Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

cultura e mexerico

cultura e mexerico

 

 Thomas Eakins, "The Gross Clinic"

Recebo pelo correio um livro de 230 páginas, luxuosamente editado pela Summus e pelo Instituto Itaú Cultural, dedicado ao tema, que atualmente tenho certa preguiça de discutir, do jornalismo cultural. Mas há ali muitos textos bons, além de um dossiê valioso sobre os sites, livros, revistas e cursos que podem ser úteis a quem quiser se dedicar a essa atividade.

 

Pego carona num texto de Maurício Stycer, ex-editor de cultura da “Época” e agora na Carta Capital, sobre seis problemas do jornalismo cultural. Ele cita, com razão, o excesso de oferta de bens culturais atualmente: “recebo uma média de 30, 50 livros por semana”; em São Paulo, há entre duas e cinco estréias de teatro semanais, e são lançados de dez a vinte CDs novos nesse intervalo de tempo.

 

Outro problema que ele menciona, e que gostaria de comentar, é a “contaminação do jornalismo cultural pelo jornalismo de celebridades”. Hoje, diz Stycer, “a vida é mais importante do que a obra”. Ele não acusa diretamente a imprensa brasileira de sofrer desse problema, e com razão, porque me parece uma tendência mundial.

 

Estou com a “New York Review of Books” de algumas semanas atrás, e os exemplos de biografismo pululam nessa publicação, que é tida e havida como um exemplo a ser seguido de jornalismo cultural. Na verdade, a qualidade dos textos e dos colaboradores está longe de ser uniforme, e para o meu gosto as discussões em torno da política americana no Oriente Médio poderiam obter menos espaço por ali. Mas o que realmente ocupa as discussões é a biografia de grandes escritores e artistas, e, mais especificamente, a sua vida sexual. Não foi por acaso, aliás, que falei no post anterior das acusações de pedofilia em torno de Benjamin Britten; há investigações sobre quem você quiser, na maior parte das vezes muito fúteis e inconclusivas.

 

Até sobre Turgeniev eles especulam, numa resenha sobre “Twilight of Love”, misto de biografia e diário de viagem de Robert Dessaix.

 Turgeniev, em desenho de Pauline Viardot

 

O grande romancista russo teve um grande amor pela cantora Pauline Viardot, irmã de outra cantora célebre da época, Maria Malibran.

Pauline Viardot, auto-retrato

 

 Pauline era casada; os dois se relacionaram durante quarenta anos, de 1843 até 1883, ano da morte de Turgeniev. “Terá sido um caso de devoção casta, de um ‘affair’ que com o tempo se transformou em uma amizade platônica, ou de um ‘ménage à trois consolidado? Esta é uma das questões centrais nas investigações de Dessaix”, diz a resenha. A importância que isso tenha tido na obra de Turgeniev, seja lá o que tenha sido “isso”, não é discutida.

 Maria Malibran

 

Viro umas páginas e topo com uma resenha de três biografias diferentes (isso é que é oferta cultural) do pintor americano Thomas Eakins, uma das figuras representativas das artes plásticas acadêmicas do século 19. Cada um dos biógrafos tem uma visão distinta a respeito das preferências sexuais de Eakins. Para Henry Adams, em “Eakins Revealed”, ele era um exibicionista compulsivo. Para Sidney Kirkpatrick, em “The Revenge of Thomas Eakins”, seu interesse por nus masculinos, assim como sua amizade com Walt Whitman, pode apenas provar ausência de preconceito, mas nenhuma preferência definida. Para William Mc Feely, em “Portrait : The Life of Thomas Eakins”, não apenas o pintor, mas também sua esposa, tiveram relacionamentos homossexuais. A questão não é irrelevante para a interpretação de um quadro importante de Eakins, “The Swimming Hole”, mas convenhamos que curiosidade sobre a vida alheia tem limites, e que a intimidade de Madonna ou Michael Jackson tem tudo para ser mais palpitante. 

 

Eakins, "The Swimming Hole", 1884-5

Escrito por Marcelo Coelho às 22h11

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Antonio Cicero

Antonio Cicero

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2104200732.htm

A tese dostoievskiana do "Se Deus não existe,tudo é permitido" é contestada com memorável lógica e concisão no artigo de Antonio Cicero, hoje na Ilustrada.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h15

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Britten em DVD

Britten em DVD

Falei mal num post anterior do Concerto para Violino de Benjamin Britten (1913-1976). Mas há um tipo de música que, mesmo me parecendo chata, me interessa: tenho a impressão de que, ouvindo mais, vou acabar gostando e entendendo. Por isso comprei um DVD com o documentário de Tony Palmer intitulado “A time there was...”, dedicado à vida de Britten. Foi feito em 1979, pouco depois da morte do compositor.

 

Há momentos muito comoventes nesse filme. Primeiro, vemos as fotos de Britten quando pequeno, uma criança linda, com uma aura de cabelos cacheados; há o depoimento de seus irmãos e irmãs, com algumas observações que me ficaram na memória. Por exemplo, a de que ele era, claro, um menino muito sensível –mas que sempre agüentava o tranco; podia chorar, mas sempre havia nele uma força de resistência, uma capacidade de briga, que não o deixavam desistir, nem perder a integridade. “Ele era bom com os punhos”, diz um familiar.

 

Da fragilidade, temos uma mostra no depoimento de um senhor de idade, que ajudou Britten a dar seu primeiro concerto sinfônico numa cidadezinha do interior da Inglaterra. Britten foi extremamente precoce, e aí pelos vinte anos tinha uma obra já bastante extensa, como disse numa entrevista à BBC. Vemos o programa daquele concerto, com o rapazinho fazendo cara séria de regente. No dia do concerto, havia mais pessoas na orquestra do que na platéia. “Ele ficou com os olhos marejados de lágrimas”, diz o entrevistado, “mas foi em frente”.

 

É bonito mais tarde vê-lo ao lado da rainha Elizabeth II, no auge da fama e das honrarias. Logo vem a velhice: Britten aparece sorridente, de cadeira de rodas, na Praça São Marcos, enquanto tocam os acordes finais de sua ópera “Morte em Veneza”.

 

Os números musicais mais interessantes são os que mostram seu companheiro de toda a vida, o tenor Peter Pears, em trechos da primeira ópera de Britten, “Peter Grimes”. Não há nenhuma análise detalhada sobre as composições, mas a quantidade de registros  do cotidiano de Britten, ou de trechos de suas obras interpretadas por Pears e Janet Baker, valem a pena.

 

Recentemente saiu uma biografia de Britten, contando bastante coisa sobre suas inclinações pedófilas. O documentário de Tony Palmer, bem anterior a essas revelações, não toca nesse assunto. Mas há cenas de Britten ensaiando meninos de coro –típicas crianças inglesas muito bonitas—em que o espectador sugestionável pode identificar um estranho e frio brilho no olhar do compositor.

 

Várias de suas óperas tratam, justamente, do relacionamento de abuso e sedução entre adultos e crianças. “Peter Grimes” mostra um marinheiro sonhador e selvagem que maltrata seus grumetes. “A Volta do Parafuso” é a clássica história de Henry James sobre os poderes fantasmagóricos de um casal de crianças sobre os adultos em volta. “Morte em Veneza” põe em cena um efebo dançarino enquanto Peter Pears, já idoso, geme em melodias desesperadas e dissonantes.

 

O DVD não tem legendas, mas o que nele não se diz talvez seja o mais importante.

 Peter Pears (esq) e Britten na juventude

Escrito por Marcelo Coelho às 17h26

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a Terra vista do Espaço

a Terra vista do Espaço

http://www.usatoday.com/tech/space/earthview/flash.htm

Um leitor me manda essa coleção de fotos da Nasa; meu computador precisa urgente de uma tela maior, mas de qualquer jeito vale a pena.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h57

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sucessos da Osesp

sucessos da Osesp

Um amigo me manda um e-mail, concordando em termos gerais com o que escrevi a respeito do prestígio internacional de alguns músicos clássicos brasileiros. Mas também observa que há muita glamurização em torno da Osesp e de John Neschling, questionando os altos salários do maestro, incompatíveis tanto com a situação das finanças estaduais quanto com as "cotações" do mercado musical de regentes. O assunto dá pano para mangas, e não tenho os números à mão para comparar os salários de Neschling com os de Simon Rattle ou Kurt Masur. Em todo caso, a glamurização é palpável. Um exemplo.

A imprensa brasileira citou muito uma reportagem do "Le Monde", durante a recente turnê da Osesp pela Europa, saudando a orquestra como "un miracle brésilien". Quem leu pensa que se tratava de uma crítica ao concerto em Paris. Mas não. Era uma matéria anterior ao concerto, constituída de uma entrevista com Neschling e de informações sobre as dificuldades por ele encontradas para reerguer a Osesp das cinzas. Nada sobre o concerto em si.  Leia aqui a íntegra da reportagem.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h50

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poesia dos erros

poesia dos erros

Para a coleção de cartazes populares, recebo de uma amiga esta preciosidade.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 13h39

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2104200704.htm

O cronista do "Agora" lembra que, para o pensamento ecológico, tudo na natureza é uma coisá só.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h36

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aborto em questão (2)

         Na revista Época desta semana, com reportagem de capa sobre o aborto, aparece um argumento do jurista Ives Gandra Martins (contra a descriminalização) que me deixou embatucado.

         Ele lembra que a Constituição garante o direito à vida. Mas quando a vida começa?

         “Isso não foi colocado no texto da Constituição, mas era absolutamente desnecessário. A vida só pode começar num determinado momento. No momento em que somos um zigoto, somos únicos. Não é mais ninguém”, afirma.

         E aí vem o argumento-chave de Ives Gandra.

         “Se essa vida não deve ser preservada, o Projeto Tamar também não tem de proteger os ovos das tartarugas porque elas não são tartarugas”.

         Num post logo abaixo, observei que os argumentos pró e contra a descriminalização transitam por vias diferentes; é como se não se cruzassem, o que torna o debate extremamente difícil.

         Certamente, de nada adianta responder a Ives Gandra que ele tem de pensar na vida das mães que se arriscam em clínicas clandestinas, ou que é preciso defender o direito da mulher ao próprio corpo, etc... O campo que ele delimita em seu raciocínio é muito claro, e se for para ser respondido tem de ser respondido em seus próprios termos.

         Ele diz: como é possível defender os ovos das tartarugas, em nome do direito à vida das tartarugas, e não defender o zigoto humano, quando o direito à vida dos humanos está garantido pela Constituição?

         Tento responder.

         A questão fica mais clara, do ponto de vista pró-aborto, se formularmos seus termos de modo diferente.

         Não se trata de discutir o “direito a alguma coisa”, mas o “direito de quem” a essa coisa. Defendo o direito à vida das tartarugas. Defendo que elas sobrevivam enquanto espécie. Mas se, por hipótese, uma tartaruga determinada estiver pondo em risco a vida de sua comunidade –não porque seja uma tartaruga assassina, mas porque tenha uma doença transmissível qualquer--, não hesitarei em tomar as medidas necessárias para evitar os malefícios que ela pode trazer à espécie. Posso legitimamente matar, ou sacrificar, aquela tartaruga, embora defenda o direito à vida da espécie das tartarugas. Sou contra a pena de morte para seres humanos, mas não sou contra a pena de morte para tartarugas, num caso extremo. Meu ato de sacrificar uma tartaruga pode não ser um atentado ao “direito à vida das tartarugas”.

         Digo tudo isso para esclarecer o óbvio: uma tartaruga, adulta ou no ovo, não é uma pessoa.

         No caso dos seres humanos, defender o seu “direito à vida” não significa defender o direito à vida da espécie, que não está em risco pelo número de abortos que se fazem atualmente. Se os abortos chegassem ao ponto de ameaçar a espécie humana, provavelmente estaríamos todos de acordo em proibi-los.

         O que, a meu ver, a Constituição garante são os direitos não da vida humana enquanto espécie, mas os direitos da pessoa humana. É a pessoa que tem direito à propriedade, à herança, à educação, à vida.

         A questão sobre o aborto não é onde começa “a vida”, mas onde começa “a pessoa humana”. É naturalmente um critério mais restrito, embora ainda difícil de resolver de uma vez só. Com cinco meses de gestação? Só depois do nascimento? Não sei.

         Mas me parece razoável, independentemente da convicção religiosa que se tenha, achar que um zigoto não é uma pessoa. E que um aborto nos primeiros meses de gestação pode estar, sem dúvida, destruindo uma forma embrionária de vida, mas não uma pessoa humana, cujos direitos estejam garantidos pela Constituição.

        

Escrito por Marcelo Coelho às 00h10

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Londres, Berlim, São Paulo

Londres, Berlim, São Paulo

Intérpretes brasileiros de música clássica estão num momento de plena glória internacional. Cito alguns exemplos consagradores das revistas de música que leio.

 

A “Gramophone” de maio elege como disco do mês uma gravação do Concerto no1 de Tchaikovsky com o pianista Yevgeny Sudbin e a Osesp, sob a direção de John Neschling. Sudbin é posto nas nuvens pelo crítico Bryce Morrison, que acrescenta, de modo um pouco tolo, que a Osesp “soa como se tivesse sido influenciada pelo espírito do Carnaval da cidade vizinha do Rio, tão contagiada parece ao responder a esse solista radioso”. Outro crítico, na mesma revista, assinala que houve conflitos entre o regente e o pianista durante a gravação, mas que isso não transpareceu no resultado final. 

 

A mesma revista, em janeiro de 2007, tem um artigo de Philip Clark sobre a Osesp, em que o autor declara “ouvi os discos [das sinfonias de Beethoven] por Neschling e fiquei espantado (amazed) com sua intensidade e força vital. Londres, Berlim, Nova York, Paris... São Paulo?”

 

Em dezembro do ano passado, a reedição de dois discos dos anos 70, com Nelson Freire tocando Chopin e Villa-Lobos, motivou do crítico Jeremy Nicols, da mesma revista, o seguinte comentário: “estou ainda para ver um disco de Freire que não atinja o auge da perfeição em termos de gosto, musicalidade, conceito e convicção... o virtuoso brasileiro é o mais lúcido e civilizado dos contadores de história. Ouça a seção do “coral” na Fantasia  [de Chopin]: justo no momento em que você pensa que ele está caindo no prosaico, ele introduz um toque mágico de rubato, diminui a dinâmica –e você está com os olhos marejados.”

 

Em outubro, um CD com o “Guia Prático 1-9” de Villa-Lobos, na interpretação de Sônia Rubinsky, ficou entre os melhores do mês na mesma revista; faz parte de uma série de discos com a obra pianística completa de Villa-Lobos.

 

Em setembro, o disco dos concertos de Brahms com Nelson Freire foi classificado, ao lado das gravações históricas de Gilels e Serkin, como “ponto de referência para as gerações do futuro”. 

 

Não guardei a edição em que também foi eleita, entre os discos do mês, a interpretação de Antonio Meneses e Gérard Wyss da sonata “Arpeggione” de Schubert, ao lado de peças para violoncelo e piano de Schumann.

 

Só uma gravação das Bachianas Brasileiras 7,8 e 9, com Roberto Minczuk á frente da Osesp, teve recepção dividida. A revista “Diapason” achou que “Minczuk não encontra nunca o tactus do pai da música brasileira”, e que “sua direção atrapalhada (brouillonne) afunda o barco de um conjunto reputado como virtuose”; o crítico prefere o próprio Villa-Lobos regendo, ou então Isaac Karabtchevsky. Já a “Gramophone” considera que a gravação de Minczuk ultrapassa as anteriores; deve estar mais certa, porque Villa-Lobos, como regente, sempre foi considerado pouco menos que alarmante.

 

Parece colonizado reproduzir o que os críticos estrangeiros acham de nossos intérpretes? Não acho; são os únicos que não correm o risco de cair na patriotada; além disso, têm uma quantidade enorme de referências de outras gravações, e poderiam até ter um pouco de preconceito contra uma orquestra brasileira. Saindo em desvantagem na competição, os intérpretes brasileiros comprovam muito mais o seu mérito se são elogiados lá fora.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h42

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aborto em questão

         Sou a favor da descriminalizaçâo do aborto, e acho importante a convocação de um referendo sobre o assunto. Espero que a discussão se aprofunde. Os argumentos a favor e contra a descriminalização me parecem ainda muito incipientes, e é como se transitassem por vias que não se cruzam.

Quem defende o direito ao aborto fala, com razão, do problema de saúde pública, do enorme risco à vida das mães que representam as clínicas de aborto clandestinas.

Mas quem é contra o aborto não ignora isso. O risco à vida da mãe, em clínicas clandestinas ou no melhor sistema de saúde pública do mundo, deve ser evitado, na visão dos anti-abortistas, de modo muito simples: pela recusa terminante a abortar. Se o mundo fosse como querem os anti-abortistas, não haveria risco nenhum para a saúde da mãe nesse caso: campanhas de esclarecimento sobre esses riscos, repressão real às clínicas existentes, e mais campanhas a favor de que a criança indesejada seja entregue a uma creche para adoção, resolveriam o problema.

O necessário, para os anti-abortistas, não é mudar a lei, mas zelar por sua aplicação. Prendam-se os donos de clínicas clandestinas, proíba-se de fato o aborto, fale-se dos riscos para a mãe, e o famoso “problema de saúde pública” será reduzido ao mínimo.

Por isso, o argumento em favor da saúde da mãe não tem como comover os que são contra o aborto. No fundo, na visão deles, a saúde da mãe é mais um argumento contra a descriminalização, não a favor.

Como o tema é polêmico, irei tratando dele aos poucos.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h15

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1904200704.htm

É grande a expectativa criada pela visita do papa. O cronista do "Agora" registra.

Escrito por Marcelo Coelho às 08h08

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história, justiça, patifes

No artigo de hoje da Ilustrada, falei de uma série de documentários feitos pela BBC que agora está à venda nas bancas e na internet. Chama-se “Dias que Abalaram o Mundo”, e é tão empolgante quanto um filme de suspense. No artigo, contei três episódios da série, que se referiam ao dia do armistício na Primeira Guerra Mundial, à derrubada de Ceausescu na Romênia e à Guerra dos Seis Dias em 1967.

 

O documentário sobre a Guerra dos Seis Dias é bastante equilibrado, mostrando não só os feitos militares de Israel, reagindo às ameaças de Nasser, mas também a tragédia de uma família palestina, que já havia sofrido muito em 1948, quando da criação do Estado israelense. A ação se concentra num general israelense, que passara a infância em Jerusalém, vivendo à sombra do Muro das Lamentações. Com a criação de Israel, em 1948, a cidade foi dividida, e coube a esse militar organizar a retirada dos judeus que moravam na parte mais sagrada da cidade –onde fica tanto o Muro das Lamentações quanto uma mesquita de onde, segundo a religião islâmica, Maomé ascendeu aos céus. O general Uzi está agora, em 1967, ocupando Jerusalém de novo; mas não tem ordens para chegar até àquela parte sagrada da cidade. Reconquistar o Muro das Lamentações significaria incorporar também a mesquita ao domínio israelense. A ONU emite uma resolução condenando essa possibilidade. O general não se conforma. Espera as ordens de seu comandante, Moshe Dayan. O que aconteceu naquele momento seria decisivo até hoje para a paz e a guerra na região.

 

A complexidade das situações históricas, evidentemente enorme, passa pela subjetividade humana: impossível não pensar “o que faríamos no lugar de Fulano”, o que foi certo e o que foi errado fazer. O fascinante na política, naturalmente, é que a medida entre o certo e errado é uma em determinado momento e pode ser totalmente outra, pelas conseqüências que virá a ter, nos anos seguintes. O que não é desculpa para ninguém se portar como um patife, é claro.

 

Hannah Arendt escreve, num ensaio de “Entre o Passado e o Futuro” (editora Perspectiva) que a famosa frase “Fiat justitia, pereat mundus” (faça-se a justiça, mesmo que com isso o mundo acabe) sempre foi invocada no sentido de relativizar um julgamento moral muito severo na condução dos negócios do Estado. Mas ela cita um comentário irônico de Kant, que, a seu ver, foi dos únicos filósofos que rejeitaram totalmente a relativização proposta pela frase. Kant dizia que “fiat justitia, pereat mundus” pode ser traduzido simplesmente assim: “faça-se justiça, mesmo que todos os patifes tenham de morrer com isso”.

 

Naturalmente, o rigor de Kant só faria sentido se toda a justiça pudesse ser feita de uma vez só. Nesse caso, não haveria por que temer as conseqüências de um rigor ético extremo. O problema é que se pode fazer justiça a um patife, e com isso estimular seus sequazes a cometerem crimes ainda maiores; é o caso da deposição de Saddam Hussein, por exemplo. No Iraque, “mundus perit”, com certeza.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h00

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1804200704.htm

O mundo dos esportes milionários é analisado na crônica do "Agora"

Escrito por Marcelo Coelho às 17h28

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clássicos de risco (3)

clássicos de risco (3)

Dedicado a Rostropovitch, o concerto para violoncelo de Arthur Bliss foi escrito em 1969, quando o compositor, aos 78 anos, já deva por encerrada a sua carreira. Bliss tinha lutado na Primeira Guerra Mundial, onde foi ferido, sofreu ataques de gás e perdeu um irmão. Depois da guerra viajou para Paris, onde ficou amigo de Milhaud e Ravel.

 

O melhor desse concerto está no segundo movimento, um andante sostenuto que começa –como é comum na música inglesa—com um ar de paisagem do campo, onde o violoncelo passeia, de forma também muito inglesa, de um jeito um bocado interrogativo. A frase se repete com mais confiança, com os sopros mantendo o clima pastoral. Ouço várias vezes esse movimento, que vai alterando nota a nota a melodia inicial, sem que consiga penetrar totalmente em seu segredo. Tudo é charme e compostura; a cada repetição do tema a orquestra se instabiliza levemente, como num começo incerto de verão. Lá pelo final do movimento (5m35s na gravação da Naxos), o violoncelo toca a melodia no grave, como se a música tivesse mergulhado num lago. Daí para a frente, o movimento vai secando aos poucos.

 

Também é o segundo movimento, “andante-quasi adagio”, o que atrai mais no concerto para violino de George Frederick McKay (1899-1971), compositor americano que passou a vida como professor de música em Seattle; John Cage foi um de seus alunos. A melodia do “andante”, com poucas alterações e uma letra por cima, poderia ser uma daquelas canções populares americanas do tipo “Someone to Watch Over Me”; a harmonia de algumas passagens (3m58, 4m24, 4m59, 6m04 no CD da Naxos) lembra muito os arranjos de Tom Jobim; um diálogo/cadenza entre a flauta e o violino, perto do fim do movimento, é menos um momento de introspecção intelectual do que uma preparação para o animado e buzinante “allegro vigoroso”. Mais um concerto que, escrito em 1940, tem o dinamismo rooseveltiano que eu havia assinalado num post sobre Walter Piston, dias atrás. Bom para tocar no carro de manhã, tentando driblar os radares de velocidade do Detran. Na minha gravação, o veloz violinista Brian Reagin sai com a carteira de motorista ilesa de multas.

 

Um bom capacete talvez fosse indicado para ouvir o concerto para violino op. 15 de Benjamin Britten (1913-1976). Composto nos anos de 1938 e 1939, começa com um motivo cativante e levemente gélido no violino, com um acompanhamento meio saltitado e misterioso nos sopros graves. O estilo “vento gelado” de Britten é especialmente feliz nos seus “Sea Interludes” para a ópera “Peter Grimes”, de 1945, e dá muito certo nos 3m50 e poucos da minha gravação desse concerto (ainda a Naxos, especializada em clássicos impopulares), quando há uma descida de esqui em fortíssimo de toda a orquestra. Mas há muita espera e demora nesse primeiro movimento, “moderato con moto”, como se o esquiador estivesse embaixo da montanha, batendo os pés de frio, enquanto o teleférico não chega. O que vem é uma eficiente nevasca, no “vivace” que se segue, com mais duas descidas arrepiantes do violino aí pelos 4 min. Chega um momento, entretanto, que tudo parece não acabar mais, todos os efeitos já foram obtidos, e o compositor insiste em mostrar proezas. O ouvinte tem de respirar fundo e enfrentar uma “cadenza” dos infernos, e passará pelo tremendo purgatório de uma “Passacaglia” final, com 14 minutos e meio de duração, em que há de tudo, até uma curiosa valsa aí pelos 6 min. Para Lloyd Moore, autor dos comentários no folheto do CD, a coda desse movimento é “hauntingly beautiful”; para François-René Tranchefort, autor do “Guia da Música Sinfônica” llivro (esgotado) da Nova Fronteira, esse movimento lento é “de um porte esplêndido, [que] traz uma peroração solene e luminosa a uma obra que não é –deve-se admitir—igual do começo ao fim”. Por vezes, parece ser.   

Escrito por Marcelo Coelho às 18h50

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iluminuras medievais

iluminuras medievais

http://expositions.bnf.fr/carolingiens/livres_web/index.htm

Uma exposição na Biblioteca Nacional francesa mostra livros da época carolíngia, "folheáveis" e explicados. Deve funcionar melhor em widescreen, mas consegui ter um gosto da coisa.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h34

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1704200704.htm

Na crônica do "Agora", determinações da prefeitura podem trazer transtornos ao pequeno comerciante.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h41

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gravações antigas

gravações antigas

http://www.odisseiadosom.com.br/

Música do tempo do onça: extratos de vaudevilles de Ziegfeld, registros antiquíssimos de soul, jazz e bandas havaianas. Discos da Companhia Edison, posters lindos da época e cartões postais. Tudo em domínio público. Saber finalmente o que é um cake-walk interessa aos apreciadores de Debussy.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h11

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franceses em viagem

franceses em viagem

A estranheza dos franceses com os costumes brasileiros do século 19, notada aqui a respeito de alguns diários de viagem, como os de Manet e do Príncipe de Joinville, é comparativamente leve diante de algumas de suas reações ao visitar a Inglaterra. Um livro que parece interessante foi editado agora pela Knopf: “That Sweet Enemy: The French and the British from the Sun King to the Present”.

 

Foi escrito pelo casal Robert e Isabelle Tombs, ele inglês, ela francesa, e teve uma resenha muito boa do escritor Julian Barnes, na New York Review of Books. Um relato curioso de francês visitando a Inglaterra é o do poeta Rimbaud, que se espantou com a quantidade de negros nas ruas de Londres, em fins do século 19. Muito caracteristicamente, ele comentou a descoberta num estilo de concisão quase surrealista: “Parece que andou nevando negros por aqui”.

 

As diferenças culturais e políticas entre os dois países também surgem em informações muito sugestivas. Na Inglaterra, há apenas dez funcionários públicos encarregados de cuidar do esporte. Na França, são 12 mil.

 

Dez funcionários públicos apenas? A conta não é meio estranha? Comitês olímpicos, fiscais de academias de ginástica, tribunal de justiça esportiva... será que nada disso existe na Inglaterra, ou será que é gerido exclusivamente pela iniciativa privada?

Escrito por Marcelo Coelho às 19h39

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A flauta mágica

A flauta mágica

         O espetáculo “A Flauta Mágica”, em cartaz no Teatro Imprensa, é recomendado nos guias para crianças maiores de 9 anos. Levei meus filhos de cinco e três, e –apesar da inquietação física habitual do menorzinho—não houve maiores catástrofes, do tipo ter de levar um filho aos berros para fora do teatro; cenas desse tipo acontecem com todo mundo, aliás, mesmo em peças supostamente mais adequadas a essa faixa etária.

         A adaptação da ópera de Mozart é baseada num romance de Dionisio Jacob (editora SM), que sem dúvida confere muito mais lógica e coerência ao enredo. No original, não fica nada clara a razão de um sábio como Sarastro ter a seu serviço o vilão Monostatos; no espetáculo de Vladimir Capella, Monostatos tem outra função dramática, no papel de um dos pretendentes ao amor da princesa Pamina. Também a situação da princesa, dividida entre sua fidelidade à mãe, a Rainha da Noite, e a identificação com o pai, Sarastro, recebe maior desenvolvimento e inteligibilidade.

         Isso exige, sem dúvida, mais peso aos diálogos do que à parte cantada, o que torna a peça no Teatro Imprensa um pouco menos atrativa do que o musical “Pinóquio”, com o qual rivaliza em luxo de cenário e figurinos.

         J.C. Serroni optou por uma ambientação em estilo oriental, ou melhor, numa espécie de “art nouveau oriental”, talvez inspirada nas primeiras produções de Bakst para os balés russos de Diaghilev: longas cortinas de contas de vidro, iluminadas com as mais diversas cores, representam o palácio de Sarastro; um jogo de azul e verde, como a cauda de um pavão, cria a floresta em que Tamino e Papageno se perdem.

         Roupas e coreografia imitam as artes marciais do Oriente, e sem dúvida repercutem na platéia infantil como menções aos “Power Rangers” e outros seriados do gênero, enquanto os adultos reconhecem a voga de estilização gestual que, de Gerald Thomas a Antunes Filho, é hoje uma marca de qualquer cena de luta no teatro.

         É uma pena que a música de Mozart esteja quase que completamente ausente de “A Flauta Mágica”. Com exceção de alguns compassos da abertura, nada restou da ópera em termos musicais. As letras e músicas de Sérvulo Augusto, supostamente mais ao gosto da platéia, têm aquele ar inconfundível de musical americano diluído em jingle presente também em “Pinóquio”, e mesmo os trechos mais fáceis, mais “infantis” de Mozart –como a música dos sininhos tocada por Papageno— foram injustificavelmente desprezados.

         A experiência que tive com meus filhos –e seus coleguinhas de escola—é que a música original de “A Flauta Mágica” é perfeitamente assimilável pelas crianças. A segunda ária da Rainha da Noite é um sucesso para qualquer público, assim como o dueto de Papageno e Papagena, perto do final da ópera.

         Deve haver algum segredo fazendo de Mozart um “hit” para as crianças, mesmo as menores. A “Pequena Serenata Noturna”, em diversas adaptações, é usada em CDs para bebezinhos, assim como a “Marcha Turca”; as variações sobre “Ah, vous dirais-je maman”, que nada mais é que o “Brilha, brilha, estrelinha” podem ser apresentadas a qualquer criança pequena.

         Livros para crianças sobre Mozart, com CD incluído, estão à disposição nas livrarias; as duas edições que tenho em casa apresentam trechos escolhidos do compositor, sem nenhuma simplificação, que foram perfeitamente absorvidas pelas crianças. É um erro achar que a música de Sérvulo Augusto possa ter tornado o espetáculo mais acessível para quem quer que seja; melhor que Mozart, certamente, ele não é.  

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h58

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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