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o vazio e a espada

Não tenho a menor paciência para manuais de estratégia empresarial, muito menos para aquelas coisas inspiradas na sabedoria do Oriente. As aplicações de Sun Tzu ao mundo dos negócios globalizados me deixam de cabelo em pé, e recentemente escrevi um comentário bastante depreciativo sobre “A Arte da Guerra”, que li na edição da L & PM, baseada na tradução francesa. O clássico de Sun Tzu saiu agora em tradução direta do chinês, mas confesso que não tive interesse em comparar.
Toda arte prática, seja a das vendas a varejo ou a da interpretação de textos literários, tende a ser mal-servida quando querem reduzi-la a princípios de manual. Todas as recomendações por escrito tendem a se anular mutuamente: é preciso ser tenaz, mas saber quando desistir; é preciso ser imaginativo, mas manter o pé no chão; a ousadia é louvável, mas não pode ser confundida com a temeridade... e por aí vai. No corpo a corpo com a matéria de sua especialidade, o “mestre” (das vendas, da guerra, da culinária) acumulou uma série de saberes específicos, de intuições, de sensos de medida e conveniência, que só uma miríade de exemplos, e não duas dezenas de conselhos teóricos, poderiam ilustrar.
Mesmo um clássico como “O Príncipe”, de Maquiavel, é muito menos interessante como breviário do governante astuto do que como esforço intelectual para a constituição da política como um campo autônomo, independente, no universo das atividades humanas.
Montaigne começou a escrever seus Ensaios com a ambição de fazer um “manual” desse tipo para fidalgos, militares ou homens de corte. Os primeiros capítulos de seu livro pretendem discutir questões práticas, como por exemplo a conveniência de abandonar um posto sitiado para negociar com o inimigo. Logo Montaigne se dá conta de que há tantos exemplos a favor de uma tese como a favor da tese oposta. Os exemplos, as anedotas, as reflexões inconclusivas tomam conta, então, de sua escrita, e são o que fazem a delícia do leitor dos “Ensaios” até hoje.
Recebi outro manual de estratégia oriental, desta vez editado pela Conrad, com lindo tratamento gráfico. Trata-se de O Livro dos Cinco Anéis, de Miyamoto Musashi (1584-1645), mestre no manejo da espada. O tratado, como tantos outros, vive esse dilema entre o conhecimento empírico, baseado na pura experiência, e a tentativa de sistematização teórica. Mas há algumas passagens lindas, e verdadeiramente inspiradoras, nesse texto. São as que tratam do Vazio. Leia-se, por exemplo, este tópico, intitulado na tradução brasileira “Golpeando com o Inconsciente”:
No momento em que ambos [os espadachins] iniciarem o ataque, prepare corpo e espírito para atacar, mas, sem planejar primeiro como agir, deixe o Vazio comandar suas mãos num golpe rápido e forte. Este é o Munen-Musô, ou golpe do inconsciente, uma das principais formas de combate. Ela deverá ser utilizada com muita freqüência e, portanto, é importante que seja muito bem compreendida e praticada.
No final do livro, mais uma misteriosa explicação.
O vazio é a ausência de tudo, o desconhecido –o nada. Só reconhecendo o que existe podemos reconhecer o que não existe. Esse é o espírito do vazio. Há no mundo quem erroneamente interprete o vazio como tudo o que é impossível de compreender. Mas esse não é o verdadeiro vazio, é apenas uma falsa interpretação.
... pratique a estratégia militar de forma generosa, justa, honesta e com grandeza de espírito, em que o vazio é o Caminho e o Caminho se revelará com o vazio. No vazio há o bem e não o mal, e só quando se alcança a sabedoria se encontra a razão. Percorrendo o Caminho verdadeiro é que podemos entrar no real espírito do vazio.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h20
Recebo de Fábio Weintraub, editor e poeta, um comunicado importante acerca de um movimento social em que ele está engajado. Vi um vídeo que ele fez sobre bibliotecas comunitárias, muito emocionante. Aqui vai.
No próximo sábado, dia 9 de dezembro, a Biblioteca Comunitária Prestes Maia (situada no número 911 da Avenida Prestes Maia, no bairro da Luz) será palco de um encontro histórico. O empresário e colecionador de livros José Mindlin, dono de uma dos mais importantes acervos privados do Brasil, vai conhecer a coleção de aproximadamente 7000 livros organizada por Severino Manoel de Souza, catador de lixo e morador da Ocupação Prestes Maia.
A Biblioteca fica no subsolo de um prédio ocupado há quatro anos pelo Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC), que abriga atualmente mais de 400 famílias, cerca de 1500 pessoas. Toda essa população (da qual fazem parte muitas crianças) está ameaçada de despejo iminente devido à vitória obtida pelos proprietários do imóvel (que devem cerca de 4,5 milhões de IPTU e que deixaram o prédio fechado por mais de uma década) em uma ação de reintegração de posse movida contra os ocupantes do MSTC.
A visita à biblioteca marca o reconhecimento do papel que o imóvel desempenha no tocante à questão da moradia, mas também sua transformação em equipamento cultural, já que os moradores sem teto também buscam abrigo entre os livros, bens igualmente indispensáveis à sobrevivência.
Oxalá o belo gesto de José Mindlin sirva de exemplo aos poderes públicos, indiferentes ao problema da função social da propriedade.
A visita ocorrerá às 10h00 e contará com a presença de Aziz Ab’Saber, professor emérito da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP, especialista em Geomorfologia, Geografia Urbana e Econômica e Biogeografia.
Escrito por Marcelo Coelho às 23h25
Boris Vian (1920-1959) foi poeta, músico, boêmio e romancista. Amigo de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, colaborou na revista Les Temps Modernes com suas "Crônicas do Mentiroso". A editora Nankin publicou há alguns anos uma antologia de seus Poemas e Canções, com tradução e notas de Ruy Proença. O poema que transcrevo abaixo, escrito na década de 50. impressiona pela violência, pela rapidez do ritmo, pela "certeza" com que chega ao final.
ELES QUEBRAM O MUNDO
Eles quebram o mundo/Em pedacinhos/Eles quebram o mundo/A marteladas/Para mim não faz diferença/Não faz diferença alguma/Ainda me sobra muito/Ainda sobra muito/Basta que eu ame/Uma pena azul/Uma trilha de areia/Uma ave assustada/Basta que eu ame/Um ramo frágil de erva/Uma gota de orvalho/Um grilo do campo/Eles podem quebrar o mundo/Em pedacinhos/Ainda me sobra muito/Ainda sobra muito/Terei sempre um pouco de ar/Um filete de vida/Uma nesga de luz no olhar/E o vento nas urtigas/E mesmo se, mesmo/Se me prenderem/Ainda me sobra muito/Ainda sobra muito/Basta que eu ame/Esta pedra corroída/Estes ganchos de ferro/Onde um pouco de sangue se demora/Eu amo, eu amo/A madeira gasta da minha cama/O estrado e o colchão de palha/A poeira do sol/Amo o postigo que se abre/Os homens que entraram/Que avançam, que me levam/A reencontrar a vida do mundo/A reencontrar a cor/Amo este par de altas traves/Esta lâmina triangular/Estes senhores vestidos de preto/É minha festa e me orgulho/Eu amo, eu amo/Este cesto cheio de farelo/Onde vou pousar a cabeça/Oh, eu amo deveras/Basta que eu ame/Um raminho de erva azul/Uma gota de orvalho/Um amor de ave assustada/Eles quebram o mundo/Com seus maciços martelos/Ainda me sobra muito/
Ainda sobra muito, meu coração.
Escrito por Marcelo Coelho às 22h37
mais pechinchas
A editora Conrad se destaca pela publicação de muitos livros de histórias em quadrinhos, desde Charles M. Schulz e Robert Crumb aos mais estranhos (para mim, ao menos) mangás japoneses. É também responsável pela mais importante coleção de obras contestatárias e "gauchistas" da atualidade, a Coleção Baderna; livros contra o uso de automóvel e a favor da criação de "zonas de anarquia temporária", se é que me lembro do nome, são convites estimulantes a um pensamento de esquerda livre das ortodoxias de antigamente e dos compromissos fisiológicos de hoje. Até dia 20, a editora promove descontos apreciáveis no site www.lojaconrad.com.br
Escrito por Marcelo Coelho às 18h59
De um membro do Ministério Público do Rio, recebo uma série de casos, publicados na revista "Consultor Jurídico" (http://conjur.estadao.com.br/), sobre vexames e violências no local de trabalho, tema de meu artigo na "Ilustrada" de ontem. Reproduzo o primeiro.
Corredor polonês
Ambev é condenada por submeter empregado a humilhações
A Companhia Brasileira de Bebidas (Ambev) foi condenada a pagar R$ 21,6 mil de indenização por danos morais ao vendedor Ronaldo Nunes Carvalho. Motivo: ele foi obrigado a passar por um "corredor polonês" enquanto era xingado pelos colegas por não cumprir as metas estabelecidas pela empresa.
Segundo o site Espaço Vital, a Ambev argumentou no processo que os constrangimentos alegados pelo empregado foram decorrentes do "não cumprimento das metas da empresa e que as punições eram aplicadas a todos, indiscriminadamente, não havendo perseguição pessoal".
O argumento foi desconsiderado pela 8ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região, que confirmou sentença de primeiro grau e garantiu a indenização.
Consta do processo que o empregado que recusava a passar no corredor polonês, era obrigado a vestir uma saia e desfilar em cima de uma mesa. A empresa também foi condenada a pagar diferenças de comissões e salários, horas extras e o adicional de insalubridade.
Segundo os juízes, "o fato de as punições serem aplicadas a todos, não afasta a natureza do assédio moral, pois a própria competição entre os empregados, para alcance de metas, é uma forma de constrangimento e humilhação que acaba na degradação do ser humano".
Em sua decisão, a Turma considerou que "na situação de assédio moral, humilha-se o empregado fazendo-o sentir-se ofendido, menosprezado, rebaixado, magoado, passando a sentir-se um inútil, sem qualquer valor".
A Ambev não recorreu ao TST. A condenação transitou em julgado. A decisão determina a remessa de cópias ao Ministério Público, para que seja verificada possível ocorrência de crime. Quatro outras ações semelhantes tramitam na Justiça do Trabalho gaúcha.
Processo nº 00887/2003-015-04-00
Revista Consultor Jurídico, 17 de agosto de 2004
Escrito por Marcelo Coelho às 15h31
duas em pinheiros
Na mesma padaria, dois cartazes muito elaborados. Comprei uma nova máquina digital, e tento retomar a coleção.
O mais bonito, aqui, é o alumínio da travessa... note que a cor da massa e a do recheio é igual, contrastando com a borda torradíssima.

Aparentemente, a borda está escorrendo do prato. Mas é a mão cor-de-rosa da garçonete.A figura da garçonete é em tamanho natural. Gosto da variação de tamanhos das azeitonas e rodelas de tomate. Preciosidade. Na outra mão da garçonete, há suco e ovo frito, que ficam para depois.
Escrito por Marcelo Coelho às 15h21
dica de sebos
Passear pelos sebos e comprar na base do impulso é um prazer de que não abro mão. Mas se o problema for achar um livro específico, recebi a indicação de um site que faz esse serviço para a gente: http://www.estantevirtual.com.br/
Escrito por Marcelo Coelho às 16h37
No artigo de hoje da "Ilustrada", retomo o assunto do "bullying", contando um caso de humilhação coletiva numa empresa americana. Não só nas escolas, mas no mundo do telemarketing, das vendas, imagino que técnicas de incentivo à produtividade terminem produzindo formas privadas de fascismo. Não se trata apenas do abuso de poder por parte de um chefe, mas da manipulação do grupo: é o esmagado quem mais tem prazer em esmagar os seus iguais. Citei um artigo da revista americana "Harper's", que tem boas seções com material de leitura tirado de outros lugares, os mais inusitados: autos de processo, cartas de presos, trechos de instruções de segurança no exército americano, folhetos de propaganda... A revista tem um enfoque anti-republicano muito marcado, e frequentemente trata de assuntos que são mais do interesse de quem mora nos Estados Unidos. Mesmo assim, vale uma olhada : www.harpers.org
Meu artigo pode ser lido em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0612200630.htm
Escrito por Marcelo Coelho às 15h47
pequenos vexames
Gosto de ensinar os filhos, desde cedo, a dizer “bom dia”, “até logo” e a tratar as pessoas pelo nome próprio –hábito, este último, que não tenho e que, desde os livros de Dale Carnegie, sabe-se constituir uma das chaves douradas para conquistar a simpatia de nossos semelhantes. Acho que toda criança é naturalmente sedutora para os adultos, e nada melhor do que municiá-las de máximos recursos nesse sentido.
Meu filho de quatro anos e meio já está sendo habituado a sentar-se na mesa com os adultos em ocasiões de mais formalidade, e quero obviamente que cause a impressão de ser uma criança bem-educada. Tenho uma prima, Anna Maria, que é o maior exemplo de boas maneiras que conheço. Não, não é criança; sua idade regula com a de minha mãe, em casa de quem fomos todos almoçar.
No começo, as coisas ficaram sob controle. Pouco a pouco, meu filho queria chamar a atenção, mexendo com brinquedinhos enquanto almoçava conosco. Depois, começa a história de não parar quieto na cadeira, as interrupções na conversa, enfim, todas as coisas absolutamente previsíveis numa criança que não tem como acompanhar a conversa dos adultos. Tratei de controlá-lo. o filho menor apareceu, vieram ceninhas de birra, alternadas com brincadeiras engraçadas às quais aderi.
No fim, ninguém conseguia conversar, e minha irritação foi aumentando. Mais tarde, muito discretamente, minha prima observou que os adultos, hoje, dão muita atenção às crianças, e que no tempo dela não obtinham esse monopólio dos cuidados paternos.
Percebi que toda minha irritação poderia ter sido evitada, se não tivesse deixado as crianças participarem da refeição. Mais do que isso: não apenas frustrei-me no espetáculo de boas maneiras que queria oferecer, como também ofereci um espetáculo à parte. De certa maneira, tenho gostado de exibir junto a outras pessoas o meu poder disciplinador sobre as crianças, cujos eventuais êxitos já foram relatados aos leitores deste blog. Quem deu vexame, afinal, fui eu, que ao lado de meus filhos constituí um “sistema” particular de relacionamento: uma forma de, ignorando os circunstantes, ser desatencioso e mal-educado também. Vivendo e aprendendo.
Escrito por Marcelo Coelho às 14h51
O rei "Leir" "Leir"

Lear chora a morte de Cordélia, em quadro de James Barry (1741-1806)

Lear chora a morte de Cordélia; quadro de James Barry (1741-1806)
Para a revista ‘Língua Portuguesa”, escrevo comentários de vocabulário e estilo sobre alguns trechos clássicos da literatura. Neste mês, selecionei um texto medieval, que conta rapidamente a história do legendário rei Lear; é interessante ver quanta coisa foi construída, a partir de um relato esquemático como este, na tragédia de Shakespeare. Gosto muito da menção, puramente casual, às faculdades mitológicas do rei Balduc, pai de Lear.
O texto consta da “Antologia Nacional”, livro de leituras que era utilizado nos ginásios e colégios de antigamente, organizado por Plínio Barreto e Carlos de Laet. Aqui vai, em toda sua estranheza linguística.
LENDA DO REI LEIR
Quando foi morto rrey Balduc, o voador, rreynou seu filho que ouue nome Leyr. E este rrey Leyr non ouue filho, mas ouue tres filhas muy fermosas e amauaas muito. E huum dia ouue sas razoões com ellas e disselhes que lhe dissessem verdade quall dellas o amaua mais. Disse a mayor que nom auia cousa no mundo que tanto amasse como elle, e disse a outra que o amaua tanto como ssy mesma, e disse a terçeira, que era a mêor, que o amaua tanto como deue d´amar filha a padre. E elle quislhe mal por en, e por esto nom lhe quis dar parte no rreyno. E casou a filha mayor com o duque da Cornoalha, e casou a outra com rrey de Scotia; e nom curou da mêor. Mas ella por sa ventura casousse melhor que nenhuma das outras, ca se pagou della elrrey de França e filhoua por molher. E depois seu padre della en sa velhiçe, filharomlhe seus gemrros a terra e foy malandante, e ouue a tornar aa mercee delrrey de França e de sa filha a mêor, a que nom quis dar parte do rreyno. E elles receberomno muy bem e deromlhe todas as cousas que lhe foram mester e homrraromno mentre foy uiuo, e morreo em seu poder.
Escrito por Marcelo Coelho às 14h04
na biblioteca
Hoje, não custa repetir, as crônicas de Voltaire de Souza serão lidas pelos atores das companhias Linhas Aéreas e Manufactura Suspeita, na biblioteca Mário de Andrade, às 19h30; tentarei comentá-las no evento. Mais notícias em http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u66662.shtml
Escrito por Marcelo Coelho às 13h43
o homem que odiava o Natal
Como hoje não está disponível no site do "Agora" a crônica de Voltaire de Souza, reproduzo aqui.
FRÁGEIS RAÍZES
O Natal inspira pensamentos de confraternização e paz.
Eusébio não tinha a menor paciência.
--Época mais besta. Tinha de acabar.
No congestionamento, ele buzinava com raiva.
--Consumistas. Hipócritas.
A família grande. O dinheiro curto.
A lista de presentes era de assustar.
--E ainda me pedem para comprar árvore de Natal de verdade.
Tudo parado na Marginal. Eusébio se aproximava de um grande centro de jardinagem.
O Rain Forest Garden Center.
Foi quando a chuva ficou mais forte.
O Vectra de Eusébio começou a flutuar perigosamente.
No desespero, o rapaz saiu ao encontro da enxurrada.
Os sinos do pânico bimbalharam em sua mente.
De uma carreta tombada, veio a salvação.
Trazido do interior do Paraná, um grande pinheiro de Natal foi a jangada que tirou Eusébio do sufoco. Ele já promete ser até Papai Noel na festa da família.
As enxurradas do destino arrancam, como frágeis raízes, as convicções mais profundas.
Escrito por Marcelo Coelho às 14h10
Aqui vai um exemplo para a coleção. Recebo por e-mail o release de um novo livro da editora Ágora, intitulado Astrologia para Astrólogos. Seu autor se chama Assuramaya. Cito dois trechos.
A decisão da União Astronômica Internacional de retirar de Plutão a designação de planeta não surpreendeu Assuramaya. Desde 1978 ele assegura, com a experiência de mais de 50 anos de pesquisas, tanto no campo astronômico quanto no astrológico, que Plutão não exerce a menor influência no destino das pessoas.
Já é um progresso. Falta o resto. Como dizia o título de uma obra do Marquês de Sade, “Franceses! Apenas mais um esforço...”
Enquanto isso, a ciência progride, e Assuramaya estudou outros campos do conhecimento.
... o grande diferencial do livro é mostrar como as radiações produzidas nas estrelas atuam no campo magnético dos seres humanos, influindo nas ligações protéicas do DNA e determinando seu comportamento e seu destino.
Escrito por Marcelo Coelho às 13h30
De uma clínica oftalmológica na avenida Brasil:
"Miopia-Hipermetropia-Astigmatismo. Cirurgia personalizada."
Imagine-se uma cirurgia que não fosse personalizada...
Escrito por Marcelo Coelho às 15h43
diversão total

São cerca de setecentas pessoas assistindo ao espetáculo, acomodadas numa arquibancada como se fosse de circo. Acredito que ninguém tenha deixado de se divertir, por um só momento que fosse. “Jogando no Quintal” está em cartaz há quatro anos, e, a exemplo de grandes sucessos como “Terça Insana” e “Trair e Coçar”, é um fenômeno do boca-a-boca na cena paulistana, e tem sua parcela de freqüentadores constantes –muita gente levanta a mão quando o mestre-de-cerimônias do espetáculo pergunta quem já assistiu à peça mais de quatro vezes.
“Jogando no Quintal” é um espetáculo encenado no primeiro fim de semana de cada mês (hoje, domingo, é o último dia para quem quiser assistir este ano), e reúne oito comediantes-improvisadores, com nariz de palhaço, divididos em dois times de futebol. O juiz da competição, funcionando ao mesmo tempo como animador de auditório, explica as regras para quem foi pela primeira vez ao “circo” da Cachaçaria Paulistana, debaixo do viaduto Pompéia.
As duas equipes terão de fazer improvisações de diversos tipos, com base em temas sugeridos pela platéia. Alguém fala, por exemplo, em “gaúchos”. E os quatro comediantes da equipe azul terão de inventar uma história ao vivo, com duração máxima de 30 segundos. Ou então é um objeto cedido pela platéia –um pacote de biscoitos de polvilho, por exemplo—que terá de ser transformado em quatro objetos diferentes, em tempo curtíssimo, pelos palhaços. Ao fim de cada prova, a platéia vota em quem ganhou.
Há momentos em que os atores embatucam, ou se mostram incapazes de tirar leite de pedra: o tema “exame de próstata”, por exemplo, não os autorizou a grandes vôos de criatividade. Fica engraçado do mesmo jeito. Mas há uma beleza teatral muito própria, quando os membros de uma equipe vão se articulando, um a um, a partir da vaga inspiração que surgiu no cérebro de um deles, conseguem improvisar um “sketch” com perfeito sentido e “timing” cênico, fazendo nascer, em meio à expectativa crescente do público, uma verdadeira flor de improvisação. Coube a uma equipe, nesta noite de sábado, improvisar em dez minutos uma “novela mexicana” com o tema “chocolate”. Do nada, uma história coerente e muito engraçada se fez.
Como num programa de auditório, a platéia se desopila, berra, participa, e chega mesmo a inventar situações difíceis para o mestre-de-cerimônias. Entre o desrecalque coletivo do público e a sutileza, a presteza da invenção mental coletiva que se dá em cena, há naturalmente um abismo. Mais do que nunca, entretanto, “Jogando no Quintal” acentua aquilo que, a meu ver, há de melhor no teatro, e que em outros idiomas pode ser entendido melhor do que em português. “Jouer”, “to play”, significa ao mesmo tempo representar e brincar. Nossa língua distingue as duas atividades; é ótimo que, de vez em quando, um espetáculo como “Jogando no Quintal” nos faça esquecer dessa diferença.
No link abaixo, mais informações e um mapa de como chegar ao local. Cuidado com o mapa. Se você estiver na avenida Francisco Matarazzo, não confie na flechinha ali desenhada. Parece que, entrando à direita, você chega facilmente à Cachaçaria. Não chega: da Francisco Matarazzo você acaba entrando obrigatoriamente num viaduto, e a Cachaçaria fica lá embaixo, sem acesso possível. Procure desde o início entrar na avenida paralela à Francisco Matarazzo, que quem sabe dá mais certo.
http://www.jogandonoquintal.com.br/index.asp
Escrito por Marcelo Coelho às 15h15
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PERFIL
Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.
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