Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

Um poeta e seus filhos

Um poeta e seus filhos

“Nem todos os pais podem dormir com seus filhos na mesma casa em que vivem. Como eu, alguns pais são separados, que dispõem apenas de um sábado e domingo para confirmar a paternidade e reencontrar o significado da família. Pai separado sempre está sob a ameaça de despejo. De ser trocado. Ou de ser esquecido”.

 

É o que escreve o poeta Fabrício Carpinejar, na contracapa de seu último livro, Meu filho, minha filha (ed. Bertrand Brasil). Há muito sofrimento, acusação e culpa nesses belos poemas. A filha mais velha, já adolescente, é tema de versos magoados, de uma sinceridade difícil de encontrar:

 

Quando brinco com as crianças// e faço palhaçada, elas se divertem,/menos tu, encabulada pela maneira/como converso de igual para igual.//Tantas vezes ouvi tua vergonha/ explicando aos colegas,/com os olhos virados para cima:// “Meu pai é louco”./Louco por quem? Já perguntaste?

 

Ou ainda:

 

Corto tuas unhas e reclamas/ que aparo muito rente da pele./Desculpa, tudo que vivi foi rente à pele.//...Eu te alfabetizei e foste/me tirando o espaço entre as linhas./Guarda-me apenas uma fresta.//Não importa o que os adultos falam,/serei o pai da insistência./Até onde posso ir para te resgatar?/Eu faço a cama com o travesseiro/debaixo das cobertas. Conforta-me a idéia/de que alguém está dormindo.//Preferes que o travesseiro/ fique por cima. Abominas a sensação/de que há algum morto em tua cama.//Reclamas do teu pai, como se ele tivesse/ condições de se inventar de novo./Desculpa, corto as palavras/ muito rente da pele,/assim como descascava maçã e levava com a faca/ uma lasca por vez em sua boca.//Tudo o que vivi foi rente à pele./Deixei de ser pai e virei a pensão da tua mãe./Não esqueço o dia em que o oficial de justiça/bateu à minha porta a cobrar/ o que já concedia naturalmente./No papel timbrado, teu nome contra o meu.//O nome que escolhi contra o meu./O nome que sonhei contra o meu./Fui teu primeiro réu, sem que tu soubesses.

 

Dá vontade de respirar fundo antes de fazer qualquer comentário. Os próprios versos, aliás, parecem ter uma respiração difícil, entrecortada, de quem mal conseguiria articular um discurso prolongado de viva voz. Na verdade, a seqüência de poemas deste livro constitui menos uma escrita lírica do que um texto dramático. Imagino essas falas no palco, quem sabe com novos poemas declamados pelos personagens que ficaram mudos neste livro; seria uma peça impressionante. Mas já o que se tem no livro é de uma verdade, de uma precisão nas imagens, e de uma força emocional (sem derramamento, mas também sem reticência ou hermetismo) incomuns na poesia contemporânea.  

Escrito por Marcelo Coelho às 18h50

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Uma viagem de Le Corbusier

Uma viagem de Le Corbusier

Le Corbusier foi dos mais importantes arquitetos do século 20: isso não há muito como discutir. Mas sua liderança ideológica, na defesa do modernismo, talvez se deva não só às obras que projetou, mas ao seu grande poder como escritor. Quando fiz minha dissertação de mestrado sobre a construção de Brasília, li e reli um livro de Le Corbusier chamado “Quand les cathédrales étaient blanches”, que citava um lindo verso de Péguy sobre o milagre das igrejas góticas na França: de uma hora para outra, os construtores medievais cobriram a terra “d’ un blanc manteau d’églises neuves” (de um branco manto de igrejas novas”. Brancura e novidade são, certamente, os principais valores do gosto modernista, e Brasília segue à risca esse projeto –embora, com o tempo, a imagem da cidade esteja mais associada a sujeira e mesmice.

 

Saiu agora, pela Cosacnaify, A Viagem ao Oriente, livro que Le Corbusier só publicou em 1965, mas que contém suas anotações da longa viagem que fez até a Turquia, passando pela Boêmia, pela Sérvia, pela Romênia e pela Bulgária. É um livro quadradinho, gostoso de segurar na mão, e com muitos croquis das edificações que Le Corbusier encontrava pelo caminho. Ele estava com 24 anos, em 1911, mas seu estilo já tinha o fervor convicto e o poder contagiante que o notabilizam como escritor.

 

Eis aqui um trecho, logo do início, onde se expressa seu gosto pela limpeza mediterrânea contra o romantismo nórdico. Ele partiria de Berlim, no rumo de Constantinopla:

 

...sob as pesadas abóbadas do Tiergarten ou ao longo dos glaucos canais do Spree, em nossos passeios demorados, acontecia-nos, ao voltar de uma caminhada fatigante pelos dédalos de pedra das cidades velhas ou novas da Germânia, falar mal de um domo venerado, pôr um ponto de interrogação sobre uma famosa cidade deitada na planície à foz de um rio e dominada por um “burgo” excessivamente romântico, praguejar contra uma carranca medieval enquadrada numa moldura de torreões, fossos e muralhas denteadas, e contra esse rictus equívoco que, sob um elmo épico, está todo marcado por negras chaminés de lepra das sórdidas e fétidas fumaças.

 

A essa visão teatralizada, opus uma outra, menos em moda porque felizmente menos conhecida: um sorriso sereno sob um céu azul colocado em volta de pedras esculpidas e de rebocos cuidadosamente pintados sobre trigais dourados, onde irrompem flores vermelhas, onde se intensifica o azul em estrelas profundas.

 

Costumamos associar o modernismo na pintura, ou na literatura, a uma espécie de “ultra-romantismo”; na Alemanha de 1911, a vanguarda se organizava em torno de Kandinsky, de Klee, dos expressionistas. Curiosamente, eram os parnasianos, ou pós-parnasianos, que enalteciam a herança clara e solar do mediterrâneo; nessa atitude, em que se destacavam Jean Moréas e UOL Busca Charles Maurras, havia muito de antigermanismo de direita, fundado no famoso “revanchismo” militar francês. Ao mesmo tempo, a defesa das linhas puras e racionais na arquitetura –também presente na vanguarda russa e no esquerdismo da Bauhaus—seria marca determinante do modernismo... os caminhos estéticos, felizmente, se cruzam e se confundem, como um labirinto. É nisso que está a riqueza de uma época, por mais que teóricos como Le Corbusier tentem, com sua gênio, simplificá-la na medida (imensa) de sua personalidade. 

 Le Corbusier nas ruínas do Partenon

Escrito por Marcelo Coelho às 14h52

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pausa involuntária

Não pude atualizar o blog nestes dias, mas daqui a pouco recomeço. Enquanto isso, vale a pena dar uma lida no artigo de Hélio Schwartsman sobre a questão do aborto. 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h36

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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