| |
um poeta sueco (3)
Mais um poema curto de Tomas Tranströmer.
Igreja românica
Os turistas se apinharam na penumbra da enorme igreja românica
Arco se abrindo atrás de arco e nenhuma perspectiva.
A chama de algumas velas vacila.
Um anjo –não consegui ver a sua face—me abraçou
e o seu sussurro atravessou todo o meu corpo:
“Não se envergonhe de ser um ser humano, orgulhe-se!
Dentro de você um arco se abre atrás de outro, infinitamente.
Você nunca estará completo, e é assim que tem de ser.”
Lágrimas me cegaram
quando fomos conduzidos até a praça ferozmente ensolarada
junto com Mr. e Mrs. Jones, Herr Tanaka e a Signora Sabatini;
dentro de cada um deles arcos e mais arcos se abriam infinitamente.

abadia de Fontevrault, sec.12
Escrito por Marcelo Coelho às 23h58
Um poeta sueco (2)

Cito mais um trecho do poeta Tomas Tranströmer. É a terceira parte de um poema intitulado "Ao ar livre", traduzido para o inglês por Robert Bly, na antologia The Half-Finished Heaven (Graywolf Press):
O sol queima. O avião voa baixo/ lançando uma sombra com a forma de uma cruz gigantesca que corre pelo chão./ Um homem está sentado no capo cavocando alguma coisa./ A sombra chega até ele./ Por uma fração de segundo ele fica bem no meio da cruz.
Vi muitas cruzes penduradas nas frescas abóbadas das igrejas./ Parecem às vezes o instantâneo fotográfico de alguma coisa que se move a uma tremenda velocidade.
Escrito por Marcelo Coelho às 23h44
Um poeta sueco
Nascido em 1931, o sueco Tomas Tranströmer é considerado um dos mais importantes poetas da atualidade, e seu nome costuma ser lembrado na época do Nobel. Topei com um poema dele que me impressionou bastante, sobre um acidente automobilístico que por pouco não lhe foi fatal. Citei esse poema num post já antigo. (http://marcelocoelho.folha.blog.uol.com.br/arch2006-07-30_2006-08-05.html)
Agora recebi uma antologia de poemas dele, traduzidos para o inglês por Robert Bly. Passo alguns para o português.
Allegro
Depois de um dia sombrio, toco Haydn
e sinto um pouco de calor nas minhas mãos.
As teclas obedecem. Os martelos gentilmente caem.
O som tem espírito, verdor, e está cheio de silêncio.
O som diz que a liberdade existe
e que alguém não dá a César o que é de César.
Enfio minhas mãos nos bolsos de Haydn
e ajo como um homem que está calmo a respeito de tudo.
Hasteio minha bandeira Haydn. O lema é:
“Não nos rendemos. Mas queremos paz.”
A música é uma casa de vidro erguida num barranco;
pedras caem, pedras estão rolando.
As pedras rolam direto através da casa
mas cada parede de vidro ainda está inteira.
Escrito por Marcelo Coelho às 23h28
Recebi de uma leitora este e-mail, que acho importante divulgar. Entrei no site, não é vírus.
Wed, 7 Mar 2007 01:00:10 -0300 > > Olá amigos! > Vamos salvar o site câncer de mama? Não custa nada!!! Peçam a 10 amigos > para pedirem a outros 10 amigos, hoje! O site do câncer de mama está > com problemas pois não tem o número de acessos e cliques necessários para > alcançar a cota que lhes permite oferecer UMA mamografia gratuita > diariamente > a mulheres de baixa renda. Demora menos de um segundo, ir ao site e clicar > na tecla cor-de-rosa que diz "Campanha da Mamografia Digital Gratuita". > Não custa nada é através do número diário de pessoas que clicam, que os > patrocinadores oferecem a mamografia em troca de publicidade. > NÃO SE ESQUEÇAM !!!!! PASSEM A 10 AMIGOS PARA PASSAREM A 10 AMIGOS ...
http://www.cancerdemama.com.br
Escrito por Marcelo Coelho às 18h24
O filme de Al Gore
Finalmente vi, porque acaba de ser lançado em DVD, o documentário de Al Gore sobre o aquecimento global. Acho que esperava mais de “Uma Verdade Inconveniente”. Nos jornais e nas revistas, somos confrontados todo dia com as evidências que ele quer apontar: fotos do Kilimanjaro sem neve, das enchentes na Europa Central, da seca (imagine,seca!) na Amazônia –tudo isso é impressionante, e dificilmente o documentário poderia agregar novas coisas ao que já se sabe.
Estou exagerando, é claro, porque os gráficos apresentados por Al Gore, um depois do outro, constituem uma avalanche de dados que, a esta altura, nenhum cético teria fôlego de refutar. Muito significativa –e alarmante—é a comparação feita entre o que a imprensa publica sobre o assunto e o que aparece nas revistas científicas. Nenhum artigo científico sério contesta o aquecimento global; quase metade das matérias publicadas nos jornais e revistas –pelo menos até o momento em que o documentário foi realizado— traz dúvidas quanto à realidade do efeito estufa. Isso já deve ter mudado bastante, porque as provas e relatórios oficiais se acumulam, na medida mesma em que o fenômeno se acelera terrivelmente.
Uma coisa, entretanto, foi bem nova para mim: é a extrema “ciência” com que se fazem conferências hoje em dia. Os slides, “datashows”, ou seja lá que nome tenham, são utilizados por Al Gore com cem por cento de eficácia comunicativa. Ele até usa uma grua para acompanhar de perto, fisicamente, as altitudes atingidas por determinadas curvas no gráfico no gigantesco telão que tem a seu dispor. Tudo entremeado por perfeitas piadinhas, misturando entretenimento e informação; perto do fim, uma grande conclamação retórica e otimista sobre nossa capacidade de mudar o quadro. Notando o perigo de se achar que “ah, no fim, vão achar uma solução”, Al Gore acrescenta novos alarmes aos minutos finais.
O filme é pouco mais do que essa conferência, com pouquíssimas cenas de devastação, aquecimento ou catástrofe “in loco”. Um certo culto à personalidade de Al Gore é também bastante visível, com freqüentes closes de seu rosto; o efeito é um pouco desagradável, porque o ex-candidato à presidência dos Estados Unidos está, não digo engordando, mas “crescendo” em todas as direções, como se fosse um super-herói submetido a algum tipo de experiência pneumática. Logo ele não vai precisar da grua para fazer suas conferências.
Gostaria de um segundo documentário, sobre as resistências políticas ao tema. O filme faz alusão a alguns dos lobbies encarregados de negar o aquecimento global, mas valeria a pena insistir nesse ponto. Enquanto isso, “ O Dia Depois de Amanhã”, sentimentalóide blockbuster de catástrofe produzido pela Fox, funciona admiravelmente na visualização do que –Deus nos livre—vem por aí.
Escrito por Marcelo Coelho às 10h02

No final de “Eichmann em Jerusalém”, a filósofa Hannah Arendt defende em termos eloqüentes a execução, por enforcamento, do oficial nazista diretamente responsável pela organização dos campos de extermínio.
Adolf Eichmann não era um “sádico pervertido”, argumentava Arendt. “Teria sido muito reconfortante achar que Eichmann era um monstro (...) o problema com Eichmann é que muitos eram como ele, e muitos não eram nem pervertidos, nem sádicos, mas eram e ainda são terrível e assustadoramente normais.” A sentença condenatória de Eichmann deveria ser lavrada, segundo Hannah Arendt, nos seguintes termos:
“(...) Você contou sua história como uma história de dificuldades e, sabendo das circunstâncias, estamos até mesmo dispostos a admitir que em circunstâncias mais favoráveis é altamente improvável que você tivesse de comparecer perante nós ou perante qualquer corte criminal. Suponhamos, hipoteticamente, que foi simplesmente a má sorte que fez de você um instrumento da organização do assassinato em massa; mesmo assim resta o fato de você ter executado, e portanto apoiado ativamente, uma política de assassinato em massa. E, assim como você apoiou e executou uma política de não partilhar a Terra com o povo judeu e com o povo de diversas outras nações –como se você e seus superiores tivessem o direito de determinar quem devia e quem não devia habitar o mundo--, consideramos que ninguém, isto é, nenhum membro da raça humana, haverá de querer partilhar a Terra com você. Esta é a razão, e a única razão, pela qual você deve morrer na forca.”
Colocada no final do livro, a sentença tem um poder retórico impressionante. Mas ainda assim é uma forma muito elaborada de repetir o argumento da vingança. Não vejo muito rigor na frase “partilhar a Terra com você”. O que isso significa, se Eichmann ficasse isolado numa cela solitária? Essa mesma fraseologia poderia ser aplicada a qualquer assassino –que se julga com o direito de determinar quem deve ou não habitar o mundo. Hannah Arendt defende a pena de morte para todo assassino? E o que faz um tribunal de júri, ao condenar alguém à morte, a não ser “determinar quem deve ou não habitar o mundo”?
Escrito por Marcelo Coelho às 18h58
Renato Janine volta a escrever, no Mais! deste domingo, a propósito do assassinato do menino João Hélio. Rebate algumas das críticas que recebeu ao longo das últimas semanas, e insiste num ponto a meu ver bastante discutível, que considera “a idéia mais original” do seu primeiro artigo: “a comparação do atual horror privado ao nazista”. De fato, dissera não ver diferença entre os criminosos que arrastaram o menino pelas ruas do Rio e os nazistas, acrescentando que “só um insensato condenaria as execuções decretadas em Nuremberg”.
Com razão, a meu ver, Andrea Lombardi criticou esse paralelo. “O nazismo foi uma ditadura (não uma iniciativa de um homem do mal)”.
De fato, não estaremos diminuindo a extrema crueldade, a verdadeira desumanidade dos assassinos de João Hélio, se considerarmos que o nazismo foi diferente. Os assassinos de João Hélio queriam roubar, e não se importaram em matar um menino barbaramente enquanto isso. Um nazista arrastaria um menino até a morte não porque quisesse roubar, mas simplesmente por se tratar de um menino judeu. Faria isso de graça. Um nazista tem ideologia, uma convicção formada a justificar seus atos de barbárie; vê-se como instrumento de uma razão histórica; os assassinos de João Hélio não têm ideologia nenhuma. A barbárie nazista era patrocinada pelo Estado diretamente, mobilizando toda uma nação; a barbárie dos assassinos de João Hélio foi individual. Os assassinatos em massa do nazismo foram planejados, a violência contra João Hélio não.
É difícil ser contra a execução dos condenados em Nuremberg; meu desejo de vingança contra Hitler e seus asseclas não seria certamente aplacado com uma simples pena de prisão. Mas quando falo em pena de morte, não consigo encontrar justificativa racional para sua aplicação: só os sentimentos subjetivos intervêm no meu discurso.
Pois a prisão perpétua seria o bastante para eliminar a periculosidade do pior assassino. Ser contra a pena de morte não envolve, necessariamente, a crença de que um monstro, um psicopata, possa um dia se recuperar e ser “devolvido ao convívio social”. Acho que muitas pessoas são mesmo irrecuperáveis, casos patológicos sem solução.
Mas também acredito na complexidade do ser humano, que pode fazer um assassino serial ser ao mesmo tempo um dedicado técnico em computadores, um excelente entomologista ou um campeão de xadrez. Mesmo o dr. Lecter, no filme “O Silêncio dos Inocentes”, podia ajudar numa investigação policial. No mínimo, o monstro serve para ser entrevistado por especialistas, psicólogos ou historiadores. Manter o sujeito vivo, numa cela blindada, pode ser mais útil à sociedade do que simplesmente matá-lo; a recuperação individual, ainda que praticamente impossível em sua plenitude, pode ser tentada “parcialmente” –nas facetas, ainda humanas, que o monstro possa ter, sem que isso implique deixá-lo em liberdade.
Nada mais assustador para mim do que uma sociedade em que determinadas pessoas possam decidir quem é humano e quem não é –por maior que seja a desumanidade dos assassinos de João Hélio.
No artigo para a Ilustrada que publico amanhã trato de outros aspectos do artigo de Janine –mas o tema da comparação entre os assassinos e o nazismo, que considero infeliz, não entrou no texto.
Links:
artigo de Andrea Lombardi: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2502200703.htm
artigo de Renato Janine Ribeiro no Mais! de 4 de março: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0403200706.htm
artigo de Wolfgang Leo Maar na "Folha' de 5/3: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0603200708.htm
Escrito por Marcelo Coelho às 17h49
Ver mensagens anteriores
|
|
PERFIL
Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.
|
|