Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

mais fraudes

Por falar em fraudes, todo mundo já deve ter recebido aqueles e-mails em inglês, onde alguém se dizendo advogado na Nigéria afirma existir uma herança em nosso nome, ou uma extraordinária oportunidade de negócios com ações ou minas de ouro. Sempre achei que seria mínimo o número de pessoas capazes de cair nesse tipo de vigarice, mas a revista Harper's de fevereiro indica que, só na Grã Bretanha, internautas gastaram 661 milhões de dólares com essa brincadeira. Será que entendi mal o inglês? Eis o texto, baseado em relatório do Office of Fair Trading, de Londres:

amount that Britons paid to "nigerian-style" e-mail and letter scams last year: $661,500,000

Foram-se os tempos em que a Inglaterra era acusada de ser a "pérfida Albion", em especial por seus desmandos nas antigas colônias. É a vingança da Nigéria, agora...

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h30

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Joyce Hatto, a fraude

Joyce Hatto, a fraude

 

O viúvo da pianista britânica Joyce Hatto terminou confessando: produzira falsos CDs, misturando gravações de outros pianistas, acelerando um pouco os tempos, modificando às vezes os próprios canais de gravação, de modo a "criar" artificialmente uma intérprete capaz de fabuloso desempenho técnico, refinada musicalidade e repertório gigantesco. Foram lançados mais de 100 CDs de Joyce Hatto, tornando-a "a maior pianista de quem nunca ninguém tinha ouvido falar", como disse um crítico do Boston Globe.

Joyce Hatto, a pianista real, tinha interrompido sua carreira na década de 70, por estar doente de câncer. Seu marido conta que, com ela doente, ainda tentavam gravar novas peças, mas os seus gemidos de dor terminavam interferindo na gravação. Começou substituindo algumas partes do CD, onde esses gemidos eram audíveis, por trechos tocados por outros pianistas. A técnica foi evoluindo até configurar-se na maior fraude fonográfica da história da música clássica.

Os críticos que elogiaram os discos de Joyce Hatto agora são acusados de não terem percebido a fraude. Diversas interpretações revelaram-se, depois de análise em computador, idênticas às de gravações de outros pianistas, alguns célebres como Marc André Hamelin e Vladimir Ashkenazy. As desconfianças com relação à fraude vieram, entretanto, dos próprios críticos e ouvintes, que levaram à comparação digital entre os CDs supostamente feitos por Hatto e os de outros pianistas. Sem dúvida, a desconfiança nasceu principalmente do estado de saúde da pianista. Mas é difícil esperar que um crítico se lembrasse de todas as interpretações de um estudo transcendental de Liszt, em especial a de um pianista menos conhecido, e identificasse imediatamente essa gravação com a atribuída a Hatto. Sem contar que houve uma série de truques acústicos para disfarçar a fraude. Um crítico não é um computador. Não foram os seus critérios de julgamento que entraram em colapso, mas sim sua memória auditiva.

Continuo confiando em colaboradores especializadíssimos, como os da revista Diapason, na França, e os da Gramophone, na Inglaterra. Eles próprios se divertem fazendo "audições cegas", nas quais criticam CDs sem saber quem está tocando. Isso traz, naturalmente, surpresas. Mas confirma muitos julgamentos também.

É claro que o nome, o rosto, de um pianista pode interferir no julgamento de um crítico. Ter nascido num país tropical, por exemplo, pode levar a um artista ser identificado com "arroubos" e "sensualidade"; o fato de um intérprete ser homem ou mulher pode decidir alguma coisa na escolha dos adjetivos empregados pelos críticos. Ainda assim, eles a meu ver entendem terrivelmente do assunto. Lembro-me de um teste feito há anos numa revista de música clássica, em que vários de seus colaboradores tinham de adivinhar quem tocava o quê, numa série de faixas selecionadas entre as coisas mais obscuras e marginais já gravadas por um ser humano. O índice de acertos era enorme. Não custa esperar que se façam mais testes desse tipo. Computadores estão aí para isso mesmo. 

PS em 1/3/2007- Ficaria bem clara a falha dos críticos se eles tivessem considerado "medíocre" a gravação do pianista X e "genial" a de Hatto, que era apenas uma cópia da gravação de X. Mas não tenho informação para saber se isso aconteceu com algum crítico, em algum disco específico.

O material sobre a fraude de Joyce Hatto é extenso na internet. Eis três links interessantes. O primeiro mostra os aspectos técnicos da comparação, o segundo historia mais longamente o caso, e o terceiro noticia a confissão do viúvo. 

http://www.pristineclassical.com/HattoHoax2.html

http://www.charm.rhul.ac.uk/content/contact/hatto_article.html

http://www.gramophone.co.uk/newsMainTemplate.asp?storyID=2765&newssectionID=1

Escrito por Marcelo Coelho às 15h33

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2802200704.htm

As tensões na zona rural precisam diminuir, considera o cronista do "Agora".

Escrito por Marcelo Coelho às 09h48

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Oscar para os clones

No artigo de hoje para a "ilustrada", comento recentes premiações do Oscar. Cada vez mais se enaltecem os atores que imitam perfeitamente personagens históricos reais. Será que não existe nisso uma diminuição da arte interpretativa? Link para assinantes do uol: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2802200725.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 09h45

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de medo em medo

         Com o aquecimento global, alguns ecologistas importantes passaram a defender o uso da energia nuclear como alternativa mais “limpa” às tradicionais termelétricas e hidrelétricas. Sou ainda do tempo em que se dizia o contrário, e me espanto com essa reviravolta.

         Recebi de uma professora da USP (da área de Psicologia, esclareço) um recorte interessante, de um artigo escrito por Carlos Drummond de Andrade em 1980. Ele reproduzia os argumentos de um “Movimento em Defesa da Vida”, que se insurgia contra os investimentos nas usinas nucleares de Angra dos Reis. O movimento, afirma Drummond, tinha a orientação de geneticistas e físicos da USP.

         Seria curioso saber o que os signatários do texto acham dele hoje em dia, e se a questão da segurança nas usinas nucleares melhorou. As preocupações expressas por Drummond são anteriores, vale sublinhar, ao acidente de Chernobil e ao caso do césio em Goiânia. Aqui vão uns trechos do artigo, que resume as idéias do manifesto antinuclear.

 

O estrôncio-90 concentra-se com medonha eficácia nas cadeias alimentares do homem; infiltra-se no solo e na água, com efeitos patogênicos sobre a população. Semelhante à do cálcio, sua estrutura se fixa nos ossos em formação das crianças, assumindo o lugar daquele. Mas continua sendo estrôncio radioativo, produzindo leucemia e câncer. (...)

Entre 1966 e 71, a usina de reprocessamento de Westvalley deixou escapar 45% do total de iodo-129. Isto provocou a 7 km de distância uma radioatividade 10 mil vezes maior do que a normal. E nossas usinas serão do tipo Westvalley.

Tais irradiaçôes rompem o código de reprodução, a programação genética que cada célula possui. Em 1969, pequeno acidente num reator do Colorado causou vazamento de partículas radioativas. Quatro anos depois, o Departamento de Saúde verificou que nas fazendas da região nasciam animais disformes.

O plutônio, raro na natureza, é produzido no reator a partir do urânio. É das substâncias mais cancerígenas que existem. Inalado com o ar, instala-se nos brônquios e pulmões, emitindo raios-alfa para os tecidos vizinhos. Como o ferro, combina-se com as proteínas que transportam esse elemento para o sangue. Param no fígado, nas células que armazenam ferro e nos ossos; leucemia. E cada reator produz por ano cerca de 250 kg de plutônio, com meia-vida de 500 mil anos!

 

Claro, é um texto de 1980, e ignoro sua atualidade científica. Mas assim vamos indo, de alerta em alerta, de medo em medo.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h12

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2702200703.htm

Resolver o problema da dor nas costas pode ser uma questão de fé. O colunista do "Agora" examina a questão (para assinantes do uol).

Escrito por Marcelo Coelho às 16h51

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negritos

negritos

Não sei por que aparecem em negrito alguns dos versos citados nos posts anteriores. São azares da informática, não destaque negativo.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h11

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anti-antologia poética (4)

anti-antologia poética (4)

Na mesma linha das “palavras poéticas” (“cartografia”, “veredas”, etc., que citei no post anterior), vale lembrar “território”, como neste exemplo, tirado de Poesia Sempre, revista da Biblioteca Nacional, 2005:

 

Percorrer o território da paixão

na ausência mansa de palavras

(quando apenas os olhos se falam).

 

 

Há também os falsos indicadores de “revolta” poética: “delírio”, “insânia”, “insubmisso”, e sua contrapartida de “esperanças”, “assombros”, “iluminações”, “centelhas”:

 

Que não se extermine

no homem a réstia

de lume adiante.

Isso o faz morto ou bicho.

Germina a flor da vingança.

(...)

Menino,

teu sonho é de pólvora.

 

Centelha

que se espalha.

 

Por vezes, as coisas não dão certo, e

 

um ferrão subjuga a aurora.

 

Que tal tentar uma “liturgia”?

 

uma alucinação insípida naquela linguagem. a mais pura liturgia ante o surto.

 

Mais intensa, talvez, esta solução:

 

O amor editou suas garras

em meu delírio

(...)

De algum rugir indomável

(submerso como o pulsar

das pedras) sinto

 

o vórtice

do seu brilho

     na jugular.

 

Citei trechos de quatro poetas diferentes, na mesma revista. Não é minha intenção criticá-los individualmente, mas registrar um certo padrão.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h05

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anti-antologia poética (3)

anti-antologia poética (3)

         Antigamente, os poetas procuravam palavras complicadas e sonoras para fazer versos meio tolos e ocos. Com o modernismo, e em especial Manuel Bandeira, tem-se a impressão de que o máximo de poesia é atingido com um mínimo de recursos –o que não quer dizer necessariamente “concisão”, se entendermos “concisão” como uma espécie de compressão, espremeção de significados em poucas linhas. Ao contrário, nada mais arejado e claro do que um poema de Manuel Bandeira. Não é difícil entender o significado de cada verso de Bandeira. A exigência que ele faz ao leitor é de outra ordem: trata-se de entender, ali, onde está o poético; e o poético, em Bandeira, não depende necessariamente das “palavras poéticas”, dos apelos vocabulares ao sublime e ao infinito.

         Acho que muitos poetas, atualmente, consideram “conciso” o poema empedrado, meio complicado, em que palavras simples foram substituídas por “palavras poéticas”, só que não mais segundo o gosto parnasiano (“alva”, “ebúrnea”, “alabastrina”, coisas do gênero) mas sim segundo um (mau) gosto abstratizante, próximo do filosofês.

         Um exemplo, tirado ainda da revista “Poesia Sempre”, janeiro-março de 2006:

 

nosso coração é mais imenso

do que infindos universos

onde amor e sonho incomensuram.

 

“Esculpir” é um verbo que esse tipo de poesia acaba sempre usando. “Tecer” também:

 

Fiapos áureos

         são tecidos pelas horas

         e o tempo com seu olhar fosforescente

         esculpe teu rosto terno.

 

Claro que é sempre necessário falar do tempo, ou melhor, do Tempo.  Em geral, vale juntar com outros substantivos aparentemente precisos, mas na verdade abstratos: “cartografia”, “veredas”, “traçados”... Termos assim são facilmente intercambiáveis, produzindo “iluminações poéticas” de monte: “cartografia da memória”, “veredas do tempo”, “traçados do infinito”, “veredas do desejo”, etc. 

Escrito por Marcelo Coelho às 09h09

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Anti-antologia poética (2)

Anti-antologia poética (2)

Prossigo citando trechos de uma revista de poesia contemporânea brasileira, que podem valer como “anti-antologia” do que se faz hoje em matéria de “rigor” e “dicção elevada” . Na página 94, um poeta fala da cidade de

 

...Caruaru,

Tingindo-se de tempo, driblando memórias

 

É o “poético” convencional que predomina atualmente. Na página seguinte, um poeta (na tradição exausta da metalinguagem) deseja um

 

poema

que do silêncio tire versos

 

das entrelinhas,

cânticos

 

do espaço em branco

 

e que, no final,

 

...faça vibrar os tímpanos da alma.

 

É aspiração por demais sublime, dir-se-ia. Na mesma chave, na página 97, quer-se um discurso graças ao qual

 

casca       superfície     epiderme

polpa apodrecida pelo tempo

se despedem

e

vinga a dureza inviolável

do caroço.

 

Caso, entre vários, da (má) influência de João Cabral: elogio abstrato, e em última análise parnasiano, das essencialidades imutáveis, traduzido em metáfora concreta (e banal) do “caroço”. Em João Cabral de Melo Neto isso era um compromisso, um programa, e um “motor” para a poesia. Aqui, é aspiração imitativa.

 

E a “adjetivação poética”? Valeria um capítulo à parte. A idéia, naturalmente, é causar surpresa juntando um substantivo concreto a um adjetivo “psicológico”, “mental”, mas o resultado é gasto, meio absurdo, meio pomposo, quando não puro clichê:

 

pedaços lícitos de pão

insana riqueza

tentáculos ávidos

frenéticas mãos

 

Ou então é o pomposo puro e simples, na página 102

 

...o ido/sulco que o caminho da nau perfaz.

 

Ou:

 

Que idéia-horizonte me guia o leme

só o sabe o desígnio do instante (...)

Escrito por Marcelo Coelho às 00h46

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Anti-antologia poética

Anti-antologia poética

De uma ótima revista de poesia, editada pela Biblioteca Nacional (Poesia Sempre, ano 13, número 22) seleciono alguns versos e trechos a meu ver bem ruins, mas ilustrativos de um padrão médio atualmente em voga na poesia brasileira. Depois da liberdade modernista, ganharam prestígio as exigências de concisão e de “rigor”. Escrevi certa vez que há mais “rigor” na poesia brasileira contemporânea do que em todo o IML. Evidentemente, ninguém mais escreve do jeito parnasiano, com rimas preciosas e vocabulário clássico. Mas há um pedantismo “elevado” , um tom sério e “rigoroso”, capaz de muita coisa feia, sendo praticado por aí. Cito alguns exemplos, sem dar o nome dos autores, que em geral são pouco conhecidos.

         Na página 83, um poema começa assim:

 

Sereno já me agasalho

No casulo do meu ócio

Com a veste leve da espera

Cobrindo todo o meu corpo

     Os ponteiros já me apontam

--Setas cediças ao vento—

Minutos intumescidos

Na febre lenta das horas

Antes tão despudorada

     Acesa em fogo de instantes

Durando enquanto durassem

Os momentos mais afáveis.

 

Eis um exemplo de “rigor”, com efeito. Há a intencional repetição de palavras cognatas (ponteiros/apontam), que ecoa em “durando enquanto durassem”. Há a alusão sexual a uma “espera” com “ponteiros” que parecem apontar “minutos intumescidos”. Mas a obscuridade poética não disfarça o que há de mau gosto, simplesmente, no poema: “casulo do meu ócio” é uma imagem feia –não tenho outro termo para qualificá-la; e há um quase-clichê na sonoridade de “febre lenta das horas”. Mais adiante, no poema, fala-se de um “canto insulado”. Não é propriamente o gosto parnasiano pela “palavra difícil”; é outra coisa, o culto contemporâneo da “palavra poética”, o que se revela aqui.  

Escrito por Marcelo Coelho às 00h44

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música clássica

música clássica

http://www.falardemusica.blogspot.com/

O colega João Luiz Sampaio, do "Estado", tem um blog sobre música clássica que vale a pena visitar sempre.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h08

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2402200704.htm

Para um estrangeiro, é sempre difícil apender as sutilezas rítmicas de nossa música popular. Acompanhe a história do americano Norton na coluna de hoje do "Agora" (para assinantes do uol).

Escrito por Marcelo Coelho às 08h29

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Varèse e Henry Miller

Varèse e Henry Miller

Insisto na leitura de Pesadelo Refrigerado, de Henry Miller. É que além das investidas retóricas contra “a América”, este seu relato de viagens pelos Estados Unidos traz alguns perfis de pessoas excêntricas e de visionários que ele encontra ao longo do caminho.

Um dos visionários é o compositor de vanguarda Edgard Varèse, autor de alguns marcos da música sinfônica do século 20, e que apesar da passagem dos anos continua bem pouco conhecido. Tenho –e não ouço há anos— um velho LP com algumas de suas obras mais famosas, Ionisations, Densidade 21,5, Hiperprismas... E mesmo para quem está acostumado a Schoenberg, Lutoslawski ou Penderecki, a barulheira e a estranheza são de assustar. Claro que estou falando dos meus limites: o ouvinte que se der bem com  Berio, Boulez e Stockhausen pode encarar Varèse sem problemas.

Observo que talvez sua música seja inapropriada para se ouvir em disco; o gigantesco aparato percussivo, incluindo sirenes e outras traquitandas futuristas, depende da acústica de uma sala de concerto. O que não é muito futurista, aliás, mas não importa.

Fiquei curioso, em todo caso, para ler o que Henry Miller escreveu sobre Varèse.

Mas ainda aqui, como em outros capítulos de Pesadelo Refrigerado, o sermão ideológico predomina sobre qualquer apreciação estética real. Estamos, provavelmente, diante de um daqueles casos em que o sujeito aprova, a priori, tudo o que seja de “vanguarda”, embora talvez não entenda direito a linguagem do artista a quem elogia. Sabe que tem de elogiar, e pronto.

         Tom Wolfe ironizou, no livro Radical Chique, os intelectuais ultra-refinados que flertavam com a esquerda extremista na Nova York dos anos 60 e 70. O maestro Leonard Bernstein se confraternizava com os Panteras Negras em festas nababescas. Talvez exista um outro tipo de “radical chique”, com os sinais trocados. É o sujeito que se insurge “contra o sistema”, que busca uma vida boêmia e alternativa, e que em conseqüência disso adota posturas estéticas extremistas, que a rigor combinam pouco com sua proposta política. O mundo pré-beatnik, aventureiro, boêmio, prefigurado por Henry Miller tinha mais a ver com baladas ao pé do fogo, com flautas doces, ou, se quisermos, com o rock e o bebop, do que com música atonal.

         Lendo Henry Miller sobre Varèse, vemos que os elogios são vagos, e o que a mensagem subjacente é a mesma do resto do livro.

 

         Quanto a Varèse, honestamente acredito que, se lhe dessem espaço, ele seria não apenas censurado, mas apedrejado. Por quê? Pela simples razão de que sua música é diferente. Esteticamente, somos talvez o povo mais conservador do mundo. Precisamos estar completamente bêbados para aceitar alguma coisa. Nossa educação é tão absoluta –e tediosa—que somos incapazes de gostar de alguma coisa nova, enquanto não nos explicarem do que se trata.

         (...) E assim o futuro, que é sempre iminente, acaba absorvido e frustrado, jogado para escanteio, sufocado, mutilado, às vezes aniquilado, criando a ilusão familiar de um mundo einsteiniano que não é carne nem peixe, um mundo de curvas finitas que levam ao túmulo ou ao asilo de pobres, ou ao hospício, ou ao campo de concentração, ou às cálidas e protetoras dobras do Partido Democrata-Republicano. E assim surgem loucos que tentam restaurar a lei e a ordem com o machado. Quando milhões de vidas se perderem, quando finalmente chegarmos a elas e as exterminarmos a machadadas, poderemos respirar com um pouco mais de conforto em nossas celas acolchoadas.

 

Muito radical, sem dúvida; mais brega do que chique, entretanto, e Varèse se perde nessa vaporização apocalíptica de clichês.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h52

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De Miller a Steinbeck

De Miller a Steinbeck

Vale a pena comparar Pesadelo Refrigerado, de Henry Miller, com outro livro de ensaios sobre os Estados Unidos, publicado há dois anos pela editora Record, na excelente tradução de Maria Beatriz Medina. Trata-se de A América e os Americanos, de John Steinbeck.

 

Sem dúvida, é um autor mais otimista, e profundamente apaixonado pelo próprio país. Marcado pelo esquerdismo na década de 30, terminou simpático à Guerra do Vietnã, sem deixar de se mostrar engajado na luta pelos direitos dos negros. Seja qual for o seu grau de “americanismo”, o leitor não tem como não se fascinar pela precisão narrativa de Steinbeck, seu senso da anedota significativa, sua humanidade e falta de retórica na reminiscência pessoal.

 

Enquanto Henry Miller bufa e sufoca ao ver Nova York, depois de dez anos na França, Steinbeck lembra como foi sua chegada à cidade, em 1925, com três dólares no bolso. Um cunhado lhe empresta dinheiro para passar a noite num hotel, e lhe arranja um emprego para o dia seguinte. Steinbeck, com dezenove anos na época, trabalhará carregando cimento na obra de construção do Madison Square Garden. Seus companheiros de trabalho eram negros na maioria:

 

não pareciam nem grandes nem fortes, mas empurravam aqueles carrinhos de mão de 150 libras como se fossem de algodão. Conversavam enquanto isso e cantavam enquanto isso. Nunca pareciam cansados. Eram dez, quinze e às vezes dezoito horas por dia. Não havia domingos. Havia hora extra, hora extra dobrada, dois dólares por hora. Se alguém escapulisse da fila, havia cinqüenta homens esperando para tomar o seu lugar.

 

(...) Lembro-me de um homem que despencou de um andaime alto perto do teto, e caiu a pouco mais de um metro de mim. Estava vermelho quando bateu no chão e aí o sangue do seu rosto arredou-se como uma cortina e ele ficou azul e branco sob as lâmpadas de trabalho.

 

São poucas linhas, que revelam bem mais do que o muito que Henry Miller escreve sobre os Estados Unidos num tom monocórdio, como a seguir.

 

Este mundo que está se construindo me enche de horror. Eu o vi germinar; posso vê-lo como um projeto. Não é um mundo em que eu queira viver. É um mundo adequado a monomaníacos obcecados com a idéia de progresso –mas um falso progresso, um progresso que fede. É um mundo coalhado de objetos inúteis que homens e mulheres, a fim de ser explorados e degradados, aprendem a ver como úteis (...) Neste mundo, o poeta é anátema, o pensador, um tolo, o artista é um escapista, o homem de visão, um criminoso.

 

Pode servir como discurso, mas é mais tedioso que qualquer paisagem industrial americana.   

Escrito por Marcelo Coelho às 11h50

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Henry Miller (2)

 

Pittsburgh, Pensilvânia: o horror?

(foto do site http://members.virtualtourist.com/m/a5262/d2254/)       

 

 

    A viagem de Henry Miller pelos Estados Unidos, narrada em Pesadelo Refrigerado (ed. Francis) parece um exercício retórico em torno de um horror invariável. Eis o autor em Pittsburgh:

 

         O espírito do lugar, o espírito dos homens que fizeram desta cidade o horror que ela é, penetra pelas paredes. Existe assassinato no ar. Tudo me sufoca.

 

De Pittsburgh ele vai para Youngstown, “atravessando um inferno que vai além de qualquer coisa imaginada por Dante”. Nunca fui de Pittsburgh para Youngstown, mas será que Henry Miller leu Dante?

        

A banalidade da comparação feita por Henry Miller só é menor do que a banalidade de Henry Miller quando ele não faz comparação nenhuma:

 

         Um homem sentado em uma poltrona confortável em Nova York, Chicago ou São Francisco, um homem cercado de todo luxo e no entanto paralisado pelo medo e pela ansiedade, controla a vida e os destinos de milhares de homens e mulheres que nunca viu, que nunca deseja ver e por cujo destino tem absoluto desinteresse.

 

Não é preciso atravessar os Estados Unidos de carro para escrever frases desse tipo. Não acredito que em 1939 essas idéias fossem menos triviais do que são hoje. Talvez o que tenha existido de novo, nesse tipo de “reportagem”, seja o que prefigura do “estilo gonzo” de jornalismo, celebrizado no final da década de 60 por Hunter Thompson. O tema da reportagem, a “missão jornalística” confiada ao escritor é mero pretexto para uma verborragia intoxicada, que tem resultados divertidos e românticos em A Grande Caçada aos Tubarões (editora Conrad).

 

Naturalmente, a crítica de Henry Miller ao “american way of life”, seu horror à sociedade de consumo, sua mistura de budismo, anarquismo e defesa da liberdade sexual, inspiraria os “beatniks” dos anos 50. Mas é uma pena que seu olhar não tenha um foco mais preciso, uma atenção mais autêntica para os detalhes, para a particularidade da experiência. Sem isso, não há jornalismo, nem literatura, que resistam.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h02

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Henry Miller e a América

Henry Miller e a América

Henry Miller, sem ar condicionado. Peguei a foto de um blog bem interessante, o "Liqüidifcador". (http://alancichela.wordpress.com/)

Pesadelo Refrigerado é o excelente título de uma coletânea de textos de Henry Miller sobre os Estados Unidos, que foi publicada agora pela editora Francis. Em 1939, depois de quase dez anos em Paris (onde escreveu Trópico de Câncer e Trópico de Capricórnio, Miller voltou aos Estados Unidos e, sem um tostão, resolveu percorrer seu país de carro, de ponta a ponta; a idéia era escrever um livro, com ilustrações de seu amigo, o aquarelista Abe Rattner, que o acompanharia na viagem. A idéia foi aceita por um editor novaiorquino, e o resultado está agora em mãos do leitor brasileiro.

Estou quase na página 100, e minha sensação é de uma enorme perda de tempo. Henry Miller não se importa a mínima em retratar os lugares que visita, os quais simplesmente detesta por igual. Seu texto se constitui de longos discursos contra os Estados Unidos, com muita coisa verdadeira, é claro, mas sempre num grau de generalidade –de banalidade mesmo—simplesmente exasperante. Alguns exemplos.

 

Um novo mundo não se faz simplesmente tentando esquecer o antigo. Um novo mundo se faz com um novo espírito, com novos valores.

 

Para conhecer a paz, o homem tem de experimentar o conflito. Tem de atravessar o estágio heróico antes de agir como sábio. Tem de ser vítima de suas paixões antes de se elevar acima delas. Para despertar a natureza apaixonada do homem, para entregá-lo ao diabo e expô-lo ao teste supremo, é preciso haver um conflito que envolva algo mais do que país, princípios políticos, ideologias etc. O homem em revolta contra a sua nauseabunda natureza –essa é a verdadeira guerra.

 

Isso estava sendo escrito enquanto Hitler invadia a Polônia, a Tchecoslováquia, a Bélgica e a França. Henry Miller, impregnado das idéias do guru indiano Swami Vivekanaanda, que lhe foram transmitidas através de um livro do pacifista Romain Rolland (pacifista durante a Primeira Guerra), não parece se importar muito com o nazismo:

 

não vejo razão para perder meu equilíbrio porque um homem chamado Hitler tem um ataque. Hitler vai morrer, como morreram Napoleão, Tamerlão, Alexandre e outros.

 

Sem dúvida, ele não sabia que antes de morrer Hitler mataria seis milhões de judeus nas câmaras de gás. Destruir Hitler?

 

os que acreditam que o único jeito de eliminar essas personificações do mal é destruí-las, que as destruam. Destrua tudo o que está à vista, se você acha que esse é o jeito de se livrar dos problemas. Eu não acredito nesse tipo de destruição. Acredito apenas na destruição que é natural, incidental e inerente à criação.

 

Hitler, certamente, tinha outras idéias a respeito de destruição.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h51

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voltaire de souza

Hoje também está indisponível o link para a coluna do "Agora". Reproduzo-a aqui.

O CALOR E A LÂMPADA

 

Os cientistas avisam. Aquecimento global. Morte do planeta.

O sr. Everardo resolveu tomar providências.

Chegou do supermercado carregando caixas de papelão.

--Lâmpadas novas. Ecológicas.

A família ouvia em silêncio.

--Nossas emissões de carbono vão ficar insignificantes.

Os filhos e netos davam um sorriso de ceticismo. O sr. Everardo percebeu.

--O que foi? Não acreditam? Bando de irresponsáveis.

As faces magras de Everardo atingiam tons de púrpura. A pressão subia.

Estava na hora do calmante. Um sono suave seguiu-se ao arroubo ecológico.

Na mente do sr. Everardo, surgiram minaretes. Tamareiras. Odaliscas.

Um jovem moreno apareceu em sua visão. Mostrando uma lâmpada especial.

--Aladim? É você? Posso esfregar?

Quando Everardo acordou, o ambiente já era outro.

Na UTI do Sírio Libanês, ele tentava esfregar parte da anatomia do enfermeiro Arismar.

Que tenta evitar como pode as conseqüências do aquecimento global.

Na alma de um homem, há desertos, calores, oásis e miragens maiores que o Saara

Escrito por Marcelo Coelho às 13h11

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Argerich, Rudge, Ravel

Argerich, Rudge, Ravel

Ainda sobre os "Jeux d´Eau", de Ravel, aqui está o link que um leitor indicou de Martha Argerich tocando a peça de Ravel: http://www.youtube.com/watch?v=lWeAbgA5tS4

Ela está linda e juvenil nesse filme, e toca com uma facilidade impressionante. Tudo é claro, cristalino. Há alguns esbarrõezinhos aqui e ali? Acho que sim. O principal é que ela apresenta uma visão muito em detalhe da obra, como se iluminada o tempo todo pelos raios do sol da manhã.

Um amigo me indicou a gravação de Antonietta Rudge, disponível num CD da série "Grandes Pianistas Brasileiros". Trata-se de gravação caseira, quando a grande pianista, aluna de Chiafarelli como Guiomar Novaes, já estava idosa, mas é uma interpretação impressionante. O acorde final, tantas vezes brusco em outras interpretações, aqui parece perfeitamente lógico e consonante. Há também um ralllentando mais ou menos perto do fim, em que a água parece aquietar-se, e se turva, sem o excesso de cloro que talvez seja o maior pecado de Argerich. Mas ainda fico com o romantismo quase germânico de Cortot, que inventa rebeliões na mão esquerda em guerra contra a superfície prateada dos agudos.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h32

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um poema de Auden

um poema de Auden

No centenário de W. H. Auden, vale citar um poema seu. Não me comovo muito com seus versos em memória de Yeats, que talvez sejam os mais famosos que ele escreveu. Prefiro "No, Plato, No", que em português resulta num título nada eufônico ("Não, Platão, Não"), mas que foi bem traduzido por João Moura Júnior, na coletânea de poemas de Auden publicada pela Companhia das Letras. Aqui vai.

Não consigo pensar em nada/ que eu desejasse menos ser/ que Espírito desencarnado/ sem poder comer nem beber/e nem contactar superfícies/ ou sentir os cheiros do estio/ ou compreender palavras e música/ ou olhar para o que está além./ Não, Deus me colocou bem lá/ onde eu gostaria de estar:/ bom mesmo é o mundo sublunar,/ no qual o Homem é macho ou fêmea/ e dá Nomes Próprios às coisas.

Posso, porém, conceber que os/ órgãos que Me deu a Natureza/ tais minhas glândulas endócrinas,/ dando duro vinte e quatro horas/ sem mostrar ressentimento,/para satisfazer-me, o Mestre,/e manter-Me sempre em boa forma/ (não que eu lhes tenha dado as ordens,/pois não saberia o que gritar), sonhem com uma outra existência/ que não a que até então conhecem:/sim, talvez minha Carne esteja/ rezando para que "Ele" morra/ e, livre, Ela possa tornar-se/ Matéria irresponsável.

Marx e Freud não estão longe de Auden, quando ele recusa Platão.

  

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h04

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Títulos: piores e melhores

Títulos: piores e melhores

Falei em post anterior de Patrick White, escritor australiano, prêmio Nobel de 1973. Não conheço sua obra, mas há um romance seu cujo título poderia entrar numa lista de “piores do século”: A Mandala Sólida.  

O francês Charles Dantzig lançou em 2005, com grande sucesso, um ambicioso e curiosíssimo Dicionário Egoísta da Literatura Francesa (editora Grasset). Há um verbete sobre títulos de livro que merece citação.  

Dantzig considera fraco, por exemplo, o título da obra-prima de Proust: Em busca do tempo perdido. Valeria mais a pena criticar o de seu primeiro volume, que em português até que é razoável (O Caminho de Swann), mas que na verdade, numa tradução literal, seria bem pouco estimulante: “Do lado da casa de Swann”. Dantzig comenta que, com o tempo, o título de um grande romance se torna “invisível”. 

É, acrescento, um pouco como os estranhos nomes próprios de políticos brasileiros. Juscelino, a rigor, deveria causar incômodo, como Aécio, Epitácio (de Epitácio Pessoa), e outros que tais. 

Há mais comentários nesse livro de Dantzig, que aliás poderia ter como título “Dicionário Pessoal”, “Dicionário Íntimo”, da Literatura Francesa, em vez desse algo cabotino Dictionnaire Égoïste de la Littérature Française. Mas que seja.

 

Ele cita maus escritores que eram ótimos de título, como Maurice Dekobra: Chamas de Veludo; Serenata ao Carrasco; A Pavana dos Venenos. “Poderíamos dizer, afinal, que ele era um escritor de títulos”. Alguns títulos merecem elogios de Dantzig sem que eu consiga entender muito por quê. Os convidados se encontram na villa (novela de Puchkin), Jérôme Paturot em busca de uma posição social (romance de Louis Reybaud, de 1842), e A Verdade sobre o Bebê Donge (de Georges Simenon). Provavelmente, o gosto de Dantzig se inclina para o intrigante, para o específico.

 

Acho especialmente bonitos os títulos de José Lins do Rego: Menino de Engenho, Fogo Morto. Seria Grande Sertão: Veredas um bom título? A favor, os dois pontos, talvez um caso único na literatura brasileira. Horrível, o do primeiro romance de José Cândido de Carvalho: Olha para o Céu, Frederico! O Coronel e o Lobisomem é dos mais eficientes. Nelson Rodrigues funciona ao aliar o apelo comercial com a fidelidade à sua visão de mundo: Asfalto Selvagem, O Beijo no Asfalto, Vestido de Noiva... Raduan Nassar é quase bom, mas força um pouquinho o aspecto “literário” da coisa: Lavoura Arcaica.

Mais fáceis eram os tempos em que se usava apenas o nome do personagem principal. Quincas Borba, Anna Karenina, Eugénie Grandet, Moll Flanders, etc. O abandono desse hábito talvez corresponda ao progressivo distanciamento do narrador. Um título que adotava o nome do protagonista teria, no fundo, a função “realista” de uma legenda debaixo de uma fotografia.  

Pode-se notar, aliás, que entre os românticos valia apenas o primeiro nome do protagonista: Silvie, de Nerval, Lucíola, de José de Alencar, Carmen, de Mérimée, Ivanhoe, de Walter Scott, René, de Chateaubriand. Depois é que vieram os sobrenomes.  

Já o título moderno tende ao comentário, não ao retrato. Mas não se pode esquecer, por exemplo, de Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. Seria uma exceção nos romances do século 20? Tema para uma pesquisa estatística.   

Escrito por Marcelo Coelho às 23h09

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Livros em prisões

Trasncrevo post do blog Verdes Trigos sobre doação de livros.

Como doar livros para a prisão

O Globo - 17/2/2007 - por Mànya Millen
A reportagem do Prosa & Verso do dia 3 deste mês, sobre as salas de leitura nas prisões cariocas, fez com que muitas pessoas ligassem para o jornal perguntando como fazer para doar livros. Os interessados em fazer doações podem ligar para o Instituto Oldemburg, tel. 21-2524-3322. O acervo total nos presídios do estado é de cem mil livros, e o projeto Salas de Leitura, elaborado pelo Instituto Oldemburg com apoio da editora Record, vem sendo implementado nas cadeias desde 2006: já são 15 salas no Rio.

[nota] No interior de São Paulo, o presídio de Presidente Venceslau/SP também necessita de livros para a sua biblioteca. O presídio conta com mais de 750 reeducandos e lá se desenvolvem alguns projetos de projetos de reintegração social, entre eles o ensino fundamental, médio e supletivo. Evidentemente para que o ensino seja aprimorado, faz-se necessário uma biblioteca paraauxilia-los em suas pesquisas escolares, assim como, também lhes proporcionar entretenimento saudável.

Os interessados poderão fazer doações encaminhando livros diretamente à Administração da Penitenciária, no seguinte endereço:

Penitenciária "Maurício Henrique Guimarães Pereira"
Rodovia Raposo Tavares, Km 623 - Bairro Horto Florestal
Presidente Venceslau - São Paulo
Fone: (18) 271-1025 / Fax Ramal 103
e-mail adm@pmhgp.sap.sp.gov.br
--
Posted by Henrique Chagas to verdestrigos at 2/21/2007 09:04:46 PM

Escrito por Marcelo Coelho às 22h58

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Dawkins: outras críticas

Dawkins: outras críticas

Mais polêmicas sobre The God Delusion, defesa veemente do ateísmo pelo biólogo Richard Dawkins. Leio na revista Harper’s de novembro passado um artigo bastante raivoso de Marilynne Robinson, cujas críticas investem em outro flanco.

 

Como Dawkins atribui à religião grande parte dos malefícios do mundo –fanatismo, terrorismo, inquisições diversas--, Marilynne Robinson resolve colocar a ciência no pelourinho, lembrando por exemplo as inúmeras justificações “científicas” para o racismo, de que o século 19 foi pródigo. Ela cita frases terríveis do grande evolucionista e divulgador inglês T. H. Huxley, o Dawkins da era vitoriana. Num ensaio sobre a abolição da escravatura, datado de 1865, T. H. Huxley dizia que “a emancipação dos escravos pode converter um animal bem nutrido num ser humano pauperizado”, e que não havia base “científica” para qualquer sonho de igualdade entre as raças.

 

Bem, T. H. Huxley estava errado, mas isso a meu ver não prova grande coisa contra Dawkins. Nem mesmo o mais histérico cientificista defende a infalibilidade da Ciência, como se fosse uma versão laica da infalibilidade do Papa. Uma diferença básica entre ciência e religião é que a primeira tem necessariamente de corrigir suas conclusões, submetendo-as a testes objetivos, nos quais os dados recolhidos não dependem da vontade do pesquisador, ao passo que é determinante, na religião, o peso da experiência subjetiva (êxtase místico, convicção pessoal, revelação, etc.)

 

Marilynne Robinson avança, entretanto, em mais uma linha de argumentos. Dizem respeito, mais uma vez, à teoria do “Boeing 747” (ver post anterior). Os criacionistas acham que seria impossível que um sistema tão complexo quanto a vida surgisse a partir do mero acaso. Dawkins retruca que, se em vez do acaso tivermos de pressupor um Deus criador do Universo, esse Deus teria de ser mais complexo, necessariamente, do que o Universo que ele criou. Sua existência seria, desse modo, ainda mais improvável do que a de um Universo surgido por acaso.

 

Para a autora do artigo, o raciocínio de Dawkins falha nesse ponto. Pois, na verdade, o biólogo está raciocinando em termos de causa e efeito que são puramente cientificistas. O Deus de muitas religiões, entretanto, preexiste ao Tempo e ao Espaço, ao Antes e ao Depois. Pensar que a Criação do Universo é “causa” de um “efeito” seria colocar a existência de Deus dentro dos parâmetros de um Universo já criado.

 

Marilynne Robinson continua: “Dawkins é incapaz de admitir, nem mesmo hipoteticamente, uma realidade que não está submetida às leis do Tempo, que não obedeça às leis do darwinismo tais como ele as concebe.” Dessa perspectiva, Dawkins é não só incapaz de entender um raciocínio religioso mais sofisticado, como também incapaz de entender teorias científicas como as do Big Bang.

 

De fato, diz ela, num livro anterior Dawkins deu mostras de não se conformar muito com a idéia do Big Bang: “desenvolvimentos dessa teoria, baseados em todas as evidências disponíveis, sugerem que o próprio Tempo começou com essa Mãe de Todos os Cataclismas. Você provavelmente não entende, e eu certamente entendo menos ainda, o que significa dizer que o próprio tempo começou num momento particular. Mas isso é uma limitação de nossas mentes...”

 

Difícil ou não de conceber, argumenta a autora, tanto o Big Bang quanto muitas religiões imaginam uma realidade “fora do Tempo”; e, no mínimo, o Big Bang oferece uma metáfora do tipo de argumento que faz os ataques de Dawkins à “hipótese do Boeing” pouco persuasivos para os teístas.

 

OK, mas uma coisa é dizer que “antes” do Big Bang não existia nada, outra é dizer que alguma coisa existia, e que era Deus. De resto, não é preciso ir tão longe no Tempo e no Espaço. Os criacionistas, que Dawkins critica, é que estariam sendo cientificistas demais ao imaginar Deus como dono de um laboratório primordial. Esse Deus fora do tempo, que Marilynne Robinson invoca, pode muito bem existir, se ela quiser, mas está... fora do tempo, fora do espaço, em nenhum lugar, em nenhuma época. Uma existência dessas, convenhamos, não é lá grande coisa. E se, por alguma mágica de antropomorfismo, quisermos fazer desse Deus absoluto um criador com a mão na massa, os argumentos de Dawkins recuperam toda a sua força de convencimento.   

Escrito por Marcelo Coelho às 19h45

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arte do eufemismo

A imprensa inglesa e a americana cultivam com grande capricho a seção dos obituários, e quando depois do 11 de Setembro o “New York Times” publicou pequenas biografias de todas as vítimas do atentado. O jornal inglês “The Daily Telegraph” deu fama ao grande “obituarista” Hugh Massingberd, entrevistado no livro The Dead Beat –The Perverse Pleasures of Obituaries, publicado recentemente por uma editora que leva o apropriado nome de Souvenir.

 

O “prazer perverso” do obituário está, diz Massingberd, no eufemismo, figura de linguagem em que ele foi mestre. No “TLS” de 2 de fevereiro aparecem alguns exemplos.

 

“Ele não era casado” (“he was unmarried”), que tanto pode significar o simples fato de o falecido ser solteiro, quanto ser sugestivo de sua sexualidade.

 

No obituário de um conhecido adepto inglês do nazifascismo, o jornal publicou: “não tinha notável entusiasmo pelos direitos civis”.

 

Melhor de todos: Fulano era “afável e hospitaleiro a qualquer hora do dia ou da noite”. Tradução: alcoólatra irrecuperável.

 

Nessa linha, é Roberto Campos quem, em seu livro de memórias Lanterna na Popa, mostra ter gosto pela perversidade literária. Mas não é propriamente eufemismo, é o circunlóquio a sua principal arma de ataque. De um político, ele observa que “privou durante décadas de uma grande intimidade com a garrafa”.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h39

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voltaire de souza

Como hoje não está disponível o link para assinantes, publico aqui mesmo a coluna do "Agora" desta quarta-feira.

 

SERIEDADE TEM HORA

 

Corrupção. Desperdício. Bandalheira.

Políticos e administradores nem sempre têm compromisso com o bem comum.

O dr. Cotegipe era uma exceção.

Administrador sério. Responsável. Econômico.

Na pequena cidade de Barranco, todos concordavam.

--Nunca houve um prefeito assim.

Num batizado, ofereciam salgadinho. O dr. Cotegipe se ofendia.

--Estão querendo me corromper? Isso eu não admito.

Chega o Carnaval. Tempo de relaxar.

Durante a noite, vários blocos se reuniam no Largo da Matriz.

Às seis da manhã, forró, frevo e marchinhas ainda dominavam o local.

O dr. Cotegipe apareceu de paletó e gravata. Escoltado pela PM.

--Vagabundos. Seus vagabundos.

Mandou a polícia descer o sarrafo.

O excelente pronto-socorro municipal providenciou curativos e ataduras.

Muitos carnavalescos pensam em protestar. Mas o dr. Cotegipe já avisou.

--Protesto e Carnaval. Duas formas de vagabundagem. É borracha em cima.

Alguns prefeitos, mesmo quando sérios, não têm mais o que fazer.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 19h28

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Mistério das tatuagens

No artigo de hoje para a "Ilustrada", analiso um pouco a moda da tatuagem entre os adolescentes e o seu reflexo, mais fácil de interpretar, na ousadia visual dos quarentões. Um paralelo que não me ocorreu fazer, no artigo, é entre a febre das tatuagens e a das pichações. Haveria em ambos os fenômenos um gosto pela "inscrição", desde que enigmática e ilegível. Pode-se duvidar de que algumas pichações consistam em "ornamento" para a cidade, mas sem dúvida têm em comum com o ornamento a idéia do gesto gráfico, caprichoso, por vezes repetitivo. Uma variedade no tédio, uma expressão no insignificante, uma "marca" sobre a superfície lisa. Assim também, sobre a pele, há uma necessidade de marcas: não sou tão jovem quanto você pensa, e trago, como marinheiros ou presidiários, os sinais de uma experiência que você, que me olha, será incapaz de decifrar. O link do artigo (para assinantes do uol) é http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2102200720.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 19h22

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pausa

Estarei sem condições de blogar até quarta-feira. Não é folia; é o computador do hotel em que estou que não facilita as coisas. Vou escrevendo enquanto isso e depois despejo tudo de uma vez.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h17

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Deus e Patrick White

O escritor australiano Patrick White ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1973, e deve ser dos mais desconhecidos autores já agraciados com essa distinção. Pelo menos por aqui, são raras as informações sobre ele. Seu romance mais famoso, "The tree of man", é tido como um exemplo importante do estilo radical de escrita modernista, na linha de James Joyce.

Li dele uma frase que vem a calhar nessa polêmica entre Richard Dawkins e os críticos de seu ateísmo radical. "A vida de cada homem", diz ele numa carta, "é um mistério entre ele mesmo e Deus". Fico pensando se, para entender essa frase, e mesmo concordar com ela, é necessário "acreditar em Deus". Poderíamos substituir a palavra "Deus" por outras: o Transcendente, o Dever, a Natureza, o Senso de uma Harmonia Cósmica, a Ordem Espiritual a Que Aspiramos, o Sublime, a Eternidade. É muito difícil eliminar todos esses conceitos, ou a maior parte deles, de uma vida humana plenamente significativa. No termo "Deus", Patrick White está resumindo, a meu ver, todos esses conceitos. Nossa vida é um mistério entre nós mesmos e Alguma Coisa com maiúsculas. Será que faz diferença, nesse plano, a questão de se "Deus" existe ou não?

Certamente, se eu acreditar num Deus pessoal, que faz o que quer de mim, e que me recompensará ou não na Eternidade conforme eu seguir tais e tais regras que julgo estipuladas por Ele, a questão da crença ou não em Deus é decisiva para meu comportamento, para minhas escolhas e relacionamentos com o mundo e as pessoas. Mas quando Patrick White circunscreve esse "Deus" ao âmbito misterioso de um relacionamento pessoal, a realidade de sua existência não tem tanta importância, e muda pouco saber se esse "Deus" muito improvavelmente existe, do ponto de vista científico.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h39

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Dawkins e Deus

O crítico marxista Terry Eagleton, que tem seus motivos para discordar do neodarwinismo, atacou o livro de Richard Dawkins contra a ilusão religiosa. “The God Delusion”, diz ele, é tão falho em teologia quanto o livro de um escritor que quisesse escrever sobre ornitologia baseado apenas no “The Book of English Birds” –que imagino ser um daqueles álbuns ilustrados que se dão de presente para tias solteironas.

 

O físico Steven Weinberg discorda da comparação de Eagleton, numa carta ao Times Literary Supplement. Transcrevo seus argumentos.

 

A biologia é uma ciência real. Conta com métodos consensuais para estabelecer raciocínios e para corrigir erros por meio da razão e da experiência. Hoje em dia ninguém contesta a circulação pulmonar do sangue ou a teoria dos germes no surgimento de uma doença. Claro que há ainda questões irresolvidas na biologia, mas o conhecimento biológico é cumulativo; tanta coisa foi aprendida, e as técnicas para aprender mais ainda exigem tão mais treinamento técnico, que os assuntos em biologia não têm como não ser deixados na mão de especialistas. Ao contrário, as desavenças no campo da teologia prosseguem indefinidamente, sem nenhuma perspectiva de que estabeleçam alguma verdade definitiva, o que não surpreende, uma vez que a teologia não lida com nada que seja real. Pela mesma razão, ao contrário das descobertas biológicas, as doutrinas teológicas não conduzem a nenhuma coisa útil. (...) É precisamente porque Dawkins está treinado numa ciência real que ele está qualificado para ver a vacuidade da teologia.

 

Tendo a concordar com Weinberg. Mas as coisas não são tão simples como ele sugere. Uma ciência real pode aspirar a um conteúdo de verdade que a teologia não possui. Mas não se segue daí que a biologia possa provar a inexistência de Deus. Não acredito que Deus exista; concordo que o raciocínio de Dawkins torne a existência de Deus uma hipótese improvável (ver post anterior). Mas em que sentido estou usando os termos “Deus”, “existência”, “improvável”? Evidentemente, esse é um assunto para teólogos, não para biólogos.

 

Dessa perspectiva, Terry Eagleton tem razão. A teoria teológica conta com mais recursos –qualificando melhor o que entendemos por “Deus” ou “existir”-- do que sonha nossa vã biologia. Dawkins talvez parece simplório diante de um teólogo. O que não quer dizer que seja menos verdadeiro.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h39

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Ravel: Jeux d'eau

Ravel: Jeux d'eau

“Ninguém, até hoje, tocou “Jeux d’ Eau” tão bem como você”. Isso foi o que disse Ravel, numa carta ao pianista Robert Casadesus, em 1924. Casadesus e Ravel foram bons amigos, e o CD que estou comentando (Mémoires, Robert Casadesus 1899-1972, L’ Interprète et le Compositeur,  ed. Cascavelle, 2000) começa justamente cm Casadesus tocando “Jeux d’ Eau”.

         Casadesus é rápido e corajoso nessa peça dificílima. É também um pouco decepcionante. Há notas erradas já no nono compasso (veja a partitura em http://www.sheetmusicarchive.net/compositions_b/ravjeuxd.pdf )  e toda a abordagem de Casadesus insiste na violência, que sem dúvida é um traço da personalidade de Ravel.

         No extremo oposto está a interpretação do grande virtuose Benno Moisewitsch, que faz dos “Jeux d’Eau” um exercício de liqüefação em pianíssimo,  confundindo, talvez, a frieza evidente de Ravel com um exercício de frivolidade. Mas é difícil soar tão natural, tão tranqüilo quanto Moseiwitsch nessa peça dificílima.

         Aí entra o gênio de Cortot. Sua gravação dos “Jeux d’ Eau” , na série da Philips/EMI, intitulada “The Great Pianistas”, é arrasadora. Talvez romântica demais. Não importa. Casadesus e Cortot foram alunos, no Conservatório de Paris, de um antigo discípulo de Liszt. Com certeza, Cortot reconhece nessa página de Ravel o romantismo do compositor húngaro. Não começa tão rápido como seria de esperar, mas é firme o bastante para elucidar o jogo de perguntas e respostas que está por trás da partitura. Ninguém, como Cortot, usa a mão esquerda como “fator de profundidade” nessa peça tão hábil em enfocar o extremo agudo do teclado. Ele sabe usar do “suspense”, nesta obra aparentemente tão fria. Apesar de Casadesus e Moisewitsch, Cortot ganha de longe.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h38

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Robert Casadesus

Robert Casadesus

Robert Casadesus (1899-1972) é conhecido como grande intérprete das obras para piano de Debussy, Ravel e Mozart. Agora apareceu um CD em que ele toca não apenas Ravel, Debussy, Fauré e Déodat de Séverac (1873-1921) mas suas próprias composições.

Há uma sonata para flauta e piano, muito elegante e debussista, e um belo, afirmativo concerto para piano, dedicado a Dmitri Mitropolous. Foi escrito nos anos de 1944 e 1945. É uma espécie de síntese entre Hindemith e o impressionismo. O piano trabalha sem parar, enquanto a orquestra tem finuras admiráveis.

São raras, no século 20, as convergências entre a carreira de concertista e a de compositor. A obra de Arthur Schnabel –famoso intérprete de Beethoven—vai sendo reavaliada (e gravada) atualmente. Robert Casadesus, até onde posso saber, não é um compositor tão “moderno” quanto Schnabel. Sua sonata para flauta e piano soa mais ou menos como uma mistura entre Pierné (1863-1937) e Ravel. É música agradabilíssima, um pouco como os filmes de Jean Renoir, se ele quisesse fazer documentários sobre os jardins  de Paris.

O “allegro con fuoco” do concerto para piano de Casadesus é Paris à noite, celebrando a vitória sobre os nazistas. A escrita para piano é muscular e breve, anulando-se frente à força coletiva da orquestra. A euforia solar de Milhaud se combina com o rigor frio de Hindemith (compositor dos mais germânicos, entretanto perseguido pelos nazistas). Há também frieza no segundo movimento, “Adagio non troppo”, em que a influência do “Concerto em Sol” de Ravel se manifesta, com resultados na verdade algo desabonadores para Casadesus.

É que a lentidão estudada de Ravel, culminando num trinado sublime no final do segundo movimento do concerto, reaparece aqui num efeito meio sem graça, antes do tempo. Sabendo disso, o regente Mitropolous parece exagerar na choraminga da orquestra.

O “allegro moderato final”  é feliz e aéreo, fazendo a orquestra retornar ao estilo desse compositor injustamente desprezado, Gabriel Pierné. Casadesus, interpretando a própria obra, é fluente e vigoroso, mostrando tudo o que pode tecnicamente. Mas um de seus grandes desafios técnicos, neste valioso CD, está em outro lugar. Refiro-me aos “Jeux d’eau”, de Ravel, que vou comentar em outro post.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h31

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1502200704.htm

Estarão concentradas em Hugo Chávez as esperanças da esquerda latino-americana? O cronista do "Agora" discute a questão (para assinantes do uol).

Escrito por Marcelo Coelho às 14h55

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voltaire de souza no teatro

Segue o release do espetáculo.

Você já sabe quem são Voltaire de Souza, Elpídio, Glivanka, Kuko Jimenez, Fergusson e Gisela?
Se sim, tenho certeza de que quer saber mais.
Se não, venha conhecê-los e, de quebra, saberá também (talvez...) algo sobre outras figuras como o já célebre mestre e educador Professor Pintassilgo e Pai Futaba, o famoso pai de santo japonês.
E poderá despi-los em praça pública!
(INCLUSIVE NO CARNAVAL - QUEM FOR FICAR POR AQUI, APROVEITA!)
Com saída do Espaço dos Satyros I
às sextas, sábados e domingos, às 18:00 horas em ponto,
diretamente para a rua e o interrogatório.
GRATUITO
Endereço: Praça Franklin Roosevelt, 214, República
Informações: 9114-9634

Aqui ninguém é inocente: vamos suspender a automatização do cotidiano para afundarmo-nos nele mesmo: vamos seguir as personagens de Voltaire de Souza, perambulando através da nossa cidade. E, se quisermos, vamos interrogá-las sobre suas vicissitudes, que serão as nossas. Não se trata da convencional idéia de peça interativa, mas de um inquérito real, por parte do público, que estará livre para perguntar tudo que quiser para as personagens. Que poderão responder ou não.
A fusão primordial para a existência do teatro, nós já temos. Quando formalizarmos o espetáculo, teremos formalizado a própria experiência proposta.
Companhia Linhas Aéreas e Atelier de Manufactura Suspeita
 

AQUI NINGUÉM É INOCENTE faz parte do projeto de pesquisa VOLTAIRE DE SOUZA – o intelectual periférico,

contemplado pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro.

Voltaire de Souza é um pseudônimo usado pelo crítico e ensaísta Marcelo Coelho para publicar pequenas

estórias no jornal AGORA.


Escrito por Marcelo Coelho às 14h52

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TV, censura e classificação

No site da psicanalista Maria Rita Kehl (http://www.mariaritakehl.psc.br) um debate sobre a função da classificação etária nos programas de TV. Ela e Eugênio Bucci, presidente da Radiobrás, discutem qual o papel do Estado nessa questão. Infelizmente, a julgar pelo artigo de Stepan Nercessian já criticado neste blog, há quem diga que o Estado não deve ter simplesmente papel nenhum, como se censura e indicação de faixas de horário fossem a mesma coisa.

Cito um trecho polêmico das intervenções de Maria Rita Kehl:

Há quem defenda que crianças abaixo de cinco ou seis anos, simplesmente não estão psicologicamente preparadas para entender cenas de sexo entre adultos. A idéia do “trauma” vem sendo muito mal assimilada por psicanalistas, psi-coterapeutas e pedagogos. Muitos defendem que se a criança pequena for exposta a uma cena de sexo explícito, por exemplo, ficará "traumatizada". Não necessariamente; penso que as crianças podem ver, ouvir e entender praticamente qualquer coisa, desde que a cultu-ra em que elas vivem lhes ofereça elementos para tal. Não existe uma evolução “natural” da inteligência infantil. Existem, isto sim, escolhas da sociedade: nossas crianças evoluirão de acordo com o que nós desejarmos para elas. Nesse sentido, o fundamento que nos leva a querer limitar a exposição de nossas crianças a cenas de pornografia, violência gratuita, drogação, etc., não é psicanalítico: é ético. Simplesmente desejamos aproveitar esse período tão especial da vida para formar cidadãos interessados em outras coisas. A infância é uma época de curiosidade ilimitada, de interesse por tudo, combinados a uma capacidade de assimilação rápida de todas as novidades. É a fase em que se estabelecem os principais pa-râmetros que formarão nosso senso de “realidade” - mas a realidade humana, vale lembrar, é sempre a realidade social. É uma construção social. Assim, se por um lado não há um impedimento essencial para que a criança “saiba” o que é o sexo, o que é a morte, o que é a violência, etc. - desde que alguém a ajude a compreender isso -, há milhares de razões para desejar que ela se ocupe mentalmente de outras coisas, de muitas outras coisas além do sexo, da violência e da morte. A meu ver, há apenas duas razões para limitar o tipo de con-teúdo da programação infanto-juvenil: a primeira é que os pais, em geral, não se dispõem a educar seus filhos para entender criticamente o que eles vêem no cinema e na TV. Pelo contrário, costumam entregar os filhos aos cuidados da TV e, o que é pior: da publicidade. Ainda não discutimos a sério restrições para a publicidade dirigida às crianças, o que eu considero mais importante do que a classificação indicativa de todo o resto da programa-ção. A segunda razão é que, se as cenas de conteúdo dito “adulto” forem liberadas para crianças, o que ainda resta do potencial educativo e formador da televisão - e em menor grau, do cinema - vai por água abaixo de uma vez. Talvez não cause nenhum trauma às crianças ver pornografia; não tenho nenhuma convicção de que lhes faria mal. Minha con-vicção é que eu desejo que as crianças brasileiras recebam, pela televisão, outros tipos de informação, que farão delas cidadãs mais interessantes, mais éticas, etc. A televisão é um veículo formador muito poderoso, importante demais para que o tempo que as crianças e adolescentes passam diante dela seja desperdiçado com bobagens.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h48

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1402200703.htm

A festa do Pan e outros assuntos cariocas se entrelaçam numa coluna dura de roer para o jornal "Agora".

Escrito por Marcelo Coelho às 19h34

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De Vitória a Elizabeth

De Vitória a Elizabeth

Logo depois de enviuvar, aos 42 anos, a Rainha Vitória retirou-se para a Escócia, no Castelo de Balmoral. Sua prolongada ausência de Londres enfraqueceu a instituição da monarquia, e coube ao primeiro-ministro Disraeli convencer a rainha da necessidade de voltar a Londres; embora destituída de poder político, a monarquia britânica tinha (e tem) um papel simbólico que é preciso alimentar –com cerimônias, carruagens, aparições públicas, etc.

 

No filme Mrs. Brown, de John Madden, acompanhamos passo a passo a crise política –com crescentes pressões populares a favor da proclamação da República—e também a crise amorosa da rainha. Há um cavalariço escocês, o sr. Brown, por quem Vitória se apaixona: no filme, os jornais e caricaturas da época não estão longe dos tablóides de hoje em dia. Vitória (Judi Dench) tem de renunciar à vida pessoal e conformar-se à sua “profissão”, que consiste em não fazer nada, exceto ser aquilo que seus súditos querem que ela seja.

 

Os diálogos entre Disraeli e a rainha, são uma obra-prima de sutileza e subentendido. O próprio arcebispo de Canterbury desgasta inutilmente sua autoridade espiritual para conseguir aquilo que Disraeli, com sorrisos e curvaturas, termina por obter.

 

Não é que “A Rainha” seja um mau filme; é uma delícia de ver; Comentei-o hoje na “Ilustrada” (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1402200723.htm), sem dedicar espaço à excelente atuação de Helen Mirren (mas todo mundo já elogiou) e a uma série de cenas surpreendentes, mostrando o cotidiano de Elizabeth 2a. Quem imaginaria que ela sabe dirigir um jipe?

 

De novo, temos uma rainha enfurnada em Balmoral, enquanto a população britânica exige sua presença em Londres, para chorar a morte de Lady Diana. De novo, cabe a um primeiro-ministro convencê-la (com ajuda das pesquisas de opinião e dos tablóides) a cumprir seu dever simbólico.

 

Não acredito que a rainha não percebesse os “novos tempos”, em que a opinião pública é a verdadeira soberana, e em que as explosões de sentimentalidade popular devem ser mais levadas em conta do que a contenção e a compostura tradicional. A questão, para Elizabeth 2a, é o quanto se deve ceder a isso: por mais que o filme a faça dizer que os tempos mudaram (fazendo de Tony Blair uma figura “em sintonia com o povo”), uma série de problemas “procedimentais e atitudinais”, como afirma um dos assessores do palácio, tinha de ser levada em conta.

 

A imprensa reclama que a bandeira com as armas da rainha não estava a meio-pau no Palácio de Buckingham. Ora, isso para Elizabeth e sua família é mostra de ignorância. Aquela bandeira serve apenas para indicar a presença ou a ausência da rainha no palácio; mesmo se a própria rainha morresse, não seria hasteada a meio-pau. Ceder a isso –como acaba acontecendo—é mais do que solidarizar-se ou não com a dor dos ingleses: é cometer um solecismo, um barbarismo na linguagem simbólica da monarquia.

 

Naturalmente, toda tradição nasceu em algum momento, e novas tradições, novos rituais, se criam precisamente em instantes como o da morte de Diana, quando há uma grande unanimidade de sentimentos populares em busca de expressão. Mas simpatizo totalmente com a rainha: se ela é um símbolo, seu papel é o de manter a linguagem que ela domina.

 

Não vemos com clareza, no filme de Frears, os verdadeiros sentimentos de Elizabeth a respeito de Diana (talvez porque isso seja plenamente conhecido do público inglês). Talvez assim o comportamento da família real se torna mais obtuso do que de fato foi. E como a minha antipatia por Tony Blair é das maiores, seu papel na trama me parece desprezível –e o filme aposta bastante na idéia oposta. Meu voto não muda: Disraeli na cabeça.

 

 

 

O Castelo de Balmoral, em gravura de Edward Duncan

site do filme: http://www.arainha.com.br/

Escrito por Marcelo Coelho às 19h24

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TV, censura, classificação indicativa

Já critiquei em post anterior ("Nercessian, péssimo") a tese de que classificar por faixa etária os programas de TV tenha a ver com qualquer tipo de censura. Um longo documento do Ministério da Justiça analisa a questão, e está disponível em http://www.andi.org.br/_pdfs/Classificacao_indicativa_livro.pdf

Escrito por Marcelo Coelho às 14h19

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Benjamin Franklin-correção

Benjamin Franklin-correção

Comentei em post anterior o pequeno e interessante livro publicado pela Unesp, com máximas e textos curtos de  Benjamin Franklin. Chama-se "Como Escolher Amantes e Outros Escritos." A introdução, que achei excelente, foi escrita por R. Jackson Wilson, do Smith College; Jézio Bomfim Gutierre é o autor da tradução.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h44

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1302200703.htm

O psiquiatra argentino Gutiérrez volta às atividades em mais uma coluna do "Agora" (para assinantes do uol)

Escrito por Marcelo Coelho às 13h27

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Aldir Mendes de Souza

"Cidade", 1962.

Não conhecia a obra do pintor Aldir Mendes de Souza (www.aldir.com.br ); um e-mail me informa de seu falecimento, aos 65 anos. Sua pintura foi ficando mais abstrata e experimental ao longo do tempo, mas este quadro, mais antigo, é que me encantou.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h06

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fim dos bestsellers?

fim dos bestsellers?

Livrarias e lojas de discos e DVDs sempre dependeram da venda de alguns poucos itens de grande sucesso. Fiquei sabendo que há uma regra de marketing segundo a qual 20% dos produtos à venda num determinado ramo de negócio são responsáveis por 80% dos negócios efetivamente feitos. Ou seja, best-sellers e blockbusters sustentam a atividade, e o resto é vendido a conta-gotas.

 

O quadro está mudando com o comércio eletrônico, argumenta Chris Anderson, no livro “The Long Tail” (Random House”). Segundo resenha de Marybeth Hamilton, no “TLS” de 19 de janeiro, “praticamente toda música oferecida pelo iTunes (há mais de um milhão à venda) encontrou ao menos uma pessoa querendo comprá-la”. A demanda se pulverizou, e o sistema de recomendações utilizado por sites como o da “Amazon” acaba promovendo o consumo de itens que atendem a gostos muito individualizados.

 

É de se perguntar se vastos investimentos em superproduções hollywoodianas irão, a longo prazo, ser compensadoras, quando um filme baratinho pode “bombar” no youtube. Democratização total do mundo do entretenimento? Acho que estamos longe disso, é claro. Provavelmente coexistem, hoje em dia, forças “centrífugas” como o youtube, e forças “centrípetas”, em que um investimento colossal em “marketing” torna praticamente obrigatório, para o público, este ou aquele filme da temporada. E é esse substrato cultural “comum” –um filme como “Titanic”, por exemplo—que permite, no youtube, o sucesso de eventuais paródias, alusões, recriações do “blockbuster” original.

 

Sem contar que o mundo ilimitado das possibilidades de sucesso que um filme caseiro pode ter no “youtube” depende, como sempre, dos acasos e caprichos do mercado. A revista “The New Yorker” de 16 de outubro conta alguns casos curiosos de sucesso no Youtube. É o caso de Pete, o geriátrico (geriatric1927), que aos 79 anos, viúvo, vestiu um pulôver beige, sentou-se em sua poltrona, e resolveu gravar filminhos contando a sua vida. Quem assistiu diz que é um senhor de idade absolutamente comum, sem nada de especial para contar. Seu primeiro upload no youtube teve 300 visitas. Mas no Youtube há pessoas encarregadas de escolher determinados filmes para indicar aos usuários, organizando uma lista de recomendações informais. Uma dessas pessoas é Maryrose Dunton, que adora velhinhos, e colocou o vídeo de Pete no topo da lista. O primeiro filminho de Pete já conta, “agora” (o artigo é de outubro), com mais de 2 milhões de visitantes.

 

E também há o caso de um garoto que tem uma pequena banda de rock, que passa até dezesseis horas por dia visitando o próprio site: ele sabe que, com uma boa média de visitas, tenderá a ser mais procurado que os concorrentes. O problema é que ele passa tanto tempo no computador que já não se dedica tanto à composição de eventuais sucessos. Mas, como dizem os economistas, trabalho agrega valor, consumo gera consumo, etc. O mundo continua girando.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h59

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De Dawkins a Eliot

De Dawkins a Eliot

No post anterior, defendi a improbabilidade lógica da crença religiosa. Encontro agora um argumento do teórico literário I. A. Richards, que valorizava o papel dos “pseudo-enunciados”, isto é, os enunciados a respeito dos quais não é possível dizer se são falsos ou verdadeiros.

 

inúmeros pseudo-enunciados –sobre Deus, sobre o universo, sobre a natureza humana, sobre as relações entre uma mente e outra, sobre a alma, seu papel e seu destino—pseudo-enunciados que são pontos cruciais na organização da psique, vitais para o seu bem-estar, subitamente se tornaram para mentes sinceras, honestas e informadas, impossíveis de acreditar do mesmo modo com que há séculos se acreditava nelas...

         Esta é a situação contemporânea. O remédio... é liberar nossos pseudo-enunciados daquele tipo de crença que é apropriada para os enunciados verificáveis. Liberados deste modo, eles serão, é claro, modificados, mas poderão ainda ser os principais instrumentos pelos quais ordenamos nossas atitudes uns com os outros e com relação ao mundo.

 

T.S. Eliot foi irônico face a esse argumento. “É como dizer que o papel de parede vai nos salvar enquanto a casa está caindo”.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h15

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Deus e o Boeing 747

Deus e o Boeing 747

         Os adeptos da teoria do “design inteligente” têm um argumento interessante para convencer as pessoas sobre a existência de Deus. É o argumento do “Boeing 747”. Consideram, com razão, que a Natureza é uma coisa extremamente complexa, e bem ajustada. Como isso poderia ter surgido por mero acaso? Seria o equivalente, dizem, a achar que um ciclone, ao passar por cima de um depósito de ferro-velho, juntasse acidentalmente o material ali jogado e produzisse um Boeing 747 inteirinho... Não seria impossível, mas seria altamente improvável.

         Em seu livro “The God Delusion” (ed. Houghton Mifflin), o cientista Richard Dawkins contesta o argumento. Observa que a hipótese contrária é mais improvável ainda. Para criar um artefato tão complexo como os seres vivos, seria preciso uma mente ainda mais complexa do que qualquer ser vivo existente. E como teria surgido, sem nenhuma causa natural, um ser tão complexo assim? É mais improvável ainda...

         Sem contar que o mundo dos seres vivos não surgiu pronto, de uma hora para outra, como um Boeing 747 a partir de um depósito de lixo. Ao contrário, coisas complexas surgem de coisas simples, e a partir de uma lenta interação entre elementos minúsculos é que a Natureza vai se complicando. O complexo nasce do simples; os adeptos da teoria do Boeing acham que o complexo surge do mais complexo ainda...

Na sua resenha do livro de Dawkins para a “The New York Review of Books” (11/1/2007), o biólogo H. Allen Orr acha que, de modo geral, “The God Delusion” é muito rudimentar do ponto filosófico e teológico. Mas a contestação do “argumento do Boeing” me parece convincente, e reedita um velho argumento kantiano contra a idéia de um Deus criador do Universo. Quem criou Deus? Substituímos um mistério por outro, só que no novo mistério entra um monte de coisas de contrabando: um ser pessoal, uma sabedoria bondosa, o que quisermos.

Mas H. Allen Orr reage. “Não é preciso ser criacionista para notar que o argumento de Dawkins sofre potencialmente de dois problemas. Primeiro, como outros comentaristas já apontaram, se ele está certo, a hipótese do “design” deve essencialmente estar errada e a hipótese naturalista alternativa deve essencialmente estar certa. Mas desde quando uma hipótese científica é confirmada por ginástica filosófica, e não por dados concretos?”

Um momento. Dawkins não está confirmando a hipótese dele. Diz apenas que a dos adversários é mais improvável do que a dele, quando toda a argumentação dos adversários visava a mostrar que a dele era muitíssimo improvável.Ginástica por ginástica, a de Dawkins é mais razoável.

H. Allen Orr continua. O fato de que determinada hipótese levanta questões aparentemente insolúveis –por exemplo, “quem criou o criador?”—nunca fez com que cientistas duvidassem de seu valor de verdade. Seriam facilmente explicáveis pressupostos científicos como os da matéria e da existência de leis no universo? Esses pressupostos, diz Orr, Dawkins não questiona.

Novamente, acho que se trata de coisas bem diferentes. Determinada hipótese científica pode levar a outras questões imensamente difíceis (“o que é a força da gravidade?”) mas constitui um modelo a partir do qual uma série de fenômenos antes inexplicados podem ser explicados, medidos, previstos, etc. É diferente de uma “hipótese” que apenas postula uma entidade “criadora”, sem esclarecer um milímetro a mais dos fenômenos que estão à nossa vista.

Orr remete para os momentos de mais radical irreligiosidade de Dawkins na entrevista que o autor concedeu ao site “salon”: www.salon.com/books/int/2006/10/13/dawkins/index.html

Escrito por Marcelo Coelho às 14h16

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0802200703.htm

O aquecimento global tira o sono de muita gente. Para o cronista do "Agora", é no cotidiano doméstico que a situação se agrava.

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0802200703.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 13h28

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grandezas da corte (2)

Citei num post anterior as observações de La Bruyère sobre a sociedade de corte, em seus "Les Caractères". Vai aqui um exemplo.

Um Panfílio é cheio de si mesmo, não se perde nunca de vista, jamais se ausenta da idéia de sua magnitude, de suas alianças, de seu cargo, de sua dignidade; amontoa, por assim dizer, todas as suas moedas, e sai cercado delas para se fazer valer; diz: “minha comenda, meu cordão”, exibe-os ou esconde-os por ostentação: um Panfílio, numa palavra, quer ser grande, acredita sê-lo, mas não o é; imita-o. Se por vezes ele sorri a um homem de mínima condição, a um homem de espírito, mede o seu tempo tão precisamente, que nunca é surpeendido ao fazê-lo; pois o rubor lhe subiria ao rosto, se fosse visto inadvertidamente na menor familiaridade com alguém que não é opulento, poderoso, amigo de ministro, aliado ou serviçal; é inexorável e severo com quem não fez fortuna ainda; ele vos encontra numa galeria do palácio, foge de vós; e no dia seguinte, se vos encontra em algum lugar menos público, toma coragem, vem a vós, e vos diz: “O senhor não parecia ter nos visto ontem” (...) Os Panfílios são assunto que não cessa. São baixos e tímidos diante dos príncipes e dos ministros, cheios de altivez e confiança com aqueles que só a virtude possuem.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h13

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Noivado do Sepulcro

 

 

Góticos, românticos e amantes da poesia dark certamente conhecem uma balada do romântico português Soares de Passos, que vem a propósito da foto de uma descoberta arqueológica, divulgada hoje no Uol. Aqui vão os trechos principais; gosto da falta de rima no último verso, como a apontar a impossibilidade da fantasia.

Vai alta a lua! na mansão da morte/Já meia-noite com vagar soou;/Que paz tranqüila; dos vaivéns da sorte/Só tem descanso quem ali baixou. //Que paz tranquila!... mas eis longe, ao longe/Funérea campa com fragor rangeu/Branco fantasma semelhante a um monge,/Dentre os sepulcros a cabeça ergueu.//Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste/Campeia a lua com sinistra luz;/O vento geme no feral cipreste,/O mocho pia na marmórea cruz.//Ergueu-se, ergueu-se!... com sombrio espanto/Olhou em roda... não achou ninguém.../Por entre as campas, arrastando o manto,/Com lentos passos caminhou além.//Chegando perto duma cruz alçada,/Que entre ciprestes alvejava ao fim,/Parou, sentou-se e com a voz magoada/Os ecos tristes acordou assim://"Mulher formosa, que adorei na vida,/"E que na tumba não cessei d'amar,/"Por que atraiçoas, desleal, mentida, 
"O amor eterno que te ouvi jurar?//..."Talvez que rindo dos protestos nossos,/"Gozes com outro d'infernal prazer;/"E o olvido cobrirá meus ossos/"Na fria terra sem vingança ter!//– "Oh nunca, nunca!" de saudade infinda/Responde um eco suspirando além...// Ao som dos pios do cantor funéreo,/E à luz da lua de sinistro alvor,/Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério/Foi celebrado, d'infeliz amor.//Quando risonho despontava o dia,/Já desse drama nada havia então,/Mais que uma tumba funeral vazia,/Quebrada a lousa por ignota mão.//Porém mais tarde, quando foi volvido/Das sepulturas o gelado pó,/Dois esqueletos, um ao outro unido,/Foram achados num sepulcro.  

Escrito por Marcelo Coelho às 15h39

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aquecimento global

No artigo de hoje da "ilustrada", escrevo sobre mínimas e megalomaníacas iniciativas para conter o aquecimento global. Assinantes podem ler em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0702200717.htm

E agora uma foto que recebi de uma leitora por e-mail.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h57

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edifício Prestes Maia

Recebo e-mail do poeta e editor Fabio Weintraub, que se mobiliza em defesa dos moradores do Edifício Prestes Maia; o caso é longo de contar, mas é uma longa ocupação de pessoas sem-teto num edifício cujo dono deve milhões de IPTU à Prefeitura. Uma das coisas impressionantes do Prestes Maia é a pequena biblioteca que se formou, graças à iniciativa de um morador, que ia catando os livros que encontrava no lixo. Acabou se tornando símbolo do crescente fenômeno das bibliotecas comunitárias no Brasil: bibliotecas num canto de borracharia, num barraco de favela... Sinal positivo, sem dúvida, e ao mesmo tempo revelador de uma contradição: um mínimo de educação básica já vai permitindo criar novos leitores no país, e ao mesmo tempo não gera prosperidade econômica ou empregos no mesmo ritmo. São comoventes os depoimentos de pessoas muito pobres a respeito da descoberta da leitura, que Weintraub recolheu num pequeno documentário de sua autoria, feito para a Editora SM, onde trabalha. Aqui vai o e-mail que ele mandou.

A maior ocupação urbana vertical da América Latina está com os dias contados. Apesar de oferecer abrigo a mais de 1500 pessoas (ali instaladas desde 2002), apesar de ter se constituído como um importante equipamento cultural (com biblioteca, cineclube, oficinas), apesar de cumprir algo previsto na Constituição (a função social da propriedade), O PRESTES MAIA VAI SER EVACUADO.

Hoje pela manhã esteve no prédio o comandante do 7.o Batalhão da Polícia Militar, que marcou o despejo para o dia 4 de março.

As famílias estão acampadas desde segunda-feira em frente à sede da Prefeitura, buscando uma solução para o impasse.

Amanhã, às 9h00, o comandante de polícia vai retornar ao prédio para orientar os moradores a sair sem resistência, pois a polícia está preparada para a repressão.

Atos de resistência estão sendo organizados. No próximo sábado, a partir das 17h00, a artista plástica Josely Carvalho – que mora em Nova York e está expondo na   

Pinacoteca, vai ministrar uma oficina de serigrafia, ensinando os moradores a fazer camisetas com slogans contra o despejo. Quem puder aparecer – de preferência trazendo camisetas brancas – está convidado.

A reunião com a Polícia amanhã também é aberta e todo apoio é bem-vindo.

 

Por favor, ajudem a divulgar essas atividades.  

Fabio   

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h36

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grandezas da corte

grandezas da corte

 

Selassié visita JK em Brasília (1960)

O jornalista polonês Ryszard Kapuscinski morreu em janeiro passado. Tem vários livros publicados em português. “O Imperador” (Companhia das Letras) reúne depoimentos sobre o reinado de Hailé Selassié, soberano absoluto da Etiópia de 1930 a 1974. Eis o primeiro depoimento do livro.

 

Era um cachorro pequeno, de uma raça japonesa. Chamava-se Lulu e dormia na cama do imperador. Em diversas cerimônias, escapava dos joelhos imperiais e ia urinar nos sapatos dos dignitários. Eles estavam proibidos de se mexer, de esboçar um gesto que fosse, ao sentirem os pés molhados. Minha função era andar entre os dignitários, secando os sapatos. Para isso, eu usava um pequeno pano de cetim. Essa foi a minha ocupação por dez anos.

 

De alguém com posto superior na hierarquia, lemos uma descrição memorável do comportamento dos burocratas que, qualquer que fosse a função exercida, eram nomeados pessoalmente pelo imperador.

 

Ao proceder às nomeações, nosso amo via diante de si apenas a parte posterior da cabeça inclinada do agraciado. Mas nem o alcance ilimitado da visão do nosso digníssimo amo lhe permitiria ver o que ocorria depois com aquela cabeça recém-nomeada. Após ter se movido em reverências sem fim no Salão de Audiências, ela mudava de atitude assim que atravessava a porta. Imediatamente se punha ereta e adquiria uma postura firme, decidida. (...) Aquela cabeça totalmente normal e que até há poucos instantes se movia com naturalidade, lépida, pronta a se virar e a se curvar, adquiria, logo após a nomeação, uma extraordinária limitação de movimentos, passando a dispor de apenas dois: o de se voltar para o chão, quando na presença do augusto senhor, e o de se voltar para o alto, na presença das demais pessoas. (...) caso o senhor se aproximasse dela por trás por trás e exclamasse “Ei, senhor!”, seu dono não podia mais simplesmente virá-la na direção da voz; pararia com um ar de dignidade e, girando o corpo todo, só então apontaria a cabeça para onde provinha a voz. (...) A mudança do corpo vinha acompanhada de uma redução na velocidade dos movimentos. Um escolhido pelo digníssimo amo não podia mais correr, saltar ou dar cambalhotas. Seus passos deviam ser comedidos, os pés colados firmes no chão, enquanto o corpo se inclinava um pouco para a frente, como a indicar disposição para enfrentar oponentes.

 

Lembra uma descrição de La Bruyère sobre os cortesãos franceses no século 17. Mas as semelhanças não precisam ir tão longe. Ledo Ivo, em suas “Confissões de um Poeta”, narra um episódio que viu num seminário. Os alunos acompanhavam um bispo num passeio, quando começa uma chuva torrencial. O grupo corre em debandada buscando abrigo. Todos, menos o bispo, que prossegue no mesmo passo debaixo do aguaceiro, e se encarrega ele próprio de explicar a atitude: “bispo não corre”.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h18

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0702200703.htm

Um velho personagem das histórias do Notícias Populares, o psiquiatra argentino Dr. Gutiérrez, reaparece na crônica de hoje do "Agora".

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0702200703.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 23h58

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chorinho

Andei, é preciso confessar, com uma preguiça grande de escrever neste blog. Agora descubro a razão. É que fiquei nos últimos dias –como já noticiado—escolhendo os textos para uma coletânea de artigos meus, e desde ontem faço a revisão de cada um. Narcisismo tem limites: esse meu tonzinho de voz termina cansando até a mim mesmo. Um jeito de chegar como quem não quer nada, puxando o fio do assunto, depois mudando de tema, outra meia-volta, um primeiro laço de fita, quando dá sorte uns fogos de artifício, uma pomba saindo da cartola, e depois o toque de crítica ideológico-política... como se o dedo em riste fosse também o dedo que se põe no barbante para dar o nó final do pacotinho. Os artigos podem mudar de tema e de estado de humor, mas como ficam parecidos quando lidos em seguida! Fica o aviso para quem vier a comprar o livro: um pouco de cada vez. É como disco de chorinho, satura quando se ouve demais.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h44

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Nercessian, péssimo

Não conheço o novo manual para a classificação por idade dos programas de TV, elaborado pelo ministério da Justiça. Mas não sou idiota. O artigo que Stepan Nercessian escreveu para a “Folha” de hoje ( http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0602200709.htm ) é lamentável.

 

Cenas de mundocanismo e violência nos supostos programas jornalísticos da televisão, cenas de erotismo no horário da tarde: obviamente para as emissoras isso significa mais ibope, e obviamente isso não é recomendável para crianças. Uma classificação por idade, ou, se quisermos usar o termo, censura por idade, na televisão, é medida de bom senso e não há país no mundo, imagino, que não tenha uma coisa dessas.

 

Pois bem. Nercessian, que é ator, presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos de Espetáculos do Rio e vereador pelo PPS, escreve um artigo genérico contra “a censura” para defender “a cultura brasileira”,  que “está evoluindo”, sem dar nenhum exemplo concreto das disposições do manual.

 

Fica claro que ele não está criticando esse manual especificamente, mas qualquer forma de classificação por idade nos programas de televisão. Surgem então frases e raciocínios de cunho democrático, como se fosse a mesma coisa proibir a circulação de um livro, impedir a publicação de uma notícia, e dizer que um seriado com cenas de morte, tortura e mutilação não deve aparecer no horário da tarde. Leia-se o que ele diz.

 

A censura, como sabemos, nunca se apresenta como um instrumento de opressão. Pelo contrário, vem sempre disfarçada de defesa da sociedade, da família, dos menores. No final, a realidade é sempre a mesma: fim das liberdades individuais, controle dos artistas e dirigismo cultural... Para uma criança, ver um filme ou uma novela que tenha uma cena de violência pode fazer mal. Agora, ficar no sinal de trânsito, trabalhar para o tráfico de drogas, ver a morte de forma banal, apodrecer os dentes, não freqüentar escola, etc., pode a qualquer hora do dia ou da noite.

 

Desculpe, mas esse raciocínio não engana ninguém. Uma coisa é negar a adultos o pleno acesso à informação e à realidade. Outra coisa é proteger crianças da exploração sexual e da violência na TV. Ninguém diz que criança pode traficar. O que se diz, com razão, é que a TV não pode mostrar a crianças cenas que elas não têm maturidade para assistir. O erro da censura é tratar adultos como crianças. Nercessian quer que crianças vejam programas de adultos. Nercessian? Ele e as emissoras de TV.

Escrito por Marcelo Coelho às 08h59

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alterações

Fiquei sem postar durante o fim-de-semana --peço desculpas a quem procurou novidades. É que fiquei ocupado fazendo uma seleção dos meus artigos desde 1998, para o livro "101 Crônicas", que a Publifolha deve editar ainda este ano.

Uma alteração nova nas categorias do blog. Achei insatisfatório colocar os posts sobre música na categoria "eventos". Para dar espaço a uma categoria exclusiva para música, eliminei a categoria "voltaire de souza", cujas crônicas passarão agora a ser encontradas na categoria "links".

Em tempo. Para tudo ficar mais confuso, todas as antigas mensagens relativas a Voltaire de Souza passaram automaticamente para "música"....! A alternativa seria apagar tudo, o que preferi não fazer. Qualquer reclamação, contate a administraçâo do Uol. É uma pena que só possa haver cinco categorias personalizadas, de modo que tenho de espremer as coisas onde dá.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h22

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0502200701.htm

Poderá a construção civil ajudar no crescimento econômico? O cronista do "Agora" oferece sua visão a respeito do palpitante assunto.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h17

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Pro Dia Nascer Feliz

Pro Dia Nascer Feliz

A partir de um tema genérico e sem potencial polêmico –o fenômeno do olhar, da visão--, João Jardim fez “Janela da Alma”, um documentário fascinante, cheio de surpresas e depoimentos curiosos.

 

Em  Pro Dia Nascer Feliz, novo documentário de João Jardim que estréia hoje em São Paulo, o assunto é mais concreto e, em tese, promissor. O objetivo seria fazer um retrato do adolescente brasileiro; ou, como diz o material publicitário, “um filme sobre meninos e meninas que vivem a pressa de saber quem são”.

 

Trata-se, infelizmente, de bem menos do que isso. Apesar das declarações de intenção do diretor, o documentário restringe bastante o seu foco, falando quase que exclusivamente da situação do ensino secundário no Brasil. Sucedem-se cenas e mais cenas de sala de aula, imagens de pátios no recreio, entrevistas com professores desanimados e com alunos bons, medíocres ou péssimos.

 

Sem dúvida, o documentário dá uma idéia dos problemas educacionais do país –e mistura em dose certa o desespero e o otimismo. Numa escola pública em Duque de Caxias, professores têm medo dos alunos, o tráfico é uma presença constante, e o olhar de arrogância, de cinismo, de alguns adolescentes diante da câmera é capaz de suscitar alarmes no mais desatento dos espectadores.

 

Já em Manari, sertão de Pernambuco, uma estudante especialmente talentosa e simpática enfrenta as dificuldades que se conhecem: professores que faltam, ônibus que encrenca, colégio a quilômetros de distância, e o ônibus da prefeitura, que deveria transportar os alunos para a escola, encrencando o tempo todo.

 

Num óbvio contraste, jovens de classe alta num colégio paulistano falam do ritmo excessivo dos estudos e de seus problemas de consciência diante da pobreza da maioria. OK.

 

O resultado não é ruim, levanta problemas que merecem atenção, há personagens simpáticos, mas pouca coisa que realmente surpreenda o espectador. Faz-se uma amostra equânime do “positivo” e do “negativo” na educação brasileira, mas os realizadores do documentário não tiveram a sorte de encontrar situações em que os contrastes do sistema se concentrassem com maior dramaticidade. Mundos estanques são colocados lado a lado –como ocorre na realidade, é claro--, só que a complexidade e a carga de contradições que poderia haver em cada retrato individual não é suficientemente explorada; com isso, “Pro Dia Nascer Feliz” não captura muito o interesse do espectador.   

Escrito por Marcelo Coelho às 10h57

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promoção CDs -DVDs

Na Laserland: https://laserland.locaweb.com.br/promocao_50.php?

Escrito por Marcelo Coelho às 19h08

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Camargo Guarnieri

Camargo Guarnieri

http://http://www.ponteio.com/sounds/camargo_guarnieri/guarnieri_sonata3.ram

Há cem anos, na cidade paulsita de Tietê, nascia o compositor Camargo Guarnieri. É o meu preferido entre os brasileiros. Enquanto Villa-Lobos é efusivo e "amazônico", Camargo Guarnieri mantém em sua vasta produção uma atitude mais contida, feita de rigor construtivo e de emoção intelectualizada. Absorvendo toda a linguagem do folclore e da música popular (em especial as toadas caipiras e a música do Nordeste), ele não perde nunca a "distinção", a nobreza de gestos, a elegância do contraponto e da estrutura. Um trechinho de sua sonata para violino e piano no. 3 pode ser acessado no link acima.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h32

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estranha fumaça

estranha fumaça

Peço desculpas pela foto --foi o máximo de proximidade que consegui. Gostei da fumacinha saindo exatamente de cada azeitona: balas de chumbo ou espermatozóides?

Escrito por Marcelo Coelho às 18h14

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no cemitério

no cemitério

Em sua busca por antigüidades, o decorador Corrado Neder vive uma aventura na coluna do "Agora" de hoje. Link para assinantes http://tinyurl.com/363bxp

Escrito por Marcelo Coelho às 18h11

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posfácio ao Dia do Mágico

Ainda sobre o tema abordado hoje na "Ilustrada" --podem os mágicos revelar seus truques aos interessados?--, topei com uma frase de Nietzsche que vem ao caso. "Se eu aprendi alguma coisa, por que é que eu me sinto como se tivesse perdido alguma coisa?"

Escrito por Marcelo Coelho às 00h25

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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