Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

dia do mágico

No artigo de hoje para a Ilustrada, aproveito a efeméride (hoje, 31 de janeiro, é Dia do Mágico) para discutir um pouco os dilemas éticos da profissão. Não que tenha qualquer proximidade com o tema; mas julguei ver em duas atitudes contrastantes (revelar ou não os truques para um público mais amplo?) um exemplo do conflito entre iluministas e conservadores. Tentei incluir no final do artigo a possível posição da esquerda em relação ao caso, mas acho que não deu muito certo. A questão da propriedade privada, ao contrário do que pode parecer, continua plenamente em discussão nos círculos socialistas e fora deles. Só que não se fala tanto na propriedade privada ou estatal de fábricas e usinas, mas dos direitos à propriedade intelectual. Pirataria, programas gratuitos de computador, direitos autorais de artistas, direito à imagem, patentes farmacêuticas... não estará nisso o foco mais contemporâneo da velha "luta de classes"? Mas esse assunto não cabia por inteiro na crônica, que os assinantes do uol (olha aí a questão da propriedade de novo) podem acessar em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq3101200712.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 16h32

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fashion week

fashion week

O mundo da moda inspira o cronista do "Agora" no link http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co3101200703.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 15h32

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Loucura doméstica

Loucura doméstica

 Elias Canetti é muito respeitado por seu romance “Auto da Fé” e pelo enorme ensaio “Massa e Poder” (ambos editados há bom tempo pela Nova Fronteira). No dia-a-dia, parece que o convívio com ele estava longe de ser fácil. As cartas de sua mulher, Veza Canetti, ao irmão do escritor contém algumas passagens terríveis. Um belo dia, conta Veza,

 

ele começou a rir de uma maneira apavorante. Eu fiquei terrivelmente assustada, mas ele me disse: “Você ria assim quando sua mãe morreu”, de modo que concluí que aquilo era apenas um acesso de nervos. Ele pediu chá, e calmamente eu lhe entreguei a xícara. Mas eu tive de trocar a xícara dele pela minha, pois ele disse que a xícara que eu lhe havia entregue estava envenenada. Há doze anos essa cena se repete, de modo que não me impressionei. Tomei o chá envenenado dele e ele se deitou. O rosto dele estava vermelhíssimo. Ele começou a imaginar que estava num hospício... disse que eu era má e que o havia levado à loucura há três semanas. Fiquei tomada de horror e enregelei. Então ele me explicou, desesperado e com lagrimas nos olhos, que eu tinha me envenenado com o chá que quisera dar a ele. Como eu estava gelada, ele achou que eu era o cadáver da mãe dele. Não sei de onde tirei forças, mas de repente fiquei quente e febril, e isso o acalmou... O ataque tinha passado.

 

As cartas de Elias e Veza Canetti a Georges Canetti saíram o ano passado pela editora  Carl Hanser, de Munique. Transcrevo a partir da resenha de Jeremy Adler no “Times Literary Supplement” de 29 de setembro de 2006.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h53

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partituras de Mozart

partituras de Mozart

http://dme.mozarteum.at

Para quem é músico ou tenta acompanhar o que ouve no disco pela partitura, a boa notícia é que as partituras de todas as obras de Mozart estão disponíveis gratuitamente no site http://dme.mozartum.at Bom proveito!

Escrito por Marcelo Coelho às 23h27

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visita das estrelas

visita das estrelas

O colunista do "Agora" observa alguns efeitos da passagem do cometa McNaught sobre o imaginário feminino. Link para assinantes: http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2901200703.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 15h13

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leitura dramática

leitura dramática

Como diziam nos tempos da "Folha da Tarde", deu no "Folhão":

Crônicas de Voltaire de Souza ganham leitura nesta quarta

DA REPORTAGEM LOCAL

A Folha promove na quarta, às 20h, leitura de crônicas de Voltaire de Souza, publicadas diariamente no jornal "Agora". O evento gratuito será no auditório da Folha (al. Barão de Limeira, 425, 9º andar). Voltaire é pseudônimo de Marcelo Coelho, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha. A leitura terá participação dos grupos teatrais Linhas Aéreas e Atelier de Manufactura Suspeita, com direção de Maurício Paroni de Castro e a presença do autor. A entrada é gratuita. Os interessados devem se inscrever de hoje a quarta, das 14h às 18h, pelo telefone 0/xx/11/3224-3473 ou pelo e-mail eventofolha@folhasp.com.br. É preciso informar nome, telefone e RG.

Escrito por Marcelo Coelho às 08h57

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Benjamin Franklin

Benjamin Franklin

"Eu tremo pela sorte dos Estados Unidos, quando reflito que Deus é justo, e que sua Justiça não ficará adormecida para sempre." A frase não é de nenhum fundamentalista muçulmano. Foi escrita por Thomas Jefferson em 1781.

Nosso anti-americanismo tende a encarar os habitantes dos Estados Unidos como incapazes de autocrítica, o que não significa que seus famosos "Pais Fundadores", como Jefferson, tivessem sua visão obscurecida pelo patriotismo.

A imagem de Benjamin Franklin tambérm não é das melhores na intelectualidade latino-americana. Desde que Max Weber escolheu a "Autobiografia" de Franklin como exemplo da mentalidade puritana, que via no enriquecimento, no trabalho e na poupança os sinais da Graça Divina, nada parece mais desinteressante do que o pensamento de Franklin, e o seu livro de máximas ("auto-ajuda"?), intitulado "Poor Richard", consta como um repositório de moralidades tipicamente americanas, isto é, práticas, terra-a-terra.

Um pequeno livro editado pela Unesp, "Como escolher amantes e outros escritos", mostra um Benjamin Franklin mais malicioso e iluminista. Cartas suas fazem a corte de mme. Helvétius, viúva do célebre filósofo materialista. Há uma preciosa introdução de Jézio Bomfim Gutierre. E mesmo algumas máximas do "Poor Richard" são mais surpreendentes do que acreditaria nosso vão preconceito. Eis aqui algumas.

Nove homens entre dez são suicidas.

O sucesso arruinou muitos homens.

O gato que usa luvas não pega ratos.

O primeiro erro da vida pública é entrar nela.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h43

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Filosofia do Tédio

Filosofia do Tédio

No link para assinantes, está disponível a resenha que escrevi sobre "Filosofia do Tédio", de Lars Svendsen (editora Jorge Zahar): http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2801200711.htm.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h18

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vestibular à inglesa

Reclamamos com muita razão dos vestibulares brasileiros. Mas aqui vai uma série de questões feitas a candidatos a entrar em Oxford e Cambridge no ano passado. Pelo que entendi, trata-se de um exame oral.

 

Por que não temos apenas uma orelha no meio do rosto?

 

Você é seu corpo?

 

O que é uma árvore?

 

Que porcentagem da água do mundo está contida no corpo de uma vaca?

 

A Revolução Francesa terminou?

 

Se você tivesse de enviar três coisas para um grupo de pessoas de uma tribo isolada que pudesse imediatamente lhes dar uma idéia do que significa ser “francês”, o que você escolheria?

 

Se você fosse um rato, o que seria a coisa mais importante para você?

 

Se você tivesse uma varinha mágica e pudesse erradicar todos os problemas do terceiro mundo, embora isso causasse o fim de toda pesquisa médica, você faria isso?

 

Se houvesse três lindas mulheres nuas à sua frente, qual você escolheria?

 

Como você projetaria um cérebro mais aperfeiçoado?

 

Uma lista mais completa pode ser encontrada na revista Harper’s de dezembro de 2006 (http://www.harpers.org)

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h32

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Mário de Andrade, crítico de arte

Mário de Andrade, crítico de arte

Na "Ilustrada" de hoje, escrevo sobre o livro "Pintura Não é Só Beleza", de Tadeu Chiarelli. A tese principal do livro é mostrar que, longe de ser um vanguardista radical em termos de suas preferências artísticas, Mário de Andrade estava comprometido com a defesa de um "realismo" pictórico que não o distanciava tanto assim, afinal, de Monteiro Lobato --sobre cuja crítica de arte, tida por reacionária, Chiarelli já escreveu outro livro, "Um Jeca nos Vernissages". Assinantes podem ler a resenha do livro em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2701200719.htm 

Escrito por Marcelo Coelho às 13h55

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Café Expresso Blackbird

Café Expresso Blackbird

Os poemas da curitibana Greta Benitez têm um pouco daquela rapidez comunicativa que torna tão certeiros alguns dos achados de Paulo Leminski. Curiosamente, seus versos “dão certo” de um jeito muito próximo ao da poesia de humor, do “light verse” em inglês –ao mesmo tempo em que refletem uma gama de sentimentos que vai do levemente melancólico ao quase desesperado. Esse jogo entre graça e desgraça talvez ainda não esteja suficientemente resolvido em “Café Expresso Blackbird”, seu segundo livro de poemas, publicado na Coleção Alguidar da Editora Landy.

 

Ao lado de algumas evidentes infelicidades de expressão (“uma música gagueja/ disco riscado”, por exemplo) e de alguns momentos enjoativos (“Mosaico celestial/ uma moça de vestido floral/ Loucos odores correndo pelo jardim/ Glicínias dizem sim para mim” etc.), há poemas que acertam deliciosamente o tom.

 

DEUSA DE PAPEL

 

A moça do outdoor indaga,

estraga o meu dia

sempre quando saio de casa.

Com seu sorriso ela me arrasa

querendo saber o que eu faço da vida.

Mas eu digo:

“OK, Deusa de Papel, cruel

vamos ser felizes, querida.

Eu aqui e você aí em cima, enorme

sem nome, sem vida.”

 

Ou:

 

Estou pronta pra tudo que você imagina

Deixei minha inocência

Na pior esquina

 

E ainda:

 

(...) Às quatro da manhã

a garota já está com sono

e permite ser dominada pelos seus olhos

fechados

e dorme

impune

sentindo o perfume de pêssegos e neblinas

que vem de dentro das meninas

 

Para terminar:

 

Ninguém é mesmo uma ilha

se até Billie Holiday

vem me visitar

pelo radinho de pilha

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h57

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lavanderia

lavanderia

 

Difícil, num cartaz de rua, ilustrar os serviços de uma lavanderia. Toalhas enroladas? O cartazista teve bom gosto construtivo no uso das cores, para tratar de um tema pouco inspirador.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h01

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fotos da nasa

No link da Nasa, sugerido gentilmente por Mariana Barros, fotos diárias do espaço: http://antwrp.gsfc.nasa.gov/apod/archivepix.html

Escrito por Marcelo Coelho às 17h24

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Longfellow, Bandeira

 

 "The Village Blacksmith", gravura da Currier & Ives (http://en.wikipedia.org/wiki/Currier_and_Ives)

 

 

Este ano se comemora o bicentenário do poeta americano Henry Wadsworth Longfellow (1807-1882), que, glorioso em vida, passa a posteridade no desprezo e no esquecimento. Sua poesia é romântica e fácil de ler.

 

Mesmo quando deixam de ser lidos, autores imensamente famosos em vida podem exercer influência oculta sobre as gerações seguintes. Há um poema de Longfellow intitulado “O Ferreiro da Aldeia”, que seria maldade traduzir sem manter a métrica e as rimas. Conto mais ou menos como é.

 

O ferreiro passa o dia em sua forja, trabalhando com força e fervor. “His brow is wet with honest sweat,/He earns whatever he can,/And looks the whole world in the face,/For he owes not to any man”.

 

Aos domingos, o ferreiro vai à igreja, ouve o sermão do pastor, ouve a voz de sua filha cantando no coro, e seu coração se rejubila. Essa voz lhe parece a de sua mãe cantando no Paraíso; a lembrança lhe é comovente, e com sua mão rude ele enxuga uma lágrima dos olhos.

 

É assim, “trabalhando, rejubilando-se, entristecendo”, que ele passa a vida: toda manhã ele começa uma tarefa, e ao fim da tarde ela está terminada; algo foi tentado, algo foi feito, e ele ganhou uma noite de descanso: “Toiling –rejoicing—sorrowing,/Onward through his life he goes;/Each morning sees some task begin,/Each evening sees its close;/Something attempted, something done,/Has earned a night’s repose.”

 

O poeta termina agradecendo ao ferreiro pela lição que lhe dá –na bigorna sonora desse trabalhador cada coisa que se faz e cada pensamento ardente ganha forma e se tempera.

 

Talvez seja a lição edificante do poema o que o torna bastante fora de moda. Mas pode ser que os versos de Longfellow estejam presentes, como memória oculta, num poema bem mais moderno, de Manuel Bandeira. Chama-se “O Martelo”:

 

As rodas rangem na curva dos trilhos

Inexoravelmente.

Mas eu salvei do meu naufrágio

Os elementos mais cotidianos.

O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei.

 

Dentro da noite

No cerne duro da noite

Me sinto protegido.

Do jardim do convento

Vem o pio da coruja.

Doce como um arrulho de pomba.

Sei que amanhã quando acordar

Ouvirei o martelo do ferreiro

Bater corajoso o seu cântico de certezas.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h59

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uma charge

Érico San Juan recomendou que eu visitasse seu site -- tomo a liberdade de reproduzir sua charge sobre o aniversário de São Paulo. O site dele, que não é só de charges, mas tem também bonitas ilustrações para livros infantis (bem mais bonitas que as charges, a meu ver), está no link www.ericosanjuan.zip.net 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 10h12

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mais sobre o cometa

No artigo de hoje da "Ilustrada", falo mais um pouco sobre o cometa McNaught.  Link para assinantes:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2401200726.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 09h53

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flores no metrô

Por enquanto, são poucas. Mas espero que a iniciativa de um grupo de cidadãos pauilistanos, homenageando as vítimas da tragédia, tenha receptividade. Aqui vai uma foto do lugar.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h29

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crianças e linguagem

crianças e linguagem

Num post anterior, escrevi o quanto de concordância e submissão deve exigir de uma criança de dois anos o simples esforço de adquirir a linguagem dos pais. Perguntaram-me se havia algum livro sobre o assunto. Não li, mas acaba de ser publicado pela editora inglesa Continuum o quarto volume das obras completas do linguista M. A. K. Halliday, com o título "The Language of Early Childhood". O autor pesquisou o processo de aquisição de linguagem de seu filho Nigel, "whose vocalizations were chronicled with relentless patience, virtually from the moment of birth", diz a resenha do Times Literary Supplement. Há até um CD incluído com os balbucios do menino. O esforço de Halliday, prossegue a resenha, é comprovar com exemplos da fala infantil as teorias de J. R. Firth, que acreditava na distinção entre "unidades fonemáticas" e "prosódias". Estas seriam unidades mais amplas de linguagem, superiores às meras seqüências de vogais e consoantes, envolvendo diferenças de ênfase, altura e intensidade dos sons emitidos pela pessoa. De modo que mesmo nas cantorias infantis, segundo Halliday, haveria "atos de significação" prévios ao domínio que possa adquirir sobre os componentes mínimos da linguagem humana. No dizer do resenhista Roy Harris, essa teoria faz surgirem "huge theoretical problems". Deixemos a questão nesse pé. 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h39

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vítimas do metrô

Amigos meus, sensibilizados com a tragédia na estação do metrô, farão hoje uma homenagem às vítimas. Transcrevo o e-mail que recebi.

Hoje, 3a. feira, às 14:00hs, haverá um pequeno ato simbólico de homenagem às vítimas da linha 4 do Metrô. Será na pracinha ao final da Rua Capri, do lado da Editora Abril.
Levaremos duas faixas e flores.
Quanto mais gente estiver lá, melhor, para garantir que a prefeitura não arranque as faixas.
Quem não puder ir hoje, talvez possa passar lá amanhã ou depois, para deixar flores...
É um pequeno ato reparador, que nos fará bem.
 
 

Escrito por Marcelo Coelho às 10h08

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cometa injustiçado

 

Definitivamente, estamos vivendo um tempo de injustiças cósmicas. Primeiro fizeram aquela maldade com Plutão. Agora, é o cometa McNaught que está recebendo muito menos atenção do que merece. A volta do cometa de Halley, em 1986, despertou misticismo, expedições turísticas a lugares ermos, adesivos e camisetas. Tudo terminou em grande fracasso; sua aparição anterior, em 1910, fascinara Murilo Mendes e Mario Quintana. Em 1986, foi uma humilhante lição para as crenças "new age" em vigor na época.

Minha decepção com os cometas é mais antiga: em 1972 ou 1973, não lembro bem, houve enorme expectativa com o cometa Kohoutek, que se dizia várias vezes mais brilhante que o Halley. Imaginava um facho imenso de luz cortando a noite; nada aconteceu, e os fotolitos da época registraram, mal e mal, um pontinho perdido na primeira página dos jornais.

Surge então esse McNaught, que não pudemos ver por causa do céu nublado, mas que em fotos vale bem uma cena da Ciccarelli tomando banho nua no mar. E ninguém deu bola para o McNaught. Ele se retira, ofendido: só voltará dentro de cem mil anos. Não se despreza um cometa impunemente.

Leia entrevista com o astrônomo que deu nome ao cometa em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2001200701.htm (para assinantes do uol)

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h05

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Drauzio Varella e Paulo Preto

O artigo de Drauzio Varella, publicado hoje na “Ilustrada”, merece ser recortado, guardado e relido. É o pefil de um auxiliar de enfermagem, com quem Drauzio trabalhou no Hospital Sírio Libanês, e que depois o ajudou no no voluntariado junto aos presos do Carandiru.

 

Não é remédio para nada, mas o artigo de Drauzio Varella já surtiu efeito sobre mim. No parágrafo que acabo de escrever, usei uma construção sintática pouco usual em nossa sociedade. O normal seria dizer “um auxiliar de enfermagem, que trabalhou com Drauzio...” Pois o chefe da equipe era o médico, não o auxiliar. Mas escrevi o oposto: “um auxiliar de enfermagem, com quem Drauzio trabalhou” –como se Drauzio, aqui, fosse o seu subordinado.

 

Mas vamos ao artigo, intitulado “Paulo Preto”. Eis como começa.

 

Paulo era preto e assim se intitulava.

 

Só nessa pequena frase há um jogo complexo de surpresas, identidades e reiterações.

O começo do artigo repete, de modo quase idêntico, o seu título. Mas onde um leitor estrangeiro veria apenas repetição, apenas tautologia, o leitor brasileiro já se surpreende. Hoje em dia, não é de bom tom dizer que alguém é preto. Melhor dizer negro ou afrobrasileiro. Drauzio começa dizendo simplesmente “Paulo era preto” –mas a continuação da frase nos livra de qualquer impedimento de correçãoi política –afinal, o próprio personagem se intitulava assim.

 

O verbo utilizado, “intitular-se”, descreve com exatidão o caso, mas não deixa de ser explicado pela frase seguinte, iniciada por um travessâo.

 

--Doutor Paulo Preto a seu dispor (...)

 

Mas o verbo “intitular” repete, ocultamente, o que aconteceu com o próprio artigo de Drauzio, que, como seu personagem, intitula-se “Paulo Preto”. O espelhamento entre artigo e personagem, entre o médico e o seu auxiliar, não é obra apenas dessa repetição feita por Drauzio Varella entre título do artigo e voz do personagem. O próprio personagem usa do mesmo artifício, dizendo-se Doutor Paulo Preto.

 

É assim que, nas duas pontas do relacionamento, autor e personagem se igualam e se identificam. Entetanto, isso não apaga as diferenças sociais entre os dois. Pois é evidente a ironia do auxiliar de enfermagem quando se “”intitula” Doutor Paulo Preto. Afirma-se “preto”, adotando a linguagem com que os brancos se referem a ele; intitula-se “doutor”, por decisão própria. Concede ser chamado de preto se também for aceito (com um sorriso) na condição imaginária de doutor.

 

Tratava-se, explica Varella, de uma “corruptela (?) irreverente ao doutor Paulo Branco, professor de cirurgia respeitado por todos os seus ex-alunos no hospital”.

 

Dificilmente, na prática social brasileira, haveria exemplo mais conciso de como a identidade nacional se afirma exatamente na medida em que se reconhecem as diferenças de raça e de classe que dividem os brasileiros. A divisão, sem dúvida difícil de transpor, conhece, talvez, uma neutralização imaginária, como se a simetria “Paulo Preto/ Paulo Branco” equalizasse verbalmente o que, na realidade, está longe de ser igual. A “neutralização” da diferença só é possível pela auto-ironia. Graças à auto-ironia, entretanto, pode-se apontar, sem ressentimento ao que tudo indica, a diferença real: um é preto, outro é branco.

 

Mais adiante, o jogo entre diferença e espelhamento se repete na prática das consultas médicas no Carandiru.

 

Ao terminar o exame físico dos doentes, eu ditava a prescrição, que [Paulo] anotava em letra clara para explicá-la ao destinatário com todos os detalhes, enquanto entrava o caso seguinte.

 

Um fala, outro escreve. O que um dita, o outro reproduz, em letra “clara”...

 

Curioso que o jogo da troca de papéis, a pressuposição de que há algo de intercambiável entre médico e auxiliar, reapareçam na pequena anedota com que Drauzio ilustra a ingenuidade de Paulo Preto. Um funcionário da prisão anuncia:

 

--Pegaram um colega com um quilo de cocaína.

Paulo Preto não pestanejou:

--Entrando ou saindo?

Seu Valdemar perdeu a paciência:

--Saindo, Paulo. Eles plantam coca lá dentro, refinam e mandam para a rua!

 

Hoje em dia, quem sabe até isso fosse possível num bom presídio brasileiro.

Haveria mais a comentar –como a mistura entre eficiência profissional e o uso “descarado”, diz Drauzio, que Paulo fazia de sua proximidade com médicos para ajudar parentes e amigos. Mas meu espaço está acabando.

artigo de Drauzio Varella na "Ilustrada": http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2001200715.htm

 

 

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 12h04

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Metáfora breve

Metáfora breve

Como vai você? O poeta Alan Brownjohn (“Collected Poems”, ed. Enitharmon) tem uma resposta curiosa.

 

“Estou bem, mas meio como um lápis que acabou de ser apontado: um pouco menos do que ontem”.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h03

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cores, formas

cores, formas

         Depois de um período de horários desregrados, achei necessário diminuir bastante o acesso dos meus filhos à TV. O menor, de dois anos e meio, sempre agitado, nunca foi de prestar grande atenção nos programas e filminhos. Mas o maior, agora com quatro anos e meio, teve uma fase de dependência psicológica bastante acentuada. Via desenhos animados de manhã, antes de ir à escola, ligava a TV quando voltava, e das seis da tarde em diante ninguém o tirava do sofá. Tudo bem quanto aos programas da Discovery Kids, embora se repetissem à exaustão; logo as demandas do menino evoluíram para Harry Potter e Power Rangers, que, segundo observei, terminavam por deixá-lo incrivelmente agitado e resistente ao sono.

         O decreto paternal estabeleceu que só haveria TV das 18h às 20h, e sua implementação foi mais fácil do que era de pensar. Estruturas viciantes, nessa idade, são rapidamente adquiridas e rapidamente abandonadas: o potencial de condicionamento nessa idade é vigoroso o bastante para agir instantaneamente em favor do vício ou da saúde.

         O sacrossanto horário do fim da tarde foi então dividido entre os dois meninos, conforme suas preferências; “Baby Bach” e outros vídeos de musiquinhas para o menor, e desenhos da Disney e programas da Discovery para o mais velho –com direito a raras recidivas nos “Power Rangers”.

         Enquanto isso, o menor foi ficando cada vez mais agitado, incapaz de concentrar-se em qualquer coisa na TV ou fora dela. Um brinquedo, um livrinho, um biscoito era logo abandonado em favor de outro, num estado de perpétua insatisfação e freqüente irritabilidade.

         Foi então que ele descobriu os vídeos antigos, de que o seu irmão maior não gostava mais. São aqueles da série “Superbebê" (www.superbebe.com), intitulados “Cores”, “Formas”, “Bichos”. No vídeo “Cores”, um macaquinho anuncia: “azul”, e, com música clássica em arranjo suave, aparecem lentamente coisas azuis –um caminhãozinho, uma foca, um líqüido viscoso.

         O efeito hipnótico desses filmes é impressionante. Talvez porque se movam numa velocidade adequada ao ritmo de absorção cerebral das crianças pequenas, “Cores”, “Formas” e companhia fazem milagres nas horas de maior agitação. Mas não é apenas no interesse da paz doméstica que faço o elogio desses vídeos.

         De algum modo, eles acostumaram meu filho menor à própria idéia de “objeto”—a um mundo exterior que ele é capaz de compreender e desejar visualmente, sem se atirar indiscriminadamente à confusão entre o impulso físico interno e a barafunda incompreensível do mundo real. Nesses vídeos, oferece-se um anteparo entre a criança e o mundo, uma representação simplificada das coisas; ensina-se, também, uma noção mínima de temporalidade. O caminhãozinho vai e volta, aparece e desaparece, numa questão de poucos segundos; mas já é uma forma de saber que há um tempo de espera para que as coisas aconteçam.

         Tempo e espaço, as coordenadas básicas do real –ou melhor, da nossa forma de apreender o real, como dizia Kant—precisam ser ensinados à criança, que não distingue entre desejo e realidade, entre interior e exterior, entre o concreto e a sua representação.

         Não é um vício, é uma necessidade: e o meu filho menor parece mais estruturado psicologicamente desde que esses filmes começaram a fazer sentido para ele.

         Agora percebo, entretanto, de que modo o seu irmão mais velho terminou vendo TV o dia inteiro. É que, notando os benefícios de “Cores” e “Formas” sobre ele, passei  a tolerar que usasse a televisão como bem entendesse; só percebi bem mais tarde que o efeito benéfico dos vídeos fora substituído por uma dependência indesejável.

         Com os adultos, naturalmente, a estrutura da dependência não é diversa. Minisséries, internet, açúcar, álcool, tabaco: os conteúdos podem variar, mas a Forma permanece.

    

Escrito por Marcelo Coelho às 12h01

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Tédio e infância

Tédio e infância

Acabo de ler, para uma resenha que deve sair na “Ilustrada” dos próximos dias, um ensaio publicado pela Jorge Zahar, intitulado “Filosofia do Tédio”, do norueguês Lars Svendsen. Não adianto o que escrevi sobre o livro, mas se há algo a destacar nesse pequeno livro são as citações de outros autores, que ele oferece em profusão. Uma delas é do “Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa:

 

Há sensações que são sonos, que ocupam como uma névoa toda extensão do espírito, que não deixam pensar, que não deixam agir, que não deixam claramente ser. Como se não tivéssemos dormido, sobrevive em nós qualquer coisa de sonho, e há um torpor do sol do dia a aquecer a superfície estagnada dos sentidos. É uma bebedeira de não ser nada, e a vontade é um balde despejado para o quintal por um movimento indolente do pé à passagem.

 

A metáfora da vontade como um balde despejado para o quintal lembra aqueles versos famosos de Álvaro de Campos, em que ele se comparava à lagartixa de quem cortam o rabo e é rabo para além da lagartixa, “remexidamente”... O sujeito se vê destituído de alguma coisa que lhe era constitutiva, como se lhe faltasse, de repente, algum órgão secreto para apreender o mundo.

 

Curioso que Svendsen associe nosso “pesar metafísico”, a “experiência de perda” associada ao tédio, com o “pesar de uma infância perdida”. Cito suas considerações, já no final do livro.

 

Como Kierkegaard descobriu, para seu espanto: “minha infelicidade com o presente é que tenho inveja do passado”. Mas é igualmente imediato considerar essa falta de infância como falta de mundo, isto é, que a experiência da perda em relação à infância é sintomática de uma perda de mundo. Confundindo as duas, insistimos –como faz a criança—em ser entretidos, em ter nossa atenção constantemente atraída por algo “interessante”. Recusamo-nos a aceitar que temos de abandonar pouco a pouco o mundo mágico da infância, no qual tanta coisa é nova e excitante. Mais uma vez, estamos suspensos em algum ponto entre a infância e a maturidade, numa eterna adolescência –uma adolescência recheada de tédio.

 

Mas se a criança está sempre pedindo por entretenimentos, como considerar que a infância é um mundo mágico, e que nossa necessidade de distração, de fugir do tédio, se deve ao fato de termos perdido a infância? De minha parte, lembro-me claramente de como o tempo demorava a passar quando eu era criança. Neste tempo de férias, então, havia rotinas e esperas intermináveis. Depois de almoçar, quantas horas era preciso esperar até entrar na piscina? E a chatice de tantas semanas iguais, indo todo dia à praia e voltando sempre melado de mar e de areia?  Demorei muito para me livrar dessa ojeriza pela praia, pelos seus tempos mortos, pelo tédio imenso do verão. Demorei muito para começar a gostar, moderadamente, de praia –e de tédio também. Talvez seja isso, em todo caso, o que Svendsen propõe: que saibamos conviver com o tédio, apreciá-lo, usá-lo mesmo em nosso benefício, em benefício do nosso silêncio.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h16

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C.R.A.Z.Y.

C.R.A.Z.Y.

Há muita coisa simpática em “C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor”, filme de Jean-Marc Vallée sobre um garoto de dezesseis anos às voltas com a descoberta da homossexualidade. Tudo parece se basear em algum relato autobiográfico, em que o narrador estivesse apenas compartilhando com o público a sua experiência pessoal, sem grandes ressentimentos a expor, nem grandes fatos a contar.

Claro que doses altas de sofrimento e dúvida, para si e para seus familiares, estão em jogo nessa experiência. Entretanto, a meu ver o filme perde um bocado, se comparado ao excelente “Café da Manhã em Plutão”, por exemplo, que trata da homossexualidade na adolescência com uma graça, um atrevimento, um “topete” bem superiores ao dessa produção canadense. Talvez, infelizmente, o protagonista de “C.R.A.Z.Y.” seja, no fundo, um pouco banal e desinteressante. O filme não vai além do que seria um depoimento humano e familiar sensível, sobre uma questão que não poderia deixar de ser complicada numa família católica na década de 70, mas com personagens afinal bem pouco complicados, e com um fluxo narrativo desprovido de grande dinamismo interno –como a vida real, aliás.

No fim, o personagem mais interessante acaba sendo o pai do protagonista, cujo sofrimento e contradição íntima passam por mais variações, ao longo do filme, do que as emoções um tanto previsíveis do garoto que ocupa o centro da narrativa. Bons momentos –uma grande briga entre irmãos, um passeio de carro do menino com seu pai, que será retomado no final do filme— não eliminaram, para mim, a sensação de que houve muita fita rodada para pouco o que contar.  

Escrito por Marcelo Coelho às 16h13

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Bento Prado Jr.

         Bento Prado Jr. sempre foi respeitadíssimo por seus colegas filósofos, mas a lembrança que tenho dele é a de uma pessoa inacreditavelmente acessível e sem pretensão. Assisti, ainda na década de 70, uma conferência dele sobre Deleuze, da qual não tinha condições de entender uma palavra (e nem teria agora), mas sua simples presença na sala de aula, circulando entre os alunos, com um sorriso sereno nos lábios, e a gravata borboleta que lhe dava não sei que tom de esportividade excêntrica, de certa brejeirice à moda antiga, despertavam a imediata simpatia, o carinho mesmo, da audiência.

         Muitos anos depois, estive em São Carlos, onde amigos donos de uma livraria organizaram um daqueles encontros com escritores –no caso, o escritor era eu; ficou combinado que o tema da noite seria “Jantando com Melvin”, espécie de novela que eu tinha publicado alguns anos antes. Fiquei surpreso ao ver Bento Prado na platéia, e mais ainda quando ele tomou a palavra, discorrendo amigavelmente sobre o livro, sobre o jornalismo, sobre o papel dos economistas no debate público brasileiro.

Claro que me envaideceu muito a presença dele naquele encontro; mas não escrevo isso por vaidade, e sim para ressaltar o quanto Bento Prado me pareceu livre desse defeito tão comum em professores, escritores, intelectuais... e jornalistas. Estava ali sem nenhum estrelismo, sem exibir conhecimentos, sem recorrer ao paradoxo e à ironia. Queria apenas bater papo, enquanto eu tentava “mostrar serviço”. Foi afetuoso, natural, desatento às hierarquias e preconceitos tão comuns no campo das letras e da vida acadêmica. Não li seus textos de filosofia, mas tenho a agradecer a ele por aquela lição.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h26

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Fredericka Foster

"River Thames revisited", 2005, 76 x 101 cm

Este é um quadro a óleo de Fredericka Forster, que foi exibido na Fischbach Gallery de Nova York, numa mostra intitulada "Waterway". Devo passar a próxima semana no litoral, de modo que meus posts serão um pouco mais inconstantes do que de costume.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h54

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os prédios mais feios

Recebo de um leitor um texto sobre certas obras arquitetônicas de São Paulo, que por falta de espaço não couberam no lugar reservado aos comentários. Aqui vai:

A questão central aqui, ao meu ver, é o quanto a arquitetura é pouco discutida no Brasil, em especial em São Paulo. Isso fica claro quando surgem aqui e ali estas listas dos "mais" isso e aquilo. Arquitetura não é só estética: é técnica, é contexto cultural, é inserção urbana, é lógica (ou não), é conforto ambiental. Ficam assim ridículas as discussões entre o feio e bonito.


Um ex-professor meu, em visita ao EUA, na década de 50, relata seu espanto ante a uma visita turística que fez a Chicago para conhecer diversas obras de Wright: todos os guias não eram arquitetos, um era biólogo, outro advogado, outro médico: estudavam arquitetura nas horas vagas, como muitos aqui estudam música, pintura, culinária, vinhos etc e trabalhavam como guias por prazer. Aqui nem arquiteto formado faz isso.
Comecemos então a exigir alguns artigos de maior nível em nossos jornais para discutir este assunto, com um pouco mais de profundidade e abertura a leigos ou não.

 

Lendo alguns comentários aqui e no post do Marcelo, dou então minha contribuição: gosto se discute sim e nem todos os arquitetos são seres aloprados que querem impor seu "gosto" a maioria. Gosto é discutível tomando como base referências, quanto mais velho fico, mais vejo isso claramente. Algo que achamos feio pode estar relacionado a história do lugar, das pessoas, de um povo, pode estar ligada a um movimento artístico de vanguarda que questiona a ordem vigente e que não compreendemos bem. Sempre que não gosto de uma música, um texto, um quadro, que tem sua importância na história da arte (ou não) procuro perceber se isto não é uma deficiência em minhas referências: sabendo de todo o processo, aí sim posso questionar. Marcelo, você sabe disso bem melhor que eu.

 

Sendo mais específico com as opiniões daqui: Lina Bardi era anti-clássica, anti-burguesa, veio de uma Itália onde era necessária esta contestação, sua intenção era mesmo criar prédios "feios", que fossem subversivos esteticamente. Marcelo, já lhe escrevi sobre ela, conversamos sobre este "culto" que se faz em torno da imagem dela, ainda acho que estudando melhor sua obra, em livros, talvez você passe a entender melhor esta veneração (não gosto desta palavra mais aí vai). Eu não gosto no Artacho, acho kitsch, brega mesmo, mas ele sim foi um anti-Niemeyer, foi na contramão do gosto padrão da época, fez isto pra vender mais, mas acho que isto não desmerece seu trabalho. Este prédio no eixo da São Luís eu acho um prodígio (continua sendo brega) pois nenhum outro prédio no centro está tão bem localizado e faz uso disso de forma icônica exemplar: eu acho lindo vir caminhando pela São Luís e ver ao fundo, como arremate, este prédio. Faça o mesmo na Xavier de Toledo e veja a metade do Municipal, ou o Banespa ao fundo da São João, meio tortinho, ou a Paulista, nem curva, nem reta, toda segmentada e que acaba literalmente num buraco. Que irritante esta falta de precisão e cuidado paulistanas, com o desenho da cidade. Acho um espanto ter a mesma visão sobre o Ruy Ohtake com a da Jul: ele sempre foi na onda, no início da carreira seguiu certinho o receituário moderno, fazia obras super aceitas pelos críticos, depois passou a copiar o Niemeyer descaradamente e agora, mais velho, mais livre, tenta emplacar uma arquitetura pós-qualquer-coisa midiática. Acho que seu valor está em permitir que a discussão vá além do neo-caipira-clássico vigente e também por tentar criar ícones urbanos (sim são importantes para definir a identidade de uma cidade) mas que ele tem errado feio, as vezes, isso tem.

 

Quanto ao Paulo, bem ele é o "Deus" da vez por causa do prêmio e isso é bem complicado num país tão carente de arquitetos completos como ele. Quanto a marquise, para mim foi a melhor coisa que já aconteceu àquela praça. A tal igrejinha tombada estava lá, cercada por prédios enormes (interessantes alguns), esquecidíssima, e ai é só colocar um coisa nova, de um arquiteto polêmico, que surgem os defensores do patrimônio. Alguém acha que a França não zela pelo seu patrimônio porque permitiu a pirâmide do Louvre? Agora, que o José Bonifácio está de castigo no canto da praça, isso está....não entendi talvez falte-me alguma referência neste caso!

 

O mercado atual encara o arquiteto como um mero definidor de "cores e texturas" e a maior parte dos arquitetos atuantes assume este papel de maneira bastante dócil. Devemos sim ser cobrados e questionados, é muito ruim esta masturbação de arquiteto escrever crítica para arquiteto ler. Vocês, demais profissionais, vejam nossa obras e perguntem: mas porque uma carambola, porque tudo branco, porque "vermelho desbotado com laranja triste e azul claro", porque concreto aparente, porque isso e aquilo? Questionem e não se contentem com respostas do tipo: "está usando muito", "é aconchegante", "é bacana" ou eu só "faço arquitetura contemporânea (ou seja eu só copio Paulo Mendes e mais ninguém").

 

Marcelo, gosto muito do que você escreve, como escreve, você sabe e nem sempre concordo mas fico muito feliz quando abre espaço para esta área ainda tão pouco compreendida nesta terra de Aleijadinho, Niemeyer, Lucio Costa e Paulo Mendes, entre outros. Faço votos que este espaço seja ampliado com ainda mais conteúdo!

 

Márcio

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h45

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Contra Machado de Assis

Contra Machado de Assis

Saiu primeiro no jornal “Valor Econômico”, e foi reproduzido no último Caderno de Literatura Brasileira do Instituto Moreira Salles, um comentário bem duro de Guimarães Rosa a respeito de Machado de Assis:

 

Não pretendo ler mais Machado de Assis, a não ser seus afamados contos. Talvez também o começo de Dom Casmurro, do qual já li crítica que me despertou a curiosidade. Por vários motivos: acho-o antipático de estilo, cheio de atitudes para “embasbacar o indígena”: lança mão de artifícios baratos, querendo forçar a nota da originalidade; anda sempre no mesmo trote pernóstico, o que torna tediosa a leitura. Quanto às idéias, nada mais do que uma desoladora dissecação do egoísmo e, o que é pior, da mais desprezível forma do egoísmo: o egoísmo dos introvertidos inteligentes.

 

Em seguida, andei lendo um livro recém-lançado de Tadeu Chiarelli, Pintura não é só beleza: a crítica de arte de Mário de Andrade (Editora Letras Contemporâneas). Agora, é Mário de Andrade quem ataca Machado de Assis.

 

Machado de Assis é um fim, não é um começo e sequer um alento novo recolhido em caminho. Ele coroa um tempo inteiro, mas sua influência tem sido sempre negativa. Os que o imitam, se entregam a um insulamento perigoso e se esgotam nos desamores da imobilidade (...) Machado de Assis não profetizou nada, não combateu nada, não ultrapassou nenhum limite infecundo. Viveu moral e espiritualmente escanchado na burguesice do seu funcionarismo garantido e muito honesto, afastando de si os perigos visíveis (...)

 

... vitorioso na vida, ele ainda o foi mais prodigiosamente no combate que, na obra, travou consigo mesmo. Venceu as próprias origens, venceu na língua, venceu as tendências gerais da nacionalidade, venceu o mestiço. É certo que, para tantas vitórias, ele traiu bastante a sua e a nossa realidade. Foi o antimulato, no conceito que então se fazia de mulatismo. Foi intelectualmente o antiproletário, no sentido em que principalmente hoje concebemos o intelectual. Uma ausência de si mesmo, um meticuloso ocultamento de tudo o que ele podia ocultar conscientemente. E na vitória contra isso tudo, Machado de Assis se fez o mais perfeito projeto de “arianização” e de civilização da nossa gente. Na língua. No estilo. E na sua concepção estético-filosófica, escolhendo o tipo literário inglês...

 

Mas assim vitorioso o Mestre não pode se tornar o ser representativo do Homo brasileiro... A generosidade, o ímpeto de alma, a imprevidência, o jogo no azar, o derramamento, o gosto ingênuo de viver, a cordialidade exuberante. Se objetará que Machado de Assis, neste ponto, foi vítima de sua desgraça, confeccionando em máxima parte no caráter pelo que sofreu. Mas o defeito grave do homem não estará justamente nisto? Machado de Assis, vencedor em tudo, dado mesmo que fosse individual e socialmente desgraçado (...), uma coisa não soube vencer. Não soube vencer a própria infelicidade. Nâo soube superá-la (...) Vingou-se dela, mas não a esqueceu nem perdoou nunca. E por isso foi, como a obra conta, o ser amargo, sarcástico, apenas aristocraticamente humorista, ridor da vida e dos homens. Mas também por isso lhe faltam as qualidades brasileiras, as qualidades que todos somos geralmente, em nossas mais imperceptíveis impulsividades (...)

 

O artigo completo de Mário de Andrade sobre Machado de Assis está em Vida Literária, (editora Hucitec/Edusp).

 

Lembro-me de uma crônica de Paulo Mendes Campos, em que ele comentava os ataques de Bernard Shaw e Tolstói à obra de Shakespeare. Dizia que concordava com os ataques enquanto os lia, mas depois voltava a Shakespeare e se esquecia de todas as críticas. Mas volto ao assunto.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h47

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Anatole France

Anatole France

Acabo, finalmente, de escrever um prefácio para "Os Deuses Têm Sede", de Anantole France, a ser publicado pela editora Boitempo. É um livro memorável, bem mais do que faria crer a fama do autor, sempre identificado com um pseudomachadianismo frívolo e fora de moda. Seguem os últimos parágrafos do meu texto.

O leitor acompanha com horror o papel de Évariste Gamelin nesses procedimentos de justiça revolucionária; a imagem de obediência burocrática, sem ódio nem paixão, que move o personagem não está distante daquela que Hannah Arendt traçaria, na década de 60 do século 20, para explicar as ações do nazista Adolf Eichmann sob o signo da “banalidade do mal”.

A perplexa lucidez de Hannah Arendt a respeito do nazismo é de outra natureza, entretanto, que o desencanto compreensivo de Anatole France. Seria impossível narrar em tons suaves a vida amorosa de Eichmann; entre Gamelin e a bela Élodie mais de uma cena idílica se passa.

É que Anatole France, ao mesmo tempo que revela a violência jacobina, está usando deliberadamente as tintas claras, os traços rápidos, a gentileza de gestos de um Watteau: não por acaso, o sutil pintor de arlequinadas setecentistas, caro a Verlaine, é considerado um fútil artista decorativo, a serviço da nobreza, pelo rigoroso Gamelin. Este é um “aluno de David”, informa-nos a primeira linha do romance: as frustradas ambições artísticas do protagonista se dirigiam a um tipo de arte grandioso,  edificante e solene.

Não por acaso, também, o “alter ego” de Anatole France em “Os Deuses têm Sede” é o sábio, velho e sibarita Brotteaux des Illetes; rico no “Ancien Régime”, e adepto da estética condenada por Gamelin, vive agora de fabricar marionetes, até o momento em que esse ofício passa a ser considerado contra-revolucionário. Seriam também marionetes os personagens de Anatole France? A resposta é positiva em dois sentidos: eram, sem dúvida, marionetes de uma conjuntura histórica que os dominava por inteiro, reduzindo a nada sua individualidade real; eram marionetes, também, nas mãos de um artista consciente ao extremo de seu ofício, e da mensagem que tinha a transmitir. 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 19h44

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aprendendo a falar

aprendendo a falar

         Dou uma volta pelo quarteirão, com meu filho de dois anos e meio no colo . Aproveito para ensinar-lhe o nome de algumas flores. “Olha, isso é um hibisco”. Ele responde: “zibico”. “Uma quaresmeira”: “quazezesra”. A noite vai caindo. Ele sabe que aparecerá alguma estrela no céu. “Estelinha”, ele aponta, e vejo que existe uma ao lado do prédio.

         Depois de tanto esforço de apreensão e concordância, nada mais natural, percebo, que uma birra tremenda na hora de dormir. A experiência existencial de uma criança dessa idade é a de aceitar os fatos do mundo, tais como são. A aquisição de vocabulário já uma submissão gigantesca. As birras dessa idade são comuns, e tendem a desaparecer com a aquisição da linguagem. O problema é que ignoramos o quanto de obediência, de docilidade, há nesse processo.

Escrito por Marcelo Coelho às 04h47

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George Orwell

Citei, no artigo de ontem, um texto de George Orwell, intitulado "Um enforcamento". Está numa coletânea de textos de Orwell, organizada por Daniel Piza para a Companhia das Letras: "Dentro da Baleia e outros ensaios". Mas pode ser lido em inglês no link http://www.orwell.ru/library/articles/hanging/english/e_hanging

Eu devia estar terminando o prefácio que me encomendaram para "Os Deuses Têm Sede", de Anatole France, mas fui capturado por um livro de Christopher Hitchens, autor de "Cartas a um Jovem Contestador" (Companhia das Letras), sobre George Orwell: "Why Orwell Matters" (www.basicbooks.com) Em pouco mais de duzentas páginas, Hitchens traça com clareza o perfil de Orwell, destacando todos os pontos que o tornam atual. Ele diz, com razão, que inúmeros intelectuais de primeira grandeza escreveram, ao longo do século 20, textos com grandes barbaridades políticas, dos quais certamente se envergonhariam se estivessem vivos; Orwell, ao contrário, não teria nada a corrigir ou ocultar de tudo o que escreveu.

Hitchens é divertido, claríssimo, e tem um senso invejável de "plasticidade" nas frases; é como se fossem moldadas em matéria especialmente maleável, de modo que traçam um arco de raciocínio, informação e provocação que sempre se completa, sem deixar a impressão de que ficaram coisas de fora ou rabichos de idéia pendurados no final.

Falei de provocação, mas não vi até agora sinais de direitismo espumante no que ele escreve. Naturalmente, ele pinça uma série de frases ambíguas, comprometedoras, de intelectuais de esquerda que, sem deixar de homenagear Orwell, fazem-no com muita má-vontade, com circunlóquios ridículos. É o caso de Raumond Williams e de Edward Said.

Edward Said tem observações especialmente revoltantes. Diz que a carreira de Orwell como ensaísta político não coincide com os tempos em que ele estava na miséria em Paris e Londres, mas sim "com sua readmissão e consequente instalação na vida burguesa" ("readmission to and subsequent residence inside bourgeois life". A política, prossegue Said, era algo que ele observava, ainda que como honesto "partisan", a partir dos confortos da venda de livros, do casamento, da amizade com outros escritores, lidando com editores e agentes literários..." Como se, mesmo no final da vida, Orwell tivesse desfrutado de um quinto do conforto material com que contava o próprio Said.

Por ter denunciado os crimes de Stálin em "A Revolução dos Bichos", e o totalitarismo, em 1984, Orwell é acusado por Raymond Williams de "ver a luta política como uma luta entre apenas algumas pessoas acima das cabeças da massa apática" e, com isso, ter criado "as condições para a derrota e o desespero". Melhor ficar com o que Orwell disse de si mesmo, sem vaidade nem modéstia: "Eu sabia (na juventude) que tinha facilidade com as palavras e o poder de encarar fatos desagradáveis". Creio que essa é uma virtude muito rara, e a desconfiança que Orwell me inspirava antigamente --mesmo tendo sempre estado de acordo com seu horror ao estalinismo-- vem do fato de não ter essa capacidade tão desenvolvida assim. E pouca gente parece que tinha, no seu tempo.

"Homenagem à Catalunha", em que Orwell conta de que modo os estalinistas sufocaram brutalmente a revolução dos esquerdistas independentes do POUM (Partido Obrero de la Unificación Marxista), ficou durante décadas quase inencontrável nas livrarias. Um líder e mártir catalão, Andrés Nin, foi raptado, torturado e morto pelos estalinistas --estes disseram, e durante muito tempo se acreditou nisso, que ele tinha fugido da frente de combate para aliar-se aos nazistas.   Orwell escreveu seu livro numa situação de grande isolamento político, tendo de contar apenas com sua própria credibilidade, com a força de seu testemunho pessoal, para contar o que viu e experimentou: "os historiadores do futuro terão pouco em que se basear exceto uma massa de acusações e propaganda partidária. Eu mesmo tenho poucos dados além daquilo que eu vi com meus próprios olhos e o que vim a saber de outras testemunhas oculares que considero confiáveis..." É preciso coragem para não silenciar numa situação como essa. 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h50

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Ivor Gurney

Ivor Gurney

Estou ouvindo no momento uma linda canção do compositor inglês Ivor Gurney, "sleep", em cima de um poema de John Fletcher. O acompanhamento de piano, impassível, lembra aquele prelúdio "feio" de Chopin, que Ingrid Bergman ensina a Liv Ullman no filme "Sonata de Outoo". Contra o andante duro e resignado do piano, a voz do tenor pede ao sono que venha, com seu doce engano... a peça é de uma contenção muito inglesa, e de um lirismo muito inglês também. Está num Cd da Hiperyon, "Gerald Finzi and his Friends"

Escrito por Marcelo Coelho às 01h51

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evento

Desde que vi "O Príncipe", filme de Ugo Giorgetti, percebi o que há de horrível na palavra "evento"-- para o peronagem do filme,  era apenas ocasião de ganhar dinheiro com picaretagem cultural. Acontece que o Folha On Line limita a apenas cinco as categorias dos posts de seus blogueiros.

Dividi meus posts em cinco seções: "geral", onde falo sobre política e outras questões, "livros", que não precisa de explicação, "pais e filhos", onde exerço meu lado "supernanny", "em cartaz", com os comentários ocasionais sobre filmes e peças de teatro, "pizzas e cia.", onde publico minhas fotos de cartazes de rua, e "voltaire de souza", onde reúno as crônicas publicadas no jornal "Agora", disponível para assinantes do uol.

Falta um espaço para a música, onde eu gostaria de falar do que estou ouvindo. Sugiro então, aos leitores deste blog, que no espaço reservado a "eventos", entrem os relatos de minhas experiências musicais. Espero que dê certo.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h39

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irmãos ciumentos

irmãos ciumentos

Como tenho dois filhos meninos de idade próxima (dois anos e meio, quatro anos e meio). deixei-me levar pelo medo do conflito que eles pudessem ter entre si. Como resultado, estabeleci a regra que um não podia bater no outro em nenhuma hipótese, e segui a prática de levá-los sempre juntos ao mesmo lugar.

Foi um erro. Os ciúmes do irmão menor (sempre mais fortes do que os do irmão maior, privilegiado nas minhas atenções e carinhos) se voltaram contra o pai e mãe, na forma de birras tremendas, e da repetição de uma só frase, a única que parece constar de seu restrito vocabulário: “eu quero, eu quero, eu quero...’

Às vezes, ele está no colo da mãe, e não se cansa de repetir: “quero colo da mamãe, quero colo da mamãe”. Não é preciso ser psicanalista para perceber que ele quer outra coisa, além do colo ocasional e resignado da mãe.

Ele quer separar-se do irmão. Por acaso, tive de levar meu filho menor para atividades a que meu filho maior não tinha como se agregar: exames de sangue, vacinas, consultas no dentista.

Tratei de transformar o desprazer dessas ocasiões em momentos de intimidade. Levei-o sozinho para almoçar num shopping center depois da visita à dentista.

Não houve birras. Meu filho menor percebeu que há momentos em que ele tem propriedade exclusiva do pai.

Em outro momento, comprei um brinquedo só para ele. Minha praxe tinha sido de sempre comprar dois presentes: um para o maior, outro para o menor. Vi que meu senso de justiça levava ao desequilíbrio familiar. Nada mais errado do que considerar que seus dois filhos são iguais. É preciso que ambos se sintam o filho preferido, ainda que alternadamente.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h07

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Norton no Brasil

Norton no Brasil

O americano Norton, personagem recorrente nas crônicas do "Agora", toma contato com a realidade carioca. Link para assinantes do uol: http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0801200703.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 10h55

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erros na série "Roma"

Copio um link da Wikipedia sobre os erros históricos na minissérie "Roma", de que falei em outro post. São principalmente sobre alguns detalhes e personagens secundários: http://en.wikipedia.org/wiki/Rome_(TV_series)#Historical_deviations 

Escrito por Marcelo Coelho às 10h52

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os prédios mais feios

A "Folha" promoveu uma enquete entre arquitetos para saber quais seriam os prédios mais feios de São Paulo. Não houve unanimidade; no máximo, menções esparsas a coisas como a loja da Daslu, o prédio da Dacon e até o Edifício Martinelli. É que a quantidade de coisas feias em São Paulo é tão grande, que qualquer escolha pode perfeitamente ser a melhor. Naturalmente, critérios estéticos e ideológicos se misturaram bastante nessa lista. O edifício Martinelli, tanto quanto o prédio da Daslu, foram criticados pelo que significam de arrivismo das nossas "elites", imaginando um luxo europeu no que é puro esbanjamento subdesenvolvido. Mas é claro que, fora desse ataque a prédios luxuosos, muito mais coisa poderia ser apontada. A Igreja "Deus é Amor", que mereceu um voto também, é muito mais feia, claro, do que o prédio da Dacon.

Mas eu citaria ainda aquele prédio preto do Unibanco, na Marginal do Pinheiros; o conjunto de edifícios chamado "Place des Vosges", no Morumbi; o hospital da saúde da mulher, na avenida Doutor Arnaldo; o edifício Viadutos (acho que é esse o nome), quase em frente à Câmara Municipal --um estafermo de Artacho Jurado que bloqueia completamente o horizonte de quem está na avenida São Luís em direção à rua Augusta; o Hotel Renaissance, de Ruy Ohtake, com suas listas pretas e vermelhas, na alameda Santos. Menção especial, porque não é prédio, merece a marquise do premiado Paulo Mendes da Rocha na Praça do Patriarca, uma intrusão desproporcional e chatíssima no lugar. Ainda nos ícones da arquitetura paulistana sempre elogiados pelos especialistas, acharia muito estranho se dissessem que o famoso edifício Esther, na praça da República, é bonito... E o consagrado edifício Louveira, de Villa Nova Artigas, na praça Villaboim, tem uma combinação de cores bastante infeliz, e quem está na rua vê uma parede inteira de fundos de cozinha e área de serviço envidraçada. Ah, mas vá falar mal... Não esqueço das janelas do prédio do Sesc Pompéia, de Lina Bo Bardi, e, claro, do prédio da Folha, na Barão de Limeira... casa de ferreiro, espeto de pau.

Seria mais difícil fazer a lista dos mais bonitos.

Veja as fotos dos escolhidos pelos arquitetos  em http://noticias.uol.com.br/ultnot/album/feios_album.jhtm?abrefoto=3

Escrito por Marcelo Coelho às 15h02

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blog literário

Denny Yang me mandou, há tempos, um romance chamado "Isabelle" (editora FTD) de que gostei muito; tem um tom impertinente e seguro, com o narrador brincando o tempo todo com a própria ambição de ser um grande escritor. Recomendo, para quem gosta de literatura, o seu blog- http://acasadacolina.blogspot.com/ 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h32

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dois clichês

         Tanto se fala contra a moda do gerúndio e da expressão “a nível de”, que  reclamar disso se transformou numa coisa tão tediosa quanto o próprio fenômeno. O alarme contra os clichês sempre soa tarde demais. De minha parte, quero assinalar duas coisas que vão se tornando de uma banalidade extrema nos textos de intelectuais.

         A primeira é citar o famoso artigo “O Narrador”, de Walter Benjamin. Trata-se de um texto de grande riqueza e ambigüidade, mas que ficou reduzido a um raciocínio inicial: o de que, depois da Primeira Guerra, o sujeito moderno é incapaz de dar conta de suas experiências; repete-se a torto e a direito a idéia de que “os soldados voltaram mudos do campo de batalha” –o trauma sofrido era grande demais para ser posto em palavras. Será verdade? Não há depoimentos, memórias, poemas, cartas, escritas por quem participou da grande guerra? Embora seja terrível de contar, quanta gente não escreveu sobre a vida nos campos de concentração? Quem recorre à citação de Benjamin talvez simplesmente se sinta desincumbido de conhecer esse tipo de registro.

         Outra coisa banalíssima é uma frase mais ou menos assim: “Uma pesquisa sumária no Google revela que, sobre o assunto X, há mais de 1578000 sites na internet”. Minha experiência no google revela que, depois do vigésimo ou trigésimo item citado, os resultados são completamente aleatórios, afastando-se cada vez mais do alvo da pesquisa. Peter Burke, no “Mais!” de uma semana atrás, caiu na armadilha, dizendo que uma “pesquisa sumária” no google mostrava milhões de entradas associando os termos “sexo” e “Brasil”. Um leitor protestou, com razão, dizendo que mais ainda seria encontrado se a pesquisa juntasse “sexo” e “Estados Unidos”. Mas clichês são assim mesmo: recursos para não pensar.

         Será interessante ver, ao longo do ano, quantas vezes vou topar com esses velhos conhecidos. Em “Filosofia do Tédio”, de Lars Svendsen (que devo resenhar para a Ilustrada até quarta-feira), Walter Benjamin já apareceu. Mas o livro de Svendsen fica para outro post.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h43

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Roma, West Wing

Rendi-me finalmente às minisséries da TV americana. Tinha visto uns capítulos de "Sex and the City", que não me desagradaram, mas me cansaram um pouco: muita papagueação em torno de quem vai transar com quem termina me parecendo desinteressante.

Gosto mais das intrigas políticas, infinitamente mais chatas de ler do que de dramatizadas com atores competenetes. "Roma", que agora está à venda com grande estardalhaço em DVD, vale por isso: disputas de poder altamente complicadas e lentas, que Andrzej Wajda teve dificuldade de resumir nas duas horas de seu "Danton".

Com efeito, pela primeira vez a TV supera o cinema. Como entretenimento inteligente e como inteligência de roteiro. Não tenho nada contra um filme como "O Ilusionista", por exemplo: diversão inteligente e trama complicada, misturando amor, crime e política de modo eficiente. Mas quando isso é feito ao longo de muitos capítulos, sem a enrolação e a pobreza de conteúdo das novelas brasileiras, a complexidade e a ironia têm a ganhar.

Só que "Roma" tem um visual kitsch, uma música inadequada, e um excesso de cenas de ação para meu gosto. Em matéria de pura intriga política, "West Wing" me pareceu bem superior. A vantagem de "Roma" é que vale mais a pena conhecer fatos históricos reais (a briga entre César e Pompeu, o papel de Maco Antônio) do que os dilemas de um presidente americano ficcional. Em matéria de cultura --aquela que o ginásio e o colégio não nos proporcionaram-- "Roma" tem mais valor. Como estética, análise do caráter humano, riqueza das situações, "West Wing" é um romance -- difícil de ser superado pela duração de um filme realista normal. 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h33

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as coisas não dão certo

as coisas não dão certo

Recebo um livro de poemas de Carlos Machado, ´"Pássaro de Vidro" (editora Hedra). É poeta maduro e que domina perfeitamente, com simplicidade e inteligência, seus meios de expressão. Transcrevo um poema seu, intitulado "Certo":

As coisas não dão certo/ nunca deram certo/não foram feitas para dar certo// nós é que temos a ambição/do alinhamento e da simetria// e até inventamos deuses perfeitos/ construídos à imagem e semelhança/ do que sonhamos// as coisas não dão certo/nós é que cerzimos o pano/ obturamos o dente/ remendamos a fronteira no mapa// e inauguramos/ na estátua de chumbo/um simulacro de ave// queremos crer/ que as coisas dão certo/ as coisas agora estão dando certo/ e --se deus quiser--/ sempre darão

Copio também "Stainless Steel":

eis a caixa:/ aço firme/ sem mácula//represa/para o córrego das horas//em cofre de aço/ a essência do/ que nunca passa

 

Escrito por Marcelo Coelho às 13h07

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novos sonhos

novos sonhos

O fim das utopias é tema constante na literatura e no cinema de hoje. O cronista do "Agora" contribui com sua reflexão. Leia em http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0501200704.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 12h57

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ironias literárias

ironias literárias

Heinrich Heine

Para escrever um prefácio ao ótimo “Os Deuses Têm Sede”, leio um pouco sobre Anatole France. Numa coletânea de artigos de Émile Henriot, admirador fiel de Anatole France numa época em que todos o consideravam ultrapassado (por volta de 1930), há um pequeno texto sobre o humor na literatura, com alguns exemplos que não quero deixar sem registro.

Henriot cita uma passagem do “Pickwick” de Charles Dickens. É inverno, o bom Mr. Pickwick está patinando, o gelo racha, ele corre o risco de se afogar, e pede socorro, desesperado: “Fogo! Fogo!”

Paul-Jean Toulet desfaz o sentido de um velho clichê. “Se o nariz de Cleópatra fosse um pouco mais curto, toda a face do mundo teria sido outra. E a sua também.”  Outra ironia de Toulet: “Esse aí se considera pessimista a dizer que não existem casamentos deliciosos. Mas esqueceu o casamento dos outros.”

O compositor Berlioz se notabilizou pela extravagância genial de suas obras. Teve o belo gesto de visitar o poeta Heinrich Heine, que estava em plena desgraça, abandonado por todos em seu leito de morte. Heine recebeu-o com um sorriso: "Ah, Berlioz, é você? Sempre original!"

E por falar em últimas palavras, há as de Fontenelle, quando o médico apareceu perguntando o que ele sentia: "uma certa dificuldade em existir".

Nada irônicas, entretanto, as últimas palavras de Anatole France, aos 80 anos: "Maman! Maman!"

Escrito por Marcelo Coelho às 22h54

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Calligaris e o turismo sexual

Contardo Calligaris escreveu hoje na Folha um artigo interessante e verdadeiro sobre um filme de que também gostei muito, “Em Direção ao Sul” (ver post abaixo). Na produção de Laurent Cantet, duas americanas e uma canadense, de seus 50 anos (entre elas, Charlotte Rampling num excelente papel), estão num hotelzinho do Haiti, fazendo turismo sexual com rapazes negros (bem feiosos, aliás). Calligaris comenta:

 

         Numa cena do filme, as mulheres se perguntam por que não gostam tanto dos negros em seus países de origem. A pergunta vale para o turismo sexual em geral: por que ir tão longe? Afinal, nas cidades do primeiro mundo, há uma ampla escolha de amores à venda.

 

Calligaris prossegue.

 

         Na vida erótica, funciona uma espécie de desproporção: para desejar sexualmente, é como se precisássemos, ao menos por um momento, despojar o outro de sua dignidade subjetiva, considerá-lo apenas como corpo. (...) É por isso que a maioria, na hora do sexo, não sussurra palavras de carinho, mas solta ‘injúrias’ que rebaixam a parceira ou o parceiro (...)

         Nos lugares preferidos pelo turismo sexual, essa configuração banal da vida amorosa está, por assim dizer, realizada de antemão: o turista encontra sujeitos que já estão reduzidos ao seu corpo. Se não bastasse o passado colonial ou escravagista, a desigualdade brutal prepara os corpos tropicais para o festim do turista sexual.

         ...Por exemplo, Legba, o jovem negro que, no filme, é objeto de desejo das senhoras, pode ser uma espécie de felino que elas querem acariciar e mimar porque já foi transformado em bicho pela miséria social e política de seu país.

 

Está certo, mas tenho alguns comentários a acrescentar. No filme, o interessante é que Legba está longe de ser um mero objeto corporal das turistas: ele as atrai exatamente porque, como um felino, manipula as que pretendem dominá-lo. Mais do que isso, ele alimenta nas americanas a ilusão de que também as deseja; é, na verdade, o sujeito da relação, o dono do harém, e a miséria daquelas mulheres está no fato de que, mais do que um corpo, desejam essa situação de concubinas. A personagem de Charlotte Rampling está apenas racionalizando sua paixão quando se diz turista sexual.

 

Acho também que o turismo sexual não se dá apenas na direção apontada por Calligaris: brancos do primeiro mundo se esbaldando nos corpos miseráveis. Minha própria experiência como turista (não sexual) registra uma espécie de excitabilidade com toda população estrangeira. O fato de não pertencer ao local que estou visitando (Bruxelas ou Maceió) estimula as célebres fantasias de uma aventura inconseqüente. Não é só que as pessoas se transformaram em meros corpos; a diferença de linguagem, de costumes, de jeito, faz de uma pessoa qualquer, Fulana ou Beltrana, não um corpo anônimo, mas um corpo também dotado de outra coisa, a nacionalidade. “Quero transar com essa mexicana”, pensa o brasileiro ou o nicaragüense, como se a “mexicanidade” daquela mulher, que talvez não seja etnicamente distinta das de seu país natal, constituisse para ele um fator a mais de excitação, e trouxesse consigo um sabor, um cheiro diferente, que acrescenta um tempero à condição humana universal. Não é um corpo simplesmente, mas um corpo mexicano... belga, russo, nigeriano, tailandês.

 

“Comment peut-on être persan?” (como é que alguém pode ser persa?), perguntavam-se os parisienses na célebre página de Montesquieu. Já existe algo de sexual, e também de perverso, nessa indagação. Não há propriamente objetos puros num desejo sexual; ninguém transa apenas com um pênis ou uma vagina; há o objeto e sua circunstância. Quanto mais imaginária, mais longe nos leva.  

Leia o artigo de Contardo Calligaris em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0401200714.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 16h30

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Clouzot, Karajan

O maestro Karajan (esq.) e Clouzot, em 1966

 

 

 Henri-Georges Clouzot é autor de excelentes filmes de suspense e tensão, como “O Salário do Medo” e “As Diabólicas”. Comentei num artigo para a “Folha” o documentário que ele fez mostrando “O Mistério de Picasso”, disponível em DVD. Fazendo Picasso usar um tipo de tela transparente, Clouzot filmava o nascimento, pincelada a pincelada, de vários quadros do mestre. Era possível ver Picasso fazendo, refazendo, apagando e recriando pintura atrás de pintura, num trabalho incansável de inspiração.

 

Saiu agora um outro DVD com dois documentários de Clouzot. Trata-se de “Herbert von Karajan Ensaiando e Regendo” (Herbert von Karajan in Rehearsal and Performance, Unitel/Euroarts), em que novamente o tema do trabalho obsessivo, incansável, assume o primeiro plano. No primeiro média-metragem, um Karajan no vigor dos quase 60 anos faz, refaz, repete e explica os menores detalhes de três ou quatro passagens da “Sinfonia no. 4” de Schumann. A orquestra é a sinfônica de Viena; Karajan nunca está contente. Apesar da fama de tirano, ele sempre sorri. Mas basta vê-lo sorrindo para perceber que alguma coisa deve ter saído errado.

 

Temos sempre a impressão de que o maestro chega, move os braços, a orquestra toca e ele recebe os aplausos. Numa curta entrevista que antecede o segundo média-metragem (um ensaio, com um aluno, da parte das cordas no segundo movimento da “Quinta” de Beethoven, com a Filarmônica de Berlim), o próprio Karajan afirma que quis participar do documentário para provar que não é bem isso. Ouvimos a melodia inicial. Não, a primeira nota já está soando de modo insatisfatório. Começa de modo muito cru. Karajan manda que as cordas toquem longamente essa nota, até ela ficar suficientemente “cozida”. O tema recomeça. Não, o padrão rítmico está excessivamente acentuado. É preciso mais unidade. As cordas vão de novo. Não, não, sim, ja, nein, nein, genau, moment, stop...

 

Quando Karajan ensaia a sinfonia de Schumann, com toda a orquestra, sentimos o desafio que todo maestro deve enfrentar. A orquestra é um monstro, que sai tocando sozinho; cabe a Karajan interromper aquela massa de gente rolando uma ribanceira para que cada músico perceba e retoque a mínima sutileza de fraseado; uma notazinha que tem de ser ligada a outra, mas que ao ser ligada não pode dar peso demais ao final da frase... “Novamente, senhores!” É trabalho árduo e concentrado. 

Leia mais em http://www.unitel.de/uhilites/1996/030196.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 21h29

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Um poema de Pavese

Um poema de Pavese

Transcrevo, na tradução de Henriqueta Lisboa ("Poesia Traduzida", editora da UFMG), o sexto de uma série de oito poemas de amor escritos por  Cesare Pavese em 1950, o ano de seu suicídio.

As manhãs passam claras/ e desertas. Assim teus olhos/ se abriam outrora. A manhã/ transcorria lenta, era um sorvedouro/ de imóveis luzes. Silenciava./ Viva, tu silenciavas; as cousas/ viviam sob teus olhos/ (sem pena, sem febre, sem sombra)/ como pela manhã o mar-- claro.

Onde estiveres, luz, é manhã./És a vida e as cousas./ Em ti despertos respirávamos/ sob o céu que ainda está em nós./Não pena não febre então,/não esta sombra grave do dia/ oprimido e diverso. Ó luz/ claridade longínqua, respiro/ laborioso, volta os olhos imóveis e claros sobre nós./ É escura a manhã que passa/ sem a luz dos teus olhos.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h14

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O céu de Suely

O céu de Suely

Escrevi hoje na “Folha” sobre “O Céu de Suely”, filme de Karim Aïnouz que já está há um tempo em cartaz. Estava com um pouco de preguiça de assistir, porque “Madame Satã”, primeiro filme do diretor, não me causara boa impressão –no Belas Artes, o som estava horrível, eu não estava muito melhor, de modo que acabei saindo depois de uns vinte minutos. Mas isso é problema meu, não do filme. Depois, tinham-me dito que “O Céu de Suely” era violento, chocante... Na verdade, é um filme ótimo, graças ao grande controle da narrativa (sempre acontece alguma coisa, mas já quando não esperamos que aconteça mais nada), e também graças à notável personagem vivida por Hermila Guedes: sempre contraditória, sempre coerente. Acabei contando um pouco demais da história no artigo, mas para quem já viu o filme o link é http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0301200722.htm

 

Site do filme: http://www.oceudesuely.com.br

 

Leia também a entrevista de Hermila Guedes no site omelete: http://www.omelete.com.br/cinema/artigos/base_para_artigos.asp?artigo=3457

Escrito por Marcelo Coelho às 16h36

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balanço 2006: filmes

Falei até agora de livros na minha retrospectiva de 2006; em matéria de cinema tenho mais dificuldade de lembrar, porque não costumo fazer a lista dos que assisti. E vi muito mais coisa em DVD do que no cinema. A grande descoberta para mim foi “Palavra” (Ordet) de Dreyer, que já foi para a lista, se é que tenho, dos melhores filmes que já vi. Saíram vários filmes de Carl Dreyer em DVD, mas tive muitos problemas técnicos com meu aparelho –um filme maravilhoso sobre caça às bruxas, do mesmo diretor, travava o tempo todo. Também em DVDs, destaco os documentários “Crise”, de Robert Drew, sobre os bastidores do governo Kennedy, e “Jaguar”, de Jean Rouch, sobre trabalhadores migrantes na Costa do Marfim.

 

No cinema mesmo, o filme que mais me ficou na memória foi “Caché”, de Michel Hanecke  –a história é narrada de modo tão inquietante, que o espectador não pode descuidar de nenhum ângulo, nenhum canto da tela; o jogo inicial, entre o que pensamos ser o filme, e o que não passa de uma gravação em vídeo a que os próprios personagens estão assistindo, já nos coloca num terreno ambíguo e perigoso. Outra ambigüidade, a sexual, é explorada com maestria em “Café da Manhã em Plutão”. O filme mais adorável, que eu tenho mais prazer em recomendar, é “Eu, Você e Todos Nós”, de Miranda July. Gostei também de “Soldado Anônimo” e de “Capote”: pouca ficção, grande esforço de chegar ao labirinto ético que envolve toda situação real. “Crime Delicado”, de Beto Brant, tem um grau de estranheza e complexidade que são bem-vindos, num cinema em que “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, emocionante e bem-cuidado, não pode deixar de ser mencionado. “Árido Movie” e “ O Céu de Suely” –que comento amanhã em meu artigo—levantam, entretanto, questões mais perturbadoras, menos tendentes à conciliação.

 

Minhas decepções e implicâncias vão para “Munique”, de Steven Spielberg, para alguns episódios de “UOL Busca Crianças Invisíveis” (o de John Woo foi a pior coisa de 2006), o forçado “A Criança”, dos irmãos Dardenne, o mais forçado ainda “O Corte”, de Costa-Gavras, o ainda forçado “ O que Você Faria? ”, o limítrofe “O Diabo Veste Prada”, e o patê “Pintar ou Fazer Amor”. 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h31

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balanço 2006 (3)

Prossigo no meu balanço pessoal de 2006. Publicaram-se vários clássicos do jornalismo literário. Não me arrependi de ler “Filme” (Companhia das Letras), de Lillian Ross, que narra em detalhes o cabo-de-guerra entre o diretor John Huston e a Metro Goldwyn Mayer durante a filmagem, a edição e o lançamento de “The Red Badge of Courage” (“Glória de um Covarde”), filme baseado no livro de Stephen Crane. A jornalista Lillian Ross, que tinha menos de 30 anos quando escreveu essa longa reportagem, é mestre naquele efeito da “mosquinha na parede”: narra todos os diálogos e acontecimentos no set de filmagem de modo a nos fazer sentir que estávamos ali também, vendo tudo,  sem que ninguém nos notasse.

 

O livro é instrutivo, claro, para quem quer saber como funcionava a indústria cinematográfica; os retratos dos principais personagens –entre eles, o chefão Louis B. Mayer—são equilibrados e eloqüentes ao mesmo tempo. Tudo seria mais dramático, entretanto, se John Huston fosse de fato uma personalidade genial e injustiçada. A imagem que fica de seu talento, no livro de Lillian Ross, não é especialmente forte: ele se mostra um diretor muito prático e objetivo, que sabe com quem está lidando, e que não pensa demais em mudar a arte ou a vida.

 

George Orwell vai tendo boa parte de sua obra lançada ou relançada no Brasil, em Dentro da Baleia  é um livro memorável. Escrevi sobre um dos textos dessa coletânea, “Como morrem os pobres”, em que Orwell narra a desumanidade dos médicos num hospital público francês na década de 20. “O abate de um elefante”, contando sua experiência como policial na Birmânia, é uma vinheta clássica sobre a situação estruturalmente inviável do colonizador branco. Mais leves, quase entradas num “blog”, são as anotações de  Janet Flanner sobre Paris na década de 20, em “Paris era Ontem” (editora José Olympio). O mundo carioca de João do Rio e a Berlim de Joseph Roth (quase um roteiro de documentário de cinema mudo, na coletânea da Companhia das Letras), reforçaram para mim esse prazer da reportagem, que a revista Piauí também começou a proporcionar, nos últimos meses, para o leitor brasileiro.

 

Há um certo fetichismo dos jornalistas a respeito da “reportagem longa”, e muitas tentativas de fazê-la terminam em chatice, porque determinado acontecimento nem sempre tem a importância necessária para justificar todo o detalhismo que o repórter achou interessante exibir. “Piauí” faz reportagens mais longas, mas não exagera na dose. O melhor da revista são os pequenos textos não-assinados que abrem cada edição. Tratam de personagens curiosos, com certo pormenor, mas não perdem o senso das proporções. Depois de ver o filme “Capote” tive muita vontade de ler “A Sangue Frio”, que é evidentemente um grande livro, mas o fato é que, depois de umas cinqüenta páginas, comecei a me perguntar se valia a pena conhecer aquele assassinato com tanta profundidade. O relato de várias eleições americanas, escrito por Norman Mailer nas 450 páginas de O Super-Homem Vai ao Supermercado também resulta longo demais, cheio de intrusões narcisistas do autor, embora cintilante quando se dedica a retratar alguns personagens (Jackie Kennedy, Johnson, Nixon).

 

Michael Finkel, em “A História Verdadeira” (Planeta) tenta igualmente penetrar na mente de um assassino, mas me prendeu muito mais o interesse do que o livro de Truman Capote ao alternar a história de um crime com a própria história de sua carreira de repórter, manchada por uma fraude que ele confessa do modo mais sincero e empolgante. Seria um dos grandes livros de 2006, se não tivesse sido publicado em 2005. Mas, como eu disse, isto não é uma lista dos “melhores de 2006”.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h40

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Réveillon da Coca-Cola

Não é o Lula

 

 

Não tenho o menor gosto por festas de Réveillon, de modo que, mais uma vez, para mim é fácil criticar. Mas se eu fosse ministro, governador, deputado ou coisa parecida, pensaria muito antes de passar o fim de ano numa festa promovida pela Coca-Cola. Não por ser a Coca-Cola; podia ser a Citrosuco, o Banco Itaú, a Monsanto... Mas parece que ninguém ligou muito para o problema, e o Réveillon foi numa boa. O ministro do Planejamento, atendendo a uma solicitação da empresa, vestiu vermelho na festa: “Pediram que usássemos branco ou vermelho. Como não tinha branco, vesti vermelho. A simbologia aí não é comunista, socialista. É Coca-Cola mesmo”.

 

Isso é que é.

 

Quando se diz que o poder corrompe, isso não quer dizer necessariamente que os governantes estejam pegando dinheiro de impostos e enfiando no bolso. Estar no poder é ser convidado para um festa em que outras pessoas importantes estão; circular entre pessoas dotadas de forte capacidade de pressão e com argumentos na ponta da língua para defender seus interesses, às quais cumpre, sem esforço, simplesmente ouvir, relacionar-se... A Coca-Cola tem uma mansão no Lago Norte, um escritório regional, onde há lugar para festas e, imagino, qualquer outro evento de relações públicas. Grandes faculdades particulares, empresas de todo tipo, também têm. Ninguém está se corrompendo. Está só vivendo o cotidiano do poder. De vez em quando interrompido pelos chatos de sempre: uns ecologistas, uns caras pedindo verbas para pesquisa nas universidades, umas associações de aposentados... que não têm nada a oferecer. Nem mesmo ajudam no financiamento de campanhas. 

Escrito por Marcelo Coelho às 09h18

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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