Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

as águas de Istambul

as águas de Istambul

Falando em post anterior sobre “Em louvor da sombra”, de Junichiro Tanizaki, notei um trecho desse ensaio sobre a cultura japonesa em que o autor imagina as antigas cortesãs de seu país no meio da escuridão, como grandes aranhas, capazes de criar, elas próprias, uma teia de trevas ao seu redor.

 

Em “Istambul”, belo texto autobiográfico de Orhan Pamuk sobre sua cidade natal, há evocações inquietantes de salas e mais salas sempre fechadas, onde mulheres se escondem. Pamuk, de uma família rica, mas em acentuado declínio, passou a infância num prédio de apartamentos inteiramente ocupado por pessoas de sua família. Circulava de um andar a outro, vendo sempre salas atulhadas de objetos, sempre escuras. Era raro, ele conta, crianças e mulheres saírem à rua na Istambul dos anos 50.

 

Mas ele se lembra de passeios às margens do Bósforo, onde se debruçam antigas mansões de madeira, utilizadas pelos paxás de outras épocas como casas de veraneio. Lá, também, a escuridão e o silêncio parecem não ser simplesmente a ausência de alguma coisa, mas algo produzido a partir de um interior enigmático, a que talvez costumemos dar o nome de “Oriente”.

 

Pamuk lembra textos de outro escritor, A. S. Hisar, autor de A civilização do Bósforo. Considera-o incapaz de ver “as correntes ocultas de trevas e malignidade” presentes naquela paisagem pitoresca e nostálgica. Entretanto,

 

Nas noites de lua, quando os barcos a remo se reuniam em algum trecho calmo do mar e os músicos se calavam, até A. S. Hisar pressentia sua presença: “Quando não há nenhum sopro de vento, as águas às vezes estremecem como que de dentro para fora, e assumem a aparência externa de seda lavada”.

 

Mais adiante, Orhan Pamuk completa:

 

Nas tardes enevoadas de primavera, quando nem uma folha da cidade se move, nas noites ruidosas [?] e sem vento do verão, quando um homem caminhando sozinho pela margem do Bósforo só ouve o som de seus passos, chega um momento, quando ele contorna Akinti Burnu, a ponta logo depois de Arnavutköy, ou quando chega ao farol ao pé do Cemitério de Asiyan, em que ele ouve o ronco feliz da correnteza e percebe com apreensão a espuma branca brilhante que parece ter surgido de lugar algum, não tem como evitar a impressão, como ocorreu antes com A. S. Hisar e comigo também, de que o Bósforo possui alma própria. 

 

O canal do Bósforo, hoje....

 

... e num quadro de I. M. Melling (1763-1831), pintor comentado no livro de Pamuk

 

Escrito por Marcelo Coelho às 19h09

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Peça Voltaire de Souza

Peça Voltaire de Souza

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Data: 2/6/2007 - Hora: 21 horas

Local: Espaço dos Satyros-Pça Roosevelt

Estréia de "Aqui Ninguém é Inocente", peça baseada nos contos de Voltaire de Souza, com direção de Mauricio Paroni de Castro

Escrito por Marcelo Coelho às 18h47

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John Corigliano em São Paulo

John Corigliano em São Paulo

Ainda na série dos “clássicos de alto risco”, talvez valha a pena falar um pouco de John Corigliano, cuja “Sinfonia no 1”, estreada em 1990, terá apresentação na Sala São Paulo. Embora eu fuja de concertos ao vivo, deve ser interessante estar presente para ouvir uma obra em que a orquestra é chamada a dar “tudo de si”, como se costuma dizer. Contrastes extremos de volume, de andamento e de ânimo marcam essa peça, feita em homenagem a três amigos do compositor, mortos na epidemia de Aids na década de 80.

 

No primeiro movimento começamos ouvindo uma grande barulhada (‘feroce”) de sirenes e percussão, no estilo “o destino bate à porta”, que irá se alternar com uma suave cantilena no piano (trata-se de uma citação do “Tango”, de Isaac Albeniz, peça que o amigo pianista de Corigliano, homenageado nesse primeiro movimento, gostava de tocar.

 

Diz Corigliano, no folheto que acompanha o CD da Erato, com a Sinfonia no1 interpretada por Daniel Barenboim e a Sinfônica de Chicago: o segundo movimento, Tarantela, foi composto em homenagem a um amigo que era executivo da indústria fonográfica... Compondo um movimento de tarantela para esta sinfonia, tentei imaginar a esquizofrenia e as alucinações que acompanham a demência causada pela Aids... Esse movimento é menos organizado do ponto de vista da forma que o precedente, e isso foi intencional; há uma progressão lenta e inelutável rumo a uma ‘loucura’ acelerada. O final brutal é um grito.”

 

O terceiro movimento é uma chacona, homenageando um amigo violoncelista, a que se segue uma canção. A chacona é baseada num motivo dodecafônico, ao qual se superpõem vários motivos evocando uma série de outros amigos mortos pela Aids. No quarto e último movimento, “epílogo”, voltam o tango de Albeniz, a tarantela e os dois violoncelos que solavam no terceiro movimento.

 

Trata-se, explicitamente, de “música de programa”, em que o gosto pós-moderno das citações parece hoje um tanto datado. Ainda mais numa situação em que a ironia pós-moderna não combina muito com a extrema dramaticidade –diríamos até: melodramaticidade—das explosões orquestrais. Tenho a impressão de que essa sinfonia traz um pouco do dilema estético daqueles anos, em que de um lado a “verdade”, a “autenticidade artística” ainda eram identificadas com a vanguarda serialista, e a “mentira” com a tonalidade e a música comercial, que –este é o problema—entretanto começavam a fazer parte não só da experiência cotidiana, mas da própria cultura e das orientações de gosto pessoal dos compositores eruditos mais jovens. A tentativa de sintetizar tudo isso estava na ordem do dia, mas Corigliano apostou numa espécie de dualidade, de ambivalência entre vanguarda e não-vanguarda, o que responde pelos contrastes extremos da obra, do doce ao feroz. Acontece que essa alternância do doce e do feroz não convence quando se acopla a um “programa” extramusical, descritivo: a dramaticidade fica exagerada, óbvia, pesadona... Mas é questão de ir ao concerto para ver se isto se sustenta.

 

Depois falo de uma outra chacona de Corigliano, para violino e orquestra, que me parece bem mais coerente e bonita; está num disco que comprei faz pouco tempo, mas não será tocada aqui em São Paulo.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h55

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crise na USP

crise na USP

http://autonomiajustica.blogspot.com/

Neste blog sobre a crise na USP, a íntegra do novo decreto declaratório com que Serra corrige, recua ou reinterpreta ou esclarece os famosos decretos-bomba. Creio que houve uma iniciativa excelente dos reitores para tentar pôr fim ao impasse.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h17

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um piano dançante

um piano dançante

 Karol Szymanowski (1882-1937) é mais conhecido como o autor de belas e intrigantes mazurcas (op.50, op.62), que foram gravadas por muitos pianistas, entre eles Arthur Rubinstein. Não conhecia o seu “Tema e Variações”  (ouça um trechinho aqui), op. 3, que escuto num CD duplo recém-lançado pelo selo doremi, com interpretações históricas da legendária pianista francesa Monique de la Bruchollerie (1915-1972).

 

A peça de Szymanowski ainda guarda influências de todo tipo: Fauré (“Tema e Variações”, op. 73) e Schumann (“Estudos Sinfônicos, op. 13) são sem dúvida seus modelos nesta composição. Algumas variações, entretanto, já mostram o tipo de ritmo pontuado, cheio de “espetos” auditivos, que marcam a originalidade do autor.

 

Mas não é apenas isso o que Monique de la Bruchollerie apresenta ao ouvinte. Há uma linda versão do Concerto no. 5, “o Egípcio”, de Saint-Saens, e uma impressionante interpretação do Concerto no. 2 de Brahms (apesar da precariedade da orquestra, evidente desde o primeiro ataque das trompas).

Em geral, espera-se de um pianista que faça o seu instrumento “cantar”. A impressão que fica de Monique de la Bruchollerie é que ela consegue mais que isso: o piano “dança” em muitos momentos.

 

Arrisco um comentário mais técnico: ela tem um jeito de “parar” o som de cada nota um pouco antes do que deveria, sem que entretanto isso pareça um simples “staccato”. O som não dá “pulinhos”, mas de fato parece motivado por uma alegria física, de dança mesmo. Por outro lado, ela toca não apenas com os dedos, mas com todo o corpo. No folheto do CD, assinado pela filha da pianista, há referências à amizade de Monique de la Bruchollerie com Emil Gilels, que a teria posto em contato com uma tradição pianística bem diversa da escola francesa: trata-se de pôr peso e massa na interpretação, sem deixar tudo ao encargo da agilidade na ponta dos dedos. Isso é muito perceptível no concerto de Brahms, onde tudo orienta a música para um ritmo “tético”, por assim dizer, onde cabe respirar um pouco em cada frase antes de atacar, como quem empurra uma porta meio pesada, o tempo forte do compasso. Tudo isso, bom dizer, é especulação de ouvinte, sem segurança de conhecedor. Em todo caso, misturando o estilo de Gilels ao pianismo francês, talvez seja assim que Monique de la Bruchollerie consegue esse tipo de dança, ao mesmo tempo leve mas cheio de gravidade, dos melhores momentos dessas gravações.

 

Há também no CD uma linda sonata de Haydn, em mi menor, e duas catastróficas (serão tanto assim?) leituras de Chopin, na Barcarola op. 60 e na “Grande Polonaise” op. 22.   

Escrito por Marcelo Coelho às 16h45

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"Palavra Cantada"

"Palavra Cantada"

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq3005200725.htm

O simpático grupo de música infantil recebe críticas não muito simpáticas no meu artigo de hoje na Ilustrada.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h01

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co3005200704.htm

Um motoboy no mundo da maracutaia é o tema da crônica de hoje no "Agora".

Escrito por Marcelo Coelho às 15h58

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bendita bagunça

bendita bagunça

Quem reclama de ter uma mesa atulhada de papéis pode encontrar alívio num livro recém-editado na Inglaterra,  A Perfect Mess: the hidden benefits of disorder, de Eric Abrahamson e David Freedman. “A desordem cria conexões’, dizem os autores, cujo livro foi resenhado por Andrew Stark no Times Literary Supplement.

 

Já Umberto Eco, em Como se faz uma tese, recomendava que o velho método de acumular anotações de leitura em fichas de cartolina fosse bagunçado de vez em quando, embaralhando-se todas as fichas para ver se alguma aproximação casual de dados rendia frutos. Num mundo bagunçado, uma informação específica pode ser difícil de achar, mas conexões se fazem mais naturalmente.

 

O resenhista do “TLS” argumenta, contudo, que a oposição hoje em dia não é entre ordem e bagunça numa mesa, mas entre mundo real e virtual. Podemos encontrar informações isoladas num computador com facilidade, já que cada “ficha” que antigamente estava ordenada em ordem alfabética numa caixinha hoje em dia é acessível de várias formas, através de várias “entradas” diferentes no computador. Acontece, diz o resenhista, que as conexões acidentais que fazíamos ao remexer papéis em cima de uma mesa agora não se fazem mais no espaço, e sim no tempo. Pulamos de um link a outro, vamos nos enfiando cada vez mais fundo no labirinto das conexões estabelecidas por nós (ou pelos outros), e o difícil é refazer o caminho de volta. As conexões, ou links, se sucedem no tempo, e não numa realidade sinóptica.

 

No mundo bagunçado da mesa, defendido pelos autores, conexões são iluminações instantâneas do gênio, enquanto informações isoladas são difíceis de encontrar. No mundo virtual, informações são instantâneas mas as conexões são difíceis de fazer. Ou fáceis demais, na ida, e difíceis na volta: a bagunça na mesa, conclui Andrew Stark, é substituída pela bagunça na cabeça.

 

É como se esquecêssemos, ao longo de qualquer pesquisa no google, a pergunta original, enquanto outras vão surgindo na cabeça.

 

Fico pensando se o blog não é um pouco como uma câmera digital, dessas que vêm juntas no celular. Leio uma coisa, penso um pouco, escrevo o post, acreditando que com isso “fixei”, de algum modo, minha experiência. Aos poucos percebo que não fixei muita coisa: nomes de poetas cujos versos  reproduzi me escapam, e eu mesmo tenho preguiça de procurar os posts anteriores nesta página.

 

Uma solução seria um dispositivo “bagunçador”, assim como nos toca-cds existe a opção de tocar faixas de um disco sem ordem predeterminada. Poderia haver um quadradinho com posts antigos ou links anteriores em destaque.

 

Outra coisa estranha no blog é o assunto-puxa-assunto. Postei um poema sobre a sucuri, de Angélica de Freitas. Falei agora há pouco das mulheres-aranha de Tanizaki. Estou para postar sobre um maravilhoso livro de poemas sobre animais escrito por Ted Hughes, “O que é a verdade” (ed. Companhia das Letras). Faz sentido, mas antes queria falar sobre as produções de silêncio e escuridão “a partir de dentro”, tais como descritas por Tanizaki, nas quais a escuridão não é ausência de luz, mas fruto de alguma secreção misteriosa. O mesmo tema está no livro “Istambul”, de Orhan Pamuk, que também fala de mulheres confinadas em casarões fechados e escuros. Mas eu não tinha de escrever sobre totalitarismo na semana passada? A palestra foi adiada em função da greve da USP; os posts sobre isso já se perderam debaixo da pilha.

 

O atelier do pintor Francis Bacon

Escrito por Marcelo Coelho às 02h04

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As aranhas de Tanizaki

As aranhas de Tanizaki

Na obra do romancista Junichiro Tanizaki são freqüentes as figuras de belas jovens ocidentalizadas e perversas, manipulando o desejo senil de pacatos e metódicos adeptos dos costumes japoneses tradicionais.

 

Não li “As Irmãs Makioka”, seu livro de maior sucesso (ed. Estação Liberdade), mas “Diário de um Velho Louco”, publicado pela mesma editora, e “Amor Insensato” (ed. Companhia das Letras), são bastante convincentes e bem-estruturados nessa mistura entre patologia sentimental e observação objetiva do processo de modernização vivido pela sociedade japonesa depois da Segunda Guerra.

 

Do ponto de vista estético, “Mar Inquieto”, de Yukio Mishima, assim como “O País das Neves” e “A Casa das Belas Adormecidas”, de Yasunari Kawabata, parecem-me bem mais refinados, misteriosos, com aquela elegância lacônica que corresponde, talvez, ao que há de mais bonito na civilização japonesa.

 

Estou lendo agora “Em louvor da sombra”, um belo ensaio de Junichiro Tanizaki sobre os valores da estética de seu país, em oposição a determinadas aberrações do gosto ocidental. Não se trata das aberrações que conhecemos mais intimamente, como a estridência e o sentimentalismo do pop. Sobre isso, falo em outra ocasião. O livro deverá ser comentado em minha próxima participação no programa “Entrelinhas”, da TV Cultura.

 

Queria assinalar aqui um trecho de “Elogio da Sombra” em que a figura da mulher aparece como especialmente aterrorizante, e ainda assim cheia de fascínio.

 

Tanizaki descreve os antigos costumes cosméticos das mulheres japonesas. Não apenas depilavam as sobrancelhas e se cobriam de branco, como fantasmas, mas também pintavam os dentes de preto e os lábios de um verde escuro, fosforescente, que ele comparava à cor das asas de alguns besouros. A idéia é que esses seres descarnados surgiam como um puro rosto de fantasma, cintilando na escuridão.

 

E nesse negrume cintilante submergiam os antigos aristocratas. [...] Estranhos seres nebulosos e ilusórios deviam esgueirar-se nessa “escuridão visivel” reinante no interior das mansões antigas, propiciando alucinações e aterrorizando mais que a noite externa. Com certeza era desse tipo de negrume que saltavam monstros e seres fantasmagóricos, mas... as mulheres que ali viviam, cercadas por cortinados, biombos e portas, não pertenceriam á mesa família? A intensa treva com certeza revoluteava dez, vinte vezes em torno delas, preenchendo todo o vazio ao redor da gola, da manga ou da prega do quimono. Mas esperem: pode ser que a treva, em vez de envolvê-las, brotasse –isso sim—de seus corpos, cabelos e bocas de dentes enegrecidos qual teia urdida por gigantesca aranha...

 

O fascínio por essa estética tradicional não nos impede de ver, na metáfora de Tanizaki, a influência de Lautréamont; um de seus “Cantos de Maldoror” justamente fala de uma aranha imensa:

 

Toda noite, na hora em que o sono atingiu seu grau maior de intensidade, uma velha aranha da grande espécie lentamente sai de um buraco localizado no assoalho, numa das intersecções dos ângulos do quarto. Ele escuta atentamente o último rumor que possa agitar ainda suas mandíbulas na atmosfera. ... Quando ela se assegura que o silêncio reina à sua volta, ela retira sucessivamente das profundezas de seu ninho, sem a ajuda da meditação, as várias partes de seu corpo, e em passos medidos avança até meu leito...

 

uma aranha de Odilon Redon

Escrito por Marcelo Coelho às 23h13

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Rilke shake

Rilke shake

         É o título do livro de Angélica Freitas lançado há pouco pela Cosacnaify. Seleciono um poema em que sofrimento, humor e prazer parecem uma coisa só, numa única imagem, desenvolvida com grande habilidade:

 

boa constrictor

 

estava enrolada num galho/entre folhas nem se mexia/a danada/me viu era hora do almoço/e me disse na língua das cobras:/parada/virei o tronco ela já vinha/calculava minha espinha/cobreava/me poupe eu disse/e ela na língua das cobras/negava:/você sabe porque veio/honeypie/e sabe pra onde vai/me envolveu com destreza/me apertou bem as pernas/me prendeu de jeito/até que meu peito/ficou maior/que a alma/um crec crac/de ossos quebrando/uma lágrima escorrendo:/parecia amor/a falta de ar/o sangue subindo pra cabeça/onde toda a história começa. 

Escrito por Marcelo Coelho às 20h25

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a placa que avisa

a placa que avisa

Mais uma placa do site placas ridículas. Repare nos pontinhos entre uma palavra e outra: a vontade de caprichar, apesar de tudo, sobrevive.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h10

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greve na USP

greve na USP

http://www.parouparou.blogspot.com

Outro blog sobre a ocupação, com opiniões de todos os lados.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h18

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ocupação na USP

ocupação na USP

http://ocupacaousp.noblogs.org/

Mais um blog sobre a ocupação da USP.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h58

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mundo das placas

mundo das placas

Postei algum tempo atrás, na categoria "pizzas e cia.", fotos de um site que coleciona placas de rua com erros cabeludíssimos. Claro que indicam o mau estado da educação no país, mas isso não me impede de considerá-las divertidas de ver.´Não sou um oswaldiano, a ponto de celebrar a contribuição milionária dos erros de gramática, mas há algo de bonito em alguns erros: por vezes, trazem uma surpresa, uma forma de escrever um nome que nunca imaginaríamos possível. Quando o sujeito escreve "oliud" em vez de "hollywood" para se referir à marca do cigarro, acho que há nisso mais do que uma simples incorreção: é a tradução do oral para o escrito, sem obediência à norma (do inglês), de uma forma igualmente precisa no aspecto auditivo; é uma possibilidade da linguagem que se abre. Há erros meramente feios; outros são um passo no rumo de Guimarâes Rosa.

Aqui vai mais uma foto, numa paisagem social tristíssima, mas ilustrativa de um erro bastante rico em "harmônicos", para falar em linguagem musical.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h41

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2805200704.htm

Passeio de lancha é para quem pode, observa o cronista do "Agora".

Escrito por Marcelo Coelho às 13h24

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arte das previsões

--Não é que eu tenha nascido pessimista, disse o pessimista. Mas com o tempo fui verificando que minhas previsões pessimistas sempre acabam dando certo.

 

-Isso é muito otimismo de sua parte, disse o otimista.

poster de Ruthless Cow, artista canadense.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h49

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De Thatcher a Serra

Acho que tudo começou com Margaret Thatcher. A "Dama de Ferro" resistiu durante meses às greves do que era na época (aí por 1980) um dos mais poderosos sindicatos do Ocidente, o dos mineiros ingleses. Thatcher tinha clareza em seu projeto: considerava que o excesso de concessões aos sindicatos ia determinando a decadência econômica da Inglaterra, e estava disposta a tudo para quebrar-lhes a espinha. Teve sucesso em sua estratégia. Do mesmo modo, não teve medo de reagir às bravatas do ditador argentino Galtieri, e enquanto os "bonzinhos" pregavam negociação com aquele fanático, ela mandou a esquadra inglesa para recuperar as Falklands. Eis um momento em que, sendo bonzinho e conciliador, torci por Thatcher, não por Galtieri.

Seja como for, o modelo de governo --bem-sucedido-- que Thatcher deixou parece ter criado escola. Tornou-se anátema para qualquer homem de Estado recuar de suas posições; tudo, menos demonstrar fraqueza. O problema é que --para voltar, o leitor já imagina, ao caso Serra/USP-- a "Dama de Ferro" não ocultava de modo nenhum suas intenções.

Para evitar demonstrações de "fraqueza" na sua ação política, Serra acaba dando demonstrações de ambigüidade em suas intenções. Se seu propósito é manter a autonomia universitária, por que não editar um decreto que remova as dúvidas a respeito? Se o conselho dos reitores continua como era, por que Pinotti foi posto a presidi-lo? Se é para Luiz Antônio Marrey negociar com os ocupantes, o que faz Pinotti na secretaria do Ensino Superior? Se a universidade "sempre" esteve vinculada a alguma secretaria, e a nova não altera nada, por que não voltar ao que era antes? Quanto ao último aspecto, Maria Sylvia de Carvalho Franco, em artigo de hoje no "Mais!", diz que esse vínculo da USP a secretarias estaduais não existiu "sempre".

Por falar no artigo de Maria Sylvia, houve uma frase ali que não consegui entender. Dá para concordar que o conhecimento seja "assunto de Estado", como ela diz no começo do texto, se o entendermos no âmbito da política científica ou educacional. É muito mais obscura a formulação a seguir:

O governo Serra desatina: usa meios burocráticos, ditos racionalizadores, para abolir uma função pública essencial à lógica e à razão do Estado moderno: o monopólio do saber.

Monopólio do saber? Uma função do Estado? Um saber monopolizado me dá mais medo do que o livre mercado da ignorância. 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h37

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os baderneiros, amanhã

Quando a direita reclama de acontecimentos como a ocupação da reitoria da USP, classificando tudo como caos e baderna, talvez não leve em conta uma hipótese não de todo improvável: a de que os baderneiros de hoje venham a tornar-se os Josés Serras de amanhã. Não é um destino que desejo aos manifestantes, mas creio que todas as partes envolvidas fariam bem em levar a hipótese em consideração. 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h24

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Ainda a greve na USP

Se, afinal, os famosos decretos de Serra não mexem com a autonomia universitária (é a interpretação "oficial" do governo Serra), o que custa reformulá-los, reescrevê-los, revogá-los, de modo a evitar dúvidas? Seria a melhor forma de acabar com a greve. Não há conflito que se resolva se uma parte não se considera vitoriosa. Derrota de Serra? Por que não admiti-la? O preço de não recuar nessa questão seria alto para o governo: invadir policialmente a universidade, coisa que não acontece há décadas, com riscos imprevisíveis. Tudo depende, é claro, da platéia para a qual Serra quer jogar. Se joga para a direita, será visto como um governador firme contra as pressões de sindicatos e estudantes. Se joga para a esquerda, pode pelo menos dizer que não é um daqueles intransigentes de direita contra os quais a UNE, nos tempos em que Serra era presidente da entidade, se batia. Se joga pela autonomia da universidade, o que é uma dúvida em meio a toda essa confusão, mas em todo caso é o que ele diz, poderia apostar no recuo e na conciliação.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h20

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PMDB, PT, PF

Sobre as últimas revelações da Operação Navalha e o caso Renan, duas possibilidades:

 

1) A independência da PF passará a sofrer cerceamento. Não me parece “normal” que suas investigações terminem quebrando todo o sistema político. Não há partido, administrador ou parlamentar que esteja a salvo, imagino, de escândalos. Eles terão de inventar um meio de reagir.

 

2) Apesar de incidir sobre pessoas de importância em todos os partidos, de Jaques Wagner a José Reinaldo Tavares, acaba havendo um beneficiário em todos os escândalos: o presidente Lula. Depois dos casos Rondeau e Renan, o predomínio adquirido pelo PMDB no atual governo sofre um abalo; passa a ser mais fácil “enquadrar” o PMDB (mas a que preço em termos de prosseguimento das investigações?) uma vez exposto o seu gigantesco telhado de vidro. Por outro lado, os escândalos, mesmo no interior do ministério ou no PT, não respingam sobre o presidente, que pode dizer que “nunca neste país” se fez tanto contra a corrupção. O vínculo de Lula com o eleitor aumenta, e a tutela do sistema partidário sobre o presidente diminui. Ele pode, mais do que nunca, dar as cartas na sua sucessão.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h13

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uma assembléia em 1935

Em meados dos anos 30, em especial na França, eram comuns os congressos de intelectuais antifascistas. Grandes nomes da literatura e das artes participavam desses acontecimentos, que tinham clara tendência pró-soviética. Mesmo sem ser comunistas, faziam vista grossa aos crimes de Stálin para se unir na luta contra Hitler e Mussolini. No meio daquelas assembléias nada imparciais, um intelectual italiano teve coragem de ir contra a corrente. Seu nome era Gaetano Salvemini, que fugiu da perseguição fascista para os Estados Unidos, em 1927. Eis alguns trechos do seu discurso no “Congresso internacional dos escritores em defesa da cultura”, realizado em Paris, no ano de 1935, sob a direção de André Gide, André Malraux e Ilya Ehrenburg.

 

Criticou-se muito neste congresso a sociedade burguesa. Subscrevo essas críticas. Mas não posso me impedir de observar que há duas espécies de sociedades burguesas e que não podemos confundi-las levianamente. Havia uma sociedade burguesa alemã que permitia a Heinrich Mann viver em seu país. E há uma sociedade burguesa alemã que obriga Heinrich Mann a viver em outra sociedade burguesa, a francesa.

 

E. M. Forster descreveu as insuficiências da liberdade britânica. Mas a sociedade burguesa britânica lhe permite voltar para casa no dia seguinte e não a jogará numa masmorra, enquanto que outra sociedade burguesa, a italiana, condenaria E. M. Forster a 24 anos de prisão pelo encantador discurso com que ele abriu nossa reunião.

 

... quando eu ouço a afirmação de que a liberdade de criar e de se exprimir já existe na Rússia, sem que se leve em conta todos os fatos que podem enfraquecer essa afirmação, devo concluir que o regime soviético atual é considerado como o regime ideal que os países burgueses não fascistas e fascistas deveriam adotar. Diante dessa atitude, permitam-me tomar emprestadas, com uma voz menos potente, as palavras de Tolstoi: “Não posso me calar”.

 

Eu não me sentiria no direito de protestar contra a Gestapo e contra a Ovra fascista se eu tentasse esquecer que existe uma polícia política soviética. Na Alemanha há campos de concentração, na Itália existem ilhas penitenciárias e na Rússia soviética há a Sibéria. Há proscritos alemães e italianos e há proscritos russos. ... A liberdade de criação é restringida nas sociedades burguesas de tipo não fascista. Ela é inteiramente suprimida nas sociedades burguesas de tipo fascista. Ela é igualmente suprimida na Rússia soviética. A História da Revolução Russa de Trotski não pode ser lida na Rússia. É na Rússia que Victor Serge está preso. O fascismo é inimigo por ser burguês mas também por ser totalitário. Depois de séculos de czarismo, podemos entender a necessidade de um Estado totalitário russo hoje em dia, desde que se deseje sua evolução para formas mais livres, mas é preciso assinalar que não se pode glorificá-lo como o ideal da liberdade humana.

 

Lamento ter chocado muitas convicções. Talvez seja preciso ter atravessado a experiência de um Estado totalitário, não entre os dominadores, mas entre os esmagados, para conhecer a degradação moral a que um Estado totalitário reduz não somente as classes intelectuais mas as classes trabalhadoras também.

 

Eis um intelectual que não tinha medo de participar de assembléias hostis. 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h40

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Giannotti e a greve

O filósofo José Arthur Giannotti publica hoje na “Folha” um artigo interessante sobre a greve na USP, sobre o qual eu tenho, entretanto, alguns reparos a fazer.

 

1) Há muito tempo eu não ouvia alguma reivindicação ou movimento serem desqualificados pelo seu suposto “caráter pequeno-burguês”. Nos tempos de Lênin e Stálin, onde todo intelectual filiado ao partido podia ser considerar “operário” ou “proletário”, a pecha até que funcionava. Conforme o dia, era possível dizer que a luta por liberdade de expressão nada mais significava que uma “ilusão pequeno-burguesa” e coisas do tipo. Dizer isso, hoje em dia, não é apenas arcaico: significa decidir a legitimidade de uma reivindicação não em termos de sua racionalidade própria, mas de sua “origem”. Como dizia Hannah Arendt, ai de quem, num sistema totalitário, pertencer à “raça errada” ou à “classe errada”.

 

2) Sobre os decretos, Giannotti dá um leve puxão de orelha no governo Serra: “por que não negociar uma nova redação dos decretos?” O leitor imagina que, numa greve em que os estudantes e professores se insurgem contra um decreto, e o governo insiste em não mexer nesse decreto, a intransigência esteja sendo atribuída ao governo. Logo em seguida, todavia, Giannotti volta suas armas para o lado oposto. Nenhuma nova versão do decreto foi apresentada, mas “a greve não termina porque foi absorvida pelos delírios de maio”.

 

3) Maio, pelo que eu sei, é o mês do dissídio dos professores. Não é nostalgia delirante que se façam mobilizações nessa época. Para Giannotti, tudo parece derivar de uma espécie de coincidência mística: “Nos últimos anos, a cada mês de maio, algumas [das categorias da universidade] entram em greve”. Que coisa!

 

4) Repete-se, por fim, o velho argumento de que, numa categoria com aproximadamente 5 mil professores, apenas 250 votaram greve. Realmente, esse tipo de queixa é incapaz de me comover. Que alunos de primeiro ano de uma faculdade sejam tímidos para se manifestar numa assembléia, eu entendo. Mas que professores de uma universidade se deixem “manobrar” pelo seu sindicato ou pela mesa diretora de uma assembléia, é para mim incompreensível. Se era absolutamente previsível a decisão de uma assembléia pequena a favor da greve, e se a grande maioria não foi à assembléia, é perfeitamente legítimo dizer que concordariam com a decisão. Se os professores contrários à greve estão convictos de que a greve prejudica a universidade, e estão dispostos a lutar pela instituição, sua omissão numa assembléia não se justifica.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h54

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os decretos e a greve(2)

Fica sendo uma questão em aberto, para mim, se houve "recuo" ou simples "esclarecimento" por parte do governo estadual, com a manifestação de Sidney Beraldo, secretário de Gestão Estadual, afirmando que os decretos comentados no post abaixo não se aplicam às universidades estaduais. De qualquer modo, a possibilidade de uma "saída honrosa" para o impasse entre governo e estudantes, agora, parece aberta para ambos os lados.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h28

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os decretos e a greve(2)

A questão da autonomia universitária, agora, fica muito mais esclarecida com o comunicado de Sidney Beraldo (http://noticias.uol.com.br/educacao/ultnot/ult105u5343.jhtm), que transcrevo a seguir.

Em atenção às questões formuladas por Vossa Excelência, esclareço que, segundo o entendimento desta Secretaria - e que é o do Governo do Estado -, os Decretos nº 51.471, de 2 de janeiro de 2007, e n° 51.660, de 14 de março de 2007, não são aplicáveis às universidades estaduais. Isto decorre do princípio da autonomia universitária (Constituição Federal, art. 207) e da incidência de normas específicas, que eximem as universidades da submissão a regras que, por sua própria razão de ser,
somente têm por destinatários órgãos e entidades que - ao contrário do que ocorre com elas - estão sujeitos ao poder hierárquico, à tutela administrativa e às diretrizes do Poder Executivo.

Evidentemente, a decisão acerca da realização de concursos públicos,
admissões ou contatações de pessoal docente e administrativo nas universidades é da competência de seus órgãos superiores, na forma de seus estatutos, respeitada a responsabilidade pública de cada instituição, nos termos do art. 254 da Constituição do Estado. Bem por isso, o Decreto n° 51.471 não restringe as adnissões e contratações pela USP, pela Unicamp e pela Unesp. Aliás, tanto é assim, que as três Universidades prosseguiram normalmente, ao longo deste ano, com suas admissões e contratações.

Da mesma forma, tampouco se aplica às universidades estaduais o Decreto 51.660, que instituí a Comissão de Política Salarial, no âmbito do Poder Executivo. E o motivo é de fácil apreensão: conforme determina o Decreto n° 29.598, de 2 de fevereiro de 1989 (art. 3º) - norma especial e que prossegue em pleno vigor - compete ao Conselho de Reitores fixar os critérios de execução orçamentária das Universidades do Estado de São Paulo, dentre os quais os relativos à política salarial de seu pessoal docente, técnico e administrativo. E também o art. 54, § 1°, I,
da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, garante tal prerrogativa,
atendidas as normas gerais pertinentes e utilizados os recursos disponíveis.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h27

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2405200704.htm

Segundo a crônica de hoje do "Agora", churrascarias não constituem o melhor lugar para discutir a Operação Navalha.

Escrito por Marcelo Coelho às 08h57

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o decreto e a greve

Recebo de um professor da USP a informação de que o decreto de Serra que ameaça a autonomia universitária é mais de um, todos de janeiro de 2007: os de números 51 535, 51 636, 51 660 e principalmente o 51 471, que diz:

artigo 1- Ficam vedadas a admissão ou contratação de pessoal no âmbito da Administração Pública Direta e Indireta, incluindo as autarquias, inclusive as de regime especial, as fundações instituídas ou mantidas pelo Estado e as sociedades de economia mista.

A USP é uma autarquia de regime especial. Não pode, portanto, contratar professores ou funcionários, a não ser que o governador autorize, como mostra o ...

parágrafo 2- O Governador do Estado poderá, excepcionalmente, autorizar a realização de concursos, bem como a admissão ou contratação de pessoal, mediante fundamentada justificação dos órgãos e das entidades referidas no "caput deste artigo.

Acontece que na Constituição Federal o princípio da autonomia universitária é expresso claramente:

As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial.

Claro que isso não significa que não devam "prestar contas à sociedade". A greve, ao condenar o decreto, nada tem contra a idéia de "prestar contas". Mas a universidade presta conta de suas decisões autônomas, entre as quais a de contratar gente; e é nisso que o decreto de Serra quer interferir.

Como surgiu a idéia de que o decreto "não existe"? Acho que a confusão começou, pelo menos para mim, com um artigo publicado em 16 de maio na Folha, escrito pelo deputado federal e presidente do PSDB paulista Antonio Carlos Mendes Thame, que afirma:

Fala-se de "decretos" que afetariam a autonomia universitária, mas, como eles não existem, nunca se menciona seu conteúdo. Exemplos.
1) As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, nos termos da Constituição. Não há questionamentos quanto à sua liberdade de ação. Nem por isso elas deixam de estar sujeitas às normas legais da execução orçamentária a que estão obrigados todos os entes da administração pública -normas que se impõem até ao Legislativo e ao Judiciário, que, mais que autônomos, são Poderes estatais independentes.

Mas são inúmeras as menções, para quem procura nos manifestos de Adusp e outras entidades, sobre o conteúdo desses decretos. Existem, ou existiam e foram revogados? Se fosse verdadeira a última hipótese, Mendes Thame teria dito. Creio que de fato o seu artigo quis confundir a opinião pública. Afinal, o decreto 51 471, citado acima, não tratou da mesma forma o Poder Judiciário e a Universidade, como seu raciocínio faz supor. Se não existe impedimento à contratação de professores e funcionários, por que não revogar o decreto? Por outro lado, mantendo-se ou não a greve, não é o caso de argüir juridicamente a inconstitucionalidade do decreto? 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h30

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greve na USP

Algumas observações pessoais sobre a greve na USP.

 

1) Tanto quanto aulas de Cálculo ou História Latino-Americana, uma greve faz parte do processo de aprendizado de um estudante universitário. Aprende-se como funciona a política, o que é democracia e o que finge ser democrático e não o é. Vemos o potencial de traição e fanatismo, de ponderação e de irrealidade, de ingenuidade e de esperteza no comportamento dos colegas, professores e autoridades universitárias. Vemos o nosso próprio potencial de agir coerentemente com nossas idéias. Quem fica em casa reclamando da falta de aulas não está aproveitando esse currículo, que é importante.

 

2) Só hoje, na Folha, e ontem, no Estado, eu vi a lista das reivindicações dos alunos. A greve já durava semanas e essa lista não estava clara, ao menos para mim.

 

3) Não fosse a ocupação da reitoria, ninguém estaria ligando a mínima para essa greve.

 

4) Entretanto, há coisa de uns dois anos, houve uma greve de alunos muito bem-sucedida na USP, que reivindicava coisas concretas, como a contratação de mais professores. Na Faculdade de Letras, contam-me que havia alunos assistindo aula no corredor, porque não havia lugar para todos dentro da sala. Não acredito num ensino em que haja quase uma centena de alunos numa classe. Claro que pode haver aulas magnas, aulas-palestra, reunindo muita gente. Mas o professor que não conhece seus alunos, não os orienta, não tem tempo de corrigir vários trabalhos dos alunos ao longo de um semestre, não está conseguindo ser professor de fato. Faculdade não é cursinho.

 

5) Há nesta greve reivindicações especificas e voltadas, acima de tudo, para a qualidade do ensino na USP, sem dúvida ameaçada por inúmeros fatores, entre os quais o descrito acima: contratação de professores e funcionários, liberação automática das vagas dos professores que se aposentam ou desligam, construção de prédios para os cursos de letras e fisioterapia, formulação de projetos para as moradias estudantis, acesso de estudantes e funcionários aos planos de metas dos cursos.

 

6) Vários desses pontos a reitoria aceita discutir.

 

7) Dois pontos, além desses, me parecem importantes e altamente defensáveis: crescimento da participação de alunos e funcionários no Conselho Universitário, e a abertura da USP para a população aos sábados e domingos. Decisão antipática, corporativa e contrária à inclusão da USP na comunidade, a iniciativa de fechar o campus aos sábados e domingos foi tomada há vários anos, e é mais do que legítimo questioná-la.

 

8) Não vejo nada de radical nisso tudo. Discordo de cotas raciais e de muita flexibilidade nas regras para jubilamento de estudantes, mas não sei se a greve se sustenta em torno disso

9) Há, por fim, a questão da autonomia universitária. As informações parecem muito confusas sobre os tais decretos. Existem? Não existem? Como assim? São os alunos que estão sendo intransigentes ou o governador, que poderia revogar as medidas que tomou?

 

!0) O fato de três reitores considerarem que a autonomia universitária não está atingida pelos atos de Serra não quer dizer que todos tenham de concordar com essa interpretação.

 

10) A reitora Suely Vilela, pelo que vejo nos jornais até agora, não tem estado à altura do desafio político imposto por essa crise. Recusar-se a negociar com os estudantes que ocuparam a reitoria significa confiar numa desocupação forçada. Mais tarde, começou a ceder, e isso evidentemente estimula a continuidade da ocupação. Li seu artigo na Folha de 17 de maio: ela só trata da crise nos últimos quatro parágrafos, gastando a maior parte do texto para enumerar fatos a respeito da qualidade acadêmica da USP, que ninguém contesta. Só no final diz que a autonomia universitária não é perturbada pela necessidade de prestar contas publicamente dos gastos, coisa que já era feita mensalmente e passou a ser diária depois de abril. Afinal, fico sem saber: é em torno dessa mudança –de mensal a diária—que está caracterizado o impasse? E também da criação de uma nova secretaria estadual para o ensino superior? O artigo da reitora não sugere nada quanto a isso, e termina com uma frase simplesmente tola, de tão vaga: “não se admite que atos por parte de grupos radicais, cuja violência é sumariamente [?] condenável, possam se sobrepor à contribuição inegável da USP ao desenvolvimento do Estado e do país.” Condenar a violência é uma obviedade. Mas ela apóia, rejeita ou busca uma alternativa às iniciativas do governo estadual? Deve ser difícil negociar com uma pessoa assim.  

Escrito por Marcelo Coelho às 17h05

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2305200704.htm

O mundo da tecnologia pode trazer modificações ao cotidiano do lar. Leia a coluna de hoje do "Agora".

Escrito por Marcelo Coelho às 15h43

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poesia policial

Fico um pouco insatisfeito com o artigo de hoje na “Ilustrada”, pelo que se segue:

 

1) Nomes para operações policiais e militares são coisa comum em todo lugar do mundo, e seria chato perguntar, como eu fiz no final do texto, se há poetas no Pentágono ou no Comitê Central do Partido Comunista Chinês, nos tempos de Mao. Os nomes curiosos não são suficientes para dar aura simpática aos atos dessas instituições.

 

2) É sempre esquisito elogiar ações policiais. Mesmo que tenham pego políticos corruptos de longa data, não sabemos quais são os bastidores de atos desse tipo e quem pode ter escapado da rede.

 

3) Falta saber se há ou houve alguma concorrência limpa no Brasil. Se não, por quê? É viável um sistema de obras públicas sem irregularidades? O que seriam decisões técnicas em emendas para o orçamento, por exemplo? Que critérios poderíamos ter para distribuir recursos escassos num espectro de milhares de municípios carentes? Poderíamos prender todos os deputados antes de chegar a um sistema minimamente racional. Há alegria com as prisões e escutas telefônicas, mas isso não vai à raiz do problema.

 

4) Uma reflexão ainda sobre isso. Quando ações da polícia começam a pegar gente de todos os partidos, abre-se uma situação institucional que dificilmente poderá perdurar. Uma coisa é a imprensa ou o ministério público, instituições independentes do governo, descobrirem irregularidades. A polícia, bem ou mal, está subordinada ao Executivo. Não me parece crível que sua independência prevaleça a ponto de derrubar ministros rotineiramente; e sem dúvida sempre haverá os “derrubáveis”. 

 

Chiqueiros limpos em poster anônimo da revolução cultural chinesa

Escrito por Marcelo Coelho às 15h06

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fúria de um professor?

Se eu leio que um professor no Instituto de Física na USP, num "dia de fúria" contra a greve, arremessou uma cadeira em direção aos estudantes, imagino uma espécie de Hulk aos gritos, querendo ferir jovens manifestantes. O vídeo disponível no youtube, sem som, não mostra exatamente isso. Ele está muito mal-humorado, sem dúvida, mas coloca as cadeiras organizadamente, uma a uma, em seu lugar, até o momento em que parece (digo: parece) ser empurrado (sem violência) por alguns alunos e, num rompante, joga a cadeira para longe, sem pensar (o que é incorreto) se poderia ou não atingir alguém com esse gesto. Mas não é um homem enfurecido tentando agredir estudantes.

Não tenho posição definida sobre a greve. Acho muito perigoso manter a ocupação contra um mandado judicial. E, se fosse um dos líderes do movimento, teria uma sugestão diabólica: desocupem hoje e ocupem de novo, daqui a alguns dias. Imagino que seria necessária uma nova ordem judicial... Mas, de todo modo, quem for contra tem de ir às assembléias. Acho detestável a opinião chorosa dos que reclamam de não ter aulas, que criticam os radicais do movimento, e não fazem absolutamente nada. Se há stalinismo, fascismo ou o que quisermos na ação de grevistas, é responsabilidade dos que acham isso insurgir-se contra o que ocorre, politicamente.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h36

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blog da ocupação na usp

blog da ocupação na usp

http://ocupacaousp.blog.terra.com.br

como foi difícil de achar na internet, ponho aqui à disposição. Ainda não li.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h24

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um passeio de lancha

Em meio a todas as revelações da “Operação Navalha”, há uma que não é tão grave, mas muito sintomática: a de que o governador da Bahia, Jacques Wagner, usou uma lancha emprestada por Zuleido Veras, da construtora Gautama.

 

Jacques Wagner diz que não sabia quem era o dono da lancha. Pediu apenas que arranjassem uma, e a que veio foi aquela.

 

E por que o governador baiano precisava de uma lancha? Para levar a ministra Dilma Roussef a um passeio pelo litoral do seu Estado. Frase de Jacques Wagner, no “Estado” de hoje:

 

A ministra veio aqui no final do ano passado para me ajudar na transição do governo e eu tinha prometido a ela que iríamos passear. Como eu não tenho lancha, pedi a um amigo para conseguir uma e ele disse que teria como alugar.

 

Só depois é que Wagner soube que a lancha não tinha sido alugada, e sim emprestada pelo dono da Gautama.

 

Coisa mais brega, passear de lancha. Mas quando se é ministro, tudo se faz automaticamente, sem pensar. Um convida, outro aceita, estalam-se os dedos, a lancha vem.

 

A corrupção direta, com a mala de dinheiro entrando no gabinete, parece escandalosa aos olhos do cidadão comum. Mas talvez se deva pensar por etapas; tudo vai ficando natural aos poucos. A pessoa começa achando normal discutir assuntos de governo fora de um gabinete, passeando de lancha. Não se espanta com o fato de haver lanchas para passear. Na lancha, alguém é apresentado a outra pessoa, a conversa se estabelece amistosamente. No fim, recusar uma propina –não digo que isto tenha acontecido com Dilma ou Jacques Wagner—acaba até parecendo falta de educação.

 

E quando todo candidato recebe doações de empreiteiras –há algum que não tenha recebido?— o resto é mera conseqüência.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h09

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2205200704.htm

A visita do papa continua a ter desdobramentos na coluna do "Agora".

Escrito por Marcelo Coelho às 16h15

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a biblioteca de Borges

a biblioteca de Borges

         Jorge Luis Borges foi durante muito tempo diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires: sua nomeação se deu num momento em que já estava quase completamente cego, e ele agradece num poema o destino que lhe deu, ao mesmo tempo, “os livros e a noite”. Não foi o primeiro cego a cuidar da Biblioteca de Buenos Aires: Paul Groussac, que Borges cita com freqüência, também ocupara esse cargo.

         Fiquei sabendo outro dia do nome do atual diretor da Biblioteca de Buenos Aires: é Horacio Gonzalez, um sociólogo que viveu muitos anos no Brasil. Os leitores do antigo “Folhetim” talvez se lembrem de várias colaborações de Gonzalez naquele tempo. Ele também escreveu diversos livros para a editora Brasiliense, como “O Que É Subdesenvolvimento”, para a coleção Primeiros Passos, e os perfis de Camus, Marx e Evita Perón na coleção Encanto Radical.

Ele foi também professor na Escola de Sociologia e Política, no centro paulistano, e teve a idéia de aplicar o “método Bloom” de pesquisa sociológica. A saber, os alunos deviam sair pela rua durante um dia inteiro, como o protagonista do “Ulysses” de James Joyce, e depois contar o que tinham visto. Um sistema semelhante, creio que baseado no situacionismo de Guy Debord, foi aplicado com o nome de “Derivas” pelo diretor Mauricio Paroni de Castro na preparação de seus espetáculos baseados em contos de Voltaire de Souza.

A tese de doutorado em Sociologia de Gonzalez, defendida na USP, foi se não me engano sobre Borges. Bibliotecas, coincidências, labirintos, caminhadas: o autor de “Ficções” e do “Fervor de Buenos Aires” é um fantasma que não larga facilmente os seus leitores.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h09

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mais operações

mais operações

http://www.dpf.gov.br/DCS/Resumo_OP_2006.htm

E aqui vão as de 2006.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h05

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as operações da PF

as operações da PF

http://www.dpf.gov.br/DCS/Resumo_OP_2005.htm

Aqui está a lista dos nomes, sempre fascinantes, de todas as operações da Polícia Federal em 2005.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h01

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a descoberta do óbvio

         Comentando os contos policiais de “A Inocência do Padre Brown”, no artigo que quarta-feira, notei um procedimento característico de G. K Chesterton, que vale tanto para a arquitetura do enigma policial em si quanto para as pequenas e surpresas e paradoxos que ele exibe a cada parágrafo. A idéia básica é a de mostrar que o mais imprevisto é o mais óbvio, e que a grande surpresa está no fato de que uma coisa é, apesar de tudo, aquilo mesmo que se pensava que era.

         Cito o exemplo que eu dei.

 

         Mr. Audley(...) era um conservador, até na vida privada. Caía-lhe uma ondulação de cabelos grisalhos sobre a parte de trás do colarinho, como certos homens de Estado fora de moda, e, visto de trás, parecia o homem de que necessitava o Império. Visto de frente, parecia um solteirão indulgente e bonachão com apartamentos em Albany – o que de fato ele era.

 

         Naturalmente, a surpresa desse trecho está em que ao usar o verbo “parece” pela segunda vez, o narrador sugere que irá distinguir entre a aparência e a realidade; entretanto, as duas coincidem. O narrador nos “enganou”, ou melhor, jogou com nossas expectativas, para frustrá-las em seguida, fazendo-nos retornar à realidade mais verdadeira e real. Ele nos ilude exatamente no momento em que reassume seu papel de narrador confiável: atesta fatos incontestáveis sobre o tal Mr. Audley, e não nos resta senão acreditar nele.

         Compare-se agora esse trecho com o início de um ensaio mais amplo de Chesterton, onde ele defende a tradição católica:

 

         Muitas vezes, tive a tentação de escrever um romance que teria como herói um iatista inglês que, tendo cometido um leve erro de navegação, descobriria a Inglaterra achando que atracava numa ilha desconhecida dos mares do Sul (...) Podemos certamente imaginar que esse navegador, fincando a bandeira inglesa na cúpula de um templo bárbaro (que nada mais é, afinal, que o pavilhão de Brighton), sentiu-se um pouco tolo. (...) Mas se você imagina que ele se sentiu um idiota, o que o sentimento do ridículo tenha sido a razão única ou predominante de sua emoção, é que você não estudou com toda a delicadeza necessária a rica natureza romanesca do herói dessa história. Seu erro foi, na verdade, dos mais invejáveis; e, se ele é de fato o homem que eu penso que ele é, ele sabe disso. Que pode haver de mais delicioso, com efeito, que experimentar no intervalo de alguns minutos todos os terrores exaltantes de uma expedição longínqua e toda a humana segurança de um retorno à terra natal? Que há de mais encantador do que o divertimento de descobrir a África do Sul sem a nauseante necessidade de desembarcar lá? Que coisa pode ser mais magnífica que lançar toda sua energia para as costas remotas da Nova Gales do Sul para então cair, com lágrimas de alegria, no sul da velha Gales? Esse me parece, ao menos, o verdadeiro problema que se coloca para os filósofos. Este é, num certo sentido, o verdadeiro problema deste livro. Como podemos ao mesmo tempo nos espantar diante do mundo, e nos sentir em casa nele? Como esta estranha cidade cósmica, povoada de criaturas diversas, iluminada por antigos e monstruosos lampadários, como este mundo pode nos oferecer simultaneamente a magia de uma cidade desconhecida e o conforto, a altivez da nossa cidade?

 

Não sei se Wittgenstein gostava de Chesterton, mas o raciocínio lembra um pouco a famosa frase do filósofo austríaco: “A filosofia deixa o mundo como é”.

Trata-se de recuperar, sem perder o eventual maravilhamento, o senso das coisas como são. Os contos policiais de Chesterton, aliás, operam muitas vezes numa espécie de qüiproquó de identidades: o policial era o criminoso, o cadáver encontrado não é o do homem assassinado, o garçom era o freqüentador do restaurante... E a função do detetive é restaurar, por assim dizer, o princípio da identidade, pelo qual uma coisa é o que é, e não o que parecia ser. Afinal de contas, uma história policial é uma espécie de equação, da qual eliminada a incógnita, o “x”, resulta uma identidade do tipo 5 = 5.

         Escrevo isso tudo porque estou preparando uma palestra sobre a linguagem totalitária; vou ver se no fim consigo amarrar as pontas do meu raciocínio.  

Escrito por Marcelo Coelho às 16h24

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detetives antigos

No artigo de quarta-feira para a Ilustrada, falei dos contos policiais de G.K. Chesterton, que afinal me divertem mais pelos trechos em que nenhum crime é cometido. Pelo artigo dá para ver que eu gosto mais dos detetives antigos, como Sherlock Holmes e Hercule Poirot, do que dos chamados “hard boiled”, como Philip Marlowe e Sam Spade. O gênero do detetive desencantado e “durão”, típico dos romances de Dashiell Hammett e Raymond Chandler, é sem dúvida muito melhor literariamente do que as figuras excêntricas, levemente fantásticas e sem profundidade, do detetive de gabinete. Mas não tem jeito: um romance de Hammett ou Chandler me traz prazer pelas comparações engraçadas, pelas frases cortantes, mas não agüento acompanhar uma trama em que o mistério sequer foi estabelecido em termos, digamos, matemáticos: a confusão é tanta que o detetive nem sabe qual é o seu cliente, nem o que está investigando, e quanto ao leitor, pobre coitado, mal se lembra do nome dos suspeitos –suspeitos de quê, aliás?

 

Mesmo as histórias de Simenon, boas no que diz respeito ao clima, à ambientação, me perturbam pela arbitrariedade das intuições do detetive; não há sequer deduções plausíveis em jogo:a solução encontrada por Maigret é uma entre diversas outras igualmente possíveis.

 

Mas talvez esteja aí a qualidade literária desses livros. O conto policial clássico é mais próximo de um jogo de palavras cruzadas, de uma adivinha, do que de uma obra de ficção. Mas, se for para ler um livro policial, justamente quero a charada, não a ficção...

 

Em todo caso, procurando histórias de detetives à moda antiga, aluguei dois vídeos com o legendário Charlie Chan: eram filmes que faziam sucesso na década de 40, baseados em histórias de Earl Derr Biggers, traduzidas aqui, de vez em quando, pela longínqua Editora Vecchi, especialista nessa literatura de entretenimento. Eu colecionava ardorosamente os romances de Arsène Lupin, o “ladrão de casaca” inventado por Maurice Leblanc, protótipo do herói galante, romântico, magistralmente astucioso.

 

A. Lupin, em ilustração de Daylon (ed. moutons électriques)

 

Acabei assistindo a um só DVD de Charlie Chan (Peter Nolan), intitulado, “O Gato Chinês”. É uma produção precaríssima de 1944, dirigida por Phil Rosen, com cenários feitos de porta e parede, e com um mistério que parece paródia dos filmes “noir” da mesma época. A bela herdeira de um milionário quer desvendar o assassinato de seu pai, num caso que a polícia já arquivou. Entra uma quadrilha de perigosos ladrões de jóias, em meio a depoimentos propositalmente confusos de possíveis suspeitos, que não chegam nunca a consolidar-se nessa função.

 

Para piorar (ou melhorar) as coisas, há cenas humorísticas terrivelmente ultrapassadas, com um chofer negro acovardado, bem ao estilo do Mussum. O que vale, entretanto –como sempre—são os tiques do detetive. Charlie Chan tem dois: os provérbios chineses e a birra com os seus vários filhos, auxiliares patetas na investigação. Uma curta cena reúne as duas características de Charlie Chan.

 

Chan e seu filho número 3 (Benson Fong)

 

Seu “filho número 3” (ele os numerava para facilitar a vida) aparece e quer ajudar num caso. “Prezado filho número 3”, diz o detetive, “sua presença aqui é tão bem-vinda quanto um balde d’ água num navio indo a pique”.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h33

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mundo das placas

mundo das placas

Uma amiga me envia algumas preciosidades tiradas do site www.placasridiculas.com.br. Aqui vão duas:

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h00

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1605200704.htm

Os ecos da visita papal estão na crônica de hoje do "Agora"

Escrito por Marcelo Coelho às 00h38

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o mistério Mangabeira

Há algo de espantoso –mais do que espantoso, de ridículo—nas constantes reviravoltas políticas de Roberto Mangabeira Unger. O seríssimo, vetusto, antipático filósofo de Harvard começou apoiando Brizola; condenava o “obreirismo” de Lula e do PT. Resistiu o quanto pôde sob o comando do velho líder populista, julgando que o comandava. Mais tarde, engajou-se na campanha de Ciro Gomes, para abandoná-la uma semana antes da eleição no primeiro turno. Queria aderir (em sua mentalidade, isso equivale a “iluminar”) à candidatura Lula. Depois, num audacioso artigo na “Folha”, cujo único mérito estava em não ter sido lido por quase ninguém, defendeu o impeachment do presidente –ao qual finalmente se liga, assumindo o cargo ministerial da Secretaria de Ações de Longo Prazo, a “Sealopra”, como alguém a batizou. [Em tempo: o termo, avisa-me um leitor, foi criação de Reinaldo Azevedo, em seu blog.]

 

A verdadeira palhaçada intelectual desempenhada por esse homem não combina com o “physique du rôle”: o olhar obstinado, o cabelo curtinho, o cenho franzido, o sapato de padre, a voz monocórdica, a frieza do temperamento.

 

 Unger e seu novo líder

 

 

Fosse um gordo que gargalha, entenderíamos seu oportunismo. No corpo de um pastor protestante, esse vício de caráter parece um mistério.

 

Acho que a volubilidade de Mangabeira pode ser compreendida se pensarmos nos velhos militantes do Partidão. Execravam Hitler até o momento em que Stalin assinou um pacto de não-agressão com o líder nazista. Habituavam-se a desdizer o que diziam na véspera, em benefício do proletariado.

 

Acabo de assistir um documentário contando a vida do compositor Aram Khachaturian. Era dos mais obedientes aos princípios stalinistas. Quando o Grande Comandante e Guia Genial dos Povos condenou uma ópera de Shostakovitch, ele ficou calado. [em tempo: haveria alternativa?] Passou incólume pelos grandes julgamentos de Moscou na década de 30, em que velhos bolcheviques eram levados a confessar crimes (que não haviam cometido) em benefício da linha partidária.

 

Um belo dia em 1948, Khachaturian perde todas as honrarias que o regime stalinista lhe dedicava. Um amigo seu é nomeado presidente do Sindicato dos Compositores Soviéticos e decreta uma guerra contra os compositores “formalistas” e “inimigos do povo” –a saber, Khatchaturian, Prokofiev, Shostakovitch.

 

Khatachaturian é levado a fazer uma peregrinação pelo interior da Rússia. Numa aldeia qualquer, a orquestra local toca uma música que ele reconhece: ele próprio a havia composto. Khatchaturian pergunta quem é o autor da composição. Os habitantes do vilarejo respondem: “é uma composição folclórica, o nome de seu autor foi esquecido há séculos”.

 

Claro que a lógica stalinista era tirar do poder qualquer compositor com um mínimo de talento, mesmo que fosse popularíssimo, e em última análise populista, como Khatchaturian. Ele é o autor da “Dança do Sabre”, que qualquer público de massa adora. Um amigo, em segredo, perguntou-lhe nos anos terríveis que se seguiram à condenação stalinista de 48: “você acha que a ‘Dança do Sabre é formalista?’ Khachaturian respondeu que sim. “Pois bem”, respondeu o amigo, “o povo adora seu formalismo”.

 

Aram Khachaturian

 

 

Mangabeira Unger segue um Stalin interior, que o leva a desdizer-se a cada momento. Considera-se um gênio, um Shostakovitch, um Khachaturian, a serviço da causa do povo, desde que encarnada na figura de um ditador enlouquecido. Só que não há ditador enlouquecido: Stálin e Brizola morreram. Ele imagina um à sua imagem e semelhança, e obedece. Ridículos, mea-culpas, incoerências não são nada diante desse Líder tirânico, que ele, ao olhar no espelho, enxerga em si mesmo.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h10

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cidadança

cidadança

Espetáculos de teatro e dança não deveriam, é claro, começar com atraso. De todo modo, são coisas que acontecem, e terminam mais ou menos toleradas pelo público. Mas na apresentação de dança dos alunos de Ivaldo Bertazzo e do Cidadança, no Tuca, atrasos não podem acontecer de jeito nenhum.

 

É que os cem adolescentes que dançam na segunda parte do espetáculo moram nas mais extremas periferias da cidade. Qualquer atraso significa que não terão ônibus para levá-los de volta para casa.

 

Este é o terceiro ano em que assisto os resultados –sempre comoventes e positivos—do trabalho que Ivaldo Bertazzo e Inês Bogéa levam adiante com grupos de adolescentes muito pobres, aos quais não oferecem apenas cursos profissionalizantes de dança, mas um completo atendimento educacional e psicológico.

 

“A Rua do Encontro”, que estreou no Sesc Belenzinho há coisa de dois anos, oferecia uma estimulante experiência de mistura entre ritmos brasileiros e a música e a dança indianas. No ano seguinte, no Sesc Pinheiros, os rapazes e moças da periferia envolveram-se num espetáculo de caráter “histórico”, com menções à escravidão e às danças do Império, para desaguar na vida urbana contemporânea.

 

Creio que, desta vez, o Cidadança apresenta um espetáculo mais contido, mais simples, e esteticamente mais satisfatório. Meu amigo Arthur Nestrovski, a quem sempre faço provocaçõezinhas em função de seu entusiasmo pela MPB, fez músicas lindas para o espetáculo –elegantes, cheias de ginga, envolventes, com letras ótimas de Eucanaã Ferraz, cantadas com perfeição por Celso Sim. As menções à vida na periferia, e à possibilidade que esses adolescentes encontram de utilizar novos meios de auto-expressão graças ao aprendizado da dança, são feitas de forma sutil, sem nenhum apelo à nossa boa consciência burguesa, como de certa forma acabava acontecendo nos espetáculos anteriores.

 

Na primeira parte da apresentação, os alunos “burgueses” de Ivaldo Bertazzo ocupam o palco. Há algo de muito democrático naquela multidão de dançarinos amadores. É que magros e gordos, moços e velhos, todos ganham os mesmos movimentos da coreografia, e nosso olhar, sempre tão discriminador em termos estéticos, passa a ver cada um daqueles alunos, e todos em conjunto, como igualmente bonitos. Senti que a arte da dança, mexendo com gente tão “normal”, tão parecida comigo, responde a uma verdade humana, de corpos e sentimentos, que não costumo encarar com facilidade.

 

A (des)hierarquia dos magros e gordos é substituída, na segunda parte do espetáculo, pela separação entre ricos e pobres. Os adolescentes da periferia entram em cena, dançam bem, mas sem narcisismo, sem que tenham de ser obrigatoriamente “gênios da raça” ou talentos maravilhosos injustiçados pela vida. Dançam como alunos também, com graus variados de entrega, de talento ou de beleza. Comparado com os espetáculos anteriores, tudo parece ter mais austeridade e menos pieguice. Não me sinto forçado, como das outras vezes, a gostar do espetáculo por razões politicamente corretas; não me sinto, o que é melhor, forçado a derramar lágrimas ao lado de uma platéia de celebridades tucano-petistas. Vejo adolescentes normais, e adultos normais, movidos pela música, em plena posse de seus corpos, conquistando, na dança, a própria vida. 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h44

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Um papa no inverno

Moro perto do estádio do Pacaembu, e ao longo desta quinta-feira vi muita gente passando pelas calçadas no rumo do encontro com o papa Bento 16. Havia muitos grupos de jovens, liderados às vezes por um padre de batina; vi padres isolados, mulheres com camisetas ostentando o rosto da Virgem Maria.

 

Não pude reprimir uma sensação de alegria ao ver a pureza daquela fé alheia a mim. Mais tarde, de noite, todo aquele povo saía do estádio para encher os pontos de ônibus perto de casa. As pessoas estavam cobertas de casacos, encolhidas de frio.

 

Comigo, pelo menos, acontece o seguinte: todos os fatos memoráveis de minha vida aconteceram durante o inverno. Até por serem mais raros em São Paulo, os dias de frio marcam a memória de um jeito diferente. Penso que aqueles rapazes e moças de vinte anos que estavam no ponto de ônibus, sentindo frio depois de ver o papa, guardarão a lembrança deste dia para o resto de suas vidas; e fiquei contente com isso.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h32

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arte do violino

arte do violino

Estou assistindo a um belo DVD de Bruno Montsaingeon, dedicado à “Arte do Violino”. Gravações históricas incríveis se acumulam diante de meus olhos, sob os comentários geralmente inteligentes de Itzhak Perlman, e geralmente fracos da virtuose adolescente Hillary Hahn.

 

Uma das grandes descobertas desse DVD é o do poder magnético, hipnótico, de uma violinista que morreu aos 30 anos de idade, num acidente aéreo. Trata-se da francesa Ginette Neveu, que aparece interpretando o final do “Poème” de Chausson, sob a regência do seríssimo Charles Munch. A carga de erotismo que a violinista joga sobre o maestro chega a incomodar de tão intensa.

 

Outra figura valorizada pelo DVD é a do virtuose Nathan Milstein, que ninguém se lembra de pôr ao lado de Heifetz ou Menuhin, mas aparece num ápice de som e de musicalidade em números dificílimos. De todo modo, o DVD reserva para o final seu herói estético: David Oistrakh, cuja força ao interpretar um trecho de Shostakovitch, e cuja segurança apaixonada no “Concerto para dois violinos em ré menor” de Bach, é capaz de pôr no bolso seu “partner” na gravação, a saber, Yehudi Menuhin.

 

Há também uma frase memorável de um dos violinistas entrevistados, que possui um Stradivarius. Ele diz: talvez não seja “o meu violino”; talvez “eu seja o violinista dele”. O instrumento sobreviverá a seu intérprete; na verdade, a música sobrevive a todos.

Ginette Neveu (1919-1939)

Escrito por Marcelo Coelho às 01h10

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a religião dos sapatos

Eis um poema do americano Charles Simic.

Sapatos, secreta face da minha vida interior,

Duas bocas abertas, desdentadas,

Peles de animal em parte decompostas

Cheirando a ninho de rato.

 

Meu irmão e minha irmã, que morreram ao nascer,

Continuam a viver junto de vós

Guiando a minha vida

No rumo de sua incompreensível inocência.

 

De que me servem os livros

Quando posso ler em vós

O evangelho de minha vida nesta terra

E, mais além, das coisas que virão?

 

Quero anunciar a religião

Que imaginei para vossa perfeita humildade

E a estranha igreja que construo

E vos toma como altar.

 

Ascéticos e maternais, a tudo resistis,

Irmãos dos bois, dos santos e dos condenados,

Com muda paciência, criando

Minha única imagem e semelhança.

 Mais poemas de Charles Simic podem ser encontrados (e ouvidos) aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h29

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mais ratzinger

mais ratzinger

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0905200729.htm

O artigo de hoje na "Ilustrada" relativiza a importância das teses mais conservadoras do Vaticano.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h39

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as metáforas de Ratzinger

as metáforas de Ratzinger

A sensibilidade para símbolos e metáforas é sempre bem-vinda num religioso, e a julgar pela biografia de Andrea Tornielli que comentei nos dois posts anteriores, Bento 16 é capaz de demonstrá-la sem dificuldade. Dois exemplos.

 

É o próprio Ratzinger quem esclarece a data de seu nascimento: “Nasci no dia 16 de abril de 1927, Sábado Santo (...) de modo que fui batizado na manhã seguinte ao meu nascimento com a água benta naquele exato momento da “noite pascal” [a vigília que precede o domingo da Páscoa]: ter sido o primeiro a ser batizado com a nova água foi um importante sinal premonitório. Pessoalmente tenho sido sempre grato pelo fato de que, deste modo, a minha vida tenha sido desde o início imersa no mistério pascal (...) Sem dúvida, não era o Domingo da Páscoa, mas precisamente o Sábado Santo. Todavia, quanto mais penso nisto, tanto mais me parece uma característica de nossa existência humana, que ainda espera a Páscoa, que não está ainda na luz plena, mas que confiante se dirige em direção a esta.”

 

É um modo bonito de se situar no mundo. O segundo exemplo se refere ao momento em que Ratzinger foi nomeado arcebispo de Munique, aos 49 anos. Ele contava dedicar-se aos estudos teológicos, quando recebeu o convite, difícil de recusar. Teria então de dedicar-se a um importante cargo público, longe das teorias e interpretações. Ratzinger escolhe então as figuras de seu brasão episcopal: uma concha, “que é antes de tudo o sinal do nosso ser peregrino, do nosso estar a caminho”, mas também, explica Andrea Tornielli,

 

recorda à memória de Ratzinger a narrativa de Santo Agostinho, que se encontra com um menino na praia que tentava encher, com uma concha, um buraco na areia, para colocar lá dentro toda a água do mar. Agostinho, que estava fazendo todo o esforço para compreender o mistério da Trindade, teria ouvido, como resposta do menino: “nem este buraco pode conter a água do mar, nem tampouco a tua razão pode compreender o mistério de Deus.”

 

A outra figura escolhida por Ratzinger foi o urso, “que recorda a lenda de Corbiniano, fundador da diocese de Freising.”

 

Conta-se, de fato, que um urso dilacerou o cavalo desse santo, que se dirigia a Roma. Corbiniano o repreendeu rigidamente pelo que fizera, e como punição lhe pendurou sobre os ombros o fardo que até aquele momento era carregado pelo cavalo. ‘O urso que substituiu o cavalo, ou, mais provavelmente, a mula de São Corbiniano, se tornando, contra sua vontade, seu animal de carga, não é e não era uma imagem do que devo ser e que sou? “Tornei-me para ti como um animal de carga e deste modo estou em tudo e para sempre junto de ti.”

 

Tempos legendários, em que um santo repreendia um urso... Curioso que o novo arcebispo se comparasse ao urso, não ao santo. E a um urso que substituiu um cavalo (o arcebispo que o antecedera no posto?). Ao animal de carga se junta, no brasão arquiepiscopal, a imagem do esforço inútil (colocar num buraco toda a água do mar). Há humildade, mas não muita alegria nessas metáforas.

O brasão do arcebispo

Escrito por Marcelo Coelho às 19h20

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o modernismo de Ratzinger

modernismo de Ratzinger

Apesar de plenamente identificado como um teólogo conservador, Joseph Ratzinger era heterodoxo na juventude. Lendo sua biografia, o Guardião da Fé, encontro uma breve descrição de sua tese de livre-docência, que teve enormes dificuldades para ser aprovada, em 1956. Ratzinger defendia uma idéia “simpática”, a meu ver. Era sobre o conceito de “revelação” em são Boaventura.

 

Seu trabalho considerava que há uma diferença entre o processo da revelação divina e o conteúdo substantivo dos conceitos que são revelados. “A revelação”, diz Ratzinger, “precede a Escritura e se reflete nesta, não sendo simplesmente identificada com esta. Isto significa que a revelação é sempre maior do que o que está simplesmente escrito. Disto se deduz, em conseqüência, que não pode existir um mero ‘Sola scriptura’ (‘somente por meio da Escritura’)”. Ou seja, a Bíblia não esgota, em suas palavras, o processo da revelação.

 

Não deixa de ser bonito. Mas cuidado! Ratzinger prossegue, considerando que o sujeito dessa revelação não é a consciência individual e sim a Igreja; é esta que “recebe” o conteúdo da Bíblia, que vai sendo revelado aos poucos, através da tradição interpretativa católica.

 

O poder da tradição não está sendo questionado, mas mesmo assim sua tese foi vista por um dos examinadores, o professor Michael Schmaus, como exemplo “de um perigoso modernismo”...

 

Dentro dos quadros estritos do pensamento teológico, sempre alguma inovação corre o risco de ser atacada como um “desvio”. Era o que acontecia nos tempos do marxismo-leninismo também: uma diferençazinha em relação ao pensamento ortodoxo era tida como “desvio de esquerda” ou “desvio de direita”, sobrando pouco espaço para a novidade, a não ser que a autoridade central quisesse justamente implementá-la...

 

A questão que iria pegar fogo mais tarde não desmente teoricamente as posições de Ratzinger nesse caso. Ainda que ele considerasse a revelação como um processo, algo não tão rígido como a letra fixa da Bíblia, ele conferia à Igreja o papel de sujeito desse processo. Pois bem: qual Igreja? Na sua discussão com Leonardo Boff, Ratzinger defende a idéia de que a Igreja Católica não pode ser vista como a soma das comunidades individuais, e que não parte destas –em sua prática religiosa “viva”, diria Boff—a força interna do catolicismo (uso palavras minhas, não as da teologia). Cada órgão de um corpo tem suas interações com o meio e suas características, mas a identidade desse corpo precede as partes, e vem do alto, de Roma.

 

 Bento XIV, o Guardião da Fé mostra diversas polêmicas de Ratzinger quando presidia o antigo Santo Ofício, sempre defendendo a primazia hierárquica de Roma sobre as iniciativas das igrejas locais. Não fica claro o quanto isso era uma política “dele”, na sua função, ou do próprio João Paulo 2o, o que é certamente mais provável.

 

O jovem Ratzinger

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h14

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sutilezas de Ratzinger

sutilezas de Ratzinger

         Estou lendo, com prazer, Bento XVI – O Guardião da Fé, biografia para lá de favorável ao papa, escrita pelo jornalista Andrea Tornielli. Tem a vantagem de não ser muito longa (231 páginas) e mesmo assim explica de forma inteligível as controvérsias teológicas do antigo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o ex-Santo Ofício.

         Tornielli transcreve um curioso diálogo entre Ratzinger e frei Boff, quando este foi a Roma explicar seus supostos desvios teológicos. Boff apareceu vestido nos hábitos de frade franciscano, o que sem dúvida não costumava fazer. Depois de três horas de questionamentos, os dois fizeram uma pausa para tomar café e encetar conversa mais amena.

         Ratzinger elogia a indumentária de Boff: “Fica-lhe bem, padre. Também desse modo se pode dar um sinal para o mundo”.

         Resposta de Boff: “É muito difícil usar este hábito, porque entre nós faz calor”.

         (Subentenda-se: a Igreja da América Latina vive realidades que um bávaro eurocêntrico é incapaz de compreender).

         Ratzinger não desiste: “Deste modo, as pessoas verão a sua devoção e paciência e dirão: está remindo os pecados do mundo”.

         (Subentenda-se: martirize-se, em vez de querer martirizar os ricos).

         Boff: “Certamente temos necessidade de sinais de transcendência, mas não passam pelo hábito. É o coração que deve estar pronto”.

         Ratzinger: “Não se vêem os corações e é preciso realmente ver qualquer coisa”

         Boff: “Este hábito também pode ser sinal de poder. Quando o estou usando e entro num ônibus, as pessoas se levantam e dizem: ‘Padre, sente-se’. Mas nós é que devemos ser seus servidores.”

         Tudo é como uma metáfora entre a força centralizadora do Vaticano e a idéia de Leonardo Boff, de uma igreja realmente misturada ao povo...

         A maior parte dos debates relatados no livro parecem dizer respeito, em última análise, à disciplina interna da Igreja. Ainda que surjam questões substantivas, isso parece menos importante, naqueles tempos de luta contra a Teologia da Libertação, do que assegurar o controle do Vaticano sobre as igrejas locais.

         O quanto de engenho e de citações eruditas pode ser mobilizado, pelos dois lados em disputa, resulta num fascinante como jogo intelectual. É o que se pode ver em detalhes na correspondência entre Ratzinger e Boff, publicada na última edição do livro do teólogo brasileiro, Igreja: Carisma e Poder (editora Record). Ao contrário do que possa parecer, Leonardo Boff não é uma presa fácil, do ponto de vista teológico, para o treinado Ratzinger. Ambos são sutis, jogando com as próprias citações do adversário para confundi-lo. O que acontece, entretanto, é que o jogo já está com seu vencedor decidido: quem representa a autoridade papal não precisa ter cem por cento de razão.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h35

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sinfonia doméstica

Um amigo me envia o link do Youtube para um pequeno show de TV do humorista Sid Caesar que vale a pena ver: é a Quinta Sinfonia de Beethoven, com uma coreografia muito inusitada, e típica dos anos 50.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h16

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O pensamento fascista

         Devo fazer uma palestra no fim do mês, num ciclo sobre a linguagem do totalitarismo, e começo a ler alguns textos importantes sobre o tema. Nunca tinha topado com nada escrito por Benito Mussolini (o próprio), mas achei um artigo que ele escreveu juntamente com o filósofo Giovanni Gentile para a “Enciclopédia Italiana” em 1932. É o verbete “Fascismo”, e nele encontramos coisas típicas da direita conservadora em muitas épocas (inclusive a nossa), como por exemplo a crítica aos ideais de felicidade e liberdade individual, à busca do prazer no mundo moderno, que hoje andam em voga graças ao neoconservadorismo de Bento 16.

        

Há, entretanto, coisas que a direita hoje não assume explicitamente, como o elogio puro e simples da guerra, do “heroísmo”, da “virilidade” militar. Um trecho especialmente exótico é o seguinte:

 

O fascismo transporta esse espírito antipacifista para a própria vida dos indivíduos. O orgulhoso lema fascista “Me ne frego” [“estou pouco ligando”], escrito na bandagem de um ferimento, não exprime apenas um ato de filosofia estóica, e o resumo de uma doutrina política: é o preparo para o combate, é a aceitação dos riscos que acarreta, é um novo estilo de vida italiano.

 

O lema do “me ne frego” permite, naturalmente, outras interpretações. Para mim, que um soldado ou combatente fascista inscreva isso no seu curativo significa, sobretudo, a aceitação completa da “verdade do chefe”. É o líder que leva as pessoas à guerra quem, de fato, “está pouco ligando” para a sorte individual de seus soldados. Assumir a vontade do líder como se fosse a sua própria é, sem dúvida, típico da massa fanatizada. Essa adesão é de tal modo completa, que o líder nem sequer precisa mentir: diz que é um assassino, se for o caso, e seus seguidores aceitarão o assassinato como uma coisa grandiosa. 

Mussolini, "preparado para o combate" 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h37

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já à venda...

já à venda...

... a coletânea de minhas crônicas para a "Ilustrada" nos últimos anos. Ainda não teve lançamento, isto é, noite de autógrafos, mas o link para os interessados é http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u70786.shtml

Escrito por Marcelo Coelho às 19h09

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artigo na "Ilustrada"

artigo na "Ilustrada"

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0205200722.htm

Haveria muito mais a contar sobre Octavio Frias de Oliveira, em especial sobre sua espantosa ausência de preconceitos; mas fico hoje só com esse relato subjetivo a respeito dele.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h58

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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