Rendi-me finalmente às minisséries da TV americana. Tinha visto uns capítulos de "Sex and the City", que não me desagradaram, mas me cansaram um pouco: muita papagueação em torno de quem vai transar com quem termina me parecendo desinteressante.
Gosto mais das intrigas políticas, infinitamente mais chatas de ler do que de dramatizadas com atores competenetes. "Roma", que agora está à venda com grande estardalhaço em DVD, vale por isso: disputas de poder altamente complicadas e lentas, que Andrzej Wajda teve dificuldade de resumir nas duas horas de seu "Danton".
Com efeito, pela primeira vez a TV supera o cinema. Como entretenimento inteligente e como inteligência de roteiro. Não tenho nada contra um filme como "O Ilusionista", por exemplo: diversão inteligente e trama complicada, misturando amor, crime e política de modo eficiente. Mas quando isso é feito ao longo de muitos capítulos, sem a enrolação e a pobreza de conteúdo das novelas brasileiras, a complexidade e a ironia têm a ganhar.
Só que "Roma" tem um visual kitsch, uma música inadequada, e um excesso de cenas de ação para meu gosto. Em matéria de pura intriga política, "West Wing" me pareceu bem superior. A vantagem de "Roma" é que vale mais a pena conhecer fatos históricos reais (a briga entre César e Pompeu, o papel de Maco Antônio) do que os dilemas de um presidente americano ficcional. Em matéria de cultura --aquela que o ginásio e o colégio não nos proporcionaram-- "Roma" tem mais valor. Como estética, análise do caráter humano, riqueza das situações, "West Wing" é um romance -- difícil de ser superado pela duração de um filme realista normal.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h33
as coisas não dão certo
Recebo um livro de poemas de Carlos Machado, ´"Pássaro de Vidro" (editora Hedra). É poeta maduro e que domina perfeitamente, com simplicidade e inteligência, seus meios de expressão. Transcrevo um poema seu, intitulado "Certo":
As coisas não dão certo/ nunca deram certo/não foram feitas para dar certo// nós é que temos a ambição/do alinhamento e da simetria// e até inventamos deuses perfeitos/ construídos à imagem e semelhança/ do que sonhamos// as coisas não dão certo/nós é que cerzimos o pano/ obturamos o dente/ remendamos a fronteira no mapa// e inauguramos/ na estátua de chumbo/um simulacro de ave// queremos crer/ que as coisas dão certo/ as coisas agora estão dando certo/ e --se deus quiser--/ sempre darão
Copio também "Stainless Steel":
eis a caixa:/ aço firme/ sem mácula//represa/para o córrego das horas//em cofre de aço/ a essência do/ que nunca passa
Escrito por Marcelo Coelho às 13h07
ironias literárias
Heinrich Heine
Para escrever um prefácio ao ótimo “Os Deuses Têm Sede”, leio um pouco sobre Anatole France. Numa coletânea de artigos de Émile Henriot, admirador fiel de Anatole France numa época em que todos o consideravam ultrapassado (por volta de 1930), há um pequeno texto sobre o humor na literatura, com alguns exemplos que não quero deixar sem registro.
Henriot cita uma passagem do “Pickwick” de Charles Dickens. É inverno, o bom Mr. Pickwick está patinando, o gelo racha, ele corre o risco de se afogar, e pede socorro, desesperado: “Fogo! Fogo!”
Paul-Jean Toulet desfaz o sentido de um velho clichê. “Se o nariz de Cleópatra fosse um pouco mais curto, toda a face do mundo teria sido outra. E a sua também.” Outra ironia de Toulet: “Esse aí se considera pessimista a dizer que não existem casamentos deliciosos. Mas esqueceu o casamento dos outros.”
O compositor Berlioz se notabilizou pela extravagância genial de suas obras. Teve o belo gesto de visitar o poeta Heinrich Heine, que estava em plena desgraça, abandonado por todos em seu leito de morte. Heine recebeu-o com um sorriso: "Ah, Berlioz, é você? Sempre original!"
E por falar em últimas palavras, há as de Fontenelle, quando o médico apareceu perguntando o que ele sentia: "uma certa dificuldade em existir".
Nada irônicas, entretanto, as últimas palavras de Anatole France, aos 80 anos: "Maman! Maman!"
Escrito por Marcelo Coelho às 22h54
Contardo Calligaris escreveu hoje na Folha um artigo interessante e verdadeiro sobre um filme de que também gostei muito, “Em Direção ao Sul” (ver post abaixo). Na produção de Laurent Cantet, duas americanas e uma canadense, de seus 50 anos (entre elas, Charlotte Rampling num excelente papel), estão num hotelzinho do Haiti, fazendo turismo sexual com rapazes negros (bem feiosos, aliás). Calligaris comenta:
Numa cena do filme, as mulheres se perguntam por que não gostam tanto dos negros em seus países de origem. A pergunta vale para o turismo sexual em geral: por que ir tão longe? Afinal, nas cidades do primeiro mundo, há uma ampla escolha de amores à venda.
Calligaris prossegue.
Na vida erótica, funciona uma espécie de desproporção: para desejar sexualmente, é como se precisássemos, ao menos por um momento, despojar o outro de sua dignidade subjetiva, considerá-lo apenas como corpo. (...) É por isso que a maioria, na hora do sexo, não sussurra palavras de carinho, mas solta ‘injúrias’ que rebaixam a parceira ou o parceiro (...)
Nos lugares preferidos pelo turismo sexual, essa configuração banal da vida amorosa está, por assim dizer, realizada de antemão: o turista encontra sujeitos que já estão reduzidos ao seu corpo. Se não bastasse o passado colonial ou escravagista, a desigualdade brutal prepara os corpos tropicais para o festim do turista sexual.
...Por exemplo, Legba, o jovem negro que, no filme, é objeto de desejo das senhoras, pode ser uma espécie de felino que elas querem acariciar e mimar porque já foi transformado em bicho pela miséria social e política de seu país.
Está certo, mas tenho alguns comentários a acrescentar. No filme, o interessante é que Legba está longe de ser um mero objeto corporal das turistas: ele as atrai exatamente porque, como um felino, manipula as que pretendem dominá-lo. Mais do que isso, ele alimenta nas americanas a ilusão de que também as deseja; é, na verdade, o sujeito da relação, o dono do harém, e a miséria daquelas mulheres está no fato de que, mais do que um corpo, desejam essa situação de concubinas. A personagem de Charlotte Rampling está apenas racionalizando sua paixão quando se diz turista sexual.
Acho também que o turismo sexual não se dá apenas na direção apontada por Calligaris: brancos do primeiro mundo se esbaldando nos corpos miseráveis. Minha própria experiência como turista (não sexual) registra uma espécie de excitabilidade com toda população estrangeira. O fato de não pertencer ao local que estou visitando (Bruxelas ou Maceió) estimula as célebres fantasias de uma aventura inconseqüente. Não é só que as pessoas se transformaram em meros corpos; a diferença de linguagem, de costumes, de jeito, faz de uma pessoa qualquer, Fulana ou Beltrana, não um corpo anônimo, mas um corpo também dotado de outra coisa, a nacionalidade. “Quero transar com essa mexicana”, pensa o brasileiro ou o nicaragüense, como se a “mexicanidade” daquela mulher, que talvez não seja etnicamente distinta das de seu país natal, constituisse para ele um fator a mais de excitação, e trouxesse consigo um sabor, um cheiro diferente, que acrescenta um tempero à condição humana universal. Não é um corpo simplesmente, mas um corpo mexicano... belga, russo, nigeriano, tailandês.
“Comment peut-on être persan?” (como é que alguém pode ser persa?), perguntavam-se os parisienses na célebre página de Montesquieu. Já existe algo de sexual, e também de perverso, nessa indagação. Não há propriamente objetos puros num desejo sexual; ninguém transa apenas com um pênis ou uma vagina; há o objeto e sua circunstância. Quanto mais imaginária, mais longe nos leva.
Leia o artigo de Contardo Calligaris em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0401200714.htm
Escrito por Marcelo Coelho às 16h30
O maestro Karajan (esq.) e Clouzot, em 1966
Henri-Georges Clouzot é autor de excelentes filmes de suspense e tensão, como “O Salário do Medo” e “As Diabólicas”. Comentei num artigo para a “Folha” o documentário que ele fez mostrando “O Mistério de Picasso”, disponível em DVD. Fazendo Picasso usar um tipo de tela transparente, Clouzot filmava o nascimento, pincelada a pincelada, de vários quadros do mestre. Era possível ver Picasso fazendo, refazendo, apagando e recriando pintura atrás de pintura, num trabalho incansável de inspiração.
Saiu agora um outro DVD com dois documentários de Clouzot. Trata-se de “Herbert von Karajan Ensaiando e Regendo” (Herbert von Karajan in Rehearsal and Performance, Unitel/Euroarts), em que novamente o tema do trabalho obsessivo, incansável, assume o primeiro plano. No primeiro média-metragem, um Karajan no vigor dos quase 60 anos faz, refaz, repete e explica os menores detalhes de três ou quatro passagens da “Sinfonia no. 4” de Schumann. A orquestra é a sinfônica de Viena; Karajan nunca está contente. Apesar da fama de tirano, ele sempre sorri. Mas basta vê-lo sorrindo para perceber que alguma coisa deve ter saído errado.
Temos sempre a impressão de que o maestro chega, move os braços, a orquestra toca e ele recebe os aplausos. Numa curta entrevista que antecede o segundo média-metragem (um ensaio, com um aluno, da parte das cordas no segundo movimento da “Quinta” de Beethoven, com a Filarmônica de Berlim), o próprio Karajan afirma que quis participar do documentário para provar que não é bem isso. Ouvimos a melodia inicial. Não, a primeira nota já está soando de modo insatisfatório. Começa de modo muito cru. Karajan manda que as cordas toquem longamente essa nota, até ela ficar suficientemente “cozida”. O tema recomeça. Não, o padrão rítmico está excessivamente acentuado. É preciso mais unidade. As cordas vão de novo. Não, não, sim, ja, nein, nein, genau, moment, stop...
Quando Karajan ensaia a sinfonia de Schumann, com toda a orquestra, sentimos o desafio que todo maestro deve enfrentar. A orquestra é um monstro, que sai tocando sozinho; cabe a Karajan interromper aquela massa de gente rolando uma ribanceira para que cada músico perceba e retoque a mínima sutileza de fraseado; uma notazinha que tem de ser ligada a outra, mas que ao ser ligada não pode dar peso demais ao final da frase... “Novamente, senhores!” É trabalho árduo e concentrado.
Leia mais em http://www.unitel.de/uhilites/1996/030196.htm
Escrito por Marcelo Coelho às 21h29
Um poema de Pavese
Transcrevo, na tradução de Henriqueta Lisboa ("Poesia Traduzida", editora da UFMG), o sexto de uma série de oito poemas de amor escritos por Cesare Pavese em 1950, o ano de seu suicídio.
As manhãs passam claras/ e desertas. Assim teus olhos/ se abriam outrora. A manhã/ transcorria lenta, era um sorvedouro/ de imóveis luzes. Silenciava./ Viva, tu silenciavas; as cousas/ viviam sob teus olhos/ (sem pena, sem febre, sem sombra)/ como pela manhã o mar-- claro.
Onde estiveres, luz, é manhã./És a vida e as cousas./ Em ti despertos respirávamos/ sob o céu que ainda está em nós./Não pena não febre então,/não esta sombra grave do dia/ oprimido e diverso. Ó luz/ claridade longínqua, respiro/ laborioso, volta os olhos imóveis e claros sobre nós./ É escura a manhã que passa/ sem a luz dos teus olhos.
Escrito por Marcelo Coelho às 17h14
O céu de Suely

Escrevi hoje na “Folha” sobre “O Céu de Suely”, filme de Karim Aïnouz que já está há um tempo em cartaz. Estava com um pouco de preguiça de assistir, porque “Madame Satã”, primeiro filme do diretor, não me causara boa impressão –no Belas Artes, o som estava horrível, eu não estava muito melhor, de modo que acabei saindo depois de uns vinte minutos. Mas isso é problema meu, não do filme. Depois, tinham-me dito que “O Céu de Suely” era violento, chocante... Na verdade, é um filme ótimo, graças ao grande controle da narrativa (sempre acontece alguma coisa, mas já quando não esperamos que aconteça mais nada), e também graças à notável personagem vivida por Hermila Guedes: sempre contraditória, sempre coerente. Acabei contando um pouco demais da história no artigo, mas para quem já viu o filme o link é http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0301200722.htm
Site do filme: http://www.oceudesuely.com.br
Leia também a entrevista de Hermila Guedes no site omelete: http://www.omelete.com.br/cinema/artigos/base_para_artigos.asp?artigo=3457
Escrito por Marcelo Coelho às 16h36
Falei até agora de livros na minha retrospectiva de 2006; em matéria de cinema tenho mais dificuldade de lembrar, porque não costumo fazer a lista dos que assisti. E vi muito mais coisa em DVD do que no cinema. A grande descoberta para mim foi “Palavra” (Ordet) de Dreyer, que já foi para a lista, se é que tenho, dos melhores filmes que já vi. Saíram vários filmes de Carl Dreyer em DVD, mas tive muitos problemas técnicos com meu aparelho –um filme maravilhoso sobre caça às bruxas, do mesmo diretor, travava o tempo todo. Também em DVDs, destaco os documentários “Crise”, de Robert Drew, sobre os bastidores do governo Kennedy, e “Jaguar”, de Jean Rouch, sobre trabalhadores migrantes na Costa do Marfim.
No cinema mesmo, o filme que mais me ficou na memória foi “Caché”, de Michel Hanecke –a história é narrada de modo tão inquietante, que o espectador não pode descuidar de nenhum ângulo, nenhum canto da tela; o jogo inicial, entre o que pensamos ser o filme, e o que não passa de uma gravação em vídeo a que os próprios personagens estão assistindo, já nos coloca num terreno ambíguo e perigoso. Outra ambigüidade, a sexual, é explorada com maestria em “Café da Manhã em Plutão”. O filme mais adorável, que eu tenho mais prazer em recomendar, é “Eu, Você e Todos Nós”, de Miranda July. Gostei também de “Soldado Anônimo” e de “Capote”: pouca ficção, grande esforço de chegar ao labirinto ético que envolve toda situação real. “Crime Delicado”, de Beto Brant, tem um grau de estranheza e complexidade que são bem-vindos, num cinema em que “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, emocionante e bem-cuidado, não pode deixar de ser mencionado. “Árido Movie” e “ O Céu de Suely” –que comento amanhã em meu artigo—levantam, entretanto, questões mais perturbadoras, menos tendentes à conciliação.
Minhas decepções e implicâncias vão para “Munique”, de Steven Spielberg, para alguns episódios de “ Crianças Invisíveis” (o de John Woo foi a pior coisa de 2006), o forçado “A Criança”, dos irmãos Dardenne, o mais forçado ainda “O Corte”, de Costa-Gavras, o ainda forçado “ O que Você Faria? ”, o limítrofe “O Diabo Veste Prada”, e o patê “Pintar ou Fazer Amor”.
Escrito por Marcelo Coelho às 14h31
Prossigo no meu balanço pessoal de 2006. Publicaram-se vários clássicos do jornalismo literário. Não me arrependi de ler “Filme” (Companhia das Letras), de Lillian Ross, que narra em detalhes o cabo-de-guerra entre o diretor John Huston e a Metro Goldwyn Mayer durante a filmagem, a edição e o lançamento de “The Red Badge of Courage” (“Glória de um Covarde”), filme baseado no livro de Stephen Crane. A jornalista Lillian Ross, que tinha menos de 30 anos quando escreveu essa longa reportagem, é mestre naquele efeito da “mosquinha na parede”: narra todos os diálogos e acontecimentos no set de filmagem de modo a nos fazer sentir que estávamos ali também, vendo tudo, sem que ninguém nos notasse.
O livro é instrutivo, claro, para quem quer saber como funcionava a indústria cinematográfica; os retratos dos principais personagens –entre eles, o chefão Louis B. Mayer—são equilibrados e eloqüentes ao mesmo tempo. Tudo seria mais dramático, entretanto, se John Huston fosse de fato uma personalidade genial e injustiçada. A imagem que fica de seu talento, no livro de Lillian Ross, não é especialmente forte: ele se mostra um diretor muito prático e objetivo, que sabe com quem está lidando, e que não pensa demais em mudar a arte ou a vida.
George Orwell vai tendo boa parte de sua obra lançada ou relançada no Brasil, em Dentro da Baleia é um livro memorável. Escrevi sobre um dos textos dessa coletânea, “Como morrem os pobres”, em que Orwell narra a desumanidade dos médicos num hospital público francês na década de 20. “O abate de um elefante”, contando sua experiência como policial na Birmânia, é uma vinheta clássica sobre a situação estruturalmente inviável do colonizador branco. Mais leves, quase entradas num “blog”, são as anotações de Janet Flanner sobre Paris na década de 20, em “Paris era Ontem” (editora José Olympio). O mundo carioca de João do Rio e a Berlim de Joseph Roth (quase um roteiro de documentário de cinema mudo, na coletânea da Companhia das Letras), reforçaram para mim esse prazer da reportagem, que a revista Piauí também começou a proporcionar, nos últimos meses, para o leitor brasileiro.
Há um certo fetichismo dos jornalistas a respeito da “reportagem longa”, e muitas tentativas de fazê-la terminam em chatice, porque determinado acontecimento nem sempre tem a importância necessária para justificar todo o detalhismo que o repórter achou interessante exibir. “Piauí” faz reportagens mais longas, mas não exagera na dose. O melhor da revista são os pequenos textos não-assinados que abrem cada edição. Tratam de personagens curiosos, com certo pormenor, mas não perdem o senso das proporções. Depois de ver o filme “Capote” tive muita vontade de ler “A Sangue Frio”, que é evidentemente um grande livro, mas o fato é que, depois de umas cinqüenta páginas, comecei a me perguntar se valia a pena conhecer aquele assassinato com tanta profundidade. O relato de várias eleições americanas, escrito por Norman Mailer nas 450 páginas de O Super-Homem Vai ao Supermercado também resulta longo demais, cheio de intrusões narcisistas do autor, embora cintilante quando se dedica a retratar alguns personagens (Jackie Kennedy, Johnson, Nixon).
Michael Finkel, em “A História Verdadeira” (Planeta) tenta igualmente penetrar na mente de um assassino, mas me prendeu muito mais o interesse do que o livro de Truman Capote ao alternar a história de um crime com a própria história de sua carreira de repórter, manchada por uma fraude que ele confessa do modo mais sincero e empolgante. Seria um dos grandes livros de 2006, se não tivesse sido publicado em 2005. Mas, como eu disse, isto não é uma lista dos “melhores de 2006”.
Escrito por Marcelo Coelho às 11h40
Não é o Lula
Não tenho o menor gosto por festas de Réveillon, de modo que, mais uma vez, para mim é fácil criticar. Mas se eu fosse ministro, governador, deputado ou coisa parecida, pensaria muito antes de passar o fim de ano numa festa promovida pela Coca-Cola. Não por ser a Coca-Cola; podia ser a Citrosuco, o Banco Itaú, a Monsanto... Mas parece que ninguém ligou muito para o problema, e o Réveillon foi numa boa. O ministro do Planejamento, atendendo a uma solicitação da empresa, vestiu vermelho na festa: “Pediram que usássemos branco ou vermelho. Como não tinha branco, vesti vermelho. A simbologia aí não é comunista, socialista. É Coca-Cola mesmo”.
Isso é que é.
Quando se diz que o poder corrompe, isso não quer dizer necessariamente que os governantes estejam pegando dinheiro de impostos e enfiando no bolso. Estar no poder é ser convidado para um festa em que outras pessoas importantes estão; circular entre pessoas dotadas de forte capacidade de pressão e com argumentos na ponta da língua para defender seus interesses, às quais cumpre, sem esforço, simplesmente ouvir, relacionar-se... A Coca-Cola tem uma mansão no Lago Norte, um escritório regional, onde há lugar para festas e, imagino, qualquer outro evento de relações públicas. Grandes faculdades particulares, empresas de todo tipo, também têm. Ninguém está se corrompendo. Está só vivendo o cotidiano do poder. De vez em quando interrompido pelos chatos de sempre: uns ecologistas, uns caras pedindo verbas para pesquisa nas universidades, umas associações de aposentados... que não têm nada a oferecer. Nem mesmo ajudam no financiamento de campanhas.
Escrito por Marcelo Coelho às 09h18
De romances, não li quase nada: “Subúrbio”, de Fernando Bonassi, reeditado agora com muitas e bem-vindas alterações, firmou-se na minha opinião como um dos clássicos da literatura brasileira contemporânea. “O Adiantado da Hora”, de Carlos Heitor Cony, é uma trama rocambolesca, que acrescenta pouco à obra do autor, mas que ajuda a esclarecer suas obsessões, seus aspectos mais esquisitos de personalidade literária. O grande romance que não li –está começado, mas sempre surgem outras coisas para ler no meio—é o “Portrait of a Lady”, de Henry James. Sempre tive um medo danado de Henry James: frases complexas demais, situações sutis ao extremo, e certa monotonia em alguns de seus contos (“Os Papéis de Aspern”, por exemplo) me faziam recuar frente a seus romances mais significativos. Mas este, aliás traduzido no Brasil por José Geraldo Couto, é fascinante deste a primeira linha; difícil imaginar tantos sentimentos e relações concentrados ao mesmo tempo num único diálogo; impressionante como o autor, quanto mais analisa e explica seus próprios personagens, mais é capaz de torná-los misteriosos e imprevisíveis. Só que ainda me falta acabar o livro...
Também “Os Deuses têm Sede”, de Anatole France, ficou pendurado em 2006. Vai sair no ano que vem uma tradução, pela editora Boitempo. Pediram-me para fazer o prefácio. Ainda estou lendo. E gostando muito. Anatole France é por vezes um pouco aguado, leve demais: “L’Anneau d’Améthyste”, o primeiro volume de sua “Histoire Contemporaine”, que fala dos conflitos entre Igreja e Estado na 3a República Francesa, é uma obra-prima; cada capítulo é quase independente dos demais, e cada um deles mostra com muita ironia e humanidade de que modo os interesses individuais, o acaso biográfico, uma reviravolta política qualquer, fazem com que uma única realidade adquira características completamente distintas para cada personagem. O último volume da série, “Monsieur Bergeret à Paris”, que me interessava especialmente porque tratava do Caso Dreyfus, é entretanto excessivamente vago, sem vigor. “Les Dieux ont Soif”, que se passa na Paris de 1793, em pleno Terror portanto, me parece dos romances mais ágeis, precisos e límpidos do autor. Vamos ver no que dá.
Por enquanto é só. Amanhã ou depois eu continuo.
Escrito por Marcelo Coelho às 18h57
Faço um balanço de 2006, mas não do que aconteceu de relevante culturalmente. Listas dos melhores livros e filmes do ano me deixam um pouco intimidado, porque tenho consciência de não ter acompanhado bem as novidades, as estréias, os lançamentos. Misturo muito o que acaba de sair com o que já apareceu há séculos, e que acabo lendo e vendo com atraso. De modo que este balanço é das minhas atividades, dos meus destaques, não o das coisas que saíram em 2006.
Li pouco neste ano: pelas minhas estatísticas, que com certa infantilidade guardo num fichário inaugurado em 1976, o número de páginas caiu pela metade com relação ao ano passado. Escrevi muito mais, entretanto, e o blog naturalmente tem parte de responsabilidade nessa inflexão do gráfico.
Leituras, agrupadas tematicamente: muita coisa sobre intelectuais e engajamento, em função do artigo que escrevi para a coletânea “O Silêncio dos Intelectuais”. Em geral, foram monografias sem muito brilho, como “Treason, Tradition and the Intellectual”, de Ray Nichols (sobre o meu admirado Julien Benda), e “The Spectrum of Political Engagement”, sobre Sartre, Camus e Benda, de David Schalk. Li também o famoso “Les Chiens de Garde”, de Paul Nizan, uma defesa raivosa e ressentida do engajamento dos intelectuais, escrita em resposta a Julien Benda, poucos anos depois de este ter escrito “La Trahison des Clercs”. O livro de Nizan está entre as decepções do ano para mim. “O Intelectual”, de Steve Fuller, lançado este ano no Brasil, é muito fraco, também.
Concordo com um leitor que disse, num comentário, que Proust é infinitamente superior a Gide. Mas a personalidade de Gide me interessou muito neste ano, pela coragem com que denunciou o estalinismo, já na década de 30, e pela honestidade de sua vida intelectual: esteve sempre procurando sua verdade política e pessoal, por mais complexa e mutável que pudesse ser. Por isso, li uma minuciosa e extremamente inteligente análise da obra de Gide, escrita por seu amigo Charles du Bos: “Le Dialogue avec André Gide”, que inclui o estudo “Le Labyrinthe à Claire-voie”, em que, de uma perspectiva rigorosamente católica, surgem fortes hostilidades com relação às atitudes libertárias de Gide. Como texto de crítica literária, o estudo de du Bos talvez se aproxime, pela penetração, daqueles terríveis perfis escritos por Sartre a respeito de seus (ex) amigos Merleau-Ponty e Camus. Sartre é melhor, mas bem mais desagradável também.
Ainda na linha dos intelectuais católicos, com certa inclinação conservadora, mas que no final das contas tiveram uma posição digna e corajosa diante da barbárie política da esquerda e da direita, a figura de François Mauriac (romancista de quem não tive boa impressão ao ler “Thérèse Desqueyroux”) cresceu em minha admiração; li dele “Mémoires Intérieurs”, uma espécie de autobiografia de suas experiências como leitor, livro de velhice, pessimista e melancólico como poucos: certamente, para repetir um clichê sobre Mauriac, ele acredita mais no inferno e na danação do que em Cristo e no homem. O extraordinário, para ele, é que do fundo do horror humano, do poço infecto que é o mundo, subsiste uma coisa, que não é nem a bondade dos homens, nem a amizade ou a beleza: é a Graça. Nisso Mauriac acredita. E se aflige com o homossexualismo de Gide, sua irreligiosidade teimosa. Lamenta que Gide tenha morrido sem se converter ao catolicismo. Mas pode ser, raciocina, que mesmo assim, no momento final, ele tenha se reconciliado em silêncio com Deus: é o mistério da Graça que, quem sabe, salvará a alma de seu amigo...
“O Ano do Pensamento Mágico”, é uma tocante e aflitiva obra memorialística de Joan Didion, a respeito da morte súbita de seu marido e da experiência da viuvez. Não há grandes maravilhas do ponto de vista de estilo, de imagens, de construção literária, mas é um livro notável pela exatidão dos detalhes, pelo poder de introspecção.
A obra jornalística de Olavo Bilac, numa cuidadosa e monumental organização de Antônio Dimas, é para quem se interessa pelo cotidiano carioca em princípios do século 20, mas literariamente não oferece grande recompensa.
Indo um pouco para trás no tempo, li uma biografia de José de Alencar (“O Inimigo do Rei”) e “Duelos no Serpentário”, uma antologia de polêmicas entre escritores brasileiros do passado (Silvio Romero contra José Veríssimo, por exemplo). São leituras que cativam pelo pitoresco, e que deprimem pela fraqueza da chamada “inteligência brasileira” daqueles tempos.
Continuo depois.
Escrito por Marcelo Coelho às 18h31
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