jornalismo em tempos de beabá
Pelas minhas esparsas leituras, fiquei com a opinião de que os jornais ingleses (não falo dos tablóides) são os mais interessantes e bem-feitos que conheço. Um leitor estrangeiro pode tropeçar com o jargão num jornal americano, mas os ingleses são em geral claros e compreensíveis. No jornalismo cultural, apesar de toda a fama que tem, o "New York Review of Books" não chega aos pés do "Times Literary Supplement", em ironia, apuro de texto, grau de especialização dos colaboradores.
Mas o estilo "be-a-bá", pão-pão queijo-queijo, parece estar chegando também à imprensa britânica. Transcrevo o final de um artigo de Patrick Cockburn, no "Independent", sobre a condenação de Saddam Hussein, traduzido na edição de hoje da "Folha":
Se morto num atentado há 20 ou 30 anos, a história do Oriente Médio teria sido diferente. Mas sua morte não fará agora nenhuma diferença.
Nascido em Ouija, em 1937, ele era filho de um camponês que morreu pouco antes ou pouco depois de seu nascimento. Foi criado pela mãe e por dois tios. Tornou-se membro do partido Baath, que apenas tinha uma boa implantação no Exército e que se tornou poderoso em 1968.
Viveu em palácios esplendorosos. Gostava de charutos cubanos. Dizia escrever romances históricos. Desta vez, teve sua grande derrota.
Dizer que alguém, ao ser enforcado, conhece uma "grande derrota" não é propriamente a melhor maneira de gastar papel e tinta.
Escrito por Marcelo Coelho às 15h05
Em direção ao sul
Em direção ao sul
Charlotte Rampling e Menothy César
Difícil encontrar um filme tão sério e desencantado como “Em Direção ao Sul”, de Laurent Cantet, que estreou nesta sexta-feira. O ponto de partida já é bastante carregado do ponto de vista emocional. Mulheres de meia-idade, para não dizer já idosas, costumam passar férias num hotelzinho de praia do Haiti (estamos na década de 70), em busca de prazer sexual com os rapazes negros do lugar.
O ambiente para a decepção pessoal, para o surgimento de ilusões românticas, para o confronto entre o mundo desenvolvido e a violência da América Latina, está evidentemente armado desde o início. O que é extraordinário nesse filme é a variedade de respostas pessoais que cada uma das personagens oferece a essa mesma situação.
Charlotte Rampling, velha e bonita, tem um papel que é uma mina de ouro para uma excelente atriz como ela: trata-se de uma mulher inteligente, agressiva e amarga, que insiste em resumir todo seu relacionamento com um gigolô haitiano a uma mera troca de interesses, sem nenhuma dimensão amorosa.
O ciúme e a paixão, que ela reprime, aparecem de forma mais pura e hesitante em outra personagem, vivida com grande senso de fragilidade, quase à beira da depressão, por Karen Young.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h33
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O Ilusionista
O Ilusionista

Jessica Biel e Edward Norton no filme de Neil Burger
Edward Norton não é exatamente o tipo de ator ideal para encarar um jovem apaixonado, capaz de lutar anos e anos por um amor impossível. Mas tem uma boa cara de mágico, e seus truques, no papel do misterioso sr. Eisenheim, são um dos prazeres de “O Ilusionista”.
É uma boa trama romântica e policial, que se passa na Viena de finais do século 19. Não li o conto de Steven Millhauser em que o filme se baseia, mas posso imaginar que houve uma mudança de foco narrativo na passagem para o cinema. Visivelmente, todo o mistério da história ficaria bem mais difícil de descobrir, e ao mesmo tempo mais fácil de ser explicado no final, se tudo fosse narrado a partir da ótica do detetive (Paul Giamatti) que investiga os truques de Eisenheim. Mas aí o filme perderia seu apelo romântico imediato. Pelas convenções do cinema comercial, o protagonista é quem se apaixona, quem se vinga, quem brilha pelo talento... e a narrativa de “O Ilusionista” terá então de pôr a câmera sempre perto do par romântico, mesmo que isso fragilize a construção do quebra-cabeças policial.
Mas estes reparos à estrutura formal do filme não importam muito: intriga, amor, bons truques de magia, além de luxuosas imagens do decadente império austríaco, garantem a diversão do espectador.
Uma coisa curiosa em “O Ilusionista”, que também aparece em “O Segredo de Beethoven”, é o gosto por uma certa pré-história da tecnologia, um pouco como no desenho animado dos “Flintstones”, só que levado a sério. Na Viena de 1815, o compositor surdo recorre a cornetas acústicas acopladas à cabeça, como se fossem modernos fones de ouvido. Beethoven está ensaiando a orquestra, e precisa ter as duas mãos livres para reger. O espectador tem a impressão de estar vendo uma sessão de gravação em estúdio, com o músico testando a qualidade do som...
Em “O Ilusionista” as aparições de fantasmas nos shows do mágico Eisenheim são obtidas graças a um aparato tecnológico ainda incipiente, uma espécie de ancestral do cinematógrafo. As mágicas de Eisenheim e a arte de Beethoven recebem ovações do público. Mas é como se esses filmes quisessem sempre nos lembrar que a tecnologia está por perto; que, em vez de teatros com platéia assistindo a espetáculos ao vivo, a mágica do cinema é que se mostra capaz de insuperáveis prodígios.
Escrito por Marcelo Coelho às 19h58
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4 anos de Lula
Na Folha de hoje, escrevi um artigo avaliando o primeiro mandato de Lula. Tentei ser equilibrado. Diante de todos os medos que sua posse suscitava em alguns, e de todas as esperanças que suscitava em outros, nenhuma previsão se confirmou. O resultado foi administrativamente fraco, economicamente neutro, socialmente positivo, e politicamente ruim. Os avanços sociais, a meu ver, foram acompanhados de retrocesso político. Acho especialmente grave ter sido eleito com bandeiras que, logo em seguida à posse, foram esquecidas. Uma quantidade de coisas que se criticavam em Fernando Henrique passaram a ser aceitas alegremente... como se todos aqueles discursos a favor de CPIs, contra reformas na previdência, contra juros altos, fossem conversa para boi dormir. Lula, em todo caso, foi menos arrogante do que muitos petistas, que continuaram a se fazer de donos da verdade enquanto desmentiam todo o seu passado. Se querem ser cínicos ou pragmáticos, têm esse direito: mas combinar essa atitude isso com o velho papel de moralistas indignados é que não convence. Leia no link http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2912200614.htmEscrito por Marcelo Coelho às 17h47
estética do chocolate
Acabo de comer duas barras de chocolate. Uma, da Garoto, de chocolate branco e frutas cristalizadas. Outra, da Lindt, de chocolate meio-amargo com metades de avelã. O grau de “prazer” que ambas me proporcionam é equivalente. Entretanto, percebo no chocolate da Lindt uma “qualidade” superior. O chocolate da Lindt é, de algum modo, mais interessante: o meio-amargo, a consistência da barra produzem um jogo entre facilidade e desprazer, entre a suavidade do derretimento e o amargor, entre o doce, o amargo e o salgado da avelã, de que o chocolate da Garoto é incapaz.
A barra da Lindt me leva a uma sensação estética, isto é, intelectual; sabe do prazer que é capaz de administrar em mim, e, sabendo disso, tem condições de negá-lo, de adiá-lo. Por ignorância com relação aos próprios meios, o chocolate da Garoto me dá prazer imediato, sem saber dos poderes que é capaz de ter sobre mim.
Valor estético é prazer adiado; quando mais austero, mais estético; ou melhor: quanto mais consciente de si mesmo, mais duradouro.
Escrito por Marcelo Coelho às 03h52
mulheres pianistas

Recomendei um site de tangos (http://www.todotango.com.ar) para quem se deprime, como eu, no final de ano. Mas para quem quiser começar 2007 num estado mais eufórico, nada melhor do que ouvir a primeira faixa de “Women at the Piano vol. 1” coletânea de gravações históricas lançada recentemente pela Naxos.
O CD, com boa qualidade sonora, abre com a legendária pianista Monique de la Bruchollerie (1915-1972) interpretando uma “Toccata” de Saint-Saëns, no típico estilo virtuosístico das paráfrases de concerto. No caso, trata-se de uma fantasia pianística em torno de temas do Concerto número 5, “O egípcio”, do próprio Saint-Saëns. Como em todas as outras faixas de CDs, há um terrível acúmulo de trabalheira digital, com dedinhos saltitantes à direita e trovoadas monstruosas à esquerda, mas a música de Saint-Saëns é de uma alegria, de um repique de notas repetidas, de uma sabedoria psicológica em deixar o ouvinte feliz a cada retorno de seus temas, que é capaz de garantir um ano auspicioso a pessimistas bem mais tenazes do que eu.
Na segunda faixa, a brasileira Guiomar Novaes (1895-1979) é quem faz bonito, numa peça cintilante de seu professor no Conservatório de Paris, Isidore Phillip. “Feux-follets” é uma obra de grande virtuosismo, e bastante bonita; dá pena que não tenham incluído nessa coletânea outros momentos de grande bravura técnica de Guiomar Novaes, como a marcha das “Ruínas de Atenas” de Beethoven, e uma memorável gravação do Capricho de Saint-Saëns sobre melodias de “Alceste” de Gluck; isso está disponível num CD nacional que também traz Guiomar Novaes e Otto Klemperer no 4o concerto de Beethoven.
Outras preciosidades de “Women at the Piano 1” são Marguerite Long tocando uma peça de Milhaud (“Alfama”, uma miniatura comparável às de “Saudades do Brasil”), Myra Hess brincando lindamente com os “Poissons d’ Or” de Debussy, e Reah Sadowsky (quem??) tocando nada menos que o “Corta-Jaca” de Fructuoso Vianna.
Música leve, sem dúvida. O lado mais pesado, se há algum, fica a cargo de Gaby Casadesus, que despeja toneladas numa pobre peça de Couperin, e de Harriet Cohen, que desvencilha-se de uma enfarruscadíssima espécie de passacaglia escrita por sir Arnold Bax. A foto no alto deste post mostra Harriet Cohen, muito bonita com seu curioso decote quadrado, ao lado de Bax. A legenda do site em que pesquisei nos informa que Bax e Cohen foram “close friends, and occasional lovers.”
Escrito por Marcelo Coelho às 19h41
natal funesto
natal funesto
Cuidados com a saúde são importantes nesta época do ano, lembra o cronista do "Agora". Assinantes podem ler em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2812200604.htm
Escrito por Marcelo Coelho às 19h00
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overbooking ao molho branco
Lembro dos começos da TAM, quando além do tapete vermelho para os passageiros havia um piano e bufê na sala de embarque... O tipo da coisa que você olha e pergunta quanto tempo vai durar. Na última viagem que fiz pela companhia, destroços daquela época tentavam ainda levantar-se aos olhos do passageiro incauto. Eles anunciavam com voz séria o sensacional “festival de massas” que seria servido aos viajantes.
Nunca, nem nos meus tempos de bebê, pus na boca uma massamorda tão viscosa e repugnante. Era uma espécie de mingau branco e frio, de consistência tão incerta e densa que era impossível distinguir entre o que era molho e o que era capelete.
Festival de massas? Para encontrá-lo, basta ficar no saguão do aeroporto, onde as filas se trançam num confuso e fervente macarrão, entre almôndegas de bagagem, num alarido “all’ arrabiata”.
Avião, para mim, devia ser como ônibus: uma catraca e um cobrador. È transporte de massas mesmo, e foi com alívio que vi entrar em funcionamento o sistema da Gol, onde em vez daquele cartão de embarque grandão, que temos medo de dobrar e pôr no bolso, foi adotado um papelzinho com cara de nota fiscal, sem nenhuma pretensão.
Há vinte anos, fiz um vôo doméstico na Alemanha, no qual o serviço de bordo fora simplesmente abolido. Havia um cabidão, tipo mancebo, no portão de embarque, onde se penduraram lancheiras com um sanduíche ou coisa que o valha. Você pegava a lancheira, comia quando e se quisesse, e nada mais.
Coisa atrasada e ridícula é aquele carrinho que as comissárias vão empurrando no corredor estreitíssimo, e que bloqueia por meia hora o cidadão que quer entrar ou sair do banheiro... Basta ver aquilo para perceber que está com os dias contados, como se fosse uma carroça de catador de papel no meio de uma avenida congestionada.
Mas a própria TAM deu um passinho à frente, quando adotou o check-in eletrônico. Comprar passagem pela internet, chegar num terminal do aeroporto, digitar a senha e sair com o cartão de embarque já é um grande avanço. Quando, naturalmente, há vôos.
Termino com duas considerações impopulares. A primeira é que, por mais justa que seja a indignação dos passageiros com o caos atual, as coitadas das atendentes no balcão das companhias aéreas deveriam ser tratadas com mais respeito e compreensão. Mesmo em épocas normais, a primeira coisa que todo mundo faz é xingá-las a qualquer pretexto. Em geral, elas não podem mesmo fazer nada.
A segunda é sobre a questão do overbooking. Deve haver exagero nas empresas brasileiras. Mas acabar totalmente com qualquer overbooking, como prometeu o ministro Waldir Pires, é uma medida que as empresas aéreas podem contestar com certa razão. Numa revista da British Airlines, que não é nenhuma Varig, li uma explicação convincente sobre o overbooking.
Quando você compra uma entrada no teatro, e por algum motivo não vai ao espetáculo, você perde o dinheiro da entrada. Se quiser ir de novo, tem de comprar outra. Mas quando por algum motivo você não aparece no vôo, o bilhete que você comprou continua valendo para os vôos seguintes. Há um número de pessoas que não se apresentam no check-in, e com base nesta porcentagem estatística é lícito calcular um índice de overbooking. Claro que, quando há mais passageiros do que lugares, o procedimento das companhias decentes é oferecer vantagens financeiras para quem desistir. Mas, como princípio geral, não é tão absurdo quanto parece.
É só um raciocínio. Naturalmente, espero comentários dizendo que sou financiado pela TAM e pela Gol, como os que me acusaram, num artigo a favor dos trens, de ser financiado pelas construtoras de rodovias. Cada um viaja como bem entende.
Escrito por Marcelo Coelho às 13h07
um poema de João Cabral
Estava com este poema de João Cabral de Melo Neto na cabeça quando escrevi sobre a troca de presentes, no artigo para a Ilustrada de ontem (ver post anterior). Acabei não citando, uma leitora fez a mesma associação, mandando o poema por e-mail. Aqui vai.
Tecendo a Manhã
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
( a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si, luz balão.
Escrito por Marcelo Coelho às 10h06
voando com Papai Noel
voando com Papai Noel
As dificuldades para viajar no Natal mostraram-se especialmente agudas para o sr. Petrelli. Leia a crônica do "Agora" em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2712200602.htm
Escrito por Marcelo Coelho às 17h30
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presente e veneno
No artigo de hoje, sobre o hábito de trocar presentes, citei uma famosa análise de Marcel Mauss, publicada entre os anos de 1923 e 1924, o “Ensaio sobre a Dádiva”, mas não dei a indicação bibliográfica da tradução. Faz parte da coletânea “Sociologia e Antropologia”, publicada pela Editora Pedagógica Universitária e pela Edusp, nos anos 70. O livro conta com uma fundamental introdução de Lévi-Strauss, que contesta, em parte, a argumentação do autor.
O trecho mais bonito, e mais “mágico”, do raciocínio de Mauss está na idéia de que, para os indígenas, a troca de presentes não envolve apenas uma relação entre pessoas, ou grupos, mas sim a circulação de uma espécie de força espiritual. As coisas, e não as pessoas, têm vida, não são objetos inertes.
Se eu der um presente a alguém, e essa pessoa o repassar a uma terceira, o “hau” daquele objeto, que veio de mim, poderá tornar-se uma carga maléfica. Se a terceira pessoa retribuiu o presente recebido com outro presente, esse presente terá necessariamente de ser devolvido a mim, para que se complete o círculo. Se não houver retribuição, isto é, troca de “haus”, o hau acumulado em quem ganhou o presente poderá matá-lo.
Uma associação interessante é feita por Mauss: em inglês, “gift”, “presente”, é a mesma palavra, “Gift”, que os alemães usam para designar “veneno”.
Se for assim, melhor do que investir nossos presentes de afetividade pessoal, talvez seja mesmo indicado que sirvam apenas como objetos neutros numa relação de troca... o feitiço pode virar-se contra o feiticeiro.
Mas é bonito que em nossa cultura, marcada pela impessoalidade dos amigos secretos, intervenha uma entidade que dá sem receber nada em troca: antigamente, tratava-se do Menino Jesus, e hoje é o Papai Noel. Os brinquedos que as crianças recebem nessa ocasião estão dotados, sem dúvida, de uma força mágica suplementar graças a essa intervenção. E do “olho por olho, dente por dente”, do Antigo Testamento, passa-se a esse tipo de doação incondicional, sem troca, puro sacrifício, que é o sentido que deveria ter o Natal para os cristãos. Mas no próprio cristianismo, vale acrescentar, existe o “é dando que se recebe”, de São Francisco de Assis. Reciprocidade, afinal, é questão de justiça; a caridade, por sua própria natureza, tem um papel suplementar em qualquer lugar do mundo. “Ama teu próximo como a ti mesmo” já é um paradoxo, à medida que supõe algum egoísmo de base... sobre isso –e o tamanho deste “isso” é gigantesco—vale a pena ler um livro do filósofo Vladimir Jankélévitch publicado pela Papirus, “O Paradoxo da Moral”.
Texto do artigo na "Ilustrada": http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2712200618.htm
Escrito por Marcelo Coelho às 17h27
saudade dos trens
saudade dos trens

Sempre se diz que o trânsito não melhorará nunca em São Paulo, a não ser que se invista em transporte coletivo –o que significaria, basicamente, aumentar as linhas de metrô (quando haverá dinheiro para isso?) e melhorar os serviços de ônibus (mais ônibus? e qual o dono de carro que se dispõe a usar um ônibus?).
Mas o problema do trânsito não se limita ao perímetro urbano. Quando se vê a bagunça nos aeroportos, e os congestionamentos gigantes na saída para o litoral, fica claro que o transporte coletivo também teria de ser incentivado nas viagens para fora de São Paulo. Seria ótimo, nesta conjuntura de crise, se houvesse trens de passageiros para Santos, Guarujá, Rio, Londrina ou Curitiba; algum desafogo isso haveria de trazer.
Só que ferrovias são coisa do passado. Em O trem, belo livro organizado por Angélica de Moraes para a editora Metalivros, com quadros de Thomaz Ianelli e textos de escritores como Ignácio de Loyola Brandão, Carlos Heitor Cony e Lygia Fagundes Telles, é como se entrássemos em contato com uma realidade completamente extinta, contemporânea dos tílburis e dos lampiões de gás.
Nascido em Araraquara, em 1936, Ignácio de Loyola Brandão aparece com uma evocação extremamente precisa do cotidiano das estações de trem (seu tio José era chefe de estação). Também o texto de Carlos Heitor Cony revela uma infância acostumada às viagens de trem, às minúcias dos horários e das composições. O S-5, que levava o narrador de férias à cidade de Rodeio, saía do Rio às 17h30. Fazia uma parada em Japeri; hora de comer sanduíches de presunto. E então “um apito comprido, lancinante, anunciava três coisas: que a noite caíra; que começaríamos a subida da serra, passando por diversos túneis de tamanhos diversos mas de cheiro único; e que o S-5 ia partir.”
Partiu, partiram todos. As imagens de Ianelli, pintadas com as cores da memória, e turvas como se nos mostrassem o mundo debaixo d’água, evocam esses trens de sonho, perdidos em muitas infâncias de outros tempos.
Gravura de Thomaz Ianelli
Escrito por Marcelo Coelho às 22h32
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tango argentino
Para os que se deprimem no final de ano, como eu, não há melhor site de tangos do que este: http://www.todotango.com/spanish/main.htmlEscrito por Marcelo Coelho às 01h56
Gide numa festa
Gide numa festa
Das memórias de infância de André Gide, que compõem boa parte de seu livro Se o Grão não Morre, retiro este trecho, que é sobre uma festa, mas faz sentido numa véspera de Natal:
Já estou deitado, mas um rumor singular, um frêmito na casa de alto a baixo, aliados a vagas harmoniosas, afastam o sono de mim. Sem dúvida eu tinha notado, durante o dia, os preparativos. Sem dúvida tinham me dito que iria haver um baile nessa noite. Mas um baile, o que é? Eu não tinha dado importância e estava na cama como nas outras noites. Mas esse rumor agora... Eu escuto; tento surpreender um som mais distinto, compreender o que se passa. Apuro o ouvido. No fim, sem agüentar mais, me levanto, saio da cama às apalpadelas no corredor escuro e, descalço, ganho a escada cheia de luz. Meu quarto é no terceiro andar. As ondas de som sobem do primeiro; tenho de ir ver; e à medida que me aproximo de degrau em degrau, identifico sons de vozes, o roçar de tecidos, murmúrios e risos. Nada tem o ar de costume; parece-me que vou ser iniciado de repente numa outra vida, misteriosa, diversamente real, mais brilhante e patética, e que começa só quando as crianças foram para a cama. Os corredores do segundo andar, tomados pela noite, estão desertos; a festa é lá embaixo. Avanço um pouco mais? Vão me ver. Serei castigado por não dormir, por ter visto. Passo minha cabeça entre os ferros da balaustrada. Justamente, os convidados estão chegando, um militar em uniforme, uma senhora toda em laços, toda em seda; ela segura um leque; o empregado, meu amigo Vitor, que eu não reconheço de imediato por causa de sua calça-culote e das meias brancas, se posta diante da porta aberta do primeiro salão e anuncia os convidados. De repente alguém salta em minha direção: é Marie, minha babá, que como eu está tentando ver o baile, escondida um pouco mais abaixo, no primeiro ângulo da escada. Ela me toma em seus braços; acho primeiro que ela vai me levar de volta ao meu quarto, me prender lá; mas não, ela faz questão de me levar para baixo, ao contrário, até o lugar em que ela estava, onde o olhar colhe um fiozinho da festa. Agora eu ouço perfeitamente a música. Ao som dos instrumentos que não consigo ver, cavalheiros turbilhonam com suas damas enfeitadas, que são todas muito mais bonitas que as mulheres do meio do dia. Cessa a música. os dançarinos estacam; o som das vozes substitui o dos instrumentos. Minha babá vai me levar de volta, mas nesse momento uma das belas damas, que se encostara perto da porta e abanava o leque, repara em mim, vem, me beija e ri porque não a reconheço. É evidentemente aquela amiga de minha mãe que eu vi precisamente nesta manhã; mas ainda assim eu não estou muito certo que seja mesmo ela, que seja ela realmente. E quanto volto à minha cama, tenho as idéias todas confusas e penso, antes de mergulhar no sono, confusamente: existe a realidade e existem os sonhos; e depois existe uma segunda realidade.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h45
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