Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

mais operações

mais operações

http://www.dpf.gov.br/DCS/Resumo_OP_2006.htm

E aqui vão as de 2006.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h05

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as operações da PF

as operações da PF

http://www.dpf.gov.br/DCS/Resumo_OP_2005.htm

Aqui está a lista dos nomes, sempre fascinantes, de todas as operações da Polícia Federal em 2005.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h01

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a descoberta do óbvio

         Comentando os contos policiais de “A Inocência do Padre Brown”, no artigo que quarta-feira, notei um procedimento característico de G. K Chesterton, que vale tanto para a arquitetura do enigma policial em si quanto para as pequenas e surpresas e paradoxos que ele exibe a cada parágrafo. A idéia básica é a de mostrar que o mais imprevisto é o mais óbvio, e que a grande surpresa está no fato de que uma coisa é, apesar de tudo, aquilo mesmo que se pensava que era.

         Cito o exemplo que eu dei.

 

         Mr. Audley(...) era um conservador, até na vida privada. Caía-lhe uma ondulação de cabelos grisalhos sobre a parte de trás do colarinho, como certos homens de Estado fora de moda, e, visto de trás, parecia o homem de que necessitava o Império. Visto de frente, parecia um solteirão indulgente e bonachão com apartamentos em Albany – o que de fato ele era.

 

         Naturalmente, a surpresa desse trecho está em que ao usar o verbo “parece” pela segunda vez, o narrador sugere que irá distinguir entre a aparência e a realidade; entretanto, as duas coincidem. O narrador nos “enganou”, ou melhor, jogou com nossas expectativas, para frustrá-las em seguida, fazendo-nos retornar à realidade mais verdadeira e real. Ele nos ilude exatamente no momento em que reassume seu papel de narrador confiável: atesta fatos incontestáveis sobre o tal Mr. Audley, e não nos resta senão acreditar nele.

         Compare-se agora esse trecho com o início de um ensaio mais amplo de Chesterton, onde ele defende a tradição católica:

 

         Muitas vezes, tive a tentação de escrever um romance que teria como herói um iatista inglês que, tendo cometido um leve erro de navegação, descobriria a Inglaterra achando que atracava numa ilha desconhecida dos mares do Sul (...) Podemos certamente imaginar que esse navegador, fincando a bandeira inglesa na cúpula de um templo bárbaro (que nada mais é, afinal, que o pavilhão de Brighton), sentiu-se um pouco tolo. (...) Mas se você imagina que ele se sentiu um idiota, o que o sentimento do ridículo tenha sido a razão única ou predominante de sua emoção, é que você não estudou com toda a delicadeza necessária a rica natureza romanesca do herói dessa história. Seu erro foi, na verdade, dos mais invejáveis; e, se ele é de fato o homem que eu penso que ele é, ele sabe disso. Que pode haver de mais delicioso, com efeito, que experimentar no intervalo de alguns minutos todos os terrores exaltantes de uma expedição longínqua e toda a humana segurança de um retorno à terra natal? Que há de mais encantador do que o divertimento de descobrir a África do Sul sem a nauseante necessidade de desembarcar lá? Que coisa pode ser mais magnífica que lançar toda sua energia para as costas remotas da Nova Gales do Sul para então cair, com lágrimas de alegria, no sul da velha Gales? Esse me parece, ao menos, o verdadeiro problema que se coloca para os filósofos. Este é, num certo sentido, o verdadeiro problema deste livro. Como podemos ao mesmo tempo nos espantar diante do mundo, e nos sentir em casa nele? Como esta estranha cidade cósmica, povoada de criaturas diversas, iluminada por antigos e monstruosos lampadários, como este mundo pode nos oferecer simultaneamente a magia de uma cidade desconhecida e o conforto, a altivez da nossa cidade?

 

Não sei se Wittgenstein gostava de Chesterton, mas o raciocínio lembra um pouco a famosa frase do filósofo austríaco: “A filosofia deixa o mundo como é”.

Trata-se de recuperar, sem perder o eventual maravilhamento, o senso das coisas como são. Os contos policiais de Chesterton, aliás, operam muitas vezes numa espécie de qüiproquó de identidades: o policial era o criminoso, o cadáver encontrado não é o do homem assassinado, o garçom era o freqüentador do restaurante... E a função do detetive é restaurar, por assim dizer, o princípio da identidade, pelo qual uma coisa é o que é, e não o que parecia ser. Afinal de contas, uma história policial é uma espécie de equação, da qual eliminada a incógnita, o “x”, resulta uma identidade do tipo 5 = 5.

         Escrevo isso tudo porque estou preparando uma palestra sobre a linguagem totalitária; vou ver se no fim consigo amarrar as pontas do meu raciocínio.  

Escrito por Marcelo Coelho às 16h24

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detetives antigos

No artigo de quarta-feira para a Ilustrada, falei dos contos policiais de G.K. Chesterton, que afinal me divertem mais pelos trechos em que nenhum crime é cometido. Pelo artigo dá para ver que eu gosto mais dos detetives antigos, como Sherlock Holmes e Hercule Poirot, do que dos chamados “hard boiled”, como Philip Marlowe e Sam Spade. O gênero do detetive desencantado e “durão”, típico dos romances de Dashiell Hammett e Raymond Chandler, é sem dúvida muito melhor literariamente do que as figuras excêntricas, levemente fantásticas e sem profundidade, do detetive de gabinete. Mas não tem jeito: um romance de Hammett ou Chandler me traz prazer pelas comparações engraçadas, pelas frases cortantes, mas não agüento acompanhar uma trama em que o mistério sequer foi estabelecido em termos, digamos, matemáticos: a confusão é tanta que o detetive nem sabe qual é o seu cliente, nem o que está investigando, e quanto ao leitor, pobre coitado, mal se lembra do nome dos suspeitos –suspeitos de quê, aliás?

 

Mesmo as histórias de Simenon, boas no que diz respeito ao clima, à ambientação, me perturbam pela arbitrariedade das intuições do detetive; não há sequer deduções plausíveis em jogo:a solução encontrada por Maigret é uma entre diversas outras igualmente possíveis.

 

Mas talvez esteja aí a qualidade literária desses livros. O conto policial clássico é mais próximo de um jogo de palavras cruzadas, de uma adivinha, do que de uma obra de ficção. Mas, se for para ler um livro policial, justamente quero a charada, não a ficção...

 

Em todo caso, procurando histórias de detetives à moda antiga, aluguei dois vídeos com o legendário Charlie Chan: eram filmes que faziam sucesso na década de 40, baseados em histórias de Earl Derr Biggers, traduzidas aqui, de vez em quando, pela longínqua Editora Vecchi, especialista nessa literatura de entretenimento. Eu colecionava ardorosamente os romances de Arsène Lupin, o “ladrão de casaca” inventado por Maurice Leblanc, protótipo do herói galante, romântico, magistralmente astucioso.

 

A. Lupin, em ilustração de Daylon (ed. moutons électriques)

 

Acabei assistindo a um só DVD de Charlie Chan (Peter Nolan), intitulado, “O Gato Chinês”. É uma produção precaríssima de 1944, dirigida por Phil Rosen, com cenários feitos de porta e parede, e com um mistério que parece paródia dos filmes “noir” da mesma época. A bela herdeira de um milionário quer desvendar o assassinato de seu pai, num caso que a polícia já arquivou. Entra uma quadrilha de perigosos ladrões de jóias, em meio a depoimentos propositalmente confusos de possíveis suspeitos, que não chegam nunca a consolidar-se nessa função.

 

Para piorar (ou melhorar) as coisas, há cenas humorísticas terrivelmente ultrapassadas, com um chofer negro acovardado, bem ao estilo do Mussum. O que vale, entretanto –como sempre—são os tiques do detetive. Charlie Chan tem dois: os provérbios chineses e a birra com os seus vários filhos, auxiliares patetas na investigação. Uma curta cena reúne as duas características de Charlie Chan.

 

Chan e seu filho número 3 (Benson Fong)

 

Seu “filho número 3” (ele os numerava para facilitar a vida) aparece e quer ajudar num caso. “Prezado filho número 3”, diz o detetive, “sua presença aqui é tão bem-vinda quanto um balde d’ água num navio indo a pique”.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h33

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mundo das placas

mundo das placas

Uma amiga me envia algumas preciosidades tiradas do site www.placasridiculas.com.br. Aqui vão duas:

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h00

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1605200704.htm

Os ecos da visita papal estão na crônica de hoje do "Agora"

Escrito por Marcelo Coelho às 00h38

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o mistério Mangabeira

Há algo de espantoso –mais do que espantoso, de ridículo—nas constantes reviravoltas políticas de Roberto Mangabeira Unger. O seríssimo, vetusto, antipático filósofo de Harvard começou apoiando Brizola; condenava o “obreirismo” de Lula e do PT. Resistiu o quanto pôde sob o comando do velho líder populista, julgando que o comandava. Mais tarde, engajou-se na campanha de Ciro Gomes, para abandoná-la uma semana antes da eleição no primeiro turno. Queria aderir (em sua mentalidade, isso equivale a “iluminar”) à candidatura Lula. Depois, num audacioso artigo na “Folha”, cujo único mérito estava em não ter sido lido por quase ninguém, defendeu o impeachment do presidente –ao qual finalmente se liga, assumindo o cargo ministerial da Secretaria de Ações de Longo Prazo, a “Sealopra”, como alguém a batizou. [Em tempo: o termo, avisa-me um leitor, foi criação de Reinaldo Azevedo, em seu blog.]

 

A verdadeira palhaçada intelectual desempenhada por esse homem não combina com o “physique du rôle”: o olhar obstinado, o cabelo curtinho, o cenho franzido, o sapato de padre, a voz monocórdica, a frieza do temperamento.

 

 Unger e seu novo líder

 

 

Fosse um gordo que gargalha, entenderíamos seu oportunismo. No corpo de um pastor protestante, esse vício de caráter parece um mistério.

 

Acho que a volubilidade de Mangabeira pode ser compreendida se pensarmos nos velhos militantes do Partidão. Execravam Hitler até o momento em que Stalin assinou um pacto de não-agressão com o líder nazista. Habituavam-se a desdizer o que diziam na véspera, em benefício do proletariado.

 

Acabo de assistir um documentário contando a vida do compositor Aram Khachaturian. Era dos mais obedientes aos princípios stalinistas. Quando o Grande Comandante e Guia Genial dos Povos condenou uma ópera de Shostakovitch, ele ficou calado. [em tempo: haveria alternativa?] Passou incólume pelos grandes julgamentos de Moscou na década de 30, em que velhos bolcheviques eram levados a confessar crimes (que não haviam cometido) em benefício da linha partidária.

 

Um belo dia em 1948, Khachaturian perde todas as honrarias que o regime stalinista lhe dedicava. Um amigo seu é nomeado presidente do Sindicato dos Compositores Soviéticos e decreta uma guerra contra os compositores “formalistas” e “inimigos do povo” –a saber, Khatchaturian, Prokofiev, Shostakovitch.

 

Khatachaturian é levado a fazer uma peregrinação pelo interior da Rússia. Numa aldeia qualquer, a orquestra local toca uma música que ele reconhece: ele próprio a havia composto. Khatchaturian pergunta quem é o autor da composição. Os habitantes do vilarejo respondem: “é uma composição folclórica, o nome de seu autor foi esquecido há séculos”.

 

Claro que a lógica stalinista era tirar do poder qualquer compositor com um mínimo de talento, mesmo que fosse popularíssimo, e em última análise populista, como Khatchaturian. Ele é o autor da “Dança do Sabre”, que qualquer público de massa adora. Um amigo, em segredo, perguntou-lhe nos anos terríveis que se seguiram à condenação stalinista de 48: “você acha que a ‘Dança do Sabre é formalista?’ Khachaturian respondeu que sim. “Pois bem”, respondeu o amigo, “o povo adora seu formalismo”.

 

Aram Khachaturian

 

 

Mangabeira Unger segue um Stalin interior, que o leva a desdizer-se a cada momento. Considera-se um gênio, um Shostakovitch, um Khachaturian, a serviço da causa do povo, desde que encarnada na figura de um ditador enlouquecido. Só que não há ditador enlouquecido: Stálin e Brizola morreram. Ele imagina um à sua imagem e semelhança, e obedece. Ridículos, mea-culpas, incoerências não são nada diante desse Líder tirânico, que ele, ao olhar no espelho, enxerga em si mesmo.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h10

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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