que esse samurai do século 17 escreveu sobre a essência do Vazio. Coincidentemente, a  editora Estação Liberdade acaba de publicar uma biografia de Musashi, escrita por Scott Wilson. No jornal fica feio, mas num blog dá para reproduzir um trecho do release:

Aos treze anos, Miyamoto Musashi matou um adversário no que seria o primeiro de uma excepcional série de célebres combates de espada. Aos trinta, já tinha despachado mais de sessenta lutas sem perder nenhuma, ele viveria outros trinta anos sem liquidar mais ninguém. Continuaria a participar de combates, mas agora simplesmente neutralizando os ataques dos adversários até eles reconhecerem suas habilidades nas mais diversas técnicas.

 

A vida do lendário espadachim japonês está permeada de fatos e episódios históricos e pessoais trazidos ao público brasileiro na biografia O Samurai, A vida de Miyamoto Mushasi, de William Scott Wilson, escritor norte-americano especialista em língua e cultura do Japão. A obra é resultado de extensa pesquisa e traz ainda mapas e vários anexos, como pinturas de autoria do próprio Musashi, que além da habilidade com as espadas, destacou-se como pintor a nanquim, praticante de caligrafia tradicional, estudioso de poesia chinesa e adepto da filosofia zen-budista. 

 

Musashi foi uma lenda em seu tempo. Ignorando as convenções, ele preferia uma espada de madeira e em seus anos de maturidade nunca lutou com uma arma autêntica. Foi mestre em aniquilar os inimigos usando recursos psicológicos que estudava exaustivamente antes dos combates. Musashi orientava seus estudos tão arduamente conquistados sobre as artes combatentes para metas espirituais de cunho zen-budista. Como nos mostra Scott Wilson nesta biografia, no japonês moderno existem figuras de linguagem que se referem ao caráter “musashiano”, revelando que, provavelmente, o seu nome seja tão ou mais conhecido do que importantes personalidades da história e cultura japonesas.

 

Não é a primeira vez que o mercado editorial ouve falar do espadachim Musashi. Em 1999, pela primeira vez no Ocidente em versão integral, foram editados os dois volumes do mais famoso romance épico japonês do século XX, Musashi, de Eiji Yoshikawa, pela Estação Liberdade. Este romance ficcional inspirado na vida do guerreiro-filósofo já vendeu cerca de 120 milhões de exemplares, em suas diversas versões no Japão.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h53

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obras-primas da publicidade

 

 

Eis um anúncio realmente criativo, sem ironia. É de uma empresa de vigilância particular, a Estrela Azul, e apareceu na revista do Shopping Iguatemi (onde mais haveria de ser?). Mostra uma foto linda da Muralha da China, pontilhada de centenas de turistas. E diz o seguinte:

 

Muro alto não afasta ninguém. E às vezes atrai mais gente.

 

Não deixa de ser ambíguo, entretanto. Minha primeira leitura foi a de que a empresa está preocupada em não transmitir uma imagem antipática, mostrando que se pode perfeitamente cercar uma casa de muros (eletrificados, se possível), sem deixar de ser acolhedor e hospitaleiro.

 

Mas, se muros altos atraem gente, podemos pensar que também atraem ladrões, e que entre as centenas de turistas visitando a Grande Muralha se esconderão não poucos pick-pockets. De modo que a empresa de segurança faz propaganda contra os muros altos; e, se o caso é afastar pessoas,  seus vigias são mais eficientes e assustadores.

 

Só que o “objeto de desejo” veiculado pelo anúncio é a Muralha, com sua beleza; minha aspiração, enquanto feliz habitante de um palácio no Jardim América, seria a de cercar-me de muros dignos de serem considerados patrimônio cultural da humanidade. Uma construtora especializada em muros decorados, de altíssima segurança, em estilo chinês ou medieval, poderia rivalizar então com os serviços da Estrela Azul.

 

Como ficamos? Com a mentira essencial, que o anúncio tenta ocultar: serviços de segurança são antipáticos por natureza, e bem menos sutis que os publicitários que lhes prestam assistência.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h40

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bullying, trote, assédio

Recebi e-mail de um professor da Esalq, que no momento elabora uma tese de livre-docência sobre o trote universitário. Enviou-me também um artigo, no qual compara três práticas semelhantes: a do bullying escolar, do trote universitário e do assédio moral nas empresas. Um aspecto curioso que ele relata é o de que a prática do trote nas universidades tende a formar o que ele denomina de "comunidades trotistas", fortalecendo laços de solidariedade entre os alunos mais violentos e opressores, que se prolongam na sua vida profissional; é como se aplicar trotes fosse uma espécie de curso preliminar para o exercício do assédio moral e da violência nas relações de trabalho.

O artigo, de Antonio Almeida e Oriowaldo Queda, pode ser lido no site www.antitrote.org, que também apresenta relatos de vítimas, artigos e comentários. 

Escrito por Marcelo Coelho às 21h54

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descoberta do real

descoberta do real

 

 

Meu filho de quatro anos e meio assiste muito aos “Backyardigans”, um desenho animado do canal Discoverykids. Quatro personagens, um alce, um hipopótamo fêmea e não sei mais o quê, brincam no quintal e logo, por obra de sua imaginação, vêem-se transportados para o Egito antigo ou para a selva amazônica.

 

A idéia do desenho é prestigiar a força da imaginação infantil e o valor das brincadeiras grupo. No meu filho, teve o efeito oposto. Ele não se conforma com o fato de que suas brincadeiras e imaginações sejam incapazes de levá-lo à Amazônia de verdade, à Escandinávia dos vikings de pelúcia. Faz força, fecha os olhos, encena uma situação, e desespera-se ao reencontrar o mesmo apartamento onde nasceu.

 

Para consolá-lo, minha mulher contou um acontecimento de sua infância. Ela queria com todas as forças uma lousa e gizes de presente. No Natal, acordou de manhã e o presente estava lá.

 

O efeito foi devastador. Meu filho fechou os olhos, sabe-se lá com que desejos –estar em Marte? ter superpoderes?—e, ao abri-los, viu que nada tinha acontecido. Chorou como se tivesse batido a cabeça na parede.

 

Ele está descobrindo a realidade, e a impotência dos próprios pais. Tentei consertar a situação. Havia alguns pedacinhos de chocolate na geladeira, guardei-os entre as mãos, para que se aquecessem, e voltei ao quarto onde a crise prosseguia a velas pandas. Mandei que meu filho fechasse os olhos, e quando ele os abriu, abri as mãos com chocolate. Ele comeu, acalmou-se, e pude discorrer sobre o possível e o impossível.

 

É possível, algum dia, que o homem viaje até Marte. Impossível chegar até o Sol. Meu filho amadurece. Faço entretanto o possível e o impossível, com  chocolates de última hora, para retardar esse processo. É minha função. É função de minha mulher torná-lo mais crédulo e esperançoso; de minha parte, cumpro o dever de habituá-lo ao real –desde que não faltem chocolates na geladeira.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h09

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o vazio e a espada

o vazio e a espada

     

         

 

    Não tenho a menor paciência para manuais de estratégia empresarial, muito menos para aquelas coisas inspiradas na sabedoria do Oriente. As aplicações de Sun Tzu ao mundo dos negócios globalizados me deixam de cabelo em pé, e recentemente escrevi um comentário bastante depreciativo sobre “A Arte da Guerra”, que li na edição da L & PM, baseada na tradução francesa. O clássico de Sun Tzu saiu agora em tradução direta do chinês, mas confesso que não tive interesse em comparar.

         Toda arte prática, seja a das vendas a varejo ou a da interpretação de textos literários, tende a ser mal-servida quando querem reduzi-la a princípios de manual. Todas as recomendações por escrito tendem a se anular mutuamente: é preciso ser tenaz, mas saber quando desistir; é preciso ser imaginativo, mas manter o pé no chão; a ousadia é louvável, mas não pode ser confundida com a temeridade... e por aí vai. No corpo a corpo com a matéria de sua especialidade, o “mestre” (das vendas, da guerra, da culinária) acumulou uma série de saberes específicos, de intuições, de sensos de medida e conveniência, que só uma miríade de exemplos, e não duas dezenas de conselhos teóricos, poderiam ilustrar.

Mesmo um clássico como “O Príncipe”, de Maquiavel, é muito menos interessante como breviário do governante astuto do que como esforço intelectual para a constituição da política como um campo autônomo, independente, no universo das atividades humanas.

Montaigne começou a escrever seus Ensaios com a ambição de fazer um “manual” desse tipo para fidalgos, militares ou homens de corte. Os primeiros capítulos de seu livro pretendem discutir questões práticas, como por exemplo a conveniência de abandonar um posto sitiado para negociar com o inimigo. Logo Montaigne se dá conta de que há tantos exemplos a favor de uma tese como a favor da tese oposta. Os exemplos, as anedotas, as reflexões inconclusivas tomam conta, então, de sua escrita, e são o que fazem a delícia do leitor dos “Ensaios” até hoje.

Recebi outro manual de estratégia oriental, desta vez editado pela Conrad, com lindo tratamento gráfico. Trata-se de  O Livro dos Cinco Anéis, de  Miyamoto Musashi (1584-1645), mestre no manejo da espada. O tratado, como tantos outros, vive esse dilema entre o conhecimento empírico, baseado na pura experiência, e a tentativa de sistematização teórica. Mas há algumas passagens lindas, e verdadeiramente inspiradoras, nesse texto. São as que tratam do Vazio. Leia-se, por exemplo, este tópico, intitulado na tradução brasileira “Golpeando com o Inconsciente”:

 

No momento em que ambos [os espadachins] iniciarem o ataque, prepare corpo e espírito para atacar, mas, sem planejar primeiro como agir, deixe o Vazio comandar suas mãos num golpe rápido e forte. Este é o Munen-Musô, ou golpe do inconsciente, uma das principais formas de combate. Ela deverá ser utilizada com muita freqüência e, portanto, é importante que seja muito bem compreendida e praticada.

 

No final do livro, mais uma misteriosa explicação.

 

O vazio é a ausência de tudo, o desconhecido –o nada. Só reconhecendo o que existe podemos reconhecer o que não existe. Esse é o espírito do vazio. Há no mundo quem erroneamente interprete o vazio como tudo o que é impossível de compreender. Mas esse não é o verdadeiro vazio, é apenas uma falsa interpretação.

... pratique a estratégia militar de forma generosa, justa, honesta e com grandeza de espírito, em que o vazio é o Caminho e o Caminho se revelará com o vazio. No vazio há o bem e não o mal, e só quando se alcança a sabedoria se encontra a razão. Percorrendo o Caminho verdadeiro é que podemos entrar no real espírito do vazio.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h20

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os sem-teto e os livros

Recebo de Fábio Weintraub, editor e poeta, um comunicado importante acerca de um movimento social em que ele está engajado. Vi um vídeo que ele fez sobre bibliotecas comunitárias, muito emocionante. Aqui vai.

 

 

No próximo sábado, dia 9 de dezembro, a Biblioteca Comunitária Prestes Maia (situada no número 911 da Avenida Prestes Maia, no bairro da Luz) será palco de um encontro histórico. O empresário e colecionador de livros José Mindlin, dono de uma dos mais importantes acervos privados do Brasil, vai conhecer a coleção de aproximadamente 7000 livros organizada por Severino Manoel de Souza, catador de lixo e morador da Ocupação Prestes Maia.

A Biblioteca fica no subsolo de um prédio ocupado há quatro anos pelo Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC), que abriga atualmente mais de 400 famílias, cerca de 1500 pessoas. Toda essa população (da qual fazem parte muitas crianças) está ameaçada de despejo iminente devido à vitória obtida pelos proprietários do imóvel (que devem cerca de 4,5 milhões de IPTU e que deixaram o prédio fechado por mais de uma década) em uma ação de reintegração de posse movida contra os ocupantes do MSTC.

A visita à biblioteca marca o reconhecimento do papel que o imóvel desempenha no tocante à questão da moradia, mas também sua transformação em equipamento cultural, já que os moradores sem teto também buscam abrigo entre os livros, bens igualmente indispensáveis à sobrevivência.

Oxalá o belo gesto de José Mindlin sirva de exemplo aos poderes públicos, indiferentes ao problema da função social da propriedade.

A visita ocorrerá às 10h00 e contará com a presença de Aziz Ab’Saber, professor emérito da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP, especialista em Geomorfologia, Geografia Urbana e Econômica e Biogeografia.

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h25

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condomínio de luxo

condomínio de luxo

Com o verão, chega o sonho de ter uma bela piscina no prédio. Na crônica de hoje do "Agora", a realidade pode ser bem outra. Leia em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0812200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 12h20

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Um poema de Boris Vian

Boris Vian (1920-1959) foi poeta, músico, boêmio e romancista. Amigo de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, colaborou na revista Les Temps Modernes com suas "Crônicas do Mentiroso". A editora Nankin publicou há alguns anos uma antologia de seus Poemas e Canções, com tradução e notas de Ruy Proença. O poema que transcrevo abaixo, escrito na década de 50. impressiona pela violência, pela rapidez do ritmo, pela "certeza" com que chega ao final.

ELES QUEBRAM O MUNDO

 

 

Eles quebram o mundo/Em pedacinhos/Eles quebram o mundo/A marteladas/Para mim não faz diferença/Não faz diferença alguma/Ainda me sobra muito/Ainda sobra muito/Basta que eu ame/Uma pena azul/Uma trilha de areia/Uma ave assustada/Basta que eu ame/Um ramo frágil de erva/Uma gota de orvalho/Um grilo do campo/Eles podem quebrar o mundo/Em pedacinhos/Ainda me sobra muito/Ainda sobra muito/Terei sempre um pouco de ar/Um filete de vida/Uma nesga de luz no olhar/E o vento nas urtigas/E mesmo se, mesmo/Se me prenderem/Ainda me sobra muito/Ainda sobra muito/Basta que eu ame/Esta pedra corroída/Estes ganchos de ferro/Onde um pouco de sangue se demora/Eu amo, eu amo/A madeira gasta da minha cama/O estrado e o colchão de palha/A poeira do sol/Amo o postigo que se abre/Os homens que entraram/Que avançam, que me levam/A reencontrar a vida do mundo/A reencontrar a cor/Amo este par de altas traves/Esta lâmina triangular/Estes senhores vestidos de preto/É minha festa e me orgulho/Eu amo, eu amo/Este cesto cheio de farelo/Onde vou pousar a cabeça/Oh, eu amo deveras/Basta que eu ame/Um raminho de erva azul/Uma gota de orvalho/Um amor de ave assustada/Eles quebram o mundo/Com seus maciços martelos/Ainda me sobra muito/

Ainda sobra muito, meu coração.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h37

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mais pechinchas

mais pechinchas

A editora Conrad se destaca pela publicação de muitos livros de histórias em quadrinhos, desde Charles M. Schulz e Robert Crumb aos mais estranhos (para mim, ao menos) mangás japoneses. É também responsável pela mais importante coleção de obras contestatárias e "gauchistas" da atualidade, a Coleção Baderna; livros contra o uso de automóvel e a favor da criação de "zonas de anarquia temporária", se é que me lembro do nome, são convites estimulantes a um pensamento de esquerda livre das ortodoxias de antigamente e dos compromissos fisiológicos de hoje. Até dia 20, a editora promove descontos apreciáveis no site www.lojaconrad.com.br

Escrito por Marcelo Coelho às 18h59

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bullying corporativo (2)

De um membro do Ministério Público do Rio, recebo uma série de casos, publicados na revista "Consultor Jurídico" (http://conjur.estadao.com.br/), sobre vexames e violências no local de trabalho, tema de meu artigo na "Ilustrada" de ontem. Reproduzo o primeiro.

Corredor polonês

Ambev é condenada por submeter empregado a humilhações

A Companhia Brasileira de Bebidas (Ambev) foi condenada a pagar R$ 21,6 mil de indenização por danos morais ao vendedor Ronaldo Nunes Carvalho. Motivo: ele foi obrigado a passar por um "corredor polonês" enquanto era xingado pelos colegas por não cumprir as metas estabelecidas pela empresa.

Segundo o site Espaço Vital, a Ambev argumentou no processo que os constrangimentos alegados pelo empregado foram decorrentes do "não cumprimento das metas da empresa e que as punições eram aplicadas a todos, indiscriminadamente, não havendo perseguição pessoal".

O argumento foi desconsiderado pela 8ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região, que confirmou sentença de primeiro grau e garantiu a indenização.

Consta do processo que o empregado que recusava a passar no corredor polonês, era obrigado a vestir uma saia e desfilar em cima de uma mesa. A empresa também foi condenada a pagar diferenças de comissões e salários, horas extras e o adicional de insalubridade.

Segundo os juízes, "o fato de as punições serem aplicadas a todos, não afasta a natureza do assédio moral, pois a própria competição entre os empregados, para alcance de metas, é uma forma de constrangimento e humilhação que acaba na degradação do ser humano".

Em sua decisão, a Turma considerou que "na situação de assédio moral, humilha-se o empregado fazendo-o sentir-se ofendido, menosprezado, rebaixado, magoado, passando a sentir-se um inútil, sem qualquer valor".

A Ambev não recorreu ao TST. A condenação transitou em julgado. A decisão determina a remessa de cópias ao Ministério Público, para que seja verificada possível ocorrência de crime. Quatro outras ações semelhantes tramitam na Justiça do Trabalho gaúcha.

Processo nº 00887/2003-015-04-00

Revista Consultor Jurídico, 17 de agosto de 2004

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h31

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duas em pinheiros

duas em pinheiros

Na mesma padaria, dois cartazes muito elaborados. Comprei uma nova máquina digital, e tento retomar a coleção.

O mais bonito, aqui, é o alumínio da travessa... note que a cor da massa e a do recheio é igual, contrastando com a borda torradíssima.

 

Aparentemente, a borda está escorrendo do prato. Mas é a mão cor-de-rosa da garçonete.A figura da garçonete é em tamanho natural. Gosto da variação de tamanhos das azeitonas e rodelas de tomate. Preciosidade. Na outra mão da garçonete, há suco e ovo frito, que ficam para depois.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h21

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céu e terra

céu e terra

O medo de voar e o caos nos aeroportos inspiram o cronista do "Agora". Leia em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0712200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 15h15

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dica de sebos

dica de sebos

Passear pelos sebos e comprar na base do impulso é um prazer de que não abro mão. Mas se o problema for achar um livro específico, recebi a indicação de um site que faz esse serviço para a gente: http://www.estantevirtual.com.br/

Escrito por Marcelo Coelho às 16h37

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bullying corporativo

No artigo de hoje da "Ilustrada", retomo o assunto do "bullying", contando um caso de humilhação coletiva numa empresa americana. Não só nas escolas, mas no mundo do telemarketing, das vendas, imagino que técnicas de incentivo à produtividade terminem produzindo formas privadas de fascismo. Não se trata apenas do abuso de poder por parte de um chefe, mas da manipulação do grupo: é o esmagado quem mais tem prazer em esmagar os seus iguais. Citei um artigo da revista americana "Harper's", que tem boas seções com material de leitura tirado de outros lugares, os mais inusitados: autos de processo, cartas de presos, trechos de instruções de segurança no exército americano, folhetos de propaganda... A revista tem um enfoque anti-republicano muito marcado, e frequentemente trata de assuntos que são mais do interesse de quem mora nos Estados Unidos. Mesmo assim, vale uma olhada : www.harpers.org

Meu artigo pode ser lido em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0612200630.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 15h47

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vaidade masculina

vaidade masculina

O desejo de perder a barriga pode levar a estranhas perturbações da mente. Leia a crônica do "Agora" em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0612200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 15h34

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pequenos vexames

pequenos vexames

Gosto de ensinar os filhos, desde cedo, a dizer “bom dia”, “até logo” e a tratar as pessoas pelo nome próprio –hábito, este último, que não tenho e que, desde os livros de Dale Carnegie, sabe-se constituir uma das chaves douradas para conquistar a simpatia de nossos semelhantes. Acho que toda criança é naturalmente sedutora para os adultos, e nada melhor do que municiá-las de máximos recursos nesse sentido.

 

Meu filho de quatro anos e meio já está sendo habituado a sentar-se na mesa com os adultos em ocasiões de mais formalidade, e quero obviamente que cause a impressão de ser uma criança bem-educada. Tenho uma prima, Anna Maria, que é o maior exemplo de boas maneiras que conheço. Não, não é criança; sua idade regula com a de minha mãe, em casa de quem fomos todos almoçar.

 

No começo, as coisas ficaram sob controle. Pouco a pouco, meu filho queria chamar a atenção, mexendo com brinquedinhos enquanto almoçava conosco. Depois, começa a história de não parar quieto na cadeira, as interrupções na conversa, enfim, todas as coisas absolutamente previsíveis numa criança que não tem como acompanhar a conversa dos adultos. Tratei de controlá-lo. o filho menor apareceu, vieram ceninhas de birra, alternadas com brincadeiras engraçadas às quais aderi.

 

No fim, ninguém conseguia conversar, e minha irritação foi aumentando. Mais tarde, muito discretamente, minha prima observou que os adultos, hoje, dão muita atenção às crianças, e que no tempo dela não obtinham esse monopólio dos cuidados paternos.

 

Percebi que toda minha irritação poderia ter sido evitada, se não tivesse deixado as crianças participarem da refeição. Mais do que isso: não apenas frustrei-me no espetáculo de boas maneiras que queria oferecer, como também ofereci um espetáculo à parte. De certa maneira, tenho gostado de exibir junto a outras pessoas o meu poder disciplinador sobre as crianças, cujos eventuais êxitos já foram relatados aos leitores deste blog. Quem deu vexame, afinal, fui eu, que ao lado de meus filhos constituí um “sistema” particular de relacionamento: uma forma de, ignorando os circunstantes, ser desatencioso e mal-educado também. Vivendo e aprendendo.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h51

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O rei

O rei "Leir" "Leir"

 

Lear chora a morte de Cordélia, em quadro de James Barry (1741-1806)

Lear chora a morte de Cordélia; quadro de James Barry (1741-1806)

 

 

Para a revista ‘Língua Portuguesa”, escrevo comentários de vocabulário e estilo sobre alguns trechos clássicos da literatura. Neste mês, selecionei um texto medieval, que conta rapidamente a história do legendário rei Lear; é interessante ver quanta coisa foi construída, a partir de um relato esquemático como este, na tragédia de Shakespeare. Gosto muito da menção, puramente casual, às faculdades mitológicas do rei Balduc, pai de Lear.

 

O texto consta da “Antologia Nacional”, livro de leituras que era utilizado nos ginásios e colégios de antigamente, organizado por Plínio Barreto e Carlos de Laet. Aqui vai, em toda sua estranheza linguística.

 

 

LENDA DO REI LEIR

 

 

 

         Quando foi morto  rrey Balduc, o voador, rreynou seu filho que ouue nome Leyr. E este rrey Leyr non ouue filho, mas ouue tres filhas muy fermosas e amauaas muito. E huum dia ouue sas razoões com ellas e disselhes que lhe dissessem verdade quall dellas o amaua mais. Disse a mayor que nom auia cousa no mundo que tanto amasse como elle, e disse a outra que o amaua tanto como ssy mesma, e disse a terçeira, que era a mêor, que o amaua tanto como deue d´amar filha a padre. E elle quislhe mal por en, e por esto nom lhe quis dar parte no rreyno. E casou a filha mayor com o duque da Cornoalha, e casou a outra com rrey de Scotia; e nom curou da mêor. Mas ella por sa ventura casousse melhor que nenhuma das outras, ca se pagou della elrrey de França e filhoua por molher. E depois seu padre della en sa velhiçe, filharomlhe seus gemrros a terra e foy malandante, e ouue a tornar aa mercee delrrey de França e de sa filha a mêor, a que nom quis dar parte do rreyno. E elles receberomno muy bem e deromlhe todas as cousas que lhe foram mester e homrraromno mentre foy uiuo, e morreo em seu poder.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h04

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sushi radioativo

sushi radioativo

O envenenamento por substâncias radioativas pode acender a paranóia de um casal. Leia a crônica de hoje do "Agora" em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0512200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 13h45

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na biblioteca

na biblioteca

Hoje, não custa repetir, as crônicas de Voltaire de Souza serão lidas pelos atores das companhias Linhas Aéreas e Manufactura Suspeita, na biblioteca Mário de Andrade, às 19h30; tentarei comentá-las no evento. Mais notícias em http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u66662.shtml

Escrito por Marcelo Coelho às 13h43

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o homem que odiava o Natal

o homem que odiava o Natal

Como hoje não está disponível no site do "Agora" a crônica de Voltaire de Souza, reproduzo aqui.

FRÁGEIS RAÍZES

 

 

O Natal inspira pensamentos de confraternização e paz.

Eusébio não tinha a menor paciência.

--Época mais besta. Tinha de acabar.

No congestionamento, ele buzinava com raiva.

--Consumistas. Hipócritas.

A família grande. O dinheiro curto.

A lista de presentes era de assustar.

--E ainda me pedem para comprar árvore de Natal de verdade.

Tudo parado na Marginal. Eusébio se aproximava de um grande centro de jardinagem.

O Rain Forest Garden Center.

Foi quando a chuva ficou mais forte.

O Vectra de Eusébio começou a flutuar perigosamente.

No desespero, o rapaz saiu ao encontro da enxurrada.

Os sinos do pânico bimbalharam em sua mente.

De uma carreta tombada, veio a salvação.

Trazido do interior do Paraná, um grande pinheiro de Natal foi a jangada que tirou Eusébio do sufoco. Ele já promete ser até Papai Noel na festa da família.

As enxurradas do destino arrancam, como frágeis raízes, as convicções mais profundas.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h10

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antologia do press release

Aqui vai um exemplo para a coleção. Recebo por e-mail o release de um novo livro da editora Ágora, intitulado Astrologia para Astrólogos. Seu autor se chama Assuramaya. Cito dois trechos.

 

A decisão da União Astronômica Internacional de retirar de Plutão a designação de planeta não surpreendeu Assuramaya. Desde 1978 ele assegura, com a experiência de mais de 50 anos de pesquisas, tanto no campo astronômico quanto no astrológico, que Plutão não exerce a menor influência no destino das pessoas.

 

Já é um progresso. Falta o resto. Como dizia o título de uma obra do Marquês de Sade, “Franceses! Apenas mais um esforço...”

 

Enquanto isso, a ciência progride, e Assuramaya estudou outros campos do conhecimento.

 

... o grande diferencial do livro é mostrar como as radiações produzidas nas estrelas atuam no campo magnético dos seres humanos, influindo nas ligações protéicas do DNA e determinando seu comportamento e seu destino.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h30

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pérolas da publicidade

De uma clínica oftalmológica na avenida Brasil:

"Miopia-Hipermetropia-Astigmatismo. Cirurgia personalizada."

Imagine-se uma cirurgia que não fosse personalizada...

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h43

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diversão total

diversão total

São cerca de setecentas pessoas assistindo ao espetáculo, acomodadas numa arquibancada como se fosse de circo. Acredito que ninguém tenha deixado de se divertir, por um só momento que fosse. “Jogando no Quintal” está em cartaz há quatro anos, e, a exemplo de grandes sucessos como “Terça Insana” e “Trair e Coçar”, é um fenômeno do boca-a-boca na cena paulistana, e tem sua parcela de freqüentadores constantes –muita gente levanta a mão quando o mestre-de-cerimônias do espetáculo pergunta quem já assistiu à peça mais de quatro vezes.

 

“Jogando no Quintal” é um espetáculo encenado no primeiro fim de semana de cada mês (hoje, domingo, é o último dia para quem quiser assistir este ano), e reúne oito comediantes-improvisadores, com nariz de palhaço, divididos em dois times de futebol. O juiz da competição, funcionando ao mesmo tempo como animador de auditório, explica as regras para quem foi pela primeira vez ao “circo” da Cachaçaria Paulistana, debaixo do viaduto Pompéia.

 

As duas equipes terão de fazer improvisações de diversos tipos, com base em temas sugeridos pela platéia. Alguém fala, por exemplo, em “gaúchos”. E os quatro comediantes da equipe azul terão de inventar uma história ao vivo, com duração máxima de 30 segundos. Ou então é um objeto cedido pela platéia –um pacote de biscoitos de polvilho, por exemplo—que terá de ser transformado em quatro objetos diferentes, em tempo curtíssimo, pelos palhaços. Ao fim de cada prova, a platéia vota em quem ganhou.

 

Há momentos em que os atores embatucam, ou se mostram incapazes de tirar leite de pedra: o tema “exame de próstata”, por exemplo, não os autorizou a grandes vôos de criatividade. Fica engraçado do mesmo jeito. Mas há uma beleza teatral muito própria, quando os membros de uma equipe vão se articulando, um a um, a partir da vaga inspiração que surgiu no cérebro de um deles, conseguem improvisar um “sketch” com perfeito sentido e “timing” cênico, fazendo nascer, em meio à expectativa crescente do público, uma verdadeira flor de improvisação. Coube a uma equipe, nesta noite de sábado, improvisar em dez minutos uma “novela mexicana” com o tema “chocolate”. Do nada, uma história coerente e muito engraçada se fez.

 

Como num programa de auditório, a platéia se desopila, berra, participa, e chega mesmo a inventar situações difíceis para o mestre-de-cerimônias. Entre o desrecalque coletivo do público e a sutileza, a presteza da invenção mental coletiva que se dá em cena, há naturalmente um abismo. Mais do que nunca, entretanto, “Jogando no Quintal” acentua aquilo que, a meu ver, há de melhor no teatro, e que em outros idiomas pode ser entendido melhor do que em português. “Jouer”, “to play”, significa ao mesmo tempo representar e brincar. Nossa língua distingue as duas atividades; é ótimo que, de vez em quando, um espetáculo como “Jogando no Quintal” nos faça esquecer dessa diferença.

 

No link abaixo, mais informações e um mapa de como chegar ao local. Cuidado com o mapa. Se você estiver na avenida Francisco Matarazzo, não confie na flechinha ali desenhada. Parece que, entrando à direita, você chega facilmente à Cachaçaria. Não chega: da Francisco Matarazzo você acaba entrando obrigatoriamente num viaduto, e a Cachaçaria fica lá embaixo, sem acesso possível. Procure desde o início entrar na avenida paralela à Francisco Matarazzo, que quem sabe dá mais certo.

http://www.jogandonoquintal.com.br/index.asp 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h15

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glenn gould (2)

 

Quem assistiu ao documentário “32 curtas sobre Glenn Gould”, de François Girard, ficou com a impressão de que se trata de um pianista extremamente infeliz, misantropo, intoxicado de pílulas, e finalmente louco. Nos diversos documentários de Bruno Montsaingeon, feitos com uma devoção quase religiosa, o que espanta é o bom-humor, a rapidez de raciocínio, o charme de um grande artista. Há risadas o tempo todo, ao lado de extravagâncias mais conhecidas: Glenn Gould cantarola enquanto toca (mesmo suas gravações mantêm um fundo de gemidos e fuíns de pernilongo), e não se separa de uma cadeira de palhinha baixíssima, que o permite tocar com o rosto quase encostado no teclado do piano. O entrevistador pergunta, algo tolamente, se aquela cadeira está tão perto de sua experiência musical quanto as obras de Bach. “Bem mais perto”, responde Gould.

 

Neste último documentário, “Hereafter”, ou “Mais Além”, Bruno Montsaingeon faz uma homenagem póstuma a Gould (morto em 1982), que reúne os aspectos mais humanos do artista, e os mais extravagantes de seus fãs. Uma jovem britânica tatuou na barriga um frase musical composta por Glenn Gould, e suas explicações a respeito são das mais esquisitas. O ápice da cena constrangedora é o de uma fã italiana, já nos seus sessenta ou setenta anos, que conversa longamente com uma estátua de bronze de seu ídolo.

 

Mas há muitas passagens interessantes e iluminadoras. A conhecida aversão de Gould a dar concertos em público é questionada pelo violinista Yehudi Menuhin, num diálogo que, como tudo nesse filme, oscila do razoável ao puramente ilógico. Valem a pena, também, as curtas cenas em que Menuhin e Gould aparecem tocando a terrivelmente áspera sonata para violino e piano de Schoenberg. Vendo-os tocar, torna-se muito mais fácil acompanhar o pensamento musical do compositor.

 

Glenn Gould também conta como foi sua estréia num concerto, aos 14 anos, tocando o quarto concerto para piano de Beethoven. Tinha um cachorro muito peludo, branco e preto, e no meio do recital percebeu que sua calça preta estava coberta de pêlos do animal. Aproveitou várias passagens orquestrais para tirar os pêlos da calça, o que o deixou perdido na hora de retomar a função de solista. Ouvimos e vemos, então, o pianista adolescente tocando a obra de Beethoven, com um senso de acabamento da frase, uma elegância admiráveis.

 

O principal problema de “Hereafter” é que não há nenhuma peça tocada na íntegra; lindas e tristes cenas da paisagem canadense, ao lado de comentários sempre ótimos e originais de Gould a respeito deste ou daquele trecho interpretado, contrabalançam, entretanto, esse problema.

 

E há o rosto de Gould, múltiplo e expressivo, lembrando um bocado o do Dr. Spock (Leonard Nimoy) de “Jornada nas Estrelas”. Difícil alguém ter na própria face uma aura de tanta inteligência, de tanta acuidade; ele aparece no filme em várias fases da vida, bastante mal-tratado e aburguesado no final, mas sempre magnético. Menuhin, na sonata de Schoenberg, está no auge da técnica e também da fisionomia, cinzelada como a de um asceta ou de um visionário.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h23

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as compras de Glênio

as compras de Glênio

Quando chega o Natal, a cidade recebe muita gente do interior. Na crônica de hoje, passado e presente se misturam quando um decorador de interiores de Ribeirão Preto visita um shopping badalado. Leia em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0112200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 11h34

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glenn gould

Ele toca música como se soubéssemos ler a partitura: não há melhor definição para o jeito com que Glenn  Gould toca as “Variações Goldberg” de Bach, e a frase aparece em "Hereafter", documentário recém-lançado em DVD de Bruno Montsaingeon sobre um dos grandes ídolos e miitos pianísticos do século 20.

 

Houve maiores virtuoses, como Godowski e Horowitz. Pessoas dessa natureza eram capazes das maiores das maiores proezas digitais, e eram dotadas, talvez, de uma compreensão mais profunda, mais íntima, mais modesta da música.

 

Glenn Gould levou a arte da interpretação a níveis mais elevados e místicos. Cada gravação (ele desistiu cedo das performances ao vivo) significava para ele uma vitória contra o acaso, o improviso e inspiração. É como se ele pudesse eliminar todo o fundo irracional da música, ou melhor, o fundo subjetivo da música: cada peça é uma estrutura de tal modo inteligente e intrincada que, ao ouvir Glenn Gould, qualquer outro pianista parece ter sido um pouco cego, ter tocado "de ouvido" apenas.

 

Há entretanto um jogo entre fluência e precisão, entre o líqüido e sólido, o quente e o frio, que um pianista como Nelson Freire é capaz de pôr em cena no seu disco com sonatas de Beethoven, que acaba de ser lançado. Nelson Freire é uma força da natureza; cada gravação sua é demonstração de uma facilidade miraculosa em tornar pública a beleza desta ou daquela composição.

 

Se em Nelson Freire vemos a musicalidade superando virtuosismo, vemos em Glenn Gould o intelecto musical em estado puro –ele está rumando para universos mais metafísicos, quem sabe menos musicais, que os de Nelson Freire.

 

O último documentário de Bruno Montsaingeon  talvez já não acrescente muito a todo o mito criado em torno de Glenn  Gould, mito de que Bruno Montsaingeon, em vários outros documentários, construiu e defendeu como ninguém. Mas há o bastante para ouvir ali para nos fazer entender a grandeza de Glenn Gould: mais leitor que "pianista", no sentido romântico do termo.

Escrito por Marcelo Coelho às 04h15

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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