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trenzinho Villa-Lobos
Está em cartaz no teatro Ruth Escobar um bonito espetáculo de bonecos: é o “Trenzinho Villa-Lobos”, da Companhia Articularte. A idéia é mostrar a infância do compositor brasileiro, e uma coisa simpática da peça é evitar a mística da “genialidade”, tão comum em biografias de todo tipo. O menino Tuhu (este o apelido do compositor, que se amedrontava com trens e era fascinado por eles) não prefigura o futuro gênio musical; é uma criança como qualquer outra de seu tempo, empinando papagaio e fazendo travessuras. Não está determinado desde o início da peça que ele tenha um talento fora do comum. As músicas de Villa-Lobos aparecem, entretanto, sem parar, com grande efeito emocional. Foram muito bem escolhidas e arranjadas: o famoso “trenzinho do caipira” é cantado pelos próprios manipuladores dos bonecos, num coral lindo e simples.
Nesse espetáculo, os manipuladores são sempre visíveis pelo público, e os bonecos, não muito grandes, são em sua maioria bonitos, sem entrar numa estética “expressionista”, de cores e formas exageradas. Os pássaros com quem o menino Tuhu brinca no quintal são realistas, assim como a figura de sua mãe; já o pai, tipo assustador e severo, é representado de forma um pouco mais fantástica, quase monstruosa.
É o único foco de maior tensão na narrativa, que se estende através de números quase coreográficos, e se perde em alguns episódios, como o de uma certa tia de Villa-Lobos que aparece apenas para apresentá-lo a J. S. Bach, numa referência que fica perdida para os pequenos espectadores.
Estes não demonstram grande entusiasmo ou excitação ao longo do espetáculo, mas não é mesmo esse o espírito de “Trenzinho Villa-Lobos”. Trata-se de criar um clima de encantamento, não de berreiro em bufê infantil. Eu, pelo menos, gostei bastante.
http://www.articularte.com.br/tusite/resumo.htm
Escrito por Marcelo Coelho às 15h43
O filósofo Renato Janine Ribeiro está sendo crucificado pelo que escreveu e pelo que não escreveu no seu artigo para o Mais! de 18 de fevereiro passado.
Ele foi convidado a fazer um artigo sobre o assassinato bárbaro de João Hélio, arrastado ao longo de vários quilômetros por um carro em movimento. Janine expressou, acima de tudo, sua emoção com aquele crime hediondo. De forma até patética, perguntou-se se poderia haver um Deus capaz de admitir tanta barbárie, e se poderá haver, para João Hélio, alguma recompensa após a morte. A intensidade dessas indagações é mostra, sem dúvida, do forte estado de indignação e perplexidade com que Janine escreveu o artigo.
Mas ele foi claro na questão sobre defender ou não a pena de morte para os assassinos.
defenderei a pena de morte, a prisão perpétua, a redução da maioridade penal? Não sei. Não consigo, do horror que sinto, deduzir políticas públicas, embora isso fosse desejável.
Só que estão tratando Renato Janine como se ele tivesse de fato defendido a pena de morte, a tortura judicial, o linchamento. Ele não fez isso.
A questão que ele levanta em seu artigo é outra, muito sincera e corajosa. Suas emoções o levam, “infelizmente” se quisermos, a desejar vingança: “torço para que os assassinos recebam sua paga (...) Quando penso que, desses infanticidas, os próprios colegas de prisão se livrarão, confesso sentir um consolo.”
É isso, e não qualquer defesa concreta de leis mais “duras”, o que chocou a opinião pública civilizada, e fez de Janine a vítima de ataques por todos os lados. Creio que, quando o atacam, não atacam as suas idéias –ele próprio se diz incapacitado de “pensar” sobre a pena de morte no momento. Atacam os seus sentimentos, ou melhor, o fato de ele os ter expressado.
Se fosse uma cantora de MPB, uma atriz tipo Fernanda Montenegro, o impacto do artigo teria sido outro. Celebridades têm “o direito público” de expressar “sentimentos impensados”. Um filósofo, ou melhor, um professor da USP, simpatizante do PT e alto funcionário da Capes, esse não tem legitimidade para tanto...
Por que não teria? Ele foi claríssimo ao dizer que não estava escrevendo de uma perspectiva puramente racional, teórica, filosófica. O tema verdadeiro de seu texto, aliás, era outro. Ele se pergunta se é possível, para ele, Renato, ter ao mesmo tempo convicções filosóficas racionais “civilizadas” e sentimentos de vingança tão viscerais.
Não deu solução para esse conflito interno. A meu ver, como bem observou Vinicius Torres Freire num dos primeiros artigos sobre o caso Janine, os sentimentos pertencem à ordem íntima, e passam; nada têm a ver com a discussão que realmente importa, que é a de como evitar que novos crimes bárbaros aconteçam. Esta última questão é a única, a rigor, que admite discussão racional; quais os fins que uma sociedade deve procurar? Quais os meios para atingir esses fins?
O problema de Janine é que, talvez, os meios que ele sempre julgou adequados (dentre os quais não está a pena de morte e a tortura) são incapazes de satisfazê-lo emocionalmente.
Ele não se conforma com esse hiato; discordo dele nesse ponto. O hiato é insuperável, e meus “sentimentos” não têm muito a ver com os meios de diminuir a criminalidade, e sim com os valores que defendo. Sou contra a pena de morte e a tortura porque são irracionais, não oferecem garantia ao cidadão comum contra o erro judiciário e a violência do Estado. Tornam a sociedade mais insegura para mim inclusive. Mas entendo que se odeie quem cometeu um crime bárbaro, a ponto de desejar a pena de morte. E acho que, do ponto de vista puramente emocional, a grande maioria quer isso. Acontece que, quando um filósofo diz que sente isso também, muitos intelectuais se sentem traídos por esse filósofo: desvelou obscenamente uma sensação que é de todo mundo; passam então a odiá-lo por isso, como se os ataques a Janine purgassem a nós todos da raiva vingativa e inconfessável que sentimos.
Escrito por Marcelo Coelho às 15h07
Concordo com o que escreve o filósofo Oswaldo Giacoia Jr, na Tendências/Debates de hoje, sobre a necessidade de se distinguir entre o espírito de justiça e o mero desejo de vingança. Giacoia critica, de uma perspectiva nietzschiana, os impulsos em favor de se introduzir a pena de morte no país. Também sou contra a pena de morte, principalmente porque torna irreparável qualquer erro judiciário. Mas o argumento de Giacoia contra a pena de morte é bem estranho.
Sou radicalmente contrário à pena de morte, pois tenho em elevado conceito a missão de julgar. Antes de qualquer condenação uma sociedade tem de conquistar o direito de julgar. Nossa sociedade carcomida e hedonista tem esse direito?
Isso não é bem um argumento contra a pena de morte, é um argumento contra qualquer legislação penal. Não temos direito sequer a condenar um cidadão a uma pena alternativa, se formos usar esse raciocínio.
Mas em seguida Giacoia se torna mais específico sobre o caráter hedonista e carcomido da sociedade. Aparentemente, o problema é uma desvalorização da vida.
Bagatelizamos o valor da vida a tal ponto que esta pouco se diferencia de qualquer produto.
Logo, instituir a pena de morte não seria razoável numa sociedade em que viver ou não faz pouca diferença:
Já não vivemos, consumimos nossas vidas, como desgastamos o mundo.
Mas será que, numa sociedade em que a vida for realmente vivida, e não “consumida”, estaria então justificada a pena de morte?
Por outro lado, se tantas pessoas querem agora a pena de morte, foi em função das emoções causadas pelo brutal assassinato do menino João Hélio. Essas pessoas que se chocaram com o assassinato também “bagatelizaram o valor da vida”? Ou foram seus assassinos?
O artigo de Giacoia termina num lance poético, próximo do ininteligível:
Soterrou-se em nossa memória coletiva o encanto e o mistério com que acolhíamos cada novo advento. No dia em que pudermos exultar com ele, como com uma luz num mundo de trevas, então talvez possamos repetir um novo começo.
O debate sobre criminalidade no Brasil vai ficando filosófico demais.
íntegra do artigo de Giacoia em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0103200708.htm
Escrito por Marcelo Coelho às 14h34
Não sei se a queda nas Bolsas de todo o mundo foi apenas um episódio passageiro ou o início de uma crise mais séria. Mas ontem a TV mostrou algumas cenas de estabelecimentos na China, onde se reúnem pequenos investidores. São como cinemas, com centenas de cadeiras, e uma tela na frente, mostrando as cotações dos papéis. Em seguida, a câmera focalizou em close uma sexagenária, fazendo tricô, com os olhos grudados nos índices de seus investimentos. Tudo parecia claramente um bingo. Não entendo do assunto, mas quando velhinhas tricotando começam a participar do dia-a-dia das Bolsas de Valores, é óbvio que se está no meio de uma febre especulativa, que termina muito mal. Para a velhinha, principalmente.
Escrito por Marcelo Coelho às 10h08
Por falar em fraudes, todo mundo já deve ter recebido aqueles e-mails em inglês, onde alguém se dizendo advogado na Nigéria afirma existir uma herança em nosso nome, ou uma extraordinária oportunidade de negócios com ações ou minas de ouro. Sempre achei que seria mínimo o número de pessoas capazes de cair nesse tipo de vigarice, mas a revista Harper's de fevereiro indica que, só na Grã Bretanha, internautas gastaram 661 milhões de dólares com essa brincadeira. Será que entendi mal o inglês? Eis o texto, baseado em relatório do Office of Fair Trading, de Londres:
amount that Britons paid to "nigerian-style" e-mail and letter scams last year: $661,500,000
Foram-se os tempos em que a Inglaterra era acusada de ser a "pérfida Albion", em especial por seus desmandos nas antigas colônias. É a vingança da Nigéria, agora...
Escrito por Marcelo Coelho às 16h30
Joyce Hatto, a fraude
O viúvo da pianista britânica Joyce Hatto terminou confessando: produzira falsos CDs, misturando gravações de outros pianistas, acelerando um pouco os tempos, modificando às vezes os próprios canais de gravação, de modo a "criar" artificialmente uma intérprete capaz de fabuloso desempenho técnico, refinada musicalidade e repertório gigantesco. Foram lançados mais de 100 CDs de Joyce Hatto, tornando-a "a maior pianista de quem nunca ninguém tinha ouvido falar", como disse um crítico do Boston Globe.
Joyce Hatto, a pianista real, tinha interrompido sua carreira na década de 70, por estar doente de câncer. Seu marido conta que, com ela doente, ainda tentavam gravar novas peças, mas os seus gemidos de dor terminavam interferindo na gravação. Começou substituindo algumas partes do CD, onde esses gemidos eram audíveis, por trechos tocados por outros pianistas. A técnica foi evoluindo até configurar-se na maior fraude fonográfica da história da música clássica.
Os críticos que elogiaram os discos de Joyce Hatto agora são acusados de não terem percebido a fraude. Diversas interpretações revelaram-se, depois de análise em computador, idênticas às de gravações de outros pianistas, alguns célebres como Marc André Hamelin e Vladimir Ashkenazy. As desconfianças com relação à fraude vieram, entretanto, dos próprios críticos e ouvintes, que levaram à comparação digital entre os CDs supostamente feitos por Hatto e os de outros pianistas. Sem dúvida, a desconfiança nasceu principalmente do estado de saúde da pianista. Mas é difícil esperar que um crítico se lembrasse de todas as interpretações de um estudo transcendental de Liszt, em especial a de um pianista menos conhecido, e identificasse imediatamente essa gravação com a atribuída a Hatto. Sem contar que houve uma série de truques acústicos para disfarçar a fraude. Um crítico não é um computador. Não foram os seus critérios de julgamento que entraram em colapso, mas sim sua memória auditiva.
Continuo confiando em colaboradores especializadíssimos, como os da revista Diapason, na França, e os da Gramophone, na Inglaterra. Eles próprios se divertem fazendo "audições cegas", nas quais criticam CDs sem saber quem está tocando. Isso traz, naturalmente, surpresas. Mas confirma muitos julgamentos também.
É claro que o nome, o rosto, de um pianista pode interferir no julgamento de um crítico. Ter nascido num país tropical, por exemplo, pode levar a um artista ser identificado com "arroubos" e "sensualidade"; o fato de um intérprete ser homem ou mulher pode decidir alguma coisa na escolha dos adjetivos empregados pelos críticos. Ainda assim, eles a meu ver entendem terrivelmente do assunto. Lembro-me de um teste feito há anos numa revista de música clássica, em que vários de seus colaboradores tinham de adivinhar quem tocava o quê, numa série de faixas selecionadas entre as coisas mais obscuras e marginais já gravadas por um ser humano. O índice de acertos era enorme. Não custa esperar que se façam mais testes desse tipo. Computadores estão aí para isso mesmo.
PS em 1/3/2007- Ficaria bem clara a falha dos críticos se eles tivessem considerado "medíocre" a gravação do pianista X e "genial" a de Hatto, que era apenas uma cópia da gravação de X. Mas não tenho informação para saber se isso aconteceu com algum crítico, em algum disco específico.
O material sobre a fraude de Joyce Hatto é extenso na internet. Eis três links interessantes. O primeiro mostra os aspectos técnicos da comparação, o segundo historia mais longamente o caso, e o terceiro noticia a confissão do viúvo.
http://www.pristineclassical.com/HattoHoax2.html
http://www.charm.rhul.ac.uk/content/contact/hatto_article.html
http://www.gramophone.co.uk/newsMainTemplate.asp?storyID=2765&newssectionID=1
Escrito por Marcelo Coelho às 15h33
No artigo de hoje para a "ilustrada", comento recentes premiações do Oscar. Cada vez mais se enaltecem os atores que imitam perfeitamente personagens históricos reais. Será que não existe nisso uma diminuição da arte interpretativa? Link para assinantes do uol: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2802200725.htm
Escrito por Marcelo Coelho às 09h45
Com o aquecimento global, alguns ecologistas importantes passaram a defender o uso da energia nuclear como alternativa mais “limpa” às tradicionais termelétricas e hidrelétricas. Sou ainda do tempo em que se dizia o contrário, e me espanto com essa reviravolta.
Recebi de uma professora da USP (da área de Psicologia, esclareço) um recorte interessante, de um artigo escrito por Carlos Drummond de Andrade em 1980. Ele reproduzia os argumentos de um “Movimento em Defesa da Vida”, que se insurgia contra os investimentos nas usinas nucleares de Angra dos Reis. O movimento, afirma Drummond, tinha a orientação de geneticistas e físicos da USP.
Seria curioso saber o que os signatários do texto acham dele hoje em dia, e se a questão da segurança nas usinas nucleares melhorou. As preocupações expressas por Drummond são anteriores, vale sublinhar, ao acidente de Chernobil e ao caso do césio em Goiânia. Aqui vão uns trechos do artigo, que resume as idéias do manifesto antinuclear.
O estrôncio-90 concentra-se com medonha eficácia nas cadeias alimentares do homem; infiltra-se no solo e na água, com efeitos patogênicos sobre a população. Semelhante à do cálcio, sua estrutura se fixa nos ossos em formação das crianças, assumindo o lugar daquele. Mas continua sendo estrôncio radioativo, produzindo leucemia e câncer. (...)
Entre 1966 e 71, a usina de reprocessamento de Westvalley deixou escapar 45% do total de iodo-129. Isto provocou a 7 km de distância uma radioatividade 10 mil vezes maior do que a normal. E nossas usinas serão do tipo Westvalley.
Tais irradiaçôes rompem o código de reprodução, a programação genética que cada célula possui. Em 1969, pequeno acidente num reator do Colorado causou vazamento de partículas radioativas. Quatro anos depois, o Departamento de Saúde verificou que nas fazendas da região nasciam animais disformes.
O plutônio, raro na natureza, é produzido no reator a partir do urânio. É das substâncias mais cancerígenas que existem. Inalado com o ar, instala-se nos brônquios e pulmões, emitindo raios-alfa para os tecidos vizinhos. Como o ferro, combina-se com as proteínas que transportam esse elemento para o sangue. Param no fígado, nas células que armazenam ferro e nos ossos; leucemia. E cada reator produz por ano cerca de 250 kg de plutônio, com meia-vida de 500 mil anos!
Claro, é um texto de 1980, e ignoro sua atualidade científica. Mas assim vamos indo, de alerta em alerta, de medo em medo.
Escrito por Marcelo Coelho às 19h12
negritos
Não sei por que aparecem em negrito alguns dos versos citados nos posts anteriores. São azares da informática, não destaque negativo.
Escrito por Marcelo Coelho às 10h11
anti-antologia poética (4)
Na mesma linha das “palavras poéticas” (“cartografia”, “veredas”, etc., que citei no post anterior), vale lembrar “território”, como neste exemplo, tirado de Poesia Sempre, revista da Biblioteca Nacional, 2005:
Percorrer o território da paixão
na ausência mansa de palavras
(quando apenas os olhos se falam).
Há também os falsos indicadores de “revolta” poética: “delírio”, “insânia”, “insubmisso”, e sua contrapartida de “esperanças”, “assombros”, “iluminações”, “centelhas”:
Que não se extermine
no homem a réstia
de lume adiante.
Isso o faz morto ou bicho.
Germina a flor da vingança.
(...)
Menino,
teu sonho é de pólvora.
Centelha
que se espalha.
Por vezes, as coisas não dão certo, e
um ferrão subjuga a aurora.
Que tal tentar uma “liturgia”?
uma alucinação insípida naquela linguagem. a mais pura liturgia ante o surto.
Mais intensa, talvez, esta solução:
O amor editou suas garras
em meu delírio
(...)
De algum rugir indomável
(submerso como o pulsar
das pedras) sinto
o vórtice
do seu brilho
na jugular.
Citei trechos de quatro poetas diferentes, na mesma revista. Não é minha intenção criticá-los individualmente, mas registrar um certo padrão.
Escrito por Marcelo Coelho às 10h05
anti-antologia poética (3)
Antigamente, os poetas procuravam palavras complicadas e sonoras para fazer versos meio tolos e ocos. Com o modernismo, e em especial Manuel Bandeira, tem-se a impressão de que o máximo de poesia é atingido com um mínimo de recursos –o que não quer dizer necessariamente “concisão”, se entendermos “concisão” como uma espécie de compressão, espremeção de significados em poucas linhas. Ao contrário, nada mais arejado e claro do que um poema de Manuel Bandeira. Não é difícil entender o significado de cada verso de Bandeira. A exigência que ele faz ao leitor é de outra ordem: trata-se de entender, ali, onde está o poético; e o poético, em Bandeira, não depende necessariamente das “palavras poéticas”, dos apelos vocabulares ao sublime e ao infinito.
Acho que muitos poetas, atualmente, consideram “conciso” o poema empedrado, meio complicado, em que palavras simples foram substituídas por “palavras poéticas”, só que não mais segundo o gosto parnasiano (“alva”, “ebúrnea”, “alabastrina”, coisas do gênero) mas sim segundo um (mau) gosto abstratizante, próximo do filosofês.
Um exemplo, tirado ainda da revista “Poesia Sempre”, janeiro-março de 2006:
nosso coração é mais imenso
do que infindos universos
onde amor e sonho incomensuram.
“Esculpir” é um verbo que esse tipo de poesia acaba sempre usando. “Tecer” também:
Fiapos áureos
são tecidos pelas horas
e o tempo com seu olhar fosforescente
esculpe teu rosto terno.
Claro que é sempre necessário falar do tempo, ou melhor, do Tempo. Em geral, vale juntar com outros substantivos aparentemente precisos, mas na verdade abstratos: “cartografia”, “veredas”, “traçados”... Termos assim são facilmente intercambiáveis, produzindo “iluminações poéticas” de monte: “cartografia da memória”, “veredas do tempo”, “traçados do infinito”, “veredas do desejo”, etc.

Escrito por Marcelo Coelho às 09h09
Anti-antologia poética (2)
Prossigo citando trechos de uma revista de poesia contemporânea brasileira, que podem valer como “anti-antologia” do que se faz hoje em matéria de “rigor” e “dicção elevada” . Na página 94, um poeta fala da cidade de
...Caruaru,
Tingindo-se de tempo, driblando memórias
É o “poético” convencional que predomina atualmente. Na página seguinte, um poeta (na tradição exausta da metalinguagem) deseja um
poema
que do silêncio tire versos
das entrelinhas,
cânticos
do espaço em branco
e que, no final,
...faça vibrar os tímpanos da alma.
É aspiração por demais sublime, dir-se-ia. Na mesma chave, na página 97, quer-se um discurso graças ao qual
casca superfície epiderme
polpa apodrecida pelo tempo
se despedem
e
vinga a dureza inviolável
do caroço.
Caso, entre vários, da (má) influência de João Cabral: elogio abstrato, e em última análise parnasiano, das essencialidades imutáveis, traduzido em metáfora concreta (e banal) do “caroço”. Em João Cabral de Melo Neto isso era um compromisso, um programa, e um “motor” para a poesia. Aqui, é aspiração imitativa.
E a “adjetivação poética”? Valeria um capítulo à parte. A idéia, naturalmente, é causar surpresa juntando um substantivo concreto a um adjetivo “psicológico”, “mental”, mas o resultado é gasto, meio absurdo, meio pomposo, quando não puro clichê:
pedaços lícitos de pão
insana riqueza
tentáculos ávidos
frenéticas mãos
Ou então é o pomposo puro e simples, na página 102
...o ido/sulco que o caminho da nau perfaz.
Ou:
Que idéia-horizonte me guia o leme
só o sabe o desígnio do instante (...)
Escrito por Marcelo Coelho às 00h46
Anti-antologia poética
De uma ótima revista de poesia, editada pela Biblioteca Nacional (Poesia Sempre, ano 13, número 22) seleciono alguns versos e trechos a meu ver bem ruins, mas ilustrativos de um padrão médio atualmente em voga na poesia brasileira. Depois da liberdade modernista, ganharam prestígio as exigências de concisão e de “rigor”. Escrevi certa vez que há mais “rigor” na poesia brasileira contemporânea do que em todo o IML. Evidentemente, ninguém mais escreve do jeito parnasiano, com rimas preciosas e vocabulário clássico. Mas há um pedantismo “elevado” , um tom sério e “rigoroso”, capaz de muita coisa feia, sendo praticado por aí. Cito alguns exemplos, sem dar o nome dos autores, que em geral são pouco conhecidos.
Na página 83, um poema começa assim:
Sereno já me agasalho
No casulo do meu ócio
Com a veste leve da espera
Cobrindo todo o meu corpo
Os ponteiros já me apontam
--Setas cediças ao vento—
Minutos intumescidos
Na febre lenta das horas
Antes tão despudorada
Acesa em fogo de instantes
Durando enquanto durassem
Os momentos mais afáveis.
Eis um exemplo de “rigor”, com efeito. Há a intencional repetição de palavras cognatas (ponteiros/apontam), que ecoa em “durando enquanto durassem”. Há a alusão sexual a uma “espera” com “ponteiros” que parecem apontar “minutos intumescidos”. Mas a obscuridade poética não disfarça o que há de mau gosto, simplesmente, no poema: “casulo do meu ócio” é uma imagem feia –não tenho outro termo para qualificá-la; e há um quase-clichê na sonoridade de “febre lenta das horas”. Mais adiante, no poema, fala-se de um “canto insulado”. Não é propriamente o gosto parnasiano pela “palavra difícil”; é outra coisa, o culto contemporâneo da “palavra poética”, o que se revela aqui.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h44
música clássica
http://www.falardemusica.blogspot.com/
O colega João Luiz Sampaio, do "Estado", tem um blog sobre música clássica que vale a pena visitar sempre.
Escrito por Marcelo Coelho às 11h08
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PERFIL
Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.
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