Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

manifesto contra o aumento

Não é muito, mas já é alguma coisa. No site "petition on line", especializado em abaixo-assinados pela internet, já circula um manifesto contra o aumento de 91% autoconcedido pelos senadores e deputados federais. O link é http://www.petitiononline.com/oeleitor/petition-sign.html?

Escrito por Marcelo Coelho às 19h11

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comercial turco

Recebi por e-mail um arquivo com um belo anúncio de banco feito na Turquia. O link no youtube é http://www.youtube.com/watch?v=LYGqE9IODB8

Escrito por Marcelo Coelho às 18h23

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o cúmulo do cúmulo

O deputado José Múcio, do PTB de Pernambuco, defende o aumento de 91% do próprio salário porque a medida evitaria uma “fuga de cérebros”. Tendo a ser tolerante e respeitoso das instituições democráticas, mas num caso desses só esganando.

 

Pelo menos, um deputado do PT presentes à reunião conseguiu fugir da desmoralização geral, alinhando-se, como em outros tempos, aos rigores de Heloisa Helena e Chico Alencar. Foi Henrique Fontana, que não me havia impressionado bem durante a crise do mensalão.

 

Mas o cúmulo do cúmulo é o fato de que a maioria das assembléias legislativas estaduais já promoveram aumento salarial, em tempo recorde, na seqüência da decisão que beneficiou senadores e deputados federais. A assembléia legislativa de Rondônia fugiu à regra, e não decretou aumento nenhum. È que o presidente da casa estava preso até o fim do mês passado, não foi reeleito, e junto com 23 dos 24 parlamentares da assembléia está sob investigação policial.

 

Será que nenhuma organização da sociedade civil consegue organizar um protesto público? Isso, para mim, é o mais chocante. Não sei se seria impossível uma convocação via internet para um apitaço qualquer nas principais cidades do país... E também sonho com a eventualidade, num horizonte um pouco mais distante, de organizarem-se associações civis de eleitores, por exemplo: “grupo dos pefelistas insatisfeitos”, ou “bases de Antonio Palocci”, que pudessem pressionar seus representantes. Volta e meia, a avenida Paulista era ocupada por militantes conta a globalização ou categorias como bancários e estudantes protestando contra isso ou aquilo.

 

Será que a única mobilização de estudantes com chances de sucesso, hoje, seria uma passeata quando os cinemas decidirem acabar com a meia entrada? 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h54

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coluna de hoje

coluna de hoje

De um Papai Noel, podemos esperar boas e más surpresas. Leia a crônica do "Agora" em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1512200604.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 13h45

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imagens de Beethoven

Há sempre a necessidade de representar um Beethoven enfarruscado e furioso, o que está de acordo, afinal, com os ímpetos mais freqüentes de suas composições. è muito ruim ver no cinema as tentativas de reproduzir o seu rosto, que afinal foi surpreendido pelos artistas numa pose expressiva, não no seu cotidiano de homem. O retrato mais conhecido de Beethoven é aquele em que os atores se fixam, ficando desarvorados quando têm de rir ou sorrir nos filmes a respeito do compositor. Eis o retrato clássico, que Gary Oldman e Ed Harris tentam imitar:

Sem fugir à imagem clássica, o escultor Bourdelle recriou esse rosto inúmeras vezes, com um poder que o cinema não foi capaz de imitar:

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h32

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O segredo de Beethoven

O segredo de Beethoven

 

 

“Uma mulher compositora?” Na Viena de 1824,  isso era um absurdo patente, e ninguém menos do que Ludwig van Beethoven dá risada diante da idéia. “Todo mundo tenta ensinar um cachorro a andar sobre duas patas, e apesar dos resultados ridículos, continuam tentando”. A frase aparece no novo filme de Agnieszka Holland, “O Segredo de Beethoven”, com Richard Harris no papel do mestre, e a inexpressiva loirinha Diane Kruger no papel de Anna Holtz, uma jovem aspirante a compositora que se emprega como ajudante e copista na casa do gênio abusado e irascível.

 

A frase sobre um cachorro tentando andar sobre duas patas poderia ser aplicada a todo filme que tenta colocar Beethoven como personagem principal. O drama da surdez, a face compenetrada e furiosa, a genialidade do compositor dão péssimo resultado quando transplantadas para o meio prosaico da tela de cinema. Abel Gance, que fez maravilhas com o jovem Napoleão Bonaparte, caiu no melodrama ingênuo quando tentou biografar Beethoven; ainda assim, a ingenuidade era perdoável num filme feito nos primórdios do cinema falado. Uma cinebiografia mais recente, com Gary Oldman no papel do compositor, assumia o “kitsch” de maneira tão desastrada que conseguia ser comovente: um Beethoven ainda criança aparecia levitando no céu estrelado, ao som da “Nona Sinfonia”, e o aspecto surreal e barato da cena não deixava de ter impacto no público.

 

Também é a “Nona Sinfonia” a responsável pelo efeito mais certeiro e comovente de “O segredo de Beethoven”. Acompanhamos no filme as tensões da estréia. Beethoven, apesar de surdo, insiste em reger a sua grande obra. Sua assistente é convocada na platéia, à última hora, para exercer ocultamente o papel de maestrina junto à orquestra, indicando a Beethoven os gestos que ele tinha de fazer. O suspense da cena (“será que vai dar certo? será que não vai acontecer uma catástrofe colossal?”) prende a atenção do espectador, e é lindamente reproduzido nos diversos closes que são feitos dos cantores do coro: todos estão ansiosos para saber o momento de começar a cantar a “Ode à Alegria”, e mal se agüentam antes do prazer de entoar a retumbante, grandiosa melodia.

 

Há outros bons momentos no filme, quando Beethoven se mostra capaz das mais surpreendentes brutalidades, para arrepender-se logo depois. O maior problema é que Ed Harris nunca é totalmente Beethoven, e nunca é Ed Harris; parece um cowboy cuidadosamente amestrado para o papel de gênio musical, incapaz de um momento de interioridade e silêncio. O Mozart de Tim Hulce, em “Amadeus”, de Milos Forman, era convincente no papel de criança terrível e vulgar, em parte porque o filme o retratava tal como parecia aos olhos de Salieri, seu antagonista na história. A vulgaridade de Ed Harris é apenas a tentativa de fazer um Mozart mais estúpido e carrancudo, pronto a alternar acessos de fúria e de palhaçada, mas profundamente antiintelectual. O antiintelectualismo de Mozart corresponde, bem ou mal, à força de seu talento, e de sua naturalidade, como compositor. A genialidade de Beethoven, ao mesmo tempo incrivelmente mais emotiva e mais cerebral, não se presta do mesmo modo aos espetáculos de esquisitice encenados no filme. Tudo, no Beethoven de Agnieszka Holland, reafirma o clichê; era justamente contra o clichê angelical de Mozart que Milos Forman fez seu filme.

 

Some-se a isso a profunda mediocridade dos personagens secundários de “O Segredo de Beethoven”: Karl, o sobrinho do compositor, e Martin, o namoradinho de Anna Holz, são personagens tirados diretamente de uma telenovela ou seriado histórico de televisão. O feminismo açucarado do ponto de partida (uma jovem talentosa e bonita servindo ao mestre misógino) encontra na passividade da atriz principal, Dianne Kruger, uma fiel tradução. O resultado desagrada, sem dúvida, mais aos fãs de Beethoven do que ao público que quiser um primeiro contato com a colossal e mítica figura do compositor.  

 

“O segredo de Beethoven” (Copying Beethoven) tem estréia prevista para dia 22 de dezembro.

 

Outro Beethoven: Gary Oldman, em "Minha Amada Imortal"

 

Um Beethoven mais velho e convincente: Harry Baur, na "Amada Imortal" de Abel Gance:

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h55

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conexão

Fiquei fora do ar por artes do speedy, mas retomo as atividades em seguida.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h44

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entrelinhas

Ao lado de Manuel da Costa Pinto, Joca Reiners Terron e outros colaboradores, participo como comentarista de um programa sobre literatura na TV Cultura, o "Entrelinhas" (quartas-feiras, 22h30). O programa agora conta com um site, onde trechos do programa, textos e resenhas podem ser acessados: http://www.tvcultura.com.br/entrelinhas/ 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h06

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Walt Whitman

Alguns versos de Walt Whitman:

Ousarás agora, minha Alma,

Caminhar comigo no rumo da região desconhecida,

Onde não existe chão em que se pise, nem caminho que se siga?

Nenhum mapa, nem guia,

Nem voz que soe, nem toque de mão humana,

Nem rosto num florir de carne, olhos, lábios,

Existem nessa terra.

Não a conheço, minha Alma,

Tampouco a conheces, tudo é vazio à nossa frente,

Tudo lá está insonhado à nossa espera,

Nessa terra inacessível,

Até que se soltem todos os laços,

Todos os que não sejam eternos, o Tempo e o Espaço;

Não a cegueira, a gravidade, a sensação,

nem qualquer elo que nos prenda.

 

Então rompemos caminho, flutuamos,

No Tempo e no Espaço, minha Alma, preparados,

Iguais, prontos finalmente (ó alegria! Ó fruto de tudo!)

para preenchê-los então, minha Alma.

 

Leio essas palavras no folheto de um disco com a obra coral de  Vaughan Williams (1872-1958), editado pela Naxos, com o barítono Roderick Williams e o Coro e Orquestra de Liverpool, regidos por David Lloyd-Jones. O disco se chama "Willow-Wood", e esta peça se intitula "Toward the Unknown Region". A música segue lindamente as sugestões dos versos iniciais, com uma melodia que lembra uma conhecida canção do século 17, "Weep you no more, sad fountains", enquanto as cordas fazem um acompanhamento discreto, parecido com o tema do "Dies Irae". Infelizmente ou não (tenho dúvidas sobre o que acho da música) tudo termina no habitual tom triunfante e afirmativo de Vaughan Williams; o texto de Whitman, ao contrário, parece falar de uma espiritualização crescente, quase que além do próprio espírito. Difícil encontrar uma visão da morte tão imaginativa, e ao mesmo tempo tão isenta de mitologia e fabulação.

 

 

A fisionomia de ave inquisidora do compositor Vaughan Williams merece uma ilustração.   

Escrito por Marcelo Coelho às 17h38

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aerossol

aerossol

 

Continuando a série de cartazes populares (não só de pizzas) eis uma bonita advertência numa rua da Lapa. Difícil saber por que razão o aerossol está inclinado; como se fizesse uma cortesia, talvez. O detalhe azul do tubo combina bem com a parede do fundo.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h29

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que classe média?

A notícia de que a classe média perdeu 46% de sua renda nos últimos seis anos contrasta com o que vemos numa cidade como São Paulo, em especial nesta época do ano: uma febre de consumo, estacionamentos de shopping lotados, restaurantes sempre cheios, e principalmente uma propensão psicológica para gastar em qualquer ocasião: não entendo como tanta gente dá oito ou dez reais sem piscar ao manobrista do restaurante, ou paga alegremente pela garagem VIP de um shopping center, e depois reclama da alta carga tributária no Brasil.

O segredo da contradição está no conceito de classe média. Todo mundo se diz de classe média, mas para a estatísticas já é de classe média quem ganha mil e poucos reais por mês. Se a classe dos que ganham mil ou dois mil reais por mês está esmagada financeiramente, isso é de preocupar. Mas que pessoas com mais de dez mil reais mensais se sintam injustiçadas, é um bocado absurdo num país como o Brasil. Leia mais no meu artigo para a Ilustrada de hoje em http://tinyurl.com/ujy6w

Escrito por Marcelo Coelho às 17h23

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Macunaíma

Macunaíma

 

 

 

Macunaíma, o filme de Joaquim Pedro de Andrade, teve uma cópia restaurada, que está sendo lançada agora em DVD. Outro dia levei um puxão de orelhas de uma importante autoridade cultural porque me aventurei a falar mal do filme. Precisaria revê-lo; prometo que faço isso em outra encarnação.

 

Tudo ali me desagrada, a começar pelo Grande Otelo, de quem tenho horror: uma caricatura de si mesmo, comparecendo no filme para significar coisas de que ele não parece estar consciente. A opção tropicalista pelo feio, pelo escrachado, pelo alegórico me deixa sempre muito incomodado. É como se, fingindo uma aparência crítica, a mensagem fosse ao mesmo tempo desesperada e conformista: o Brasil é assim mesmo, você que está errado em querer imitar padrões europeus de civilização e de bom gosto. Mas se estou errado, a partir de quais os padrões se pode dizer que há algo de criticável no Brasil?

 

Sem contar aquela atmosfera típica do cinema brasileiro dos anos 70: a luz crua, os saltos na montagem, uma espécie de “silêncio”, de “vácuo visual” causado pela indigência cenográfica, que se quer inutilmente compensar com o detalhe bizarro, a gesticulação grotesca, o humor elefantino, a catástrofe armada em carnaval.

 

Em todo caso, posso estar sendo cego às sutilezas do filme. Recebi um exemplar de uma revista de cinema editada pela Universidade Federal de Sâo Carlos, intitulada Cinema olhar, com um artigo do pesquisador Leonardo Côrtes Macário sobre Macunaíma. O filme de Joaquim Pedro, segundo diversos estudiosos, é um “filme de citações”, aproximando-se portanto do livro de Mário de Andrade em que se baseia, ele próprio uma “colcha de retalhos” de outros textos.

 

Macário identifica em Macunaíma citações engenhosas das velhas chanchadas da Atlântida, em especial de Aviso aos Navegantes, filme de 1950 dirigido por Watson Macedo. Na chanchada, Grande Otelo está num navio, e finge passar mal, para atrair as atenções da tripulação, “e permitir que Oscarito fosse ao camarote onde o imediato Alberto (Anselmo Duarte) estava detido”. No filme de Joaquim Pedro, Grande Otelo reaparece “como Macunaíma fugindo do monstro e tentando evitar que ruídos escapem por seus orifícios.”

 

O gestual é bastante semelhante: Azulão (Grande Otelo) finge procurar com as mãos onde dói, como se algo tivesse entrado por sua roupa e estivesse a machucá-lo (suas mãos passam pelo peito, pelos bolsos do paletó e da calça, pelo topo da cabeça). Macunaíma (Grande Otelo, novamente), após comer a carne da perna do Curupira e se espreguiçar, percebe que o monstro corre em sua direção com uma faca, gritando insistentemente “Carne de minha perna”. A carne responde, por dentro do herói, que tenta impedir com as mãos, inutilmente, que o grito saia.

 

A análise prossegue, identificando de forma convincente as referências de Macunaíma ao filme anterior.Há, naturalmente, uma cultura cinematográfica (e cinéfila) brasileira que conheço mal, e que provavelmente é capaz de ver qualidades e alusões onde vejo apenas absurdo e derrisão. Padrões de “bom gosto” muitas vezes são apenas ignorância do crítico; é difícil não ser arrogante quando não se conhece a regra do jogo. Mas é que há outros jogos tão mais bacanas de se ver...

Escrito por Marcelo Coelho às 23h26

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Num post anterior falei da obra de Miyamoto Musashi, O Livro dos Cinco Anéis, e das belas passagens que esse samurai do século 17 escreveu sobre a essência do Vazio. Coincidentemente, a  editora Estação Liberdade acaba de publicar uma biografia de Musashi, escrita por Scott Wilson. No jornal fica feio, mas num blog dá para reproduzir um trecho do release:

Aos treze anos, Miyamoto Musashi matou um adversário no que seria o primeiro de uma excepcional série de célebres combates de espada. Aos trinta, já tinha despachado mais de sessenta lutas sem perder nenhuma, ele viveria outros trinta anos sem liquidar mais ninguém. Continuaria a participar de combates, mas agora simplesmente neutralizando os ataques dos adversários até eles reconhecerem suas habilidades nas mais diversas técnicas.

 

A vida do lendário espadachim japonês está permeada de fatos e episódios históricos e pessoais trazidos ao público brasileiro na biografia O Samurai, A vida de Miyamoto Mushasi, de William Scott Wilson, escritor norte-americano especialista em língua e cultura do Japão. A obra é resultado de extensa pesquisa e traz ainda mapas e vários anexos, como pinturas de autoria do próprio Musashi, que além da habilidade com as espadas, destacou-se como pintor a nanquim, praticante de caligrafia tradicional, estudioso de poesia chinesa e adepto da filosofia zen-budista. 

 

Musashi foi uma lenda em seu tempo. Ignorando as convenções, ele preferia uma espada de madeira e em seus anos de maturidade nunca lutou com uma arma autêntica. Foi mestre em aniquilar os inimigos usando recursos psicológicos que estudava exaustivamente antes dos combates. Musashi orientava seus estudos tão arduamente conquistados sobre as artes combatentes para metas espirituais de cunho zen-budista. Como nos mostra Scott Wilson nesta biografia, no japonês moderno existem figuras de linguagem que se referem ao caráter “musashiano”, revelando que, provavelmente, o seu nome seja tão ou mais conhecido do que importantes personalidades da história e cultura japonesas.

 

Não é a primeira vez que o mercado editorial ouve falar do espadachim Musashi. Em 1999, pela primeira vez no Ocidente em versão integral, foram editados os dois volumes do mais famoso romance épico japonês do século XX, Musashi, de Eiji Yoshikawa, pela Estação Liberdade. Este romance ficcional inspirado na vida do guerreiro-filósofo já vendeu cerca de 120 milhões de exemplares, em suas diversas versões no Japão.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h53

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obras-primas da publicidade

 

 

Eis um anúncio realmente criativo, sem ironia. É de uma empresa de vigilância particular, a Estrela Azul, e apareceu na revista do Shopping Iguatemi (onde mais haveria de ser?). Mostra uma foto linda da Muralha da China, pontilhada de centenas de turistas. E diz o seguinte:

 

Muro alto não afasta ninguém. E às vezes atrai mais gente.

 

Não deixa de ser ambíguo, entretanto. Minha primeira leitura foi a de que a empresa está preocupada em não transmitir uma imagem antipática, mostrando que se pode perfeitamente cercar uma casa de muros (eletrificados, se possível), sem deixar de ser acolhedor e hospitaleiro.

 

Mas, se muros altos atraem gente, podemos pensar que também atraem ladrões, e que entre as centenas de turistas visitando a Grande Muralha se esconderão não poucos pick-pockets. De modo que a empresa de segurança faz propaganda contra os muros altos; e, se o caso é afastar pessoas,  seus vigias são mais eficientes e assustadores.

 

Só que o “objeto de desejo” veiculado pelo anúncio é a Muralha, com sua beleza; minha aspiração, enquanto feliz habitante de um palácio no Jardim América, seria a de cercar-me de muros dignos de serem considerados patrimônio cultural da humanidade. Uma construtora especializada em muros decorados, de altíssima segurança, em estilo chinês ou medieval, poderia rivalizar então com os serviços da Estrela Azul.

 

Como ficamos? Com a mentira essencial, que o anúncio tenta ocultar: serviços de segurança são antipáticos por natureza, e bem menos sutis que os publicitários que lhes prestam assistência.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h40

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bullying, trote, assédio

Recebi e-mail de um professor da Esalq, que no momento elabora uma tese de livre-docência sobre o trote universitário. Enviou-me também um artigo, no qual compara três práticas semelhantes: a do bullying escolar, do trote universitário e do assédio moral nas empresas. Um aspecto curioso que ele relata é o de que a prática do trote nas universidades tende a formar o que ele denomina de "comunidades trotistas", fortalecendo laços de solidariedade entre os alunos mais violentos e opressores, que se prolongam na sua vida profissional; é como se aplicar trotes fosse uma espécie de curso preliminar para o exercício do assédio moral e da violência nas relações de trabalho.

O artigo, de Antonio Almeida e Oriowaldo Queda, pode ser lido no site www.antitrote.org, que também apresenta relatos de vítimas, artigos e comentários. 

Escrito por Marcelo Coelho às 21h54

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descoberta do real

descoberta do real

 

 

Meu filho de quatro anos e meio assiste muito aos “Backyardigans”, um desenho animado do canal Discoverykids. Quatro personagens, um alce, um hipopótamo fêmea e não sei mais o quê, brincam no quintal e logo, por obra de sua imaginação, vêem-se transportados para o Egito antigo ou para a selva amazônica.

 

A idéia do desenho é prestigiar a força da imaginação infantil e o valor das brincadeiras grupo. No meu filho, teve o efeito oposto. Ele não se conforma com o fato de que suas brincadeiras e imaginações sejam incapazes de levá-lo à Amazônia de verdade, à Escandinávia dos vikings de pelúcia. Faz força, fecha os olhos, encena uma situação, e desespera-se ao reencontrar o mesmo apartamento onde nasceu.

 

Para consolá-lo, minha mulher contou um acontecimento de sua infância. Ela queria com todas as forças uma lousa e gizes de presente. No Natal, acordou de manhã e o presente estava lá.

 

O efeito foi devastador. Meu filho fechou os olhos, sabe-se lá com que desejos –estar em Marte? ter superpoderes?—e, ao abri-los, viu que nada tinha acontecido. Chorou como se tivesse batido a cabeça na parede.

 

Ele está descobrindo a realidade, e a impotência dos próprios pais. Tentei consertar a situação. Havia alguns pedacinhos de chocolate na geladeira, guardei-os entre as mãos, para que se aquecessem, e voltei ao quarto onde a crise prosseguia a velas pandas. Mandei que meu filho fechasse os olhos, e quando ele os abriu, abri as mãos com chocolate. Ele comeu, acalmou-se, e pude discorrer sobre o possível e o impossível.

 

É possível, algum dia, que o homem viaje até Marte. Impossível chegar até o Sol. Meu filho amadurece. Faço entretanto o possível e o impossível, com  chocolates de última hora, para retardar esse processo. É minha função. É função de minha mulher torná-lo mais crédulo e esperançoso; de minha parte, cumpro o dever de habituá-lo ao real –desde que não faltem chocolates na geladeira.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h09

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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