Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

Varèse e Henry Miller

Varèse e Henry Miller

Insisto na leitura de Pesadelo Refrigerado, de Henry Miller. É que além das investidas retóricas contra “a América”, este seu relato de viagens pelos Estados Unidos traz alguns perfis de pessoas excêntricas e de visionários que ele encontra ao longo do caminho.

Um dos visionários é o compositor de vanguarda Edgard Varèse, autor de alguns marcos da música sinfônica do século 20, e que apesar da passagem dos anos continua bem pouco conhecido. Tenho –e não ouço há anos— um velho LP com algumas de suas obras mais famosas, Ionisations, Densidade 21,5, Hiperprismas... E mesmo para quem está acostumado a Schoenberg, Lutoslawski ou Penderecki, a barulheira e a estranheza são de assustar. Claro que estou falando dos meus limites: o ouvinte que se der bem com  Berio, Boulez e Stockhausen pode encarar Varèse sem problemas.

Observo que talvez sua música seja inapropriada para se ouvir em disco; o gigantesco aparato percussivo, incluindo sirenes e outras traquitandas futuristas, depende da acústica de uma sala de concerto. O que não é muito futurista, aliás, mas não importa.

Fiquei curioso, em todo caso, para ler o que Henry Miller escreveu sobre Varèse.

Mas ainda aqui, como em outros capítulos de Pesadelo Refrigerado, o sermão ideológico predomina sobre qualquer apreciação estética real. Estamos, provavelmente, diante de um daqueles casos em que o sujeito aprova, a priori, tudo o que seja de “vanguarda”, embora talvez não entenda direito a linguagem do artista a quem elogia. Sabe que tem de elogiar, e pronto.

         Tom Wolfe ironizou, no livro Radical Chique, os intelectuais ultra-refinados que flertavam com a esquerda extremista na Nova York dos anos 60 e 70. O maestro Leonard Bernstein se confraternizava com os Panteras Negras em festas nababescas. Talvez exista um outro tipo de “radical chique”, com os sinais trocados. É o sujeito que se insurge “contra o sistema”, que busca uma vida boêmia e alternativa, e que em conseqüência disso adota posturas estéticas extremistas, que a rigor combinam pouco com sua proposta política. O mundo pré-beatnik, aventureiro, boêmio, prefigurado por Henry Miller tinha mais a ver com baladas ao pé do fogo, com flautas doces, ou, se quisermos, com o rock e o bebop, do que com música atonal.

         Lendo Henry Miller sobre Varèse, vemos que os elogios são vagos, e o que a mensagem subjacente é a mesma do resto do livro.

 

         Quanto a Varèse, honestamente acredito que, se lhe dessem espaço, ele seria não apenas censurado, mas apedrejado. Por quê? Pela simples razão de que sua música é diferente. Esteticamente, somos talvez o povo mais conservador do mundo. Precisamos estar completamente bêbados para aceitar alguma coisa. Nossa educação é tão absoluta –e tediosa—que somos incapazes de gostar de alguma coisa nova, enquanto não nos explicarem do que se trata.

         (...) E assim o futuro, que é sempre iminente, acaba absorvido e frustrado, jogado para escanteio, sufocado, mutilado, às vezes aniquilado, criando a ilusão familiar de um mundo einsteiniano que não é carne nem peixe, um mundo de curvas finitas que levam ao túmulo ou ao asilo de pobres, ou ao hospício, ou ao campo de concentração, ou às cálidas e protetoras dobras do Partido Democrata-Republicano. E assim surgem loucos que tentam restaurar a lei e a ordem com o machado. Quando milhões de vidas se perderem, quando finalmente chegarmos a elas e as exterminarmos a machadadas, poderemos respirar com um pouco mais de conforto em nossas celas acolchoadas.

 

Muito radical, sem dúvida; mais brega do que chique, entretanto, e Varèse se perde nessa vaporização apocalíptica de clichês.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h52

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De Miller a Steinbeck

De Miller a Steinbeck

Vale a pena comparar Pesadelo Refrigerado, de Henry Miller, com outro livro de ensaios sobre os Estados Unidos, publicado há dois anos pela editora Record, na excelente tradução de Maria Beatriz Medina. Trata-se de A América e os Americanos, de John Steinbeck.

 

Sem dúvida, é um autor mais otimista, e profundamente apaixonado pelo próprio país. Marcado pelo esquerdismo na década de 30, terminou simpático à Guerra do Vietnã, sem deixar de se mostrar engajado na luta pelos direitos dos negros. Seja qual for o seu grau de “americanismo”, o leitor não tem como não se fascinar pela precisão narrativa de Steinbeck, seu senso da anedota significativa, sua humanidade e falta de retórica na reminiscência pessoal.

 

Enquanto Henry Miller bufa e sufoca ao ver Nova York, depois de dez anos na França, Steinbeck lembra como foi sua chegada à cidade, em 1925, com três dólares no bolso. Um cunhado lhe empresta dinheiro para passar a noite num hotel, e lhe arranja um emprego para o dia seguinte. Steinbeck, com dezenove anos na época, trabalhará carregando cimento na obra de construção do Madison Square Garden. Seus companheiros de trabalho eram negros na maioria:

 

não pareciam nem grandes nem fortes, mas empurravam aqueles carrinhos de mão de 150 libras como se fossem de algodão. Conversavam enquanto isso e cantavam enquanto isso. Nunca pareciam cansados. Eram dez, quinze e às vezes dezoito horas por dia. Não havia domingos. Havia hora extra, hora extra dobrada, dois dólares por hora. Se alguém escapulisse da fila, havia cinqüenta homens esperando para tomar o seu lugar.

 

(...) Lembro-me de um homem que despencou de um andaime alto perto do teto, e caiu a pouco mais de um metro de mim. Estava vermelho quando bateu no chão e aí o sangue do seu rosto arredou-se como uma cortina e ele ficou azul e branco sob as lâmpadas de trabalho.

 

São poucas linhas, que revelam bem mais do que o muito que Henry Miller escreve sobre os Estados Unidos num tom monocórdio, como a seguir.

 

Este mundo que está se construindo me enche de horror. Eu o vi germinar; posso vê-lo como um projeto. Não é um mundo em que eu queira viver. É um mundo adequado a monomaníacos obcecados com a idéia de progresso –mas um falso progresso, um progresso que fede. É um mundo coalhado de objetos inúteis que homens e mulheres, a fim de ser explorados e degradados, aprendem a ver como úteis (...) Neste mundo, o poeta é anátema, o pensador, um tolo, o artista é um escapista, o homem de visão, um criminoso.

 

Pode servir como discurso, mas é mais tedioso que qualquer paisagem industrial americana.   

Escrito por Marcelo Coelho às 11h50

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Henry Miller (2)

 

Pittsburgh, Pensilvânia: o horror?

(foto do site http://members.virtualtourist.com/m/a5262/d2254/)       

 

 

    A viagem de Henry Miller pelos Estados Unidos, narrada em Pesadelo Refrigerado (ed. Francis) parece um exercício retórico em torno de um horror invariável. Eis o autor em Pittsburgh:

 

         O espírito do lugar, o espírito dos homens que fizeram desta cidade o horror que ela é, penetra pelas paredes. Existe assassinato no ar. Tudo me sufoca.

 

De Pittsburgh ele vai para Youngstown, “atravessando um inferno que vai além de qualquer coisa imaginada por Dante”. Nunca fui de Pittsburgh para Youngstown, mas será que Henry Miller leu Dante?

        

A banalidade da comparação feita por Henry Miller só é menor do que a banalidade de Henry Miller quando ele não faz comparação nenhuma:

 

         Um homem sentado em uma poltrona confortável em Nova York, Chicago ou São Francisco, um homem cercado de todo luxo e no entanto paralisado pelo medo e pela ansiedade, controla a vida e os destinos de milhares de homens e mulheres que nunca viu, que nunca deseja ver e por cujo destino tem absoluto desinteresse.

 

Não é preciso atravessar os Estados Unidos de carro para escrever frases desse tipo. Não acredito que em 1939 essas idéias fossem menos triviais do que são hoje. Talvez o que tenha existido de novo, nesse tipo de “reportagem”, seja o que prefigura do “estilo gonzo” de jornalismo, celebrizado no final da década de 60 por Hunter Thompson. O tema da reportagem, a “missão jornalística” confiada ao escritor é mero pretexto para uma verborragia intoxicada, que tem resultados divertidos e românticos em A Grande Caçada aos Tubarões (editora Conrad).

 

Naturalmente, a crítica de Henry Miller ao “american way of life”, seu horror à sociedade de consumo, sua mistura de budismo, anarquismo e defesa da liberdade sexual, inspiraria os “beatniks” dos anos 50. Mas é uma pena que seu olhar não tenha um foco mais preciso, uma atenção mais autêntica para os detalhes, para a particularidade da experiência. Sem isso, não há jornalismo, nem literatura, que resistam.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h02

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Henry Miller e a América

Henry Miller e a América

Henry Miller, sem ar condicionado. Peguei a foto de um blog bem interessante, o "Liqüidifcador". (http://alancichela.wordpress.com/)

Pesadelo Refrigerado é o excelente título de uma coletânea de textos de Henry Miller sobre os Estados Unidos, que foi publicada agora pela editora Francis. Em 1939, depois de quase dez anos em Paris (onde escreveu Trópico de Câncer e Trópico de Capricórnio, Miller voltou aos Estados Unidos e, sem um tostão, resolveu percorrer seu país de carro, de ponta a ponta; a idéia era escrever um livro, com ilustrações de seu amigo, o aquarelista Abe Rattner, que o acompanharia na viagem. A idéia foi aceita por um editor novaiorquino, e o resultado está agora em mãos do leitor brasileiro.

Estou quase na página 100, e minha sensação é de uma enorme perda de tempo. Henry Miller não se importa a mínima em retratar os lugares que visita, os quais simplesmente detesta por igual. Seu texto se constitui de longos discursos contra os Estados Unidos, com muita coisa verdadeira, é claro, mas sempre num grau de generalidade –de banalidade mesmo—simplesmente exasperante. Alguns exemplos.

 

Um novo mundo não se faz simplesmente tentando esquecer o antigo. Um novo mundo se faz com um novo espírito, com novos valores.

 

Para conhecer a paz, o homem tem de experimentar o conflito. Tem de atravessar o estágio heróico antes de agir como sábio. Tem de ser vítima de suas paixões antes de se elevar acima delas. Para despertar a natureza apaixonada do homem, para entregá-lo ao diabo e expô-lo ao teste supremo, é preciso haver um conflito que envolva algo mais do que país, princípios políticos, ideologias etc. O homem em revolta contra a sua nauseabunda natureza –essa é a verdadeira guerra.

 

Isso estava sendo escrito enquanto Hitler invadia a Polônia, a Tchecoslováquia, a Bélgica e a França. Henry Miller, impregnado das idéias do guru indiano Swami Vivekanaanda, que lhe foram transmitidas através de um livro do pacifista Romain Rolland (pacifista durante a Primeira Guerra), não parece se importar muito com o nazismo:

 

não vejo razão para perder meu equilíbrio porque um homem chamado Hitler tem um ataque. Hitler vai morrer, como morreram Napoleão, Tamerlão, Alexandre e outros.

 

Sem dúvida, ele não sabia que antes de morrer Hitler mataria seis milhões de judeus nas câmaras de gás. Destruir Hitler?

 

os que acreditam que o único jeito de eliminar essas personificações do mal é destruí-las, que as destruam. Destrua tudo o que está à vista, se você acha que esse é o jeito de se livrar dos problemas. Eu não acredito nesse tipo de destruição. Acredito apenas na destruição que é natural, incidental e inerente à criação.

 

Hitler, certamente, tinha outras idéias a respeito de destruição.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h51

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voltaire de souza

Hoje também está indisponível o link para a coluna do "Agora". Reproduzo-a aqui.

O CALOR E A LÂMPADA

 

Os cientistas avisam. Aquecimento global. Morte do planeta.

O sr. Everardo resolveu tomar providências.

Chegou do supermercado carregando caixas de papelão.

--Lâmpadas novas. Ecológicas.

A família ouvia em silêncio.

--Nossas emissões de carbono vão ficar insignificantes.

Os filhos e netos davam um sorriso de ceticismo. O sr. Everardo percebeu.

--O que foi? Não acreditam? Bando de irresponsáveis.

As faces magras de Everardo atingiam tons de púrpura. A pressão subia.

Estava na hora do calmante. Um sono suave seguiu-se ao arroubo ecológico.

Na mente do sr. Everardo, surgiram minaretes. Tamareiras. Odaliscas.

Um jovem moreno apareceu em sua visão. Mostrando uma lâmpada especial.

--Aladim? É você? Posso esfregar?

Quando Everardo acordou, o ambiente já era outro.

Na UTI do Sírio Libanês, ele tentava esfregar parte da anatomia do enfermeiro Arismar.

Que tenta evitar como pode as conseqüências do aquecimento global.

Na alma de um homem, há desertos, calores, oásis e miragens maiores que o Saara

Escrito por Marcelo Coelho às 13h11

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Argerich, Rudge, Ravel

Argerich, Rudge, Ravel

Ainda sobre os "Jeux d´Eau", de Ravel, aqui está o link que um leitor indicou de Martha Argerich tocando a peça de Ravel: http://www.youtube.com/watch?v=lWeAbgA5tS4

Ela está linda e juvenil nesse filme, e toca com uma facilidade impressionante. Tudo é claro, cristalino. Há alguns esbarrõezinhos aqui e ali? Acho que sim. O principal é que ela apresenta uma visão muito em detalhe da obra, como se iluminada o tempo todo pelos raios do sol da manhã.

Um amigo me indicou a gravação de Antonietta Rudge, disponível num CD da série "Grandes Pianistas Brasileiros". Trata-se de gravação caseira, quando a grande pianista, aluna de Chiafarelli como Guiomar Novaes, já estava idosa, mas é uma interpretação impressionante. O acorde final, tantas vezes brusco em outras interpretações, aqui parece perfeitamente lógico e consonante. Há também um ralllentando mais ou menos perto do fim, em que a água parece aquietar-se, e se turva, sem o excesso de cloro que talvez seja o maior pecado de Argerich. Mas ainda fico com o romantismo quase germânico de Cortot, que inventa rebeliões na mão esquerda em guerra contra a superfície prateada dos agudos.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h32

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um poema de Auden

um poema de Auden

No centenário de W. H. Auden, vale citar um poema seu. Não me comovo muito com seus versos em memória de Yeats, que talvez sejam os mais famosos que ele escreveu. Prefiro "No, Plato, No", que em português resulta num título nada eufônico ("Não, Platão, Não"), mas que foi bem traduzido por João Moura Júnior, na coletânea de poemas de Auden publicada pela Companhia das Letras. Aqui vai.

Não consigo pensar em nada/ que eu desejasse menos ser/ que Espírito desencarnado/ sem poder comer nem beber/e nem contactar superfícies/ ou sentir os cheiros do estio/ ou compreender palavras e música/ ou olhar para o que está além./ Não, Deus me colocou bem lá/ onde eu gostaria de estar:/ bom mesmo é o mundo sublunar,/ no qual o Homem é macho ou fêmea/ e dá Nomes Próprios às coisas.

Posso, porém, conceber que os/ órgãos que Me deu a Natureza/ tais minhas glândulas endócrinas,/ dando duro vinte e quatro horas/ sem mostrar ressentimento,/para satisfazer-me, o Mestre,/e manter-Me sempre em boa forma/ (não que eu lhes tenha dado as ordens,/pois não saberia o que gritar), sonhem com uma outra existência/ que não a que até então conhecem:/sim, talvez minha Carne esteja/ rezando para que "Ele" morra/ e, livre, Ela possa tornar-se/ Matéria irresponsável.

Marx e Freud não estão longe de Auden, quando ele recusa Platão.

  

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h04

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Títulos: piores e melhores

Títulos: piores e melhores

Falei em post anterior de Patrick White, escritor australiano, prêmio Nobel de 1973. Não conheço sua obra, mas há um romance seu cujo título poderia entrar numa lista de “piores do século”: A Mandala Sólida.  

O francês Charles Dantzig lançou em 2005, com grande sucesso, um ambicioso e curiosíssimo Dicionário Egoísta da Literatura Francesa (editora Grasset). Há um verbete sobre títulos de livro que merece citação.  

Dantzig considera fraco, por exemplo, o título da obra-prima de Proust: Em busca do tempo perdido. Valeria mais a pena criticar o de seu primeiro volume, que em português até que é razoável (O Caminho de Swann), mas que na verdade, numa tradução literal, seria bem pouco estimulante: “Do lado da casa de Swann”. Dantzig comenta que, com o tempo, o título de um grande romance se torna “invisível”. 

É, acrescento, um pouco como os estranhos nomes próprios de políticos brasileiros. Juscelino, a rigor, deveria causar incômodo, como Aécio, Epitácio (de Epitácio Pessoa), e outros que tais. 

Há mais comentários nesse livro de Dantzig, que aliás poderia ter como título “Dicionário Pessoal”, “Dicionário Íntimo”, da Literatura Francesa, em vez desse algo cabotino Dictionnaire Égoïste de la Littérature Française. Mas que seja.

 

Ele cita maus escritores que eram ótimos de título, como Maurice Dekobra: Chamas de Veludo; Serenata ao Carrasco; A Pavana dos Venenos. “Poderíamos dizer, afinal, que ele era um escritor de títulos”. Alguns títulos merecem elogios de Dantzig sem que eu consiga entender muito por quê. Os convidados se encontram na villa (novela de Puchkin), Jérôme Paturot em busca de uma posição social (romance de Louis Reybaud, de 1842), e A Verdade sobre o Bebê Donge (de Georges Simenon). Provavelmente, o gosto de Dantzig se inclina para o intrigante, para o específico.

 

Acho especialmente bonitos os títulos de José Lins do Rego: Menino de Engenho, Fogo Morto. Seria Grande Sertão: Veredas um bom título? A favor, os dois pontos, talvez um caso único na literatura brasileira. Horrível, o do primeiro romance de José Cândido de Carvalho: Olha para o Céu, Frederico! O Coronel e o Lobisomem é dos mais eficientes. Nelson Rodrigues funciona ao aliar o apelo comercial com a fidelidade à sua visão de mundo: Asfalto Selvagem, O Beijo no Asfalto, Vestido de Noiva... Raduan Nassar é quase bom, mas força um pouquinho o aspecto “literário” da coisa: Lavoura Arcaica.

Mais fáceis eram os tempos em que se usava apenas o nome do personagem principal. Quincas Borba, Anna Karenina, Eugénie Grandet, Moll Flanders, etc. O abandono desse hábito talvez corresponda ao progressivo distanciamento do narrador. Um título que adotava o nome do protagonista teria, no fundo, a função “realista” de uma legenda debaixo de uma fotografia.  

Pode-se notar, aliás, que entre os românticos valia apenas o primeiro nome do protagonista: Silvie, de Nerval, Lucíola, de José de Alencar, Carmen, de Mérimée, Ivanhoe, de Walter Scott, René, de Chateaubriand. Depois é que vieram os sobrenomes.  

Já o título moderno tende ao comentário, não ao retrato. Mas não se pode esquecer, por exemplo, de Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. Seria uma exceção nos romances do século 20? Tema para uma pesquisa estatística.   

Escrito por Marcelo Coelho às 23h09

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Livros em prisões

Trasncrevo post do blog Verdes Trigos sobre doação de livros.

Como doar livros para a prisão

O Globo - 17/2/2007 - por Mànya Millen
A reportagem do Prosa & Verso do dia 3 deste mês, sobre as salas de leitura nas prisões cariocas, fez com que muitas pessoas ligassem para o jornal perguntando como fazer para doar livros. Os interessados em fazer doações podem ligar para o Instituto Oldemburg, tel. 21-2524-3322. O acervo total nos presídios do estado é de cem mil livros, e o projeto Salas de Leitura, elaborado pelo Instituto Oldemburg com apoio da editora Record, vem sendo implementado nas cadeias desde 2006: já são 15 salas no Rio.

[nota] No interior de São Paulo, o presídio de Presidente Venceslau/SP também necessita de livros para a sua biblioteca. O presídio conta com mais de 750 reeducandos e lá se desenvolvem alguns projetos de projetos de reintegração social, entre eles o ensino fundamental, médio e supletivo. Evidentemente para que o ensino seja aprimorado, faz-se necessário uma biblioteca paraauxilia-los em suas pesquisas escolares, assim como, também lhes proporcionar entretenimento saudável.

Os interessados poderão fazer doações encaminhando livros diretamente à Administração da Penitenciária, no seguinte endereço:

Penitenciária "Maurício Henrique Guimarães Pereira"
Rodovia Raposo Tavares, Km 623 - Bairro Horto Florestal
Presidente Venceslau - São Paulo
Fone: (18) 271-1025 / Fax Ramal 103
e-mail adm@pmhgp.sap.sp.gov.br
--
Posted by Henrique Chagas to verdestrigos at 2/21/2007 09:04:46 PM

Escrito por Marcelo Coelho às 22h58

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Dawkins: outras críticas

Dawkins: outras críticas

Mais polêmicas sobre The God Delusion, defesa veemente do ateísmo pelo biólogo Richard Dawkins. Leio na revista Harper’s de novembro passado um artigo bastante raivoso de Marilynne Robinson, cujas críticas investem em outro flanco.

 

Como Dawkins atribui à religião grande parte dos malefícios do mundo –fanatismo, terrorismo, inquisições diversas--, Marilynne Robinson resolve colocar a ciência no pelourinho, lembrando por exemplo as inúmeras justificações “científicas” para o racismo, de que o século 19 foi pródigo. Ela cita frases terríveis do grande evolucionista e divulgador inglês T. H. Huxley, o Dawkins da era vitoriana. Num ensaio sobre a abolição da escravatura, datado de 1865, T. H. Huxley dizia que “a emancipação dos escravos pode converter um animal bem nutrido num ser humano pauperizado”, e que não havia base “científica” para qualquer sonho de igualdade entre as raças.

 

Bem, T. H. Huxley estava errado, mas isso a meu ver não prova grande coisa contra Dawkins. Nem mesmo o mais histérico cientificista defende a infalibilidade da Ciência, como se fosse uma versão laica da infalibilidade do Papa. Uma diferença básica entre ciência e religião é que a primeira tem necessariamente de corrigir suas conclusões, submetendo-as a testes objetivos, nos quais os dados recolhidos não dependem da vontade do pesquisador, ao passo que é determinante, na religião, o peso da experiência subjetiva (êxtase místico, convicção pessoal, revelação, etc.)

 

Marilynne Robinson avança, entretanto, em mais uma linha de argumentos. Dizem respeito, mais uma vez, à teoria do “Boeing 747” (ver post anterior). Os criacionistas acham que seria impossível que um sistema tão complexo quanto a vida surgisse a partir do mero acaso. Dawkins retruca que, se em vez do acaso tivermos de pressupor um Deus criador do Universo, esse Deus teria de ser mais complexo, necessariamente, do que o Universo que ele criou. Sua existência seria, desse modo, ainda mais improvável do que a de um Universo surgido por acaso.

 

Para a autora do artigo, o raciocínio de Dawkins falha nesse ponto. Pois, na verdade, o biólogo está raciocinando em termos de causa e efeito que são puramente cientificistas. O Deus de muitas religiões, entretanto, preexiste ao Tempo e ao Espaço, ao Antes e ao Depois. Pensar que a Criação do Universo é “causa” de um “efeito” seria colocar a existência de Deus dentro dos parâmetros de um Universo já criado.

 

Marilynne Robinson continua: “Dawkins é incapaz de admitir, nem mesmo hipoteticamente, uma realidade que não está submetida às leis do Tempo, que não obedeça às leis do darwinismo tais como ele as concebe.” Dessa perspectiva, Dawkins é não só incapaz de entender um raciocínio religioso mais sofisticado, como também incapaz de entender teorias científicas como as do Big Bang.

 

De fato, diz ela, num livro anterior Dawkins deu mostras de não se conformar muito com a idéia do Big Bang: “desenvolvimentos dessa teoria, baseados em todas as evidências disponíveis, sugerem que o próprio Tempo começou com essa Mãe de Todos os Cataclismas. Você provavelmente não entende, e eu certamente entendo menos ainda, o que significa dizer que o próprio tempo começou num momento particular. Mas isso é uma limitação de nossas mentes...”

 

Difícil ou não de conceber, argumenta a autora, tanto o Big Bang quanto muitas religiões imaginam uma realidade “fora do Tempo”; e, no mínimo, o Big Bang oferece uma metáfora do tipo de argumento que faz os ataques de Dawkins à “hipótese do Boeing” pouco persuasivos para os teístas.

 

OK, mas uma coisa é dizer que “antes” do Big Bang não existia nada, outra é dizer que alguma coisa existia, e que era Deus. De resto, não é preciso ir tão longe no Tempo e no Espaço. Os criacionistas, que Dawkins critica, é que estariam sendo cientificistas demais ao imaginar Deus como dono de um laboratório primordial. Esse Deus fora do tempo, que Marilynne Robinson invoca, pode muito bem existir, se ela quiser, mas está... fora do tempo, fora do espaço, em nenhum lugar, em nenhuma época. Uma existência dessas, convenhamos, não é lá grande coisa. E se, por alguma mágica de antropomorfismo, quisermos fazer desse Deus absoluto um criador com a mão na massa, os argumentos de Dawkins recuperam toda a sua força de convencimento.   

Escrito por Marcelo Coelho às 19h45

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arte do eufemismo

A imprensa inglesa e a americana cultivam com grande capricho a seção dos obituários, e quando depois do 11 de Setembro o “New York Times” publicou pequenas biografias de todas as vítimas do atentado. O jornal inglês “The Daily Telegraph” deu fama ao grande “obituarista” Hugh Massingberd, entrevistado no livro The Dead Beat –The Perverse Pleasures of Obituaries, publicado recentemente por uma editora que leva o apropriado nome de Souvenir.

 

O “prazer perverso” do obituário está, diz Massingberd, no eufemismo, figura de linguagem em que ele foi mestre. No “TLS” de 2 de fevereiro aparecem alguns exemplos.

 

“Ele não era casado” (“he was unmarried”), que tanto pode significar o simples fato de o falecido ser solteiro, quanto ser sugestivo de sua sexualidade.

 

No obituário de um conhecido adepto inglês do nazifascismo, o jornal publicou: “não tinha notável entusiasmo pelos direitos civis”.

 

Melhor de todos: Fulano era “afável e hospitaleiro a qualquer hora do dia ou da noite”. Tradução: alcoólatra irrecuperável.

 

Nessa linha, é Roberto Campos quem, em seu livro de memórias Lanterna na Popa, mostra ter gosto pela perversidade literária. Mas não é propriamente eufemismo, é o circunlóquio a sua principal arma de ataque. De um político, ele observa que “privou durante décadas de uma grande intimidade com a garrafa”.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h39

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voltaire de souza

Como hoje não está disponível o link para assinantes, publico aqui mesmo a coluna do "Agora" desta quarta-feira.

 

SERIEDADE TEM HORA

 

Corrupção. Desperdício. Bandalheira.

Políticos e administradores nem sempre têm compromisso com o bem comum.

O dr. Cotegipe era uma exceção.

Administrador sério. Responsável. Econômico.

Na pequena cidade de Barranco, todos concordavam.

--Nunca houve um prefeito assim.

Num batizado, ofereciam salgadinho. O dr. Cotegipe se ofendia.

--Estão querendo me corromper? Isso eu não admito.

Chega o Carnaval. Tempo de relaxar.

Durante a noite, vários blocos se reuniam no Largo da Matriz.

Às seis da manhã, forró, frevo e marchinhas ainda dominavam o local.

O dr. Cotegipe apareceu de paletó e gravata. Escoltado pela PM.

--Vagabundos. Seus vagabundos.

Mandou a polícia descer o sarrafo.

O excelente pronto-socorro municipal providenciou curativos e ataduras.

Muitos carnavalescos pensam em protestar. Mas o dr. Cotegipe já avisou.

--Protesto e Carnaval. Duas formas de vagabundagem. É borracha em cima.

Alguns prefeitos, mesmo quando sérios, não têm mais o que fazer.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 19h28

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Mistério das tatuagens

No artigo de hoje para a "Ilustrada", analiso um pouco a moda da tatuagem entre os adolescentes e o seu reflexo, mais fácil de interpretar, na ousadia visual dos quarentões. Um paralelo que não me ocorreu fazer, no artigo, é entre a febre das tatuagens e a das pichações. Haveria em ambos os fenômenos um gosto pela "inscrição", desde que enigmática e ilegível. Pode-se duvidar de que algumas pichações consistam em "ornamento" para a cidade, mas sem dúvida têm em comum com o ornamento a idéia do gesto gráfico, caprichoso, por vezes repetitivo. Uma variedade no tédio, uma expressão no insignificante, uma "marca" sobre a superfície lisa. Assim também, sobre a pele, há uma necessidade de marcas: não sou tão jovem quanto você pensa, e trago, como marinheiros ou presidiários, os sinais de uma experiência que você, que me olha, será incapaz de decifrar. O link do artigo (para assinantes do uol) é http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2102200720.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 19h22

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pausa

Estarei sem condições de blogar até quarta-feira. Não é folia; é o computador do hotel em que estou que não facilita as coisas. Vou escrevendo enquanto isso e depois despejo tudo de uma vez.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h17

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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