Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

triunfo da picaretagem

triunfo da picaretagem

         O jornalista Francis Wheen colabora para o jornal inglês The Guardian, e parece ser um firme adepto da razão iluminista. Comecei a ler seu livro atraído pelo título –Como a Picaretagem Conquistou o Mundo (lançado agora pela editora Record). Estou na página 67, e começando a me decepcionar.

O primeiro capítulo é um ataque violento a Margaret Thatcher e Ronald Reagan, ironizando em especial os elogios que ambos faziam à ganância e ao espírito de livre iniciativa.

Há frases de Thatcher que realmente merecem toda ironia. Uma delas é a “espantosa exegese bíblica”, nas palavras de Wheen, que a primeira-ministra britânica fez em certa ocasião a respeito da parábola do Bom Samaritano: “Ninguém se lembraria dele”, disse Thatcher, “se ele tivesse apenas boas intenções. Ele também tinha dinheiro”.

O tom de todo esse capítulo, entretanto, parece fácil e superficial. Francis Wheen critica as teorias econômicas de Reagan (a famosa idéia de que a receita tributária aumenta se baixarmos as alíquotas dos tributos), mas os números que utiliza não ficam bem explicados. Conta que o governo Reagan baixou tremendamente os impostos dos mais ricos: de 70% para 50% e, depois, para 28%. E continua, no parágrafo seguinte:

 

De acordo com a Curva de Laffer [fundamento matemático da teoria] os cofres públicos, àquela altura, deveriam estar abarrotados de receita adicional, tanto assim que o orçamento poderia equilibrar-se dentro de um ou dois anos. A realidade não poderia ter ficado mais distante da teoria: durante os oito anos de Reagan na Casa Branca, o total do déficit federal saltou de aproximadamente 900 bilhões para mais de 3 trilhões.

 

Pode ser que a Curva de Laffer tenha sido uma “feitiçaria econômica”, como diz Francis Wheen, mas os dados dele não provam nada. Ele teria de ter apontado uma queda na receita tributária depois da adoção do corte dos impostos. Preferiu apontar um aumento do déficit, o que não é a mesma coisa. A receita pode perfeitamente ter aumentado muitíssimo, e o déficit ter aumentado mais ainda, se os gastos do governo tiverem sido maiores do que o aumento da receita.

Mais adiante, citando John Kenneth Galbraith, ele mostra a febre especulativa das bolsas na década de 80, e o grande “crash” da segunda-feira negra (19 de outubro de 1987). Recheia a narrativa com fatos divertidos. Ficamos sabendo que um colapso financeiro do passado teve como vítima Isaac Newton.

 

“Sei calcular os movimentos dos corpos celestes, mas não a insensatez das pessoas”, disse ele ao vender suas ações da South Sea Company com um belo lucro, em abril de 1720, antes que a bolha estourasse; no entanto, poucos meses depois, tornou a entrar no mercado, na alta, e perdeu 20 mil libras esterlinas. 

 

Há um pequeno truque jornalístico aqui, uma vez que não foi quantificado o “belo lucro” de Newton na primeira operação; ele saiu perdendo ou lucrando no final? Mas vamos adiante. Wheen faz referência a toda uma série de teorias absurdas que dominavam os cérebros econômicos nos anos da especulação yuppie. Havia, por exemplo, “a teoria do Super Bowl, que dizia que o mercado de ações sempre subia quando um time da antiga Liga Nacional de Futebol vencia o campeonato. E por que não? Afinal, essa teoria fora confirmada em 18 dos 20 anos anteriores, um índice de sucesso mais impressionante do que o dos métodos de previsão convencionais.”

 

Certo. Mas quem formulava a sério essa teoria? Terá tido o mesmo peso do que a declaração, esta sim impressionante, do economista Irving Fisher, de Yale, que disse, dias antes do craque de 1929, que “os preços das ações atingiram o que parece ser um patamar permanentemente alto”?

Mais importante do que isso: por que, ao que tudo indica, o colapso de 1987 não teve o mesmo impacto recessivo que o de 1929? Como é que, mesmo mantidas as “panacéias” –como diz Wheen—da privatização e do livre mercado, a economia mundial cresceu tanto na década seguinte?

Iluministas também escreviam panfletos. Mas o de Wheen corre o risco de ficar em desvantagem comparado a de seus adversários ideológicos, se for tudo nessa toada.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h53

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Cabaré Paulista

Cabaré Paulista

Um cadáver domina a sociedade –o cadáver do trabalho. Todos os poderes ao redor do globo uniram-se para a defesa desse domínio: o Papa e o Banco Mundial, Tony Blair e Jörg Haider, sindicatos e empresários, ecologistas alemães e socialistas franceses. Todos eles só conhecem um lema: trabalho, trabalho, trabalho!

         

Os que ainda não desaprenderam a pensar reconhecem facilmente que essa postura é infundada. Pois a sociedade dominada pelo trabalho não passa por uma simples crise passageira, mas alcançou seu limite absoluto. A produção da riqueza desvincula-se cada vez mais, na seqüência da revolução microeletrônica, do uso da força de trabalho humano –numa escala que há poucas décadas só era imaginada como ficção científica. Ninguém pode afirmar seriamente que esse processo será freado mais uma vez, ou mesmo possa ser invertido. A venda da mercadoria força de trabalho será no século 21 tão promissora quanto a venda de diligências no século 20. Nesta sociedade, no entanto, não consegue vender sua força de trabalho é considerado ‘supérfluo’ e é jogado no aterro sanitário social”.

 

Assim começa o “Manifesto contra o Trabalho”, escrito pelo grupo político organizado em torno da revista alemã “Krisis”, do qual faz parte o filósofo Robert Kurz. Foi publicado no Brasil em 2003, pela editora Conrad, dentro da Coleção Baderna. O texto causa impacto luminoso, e angustiada surpresa, quando lido. Um grupo de ex-alunos de Filosofia da USP teve a idéia de utilizar trechos desse manifesto para um espetáculo teatral. Algumas partes do manifesto são lidas, com raiva ou ironia; outras vezes são cantadas, em meio a canções diversas (de Kurt Weil a Edith Piaf), no espírito de um “cabaré filosófico”.

 

Ou melhor, “Cabaré Paulista” –este o nome do espetáculo em cartaz no espaço Maquinaria (rua 13 de maio, 240, 2o andar) toda sexta-feira, às 21h (confirme os horários no telefone 3259-7580).

 

O ambiente não poderia ser mais caseiro, com sofás e cadeiras numa espécie de sala de estar; os próprios atores servem cerveja e refrigerantes à reduzida platéia. Tudo faz parte, sem dúvida, do esforço brechtiano de romper com as convenções de um espetáculo “pronto”, que se apresentasse como realidade inquestionável para o espectador. Embora o humor da adaptação e a graça juvenil do elenco atendam à necessidade de entreter o público, certamente o foco maior está em fazê-lo pensar, divulgando teses incômodas sobre o capitalismo contemporâneo, para as quais, dispensável dizer, não são propostas soluções salvadoras.

 

Os números musicais cantados em francês e inglês me deixaram pouco à vontade, como se estivesse num sarau de família. As interrupções de um ator negro, exemplificando com seu próprio caso a dificuldade em arranjar emprego para seu talento, são talvez o momento de maior força teatral propriamente dita no espetáculo; é como se faltasse, em outros números do “cabaré”, um componente maior de autenticidade pessoal, de testemunho dramático, nas intervenções do elenco.

 

Talvez seja preconceito meu; há algo de excessivamente saudável e feliz na aparência das atrizes, que parece contrastar com a radicalidade revolucionária do texto. Mas não sou eu quem vai atirar a primeira pedra nesse assunto. Por outro lado, isso também funciona: a leveza e a contradição agregam valor, se posso dizer assim, a esse Manifesto, que de qualquer modo não é “dos trabalhadores”, mas contra o trabalho.

 

No mínimo, tomamos conhecimento de idéias que parecem óbvias, embora negadas por todo mundo –exceto nas projeções otimistas de Domenico de Masi. Aqui, não há otimismo nenhum. Milhões de pessoas, talvez bilhões, estão jogados numa realidade social implacável, sem ter sequer os seus grilhôes para quebrar. 

Escrito por Marcelo Coelho às 19h27

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profecias de Benda

profecias de Benda

         Falei do lançamento, pela editora Peixoto Neto, de A Traição dos Intelectuais, de Julien Benda. Não reli agora o livro, para avaliar sua tradução. Benda não era um grande estilista, mas as páginas finais do livro, que o crítico Étiemble elogia literariamente, merecem ter alguns trechos citados aqui. Publicadas em 1927, são certamente proféticas; copio da tradução de Paulo Neves, que me pareceu transmitir fielmente a fria e exata indignação do original. Benda critica a submissão dos intelectuais às paixões políticas, o pragmatismo de suas alianças com os poderes constituídos.

 

         (...) Voltando ao realismo de meus contemporâneos, e a seu desprezo pela existência desinteressada, direi que sobre esse ponto uma angustiante questão atormenta às vezes meu espírito. Pergunto-me se a humanidade, submetendo-se hoje a esse regime, não encontra sua verdadeira lei e não adota enfim a verdadeira escala de valores que sua essência pedia. A religião do espiritual [isto é, a busca desinteressada da verdade], eu dizia mais acima, parece-me na história humana um acidente feliz. Direi mais: parece-me um paradoxo. A lei evidente da matéria humana é a conquista das coisas e a exaltação dos movimentos que a asseguram; foi pelo mais prodigioso dos abusos que um punhado de homens seguros conseguiu fazê-la acreditar que os valores supremos eram os bens do espírito. Hoje ela desperta dessa miragem, conhece sua verdadeira natureza e seus reais desejos, e lança um grito de guerra contra os que durante séculos ocultaram-na dela mesma. Em vez de se indignar com a ruína de seu império, esses usurpadores (na medida que restam alguns) não seriam mais justos em se admirar que ela tenha durado tanto tempo? Orfeu não podia esperar que até o fim dos tempos as feras se deixariam seduzir por sua música. Todavia, talvez se pudesse esperar que o próprio Orfeu não se tornaria uma fera.

         Há a necessidade de dizer que a constatação dessas vontades realistas e de seu violento aperfeiçoamento não nos faz de modo algum desconhecer o prodigioso aumento de doçura, de justiça e de amor inscrito hoje nos costumes e nas leis, e com o qual nossos antepassados mais otimistas teriam certamente ficado estupefatos? (...) talvez não se considere o bastante o inacreditável grau de civilização que testemunham, na guerra das nações, o tratamento dos prisioneiros, e o fato de cada exército cuidar dos feridos do inimigo, e, nas relações de classe, a instituição da assistência, pública e privada (...) Contudo, observarei que essas suavizações não são decorrentes em nada da época atual; são efeitos do ensinamento do século 18, precisamente contra o qual os “mestres do pensamento moderno” estão em revolta. A instituição das ambulâncias de guerra, o grande desenvolvimento da assistência pública são obras do Segundo Império francês e resultam dos “clichês humanitários” dos Victor Hugo, dos Michelet, pelos quais os moralistas do último meio século têm o maior desprezo. Elas existem, de certo modo, contra esses moralistas, nenhum dos quais fez uma campanha propriamente humana, sendo que os principais, Nietzsche, Barrès, Sorel, se envergonhariam de poder dizer como Voltaire:

                  Fiz uns poucos benefícios, foi meu melhor trabalho.

         Acrescento que esses benefícios são hoje apenas costumes, isto é, atos feitos por hábito, sem que a vontade participe, sem que o espírito reflita sobre seu sentido, e que, se o espírito de nossos realistas resolvesse um dia pensar neles, não me parece de modo algum impossível que os proibiria. Imagino perfeitamente uma guerra próxima em que um povo decidiria não mais medicar os feridos de seu adversário, uma greve em que a burguesia não decidiria mais manter hospitais para uma classe que a arruína e quer sua destruição; imagino perfeitamente tanto um como a outra se glorificando de libertar-se de um “humanitarismo estúpido” e encontrando discípulos de Nietzsche e de Sorel para enaltecê-los. A atitude dos fascistas italianos ou dos bolchevistas russos em relação a seus inimigos não me parece desmentir. O mundo moderno ainda apresenta falhas para o puro prático, manchas de idealismo que ele gostaria de lavar.  

Escrito por Marcelo Coelho às 16h38

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pobre Cazaquistão

Não bastasse o Borat, alguém inventou um site, supostamente feito pelo governo do Cazaquistão, para fazer campanha contra o filme... a gozação é terrível, e mais sutil. Veja em http://stopborat.com/  A referência  veio no blog http://ojardimeletrico.blogspot.com/, de Camila Zanetti, que entretanto também detestou Borat.

Outra indicação de um leitor é a de um artigo no "New Yorker": http://www.newyorker.com/shouts/content/articles/061204sh_shouts

Escrito por Marcelo Coelho às 15h12

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Borat, o bárbaro

Borat, o bárbaro

Tive um certo trabalho para fazer o artigo de hoje na "Ilustrada" sobre o filme "Borat". Não fosse pelo Leonardo Cruz, redator da Ilustrada e colega de blog na Folha Online, eu teria posto um comentário contestável. Considerei que a cena de Borat com Pamela Anderson, atriz pornô que ele tenta seqüestrar, era mais uma demonstração dos costumes relativamente civilizados dos americanos. Os seguranças da atriz intervém de modo mais ou menos indolor e "técnico". Aqui, provavelmente Borat não sairia vivo da aventura. Mas Leonardo Cruz me avisou a tempo: aquela é uma das poucas cenas montadas do filme. Não temos certeza do que teria realmente acontecido. 

Tirei a menção. E sempre há o problema do tamanho. Um ponto que eu queria destacar é o da quase unanimidade da crítica nos elogios ao filme. Consulto sempre que posso um site interessante, chamado rottentomatoes, que reúne dezenas de textos publicados na imprensa americana e inglesa sobre qualquer filme que você queira consultar. Vale dar uma olhada. O "tomatômetro" para "borat mostra 91% de aprovação.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h35

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mulheres escritoras

mulheres escritoras

         A ensaísta e crítica Joan Acocella, em Twenty-eight artists and two saints, tem coisas importantes a dizer sobre a carreira de mulheres escritoras:

 

Muitas delas são brilhantes, e desse brilhantismo pode resultar um romance, como o que Zelda Fitzgerald escreveu. Mas para escrever cinco romances (Scott Fitzgerald) ou dezessete (Nabokov) –construir uma carreira—você tem de ter, além do brilhantismo, uma série de virtudes menos glamurosas, por exemplo: paciência, resistência, coragem. Lucia Joyce encontrou obstáculos e largou as mãos;  James Joyce encontrou obstáculos piores... e persistiu. Quando os críticos escarneceram do romance de Zelda, ela parou de publicar; quando Scott sofreu invertidas –na verdade, quando ele era um bêbado caindo pelas paredes—ele continuou esperançoso, trabalhando... Enquanto a natureza parece oferecer brilhantismo igualmente a homens  e mulheres, a sociedade não o alimenta igualmente nos dois sexos, e assim faz as mulheres menos encorajáveis. Muito menos, nas mulheres, o mundo recompensa o egoísmo, que os artistas, deva-se dizer com tristeza, parecem precisar.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h48

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jornais ontem e hoje

Para a revista da Biblioteca Mário de Andrade, dedicado à história da imprensa no Brasil, escrevi um texto de que se seguem alguns trechos.

Minha dissertação de mestrado em Sociologia, escrita por volta de 1985, tratou dos debates a respeito da criação de Brasília, durante o governo Kubitschek. Procurei identificar os argumentos a favor e contra a mudança da Capital Federal, e de que modo algumas noções fundamentais no pensamento político brasileiro –o Desenvolvimento, o Progresso, a Modernidade, o Sertão, o Litoral, o Planejamento, o Futuro, a Tradição— refletiam-se nos diferentes campos em disputa.

 

         Pesquisei durante vários meses os jornais da época, tanto na Biblioteca Mário de Andrade quanto na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Guardo uma lembrança especialmente doce daqueles dias de rotina e solidão. A seqüência mecânica dos dias –os que eu vivia e os de que os jornais davam notícia— disciplinava meu trabalho, eliminando os acasos, as dúvidas e os desânimos inerentes ao ritmo de toda pesquisa acadêmica.

        

Na Biblioteca Mário de Andrade, dediquei-me a ler, dia por dia, as edições do “Estado de S. Paulo” de 1955 a 1960. Na Biblioteca Nacional, consultei as coleções do “Diário Carioca”, do “Correio da Manhã” (infelizmente preservadas de modo precário em microfilme), e da “Última Hora”.

 

(...)A opacidade quase desonesta, de tão partidária, de tão parcial, dos jornais da época de JK supunha um leitor já de opinião formada, já “conquistado” do ponto de vista mercadológico. Nenhuma suposta manipulação da imprensa hoje em dia seria capaz de comparar-se com as grosseiras distorções de 50 anos atrás. Ao mesmo tempo que a realidade fatual sofria violências, o leitor era considerado, por definição, um adulto capaz de encarar essas mesmas violências sem enrubescer. Atualmente, é como se os jornais se dedicassem a um leitor mais frágil, evanescente e virgem.

 

Sem dúvida, é um modo mais ético e prudente de tratar a informação. A questão é saber se, com isso, não existe um paradoxo. Imagina-se um leitor adulto, independente, que não mais aceita ser vítima de manipulações. Ao mesmo tempo, imagina-se um leitor ingênuo, a quem tudo deve ser explicado, a quem todas as versões de um fato devem ser apresentadas, “para que tire suas próprias conclusões”. Mas há um adendo perverso nessa atitude: ninguém tem conclusões claras a tirar.

 

Talvez daí viesse meu conforto, meu prazer ao pesquisar os jornais de antigamente. A perspectiva do tempo dava conta dos enganos, das ilusões, dos falsos pessimismos, e dos otimismos igualmente falsos, dos anos JK. Quanto aos dias de hoje, que cada um assuma a responsabilidade de suas próprias esperanças e de seu próprio desencanto.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h59

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O bom pastor

O bom pastor

 

Robert de Niro, Matt Damon e o charme dos anos 60

 

         Você pode se considerar bastante desconfiado e precavido, mas o hábito e o preconceito sempre puxam o seu tapete. Fui assistir ao filme “O Bom Pastor” , e parei o carro num daqueles estacionamentos sem infra-estrutura nenhuma, que são só um terreno baldio com uma casinha na frente, com o rádio ligado à toda. Achei melhor do que estacionar na rua.

 

         Quando saí do cinema, o responsável pelo estacionamento tinha sumido. Podia ter ido apenas ao banheiro, não sei. Peguei a chave, abri o carro, e já estava a ponto de sair quando ele apareceu correndo, para cobrar o que eu lhe devia. Imaginei que é provavelmente mais fácil roubar um carro dentro do estacionamento do que um outro, trancado, parado na rua. Nem é preciso que o homem do estacionamento tenha sumido. Se encostarem um revólver no sujeito, podem levar todos os carros em pouco tempo. Mais complicado é tirar, um por um, os carros parados na rua.

 

         O hábito mental nos leva, entretanto, a preferir qualquer estacionamento, mesmo esses precaríssimos, à rua nua e crua.

 

         Outra coisa que me aconteceu: pela terceira vez em um ano, roubaram o estepe do meu carro. Na rua ninguém consegue fazer isso. Na garagem do prédio, num estacionamento ou durante a troca de óleo (que não tenho o costume de vigiar) isso é facílimo.

 

         Faço essa introdução porque “O Bom Pastor”, filme interessante, embora não excepcional, de Robert de Niro, mostra bem os paradoxos a que leva o clima de desconfiança absoluta vigente durante a Guerra Fria. Matt Damon é Edward Wilson, um brilhante aluno de Harvard que se deixa fascinar pelo mundo da espionagem e da contra-espionagem. Começa na Segunda Guerra, aprendendo com os serviços ingleses de inteligência os segredos da profissão. Suas motivações eram justas: lutar contra Hitler. No pós-guerra, o combate ao comunismo termina levando a CIA aos abusos, crimes e disparates que se conhecem.

 

         São tantas as reviravoltas e traições entre espiões, contra-espiões e contra-contra-espiões, que é como se, no fundo, todo o aparato de inteligência das duas potências fosse inútil... Um segredo descoberto a custo pode ser um falso segredo, feito de propósito para ser descoberto; ou não.

 

         O mundo da espionagem reproduz assim a própria corrida armamentista: 99% dos mísseis fabricados tende a ser inútil, uma vez que com 1% deles já seria possível destruir o mundo inteiro. A diferença é que, em vez de mísseis, há seres humanos (espiões de um lado e de outro) cuja vida termina contaminada pela desconfiança total. E essa desconfiança pode levar a erros mais graves do que a mera ingenuidade. Em todo caso, continuo a pôr meu carro em estacionamento.  

Escrito por Marcelo Coelho às 16h21

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Sartre, Étiemble, Benda

Sartre, Étiemble, Benda

Escrevi bastante neste blog sobre “A Traição dos Intelectuais”, de Julien Benda (ver posts de 19/9/2006). O livro acaba de sair em português, pela editora Peixoto Neto, de  São Paulo- (editora@peixotoneto.com.br). Traz uma introdução (mediana) de André Lwoff, prêmio Nobel de Medicina, e um bom prefácio do crítico literário Étiemble. Transcrevo um trecho desse prefácio.

 

 

 enquanto o existencialismo quer ignorar a natureza humana e os valores eternos estabelecidos pela razão para medir o justo e o verdadeiro, enquanto nele tudo se avalia em termos de história e situação, o intelectual, segundo Benda, sabe sempre muito exatamente a que normas intemporais confrontar os homens ou os fatos que ele deve julgar. Por ocasião desse ou daquele episódio em que os comunistas tinham, como eles diriam, objetivamente razão, se Julien Benda tolerou acompanhá-los durante um pequeno ou mesmo longo trecho do caminho, foi sempre porque nessa circunstância a tese do partido casualmente coincidia com o que ele julgava a justiça abstrata ou a verdade em si; essa solidariedade acidental jamais o impediu de escrever e de publicar o que pensava das imposturas, da iniqüidade, da tirania stalinista. Muito diferente foi a atitude de Jean-Paul Sartre, em 1952. Por ter afirmado viver apenas em situação, e servir apenas à justiça concreta ou à verdade histórica, esse homem tão naturalmente generoso, tão inimigo de todo racismo, acabou por escusar as campanhas anti-semitas quando, interpretadas “historicamente”, favoreciam o poder dos que ele se obstinava em considerar como os legítimos líderes do proletariado. Sob o honroso pretexto de não desservir, aqui e agora, à causa dos operários, esse doutor do anti-racismo, convidado ao Congresso de Viena, recusar falar pelos médicos judeus que Stalin acusava de terem querido assassinar os dirigentes da União Soviética,  médicos que sem a menor dúvida só podiam ser inocentes, tão inocentes quanto Dreyfus.Assim, correrão sempre o risco de traição aqueles intelectuais que se orgulham de agir conforme o segundo dos métodos definidos por Julien Benda em O Fim do Eterno: usar de astúcia com o inimigo, mostrar “alguma estima por seus valores a fim de ganhar sua confiança e então transformá-lo”. Esse método, o mesmo da Igreja secular, é sempre perigoso, pois a história “prova que geralmente não é o clérigo que clericaliza o leigo, mas o leigo que laiciza o clérigo”.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h54

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Um poema de Penelope Shuttle

Um poema de Penelope Shuttle

Dos "Collected Poems, 1980-1996" da inglesa UOL Busca Penelope Shuttle, publicados pela Oxford University Press, tento traduzir "Expectant Mother":

 

MÃE ESPERANDO UM BEBÊ

 

 

Na quietude

uterina,

escondendo-se de mim,

escondendo-se dos espelhos,

as raízes fetais de um pulso

e de um coração

se enroscam em mim.

Pertencem à criança,

à engastada,

uma plumagem de constelações.

 

Ando pela casa

descalça

e um cordão quente de sangue

me liga à minha filha

 

A chuva cai sobre jardins e inscrições

mas eu seguro no gume da chuva.

Sou o receptáculo

onde outra chuva, amniótica, se junta

para que alguém na sua residência oficial

desfrute.

 

Penso no silencioso uso das pálpebras não-nascidas

e na quietude dos meios seios que se alteiam,

numa quente decisão de força.

 

Já um nome sugere as próprias sílabas,

mas isso ainda é segredo,

uma sombra se abrindo em leque,

um murmúrio entre a noite e o dia.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h10

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ainda a "supernanny"

Um leitor, a propósito do meu artigo de quarta-feira sobre a “Supernanny”, mandou um esclarecimento que reproduzo aqui.

 

Por ser psicólogo, me vi compelido a alertá-lo sobre uma pequena impropriedade cometida em seu texto.

Ocorre que a psicologia de inspiração behaviorista há muito não se limita a Pavlov, ou Laranja Mecânica. O paradigma pavloviano é mecanicista, "estímulo-resposta", iguala organismos a autômatos. Apresentar um estímulo seria como apertar um botão, eliciador de comportamentos.

No entanto - e aí reside um mal-entendido muito popular, infelizmente - desde o behaviorismo de B. F. Skinner, psicólogo americano, o paradigma da Análise Experimental do Comportamento é selecionista, e não mecanicista. A analogia para a origem do comportamento é a origem das espécies: repertórios comportamentais se replicam e são selecionadas por suas conseqüências - não por seus antecedentes.

A principal diferença epistemológica entre o behaviorismo mecanicista de Pavlov e o behaviorismo selecionista de Skinner é temporal. Se no primeiro, causa sempre precede efeito, no segundo a causa é a conseqüência (evita-se, por tabela, também a teleologia).

As implicações são profundas. Skinner publicou um artigo 3 dias antes de morrer, no qual afirmou: "O cognitivismo é o criacionismo da ciência psicológica". Dá pra imaginar o tamanho da polêmica, não dá?...

Escrito por Marcelo Coelho às 18h31

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outros tempos

outros tempos

         Leio, para fazer uma resenha na Ilustrada, a edição fac-similar da “Revista Dramatica” (sem acento mesmo), publicação semanal feita por acadêmicos de Direito, que circulou em São Paulo em 1860. O objetivo era contribuir para a criação de um teatro nacional; o tom dos artigos é vago, prescritivo e pomposo. Criticavam-se, de quando em quando, as peças em cartaz.

         Eis um exemplo, que pelo menos é divertido, sobre um texto de José de Alencar, a comédia “As Asas de um Anjo”. Mantenho a ortografia original.

 

         Qual é porém a acção daas –Azas de um anjo?

         A vida de uma pobre moça arrebatada pela seducção, e pelos desvarios de uma imaginação ardente, levada do sanctuario paterno ás saturnaes da perdição! –Vestal incauta, que deixou extinguir-se a lampada do templo da virtude!

 

         (...) Ribeiro, no prologo, realiza a sedução de Carolina.

         É elle, que infiltrando em sua alma o veneno da perdição, com promessas fagueiras, arranca da fronte virginal os lirios de sua castidade! – Typo mystificado pelas devassidões –pela orgia—representando na sala (...) uma pagina lasciva do romance de todos os seductores! É Satan debruçado á orla do caminho por onde trilha –Carolina—com o manto da pureza, para impedir-lhe a passagem, arrebatal-a, salpicar-lhe as vestes, arrojal-a ao lodaçal!

 

         Ah, lodaçaes...! Gosto especialmente do uso dos travessões; será que alguém já escreveu uma história disso? Os travessões na poesia de Emily Dickinson parecem hoje em dia muito esquisitos e “modernos”; será que eram um sinal, hoje perdido, de coloquialidade e prosa jornalística?

Escrito por Marcelo Coelho às 14h42

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Guy Debord na internet

Guy Debord na internet

Reproduzo e-mail que recebi sobre um debate em torno do autor de "A Sociedade do Espetáculo":

A Sociedade do Espetáculo e Situacionismos no Teatro Fábrica

 

Sexta 23/03/07 - 20hs - exibição do filme de Guy Debord:  “A Crítica da Separação”, 1961,  duração 20’ – seguido de debate com Profa. Dra. Cibele Rizek e Prof  Fabio Lopes

 

TRANSMISSÃO SIMULTÂNEA DO FILME PELA INTERNET

ACESSE NO SITE www.fabricasaopaulo.com.br

 

Curadoria: Profa Dra Cibele Rizek e Márcia de Barros

Realização: Teatro Fábrica São Paulo e Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo.

Apoio na transmissão mundial:  Host Media Center  

Tecnologia: MPmidia 

 _________  .  __________  

 

Prof Dra Cibele Saliba Rizek é livre docente em Sociologia Urbana e Profa do Curso de Arquitetura e Urbanismo da USP de São Carlos e pesquisadora no NEDIC – USP.

 

Prof. Fábio Lopes é professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 13h57

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os crimes do preto amaral

os crimes do preto amaral

         Acho que eu nunca tinha passado pela alameda Cleveland, muito menos às nove da noite de um sábado. É perto da Sala São Paulo, e portanto da cracolândia. Tudo por ali fica deserto, com casas baixas, como se fosse uma cidade morta; mas a calma é muito grande, e vejo crianças pequenas andando na calçada. São filhas de imigrantes bolivianos. Logo no começo da rua, há um bar e restaurante boliviano; logo em frente, um minúsculo teatro, onde se apresenta a Companhia do Faroeste.

         A peça em cartaz se chama “Os crimes do preto Amaral”, e foi elogiada em artigo de Sérgio Salvia Coelho na Folha. Está em cartaz às sextas e sábados, às 20h30, e aos domingos, às 18h, até 24 de junho: alameda Cleveland, 677.

Eu, branco, estava em minoria na platéia. Narra-se o destino de um ex-combatente de Canudos, acusado de matar e estuprar três meninos na São Paulo dos anos 20. Ele nunca foi levado a julgamento; confessou os crimes e foi submetido a tratamento psiquiátrico. Depois de sua prisão, registrou-se um outro caso de assassinato seguido de estupro, o que torna no mínimo duvidosa a sua confissão, obtida, não há muito porque duvidar, com os métodos até hoje em curso.

         Há um quê de “Vestido de Noiva”, como notou o crítico da Folha, na encenação e no texto de Paulo Faria. Mistura-se o ambiente chique de uma mansão paulistana com as súbitas irrupções do preto Amaral, confinado durante boa parte do tempo num buraco escavado numa das paredes do teatro. Reconstituições oníricas dos crimes e do passado do preso desestabilizam a narrativa, que adota voluntariamente o tom e o vocabulário de um dramalhão de época.

         A idéia é mostrar o preconceito racial, encarnado na figura de um criminólogo eugenista, contra o qual se insurge uma jovem avançada, que acaba de retornar de seus estudos em Paris. A jovem acaba de se casar com o filho do racista, e o caso de amor e separação ideológica dos dois é tratado como se fosse uma reedição do mito de Orfeu e Eurídice.

         Homenageia-se com isso o musical de Tom Jobim e Vinicius de Morais, um marco na luta contra o preconceito racial brasileiro, que colocou pela primeira vez um elenco integralmente negro no Teatro Municipal do Rio.

         A inserção do mito grego nesse contexto soa inconvincente, e os atores não conseguem despertar empatia do público, que se dirige de modo automático ao preto Amaral. A defesa da eugenia pelo velho criminologista é caricata e cansativa; indignado com as atitudes liberais da nora, ele desfia um clichê atrás do outro, até chegar ao conhecido clássico: “Mas, Fulana, aonde você pretende chegar com isso?” As respostas da jovem defensora da causa não são melhores. Dois ventiladores de média potência não contribuem o bastante para tornar agradável a experiência do espectador.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h20

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a favor do papa

O papa Bento 16 pode não ser tão popular quanto seu antecessor, mas ganha prestígio entre intelectuais. A "onda Pondé", que a meu ver erradamente elege o dogma e a tradição como barreiras contra o relativismo, cresce em influência. De uma leitora que prefere permanecer anônima, recebo esta mensagem sobre a volta ao latim e ao culto tradicional.

As igrejas são sem dúvida uma força política que hoje em dia costuma perder espaço. O que ninguém nega é que as pessoas precisam de uma certa proteção trazida pela constância e pelo apego a certos costumes, aos rituais que acabam gerando um bem estar oriundo da pertinência.

Se quiserem mudar o latim para o inglês ou para o chinês, tanto faz. Queremos sim encontrar a mesma missa sendo rezada em todas e quaisquer igrejas católicas, apostólicas, romanas. Assim como os judeus encontraram por três mil anos sempre o texto hebraico em todas as cerimônias realizadas em qualquer rincão da Terra. E funcionou. Afinal, o Estado de Israel não tem mais do que sessenta anos.

 

Não li a encíclica, provavelmente nem lerei. Mas desejaria muitíssimo que padres e fiéis voltassem a olhar para a mesma direção, todos de frente para o Santíssimo. Esta recente virada do padre, posto a encarar seus fiéis, eu como especialista em dinâmica de grupo – em verdade vos digo – pode ser uma atitude artística, mas, religiosa é que não é. Desviraram o padre? Pode parecer democrático. Mas nada tem a ver com estado de devoção. Os fiéis e o padre em adoração ao Santíssimo é outra história. Reza-se junto ou acompanha-se o padre? Quando eu era criança, dizia-se que era pecado dar as costas para o Santíssimo. Um belo dia me disseram que o padre podia dar as costas. Eu, hein?... Quero eu o padre de frente para o Sagrado junto comigo. Quero o latim, quero os dogmas, quero o cantochão.

 

Repito: ninguém é obrigado a ser católico, a Igreja e o Estado já se separaram. E eu humildemente abençôo este movimento do papa que ousa se contrapor, com todo o seu poder,    a este mundo da solidão, da morte à alteridade, do desaparecimento da empatia. Tanto Moisés quanto Cristo, Pedro e Paulo, Agostinho propõem empatia, simpatia, solidariedade e neste chão, esperança e bondade. Espero que outras barreiras sejam levantadas, não na forma de muros, mas sim no movimento das ondas, protegendo sentimentos básicos que nos permitiram viver sob a égide de um convívio humano respeitoso.

 

É no Ocidente que nasceram não só a razão, cuja importância não discuto, mas também os Direitos Humanos. Não só o direito de ter, mas especialmente o de ser. Não proponho um coletivismo primitivo das velhas comunidades, não vislumbro esperança no saudosismo, o território dos Direitos Humanos é uma conquista que não pode ser relegada a nenhum plano que não seja o central, o primordial, o essencial. Para que possamos ser humanos é indispensável um mínimo de segurança, de certeza, de identidade. Para que isso exista, temos que nos defender da barbárie.    

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 09h49

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pedras para tropeçar

Já são 211 as cidades alemãs em que existem "Stolpersteine", ou "pedras para tropeçar". É uma intervenção urbana do artista Gunter Demnig, muito simples, eficaz e comovente. Na frente das casas onde moraram pessoas assassinadas pelo nazismo, ele substitui uma das pedras usadas no calçamento por uma pequena laje revestida de metal, com o nome da vítima e as datas correspondentes ao tempo em que viveram ali. Quem passa se lembra do genocídio; parentes de quem foi assassinado visitam o local, para prestar homenagem. Veja mais em www.stolpersteine.com  

Escrito por Marcelo Coelho às 09h35

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mais supernanny

mais supernanny

Este é o link para o artigo de hoje na Ilustrada: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2103200718.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 08h37

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"Supernanny", a revista

"Supernanny", a revista

         Apesar das diversas recomendações práticas e precisas, que são o segredo do sucesso de “Supernanny”, o universo da auto-ajuda nunca está distante da revista, que comecei a comentar no post anterior. “Universo da auto-ajuda”, para mim, significa repetir uma mesma generalidade de várias formas diferentes, de modo a tranqüilizar o leitor; trata-se não de dizer algo que ele não sabe, mas de repetir o que ele já sabe, dando-lhe autoconfiança para ficar mais ou menos na mesma, achando que modificou sua atitude.

         Um exemplo disso está nas duas páginas dedicadas às “Superdicas da Supernanny”, de que seleciono algumas.

         “Dê sempre exemplo com suas atitudes. Os filhos aprendem observando os pais e não as autoridades que estão em contato com eles.”

         “Ao organizar atividades para seus filhos, escolha brincadeiras que estimulem a criatividade e os exercícios físicos, pois são ótimas para o desenvolvimento das crianças”.

         “Se seu filho já é grande, mas ainda faz xixi na cama à noite, cuidado! Pode ser um sinal de conflitos emocionais que não estão resolvidos, e a criança precisa de uma válvula de escape. Consulte um profissional competente”.

         Talvez seja este um dos conselhos mais recorrentes em revistas do gênero, ou nas consultas sobre saúde em geral: “Consulte um médico”. Mas essa é a melhor maneira de eu dispensar a leitura da revista... Por outro lado, a idéia da “válvula de escape” não deixa de ser involuntariamente irônica quando se trata do problema do xixi.

         Talvez um dos pressupostos de tudo, e que comento mais no artigo da “Ilustrada” de amanhã, seja o de que atrás de toda birra ou problema típico da infância existe um “conflito emocional”, que está sendo “expresso” pela criança com a linguagem que ela tem disponível (tapas, berros, xixis). Desde que consigamos fazer a criança se expressar de outro modo, o conflito encontra uma “válvula de escape” natural, e tudo voltaria à santa paz.

         Minha dúvida é se existe esse estado de normalidade, onde conflitos emocionais fluem naturalmente. Não será constitutivo da nossa individualidade o conflito interior, indevassável? Em que medida conflitos complexos podem ser “canalizados” em desenhinhos e brincadeiras? Não nego que isso possa acontecer. Temo um pouco, todavia, pelo excesso de “dialogologia” –a idéia de que a conversa possa dar conta de assuntos complexos demais até mesmo para adultos; podemos ficar cinco anos em psicanálise tentando escavar nossos conflitos, sem mesmo chegar à sua superfície. Não é invasivo demais um pai ou uma mãe chegarem para o filho de cinco anos e discutir, ainda que com termos adequados, a questão do ciúme dele com o filho menor? Que tipo de “trauma” se está criando ao tentar uma clarividência total sobre as reações impulsivas de uma criança?

         Ao mesmo tempo, o sistema “supernanny” tenta despsicologizar um pouco o relacionamento com as crianças. Regras mecânicas e milimétricas, sobre as quais pouco se pergunta e menos se esclarece, parecem funcionar pela simples regularidade, pelo mero ritmo invariável com que são aplicadas. É outro tipo de abordagem.

         No fundo, vive-se um duplo pânico: o pânico que leva os pais a um processo de ultraverbalização, criando uma espécie de “superbebê” , ou “supersujeito”, cuja individualidade é complexa e delicada como a de um narrador proustiano, e, por outro lado, o pânico que leva os pais a desejarem uma criança que funciona como um relógio, um brinquedo eletrônico capaz de responder perfeitamente aos controles de um botão.

         Conseqüência disso, há o desejo de “falar” e o desejo de “não falar”. Tudo deve ser conversado, mas o ideal é que a obediência se dê automaticamente. Não por acaso, um dos temas da revista é como tratar de sexo com as crianças. O título da matéria é sintomático: “eles querem SABER, você tem que EXPLICAR!” Seguem-se 20 questões que as crianças costumeiramente fazem sobre sexo (costumeiramente?) e as respostas que você pode dar, conforme a idade delas. Por exemplo, “mamãe, o que é orgasmo?” Resposta indicada para uma criança até seis anos: “Uma sensação gostosa que pode acontecer.”  Dos sete aos dez: “é algo prazeroso que temos explorando nosso corpo”.

         Talvez o melhor fosse não responder nada. O texto revela mais as dúvidas e ansiedades dos seus autores do que as das crianças. Talvez eles devam consultar algum especialista. E quem não deve?

Escrito por Marcelo Coelho às 10h25

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crianças mimadas

crianças mimadas

         No artigo de amanhã para a Ilustrada, comento a revista “Supernanny”, baseada no programa do SBT. A publicação, da editora online (www.revistaonline.com.br) já está no seu número 7, e traz um resumo das transformações ocorridas na família de Luiza e Vinicius. Sobre esse ponto, escrevi com algum detalhe no artigo. Há outras matérias na revista que me chamaram a atenção.

         Antes, um comentário geral. Não acho errada nenhuma das recomendações da revista; acredito moderadamente na sua eficácia, mas o que me perturba é a necessidade de elas serem feitas. Por que, afinal, não conseguimos dar conta sozinhos de disciplinar as crianças? É como se todos os métodos (acho que há dois sistemas diferentes em jogo na mesma revista, mas isso é tema do meu artigo) fossem, na verdade, prescrições tópicas, pomadas que se passa para evitar a coceira, sem que o problema de base –uma infestação de percevejos? uma profunda alergia aos ácaros?—seja de fato enfrentado.

         É óbvio que todos os pitis e pirraças das crianças indicam uma situação em que elas se comportam como soberanas absolutas da casa, incapazes de suportar qualquer restrição. Surge o diagnóstico habitual: “você não dá limites para os filhos”. Os pais naturalmente respondem que dão, sim. São raros, a meu ver, os casos de completa permissividade doméstica. Os pitis surgem, na verdade, a cada limite que os pais tentam impor, e há dezenas de tentativas desse tipo diariamente.

         Mesmo assim, as crianças se comportam como se fossem mimadíssimas. Fico pensando se não há uma espécie de “mimação estrutural” na vida de hoje em dia. Por mais austeros que os pais pretendam ser, as próprias condições do cotidiano mimam as crianças em excesso.

         Dou alguns exemplos, comparando com a infância de trinta anos atrás. Os biscoitos, por exemplo. Claro que havia os de chocolate, de vez em quando. Mas em geral eram biscoitos absolutamente sem graça, predominavam as bolachas Maria e os de maizena. Hoje, qualquer biscoito (já não se usa a palavra bolacha) já vem com mil atrativos para as crianças: desenhos de bichos, sabores novos, embalagens coloridas. Um mero suco de uva já traz na embalagem ilustrações e promessas de divertimento. O que antes era um simples conga azul hoje é um tênis com rodinhas do Homem-Aranha. Uma roupa não vale nada se não tiver alusões a super-heróis.

         É como se todos os produtos de consumo infantil já se encarregassem de bajular a criança; na disputa pelo mercado, toda loja, toda indústria funciona como aqueles avós e tios que sobrecarregam a criança de presentes e atrações.

         O mundo da eletrônica torna muito mais fácil a nossa vida, e a das crianças também. A diversão, antes rara (porque não tínhamos aparelhos de CD no quarto do bebê, nem TV transmitindo desenho animado 24 horas por dia), tornou-se acessível a um simples toque de controle remoto. OS brinquedos baratearam muitíssimo.

         Nossa própria capacidade de esperar, de ter paciência, diminuiu enormemente. Qualquer refeição fica pronta em minutos no microondas. Tudo isso, tanto para os pais quanto para as crianças, estabelece uma situação em que, sem saber, estamos sendo mimados o tempo todo. Natural que, mesmo com “limites”, a criança proteste. Os limites surgem como exceção, não como regra: por mais que tentemos implantá-los.

Escrito por Marcelo Coelho às 08h21

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T. J. Clark:

T. J. Clark: Modernismos (3) 

 

 Jackson Pollock

         Um dos desafios mais interessantes enfrentados por T. J. Clark, em “Modernismos”, é o de encontrar conteúdos, temas e significados mesmo nas pinturas mais abstratas e “puras” de Jackson Pollock. Este pintor era justamente elogiado por Clement Greenberg pelo fato de pertencer a uma vanguarda que “fugia do assunto como da peste”. A defesa greenberguiana da arte moderna exigia que a atenção do artista –pintor, poeta, escultor—se concentrasse apenas nos próprios meios de sua atividade: um quadro, afinal, nada mais é que uma superfície plana coberta de formas e cores. Na sua reinterpretação anti-Greenberg do modernismo, T. J. Clark examina as pinturas de Pollock de um outro ângulo. Eis como ele comenta o quadro intitulado “número 6”, de 1950 –cujas dimensões, ao contrário do habitual em Pollock, são relativamente pequenas (89 x 92 cm.);

 

         O quadro era profundamente imbuído de sua dimensão reduzida. Pretendia criar a ilusão de uma compressão molecular, prestes a se transformar em sua força contrária, explosiva, destrutiva. (Sem explodir, mas com sua massa chegando a um ponto crítico.) As pinturas de Pollock pertencem de maneira profunda ao seu tempo. Serge Guilbaut tinha razão quando detectou nelas uma horripilante, horripilada intuição da fusão e da fissão, do pequeno e do grande, de núcleo e partículas espalhadas. O que havia de novo na percepção do espaço no período da Guerra Fria era a noção –uma noção corriqueira, que se propagava de Los Alamos à revista New Yorker – de que o pequeno e o grande eram instantaneamente conversíveis um no outro, que podiam se transformar um no outro, de modo terrível e imediato.

 

 

Não é só essa metáfora –a da Bomba—que auxilia T. J. Clark em sua análise.

 

         As metáforas de Pollock desdobram-se por muitos níveis; a metáfora do grande e do pequeno pode ser em parte referida à fusão nuclear, em parte ao mundo de Fermi e Teller, mas, ao mesmo tempo, no fundo, essas metáforas dizem respeito ao que significa produzir nas condições normais do mundo moderno, de acordo com as regras de uma determinada divisão do trabalho, igualmente monstruosa.

 

T. J. Clark alude aqui ao célebre filme de Hans Namuth, em que vemos Pollock cobrindo uma tela imensa com respingos e espirros de tinta, com gestos regulares e repetitivos. “Como um proletário”, diz T. J. Clark, “tentando acompanhar o ritmo da linha de montagem ou como um louco dando voltas em sua cela”.

 

O teste de uma metáfora é seu poder de persuasão, e sem dúvida T.J. Clark se sai muito bem na sua análise. É difícil saber se as metáforas são “de Pollock” (o que pressupõe intencionalidade do artista) ou se são de T.J. Clark (o que pressupõe que a arte de Pollock seja uma espécie de “reflexo inconsciente” de sua época). Nossa tendência é sempre dizer que isso não importa; acho que, em certa medida, importa sim.

 

Seja como for, a interpretação suspende, de alguma forma, o juízo de gosto que T. J. Clark estava exercendo ao criticar a “vulgaridade” de Hans Hofmann. A questão, se quisermos analisar os ensaios de T. J. Clark, é o quanto podemos, de nossa parte, exercer esse mesmo juízo de gosto. Não seria “vulgar” a comparação entre as telas de Pollock e uma explosão atômica? Em que medida o snobismo de Greenberg, sutilmente denunciado por T. J. Clark, é “pior”, do ponto de vista classista-ideológico, do que essa apropriação “Reader’s Digest” de Pollock (“o pintor da era do átomo”?)

 

Talvez seja possível encontrar uma metáfora interpretativa que, ao mesmo tempo, se concilie com o tema da “vulgaridade”, sintetizando, quem sabe, juízo de gosto e análise sociológica. Fico pensando se as telas de Pollock, tanto quanto a explosão nuclear ou a linha de montagem, não são metáforas de outra coisa também, tipicamente americana, tipicamente anos 50: o desperdício, o gasto. Não é dizer que Pollock “desperdiçou tinta” com suas telas, fazendo “um lixo”. Mas talvez seus trabalhos sejam metáfora disso também.  

 

Um trecho do filme de Hans Namuth com Pollock em ação está disponível no Youtube, mas no meu computador demorou horas para carregar, e acabei desistindo.  

 

Leia na Folha Online minha resenha sobre o livro de T.J. Clark para a "Ilustrada". O título sugere que a coletânea fala de tudo, desde a Idade da Pedra até Picasso, mas não era a minha intenção.

 

 Pollock em ação

Escrito por Marcelo Coelho às 12h40

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T.J. Clark: Modernismos (2)

 Hans Hofmann, "Fragrância" (década de 50)

 

Alguns trechos de “Modernismos”, de T. J. Clark, soam como verdadeiras (e irônicas) declarações de guerra à ortodoxia estética dos anos 50, que tinha no crítico Clement Greenberg seu maior representante. No meu livro “Crítica Cultural: Teoria e Prática”, analisei longamente a defesa da arte moderna feita por Greenberg, que privilegiava a pintura abstrata, a arte que erige a própria linguagem como valor absoluto, em contraposição ao mundo de um realismo miraculoso e reconhecível, característico da arte comercial, de mau-gosto, “kitsch”.

         Nada mais cruel, do ponto de vista greenberguiano, do que identificar sinais de mau gosto, de vulgaridade, naquilo que deveria ser o seu oposto: a arte abstrata de vanguarda, o expressionismo abstrato de Pollock, Hans HofmannClifford Styll. É bem isso o que T. J. Clark faz no primeiro ensaio desta coletânea organizada por Sônia Salzstein para a Cosacnaify, “Em defesa do expressionismo abstrato”.

Agora, diz T.J. Clark, que o expressionismo abstrato é coisa do passado (seu texto é de 1994, publicado originalmente na revista October), podemos dizer que são, “acima de tudo, vulgares”. Ele continua de forma impiedosa: “a palavra ‘vulgar’ tem para nós um significado pejorativo e assim deve ser entendida na argumentação que se segue.”

Como assim? A vanguarda máxima dos anos 50 era, na verdade, kitsch? Eis o bastante para fazer Clement Greenberg, que opunha radicalmente vanguarda e kitsch num ensaio famoso de 1939, revirar-se no túmulo. Mas a crueldade de T.J. Clark é muito refinada, porque ele nota no próprio Greenberg uma tendência para descobrir sinais de kitsch no vanguardismo de Clifford Styll; o problema é que Greenberg esforçou-se em reprimir a própria descoberta.

Still, escrevia Greenberg em 1955, “foi o primeiro a usar efeitos ‘buckeye’ [kitsch] na arte séria. Esses efeitos são visíveis nas bordas irregulares que vagueiam pelas margens ou que atravessam o meio de tantas de suas telas, no colorido sempre quente e escuro, e numa superfície seca e áspera (como todo pintor ‘buckeye”, Still parece não acreditar em pigmentos diluídos ou ralos). Coisas desse tipo podem tornar seus quadros cansativos e bizarros, mas quando ele acerta, com ou apesar desses efeitos, isso representa para a arte culta a conquista de mais uma área de experiência e sua libertação do kitsch.”

Acontece, diz T. J. Clark, que Greenberg faria uma pesada autocensura nessas considerações quando republicou o ensaio “American-Type Painting”, em sua coletânea “Arte e Cultura”  (publicada no Brasil pela Ática). É como se Greenberg tivesse chegado excessivamente perto de uma verdade que não queria admitir, e que T.J. Clark enuncia com todas as letras:

 

Visto em seu ambiente normal, ao lado dos discretos sofás e copos-de-leite, naquela mistura singular de opulência e frugalidade tão ao gosto das classes compradoras de arte nos Estados Unidos, um bom Hofmann sempre parece deixar escapar um segredo sujo que o restante da decoração conspira para ocultar (...) O quadro é um retrato do “interior” dos seus proprietários, do estofo ao mesmo visceral e espiritual dos ricos. E, acima de tudo, ele não pode alimentar ilusões acerca de seu papel como parte desse estofo. Afinal, a pintura se faz com os materiais que utiliza. Esses símbolos da abundância são tudo o que o quadro tem para oferecer no presente: é isso e mais nada. Os “sentimentos” devem ser transformados em fetiche obsceno e espantosamente exterior para que a pintura perdure.

 

Pode ser que T.J. Clark tenha razão, e no caso brasileiro a pintura de Manabu Mabe talvez tenha o mesmo sentido que a de Hofmann nos Estados Unidos. Mas não deixa de haver um ponto comum bastante desagradável entre o estilo de T.J. Clark em 1994 e o de Greenberg na década de 50: ambos compartilham do mesmo autoritarismo de esquerda, que ao mesmo tempo funciona como bússola para o mercado de arte. “Cuidado, compradores. Fulano é vulgar, é coisa de novo-rico, de pequeno-burguês, de burguês... Está totalmente out.” Ao investidor atilado, recomenda-se que esteja a par das últimas tendências da crítica de arte.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h47

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T.J.Clark: "Modernismos"

T.J.Clark: "Modernismos"

         Adepto inflexível de Robespierre, o pintor Jacques-Louis David foi preso em julho de 1794, depois da queda do líder jacobino. Pintou seu auto-retrato na prisão, certo de que seria guilhotinado em poucos dias. Morreria só em 1825, após muitos anos como pintor oficial na corte de Napoleão Bonaparte.

         O auto-retrato de David é comentado longamente pelo crítico e historiador T.J. Clark, no livro “Modernismos”, que acaba de ser lançado pela Cosac. É um livro bastante difícil. Devo resenhá-lo para a “Ilustrada”, e em parte por causa disso este blog andou meio descuidado.

         Olhando superficialmente o quadro de David, não achei nada de especial, exceto o olhar do pintor, muito concentrado, com certo fulgor maligno no seu olho direito. É preciso certa paciência para acompanhar as oitenta páginas do ensaio de T.J. Clark sobre o assunto, que se demora na análise das teorias filosóficas a respeito das relações entre corpo e alma no século 18, recorrendo constantemente às idéias do desconstrucionista Paul de Man a respeito de Rousseau e do gênero autobiográfico.

         Mas aí o crítico começa a analisar o quadro. Evidências e metáforas se sucedem, e há muito o que aprender.

         A boca de David é o que se deve notar em primeiro lugar. Seu lado esquerdo é normal; o lado direito, entretanto, é mais esticado e fora de esquadro. Na verdade, o pintor sofria de uma tremenda deformação no rosto, que o impedia até mesmo de falar direito. Sua bochecha direita era horrivelmente inchada, e o problema agravou-se com o tempo. No quadro, isso é disfarçado pelo sombreamento do rosto, mas não deixa de ser perceptível (depois de termos lido T.J. Clark).

         Outro problema apontado pelo crítico. Repare no braço que segura o pincel. Onde está o ombro do pintor? Uma lapela enorme, avermelhada, de tecido macio e solto, cobre essa parte de seu corpo, mas é como se o braço nascesse (ou caísse) “fora” do lugar onde deveria estar.

         Do lado oposto, a lapela avermelhada está numa posição pouco inteligível, e parece ter sido acrescentada depois.

         A paleta, que os dedos de David agarram de forma muito tensa, é estranhamente disforme, e para Clark lembra um crânio humano. Outro crítico, Michael Fried, considerou que aquele polegar, pulando do buraco da paleta, lembra uma cabeça caindo da guilhotina.

         Começa então o jogo metafórico na análise desse quadro. Clark imagina que a grande lapela vermelha corresponde, na verdade, ao “interior” de David, desatando-se um pouco como as veias do cadáver dissecado no célebre quadro de Rembrandt, “A Lição de Anatomia”. Surge então um parágrafo conclusivo, no estilo mais difícil de T.J. Clark, o que entretanto não elimina o poder esclarecedor de sua análise.

 

         A proposta de seu quadro é que a primeira (e a última) figura da representação é o processo –ou a formalização—pelo qual o corpo se torna uma forma em si; uma forma que ele pode representar para si mesmo e na qual, por conseguinte, pode ter lugar, à qual ele possa atribuir “um lado de dentro” e um “lado de fora” e habitar como uma outra coisa: ou seja, o lugar, a substância, o lado ou o deslocamento que chamamos de self, de “eu”. Poder-se-ia dizer que o self é um modo de estar no corpo sem ser meramente o corpo. O self abre o espaço da representação; permite-nos olhar para trás e ver o que somos.

 

         Acho que vou ter muito trabalho para escrever essa resenha.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 09h34

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os 12 trabalhos

os 12 trabalhos

Ricardo Elias fez um bom filme, econômico e preciso, sobre as tarefas de um motoboy ao longo de um dia de serviço. O link para o artigo de quarta-feira passada, sobre "Os doze trabalhos", é http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1403200723.htm

site do filme: http://os12trabalhos.uol.com.br/

Escrito por Marcelo Coelho às 08h20

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bordados da caatinga

bordados da caatinga

Uma ong no interior do Piauí desenvolve há décadas uma escola de bordados para a população local. O lugar é dos mais desolados do Brasil, como mostram as fotos em exposição no Sesc Pinheiros. Para se ter idéia da pobreza, eles reciclavam folhas velhas de computador, daquelas de rolo, para fazer o teto da escola das crianças.

Toalhas e jogos americanos com esses bordados estão à venda no Sesc. Na linha dos desenhos populares, que procuro sempre fotografar, vão aqui dois exemplos, enviadas pela assessoria de imprensa.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h16

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1403200704.htm

Quando um líder americano pega no ganzá, as conseqüências podem ser imprevisíveis, adverte o cronista do "Agora" (para assinantes do uol).

Escrito por Marcelo Coelho às 17h07

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1303200704.htm

Atitudes contra Bush podem levar a movimentações inéditas, pondera o cronista.

Escrito por Marcelo Coelho às 20h32

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Pinocchio

         Para quem está acostumado a produções muito pobres no teatro infantil, “Pinocchio”, no  Teatro Santa Cruz, é uma surpresa e tanto –embora o preço do ingresso (70 reais, com 50% de desconto para quem levar mantimentos ou brinquedos) devesse constituir aviso suficiente).

         Mais cedo do que espera, o público está diante de um musical do tipo da Broadway: há 40 personagens, 35 cenários e 180 figurinos, pelo que leio no Guia da Folha.

         Meu filho de 4 anos e meio mal podia acreditar. Nem eu. Há todo aquele luxo de efeitos, que faz o Grilo Falante descer de um trapézio nas alturas, a Fada Azul aparecer num carruagem que desliza no palco, em meio a números de dança com todos os bonecos de Gepeto lindamente vestidos, que logo depois se transformam nos felizes cidadãos de alguma rua italiana em 1820: cestas de compras, galanteios com boné, bicicletas (havia bicicletas em 1820?)

         O modelo Broadway tem seu preço, não apenas em reais. A música, as diversas canções que recheiam o espetáculo, são daquele tipo americano que se esquece na medida mesma em que se ouve; nada de comparável ao desenho animado de Disney (embora o famoso “Se tens fé no coração”/ “When you wish upon a star”) receba uma interpretação aflautada da Fada Azul bem no fim do espetáculo).

         As antigas operetas vienenses, nas quais se basearam os musicais americanos, tinham o dom da melodia imediatamente memorável, que todo mundo podia sair cantando mesmo ao longo do espetáculo. Uma pasteurização sem gosto substituiu os confeitos de Johann Strauss e Franz Léhar.

         Fora isso, o recurso espetacular a efeitos especiais torna o espectador de “Pinocchio” mais exigente nas ocasiões em que estes seriam necessários. Uma elipse narrativa elimina as dificuldades de Pinocchio e Gepeto para escapar do ventre da baleia; outra, aliás, introduzira-os ali.

         Tanta espetacularidade reduz também o humor da peça. Concentrado nas figuras da Raposa Esperta e do Gato Julião, e talvez em Stromboli, foi entretanto esse humor que, no rosto do meu filho, revelou o máximo de prazer que essa peça pode proporcionar. Fora isso, há o maravilhamento; vi isso nos olhos dele também.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h03

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cinema aspirinas e urubus

cinema aspirinas e urubus

João Miguel e Peter Ketnath no filme de Marcelo Gomes

 

Finalmente vi, em DVD, “Cinema Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes. O filme, tão elogiado, me decepcionou um pouco. O mais interessante é a figura de Ranulpho, vivido com muita malícia e contenção pelo ator João Miguel. Estamos longe dos clichês a respeito de um povo nordestino simplório, espontâneo e generoso.

Difícil uma personagem que consiga despertar tanta simpatia fazendo tão pouco. Ranulpho pensa o tempo todo nos próprios interesses, sem deixar de lado o companheirismo e a disponibilidade. Não julga, não atrapalha, não invade o seu amigo alemão, Johann (Peter Ketnath), com quem viaja num caminhão pelos sertões mais secos do Nordeste.

Estamos em 1942, e logo o Brasil irá declarar guerra contra a Alemanha, colocando um ponto final no relacionamento entre Ranulpho e Johann. O rapagão loiro vendia caixas de aspirina, medicamento novo naqueles tempos, pelo Brasil, e corre o risco de ser mandado de volta à Alemanha, ou ser internado num campo de concentração.

Embora os diálogos entre Ranulpho e Johann sejam muito bons e econômicos, a personagem do representante da Bayer é responsável, a meu ver, pelas maiores fraquezas do filme. Johann é uma figura desinteressante, não suficientemente germânica para estabelecer contraste com Ranulpho, e não alternativa e imaginosa o bastante para levar o tipo de vida aventurosa que leva.

Há também uma coisa que a esta altura virou clichê, a idéia de alguém passando filmes em lugarejos perdidos do interior. Os filmes promocionais da Bayer serviriam para esclarecer a população sobre os benefícios da aspirina. Nenhum efeito cultural decorre daí, e o filme de Marcelo Gomes insiste apenas nas imagens nostálgicas dos rostos populares iluminados pela luz do projetor.

Sem dúvida, está em jogo aqui a questão da apropriação brasileira dos benefícios da modernidade: o caminhão, o rádio e o projetor de Johann fascinam Ranulpho. Poderia ser mais interessante se Johann entrasse numa relação de fato conflituosa com a tecnologia, o que mal é sugerido numa cena isolada. A solução que Johann encontra para escapar dos problemas criados pela guerra –partir para os seringais da Amazônia—não convence muito, dada a desatenção do roteiro quanto às motivações psicológicas do personagem.

E sempre me incomodam –sei que sou chato nesse ponto— os descuidos de produção, os fios soltos do roteiro, comuns em filmes nacionais. Johann está viajando há três meses pelo sertão nordestino. Resolve tirar uma soneca e cobre o rosto com um lenço, para proteger-se do sol. O lenço está passado, branquinho, imaculado, como se tivesse saído da lavanderia. O rádio não pára de tocar no caminhão de Johann, o que é necessário no roteiro, para que sejam ouvidas as notícias sobre a guerra. Mas como é que o rádio conseguia sintonizar estações no meio do nada? A atriz Hermila Guedes aparece no começo da história, pedindo uma carona para a dupla. Some alguns minutos depois, e não sabemos a que veio. Uma vez tomada a decisão de partir para a Amazônia, Johann abandona o caminhão no meio da caatinga. Não poderia vendê-lo em algum lugar? Não, porque o final do filme já estava planejado, e tinha de ser aquele, que não vou contar. Não quero ser mais chato do que já estou sendo.  

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h07

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um poeta sueco (3)

um poeta sueco (3)

Mais um poema curto de Tomas Tranströmer.

Igreja românica

 

 

Os turistas se apinharam na penumbra da enorme igreja românica

Arco se abrindo atrás de arco e nenhuma perspectiva.

A chama de algumas velas vacila.

Um anjo –não consegui ver a sua face—me abraçou

e o seu sussurro atravessou todo o meu corpo:

“Não se envergonhe de ser um ser humano, orgulhe-se!

Dentro de você um arco se abre atrás de outro, infinitamente.

Você nunca estará completo, e é assim que tem de ser.”

Lágrimas me cegaram

quando fomos conduzidos até a praça ferozmente ensolarada

junto com Mr. e Mrs. Jones, Herr Tanaka e a Signora Sabatini;

dentro de cada um deles arcos e mais arcos se abriam infinitamente.

 

abadia de Fontevrault, sec.12

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h58

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Um poeta sueco (2)

Um poeta sueco (2)

Cito mais um trecho do poeta Tomas Tranströmer. É a terceira parte de um poema intitulado "Ao ar livre", traduzido para o inglês por Robert Bly, na antologia The Half-Finished Heaven (Graywolf Press):

O sol queima. O avião voa baixo/ lançando uma sombra com a forma de uma cruz gigantesca que corre pelo chão./ Um homem está sentado no capo cavocando alguma coisa./ A sombra chega até ele./ Por uma fração de segundo ele fica bem no meio da cruz.

Vi muitas cruzes penduradas nas frescas abóbadas das igrejas./ Parecem às vezes o instantâneo fotográfico de alguma coisa que se move a uma tremenda velocidade.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h44

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Um poeta sueco

Um poeta sueco

         Nascido em 1931, o sueco Tomas Tranströmer é considerado um dos mais importantes poetas da atualidade, e seu nome costuma ser lembrado na época do Nobel. Topei com um poema dele que me impressionou bastante, sobre um acidente automobilístico que por pouco não lhe foi fatal. Citei esse poema num post já antigo. (http://marcelocoelho.folha.blog.uol.com.br/arch2006-07-30_2006-08-05.html)

         Agora recebi uma antologia de poemas dele, traduzidos para o inglês por Robert Bly. Passo alguns para o português.

 

 

                            Allegro

 

 

                  Depois de um dia sombrio, toco Haydn

                  e sinto um pouco de calor nas minhas mãos.

 

                  As teclas obedecem. Os martelos gentilmente caem.

                  O som tem espírito, verdor, e está cheio de silêncio.

 

                  O som diz que a liberdade existe

                  e que alguém não dá a César o que é de César.

 

                  Enfio minhas mãos nos bolsos de Haydn

                  e ajo como um homem que está calmo a respeito de tudo.

 

                  Hasteio minha bandeira Haydn. O lema é:

                  “Não nos rendemos. Mas queremos paz.”

 

                  A música é uma casa de vidro erguida num barranco;

                  pedras caem, pedras estão rolando.

 

                  As pedras rolam direto através da casa

                  mas cada parede de vidro ainda está inteira.

                  

Escrito por Marcelo Coelho às 23h28

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0803200704.htm

A ética, a filosofia e a pena de morte são tratadas em mesa-redonda empolgante nas Faculdades Integradas Pintassilgo, até a crônica chegar a um desfecho fatal.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h40

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pechincha

pechincha

Livros de arte a 5 dólares: escritos de Henry Moore, cartas de Pissarro, estudo sobre Alvar Aalto e algumas outras coisas em http://www.scholarsbookshelf.com/listing.asp?userid=&pageid=4&method=promo&promoid=500

Escrito por Marcelo Coelho às 14h37

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campanha

Recebi de uma leitora este e-mail, que acho importante divulgar. Entrei no site, não é vírus.

Wed, 7 Mar 2007 01:00:10 -0300
>
> Olá amigos!
> Vamos salvar o site câncer de mama? Não custa nada!!! Peçam a 10 amigos
> para pedirem a outros 10 amigos, hoje! O site do câncer de mama está
> com problemas pois não tem o número de acessos e cliques necessários para
> alcançar a cota que lhes permite oferecer UMA mamografia gratuita
> diariamente
> a mulheres de baixa renda. Demora menos de um segundo, ir ao site e clicar
> na tecla cor-de-rosa que diz "Campanha da Mamografia Digital Gratuita".
> Não custa nada é através do número diário de pessoas que clicam, que os
> patrocinadores oferecem a mamografia em troca de publicidade.
> NÃO SE ESQUEÇAM !!!!! PASSEM A 10 AMIGOS PARA PASSAREM A 10 AMIGOS ... 

http://www.cancerdemama.com.br 


Escrito por Marcelo Coelho às 18h24

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Dines sobre Janine

Dines sobre Janine

http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=423JDB001

Este é o artigo que Alberto Dines escreveu sobre o caso Renato Janine no Observatório da Imprensa. Dines ataca a fúria dos "bem-pensantes", que também me pareceu persecutória.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h26

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O filme de Al Gore

O filme de Al Gore

         Finalmente vi, porque acaba de ser lançado em DVD, o documentário de Al Gore sobre o aquecimento global. Acho que esperava mais de “Uma Verdade Inconveniente”. Nos jornais e nas revistas, somos confrontados todo dia com as evidências que ele quer apontar: fotos do Kilimanjaro sem neve, das enchentes na Europa Central, da seca (imagine,seca!) na Amazônia –tudo isso é impressionante, e dificilmente o documentário poderia agregar novas coisas ao que já se sabe.

         Estou exagerando, é claro, porque os gráficos apresentados por Al Gore, um depois do outro, constituem uma avalanche de dados que, a esta altura, nenhum cético teria fôlego de refutar. Muito significativa –e alarmante—é a comparação feita entre o que a imprensa publica sobre o assunto e o que aparece nas revistas científicas. Nenhum artigo científico sério contesta o aquecimento global; quase metade das matérias publicadas nos jornais e revistas –pelo menos até o momento em que o documentário foi realizado— traz dúvidas quanto à realidade do efeito estufa. Isso já deve ter mudado bastante, porque as provas e relatórios oficiais se acumulam, na medida mesma em que o fenômeno se acelera terrivelmente.

         Uma coisa, entretanto, foi bem nova para mim: é a extrema “ciência”  com que se fazem conferências hoje em dia. Os slides, “datashows”, ou seja lá que nome tenham, são utilizados por Al Gore com cem por cento de eficácia comunicativa. Ele até usa uma grua para acompanhar de perto, fisicamente,  as altitudes atingidas por determinadas curvas no gráfico no gigantesco telão que tem a seu dispor. Tudo entremeado por perfeitas piadinhas, misturando entretenimento e informação; perto do fim, uma grande conclamação retórica e otimista sobre nossa capacidade de mudar o quadro. Notando o perigo de se achar que “ah, no fim, vão achar uma solução”, Al Gore acrescenta novos alarmes aos minutos finais.

         O filme é pouco mais do que essa conferência, com pouquíssimas cenas de devastação, aquecimento ou catástrofe “in loco”. Um certo culto à personalidade de Al Gore é também bastante visível, com freqüentes closes de seu rosto; o efeito é um pouco desagradável, porque o ex-candidato à presidência dos Estados Unidos está, não digo engordando, mas “crescendo” em todas as direções, como se fosse um super-herói submetido a algum tipo de experiência pneumática. Logo ele não vai precisar da grua para fazer suas conferências.

         Gostaria de um segundo documentário, sobre as resistências políticas ao tema. O filme faz alusão a alguns dos lobbies encarregados de negar o aquecimento global, mas valeria a pena insistir nesse ponto. Enquanto isso, “ O Dia Depois de Amanhã”, sentimentalóide blockbuster de catástrofe produzido pela Fox, funciona admiravelmente na visualização do que –Deus nos livre—vem por aí.  

Escrito por Marcelo Coelho às 10h02

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artigo na Ilustrada

artigo na Ilustrada

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0703200720.htm

Vai aqui o texto que escrevi para a "Ilustrada", ainda sobre Janine.

Escrito por Marcelo Coelho às 09h06

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Arendt e a pena de morte

 

 

No final de “Eichmann em Jerusalém”, a filósofa Hannah Arendt defende em termos eloqüentes a execução, por enforcamento, do oficial nazista diretamente responsável pela organização dos campos de extermínio.

Adolf Eichmann não era um “sádico pervertido”, argumentava Arendt. “Teria sido muito reconfortante achar que Eichmann era um monstro (...) o problema com Eichmann é que muitos eram como ele, e muitos não eram nem pervertidos, nem sádicos,  mas eram e ainda são terrível e assustadoramente normais.” A sentença condenatória de Eichmann deveria ser lavrada, segundo Hannah Arendt, nos seguintes termos:

 

“(...) Você contou sua história como uma história de dificuldades e, sabendo das circunstâncias, estamos até mesmo dispostos a admitir que em circunstâncias mais favoráveis é altamente improvável que você tivesse de comparecer perante nós ou perante qualquer corte criminal. Suponhamos, hipoteticamente, que foi simplesmente a má sorte que fez de você um instrumento da organização do assassinato em massa; mesmo assim resta o fato de você ter executado, e portanto apoiado ativamente, uma política de assassinato em massa. E, assim como você apoiou e executou uma política de não partilhar a Terra com o povo judeu e com o povo de diversas outras nações –como se você e seus superiores tivessem o direito de determinar quem devia e quem não devia habitar o mundo--, consideramos que ninguém, isto é, nenhum membro da raça humana, haverá de querer partilhar a Terra com você. Esta é a razão, e a única razão, pela qual você deve morrer na forca.”

 

Colocada no final do livro, a sentença tem um poder retórico impressionante. Mas ainda assim é uma forma muito elaborada de repetir o argumento da vingança. Não vejo muito rigor na frase “partilhar a Terra com você”. O que isso significa, se Eichmann ficasse isolado numa cela solitária? Essa mesma fraseologia poderia ser aplicada a qualquer assassino –que se julga com o direito de determinar quem deve ou não habitar o mundo. Hannah Arendt defende a pena de morte para todo assassino? E o que faz um tribunal de júri, ao condenar alguém à morte, a não ser “determinar quem deve ou não habitar o mundo”?   

Escrito por Marcelo Coelho às 18h58

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O caso Janine (2)

         Renato Janine volta a escrever, no Mais! deste domingo, a propósito do assassinato do menino João Hélio. Rebate algumas das críticas que recebeu ao longo das últimas semanas, e insiste num ponto a meu ver bastante discutível, que considera “a idéia mais original” do seu primeiro artigo: “a comparação do atual horror privado ao nazista”. De fato, dissera não ver diferença entre os criminosos que arrastaram o menino pelas ruas do Rio e os nazistas, acrescentando que “só um insensato condenaria as execuções decretadas em Nuremberg”.

         Com razão, a meu ver, Andrea Lombardi criticou esse paralelo. “O nazismo foi uma ditadura (não uma iniciativa de um homem do mal)”.

         De fato, não estaremos diminuindo a extrema crueldade, a verdadeira desumanidade dos assassinos de João Hélio, se considerarmos que o nazismo foi diferente. Os assassinos de João Hélio queriam roubar, e não se importaram em matar um menino barbaramente enquanto isso. Um nazista arrastaria um menino até a morte não porque quisesse roubar, mas simplesmente por se tratar de um menino judeu. Faria isso de graça. Um nazista tem ideologia, uma convicção formada a justificar seus atos de barbárie; vê-se como instrumento de uma razão histórica; os assassinos de João Hélio não têm ideologia nenhuma. A barbárie nazista era patrocinada pelo Estado diretamente, mobilizando toda uma nação; a barbárie dos assassinos de João Hélio foi individual. Os assassinatos em massa do nazismo foram planejados, a violência contra João Hélio não.

         É difícil ser contra a execução dos condenados em Nuremberg; meu desejo de vingança contra Hitler e seus asseclas não seria certamente aplacado com uma simples pena de prisão. Mas quando falo em pena de morte, não consigo encontrar justificativa racional para sua aplicação: só os sentimentos subjetivos intervêm no meu discurso.

         Pois a prisão perpétua seria o bastante para eliminar a periculosidade do pior assassino. Ser contra a pena de morte não envolve, necessariamente, a crença de que um monstro, um psicopata, possa um dia se recuperar e ser “devolvido ao convívio social”. Acho que muitas pessoas são mesmo irrecuperáveis, casos patológicos sem solução.

         Mas também acredito na complexidade do ser humano, que pode fazer um assassino serial ser ao mesmo tempo um dedicado técnico em computadores, um excelente entomologista ou um campeão de xadrez. Mesmo o dr. Lecter, no filme “O Silêncio dos Inocentes”, podia ajudar numa investigação policial. No mínimo, o monstro serve para ser entrevistado por especialistas, psicólogos ou historiadores. Manter o sujeito vivo, numa cela blindada, pode ser mais útil à sociedade do que simplesmente matá-lo; a recuperação individual, ainda que praticamente impossível em sua plenitude, pode ser tentada “parcialmente” –nas facetas, ainda humanas, que o monstro possa ter, sem que isso implique deixá-lo em liberdade.

         Nada mais assustador para mim do que uma sociedade em que determinadas pessoas possam decidir quem é humano e quem não é –por maior que seja a desumanidade dos assassinos de João Hélio.

         No artigo para a Ilustrada que publico amanhã trato de outros aspectos do artigo de Janine –mas o tema da comparação entre os assassinos e o nazismo, que considero infeliz, não entrou no texto. 

 Links:

artigo de Andrea Lombardi: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2502200703.htm

artigo de Renato Janine Ribeiro no Mais! de 4 de março: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0403200706.htm

artigo de Wolfgang Leo Maar na "Folha' de 5/3: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0603200708.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 17h49

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trenzinho Villa-Lobos

trenzinho Villa-Lobos

         Está em cartaz no teatro Ruth Escobar um bonito espetáculo de bonecos: é o “Trenzinho Villa-Lobos”, da Companhia Articularte. A idéia é mostrar a infância do compositor brasileiro, e uma coisa simpática da peça é evitar a mística da “genialidade”, tão comum em biografias de todo tipo. O menino Tuhu (este o apelido do compositor, que se amedrontava com trens e era fascinado por eles) não prefigura o futuro gênio musical; é uma criança como qualquer outra de seu tempo, empinando papagaio e fazendo travessuras. Não está determinado desde o início da peça que ele tenha um talento fora do comum. As músicas de Villa-Lobos aparecem, entretanto, sem parar, com grande efeito emocional. Foram muito bem escolhidas e arranjadas: o famoso “trenzinho do caipira” é cantado pelos próprios manipuladores dos bonecos, num coral lindo e simples.

         Nesse espetáculo, os manipuladores são sempre visíveis pelo público, e os bonecos, não muito grandes, são em sua maioria bonitos, sem entrar numa estética “expressionista”, de cores e formas exageradas. Os pássaros com quem o menino Tuhu brinca no quintal são realistas, assim como a figura de sua mãe; já o pai, tipo assustador e severo, é representado de forma um pouco mais fantástica, quase monstruosa.

         É o único foco de maior tensão na narrativa, que se estende através de números quase coreográficos, e se perde em alguns episódios, como o de uma certa tia de Villa-Lobos que aparece apenas para apresentá-lo a J. S. Bach, numa referência que fica perdida para os pequenos espectadores.

         Estes não demonstram grande entusiasmo ou excitação ao longo do espetáculo, mas não é mesmo esse o espírito de “Trenzinho Villa-Lobos”. Trata-se de criar um clima de encantamento, não de berreiro em bufê infantil. Eu, pelo menos, gostei bastante.

http://www.articularte.com.br/tusite/resumo.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 15h43

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O caso Janine

         O filósofo Renato Janine Ribeiro está sendo crucificado pelo que escreveu e pelo que não escreveu no seu artigo para o Mais! de 18 de fevereiro passado.

         Ele foi convidado a fazer um artigo sobre o assassinato bárbaro de João Hélio, arrastado ao longo de vários quilômetros por um carro em movimento. Janine expressou, acima de tudo, sua emoção com aquele crime hediondo. De forma até patética, perguntou-se se poderia haver um Deus capaz de admitir tanta barbárie, e se poderá haver, para João Hélio, alguma recompensa após a morte. A intensidade dessas indagações é mostra, sem dúvida, do forte estado de indignação e perplexidade com que Janine escreveu o artigo.

         Mas ele foi claro na questão sobre defender ou não a pena de morte para os assassinos.

 

defenderei a pena de morte, a prisão perpétua, a redução da maioridade penal? Não sei. Não consigo, do horror que sinto, deduzir políticas públicas, embora isso fosse desejável.

 

         Só que estão tratando Renato Janine como se ele tivesse de fato defendido a pena de morte, a tortura judicial, o linchamento. Ele não fez isso.

         A questão que ele levanta em seu artigo é outra, muito sincera e corajosa. Suas emoções o levam, “infelizmente” se quisermos, a desejar vingança: “torço para que os assassinos recebam sua paga (...) Quando penso que, desses infanticidas, os próprios colegas de prisão se livrarão, confesso sentir um consolo.”

         É isso, e não qualquer defesa concreta de leis mais “duras”, o que chocou a opinião pública civilizada, e fez de Janine a vítima de ataques por todos os lados. Creio que, quando o atacam, não atacam as suas idéias –ele próprio se diz incapacitado de “pensar” sobre a pena de morte no momento. Atacam os seus sentimentos, ou melhor, o fato de ele os ter expressado.

         Se fosse uma cantora de MPB, uma atriz tipo Fernanda Montenegro, o impacto do artigo teria sido outro. Celebridades têm “o direito público” de expressar “sentimentos impensados”. Um filósofo, ou melhor, um professor da USP, simpatizante do PT e alto funcionário da Capes, esse não tem legitimidade para tanto...

         Por que não teria? Ele foi claríssimo ao dizer que não estava escrevendo de uma perspectiva puramente racional, teórica, filosófica. O tema verdadeiro de seu texto, aliás, era outro. Ele se pergunta se é possível, para ele, Renato, ter ao mesmo tempo convicções filosóficas racionais “civilizadas” e sentimentos de vingança tão viscerais.

         Não deu solução para esse conflito interno. A meu ver, como bem observou Vinicius Torres Freire num dos primeiros artigos sobre o caso Janine, os sentimentos pertencem à ordem íntima, e passam; nada têm a ver com a discussão que realmente importa, que é a de como evitar que novos crimes bárbaros aconteçam. Esta última questão é a única, a rigor, que admite discussão racional; quais os fins que uma sociedade deve procurar? Quais os meios para atingir esses fins?

         O problema de Janine é que, talvez, os meios que ele sempre julgou adequados (dentre os quais não está a pena de morte e a tortura) são incapazes de satisfazê-lo emocionalmente.

         Ele não se conforma com esse hiato; discordo dele nesse ponto. O hiato é insuperável, e meus “sentimentos” não têm muito a ver com os meios de diminuir a criminalidade, e sim com os valores que defendo. Sou contra a pena de morte e a tortura porque são irracionais, não oferecem garantia ao cidadão comum contra o erro judiciário e a violência do Estado. Tornam a sociedade mais insegura para mim inclusive. Mas entendo que se odeie quem cometeu um crime bárbaro, a ponto de desejar a pena de morte. E acho que, do ponto de vista puramente emocional, a grande maioria quer isso. Acontece que, quando um filósofo diz que sente isso também, muitos intelectuais se sentem traídos por esse filósofo: desvelou obscenamente uma sensação que é de todo mundo; passam então a odiá-lo por isso, como se os ataques a Janine purgassem a nós todos da raiva vingativa e inconfessável que sentimos.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h07

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os filósofos e o crime

         Concordo com o que escreve o filósofo Oswaldo Giacoia Jr, na Tendências/Debates de hoje, sobre a necessidade de se distinguir entre o espírito de justiça e o mero desejo de vingança. Giacoia critica, de uma perspectiva nietzschiana, os impulsos em favor de se introduzir a pena de morte no país. Também sou contra a pena de morte, principalmente porque torna irreparável qualquer erro judiciário. Mas o argumento de Giacoia contra a pena de morte é bem estranho.

 

Sou radicalmente contrário à pena de morte, pois tenho em elevado conceito a missão de julgar. Antes de qualquer condenação uma sociedade tem de conquistar o direito de julgar. Nossa sociedade carcomida e hedonista tem esse direito?

 

Isso não é bem um argumento contra a pena de morte, é um argumento contra qualquer legislação penal. Não temos direito sequer a condenar um cidadão a uma pena alternativa, se formos usar esse raciocínio.

 

Mas em seguida Giacoia se torna mais específico sobre o caráter hedonista e carcomido da sociedade. Aparentemente, o problema é uma desvalorização da vida.

 

Bagatelizamos o valor da vida a tal ponto que esta pouco se diferencia de qualquer produto.

 

Logo, instituir a pena de morte não seria razoável numa sociedade em que viver ou não faz pouca diferença:

 

Já não vivemos, consumimos nossas vidas, como desgastamos o mundo.

 

Mas será que, numa sociedade em que a vida for realmente vivida, e não “consumida”, estaria então justificada a pena de morte?

Por outro lado, se tantas pessoas querem agora a pena de morte, foi em função das emoções causadas pelo brutal assassinato do menino João Hélio. Essas pessoas que se chocaram com o assassinato também “bagatelizaram o valor da vida”? Ou foram seus assassinos?

 

O artigo de Giacoia termina num lance poético, próximo do ininteligível:

 

Soterrou-se em nossa memória coletiva o encanto e o mistério com que acolhíamos cada novo advento. No dia em que pudermos exultar com ele, como com uma luz num mundo de trevas, então talvez possamos repetir um novo começo.

 

O debate sobre criminalidade no Brasil vai ficando filosófico demais.

 

íntegra do artigo de Giacoia em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0103200708.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 14h34

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0103200704.htm

Haverá preconceito de alguns setores contra a moda das tatuagens? O cronista do "Agora" examina com equilíbrio essa questão.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h10

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Síndrome da China

Não sei se a queda nas Bolsas de todo o mundo foi apenas um episódio passageiro ou o início de uma crise mais séria. Mas ontem a TV mostrou algumas cenas de estabelecimentos na China, onde se reúnem pequenos investidores. São como cinemas, com centenas de cadeiras, e uma tela na frente, mostrando as cotações dos papéis. Em seguida, a câmera focalizou em close uma sexagenária, fazendo tricô, com os olhos grudados nos índices de seus investimentos. Tudo parecia claramente um bingo. Não entendo do assunto, mas quando velhinhas tricotando começam a participar do dia-a-dia das Bolsas de Valores, é óbvio que se está no meio de uma febre especulativa, que termina muito mal. Para a velhinha, principalmente.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h08

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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