Reclamamos com muita razão dos vestibulares brasileiros. Mas aqui vai uma série de questões feitas a candidatos a entrar em Oxford e Cambridge no ano passado. Pelo que entendi, trata-se de um exame oral.
Por que não temos apenas uma orelha no meio do rosto?
Você é seu corpo?
O que é uma árvore?
Que porcentagem da água do mundo está contida no corpo de uma vaca?
A Revolução Francesa terminou?
Se você tivesse de enviar três coisas para um grupo de pessoas de uma tribo isolada que pudesse imediatamente lhes dar uma idéia do que significa ser “francês”, o que você escolheria?
Se você fosse um rato, o que seria a coisa mais importante para você?
Se você tivesse uma varinha mágica e pudesse erradicar todos os problemas do terceiro mundo, embora isso causasse o fim de toda pesquisa médica, você faria isso?
Se houvesse três lindas mulheres nuas à sua frente, qual você escolheria?
Como você projetaria um cérebro mais aperfeiçoado?
Uma lista mais completa pode ser encontrada na revista Harper’s de dezembro de 2006 (http://www.harpers.org)
Escrito por Marcelo Coelho às 15h32
Mário de Andrade, crítico de arte
Na "Ilustrada" de hoje, escrevo sobre o livro "Pintura Não é Só Beleza", de Tadeu Chiarelli. A tese principal do livro é mostrar que, longe de ser um vanguardista radical em termos de suas preferências artísticas, Mário de Andrade estava comprometido com a defesa de um "realismo" pictórico que não o distanciava tanto assim, afinal, de Monteiro Lobato --sobre cuja crítica de arte, tida por reacionária, Chiarelli já escreveu outro livro, "Um Jeca nos Vernissages". Assinantes podem ler a resenha do livro em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2701200719.htm
Escrito por Marcelo Coelho às 13h55
Café Expresso Blackbird
Os poemas da curitibana Greta Benitez têm um pouco daquela rapidez comunicativa que torna tão certeiros alguns dos achados de Paulo Leminski. Curiosamente, seus versos “dão certo” de um jeito muito próximo ao da poesia de humor, do “light verse” em inglês –ao mesmo tempo em que refletem uma gama de sentimentos que vai do levemente melancólico ao quase desesperado. Esse jogo entre graça e desgraça talvez ainda não esteja suficientemente resolvido em “Café Expresso Blackbird”, seu segundo livro de poemas, publicado na Coleção Alguidar da Editora Landy.
Ao lado de algumas evidentes infelicidades de expressão (“uma música gagueja/ disco riscado”, por exemplo) e de alguns momentos enjoativos (“Mosaico celestial/ uma moça de vestido floral/ Loucos odores correndo pelo jardim/ Glicínias dizem sim para mim” etc.), há poemas que acertam deliciosamente o tom.
DEUSA DE PAPEL
A moça do outdoor indaga,
estraga o meu dia
sempre quando saio de casa.
Com seu sorriso ela me arrasa
querendo saber o que eu faço da vida.
Mas eu digo:
“OK, Deusa de Papel, cruel
vamos ser felizes, querida.
Eu aqui e você aí em cima, enorme
sem nome, sem vida.”
Ou:
Estou pronta pra tudo que você imagina
Deixei minha inocência
Na pior esquina
E ainda:
(...) Às quatro da manhã
a garota já está com sono
e permite ser dominada pelos seus olhos
fechados
e dorme
impune
sentindo o perfume de pêssegos e neblinas
que vem de dentro das meninas
Para terminar:
Ninguém é mesmo uma ilha
se até Billie Holiday
vem me visitar
pelo radinho de pilha
Escrito por Marcelo Coelho às 00h57
lavanderia

Difícil, num cartaz de rua, ilustrar os serviços de uma lavanderia. Toalhas enroladas? O cartazista teve bom gosto construtivo no uso das cores, para tratar de um tema pouco inspirador.
Escrito por Marcelo Coelho às 18h01

"The Village Blacksmith", gravura da Currier & Ives (http://en.wikipedia.org/wiki/Currier_and_Ives)
Este ano se comemora o bicentenário do poeta americano Henry Wadsworth Longfellow (1807-1882), que, glorioso em vida, passa a posteridade no desprezo e no esquecimento. Sua poesia é romântica e fácil de ler.
Mesmo quando deixam de ser lidos, autores imensamente famosos em vida podem exercer influência oculta sobre as gerações seguintes. Há um poema de Longfellow intitulado “O Ferreiro da Aldeia”, que seria maldade traduzir sem manter a métrica e as rimas. Conto mais ou menos como é.
O ferreiro passa o dia em sua forja, trabalhando com força e fervor. “His brow is wet with honest sweat,/He earns whatever he can,/And looks the whole world in the face,/For he owes not to any man”.
Aos domingos, o ferreiro vai à igreja, ouve o sermão do pastor, ouve a voz de sua filha cantando no coro, e seu coração se rejubila. Essa voz lhe parece a de sua mãe cantando no Paraíso; a lembrança lhe é comovente, e com sua mão rude ele enxuga uma lágrima dos olhos.
É assim, “trabalhando, rejubilando-se, entristecendo”, que ele passa a vida: toda manhã ele começa uma tarefa, e ao fim da tarde ela está terminada; algo foi tentado, algo foi feito, e ele ganhou uma noite de descanso: “Toiling –rejoicing—sorrowing,/Onward through his life he goes;/Each morning sees some task begin,/Each evening sees its close;/Something attempted, something done,/Has earned a night’s repose.”
O poeta termina agradecendo ao ferreiro pela lição que lhe dá –na bigorna sonora desse trabalhador cada coisa que se faz e cada pensamento ardente ganha forma e se tempera.
Talvez seja a lição edificante do poema o que o torna bastante fora de moda. Mas pode ser que os versos de Longfellow estejam presentes, como memória oculta, num poema bem mais moderno, de Manuel Bandeira. Chama-se “O Martelo”:
As rodas rangem na curva dos trilhos
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu naufrágio
Os elementos mais cotidianos.
O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei.
Dentro da noite
No cerne duro da noite
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de pomba.
Sei que amanhã quando acordar
Ouvirei o martelo do ferreiro
Bater corajoso o seu cântico de certezas.
Escrito por Marcelo Coelho às 16h59

Érico San Juan recomendou que eu visitasse seu site -- tomo a liberdade de reproduzir sua charge sobre o aniversário de São Paulo. O site dele, que não é só de charges, mas tem também bonitas ilustrações para livros infantis (bem mais bonitas que as charges, a meu ver), está no link www.ericosanjuan.zip.net
Escrito por Marcelo Coelho às 10h12
Por enquanto, são poucas. Mas espero que a iniciativa de um grupo de cidadãos pauilistanos, homenageando as vítimas da tragédia, tenha receptividade. Aqui vai uma foto do lugar.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h29
crianças e linguagem
Num post anterior, escrevi o quanto de concordância e submissão deve exigir de uma criança de dois anos o simples esforço de adquirir a linguagem dos pais. Perguntaram-me se havia algum livro sobre o assunto. Não li, mas acaba de ser publicado pela editora inglesa Continuum o quarto volume das obras completas do linguista M. A. K. Halliday, com o título "The Language of Early Childhood". O autor pesquisou o processo de aquisição de linguagem de seu filho Nigel, "whose vocalizations were chronicled with relentless patience, virtually from the moment of birth", diz a resenha do Times Literary Supplement. Há até um CD incluído com os balbucios do menino. O esforço de Halliday, prossegue a resenha, é comprovar com exemplos da fala infantil as teorias de J. R. Firth, que acreditava na distinção entre "unidades fonemáticas" e "prosódias". Estas seriam unidades mais amplas de linguagem, superiores às meras seqüências de vogais e consoantes, envolvendo diferenças de ênfase, altura e intensidade dos sons emitidos pela pessoa. De modo que mesmo nas cantorias infantis, segundo Halliday, haveria "atos de significação" prévios ao domínio que possa adquirir sobre os componentes mínimos da linguagem humana. No dizer do resenhista Roy Harris, essa teoria faz surgirem "huge theoretical problems". Deixemos a questão nesse pé.
Escrito por Marcelo Coelho às 16h39
Amigos meus, sensibilizados com a tragédia na estação do metrô, farão hoje uma homenagem às vítimas. Transcrevo o e-mail que recebi.
Hoje, 3a. feira, às 14:00hs, haverá um pequeno ato simbólico de homenagem às vítimas da linha 4 do Metrô. Será na pracinha ao final da Rua Capri, do lado da Editora Abril.
Levaremos duas faixas e flores.
Quanto mais gente estiver lá, melhor, para garantir que a prefeitura não arranque as faixas.
Quem não puder ir hoje, talvez possa passar lá amanhã ou depois, para deixar flores...
É um pequeno ato reparador, que nos fará bem.
Escrito por Marcelo Coelho às 10h08

Definitivamente, estamos vivendo um tempo de injustiças cósmicas. Primeiro fizeram aquela maldade com Plutão. Agora, é o cometa McNaught que está recebendo muito menos atenção do que merece. A volta do cometa de Halley, em 1986, despertou misticismo, expedições turísticas a lugares ermos, adesivos e camisetas. Tudo terminou em grande fracasso; sua aparição anterior, em 1910, fascinara Murilo Mendes e Mario Quintana. Em 1986, foi uma humilhante lição para as crenças "new age" em vigor na época.
Minha decepção com os cometas é mais antiga: em 1972 ou 1973, não lembro bem, houve enorme expectativa com o cometa Kohoutek, que se dizia várias vezes mais brilhante que o Halley. Imaginava um facho imenso de luz cortando a noite; nada aconteceu, e os fotolitos da época registraram, mal e mal, um pontinho perdido na primeira página dos jornais.
Surge então esse McNaught, que não pudemos ver por causa do céu nublado, mas que em fotos vale bem uma cena da Ciccarelli tomando banho nua no mar. E ninguém deu bola para o McNaught. Ele se retira, ofendido: só voltará dentro de cem mil anos. Não se despreza um cometa impunemente.
Leia entrevista com o astrônomo que deu nome ao cometa em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2001200701.htm (para assinantes do uol)
Escrito por Marcelo Coelho às 00h05
Ver mensagens anteriores