Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

Paredes demolidas

Num post já antigo, falei das fotos de Lina Faria: paredes quebradas, lugares vedados, casas demolidas. Ela agora tem um site, do qual extraio a foto que se segue.

É Mondrian, como ela diz. Pela geometria. Mas as cores são de Magritte, e o resto (a textura, a organização, o significado) são bem contemporâneos.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h53

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Bartók, Armênia

Bartók, Armênia

Estou vendo um documentário feito pela televisão húngara, já disponível em DVD, sobre a vida de Béla Bartok (1881-1945), um dos maiores compositores do século 20, e ainda hoje, depois de descobri-lo aos 14 anos, o meu preferido. O documentário chama-se "Gyökerek", ou "Raízes"; tem locução em inglês. O texto inteiro é baseado nas cartas de Bartók, e as imagens são um espetáculo de natureza centro-européia e fotos de arquivo.

Uma das coisas mais emocionantes do filme é ouvir as canções folclóricas (húngaras, romenas, eslovacas) que Bartók gravou, com um gramofone da idade de pedra, em suas viagens etnomusicológicas. A aspereza das vozes, da melodia e do som aparece então transfiguradas nos arranjos feitos pelo compositor para piano solo, para coro, ou para piano e voz. Bartók não adocica, não "ocidentaliza" aqueles registros; parece, ao contrário, descobrir a verdade musical mais profunda, mais autêntica, mais entranhada de cada melodia, confirmando-a, iluminando-a por dentro.

Bartók, gravando o folclore centro-europeu por volta de 1910

Bartók participou brevemente do governo comunista formado a partir da revolução húngara de 1918, que tinha György Lukács como ministro da Cultura, se é que estou passando a informação exata. Lukács tinha uma visão leninista do partido operário, como uma espécie de dirigente do proletariado, incapaz, por si só, de alcançar a plena consciência de classe. O modelo não tinha como não ser autoritário. Ouvindo Bartók, penso que haveria outro modelo que poderia ser tentado (esteticamente, pelo menos): é o mesmo de Bach, em suas suítes que aproveitavam danças correntes na época barroca. Baseia-se na escuta, e não na imposição. Na interpretação, e não na certeza. O folclore é revelado, não deformado. Questões de outros tempos, em que havia classe operária a interpretar (ou "dirigir")

O folclore centro-europeu é, por vezes, orientalizante. Vale a pena ouvir, nesse contexto, a interpretação da cantora armênia Isabel Bayrakdarian de um tema popular de seu país, "Dle Yaman". Não sei se todas as mulheres armênias são tão bonitas como ela; outra intérprete, mais "pop", mas ainda mais bonita (Nune Yeasayan), pode ser acessada nos "related links" do youtube que acompanham essa gravação.

Isabel Bayrakdarian

 

Escrito por Marcelo Coelho às 21h08

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pausa involuntária (2)

Tive novamente de interromper as atividades deste blog, por uma razão facilmente compreensível. A morte de Octavio Frias de Oliveira, pai do meu amigo Otavio, me trouxe muitas recordações dos anos em que convivi, no 9o. andar da Folha, com uma personalidade impressionante e ao mesmo tempo da maior simplicidade. Escrevi sobre essa experiência no artigo para quarta-feira. Passei a noite de domingo e a manhã de hoje com a família. Não conheço filhos mais dedicados a um pai do que eles. A figura paterna, para mim, sempre foi uma coisa menos absorvente. Meu pai era irônico, fantasioso, um pouco ausente e avoado. Acho que me reconheço nele, à distância de dez anos de seu falecimento. Os filhos de Octavio Frias ainda terão de passar por um longo período de dor e de "absorção" até poderem dimensionar, dentro de si mesmos, uma figura tão formidável, tão presente, como ele foi na vida de toda a "Folha" e de quem trabalhou com ele.

Escrito por Marcelo Coelho às 20h55

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Um poeta e seus filhos

Um poeta e seus filhos

“Nem todos os pais podem dormir com seus filhos na mesma casa em que vivem. Como eu, alguns pais são separados, que dispõem apenas de um sábado e domingo para confirmar a paternidade e reencontrar o significado da família. Pai separado sempre está sob a ameaça de despejo. De ser trocado. Ou de ser esquecido”.

 

É o que escreve o poeta Fabrício Carpinejar, na contracapa de seu último livro, Meu filho, minha filha (ed. Bertrand Brasil). Há muito sofrimento, acusação e culpa nesses belos poemas. A filha mais velha, já adolescente, é tema de versos magoados, de uma sinceridade difícil de encontrar:

 

Quando brinco com as crianças// e faço palhaçada, elas se divertem,/menos tu, encabulada pela maneira/como converso de igual para igual.//Tantas vezes ouvi tua vergonha/ explicando aos colegas,/com os olhos virados para cima:// “Meu pai é louco”./Louco por quem? Já perguntaste?

 

Ou ainda:

 

Corto tuas unhas e reclamas/ que aparo muito rente da pele./Desculpa, tudo que vivi foi rente à pele.//...Eu te alfabetizei e foste/me tirando o espaço entre as linhas./Guarda-me apenas uma fresta.//Não importa o que os adultos falam,/serei o pai da insistência./Até onde posso ir para te resgatar?/Eu faço a cama com o travesseiro/debaixo das cobertas. Conforta-me a idéia/de que alguém está dormindo.//Preferes que o travesseiro/ fique por cima. Abominas a sensação/de que há algum morto em tua cama.//Reclamas do teu pai, como se ele tivesse/ condições de se inventar de novo./Desculpa, corto as palavras/ muito rente da pele,/assim como descascava maçã e levava com a faca/ uma lasca por vez em sua boca.//Tudo o que vivi foi rente à pele./Deixei de ser pai e virei a pensão da tua mãe./Não esqueço o dia em que o oficial de justiça/bateu à minha porta a cobrar/ o que já concedia naturalmente./No papel timbrado, teu nome contra o meu.//O nome que escolhi contra o meu./O nome que sonhei contra o meu./Fui teu primeiro réu, sem que tu soubesses.

 

Dá vontade de respirar fundo antes de fazer qualquer comentário. Os próprios versos, aliás, parecem ter uma respiração difícil, entrecortada, de quem mal conseguiria articular um discurso prolongado de viva voz. Na verdade, a seqüência de poemas deste livro constitui menos uma escrita lírica do que um texto dramático. Imagino essas falas no palco, quem sabe com novos poemas declamados pelos personagens que ficaram mudos neste livro; seria uma peça impressionante. Mas já o que se tem no livro é de uma verdade, de uma precisão nas imagens, e de uma força emocional (sem derramamento, mas também sem reticência ou hermetismo) incomuns na poesia contemporânea.  

Escrito por Marcelo Coelho às 18h50

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Uma viagem de Le Corbusier

Uma viagem de Le Corbusier

Le Corbusier foi dos mais importantes arquitetos do século 20: isso não há muito como discutir. Mas sua liderança ideológica, na defesa do modernismo, talvez se deva não só às obras que projetou, mas ao seu grande poder como escritor. Quando fiz minha dissertação de mestrado sobre a construção de Brasília, li e reli um livro de Le Corbusier chamado “Quand les cathédrales étaient blanches”, que citava um lindo verso de Péguy sobre o milagre das igrejas góticas na França: de uma hora para outra, os construtores medievais cobriram a terra “d’ un blanc manteau d’églises neuves” (de um branco manto de igrejas novas”. Brancura e novidade são, certamente, os principais valores do gosto modernista, e Brasília segue à risca esse projeto –embora, com o tempo, a imagem da cidade esteja mais associada a sujeira e mesmice.

 

Saiu agora, pela Cosacnaify, A Viagem ao Oriente, livro que Le Corbusier só publicou em 1965, mas que contém suas anotações da longa viagem que fez até a Turquia, passando pela Boêmia, pela Sérvia, pela Romênia e pela Bulgária. É um livro quadradinho, gostoso de segurar na mão, e com muitos croquis das edificações que Le Corbusier encontrava pelo caminho. Ele estava com 24 anos, em 1911, mas seu estilo já tinha o fervor convicto e o poder contagiante que o notabilizam como escritor.

 

Eis aqui um trecho, logo do início, onde se expressa seu gosto pela limpeza mediterrânea contra o romantismo nórdico. Ele partiria de Berlim, no rumo de Constantinopla:

 

...sob as pesadas abóbadas do Tiergarten ou ao longo dos glaucos canais do Spree, em nossos passeios demorados, acontecia-nos, ao voltar de uma caminhada fatigante pelos dédalos de pedra das cidades velhas ou novas da Germânia, falar mal de um domo venerado, pôr um ponto de interrogação sobre uma famosa cidade deitada na planície à foz de um rio e dominada por um “burgo” excessivamente romântico, praguejar contra uma carranca medieval enquadrada numa moldura de torreões, fossos e muralhas denteadas, e contra esse rictus equívoco que, sob um elmo épico, está todo marcado por negras chaminés de lepra das sórdidas e fétidas fumaças.

 

A essa visão teatralizada, opus uma outra, menos em moda porque felizmente menos conhecida: um sorriso sereno sob um céu azul colocado em volta de pedras esculpidas e de rebocos cuidadosamente pintados sobre trigais dourados, onde irrompem flores vermelhas, onde se intensifica o azul em estrelas profundas.

 

Costumamos associar o modernismo na pintura, ou na literatura, a uma espécie de “ultra-romantismo”; na Alemanha de 1911, a vanguarda se organizava em torno de Kandinsky, de Klee, dos expressionistas. Curiosamente, eram os parnasianos, ou pós-parnasianos, que enalteciam a herança clara e solar do mediterrâneo; nessa atitude, em que se destacavam Jean Moréas e UOL Busca Charles Maurras, havia muito de antigermanismo de direita, fundado no famoso “revanchismo” militar francês. Ao mesmo tempo, a defesa das linhas puras e racionais na arquitetura –também presente na vanguarda russa e no esquerdismo da Bauhaus—seria marca determinante do modernismo... os caminhos estéticos, felizmente, se cruzam e se confundem, como um labirinto. É nisso que está a riqueza de uma época, por mais que teóricos como Le Corbusier tentem, com sua gênio, simplificá-la na medida (imensa) de sua personalidade. 

 Le Corbusier nas ruínas do Partenon

Escrito por Marcelo Coelho às 14h52

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pausa involuntária

Não pude atualizar o blog nestes dias, mas daqui a pouco recomeço. Enquanto isso, vale a pena dar uma lida no artigo de Hélio Schwartsman sobre a questão do aborto. 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h36

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cultura e mexerico

cultura e mexerico

 

 Thomas Eakins, "The Gross Clinic"

Recebo pelo correio um livro de 230 páginas, luxuosamente editado pela Summus e pelo Instituto Itaú Cultural, dedicado ao tema, que atualmente tenho certa preguiça de discutir, do jornalismo cultural. Mas há ali muitos textos bons, além de um dossiê valioso sobre os sites, livros, revistas e cursos que podem ser úteis a quem quiser se dedicar a essa atividade.

 

Pego carona num texto de Maurício Stycer, ex-editor de cultura da “Época” e agora na Carta Capital, sobre seis problemas do jornalismo cultural. Ele cita, com razão, o excesso de oferta de bens culturais atualmente: “recebo uma média de 30, 50 livros por semana”; em São Paulo, há entre duas e cinco estréias de teatro semanais, e são lançados de dez a vinte CDs novos nesse intervalo de tempo.

 

Outro problema que ele menciona, e que gostaria de comentar, é a “contaminação do jornalismo cultural pelo jornalismo de celebridades”. Hoje, diz Stycer, “a vida é mais importante do que a obra”. Ele não acusa diretamente a imprensa brasileira de sofrer desse problema, e com razão, porque me parece uma tendência mundial.

 

Estou com a “New York Review of Books” de algumas semanas atrás, e os exemplos de biografismo pululam nessa publicação, que é tida e havida como um exemplo a ser seguido de jornalismo cultural. Na verdade, a qualidade dos textos e dos colaboradores está longe de ser uniforme, e para o meu gosto as discussões em torno da política americana no Oriente Médio poderiam obter menos espaço por ali. Mas o que realmente ocupa as discussões é a biografia de grandes escritores e artistas, e, mais especificamente, a sua vida sexual. Não foi por acaso, aliás, que falei no post anterior das acusações de pedofilia em torno de Benjamin Britten; há investigações sobre quem você quiser, na maior parte das vezes muito fúteis e inconclusivas.

 

Até sobre Turgeniev eles especulam, numa resenha sobre “Twilight of Love”, misto de biografia e diário de viagem de Robert Dessaix.

 Turgeniev, em desenho de Pauline Viardot

 

O grande romancista russo teve um grande amor pela cantora Pauline Viardot, irmã de outra cantora célebre da época, Maria Malibran.

Pauline Viardot, auto-retrato

 

 Pauline era casada; os dois se relacionaram durante quarenta anos, de 1843 até 1883, ano da morte de Turgeniev. “Terá sido um caso de devoção casta, de um ‘affair’ que com o tempo se transformou em uma amizade platônica, ou de um ‘ménage à trois consolidado? Esta é uma das questões centrais nas investigações de Dessaix”, diz a resenha. A importância que isso tenha tido na obra de Turgeniev, seja lá o que tenha sido “isso”, não é discutida.

 Maria Malibran

 

Viro umas páginas e topo com uma resenha de três biografias diferentes (isso é que é oferta cultural) do pintor americano Thomas Eakins, uma das figuras representativas das artes plásticas acadêmicas do século 19. Cada um dos biógrafos tem uma visão distinta a respeito das preferências sexuais de Eakins. Para Henry Adams, em “Eakins Revealed”, ele era um exibicionista compulsivo. Para Sidney Kirkpatrick, em “The Revenge of Thomas Eakins”, seu interesse por nus masculinos, assim como sua amizade com Walt Whitman, pode apenas provar ausência de preconceito, mas nenhuma preferência definida. Para William Mc Feely, em “Portrait : The Life of Thomas Eakins”, não apenas o pintor, mas também sua esposa, tiveram relacionamentos homossexuais. A questão não é irrelevante para a interpretação de um quadro importante de Eakins, “The Swimming Hole”, mas convenhamos que curiosidade sobre a vida alheia tem limites, e que a intimidade de Madonna ou Michael Jackson tem tudo para ser mais palpitante. 

 

Eakins, "The Swimming Hole", 1884-5

Escrito por Marcelo Coelho às 22h11

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Antonio Cicero

Antonio Cicero

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2104200732.htm

A tese dostoievskiana do "Se Deus não existe,tudo é permitido" é contestada com memorável lógica e concisão no artigo de Antonio Cicero, hoje na Ilustrada.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h15

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Britten em DVD

Britten em DVD

Falei mal num post anterior do Concerto para Violino de Benjamin Britten (1913-1976). Mas há um tipo de música que, mesmo me parecendo chata, me interessa: tenho a impressão de que, ouvindo mais, vou acabar gostando e entendendo. Por isso comprei um DVD com o documentário de Tony Palmer intitulado “A time there was...”, dedicado à vida de Britten. Foi feito em 1979, pouco depois da morte do compositor.

 

Há momentos muito comoventes nesse filme. Primeiro, vemos as fotos de Britten quando pequeno, uma criança linda, com uma aura de cabelos cacheados; há o depoimento de seus irmãos e irmãs, com algumas observações que me ficaram na memória. Por exemplo, a de que ele era, claro, um menino muito sensível –mas que sempre agüentava o tranco; podia chorar, mas sempre havia nele uma força de resistência, uma capacidade de briga, que não o deixavam desistir, nem perder a integridade. “Ele era bom com os punhos”, diz um familiar.

 

Da fragilidade, temos uma mostra no depoimento de um senhor de idade, que ajudou Britten a dar seu primeiro concerto sinfônico numa cidadezinha do interior da Inglaterra. Britten foi extremamente precoce, e aí pelos vinte anos tinha uma obra já bastante extensa, como disse numa entrevista à BBC. Vemos o programa daquele concerto, com o rapazinho fazendo cara séria de regente. No dia do concerto, havia mais pessoas na orquestra do que na platéia. “Ele ficou com os olhos marejados de lágrimas”, diz o entrevistado, “mas foi em frente”.

 

É bonito mais tarde vê-lo ao lado da rainha Elizabeth II, no auge da fama e das honrarias. Logo vem a velhice: Britten aparece sorridente, de cadeira de rodas, na Praça São Marcos, enquanto tocam os acordes finais de sua ópera “Morte em Veneza”.

 

Os números musicais mais interessantes são os que mostram seu companheiro de toda a vida, o tenor Peter Pears, em trechos da primeira ópera de Britten, “Peter Grimes”. Não há nenhuma análise detalhada sobre as composições, mas a quantidade de registros  do cotidiano de Britten, ou de trechos de suas obras interpretadas por Pears e Janet Baker, valem a pena.

 

Recentemente saiu uma biografia de Britten, contando bastante coisa sobre suas inclinações pedófilas. O documentário de Tony Palmer, bem anterior a essas revelações, não toca nesse assunto. Mas há cenas de Britten ensaiando meninos de coro –típicas crianças inglesas muito bonitas—em que o espectador sugestionável pode identificar um estranho e frio brilho no olhar do compositor.

 

Várias de suas óperas tratam, justamente, do relacionamento de abuso e sedução entre adultos e crianças. “Peter Grimes” mostra um marinheiro sonhador e selvagem que maltrata seus grumetes. “A Volta do Parafuso” é a clássica história de Henry James sobre os poderes fantasmagóricos de um casal de crianças sobre os adultos em volta. “Morte em Veneza” põe em cena um efebo dançarino enquanto Peter Pears, já idoso, geme em melodias desesperadas e dissonantes.

 

O DVD não tem legendas, mas o que nele não se diz talvez seja o mais importante.

 Peter Pears (esq) e Britten na juventude

Escrito por Marcelo Coelho às 17h26

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a Terra vista do Espaço

a Terra vista do Espaço

http://www.usatoday.com/tech/space/earthview/flash.htm

Um leitor me manda essa coleção de fotos da Nasa; meu computador precisa urgente de uma tela maior, mas de qualquer jeito vale a pena.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h57

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sucessos da Osesp

sucessos da Osesp

Um amigo me manda um e-mail, concordando em termos gerais com o que escrevi a respeito do prestígio internacional de alguns músicos clássicos brasileiros. Mas também observa que há muita glamurização em torno da Osesp e de John Neschling, questionando os altos salários do maestro, incompatíveis tanto com a situação das finanças estaduais quanto com as "cotações" do mercado musical de regentes. O assunto dá pano para mangas, e não tenho os números à mão para comparar os salários de Neschling com os de Simon Rattle ou Kurt Masur. Em todo caso, a glamurização é palpável. Um exemplo.

A imprensa brasileira citou muito uma reportagem do "Le Monde", durante a recente turnê da Osesp pela Europa, saudando a orquestra como "un miracle brésilien". Quem leu pensa que se tratava de uma crítica ao concerto em Paris. Mas não. Era uma matéria anterior ao concerto, constituída de uma entrevista com Neschling e de informações sobre as dificuldades por ele encontradas para reerguer a Osesp das cinzas. Nada sobre o concerto em si.  Leia aqui a íntegra da reportagem.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h50

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poesia dos erros

poesia dos erros

Para a coleção de cartazes populares, recebo de uma amiga esta preciosidade.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 13h39

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2104200704.htm

O cronista do "Agora" lembra que, para o pensamento ecológico, tudo na natureza é uma coisá só.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h36

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aborto em questão (2)

         Na revista Época desta semana, com reportagem de capa sobre o aborto, aparece um argumento do jurista Ives Gandra Martins (contra a descriminalização) que me deixou embatucado.

         Ele lembra que a Constituição garante o direito à vida. Mas quando a vida começa?

         “Isso não foi colocado no texto da Constituição, mas era absolutamente desnecessário. A vida só pode começar num determinado momento. No momento em que somos um zigoto, somos únicos. Não é mais ninguém”, afirma.

         E aí vem o argumento-chave de Ives Gandra.

         “Se essa vida não deve ser preservada, o Projeto Tamar também não tem de proteger os ovos das tartarugas porque elas não são tartarugas”.

         Num post logo abaixo, observei que os argumentos pró e contra a descriminalização transitam por vias diferentes; é como se não se cruzassem, o que torna o debate extremamente difícil.

         Certamente, de nada adianta responder a Ives Gandra que ele tem de pensar na vida das mães que se arriscam em clínicas clandestinas, ou que é preciso defender o direito da mulher ao próprio corpo, etc... O campo que ele delimita em seu raciocínio é muito claro, e se for para ser respondido tem de ser respondido em seus próprios termos.

         Ele diz: como é possível defender os ovos das tartarugas, em nome do direito à vida das tartarugas, e não defender o zigoto humano, quando o direito à vida dos humanos está garantido pela Constituição?

         Tento responder.

         A questão fica mais clara, do ponto de vista pró-aborto, se formularmos seus termos de modo diferente.

         Não se trata de discutir o “direito a alguma coisa”, mas o “direito de quem” a essa coisa. Defendo o direito à vida das tartarugas. Defendo que elas sobrevivam enquanto espécie. Mas se, por hipótese, uma tartaruga determinada estiver pondo em risco a vida de sua comunidade –não porque seja uma tartaruga assassina, mas porque tenha uma doença transmissível qualquer--, não hesitarei em tomar as medidas necessárias para evitar os malefícios que ela pode trazer à espécie. Posso legitimamente matar, ou sacrificar, aquela tartaruga, embora defenda o direito à vida da espécie das tartarugas. Sou contra a pena de morte para seres humanos, mas não sou contra a pena de morte para tartarugas, num caso extremo. Meu ato de sacrificar uma tartaruga pode não ser um atentado ao “direito à vida das tartarugas”.

         Digo tudo isso para esclarecer o óbvio: uma tartaruga, adulta ou no ovo, não é uma pessoa.

         No caso dos seres humanos, defender o seu “direito à vida” não significa defender o direito à vida da espécie, que não está em risco pelo número de abortos que se fazem atualmente. Se os abortos chegassem ao ponto de ameaçar a espécie humana, provavelmente estaríamos todos de acordo em proibi-los.

         O que, a meu ver, a Constituição garante são os direitos não da vida humana enquanto espécie, mas os direitos da pessoa humana. É a pessoa que tem direito à propriedade, à herança, à educação, à vida.

         A questão sobre o aborto não é onde começa “a vida”, mas onde começa “a pessoa humana”. É naturalmente um critério mais restrito, embora ainda difícil de resolver de uma vez só. Com cinco meses de gestação? Só depois do nascimento? Não sei.

         Mas me parece razoável, independentemente da convicção religiosa que se tenha, achar que um zigoto não é uma pessoa. E que um aborto nos primeiros meses de gestação pode estar, sem dúvida, destruindo uma forma embrionária de vida, mas não uma pessoa humana, cujos direitos estejam garantidos pela Constituição.

        

Escrito por Marcelo Coelho às 00h10

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Londres, Berlim, São Paulo

Londres, Berlim, São Paulo

Intérpretes brasileiros de música clássica estão num momento de plena glória internacional. Cito alguns exemplos consagradores das revistas de música que leio.

 

A “Gramophone” de maio elege como disco do mês uma gravação do Concerto no1 de Tchaikovsky com o pianista Yevgeny Sudbin e a Osesp, sob a direção de John Neschling. Sudbin é posto nas nuvens pelo crítico Bryce Morrison, que acrescenta, de modo um pouco tolo, que a Osesp “soa como se tivesse sido influenciada pelo espírito do Carnaval da cidade vizinha do Rio, tão contagiada parece ao responder a esse solista radioso”. Outro crítico, na mesma revista, assinala que houve conflitos entre o regente e o pianista durante a gravação, mas que isso não transpareceu no resultado final. 

 

A mesma revista, em janeiro de 2007, tem um artigo de Philip Clark sobre a Osesp, em que o autor declara “ouvi os discos [das sinfonias de Beethoven] por Neschling e fiquei espantado (amazed) com sua intensidade e força vital. Londres, Berlim, Nova York, Paris... São Paulo?”

 

Em dezembro do ano passado, a reedição de dois discos dos anos 70, com Nelson Freire tocando Chopin e Villa-Lobos, motivou do crítico Jeremy Nicols, da mesma revista, o seguinte comentário: “estou ainda para ver um disco de Freire que não atinja o auge da perfeição em termos de gosto, musicalidade, conceito e convicção... o virtuoso brasileiro é o mais lúcido e civilizado dos contadores de história. Ouça a seção do “coral” na Fantasia  [de Chopin]: justo no momento em que você pensa que ele está caindo no prosaico, ele introduz um toque mágico de rubato, diminui a dinâmica –e você está com os olhos marejados.”

 

Em outubro, um CD com o “Guia Prático 1-9” de Villa-Lobos, na interpretação de Sônia Rubinsky, ficou entre os melhores do mês na mesma revista; faz parte de uma série de discos com a obra pianística completa de Villa-Lobos.

 

Em setembro, o disco dos concertos de Brahms com Nelson Freire foi classificado, ao lado das gravações históricas de Gilels e Serkin, como “ponto de referência para as gerações do futuro”. 

 

Não guardei a edição em que também foi eleita, entre os discos do mês, a interpretação de Antonio Meneses e Gérard Wyss da sonata “Arpeggione” de Schubert, ao lado de peças para violoncelo e piano de Schumann.

 

Só uma gravação das Bachianas Brasileiras 7,8 e 9, com Roberto Minczuk á frente da Osesp, teve recepção dividida. A revista “Diapason” achou que “Minczuk não encontra nunca o tactus do pai da música brasileira”, e que “sua direção atrapalhada (brouillonne) afunda o barco de um conjunto reputado como virtuose”; o crítico prefere o próprio Villa-Lobos regendo, ou então Isaac Karabtchevsky. Já a “Gramophone” considera que a gravação de Minczuk ultrapassa as anteriores; deve estar mais certa, porque Villa-Lobos, como regente, sempre foi considerado pouco menos que alarmante.

 

Parece colonizado reproduzir o que os críticos estrangeiros acham de nossos intérpretes? Não acho; são os únicos que não correm o risco de cair na patriotada; além disso, têm uma quantidade enorme de referências de outras gravações, e poderiam até ter um pouco de preconceito contra uma orquestra brasileira. Saindo em desvantagem na competição, os intérpretes brasileiros comprovam muito mais o seu mérito se são elogiados lá fora.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h42

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aborto em questão

         Sou a favor da descriminalizaçâo do aborto, e acho importante a convocação de um referendo sobre o assunto. Espero que a discussão se aprofunde. Os argumentos a favor e contra a descriminalização me parecem ainda muito incipientes, e é como se transitassem por vias que não se cruzam.

Quem defende o direito ao aborto fala, com razão, do problema de saúde pública, do enorme risco à vida das mães que representam as clínicas de aborto clandestinas.

Mas quem é contra o aborto não ignora isso. O risco à vida da mãe, em clínicas clandestinas ou no melhor sistema de saúde pública do mundo, deve ser evitado, na visão dos anti-abortistas, de modo muito simples: pela recusa terminante a abortar. Se o mundo fosse como querem os anti-abortistas, não haveria risco nenhum para a saúde da mãe nesse caso: campanhas de esclarecimento sobre esses riscos, repressão real às clínicas existentes, e mais campanhas a favor de que a criança indesejada seja entregue a uma creche para adoção, resolveriam o problema.

O necessário, para os anti-abortistas, não é mudar a lei, mas zelar por sua aplicação. Prendam-se os donos de clínicas clandestinas, proíba-se de fato o aborto, fale-se dos riscos para a mãe, e o famoso “problema de saúde pública” será reduzido ao mínimo.

Por isso, o argumento em favor da saúde da mãe não tem como comover os que são contra o aborto. No fundo, na visão deles, a saúde da mãe é mais um argumento contra a descriminalização, não a favor.

Como o tema é polêmico, irei tratando dele aos poucos.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h15

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1904200704.htm

É grande a expectativa criada pela visita do papa. O cronista do "Agora" registra.

Escrito por Marcelo Coelho às 08h08

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história, justiça, patifes

No artigo de hoje da Ilustrada, falei de uma série de documentários feitos pela BBC que agora está à venda nas bancas e na internet. Chama-se “Dias que Abalaram o Mundo”, e é tão empolgante quanto um filme de suspense. No artigo, contei três episódios da série, que se referiam ao dia do armistício na Primeira Guerra Mundial, à derrubada de Ceausescu na Romênia e à Guerra dos Seis Dias em 1967.

 

O documentário sobre a Guerra dos Seis Dias é bastante equilibrado, mostrando não só os feitos militares de Israel, reagindo às ameaças de Nasser, mas também a tragédia de uma família palestina, que já havia sofrido muito em 1948, quando da criação do Estado israelense. A ação se concentra num general israelense, que passara a infância em Jerusalém, vivendo à sombra do Muro das Lamentações. Com a criação de Israel, em 1948, a cidade foi dividida, e coube a esse militar organizar a retirada dos judeus que moravam na parte mais sagrada da cidade –onde fica tanto o Muro das Lamentações quanto uma mesquita de onde, segundo a religião islâmica, Maomé ascendeu aos céus. O general Uzi está agora, em 1967, ocupando Jerusalém de novo; mas não tem ordens para chegar até àquela parte sagrada da cidade. Reconquistar o Muro das Lamentações significaria incorporar também a mesquita ao domínio israelense. A ONU emite uma resolução condenando essa possibilidade. O general não se conforma. Espera as ordens de seu comandante, Moshe Dayan. O que aconteceu naquele momento seria decisivo até hoje para a paz e a guerra na região.

 

A complexidade das situações históricas, evidentemente enorme, passa pela subjetividade humana: impossível não pensar “o que faríamos no lugar de Fulano”, o que foi certo e o que foi errado fazer. O fascinante na política, naturalmente, é que a medida entre o certo e errado é uma em determinado momento e pode ser totalmente outra, pelas conseqüências que virá a ter, nos anos seguintes. O que não é desculpa para ninguém se portar como um patife, é claro.

 

Hannah Arendt escreve, num ensaio de “Entre o Passado e o Futuro” (editora Perspectiva) que a famosa frase “Fiat justitia, pereat mundus” (faça-se a justiça, mesmo que com isso o mundo acabe) sempre foi invocada no sentido de relativizar um julgamento moral muito severo na condução dos negócios do Estado. Mas ela cita um comentário irônico de Kant, que, a seu ver, foi dos únicos filósofos que rejeitaram totalmente a relativização proposta pela frase. Kant dizia que “fiat justitia, pereat mundus” pode ser traduzido simplesmente assim: “faça-se justiça, mesmo que todos os patifes tenham de morrer com isso”.

 

Naturalmente, o rigor de Kant só faria sentido se toda a justiça pudesse ser feita de uma vez só. Nesse caso, não haveria por que temer as conseqüências de um rigor ético extremo. O problema é que se pode fazer justiça a um patife, e com isso estimular seus sequazes a cometerem crimes ainda maiores; é o caso da deposição de Saddam Hussein, por exemplo. No Iraque, “mundus perit”, com certeza.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h00

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1804200704.htm

O mundo dos esportes milionários é analisado na crônica do "Agora"

Escrito por Marcelo Coelho às 17h28

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clássicos de risco (3)

clássicos de risco (3)

Dedicado a Rostropovitch, o concerto para violoncelo de Arthur Bliss foi escrito em 1969, quando o compositor, aos 78 anos, já deva por encerrada a sua carreira. Bliss tinha lutado na Primeira Guerra Mundial, onde foi ferido, sofreu ataques de gás e perdeu um irmão. Depois da guerra viajou para Paris, onde ficou amigo de Milhaud e Ravel.

 

O melhor desse concerto está no segundo movimento, um andante sostenuto que começa –como é comum na música inglesa—com um ar de paisagem do campo, onde o violoncelo passeia, de forma também muito inglesa, de um jeito um bocado interrogativo. A frase se repete com mais confiança, com os sopros mantendo o clima pastoral. Ouço várias vezes esse movimento, que vai alterando nota a nota a melodia inicial, sem que consiga penetrar totalmente em seu segredo. Tudo é charme e compostura; a cada repetição do tema a orquestra se instabiliza levemente, como num começo incerto de verão. Lá pelo final do movimento (5m35s na gravação da Naxos), o violoncelo toca a melodia no grave, como se a música tivesse mergulhado num lago. Daí para a frente, o movimento vai secando aos poucos.

 

Também é o segundo movimento, “andante-quasi adagio”, o que atrai mais no concerto para violino de George Frederick McKay (1899-1971), compositor americano que passou a vida como professor de música em Seattle; John Cage foi um de seus alunos. A melodia do “andante”, com poucas alterações e uma letra por cima, poderia ser uma daquelas canções populares americanas do tipo “Someone to Watch Over Me”; a harmonia de algumas passagens (3m58, 4m24, 4m59, 6m04 no CD da Naxos) lembra muito os arranjos de Tom Jobim; um diálogo/cadenza entre a flauta e o violino, perto do fim do movimento, é menos um momento de introspecção intelectual do que uma preparação para o animado e buzinante “allegro vigoroso”. Mais um concerto que, escrito em 1940, tem o dinamismo rooseveltiano que eu havia assinalado num post sobre Walter Piston, dias atrás. Bom para tocar no carro de manhã, tentando driblar os radares de velocidade do Detran. Na minha gravação, o veloz violinista Brian Reagin sai com a carteira de motorista ilesa de multas.

 

Um bom capacete talvez fosse indicado para ouvir o concerto para violino op. 15 de Benjamin Britten (1913-1976). Composto nos anos de 1938 e 1939, começa com um motivo cativante e levemente gélido no violino, com um acompanhamento meio saltitado e misterioso nos sopros graves. O estilo “vento gelado” de Britten é especialmente feliz nos seus “Sea Interludes” para a ópera “Peter Grimes”, de 1945, e dá muito certo nos 3m50 e poucos da minha gravação desse concerto (ainda a Naxos, especializada em clássicos impopulares), quando há uma descida de esqui em fortíssimo de toda a orquestra. Mas há muita espera e demora nesse primeiro movimento, “moderato con moto”, como se o esquiador estivesse embaixo da montanha, batendo os pés de frio, enquanto o teleférico não chega. O que vem é uma eficiente nevasca, no “vivace” que se segue, com mais duas descidas arrepiantes do violino aí pelos 4 min. Chega um momento, entretanto, que tudo parece não acabar mais, todos os efeitos já foram obtidos, e o compositor insiste em mostrar proezas. O ouvinte tem de respirar fundo e enfrentar uma “cadenza” dos infernos, e passará pelo tremendo purgatório de uma “Passacaglia” final, com 14 minutos e meio de duração, em que há de tudo, até uma curiosa valsa aí pelos 6 min. Para Lloyd Moore, autor dos comentários no folheto do CD, a coda desse movimento é “hauntingly beautiful”; para François-René Tranchefort, autor do “Guia da Música Sinfônica” llivro (esgotado) da Nova Fronteira, esse movimento lento é “de um porte esplêndido, [que] traz uma peroração solene e luminosa a uma obra que não é –deve-se admitir—igual do começo ao fim”. Por vezes, parece ser.   

Escrito por Marcelo Coelho às 18h50

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iluminuras medievais

iluminuras medievais

http://expositions.bnf.fr/carolingiens/livres_web/index.htm

Uma exposição na Biblioteca Nacional francesa mostra livros da época carolíngia, "folheáveis" e explicados. Deve funcionar melhor em widescreen, mas consegui ter um gosto da coisa.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h34

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1704200704.htm

Na crônica do "Agora", determinações da prefeitura podem trazer transtornos ao pequeno comerciante.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h41

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gravações antigas

gravações antigas

http://www.odisseiadosom.com.br/

Música do tempo do onça: extratos de vaudevilles de Ziegfeld, registros antiquíssimos de soul, jazz e bandas havaianas. Discos da Companhia Edison, posters lindos da época e cartões postais. Tudo em domínio público. Saber finalmente o que é um cake-walk interessa aos apreciadores de Debussy.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h11

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franceses em viagem

franceses em viagem

A estranheza dos franceses com os costumes brasileiros do século 19, notada aqui a respeito de alguns diários de viagem, como os de Manet e do Príncipe de Joinville, é comparativamente leve diante de algumas de suas reações ao visitar a Inglaterra. Um livro que parece interessante foi editado agora pela Knopf: “That Sweet Enemy: The French and the British from the Sun King to the Present”.

 

Foi escrito pelo casal Robert e Isabelle Tombs, ele inglês, ela francesa, e teve uma resenha muito boa do escritor Julian Barnes, na New York Review of Books. Um relato curioso de francês visitando a Inglaterra é o do poeta Rimbaud, que se espantou com a quantidade de negros nas ruas de Londres, em fins do século 19. Muito caracteristicamente, ele comentou a descoberta num estilo de concisão quase surrealista: “Parece que andou nevando negros por aqui”.

 

As diferenças culturais e políticas entre os dois países também surgem em informações muito sugestivas. Na Inglaterra, há apenas dez funcionários públicos encarregados de cuidar do esporte. Na França, são 12 mil.

 

Dez funcionários públicos apenas? A conta não é meio estranha? Comitês olímpicos, fiscais de academias de ginástica, tribunal de justiça esportiva... será que nada disso existe na Inglaterra, ou será que é gerido exclusivamente pela iniciativa privada?

Escrito por Marcelo Coelho às 19h39

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A flauta mágica

A flauta mágica

         O espetáculo “A Flauta Mágica”, em cartaz no Teatro Imprensa, é recomendado nos guias para crianças maiores de 9 anos. Levei meus filhos de cinco e três, e –apesar da inquietação física habitual do menorzinho—não houve maiores catástrofes, do tipo ter de levar um filho aos berros para fora do teatro; cenas desse tipo acontecem com todo mundo, aliás, mesmo em peças supostamente mais adequadas a essa faixa etária.

         A adaptação da ópera de Mozart é baseada num romance de Dionisio Jacob (editora SM), que sem dúvida confere muito mais lógica e coerência ao enredo. No original, não fica nada clara a razão de um sábio como Sarastro ter a seu serviço o vilão Monostatos; no espetáculo de Vladimir Capella, Monostatos tem outra função dramática, no papel de um dos pretendentes ao amor da princesa Pamina. Também a situação da princesa, dividida entre sua fidelidade à mãe, a Rainha da Noite, e a identificação com o pai, Sarastro, recebe maior desenvolvimento e inteligibilidade.

         Isso exige, sem dúvida, mais peso aos diálogos do que à parte cantada, o que torna a peça no Teatro Imprensa um pouco menos atrativa do que o musical “Pinóquio”, com o qual rivaliza em luxo de cenário e figurinos.

         J.C. Serroni optou por uma ambientação em estilo oriental, ou melhor, numa espécie de “art nouveau oriental”, talvez inspirada nas primeiras produções de Bakst para os balés russos de Diaghilev: longas cortinas de contas de vidro, iluminadas com as mais diversas cores, representam o palácio de Sarastro; um jogo de azul e verde, como a cauda de um pavão, cria a floresta em que Tamino e Papageno se perdem.

         Roupas e coreografia imitam as artes marciais do Oriente, e sem dúvida repercutem na platéia infantil como menções aos “Power Rangers” e outros seriados do gênero, enquanto os adultos reconhecem a voga de estilização gestual que, de Gerald Thomas a Antunes Filho, é hoje uma marca de qualquer cena de luta no teatro.

         É uma pena que a música de Mozart esteja quase que completamente ausente de “A Flauta Mágica”. Com exceção de alguns compassos da abertura, nada restou da ópera em termos musicais. As letras e músicas de Sérvulo Augusto, supostamente mais ao gosto da platéia, têm aquele ar inconfundível de musical americano diluído em jingle presente também em “Pinóquio”, e mesmo os trechos mais fáceis, mais “infantis” de Mozart –como a música dos sininhos tocada por Papageno— foram injustificavelmente desprezados.

         A experiência que tive com meus filhos –e seus coleguinhas de escola—é que a música original de “A Flauta Mágica” é perfeitamente assimilável pelas crianças. A segunda ária da Rainha da Noite é um sucesso para qualquer público, assim como o dueto de Papageno e Papagena, perto do final da ópera.

         Deve haver algum segredo fazendo de Mozart um “hit” para as crianças, mesmo as menores. A “Pequena Serenata Noturna”, em diversas adaptações, é usada em CDs para bebezinhos, assim como a “Marcha Turca”; as variações sobre “Ah, vous dirais-je maman”, que nada mais é que o “Brilha, brilha, estrelinha” podem ser apresentadas a qualquer criança pequena.

         Livros para crianças sobre Mozart, com CD incluído, estão à disposição nas livrarias; as duas edições que tenho em casa apresentam trechos escolhidos do compositor, sem nenhuma simplificação, que foram perfeitamente absorvidas pelas crianças. É um erro achar que a música de Sérvulo Augusto possa ter tornado o espetáculo mais acessível para quem quer que seja; melhor que Mozart, certamente, ele não é.  

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h58

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1404200704.htm

Livros e filmes de auto-ajuda são objeto da crônica de hoje no "Agora".

Escrito por Marcelo Coelho às 18h26

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criança, carro, tragédia

criança, carro, tragédia

         Do mesmo modo que achei importante o movimento de solidariedade ao rabino Sobel, quero escrever algumas linhas sobre o caso daquele pai de família que esqueceu a criança dentro de um carro. Foi dormir, e quando acordou e se deu conta do esquecimento, seu filho já estava inconsciente e veio a morrer logo depois.

         Posso imaginar o extremo de dor e de culpa que ele está sentindo agora, e considero sobretudo uma questão de sorte que isso não tenha acontecido comigo ou qualquer outra pessoa. Não era certamente vontade dele que isso acontecesse; mesmo que fosse o “inconsciente” o responsável por esse esquecimento, ele estaria, a meu ver, perdoado de qualquer maneira. Posso até imaginar que eu não teria dormido cinco horas com a criança presa no carro; que eu não a esqueceria, etc. Mesmo assim não teria a coragem de recriminá-lo pelo que aconteceu.

         Parece-me terrível que, depois dessa tragédia, ele ainda tenha de responder a um processo criminal, podendo ser condenado por homicídio culposo. A única coisa que justifica um processo contra ele, pensando melhor, é que pelo menos com esse problema a mais na vida ele não tenha de ficar remoendo sozinho o que aconteceu. Se for condenado, quem sabe isso o ajude a não se condenar tanto a si mesmo; se for absolvido, quem sabe esse alívio minimize, ainda que em pequena proporção, o sofrimento dele pelo que aconteceu.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h01

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Manet no Brasil

Manet no Brasil

Outro francês que esteve no Brasil, mais ou menos na mesma época que o príncipe de Joinville (ver posts abaixo), foi o pintor Édouard Manet. Suas cartas, escritas no verão de 1849, foram publicadas num pequeno livro da José Olympio, que é uma verdadeira jóia de bom gosto editorial.

 

O problema é que Manet não tinha mais que 17 anos quando veio ao Brasil, como aspirante a oficial da Marinha; só depois de dois exames mal-sucedidos é que seu pai, juiz de Direito, aceitou que seguisse a carreira de pintor. Os poucos desenhos de Manet recolhidos em “Viagem ao Rio”, feitos a bordo do veleiro “Havre et Guadeloupe”, não registram nada da natureza ou dos costumes brasileiros.

 

Ele passou no Rio o Carnaval de 1849, divertindo-se com a guerra de “limões” (bolinhas de cera cheias d´água) que era costume travar naqueles tempos. Levar macacos e outros bichos como lembrança da viagem era prática comum, assim como colher madeiras próprias para a confecção de bengalas: tanto o príncipe de Joinville quanto o futuro pintor se dedicam a tais atividades.

 

O garoto de dezessete anos considera as  brasileiras “muito distintas”; “não merecem a reputação de levianas que têm na França. Ninguém pode ser mais recatada e mais tola que uma brasileira. São mulheres que quase não saem às ruas e com as quais só é possível flertar livremente às 5 horas da tarde, quando todas se metem à janela”. São também, “em geral, muito bonitas. Seus cabelos e olhos são magnificamente negros”. Quanto aos escravos, “têm um aspecto embrutecido. O poder que os brancos exercem sobre eles é extraordinário.Tive a oportunidade de visitar um mercado de escravos: espetáculo bastante revoltante para nós.”

 

Os comentários ficam nisso. De resto, chovia sem parar e Manet ficou semanas sem sair do navio. Em todo caso, ele pôde fazer passeios pelos arredores do Rio e até à ilha de Paquetá; há cobras por toda parte. Manet não conta para os pais, mas seu irmão Eugène fica sabendo que ele foi “picado por um réptil qualquer” e que ficou com o pé “horrivelmente inchado”.

 

Na cronologia que acompanha o volume, há a informação de que Manet morreu em 1883, “vítima de uma infecção no pé, desencadeada por uma antiga ferida mal curada”. Na verdade, Manet teve a perna esquerda amputada antes de morrer. Teria sido ainda a picada da cobra no Brasil? Não tenho biografias de Manet para resolver a dúvida.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h11

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1204200704.htm

A Páscoa não é só chocolate, mas pode muito bem ser, pondera o cronista do "Agora"

Escrito por Marcelo Coelho às 21h19

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um violinista no metrô

um violinista no metrô

        

 

O violinista Joshua Bell é uma das grandes estrelas da música clássica hoje em dia. Seus pais, psicólogos, descobriram seu talento quando ele tinha quatro anos, e começou a tirar música de ouvido usando elásticos presos às gavetas da cômoda, esticados de modo a produzir notas de altura diferente.

         O “Washington Post” resolveu fazer uma reportagem muito interessante com ele. Joshua Bell, com seu Stradivarius, ficou tocando peças como a “Chacona” de Bach numa estação de metrô. Pessoas que, se pudessem, pagariam fortunas para obter um ingresso em seus concertos mal se dignaram a prestar atenção. Voltou com pouco mais que uma moedinha para casa.

         Um pormenor curioso é que na mesma estação trabalha uma brasileira, engraxando sapatos. Ela vive em litígio com os músicos que se apresentam por ali, reclamando de que a música que tocam é muito alta. No caso de Bell, pelo menos, ela não chamou a polícia.

         Houve um sujeito que ficou impressionado e parou durante quase dez minutos para ouvir o recital. Notou que o violinista era extraordinário, mas não reconheceu a figura de Bell.

         Naturalmente, o número de pessoas que conhece música clássica é pequeno, de modo que o fato de só um passante ter reparado na qualidade do recital, entre muita gente apressada e distraída, não me parece especialmente chocante. Mas bem que Joshua Bell merecia algumas moedinhas a mais.

         Leia aqui a íntegra da reportagem, com o filmeto do que aconteceu.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h26

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Um pequeno imperador

         O encontro do príncipe de Joinville com o imperador Pedro 2o, narrado no “Diário de um Príncipe no Rio de Janeiro” (editora José Olympio) merece citação.

 

O trajeto até [o Palácio de] São Cristóvão foi rápido através de uma estrada ladeada por jardins magníficos e aquele belo verde ainda estava refrescado pelo temporal que tinha acabado de cair. Finalmente passamos por uma grade de ferro e subindo por uma avenida sinuosa chegamos ao paço de um castelo de aparência pequena ao pé de uma escada como aquela de Fontainebleau, mas mil vezes menor. Lá sou recebido por um bando de camaristas, subo por entre alas formadas por alabardeiros e atravesso várias salas cheias de ministros etc.etc. O regente marquês de Lima também vem à minha frente. Finalmente percebo uma figura miudinha, da altura da minha perna, empertigada, compenetrada, emproada: é sua Majestade. Fiz-lhe uma profunda reverência à qual ele respondeu e dei-lhe meus cumprimentos de chegada; ele não me respondeu nada. (...) Nós nos sentamos, e ele, sempre sem dizer nada, começou a contemplar-me; minha nossa, isso não me divertia nada, eu fazia frases para manter uma conversa, mas não obtinha sucesso. O regente, vendo o constrangimento geral, quis ajudar, e começou a falar comigo, mas tinha um problema, é que ele era surdo como uma porta e eu também, nós fizemos cacofonias enormes.

 

 

Pedro 2o tinha doze anos nessa época, o que atenua muito o absurdo da situação. Em todo caso, vemos repetir-se aqui, nos olhos de um príncipe estrangeiro, a velha comicidade nacional, no estilo de Machado de Assis. Um país imenso governado a partir de uma casa de bonecas; uma tentativa de aparentar compostura e ordem em meio à bagunça tropical; uma elite aprisionada nas próprias convenções, cercada de camareiros, imitando as posturas européias, num misto de envelhecimento precoce e infantilidade permanente. Valeria a pena comparar essa cena com o relato de algum visitante francês aos Estados Unidos. O visconde de Chateaubriand narra, em Voyage en Amérique, sua visita ao presidente Washington.

 

Uma casinha no estilo inglês, semelhante às casas vizinhas, era o palácio do presidente dos Estados Unidos; nenhum guarda, sequer um valete. Bati à porta; uma jovem empregada abriu. Perguntei se o general estava; ela me respondeu que sim. Repliquei que tinha uma carta para lhe entregar. A empregada perguntou meu nome, difícil de pronunciar em inglês, e que ela não guardou. Disse-me então com suavidade: Walk in, sir, “entre, senhor”, e ela caminhou à minha frente por um desses corredores longos e estreitos que servem de vestíbulo nas casas inglesas; introduziu-me a uma sala, onde me pediu que esperasse o general.

        

 

Como é típico, e especialmente irritante em Chateaubriand, a cena se interrompe para uma reflexão auto-elogiosa; é, talvez, o maior ego de toda a literatura:

Eu não estava emocionado. A grandeza da alma ou da fortuna não se impõem sobre mim; admiro a primeira sem ser esmagado; a segunda me inspira mais piedade que respeito. Rosto de homem não me perturbará jamais.

 

Depois de alguns minutos, o general entrou. Era um homem de grande altura, com um ar mais frio e calmo do que nobre. Seu rosto parece com o das gravuras. Apresentei-lhe minha carta [de recomendação] em silêncio; ele a abriu, correu para a assinatura, que ele leu em voz alta, com uma exclamação: “O coronel Armand!”, era assim que ele chamava a quem tinha assinado como Marquês de la Rouairie.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h38

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Um príncipe no Brasil

         Mais um volume interessante na coleção “Baú de Histórias”, da editora José Olympio. É o “ Diário de um Príncipe no Rio de Janeiro”, de François Ferdinand d’Orléans, filho de Luís Felipe, que reinou na França de 1830 a 1848.

         O príncipe esteve três vezes no Brasil, e acabou se casando com uma irmã de Dom Pedro II. O diário conta sua primeira estada por aqui, em 1838. Ele tinha vinte anos, e um espírito muito aventureiro. Faz uma viagem do Rio até Ouro Preto, sem reclamar muito dos desconfortos do trajeto –mal achavam o que comer em alguns lugares. Gosta de caçar (macacos, periquitos, borboletas) e passa alguns dias no Rio tentando aprender a laçar cavalos à moda dos gaúchos. É um espírito meio superficial, mas simpático.

         As belezas naturais do Rio ocupam-no que a sociedade e os costumes brasileiros. Uma ou outra observação sobre a política brasileira merece registro. O príncipe veio para cá em plena crise da Regência, quando movimentos separatistas surgiam em diversas províncias. Eis a sua avaliação:

 

Até agora esta regência estava confiada a um abade Feijó, um homem mal-educado, porém hábil e com bons olhos para a França; uma oposição forte foi formada que terminou por derrubar o abade e daí saiu o ministério atual e à frente o novo regente, o marquês de Lima [Pedro de Araújo Lima]. Tomando as rédeas do governo, esses senhores foram obrigados a reconhecer que todas as instituições que tinham tantas vezes condenado eram necessárias para governar um país. Pressionados entre as exigências do poder e as do partido que os elegeu ficaram muito confusos; as revoluções da Bahia e do Rio Grande complicam a situação e a falta de tropas, e sobretudo de dinheiro, a coisa mais rara neste país, fazem com que eu não saiba como eles vão se sair do assunto. Mas há uma coisa que salta aos olhos, é a impossibilidade de conservar unido este imenso império. As províncias comerciais do Pará, de Pernambuco e da Bahia vão separar-se, a do Rio Grande do Sul já se libertou e Santa Catarina seguirá em breve o seu exemplo.

 

No fim, é difícil evitar o clichê segundo o qual a grande obra de Pedro 2o e do duque de Caxias foi a preservação da nossa unidade territorial. Sem dúvida, é nisso o que pensam alguns dos entrevistados pela “Folha” domingo passado, escolhendo dom Pedro II como o maior brasileiro. Conheço pouco de história do Brasil para dar um voto bem justificado. José Bonifácio, que está sendo agora “entronizado” no panteão dos heróis da Pátria, é uma personalidade que tem admiradores incondicionais. Em Santos, tomei contato com uma associação que cultua a sua memória –e as idéias de José Bonifácio são espantosamente avançadas: por exemplo, ele era contra a catequização dos índios, achando que deveriam ter respeitada a sua própria cultura.

 

Mas para escolher o “maior brasileiro” seria preciso ler um bocado de biografias. Ruy Barbosa, para mim, é um mistério insondável. Li trechos de sua “Réplica”, talvez o livro de Ruy Barbosa mais disponível nas livrarias, e achei aquilo um pesadelo gramatical sem nenhum interesse. Uma doença mental. Certamente, está na minha lista dos piores livros em que já pus as mãos.

 

Meu voto de maior brasileiro seria assim, movido mais pela simpatia do que pelo conhecimento histórico. Acho a figura de Mário de Andrade especialmente generosa, inteligente, preocupada com o país, e inocente de todas as coisas que qualquer governante, por melhor que seja, acaba tendo de fazer.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h50

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1104200704.htm

Uma exposição sobre o corpo humano leva o cronista do "Agora" a sombrias meditações.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h16

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A nobreza de

A nobreza de "Cartola" "Cartola"

 

         No meu artigo para a “Ilustrada”, falo do documentário “Cartola”, de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda. Apesar de muito diferente do filme sobre Paulinho da Viola, de alguns anos atrás, “Cartola” reforça a impressão de uma linhagem cultural no samba carioca, com mais de um século de existência, diante da qual os músicos de classe média e da Zona Sul acabam parecendo como que arrivistas.

 

A palavra talvez seja forte. Mas assim como na aristocracia francesa existia a “noblesse de robe” e a  “noblesse d’ épée” –sendo esta a mais antiga, a que se envolveu em batalhas históricas na Idade Média, também as figuras de Cartola e Paulinho da Viola podem ostentar um “pedigree” mais antigo. Remonta aos tempos em que o samba, como narra um dos entrevistados no documentário, era reprimido pela polícia. A mera posse de um tamborim podia causar problemas com a justiça. Candomblé e macumba, nem se fala: pelo que li, eram proibidos, mesmo na Bahia, até a década de 30.

 

A vontade das elites brasileiras de serem brancas e européias hoje em dia parece uma simples bobagem cosmética, meio fora de moda. Mas o peso disso foi brutal. Não é de estranhar que só agora, no século 21, documentários como o de Paulinho da Viola sirvam para dar inveja ao público branco.

 

Esse processo não se confunde com o “racismo às avessas” que vigora em alguns lugares, e que sem dúvida é ruim para a unidade mestiça da cultura brasileira. Mas que exista orgulho de uma tradição –por acaso vinculada à cor, mas sobretudo vinculada a uma história cultural— é sem dúvida um fato positivo. Ser branco ou negro não é qualidade ou defeito de ninguém. Mas ter tido, desde o berço, a companhia de uma velha guarda de sambistas é, sem dúvida, um patrimônio de que os herdeiros de Cartola e Paulinho da Viola têm razão de se envaidecer.  

 

Infelizmente curta, mas interessante, é a análise do filme na revista eletrônica Contracampo.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h14

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clássicos de risco (2)

clássicos de risco (2)

         Ainda na linha dos “concertos para violino que ninguém ouve”, andei gostando bastante do “Concerto no 1” de Walter Piston (1894-1976). Piston, cujo nome não me deixa mentir, é um importante compositor americano da geração de Aaron Copland. É autor de espessos tratados de harmonia e orquestração e foi dos muitos compositores que estudaram em Paris com Nadia Boulanger (estudou também com Paul Dukas).

         Esse seu Concerto para Violino foi escrito em 1939, e tem aquele ar de afirmação, de “positividade”, típico do neoclassicismo de meados do século, começando com um belo estouro no tutti da orquestra. Aí entra o violino numa pequena cadenza muito musculosa, abrindo para uma cena mais “americana” e dançante. Nada de espetacular, mas aos poucos fui me encantando com uma frase mais lírica, que depois de muita ansiedade preparação ressurge de modo radioso. Na minha gravação, um CD Naxos com James Buswell suando em bicas no violino e a orquestra da Ucrânia sob a regência de Theodore Kuchar, isso ocorre aos 5m 14s do primeiro movimento. A partir daí, o ouvinte foi conquistado, e pode apreciar bastante as acrobacias e os acelerandos que levarão ao fim do movimento. Não é música delicada e sugestiva, mas vital. Talvez correspondesse um pouco à imagem dos americanos naquela época: sob Roosevelt, sobretudo, a ordem parecia ser “nada de depressão!” E muitos metais.

         O segundo movimento, um “Andantino molto tranquillo” é um tema com variações que me deixa bastante perdido; o violino rumina uma série de notas, com a orquestra embrenhada num contraponto dos mais nebulosos. Hora de passar ao “allegro con spirito”, bastante elétrico e urbano, com o violino assobiando despreocupado, como um moleque de rua do tempo antigo.

         O resto do CD, com uma “Fantasia” para violino e orquestra de 1970, e o concerto no. 2, de 1960, já é osso bem mais duro de roer. No concerto no 2, a influência do concerto de Bartók é nítida no “moderato” inicial, sem que isso melhore grande coisa do panorama. O “adagio” que vem em seguida é mais bonito, lembrando os momentos mais sonhadores de Copland, mas ainda quer forçar um sotaque húngaro. No “allegro final” reencontramos o espírito da composição de 1939, com toques de luz especialmente sedutores na orquestração. Saio contente; volto amanhã. 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h54

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clássicos de risco

clássicos de risco

Num post anterior, chamei de “clássicos tarja preta” aqueles CDs de música erudita que poucos se aventuram a comprar, dado o alto risco de se depararem com chateação de primeira classe. Costumo ser um investidor muito amigo de riscos nessa área, e fui recompensado, por exemplo, com a descoberta do Concerto para Violino do dinamarquês Carl Nielsen (1865-1931), bem mais ameno e ensolarado do que sua obra mais famosa, a “Sinfonia no. 4”, que tem o proibitivo cognome de “A Inextinguível”.

 

Enumero agora algumas outras explorações e descobertas recentes no mundo dos clássicos menos conhecidos. Depois do concerto para violino, fui com vontade ouvir outro CD da Naxos, com os “concertos completos” de Nielsen. Resumem-se a três: além do de violino, há um para clarineta e outro para flauta e orquestra. São bem mais dissonantes, e correspondem a um período já mais avançado na evolução artística do compositor.

 

O de clarineta foi escrito em 1928, e o instrumentista que o estreou em Copenhagen disse que Nielsen tinha um senso infalível para sempre descobrir as notas mais difíceis de tocar. O clima inicial, como convém à clarineta, tem algo de gaiato e saltitante. Mas toda a peça, num só movimento, é cheia de interrupções bruscas e sempre desnorteia o ouvinte.

 

O clarinetista Kevin Banks, nesta gravação, resolve com fluência as dificuldades da partitura, e parece ter um domínio muito grande da dinâmica; do suave ao fortíssimo, é importante apresentar o máximo de variedade numa música que corre o risco de ser, a maior parte do tempo, enfática demais. No geral, a sensação é de estar diante de um Janacek mais tímido, tentando livrar-se sem sucesso do pesado manto de um fantasma híbrido de Richard Strauss e Bruckner.

 

O concerto para flauta e orquestra, que teve sua estréia em Paris em 1926, é seco, decidido e militar, servido por uma orquestração opulenta –e talvez sua maior dificuldade de audição esteja no caráter ambíguo de seus sentimentos; nunca sabemos se são cômicos ou dramáticos. Certamente há muita teatralidade nessa música; será que não há, também, música de menos? Não me arrisco, simples amador, a um julgamento tão duro; mas também não recomendo o CD para todo mundo.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h35

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Picaretagem e auto-ajuda

No artigo de hoje para a Ilustrada, falo rapidamente de "O Segredo", DVD de auto-ajuda que anda fazendo muitos lucros e influenciando pessoas. Minha questão principal é porque a forma do livro impresso termina sendo ainda a preferida para esse tipo de mensagem. Recomendei também um livro de Charles Mackay, sobre ilusões populares, bastante interessante, mas com péssima tradução, publicado no Brasil pela Ediouro. Ele trata, por exemplo, da tulipomania na Holanda e da febre especulativa em torno da Companhia do Mississipi, na França do século 18. Mas a tradução é tão ruim que a personagem bíblica Dalila é tratada o tempo todo por "Delilah", no capítulo sobre as superstições relacionadas à barba e ao cabelo.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h54

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cinema de uma década (2)

cinema de uma década (2)

         Ainda sobre crítica de cinema, tento tocar num ponto que não é exclusividade dos ensaios de “Cinema Brasileiro 1995-2005”. Na verdade é comum a muitos espectadores de filmes nacionais –o de elogiar determinadas obras porque não se adequam aos padrões de qualidade hollywoodianos. A atitude seria correta, a meu ver, se os filmes elogiados fossem de fato transgressores e revolucionários. Quando não são, a falta de qualidade é, a meu ver... falta de qualidade mesmo. Cito um trecho da palestra que estou preparando.

 

         Em algumas críticas publicadas nesse livro da “Contracampo”, trata-se de questionar o suposto “padrão de qualidade técnica” alcançado em alguns filmes da retomada, em especial os de Walter Salles Jr. –um dos quase-vilões do livro, aliás, enquanto Carlos Reichenbach tende a ser celebrado.

 

         Tatiana Monassa, por exemplo, critica os cineastas excessivamente preocupados em “seguir uma espécie de cartilha invisível do ‘bom cinema’, que é de certa forma espetaculoso e chama a atenção para si como grande produto comercial antes de tudo” (p.111) Cita, como exceção a essa tendência,  “Uma Vida em Segredo” , de Suzana Amaral.  O problema é que sua crítica, embora muito feliz ao tratar de um filme como “O Invasor”, é ainda marcada pelo estrito critério realista. Ela descreve “Uma Vida em Segredo” pela história dos personagens:

 

                  Biela, após o falecimento da mãe, é levada do interior para a cidade, para habitar a casa de seu primo, que possui uma bem-constituída família burguesa. Desajeitada, como um peixe fora d’água, ela sofre com todas as tentativas incessantes de integrá-la em seu novo meio (...) É rica (...) e deve portanto seguir a orientação dos primos para aprender a se portar como deve... etc.  

 

Por mais que eu concorde com as críticas habitualmente feitas a Waltinho Salles, acontece que tecnicamente os filmes dele são melhores que o de Suzana Amaral. Os cortes são melhores, a fotografia é melhor, a narrativa é menos travada, os diálogos são mais cuidados, os atores são menos rígidos, os tipos são menos caricatos... Mas aqui ocorre como que uma inversão daquele procedimento que eu denunciava no crítico conservador. Vimos que a obra inovadora redefine os princípios estéticos vigentes, que passam a ser então rebaixados ao status de uma simples convenção de época. O crítico conservador insiste em chamar de princípios imutáveis o que se revelou ser apenas uma convenção. Acho que na crítica de cinema brasileiro ocorre um fenômeno simétrico. A obra analisada não é inovadora, mas de algum modo não atende, por insuficiência técnica, as convenções vigentes quanto ao que é “bom cinema”. O crítico elogia essa insuficiência, porque não quer ser conservador, mas ao mesmo tempo está seguindo os padrões vigentes de análise –julgando o filme segundo critérios realistas, segundo a história dos personagens, o conteúdo das relações entre eles etc... E ficamos assim diante de algo que é mais do que um conteudismo puro e simples: é uma espécie de antiformalismo, ou “pré-formalismo”, onde o conservadorismo estético no atacado termina servindo para fazer vista grossa às falhas no varejo –tidas como transgressoras, mas que não ocupam lugar claro na própria análise do filme. São vistas apenas como “contestação às supostas regras do bom cinema”.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h46

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0404200704.htm

O caos aéreo não escapa das atenções do cronista do "Agora".

Escrito por Marcelo Coelho às 17h32

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cinema de uma década

cinema de uma década

Para uma palestra que realizo hoje à noite na Faap, sobre crítica de cinema, fiquei lendo uma ótima coleção de ensaios sobre os filmes da “retomada”. Trata-se de UOL Busca Cinema Brasileiro 1995-2005- Ensaios sobre uma década, organizado por Daniel Caetano, da revista eletrônica Contracampo (Azougue Editorial). Fiz entretanto algumas observações sobre a abordagem utilizada em alguns ensaios, e transcrevo aqui um trecho da palestra, que procurei preparar com um estilo meio coloquial.

 

Quando se faz crítica do cinema brasileiro da retomada, o padrão de julgamento é basicamente realista, o que não é evidentemente errado, a meu ver, mas precisa ser entendido com certas nuances. A critica é feita nem sempre segundo critérios do realismo estético mais estrito: questões como plausibilidade das situações, naturalidade dos atores, qualidade do diálogo (que a mim incomodam muito no cinema brasileiro) não são enfatizadas com freqüência. O que se enfatiza é o critério do realismo sociológico, se assim podemos dizer: de que modo tal filme reflete, expressa, trata, enfoca, as contradições da sociedade brasileira? O padrão de julgamento de um filme acaba não sendo o da experiência empírica quotidiana (por exemplo: ninguém sairia vestido com essa roupa numa cidade do interior, ninguém falaria com esse sotaque na periferia do Recife, etc.) e passa a ser o de um conhecimento sociológico a respeito do que é e do que deve ser a sociedade brasileira.

Tomo um exemplo do primeiro ensaio do livro, escrito por Cléber Eduardo, que faz uma análise muito interessante da “distopia” no cinema brasileiro da retomada. Ele analisa filmes como “Um Céu de Estrelas”, “Carlota Joaquina”, “Desmundo”, “Terra Estrangeira”, para mostrar de que modo há sempre a idéia de que não há saída, de que o Brasil é uma prisão, da qual não se pode fugir, ou um circo –no caso de “Carlota Joaquina”, ao qual se repudia” (p.56). Eis o que Cléber Eduardo diz de “Como Nascem os Anjos”, filme de Murilo Salles em que duas crianças de favela assaltam um americano, numa mansão do Rio de Janeiro.

 

         Não estamos também no terreno da opção humana, como é o caso do ex-namorado de “Um Céu de Estrelas”, que se recusa a ser deixado para trás, opondo-se à ascensão de sua ex-parceira. Quem se opõe em “Como Nascem os Anjos” é apenas o azar. Ou pior: um determinismo social sem agentes. Há uma maldição, portanto, a embalar o Brasil. E a questão materialista, de classe, integrante do conflito, passa a escorrer pela tela. Ela está lá, enquanto figuração, mas inexiste, enquanto força propulsora. A aparente narrativa de ruptura e choque deságua em conformista constatação do inevitável. O choque de classes vira contemporização ao não apontar o dedo para nada, apenas para uma estrutura social na qual todos são responsabilizados –e, conseqüentemente, ninguém. A culpa é do Brasil.

 

A mesma crítica é feita por Cléber Eduardo a “Cronicamente Inviável”. Em “O Invasor”, também se denuncia a “ausência de saída”. (p 63). No máximo, há saídas individuais, como a do protagonista Buscapé em “Cidade de Deus”. Resumindo, diz o autor,

 

         A recorrência de finais em fuga ou da permanência na fuga é uma confirmação da inviabilidade do herói no cinema brasileiro. Não há na cinematografia uma tradição do protagonista que, diante dos erros do mundo, coloca-se em sacrifício para consertar seu meio.

 

         Do ponto de vista analítico, a crítica de Cléber Eduardo me parece correta. A questão que fica é que há um julgamento embutido na análise; somos quase que automaticamente levados a perguntar: “não há heróis, muito bem. Mas deveria haver?” Que tipo de cinema contentaria o crítico? Pelo menos num aspecto, esse tipo de crítica, muito ideológico, fica incompleto. Seria necessário dizer de que modo cada filme, ao transmitir uma imagem do Brasil que o crítico considera incompleta, errada, criticável, termina recorrendo a soluções forçadas, implausíveis, abruptas no plano formal. É possível ser plenamente satisfatório do ponto de vista formal, e ser falso, parcial, omisso no plano do conteúdo?

Escrito por Marcelo Coelho às 17h30

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triunfo da picaretagem (2)

triunfo da picaretagem (2)

         Embora o ceticismo de Francis Wheen (Como a Picaretagem Tomou Conta do Mundo, ed. Record) seja música para meus ouvidos, seu humor é muitas vezes de mau gosto e desnecessariamente baixo. No capítulo 2 do livro, o jornalista britânico ataca os gurus de auto-ajuda, em especial Deepak Chopra. Eis um trecho:

 

Tanto os magnatas vaidosos quanto os hippies holísticos podem reconfortar-se com a lisonja de Chopra (“você é intrinsecamente perfeito”) e com sua crença em que a mais alta condição humana é o “estado do ‘eu sou’”: uma vez que colhemos o que plantamos, a saúde e a riqueza são predominantemente autogeradas. Levando essa lógica ao absurdo, diz ele que “as pessoas envelhecem e morrem por terem visto outras pessoas envelhecerem e morrerem. O envelhecimento é um simples comportamento aprendido”. Demi Moore ficou tão impressionada com este resumo que o nomeou seu guru pessoal, anunciando que, “através dos ensinamentos dele, espero viver até uma idade bem avançada, nem 130 anos são impossíveis”. O próprio Chopra, bem mais cauteloso, diz que “espero viver bem mais de cem anos”. Por que a fórmula da longevidade não funcionou com a princesa Diana, com quem ele almoçou pouco antes da morte dela, continua a ser um mistério.

 

Mesmo sem a infeliz frase final, o texto é forçado. Por que seria “bem mais cauteloso” dizer “espero viver bem mais de cem anos” do que dizer “nem 130 anos são impossíveis”?

 

Melhores são as críticas de Wheen a Tony Blair, num ponto que o leitor brasileiro talvez desconheça. É um caso ocorrido em 2002. Fundamentalistas cristãos, conta Wheen, assumiram o controle de “uma escola custeada pelo Estado” e começaram a fazer propaganda do criacionismo. Wheen prossegue:

 

A deputada Jenny Tonge perguntou se o primeiro-ministro “gostaria de permitir o ensino do criacionismo junto com a teoria darwinista da evolução nas escolas estatais”. Um simples “não” era certamente a única resposta possível, especialmente na medida em que Blair iria fazer um discurso na Royal Society, dias depois, no qual exaltaria “a ciência propriamente dita” e advertiria contra “um retrocesso à cultura da desrazão”. Mas não foi esta a resposta que ele deu. Blair disse a Jenny Tonge que os criacionistas de Gateshead estavam fazendo um trabalho esplêndido: “No fim das contas, um sistema de ensino mais diversificado trará melhores resultados para as nossas crianças”. 

 

Há também histórias de Tony e Cherie Blair dando gritos primais depois de um banho de lama ritual no México. George Bush não está sozinho, sem dúvida.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h58

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Solidariedade ao rabino Sobel

Dora Kramer, no "Estado", Jaime Pinsky, na "Folha", e Belisário dos Santos Jr., no "Painel do Leitor" da Folha de sábado passado, foram algumas das pessoas que escreveram coisas bonitas, admiráveis e humanas sobre o rabino Sobel. Lamento não ter me antecipado, neste blog, a tais manifestações. Circula pela internet um abaixo-assinado em solidariedade a Sobel, cujo teor reproduzo aqui.

Prezado senhor Henry Sobel,

O lamentável episódio que o envolveu mostra que todos somos humanos, e ninguém está livre de atitudes irracionais e autodestrutivas.

O acontecido em nada diminui sua importância para o desenvolvimento da comunidade judaica brasileira, no sentido de uma abertura ao diálogo ecumênico.

Neste momento extremamente difícil de sua vida, na véspera do Pessach e da Páscoa, apelamos à comunidade judaica e ao público brasileiro a manter o espírito de compreensão e compaixão, valorizando no homem público Henry Sobel aquilo que o destaca em todo o seu longo histórico de realizações: a sua rara coragem de lutar pelas causas da Justiça, dos Direitos Humanos, e pela Paz entre os povos.

Com respeito e solidariedade,

Assine em http://www.petitiononline.com/petsobel/petition.html .

Escrito por Marcelo Coelho às 13h32

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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