Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

A robocopa

Quem acreditou numa volta triunfal da "Era Dunga" talvez esteja amargando a última derrota da Seleção Brasileira. A cada dia que passa meu tédio com futebol aumenta, e minha antipatia pelos craques brasileiros também. A solução está próxima, e pode ser conferida neste video do youtube. Trata-se da última edição da Robocopa, realizada há poucos dias na Alemanha. Há até um craque chamado Robotinho. O vídeo é um pouco lento, mas há uma cena de falta bem engraçada.

Os futebolistas-robôs ainda têm muito o que aprender com jogadores brasileiros reais. Mas pelo menos não fazem corpo mole.

 Robotinho, o craque do futuro...

 

 E Robotina, sua mais recente namorada.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 13h10

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O satânico Mr. Bean

O satânico Mr. Bean

Há uns tempos a “Folha” fez uma enquete sobre os melhores comediantes do cinema, e deu o previsível, com Carlitos em primeiro lugar. Jerry Lewis foi bem votado, e para mim é um mistério –poucos atores me afligem tanto pela falta de graça. Eis um gênero de preferências em que não há mesmo o que discutir; Jacques Tati, que seria um dos antípodas de Jerry Lewis, me parece bastante sem graça também.

 

Em resumo, sou de rir pouco com o que vejo na tela. Mas com Mr. Bean (não o longa-metragem dele, péssimo, mas os sketches da TV) o caso é diferente. Algumas de suas aventuras (a do restaurante tentando engolir um steak tartare, por exemplo) continuam engraçadas mesmo se as vi várias vezes. Talvez porque o que me faça rir sejam antes as expressões faciais do que a surpresa de uma “gag”. A mistura de desonestidade e inocência de Mr. Bean me parece um grande achado: há poucos vilões entre os comediantes, e o caso dele talvez mereça ser incluído nessa categoria.

 

Daí, sem dúvida, vem o erro que cometi outro dia. Achei que, por ter um humor visual compreensível e não-violento, Mr. Bean haveria de obter sucesso com meus filhos pequenos. Saiu uma coleção de DVDs com aqueles seus episódios clássicos: Bean tentando colar numa prova, ou preparando-se para cumprimentar a rainha da Inglaterra.

 

Meu filho de cinco anos ficou bastante assustado, e como sempre faz nessas ocasiões, tampou os ouvidos assim que o ator começou a complicar-se com as colheradas de carne crua no restaurante. Depois, durante a noite, vieram os pesadelos. E, naturalmente, a insistência no dia seguinte para ver mais episódios da série: tratava-se de vencer, é claro, um medo sem explicação.

 

Ou melhor, com explicações muito claras, a posteriori. Um desenho animado com cenas de destruição é apenas um desenho animado. Os vilões de Batman ou dos Power Rangers podem ser horrorosos, e não deixam de meter medo no meu filho de cinco anos. De qualquer modo, se alguém leva um tiro no peito ou uma martelada na cabeça, isso ainda pertence a um mundo de malfeitorias irreais na mentalidade infantil.

 

Jogando uma colherada de carne crua na bolsa de uma senhora, tentando arrancar o lenço do bolso de um garçom, sumindo com um carrinho de bebê num parque de diversões, Mr. Bean está representando, para uma criança pequena, o Mal absoluto. Faz exatamente aquilo que meu filho está proibido absolutamente de fazer –e que está ao alcance dele fazer mesmo assim. Não é preciso insistir muito (espero) para ensinar a uma criança que não pode dar uma facada na babá. Jogar comida para todos os lados é alguma coisa, contudo, que foi preciso impedir com insistência e rigor. Pobres crianças! Agora vêem o pai dando gargalhadas com Mr. Bean. O mundo adulto se torna, a cada dia que crescem, mais incompreensível e bizarro.

 Rowan Atkinson, o Mr. Bean

Escrito por Marcelo Coelho às 18h52

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teatro do absurdo

Datas de aniversário, especialmente quando não são redondas, constituem reconhecidamente um dos piores ganchos possíveis para uma matéria jornalística. Mas eu estava justamente acabando de ver um dos meus sempre admirados documentários da BBC sobre os “Dias que Abalaram o Mundo”, desta vez sobre o assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando e sua mulher, herdeiros do trono austro-húngaro, em Sarajevo, no dia 28 de junho de 1914. O nome do arquiduque, hoje, é mais lembrado por inspirar uma banda de rock (Franz Ferdinand), cujas tendências políticas ignoro.

 

Mas o que todo mundo sabe –embora ninguém explique direito— é que o  assassinato de Franz Ferdinand foi o “estopim” (assim reza o clichê) da Primeira Guerra Mundial. Um ótimo link sobre a Primeira Guerra está aqui . O documentário da BBC não toca nas causas mais profundas do conflito, nem no diabólico dominó de alianças que, depois de um ultimato austríaco à Sérvia, conduziu franceses, ingleses, alemães e russos ao morticínio. O filme se resume ao fatual –e o acúmulo de circunstâncias inacreditáveis, anormais e sem sentido já traz material suficiente para um livro inteiro.

 

O arquiduque e sua mulher faziam uma visita de “relações públicas” à capital da Bósnia, em carro aberto. Um grupo de terroristas sérvios planejara seu assassinato. O trajeto do carro aberto pelas ruas de Sarajevo fora publicado nos jornais. Os membros do grupo, eram uns seis ou sete, alinharam-se ao longo do percurso. Na hora, faltou coragem para atirar. No desespero, percebendo que seus companheiros haviam falhado, o último deles jogou um explosivo –mas que demorava certo tempo para detonar, de modo que o casal imperial escapou ileso; outro carro da comitiva, mais atrasado, é que sofreu a explosão; um oficial ficou ferido.

 

Aí começam os maiores absurdos. Depois de socorrido o oficial, o carro do arquiduque seguiu caminho ao paço municipal, onde as autoridades bósnias o esperavam com um discurso de boas vindas. Veja aqui um curto video da chegada do arquiduque ao lugar O nervosismo era tão grande que o texto –falando da alegria da população, da hospitalidade geral, do espírito pacífico da ocasião—foi lido integralmente. O arquiduque então pegou o seu próprio discurso de resposta, preparado antes, é claro, e agradeceu a simpática recepção de que era objeto. O papel em que ele lia estava com manchas de sangue do atentado recente.

 

Um diálogo desses já é capaz de explicar sozinho o senso de absurdo que perpassa não apenas os textos de Kafka, mas em especial as obras de outro autor centro-europeu, o teatrólogo de origem romena Eugène Ionesco. Há e tudo uma espécie de humor sinistro, em que a formalidade, os chapéus de penacho e bigodes retorcidos na ponta parecem dar tons de opereta a um universo de nacionalismos homicidas e paixões fanáticas comprimidas em territórios minúsculos. Só o teatro, e não o cinema, poderiam dar conta de cenas desse tipo.

 

O resto, sim, é cinema puro. O arquiduque entra no carro de novo, e naturalmente os agentes de segurança decidiram mudar o trajeto de volta. Mas esquecem de avisar o chofer, que faz um desvio inexplicável numa rua estreita, quer dar marcha-a-ré e encontra... ninguém menos que Gavrilo Prinzip, um dos terroristas do atentado de poucas horas atrás. Sorte grande para o rapaz, que, com tuberculose em último grau, queria perpetrar o assassinato antes de morrer. Foi o que fez. Matou o arquiduque e a arquiduquesa, aliás grávida. Depois, conforme o planejado, tentou se matar engolindo uma cápsula de veneno, e por via das dúvidas atirou-se num rio. Realmente a morte não era especialidade daqueles terroristas: o veneno estava com validade vencida, e o lugar onde o rapaz se atirou tinha pouca profundidade. Foi retirado com vida do local, foi preso e condenado. Não à morte, porque estava a um dia de completar seu aniversário, beneficiando-se da minoridade legal.

 

Com essa comédia sangrenta, com toques de cinema mudo, iniciou-se a morte de milhões de pessoas.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h33

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conversa noturna

Esta foto, tirada do blog do fotógrafo belga Dominique Houcmant, é de uma conversa entre duas moças numa praça em Liège, mas tem algo a ver com os poemas citados nos posts anteriores.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h46

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poetas russos (3)

poetas russos (3)

O tema da separação é interpretado, agora, pela voz masculina de Ievtushenko, como numa resposta ao poema já postado aqui:

 

RUPTURA

 

Deixei de amar: esse é o tedioso fim da nossa história,/ tão chato quanto é a vida, tão aborrecido quanto o túmulo./ Desculpa-me: romperei a corda desta canção de amor,/quebrarei o violão. Nada há para salvar.

 

Nosso cachorrinho está espantado. Nosso monstrinho peludo/ não entende porque complicamos assim coisas tão simples --/ choraminga na nossa porta e deixo-o entrar./ Sempre que ele arranha a sua porta, você o deixa entrar.

 

Cão, cãozinho sentimental, você vai é ficar doido/ correndo assim de um para o outro --/ você é jovem demais para entender uma idéia muito antiga:/ acabou, dançou, it’s over, kaput. Finis.

 

Dê uma de sentimental e você acabará representando/ o velho melodrama A Salvação do Amor./ “Perdão”, sussurramos, e esperamos um eco;/ mas nada retorna do silêncio acima de nós.

 

O melhor é salvar o amor desde o começo,/ evitando todos os apaixonados “nuncas” e “para sempres”;/ devíamos ter ouvido o que as rodas do trem gritavam:/ “Não façam promessas!” Promessas são alavancas.

 

Devíamos ter prestado atenção nos galhos quebrados,/ devíamos ter olhado para o céu enfumaçado,/ advertindo quanto às tolas pretensões dos amantes--/ quanto maior a esperança, maior a mentira.

 

Ternura verdadeira, no amor, significa permanecer sóbrio,/ sopesando cada elo da corrente que você tem de carregar./ Não prometa o céu a ela –sugira meio alqueire;/ não “até a morte” mas, pelo menos, até o ano que vem.

 

E não fique dizendo “Eu te amo, eu te amo” toda hora./ Essa frasezinha implica uma vida durável/ e, quando nos lembramos dela de novo, numa hora sem amor,/pode furar como um espinho, ou apunhalar como uma faca.

 

É por isso que nosso cãozinho, inteiramente confuso,/ anda de cá para lá, de uma porta para outra./ Não direi “me perdoe”. Pedirei perdão/ por uma coisa só: houve um tempo em que te amei.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h46

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poetas russos (2)

Bella Akhatóvna Akhmadulina nasceu em 1937, e foi casada com o famoso poeta Ievtuchnko (ver post anterior). Eis o poema que ela escreveu quando o casamento terminou:

Hoje nos separamos para sempre/ e isso faz o mundo transformar-se./Tudo nele anuncia a traição:/ os rios vão se afastando das margens,/ as nuvens vão se afastando do céu,/ a mão direita olha para a esquerda/ e arrogante diz: "Vou embora, adeus!"

Abril não mais prepara o mês de maio,/ mês de maio que nunca mais verás,/ e as flores se desfolham, feitas pó./ É a derrota do azul para o amarelo!

Já as últimas flores se esturricam,/comprimento e largura não há mais,/ o branco, em estertor, já agoniza,/ deixando um arco-íris de orfãzinhas.

A natureza afoga em sua tristeza,/ a maré baixa sobe pela margem, /calam-se os sons e isso porque nós,/ você e eu, pra sempre nos deixamos. 

 Bella Akhmadulina

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h29

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poetas russos

poetas russos

Do livro Poesia Soviética, antologia de mais de 650 páginas organizada e traduzida por Lauro Machado Coelho, seleciono alguns poemas. Aqui vai um de Ievguêni Ievtuchenko, famoso “poeta jovem” nos anos 60, que continua vivo e escrevendo sem parar.

 

 

NÃO QUERO A METADE DE NADA

 

Não, não quero a metade de nada.

Dá-me toda a terra,

depõe todo o céu!

Os mares, os rios, os riachos nos montes

são meus! Não concordo com partilhas!

 

Não, vida, não me terás com meias caretas!

Deves-me tudo inteiro!

Só isso me contenta!

A metade da alegria eu não quero,

e nem da dor quero só a metade!

 

Mas quero a metade daquela almofada

onde, sob o rosto de leve apoiado,

estrela indefesa, estrela cadente,

na tua mão o anelzinho cintila...

Escrito por Marcelo Coelho às 23h24

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Glenda Jackson e o Terror

Glenda Jackson, que ganhou dois Oscars lá pelos idos de 1970, sumiu de cena, sem que eu soubesse por quê. Pensei até que tivesse morrido, mas não: desde 1992 se tornou deputada pelo Partido Trabalhista da Inglaterra, e não filma desde então. Fez 70 anos o ano passado, mas acabo de vê-la no vigor dos 30, num filme que saiu agora em DVD.

Glenda Jackson

 

Trata-se de “Marat-Sade”, de Peter Brook, onde ela faz o papel de Charlotte Corday. Escrevo sobre esse filme no artigo de quarta-feira, mas o assunto dá pano para mangas.

 

O filme reproduz uma montagem teatral, feita em 1964. Reproduzo, mal e mal, um diálogo entre o Marquês de Sade e o revolucionário Jean-Paul Marat, cujo confronto é o principal tema da peça. Sade, recolhido a um asilo de loucos, não acredita na Revolução Francesa, que tinha em Marat um de seus líderes mais enraivecidos. Diz que toda morte, seja de um animal ou de um ser humano, cai no mesmo fundo indiferente da natureza. “Odeio a Natureza”, diz ele.  

Os atos dos homens ao longo da História, continua Sade, simplesmente seguem a Natureza.

Entre parênteses: Hannah Arendt, em suas “Origens do Totalitarismo”, diz que a política de Hitler, tanto quanto a de Stálin, derivavam sua legitimidade e seu terror no fato de se atribuírem o papel de “aceleradoras”, ou “representantes”, de alguma lei incontornável –a do futuro racial da Humanidade, segundo Hitler, e a do futuro histórico da Humanidade, segundo Stálin; qualquer crime seria justificável à medida que contribui para o encontro final dos homens com seu próprio e radioso destino.

 

Voltemos a Sade. Os homens seguem a Natureza quando matam seus semelhantes, buscando a própria felicidade. O problema da Revolução Francesa, com sua incansável guilhotina, é que o morticínio tornou-se maquinal.

Entre parênteses: a novidade histórica do Holocausto nazista, segundo a maioria dos intérpretes, é que o assassinato de inocentes tornou-se não apenas maquinal, mas industrial nos campos de concentração.

Sade reprova esse caráter maquinal, dizendo que a guilhotina é excessivamente gentil se comparada aos grandes espetáculos de tortura pública e de execução cruel vigentes no Antigo Regime. O assassinato de Estado, diz ele, era mais humano naquela época, porque feito com paixão.

 

Na peça, ele descreve longamente as torturas inacreditáveis com que foi morto um tal de Damiens, que tinha tentado matar Luís 15.  Mas é hora de Marat, um entusiasta da guilhotina, responder a Sade. “O que você chama de indiferença da Natureza”, diz Marat, “é apenas reflexo de sua falta de compaixão.” Para o revolucionário, o importante é ver que o assassinato, mesmo maciço, pode encontrar uma razão de ser. “O que é o sangue de uns poucos aristocratas diante do sangue das multidões oprimidas?” Se um exército austríaco massacrasse os pobres revoltosos, os que hoje lamentam os excessos da Revolução não derramariam uma lágrima...

 

Que partido tomar? O de Sade ou o de Marat? Já é alguma coisa saber que não precisamos tomar partido nenhum. Esta é uma das questões que só aparecem depois de uma revolução, não durante o seu curso. “Marat-Sade” faz o famoso “Danton”, de Wajda, parecer uma minissérie da Globo. Em ambos, está em jogo o sentido das revoluções de esquerda no século 20.

 

É importante observar, sem parecer anti-humanista com esse raciocínio, que a preocupação com o morticínio tende a ser mais forte quando se está vivendo um clima de relativa igualdade e bem-estar social. Os crimes da Revolução Francesa não foram simplesmente deturpações dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade: eram fruto de algo mais básico do que a luta pela igualdade, a saber, a luta contra o privilégio hereditário.

Pode ser pouco para justificar tanto sangue, e haveria outros caminhos, mais lentos e pacíficos, para superá-lo. Mas a sociedade mudou para melhor depois de 1789; não há nisso uma justificativa, nem uma razão, para o Terror. Há, entretanto, uma esperança de progresso.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h25

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Uma biografia de Stálin

Uma biografia de Stálin

         O evento sobre totalitarismo de que eu ia participar foi cancelado com a greve da USP, e não sei para quando será, mas aproveito para ler um pouco mais sobre o assunto.

         Peguei uma biografia de Stálin, escrita pelo ex-assessor de segurança nacional de Bóris Yeltsin, Dmitri Volkogonov. Ele teve acesso aos arquivos do Partido Comunista, e seu livro em dois volumes foi publicado aqui pela Nova Fronteira.

         Volkogonov deveria ter feito um curso, desses que existem nos Estados Unidos, de jornalismo ou redação. Seu texto é muito embrulhado e repetitivo, encharcado de avaliações subjetivas que poderiam ser muito mais convincentes se, em vez de expô-las, ele simplesmente contasse direito os fatos que tem à disposição. O leitor brasileiro que não conhecer alguma coisa de história soviética (o que foi a NEP, por exemplo) fica boiando em muitas passagens.

         É verdade que estou ainda no começo do livro (cheguei até a morte de Lênin), e nos primeiros anos da revolução Stálin fez pouca coisa. Mas foi encarregado, por exemplo, de cuidar de ações militares na guerra contra o “exército branco”, que buscava derrubar os soviéticos. Eis o que diz Volkogonov:

 

Por certo, [Stálin] não revelou especiais talentos militares ao executar as instruções de Lênin no front. Seus relatórios não contêm avaliação da situação operacional, nem discussão sobre o desdobramento das forças, ou idéias originais quaisquer. Suas ordens operacionais eram extremamente simples, para não dizer primitivas.

 

Volkogonov (não esqueçamos que ele é militar) dá um exemplo de relatório escrito por Stálin nessa época:

 

“A captura de Kromy pelo inimigo não passa de episódio a ser corrigido, ao passo que nossa missão principal não é empregar os regimentos como unidades individuais de assalto, mas investir sobre o inimigo como um grupo maciço e numa direção única e definida”.

 

Tudo se insere, pelo que se pode adivinhar (mais do que ler) no livro de Volkogonov, na tentativa de criar um exército disciplinado em vez de contar apenas com grupos independentes, meio guerrilheiros. Era também este o objetivo de Trotski nessa época, e os dois começaram nesse ponto a entrar em rota de colisão. Mas os documentos dizem pouco, e o livro menos ainda. Há poucos telegramas preservados de Trotski a Stálin, e o que é citado no livro não esclarece nada.

 

Foi também durante a guerra civil que Stálin ordenou seus primeiros fuzilamentos. Havia, naturalmente, desertores, e a lei militar tende a tratá-los desse modo em tudo quanto é parte do mundo. Mas, em Tsaritsyn (onde? faltam mapas no livro)

 

um engenheiro chamado Alexeyev, seus dois filhos e uma boa quantidade de ex-oficiais czaristas foram acusados de pertencer a uma organização contra-revolucionária. A decisão de Stálin foi sucinta: “Fuzilamento”.

 

Deve ser muito difícil pesquisar direito essa história, mas imagino o que um bom biógrafo faria para contar os detalhes do “primeiro fuzilamento político” decidido por Stálin em sua vida. Infelizmente, o livro de Volkogonov foi tão sucinto quanto a decisão de seu biografado.

 

Stálin exercendo a democracia

Escrito por Marcelo Coelho às 22h41

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o tempo na internet

Pediram-me um artigo sobre a "pressa" no mundo contemporâneo, e sobre a aceleração que as mudanças tecnológicas impuseram sobre a profissão do jornalista. Aqui vai um trecho do artigo, que provocou, aliás, a minha ausência deste blog nas últimas horas.

A internet determina, sem sombra de dúvida, o fim do jornalismo impresso, e, com este, o dos prazos fixos de edição. O intervalo de tempo entre a apuração de uma notícia, a redação de um texto e sua divulgação pública simplesmente desapareceu. A idéia de uma mediação entre o fato registrado e a sua tradução em linguagem escrita entra em colapso. O prazo, que todo jornalista se orgulhava de cumprir à risca, entre ver e escrever, entre ver e pensar, desapareceu.

         Os “sites” noticiosos, por enquanto, se assemelham a jornais escritos. Quem navegar pelas páginas de www.folha.uol.com.br ou de http://g1.globo.com encontra, grosso modo, a mesma estrutura de um jornal impresso: manchetes, matérias de destaque, textos noticiosos e comentários. Inscreve-se nessas páginas, contudo, mais do que a simples narração feita pelo repórter. Através de links, é possível ver cenas dos acidentes de trânsito, dos discursos parlamentares, dos relatórios estatísticos nos quais cada notícia se baseou. A distância entre o signo e o referente, por assim dizer, diminuiu de modo radical. Naturalmente, o leitor pode não ter todo o tempo de acompanhar uma sessão completa de debates no Senado, confiando, portanto, no relato jornalístico à sua disposição. Acontece que o próprio relato vai sendo feito “em tempo real”, à medida que o jornalista acompanha cada parlamentar que discursa: o resumo da sessão, nesse sentido, tende a ser menos conclusivo, e a narrativa do que aconteceu se dispersa ao longo do dia, nos diferentes “flashes” informativos que alimentam o conteúdo do site, renovado de tempos em tempos.

         Fosse apenas isto, e o jornalismo escrito pela internet se resumiria a uma espécie de versão visual do jornalismo radiofônico, e quanto a isso, só teria vantagens a oferecer. Não concorreria diretamente com o jornal diário, aliás, uma vez que a este cabe oferecer um relato minimamente conclusivo das turbulências do dia.

         Ocorre que o campo da análise e do comentário, teoricamente mais próximo do jornalismo impresso, sofre uma devassa ainda mais intensa por parte da internet, e conhece, com os “blogs”, uma modificação extrema na sua temporalidade habitual.

         Cada “blogueiro” tem à sua disposição um indicador eletrônico das visitas que são feitas à sua página. O esquema concorrencial da circulação, que antes interessava exclusivamente aos diretores de jornal, passou a ser assunto dos cuidados de cada comentarista “free-lancer”. Para cada um deles, torna-se tentador responder com máxima rapidez aos acontecimentos: o primeiro comentário “on line” sobre o assunto de impacto do dia merecerá, justificadamente, destaque nos sites de busca e nos portais informativos. Entre a opinião e o fato, o analista e o locutor radiofônico, a diferença diminui.

         Trata-se, talvez, da “doença infantil” da blogosfera. Esta tende a conjugar, na verdade, as características paradoxais da instantaneidade e da permanência. O que foi escrito na internet se preserva por mais tempo do que o texto de jornal; mas só por um breve momento, na verdade, contou com a atenção passageira do leitor. É menos importante, num comentário de blog, que o “fato quente” esteja em questão: o leitor casual, ocioso, da blogosfera não irá reclamar do mesmo modo que um comprador de jornal em banca se o assunto não corresponde à situação do dia. Por outro lado, é ainda mais importante do que no jornal diário que o “fato quente” seja tratado no blog: a demanda do leitor que “surfa” na internet é simultaneamente mais elástica e mais estrita.

         Tudo isso nada mais é que sintoma de um fenômeno mais amplo, a saber, o de que o tempo, ou melhor, a temporalidade contemporânea, se artificializa dramaticamente. Não é que se “acelere” apenas. Torna-se menos dependente da natureza: os ciclos da noite e do dia, do trabalho e do repouso, do sentir e do pensar, do dizer e do lembrar, entram em curto-circuito, num misto de instantaneidade e permanência. A velocidade, que antes correspondia ao tempo mínimo para se chegar a algum ponto, é substituída por outra coisa, a que não cabe dar o nome de “pressa”: o conceito corresponde à insatisfação subjetiva diante de uma velocidade insuficiente. Nas duas idéias –velocidade e pressa—há o pressuposto de um ponto de partida e um ponto de chegada. Estamos, talvez, vivendo outra experiência do tempo: o “já”, o “agora”, parecem alargar-se de forma devoradora, tomando toda a extensão do dia útil, e criam uma espécie de “pressa eterna”, se vale a expressão, sem prazo para terminar. A bolsa de Tóquio abre quando a de Nova York fecha o seu pregão; o capital, que tinha seus limites no funcionamento biológico de cada ser humano, e diminui a cada dia que passa seus constrangimentos geográficos, ilumina o planeta sob uma luz permanente e ofuscante. Não por acaso há tantos alarmes em torno do aquecimento global. É tempo de desligar o computador; terminei meu texto.    

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h55

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Volodos toca Liszt

Volodos toca Liszt

Não sou grande entusiasta da música de Liszt: acrobacias demais, acho, para relativamente pouco assunto. Se vale comparar alguns trechos de Brahms com o vôo de uma águia entre as montanhas, muitas obras de Liszt pareceriam nesse caso shows da esquadrilha da fumaça.

 

Um amigo, pianista e professor de pianistas, indicou-me o CD recém-lançado de Arcadi Volodos, inteiramente dedicado a Liszt. Há desde peças mais conhecidas, como a Rapsódia Húngara no. 13 (veja no youtube), e “São Francisco Pregando aos Pássaros”, até algumas incursões do compositor na “música do futuro” como a “Bagatela sem Tonalidade” de 1882, mesmo ano de “La Lugubre Gondola”.

 

Meu amigo disse que há muitos anos não via alguém atingir alturas comparáveis às de Volodos no que diz respeito à pura arte pianística. E este é de fato um CD absolutamente titânico. Seguindo a tradição de Horowitz, Volodos apresenta uma rapsódia húngara com arranjo especial para torná-la mais difícil do que já é; só falta o piano explodir.

 

Mas desde os primeiros acordes de “La Vallée d’Obermann”, o que se sente, antes de qualquer megavirtuosismo, é uma beleza incomparável de timbre, de “balanço” na melodia inicial. A peça de Liszt não é muito mais do que a repetição dessa melodia simples sob diferentes roupagens, atravessando todo tipo de tempestades e descabelamentos. Mas a variedade de cores e intensidades obtida por Volodos engrandece inacreditavelmente a música, que se torna como que um poema sinfônico para piano solo. Os arpejos “wagnerianos” aí por volta dos 11 min. são inesquecíveis. O rolo de oitavas a partir dos 12 min., com direito a bilhões de notas, acho que acrescentadas à partitura original, é de levantar o telhado da casa. Daí em diante, até mesmo os temperamentos mais avessos a Liszt se rendem. É relaxar e gozar.  

 

 Liszt, num recital em que imaginava ser Mangabeira Unger.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h39

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lançamento

lançamento

http://

Data: 26/06/2007 - Hora: 19:00

Local: Livraria Cultura, no Conjunto Nacional

Lançamento de "Tempo Medido", coletânea de minhas crônicas na "Ilustrada".

Escrito por Marcelo Coelho às 16h37

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artigo na Ilustrada

artigo na Ilustrada

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2006200721.htm

O filme "Cão sem dono" é o tema de hoje.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h36

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Pecado da omissão

Pecado da omissão

Esse é o título de um poema de Alan Brownjohn, que traduzo a seguir

 

A janela que em algum lugar eu não fechei,

Bem longe, nas extensas horas do dia,

Continua aberta ainda; e agora, de noite,

A casa profunda se remexe, os corredores

Gelam no aberto estio que resvala de quarto em quarto.

Onde ficou o erro que tão certamente fez

O acaso se vingar do preguiçoso,

Tornou inquietas as cortinas, e indóceis as portas distantes?

 

 

Essa negligência apenas, pequena durante o dia, alcança

Uma dimensão vergonhosa na noite. Ouço

O vento da noite

E anseio por saber se o sono indulgente

Haverá de vir entre as badaladas do relógio;

Ou eu deveria levantar e fazer a ronda

E apalpar com mãos frias até rastrear, no escuro,

Aquele erro, que tantas vezes cometi?

 

"Cortinas", foto de Mayumi Terada, na galeria Robert Miller, NY

 

Escrito por Marcelo Coelho às 10h54

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Cão sem Dono

Cão sem Dono

         Além de grande autor de peças de teatro, Bernard Shaw foi crítico durante muitos anos. Confessou ter dificuldades em avaliar o trabalho da mais famosa atriz de seu tempo, Sarah Bernhardt, por razões totalmente imponderáveis e subjetivas: “é que ela é muito parecida com minha tia Harriet”.

 

Sarah Bernhardt e seu cão, por Georges Clairin

 

         Comecei sem gostar muito de “Cão sem Dono”, filme mais recente de Beto Brant. Depois, mudei de idéia, como costuma acontecer quando penso sobre filmes brasileiros: querendo ou não, eles acabam sendo mais interessantes e reveladores do que me parecia á primeira vista, como espectador um pouco preguiçoso.

         Depois de uma boa cena de sexo inicial, comecei a achar os diálogos vazios, sem interesse, enquanto o caráter dos personagens ia pouco a pouco emergindo da tela. Ciro (Júlio Andrade) me parecia apenas um sujeito  deprimido e sem grande interesse, enquanto Marcela (Tainá Müller) é o tipo da garota que se apaixona por sujeitos deprimidos e sem interesse.

 

Tainá Müller

 

         Os dois atores logo se revelam muito bons, na contenção que lhes é exigida pelo papel. Mas o tempo ia passando, e me convenci de que “Cão sem Dono” é um daqueles filmes que mudam muito se você ficar encantado pela atriz principal. “Breakfast at Tiffany’s”, que não é um filme bom, seria insuportável se não fosse Audrey Hepburn, especialmente na cena em que ela canta com um violão na escada de incêndio. Há uma cena em que Tainá Müller canta longamente com um violão na cama de “Cão sem Dono”, e o efeito, apesar da beleza e da simpatia da atriz, não é propriamente mágico.

         Aqui intervém, então, a subjetividade do espectador; não tenho nenhuma tia Harriet, e se tivesse, certamente Tainá Müller não seria parecida com ela; mas também não é uma Audrey Hepburn.

         Mas tudo isso tem pouco a ver com a análise do filme –a não ser que estejamos avaliando a intenção de Beto Brant em jogar com a beleza da atriz. De análise mesmo, faço um pouco no artigo que sai na quarta para a Ilustrada; por enquanto é só.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h45

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mão na massa

mão na massa

Ficou meio abandonada esta seção do blog, mas consegui tirar uma foto aqui de perto de casa. Repare nas mãos do pizzaiolo e na mesa. Fora o olhar dele, claro.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h11

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a volta de Paulo Francis

a volta de Paulo Francis

Está de novo nas livrarias “O Afeto que se Encerra”, livro de memórias que Paulo Francis publicou em 1980. Nessa época, ele ainda era de esquerda, e chega a provocar surpresa no leitor a violência com que ele se refere, por exemplo, a Roberto Campos –economista que, hoje em dia, ninguém se dispõe a criticar:

 

dizem que Roberto Campos é agente da CIA. Espero que seja. Ao menos, estaria cumprindo um dever. Se não for, o que pensar dele? É o maior torturador e assassino da nossa história, não em atos diretos, mas pelo que inspira de gabinete. Que motivos, à parte o serviço a outra nação, ou causa, poderiam inspirá-lo? Na CIA, se humanizaria.

 

Acaba sendo o “mesmo Francis”, afinal, que mais tarde voltaria seus canhões contra Luiza Erundina e Lula. Há, sem dúvida, um culto da violência no seu modo de escrever, e volta e meia nessas memórias ele conta de porradas que deu (muitas) ou levou (poucas) na juventude. No colégio interno, por exemplo:

 

Arranjei um amigo, meio trôpego, sensível e gago como eu, inteligente, o tipo frágil que atrai implicantes brutalhões. Um maior, 11 anos, chateava bastante o pobre. Um dia me irritei de verdade. Esqueci o começo da briga. Lembro de estar em cima do maior, batendo-lhe a cabeça, já sangrando, no concreto, ele desacordado (...)

 

Narrativas de coragem física, de desempenho sexual, de proezas de consumo alcoólico, além de considerações insistentes sobre homossexualismo –quem é, quem não é, o que é, o que não é—parecem, na verdade, mais antediluvianas do que o tom das críticas a Roberto Campos. Com o tempo, Francis se “modernizou” num aspecto, não no outro.

 

Ele se diz tímido. Curioso que, lendo o livro, apesar de toda a “garganta” (para usar um termo antigo) é possível concordar com ele. Estranhamente, para uma autobiografia, e mais estranhamente ainda, para quem é bastante gabola, Francis parece na verdade estar o tempo todo fugindo de falar de si mesmo. Quando vai contar, por exemplo, suas experiências como ator, entra rapidamente em digressões sobre o teatro brasileiro, as traduções de Shakespeare, as pessoas com quem conviveu nessa época. Quando fala de sua formação política, discute (de modo muito interessante) os erros de Jango e a situação militar nas vésperas de 64.

 

O livro se torna irresistível justamente pela mistura entre as idéias gerais, sempre expostas com originalidade peremptória, e o trato da intimidade pessoal (nos trechos em que, reativamente, o que seria confissão assume o tom da jactância).

 

Os trechos mais bonitos, entretanto, são os que fogem desse vaivém, adquirindo uma discrição, um “corte” de frase, dignos de um grande escritor. Eis, numa nota de rodapé, como Francis narra a morte do irmão mais velho, vitimado num acidente de avião:

 

Durante seis dias vi meu irmão mutilado, sofrendo o diabo, no excelente hospital de São Paulo, cujo nome esqueço, especializado em queimaduras. Se sobrevivesse, Fred perderia um braço, estropiado, já ficara cego de um olho. Os médicos me explicaram que dependia da capacidade dos rins de Fred que ele não morresse, ou seja, da eliminação das toxinas provocadas pelas queimaduras. Fred teve falha de ris. Eu segurava a perna dele quando deu aquele último arranque, duro, em que depois o tormento de nos sabermos vivos e vulneráveis se extingue. Antes de morrer, beijei-o a primeira, única e última vez, na testa. E pela primeira vez na minha vida consciente, o filho morto, abracei meu pai.

 

Esse “filho morto” entre vírgulas, referindo-se semanticamente ao pai, mas sintaticamente preso ao “eu” do narrador, parece ficar no meio, compartilhado, entre os dois homens que se abraçam; surge ao mesmo tempo como um soluço. Toda a arte do trecho está na ordem das palavras, na eliminação de uma ou outra preposição, de uma exigência gramatical qualquer; quando não era horrível, Paulo Francis era um escritor e tanto.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 13h20

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Fé e razão

 Victor Klemperer (1881-1960) era professor universitário na Alemanha, o que não significava pouca coisa nos anos 20 e 30: no sistema prussiano, muitas honrarias estavam associadas ao seu “status”, como a de sempre ser chamado “Herr Professor Doktor Klemperer” e coisas parecidas. Além disso, ele combateu na Primeira Guerra, e tinha uma alta condecoração.

 

Com o nazismo, sua condição de judeu predominou sobre todo o resto; pelo fato de ser casado com uma não-judia, e pela posição social de destaque, foi sobrevivendo durante todos os anos do regime. Seria um dos últimos a serem embarcados para um campo de extermínio, mas a guerra terminou antes, permitindo que ele se salvasse e salvasse, também, o seu diário durante todo esse tempo.

 

O livro foi editado no Brasil pela Companhia das Letras, e vai narrando mês a mês o inacreditável e crescente ciclo de opressões e violências a que os judeus foram submetidos.

 

Em 1947, Klemperer publicou um ensaio de cerca de 250 páginas, sobre “A Linguagem do Terceiro Reich”. Não se trata de um livro excepcionalmente brilhante, nem seria possível, tão pouco tempo depois do fim do regime, chegar a uma interpretação sistemática do fenômeno totalitário; sem contar, claro, as condições emocionais de seu autor. Ele narra, entretanto, um episódio muito significativo sobre a psicologia do fanatismo.

 

Na universidade, havia uma aluna simpática, inteligente, de bom caráter, chamada Paula. Dava-se bem com Klemperer e com vários judeus. Quando Hitler assumiu o poder, ela demonstrou grande alegria e entusiasmo. Um dia, foi até a casa dos Klemperer fazer uma visita. Considerava ter o dever, “como alemã”, de externar sua posição pessoal diante do nazismo. Klemperer recebeu-a friamente.

 

“Seu ‘dever como alemã’? Essa não é uma expressão que você teria empregado no passado”, exclamei. “Qual a relação entre “ser alemã” ou “não alemã” com questões altamente pessoais, ou altamente universais?” “Tudo está relacionado com a questão de se ser ou não alemão, isso é tudo o que importa, é isso o que aprendemos do Führer ou redescobrimos com ele; ele nos trouxe de volta ao lar!”, respondeu ela. “E por que você está dizendo isso para mim?” “É que, embora eu pertença totalmente ao Führer, não quero pensar que por isso deixei de ter afeição por você”.

 

Klemperer não conseguiu acompanhar a lógica da aluna.

 

“E como você pode conciliar esses dois sentimentos? E como você pode conciliar as teses de Hitler com o humanismo de Lessing e de todos os outros sobre quem você escreveu trabalhos tão bons? Mas acho que não há sentido em fazer essas perguntas para você”.

 

A aluna respondeu:

 

“É, de fato não faz sentido, porque todas as suas perguntas são baseadas na Razão”. “E no que deveriam se basear se não fosse na Razão?” “Eu já lhe disse antes! É uma coisa que a gente tem de sentir, e você tem de focalizar sempre na grandeza do Führer... quanto aos nossos autores clássicos, eu não acho que eles estejam em discrepância com o Führer, é uma questão de lê-los adequadamente, e em todo caso eles acabariam se convencendo [do nazismo] cedo ou tarde!” “E de onde vem essa sua certeza?” “Do lugar de onde vêm todas as certezas: da fé.”

 

Fé e razão não poderiam estar confrontadas com mais clareza do que nesse diálogo. Passados 60 anos do fim do nazismo, que esse mesmo tipo de “critica” à Razão continua a fazer sucesso, assim como o truque final da estudante, que afirma que todas as certezas derivam da fé. Ter certeza de que escrevo isto numa quinta feira é, entretanto, uma certeza absolutamente razoável. Ter certeza de que Santo Agostinho inspira minhas palavras não é razoável: é uma questão de fé, exatamente porque não há nada de razoável nessa crença.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h17

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triunfo da babaquice

Algumas coisas ficaram sem desenvolvimento no meu artigo de hoje para a “Ilustrada”. Gostaria de ter começado de outro jeito, mas que adiaria muito a introdução do tema principal.

 

Fico sempre intrigado com essas idéias inúteis que servem, com certeza, para muita gente se encher de dinheiro, e que depois de um tempo são desaparecem por encanto. Quem se lembra do ISO-9000? Foi uma verdadeira febre entre empresas de todo tipo arranjar o tal certificado –que nunca fez, pelo que eu sei, diferença prática para ninguém, exceto para quem inventou a idéia. Contaram-me outro dia de um empresário americano que inventou uma tal de “pedra da sorte”, ou “pedra mascote”: uma pedra comum, dentro de uma espécie de ninho de palha, cujos sinais de “felicidade”, “tristeza” ou “carência” você poderia interpretar, seguindo um manualzinho de cuidados que acompanhava o produto.

 

É, como eu escrevi no artigo, o mundo da babaquice. Não tenho grande contato com palestras, mas vi algumas coisas com “power point” que merecem bem o termo. As luzes se apagam; o expositor liga o aparelho. O tema, digamos, é a programação semestral de atividades de um instituto beneficente, de um departamento de vendas ou de uma cátedra acadêmica.

 

 A primeira imagem aparece na tela: é uma paisagem de araucárias em Campos do Jordão. Para deixar a platéia num bom astral.

 Segue-se uma frase em epígrafe, que não necessariamente foi tirada de Paulo Coelho. E aí vêm os pontos da exposição, que enquanto a pessoa fala, aparecem um a um na tela. Tipo “objetivos: melhorar a relação com o cliente; conquistar padrões de excelência em nossa área; integrar a empresa e a comunidade”, etc. etc.

 

Sinal infalível de babaquice, a meu ver, é quanto as idéias são organizadas num esquema que, no colégio que freqüentei, éramos obrigados a exercitar a todo pretexto, em fichamentos e trabalhos. É assim:

 

Item 1- Melhorar a relação com o cliente.

         1.1. No plano pessoal

                  1.1. 1 contato por e-mail.

                    1.1.2 contato telefônico

                  1.1.3 contato postal.

         1.2. No plano institucional

                  1.2.1 relacionamento comercial

                    1.2.1 a) visitas corporativas

 

etc. etc. No final, depois de uma hora e meia de falação, outra paisagem bucólica: agora, um pôr-do-sol.

 

E os cartões musicais? As canções que você recebe por e-mail? Os votos de feliz aniversário que chegam da loja de roupas onde você fez cadastro? A babaquice tem isso: vem de graça. Por isso fica antipático criticá-la.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h24

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mulheres na pintura

mulheres na pintura

http://www.youtube.com/watch?v=nUDIoN-_Hxs+

Maravilhoso filme do youtube mostrando 500 anos de representação do rosto feminino. A sugestão veio do leitor Novaes; o filme parece um sonho de Casanova.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h44

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liberdade na miséria

O jornalista Nicholas Kristof escreve sobre a pobreza mundial na “New York Review of Books” de 31 de maio, e recorda uma conversa que teve com uma camponesa cambodjana em 1999.

 

Ela e sua família viviam de extrair madeira na floresta, numa região muito atingida pela malária. A filha dessa camponesa morreu pouco depois de dar à luz a uma criança; medicamentos contra a malária custariam menos do que dez dólares.

 

A camponesa ficou cuidando de sete pessoas: cinco filhos dela mesma e dois netos. A família, diz Kristof, tinha só um mosquiteiro, que poderia proteger três pessoas das picadas durante a noite. De modo que, toda noite, essa camponesa se angustiava decidindo quais crianças deveriam ficar dentro, e quais fora, da proteção do mosquiteiro.

 

“Esta”, diz Kristof, “é a real face da miséria: não é só a dor da fome, mas as escolhas impossíveis com que as pessoas têm de se defrontar. Se você só pode pagar as despesas de escola de um filho, qual você escolhe? Se você tiver de escolher entre o tratamento médico do pai de família, que é o arrimo da casa, ou os estudos do menino brilhante, onde você empregará suas economias?” No Oriente, eles ainda têm a questão do dote: você gasta pagando um dote para a sua filha ter um marido decente, ou arranja um casamento com o sujeito desqualificado e gasta as economias comprando a comida que o seu filho mais velho, a quem você envia para a escola, deixa de trazer para casa?”

 

São, de certo modo, “escolhas de Sofia”, como a celebremente imposta à mãe de duas crianças num campo de concentração nazista –poderia escolher qual das duas sobreviveria. Walter Benjamin, creio, foi quem observou que para os miseráveis não há diferença entre o Estado de Direito e o Estado de Exceção, o que sempre me pareceu um exagero retórico, e certamente uma forma não de condenar o Estado de Exceção, e sim de criticar o Estado de Direito... mas há situações que, de fato, parecem corresponder a todo exagero retórico que se queira fazer.

 

"Fome" (1924), de Käthe Kollwitz. Um livro sobre a artista foi publicado pela Edusp recentemente.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h10

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1206200704.htm

Na crônica de hoje, discute-se a liberdade de expressão no país de Hugo Chávez.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h53

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Marly de Oliveira

Marly de Oliveira

Marly de Oliveira morreu na semana passada. Resenhei, há muito tempo, um  livro de poemas seus, que releio hoje com o mesmo prazer e emoção. O livro se chama “O Mar de Permeio”, e tem como único tema –moderno como poucos—as emoções da autora ao ver a filha sair de casa e viajar pelo mundo. Eis aqui um dos poemas; o título, não muito bom, é “Psicologia da lembrança”.

 

 

Tão fácil deixar o quarto assim:

lenços roupas empilhadas

tênis papéis por todo o lado,

os livros do colégio, um copo d’ água,

mas um jeito de amar fala mais alto

e vai fazer a cama, renovando os

lençóis; é tão forte o calor, dói

a coluna, nem dói mais, quando

sonolenta ela entra

e sorri sonolenta, um anjo

pousado um momento

no meu ombro; agora a cama está sempre

feita, o armário sempre arrumado, ela

longe longe longe numa

moldura mais que perfeita, e o

dia inteiro olho seu quarto, os quadros,

faz tanta falta aquela desordem!

ela está lá e está aqui

dentro de mim,

e quando sequer falamos

ao telefone é como se nem

entre nós um oceano

houvesse, como se nem.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h39

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Rock com Brill

Rock com Brill

Nascida na Alemanha em 1920, Alice Brill é uma maravilhosa fotógrafa, como se pode ver nesta imagem da Bahia, tirada em 1953:

 

Poderia ser em 1853, que a situação seria semelhante. Talvez tenha sido esta a intenção da artista.

 

Abriu esta semana na Faap uma exposição com algumas de suas fotos, mas principalmente de sua obra como pintora, que convence bem menos. É interessante ver a série de três aquarelas que Alice Brill pintou a partir da foto acima; sem dúvida, perde-se em precisão sem ganhar muito em síntese plástica.

 

Alice Brill foi aluna de Paulo Rossi Osir nos anos 40, e seu estilo inicial lembra o de Mário Zanini. Eis uma bonita paisagem daquela época:

Posteriormente, creio que Alice Brill foi vítima da pressão para optar por uma linguagem mais “moderna” (isto é, abstrata e vagamente psicodélica nos anos 70) sem que estivesse muito convicta do que fazia. O resultado, com benevolência, pode ser chamado de simplesmente decorativo:

Não me canso de reclamar dos anos 70, uma época ruim como poucas no campo estético. Se você tiver alguma dúvida, pode visitar, em outra ala da Faap, as fotos de Bob Gruen sobre roqueiros daquela época.

 

Bob Gruen fez retratos famosos de John Lennon e Yoko, em que a dupla aparece de forma natural e simpática, sem pose e chateação transgressiva. Sem conhecer nada da música feita nessa época, não escondo meu desconforto diante do tipo de vida que algumas estrelas do rock daquela época demonstram levar nas fotos de Gruen. Não é só a questão das drogas: as fotos de Sid Vicious com o braço todo espetado são, naturalmente, dolorosas ao extremo. Mas me parece nítido, no visual de algumas bandas como o Kiss, algo de igualmente horrível: é uma tentativa desesperada de contestação, da qual resulta sobretudo uma forma autodestrutiva de comportamento.

 

É bastante comum a avaliação de que esses grupos tentaram explodir “o sistema” e terminaram sendo vítimas dele. Fico pensando se, ao contrário, eles não eram, sem saber, a imagem do próprio “sistema”, em sua violência destrutiva e em sua produção espetacular de bens de consumo; as duas coisas caíram como uma carga elétrica de alta voltagem em cima desses corpos humanos. Daí o cabelo espetado e a língua de fora; daí sua morte trágica e precoce.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h39

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crianças e instrumentos

crianças e instrumentos

Não sei bem por que razão uma das primeiras coisas que as crianças aprendem é o nome dos bichos. Talvez seja uma categoria de coisas suficientemente ampla para atender à sua sede de conhecimento e memorização, sem obrigá-las ao exercício penoso de atentar a distinções excessivamente sutis. Resumindo: há na categoria “mamíferos” um máximo de diferenças internas com um princípio de identidade suficientemente forte ao mesmo tempo: é uma “gaveta” mental ao mesmo tempo espaçosa mas claramente delimitada.

 

Meu filho de três anos encontra prazer também em nomear os elementos de outra categoria, a dos instrumentos da orquestra. Passo aqui a recomendação de um bom livro para crianças sobre isso: “A Orquestra Tintim por Tintim”, que além de falar dos diferentes tipos de instrumento, vem com um CD em que solistas da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre apresentam, faixa por faixa, o som dos respectivos instrumentos. Alguns ficam faltando, que eu pessoalmente gostaria de conhecer melhor: o corne inglês, por exemplo, que nunca tenho certeza se é um quando o estou ouvindo.

 

Claro, o grande clássico nessa linha infantil é “Pedro e o Lobo”, disponível em vários CDs para crianças com narração em português. Algumas versões não são confiáveis: o da série “Disquinho”, originalmente feita na década de 60, segue de perto a narração do curta-metragem de Walt Disney, mas a música de Prokofiev é “adaptada” para ficar mais fácil, eliminando-se alguns saltos dissonantes do próprio tema de Pedro. Outro CD desiste dos instrumentos da orquestra real e sampleia tudo em computador. As versões de Rita Lee e de Roberto Carlos são as melhores.

 

Sem CD, e para crianças mais velhas, dada a estilização das ilustrações e o detalhismo do conteúdo, é “A incrível história da orquestra”, de Bruce Koscielniak (Cosacnaify), que descreve os instrumentos musicais desde a Renascença até hoje.

 

Para os bem pequenos, sucesso certo é o volume da coleção “Ache o Bicho”, que junta instrumentos e zoologia elementar, com cada bicho tocando o seu. As ilustrações de Svetlan Junakovic  estão  na melhor tradição do desenho para crianças “europeu”, isto é, despreocupados com o realismo, sem excesso de detalhes, e com um uso ao mesmo tempo refinado e direto das cores.

 

Mas uma coisa que um menino de dois ou três anos adora, pelo que pude perceber, são os dicionários ilustrados. Menos do que a narração de uma história, ele está empenhado em reconhecer e nomear as coisas. Você pode passar horas respondendo, na mesma página do dicionário, à pergunta “o que é isso?” : uma camisa, uma calça, um casaco, um chapéu... Como nunca estou contente, à medida que a criança cresce é possível familiarizá-la com as letras ao mesmo tempo. Afinal, entre distinguir bichos, instrumentos e letras, o processo é praticamente idêntico. Daí para a alfabetização é outra história. Mas não custa facilitar.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h51

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bairros de imigrantes (2)

bairros de imigrantes (2)

Falei uns dias atrás de uma passagem estranha no livro “Em Louvor da Sombra”, de Junichiro Tanizaki. O autor descrevia as antigas cortesãs japonesas, nos quartos enormes e escuros de antigos palácios, e as comparava a enormes aranhas criando uma própria teia de escuridão. A idéia da noite como algo que se cria, que se produz, como uma espécie de secreção natural do cansaço das coisas, reaparece num trecho de Cosmópolis, livro de reportagens poéticas sobre os bairros de imigrantes de São Paulo, escrito por Guilherme de Almeida em 1929.

 

Ele fala das chácaras de imigrantes portugueses, pelos lados da Vila Mariana e da Aclimação. Refere-se à poeira vermelha da rua Paula Ney, à “frescura serrana” entre “o recorte alto da Vila Mariana e o apinhado baixo do Cambuci”.

Havia criações de cabras por ali, e os chacareiros iam de porta em porta com a cabra, para vender leite “direto do produtor” à crianças mais franzinas, a quem os médicos da época receitavam esse complemento alimentar. Eis um trecho, tipicamente sentimental, mas ainda assim bonito, de Guilherme de Almeida:

 

Olhei um pouco o chacareiro de calça cor de pinhão, que corria os seus canteiros azinhavrados, para além dos arames farpados desta cerca: e pensei no cavador de enxada ao ombro pelos caminhos, com o seu caldo em casa e os seis filhos que Deus lhe deu... Olhei um pouco os pequeninos, lá longe, brigando, saltando o regato; e pensei nos pobrezinhos, em alcatéias, pelas aldeias, como trapos levados nas ventanias, dormindo pelos alpendres, pelos currais, e que choram cantando... Olhei um pouco o ponteado alvo do Cemitério da Vila Mariana, como um rebanho parado numa distância esverdeada [...] Subo, com pena, do fundo do vale e do fundo de mim mesmo para a cidade, lá em cima, e para a realidade, lá longe. Olho, ainda uma vez, a hora quieta que parou nas coisas para ver a tarde murchar...

 

Paz. Nem um estremecimento nas folhas finas dos eucaliptos. Apenas um ladrar quebrado e precipitado de cães. Alguém acende uma fogueira, lá embaixo, no mundo dos cabreiros: e um fogo alto e rápido lambe a pequena noite do vale.

 

A outra, a grande noite, essa vem descendo, descendo da cidade sob a forma de uma luzinha triste e vagante, na ponta da lança dos acendedores de lampiões. A luzinha escorre, ladeira abaixo: e vai deixando na terra o seu rasto de pingos paralelos, pálidos, pensativos, criadores de sombra, inventores de noite...

 

"Arredores de São Paulo" (1938) de Rebolo 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h37

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os filmes de Frank Scheffer

os filmes de Frank Scheffer

Graças ao DVD, ao dólar, à globalização, aos megastores ou seja lá ao que for, tenho tido acesso a muitos documentários sobre música clássica que não resisto a comentar. Primeiro, pude ver alguns filmes de Christopher Nupen, como o que dedicou a Evgeny Kissin: apesar da extraordinária qualidade do pianista, o que se tinha eram comentários absolutamente banais, no sentido em que poderiam ser aplicados a qualquer outro grande instrumentista, e não apenas a Kissin.

 

Os filmes de Bruno Montsaingeon sobre Glenn Gould constituem, a esta altura, uma verdadeira legião, e embora extremamente esclarecedores da técnica e das preferências do pianista –principalmente devido à extrema agilidade mental dos comentários que ele faz sobre a própria maneira de contar—caem um bocado numa espécie de culto religioso; cada documentário de Montsaingeon é uma espécie de altar construído à glória de Glenn Gould.

 

Comprei recentemente dois DVDs do documentarista Frank Scheffer, que me parece de longe o melhor autor de filmes sobre música clássica disponível por aqui.

 

“A Labyrinth of Time”, que comentei no artigo de hoje para a Ilustrada, dedica-se à obra do compositor americano Elliott Carter, nascido em 1908. Não se trata apenas de um retrato biográfico de um músico simpático e tranqüilo, sem pretensão nem falsa modéstia. Há muita arte na escolha das imagens, no modo de operar transições de um ponto para outro no tempo e no espaço. Como a vida de Carter se estende pela inacreditável soma de cem anos (ele está vivo até hoje), há naturalmente uma quantidade muito grande de memórias, casos e lugares para narrar.

 

Elliott Carter conta que, na sua infância, ele percorria a ilha de Manhattan de bicicleta sem ver um carro sequer. Sua última ópera, composta depois do atentado ao World Trade Center, trata da amnésia de um grupo de personagens que acaba de sofrer um acidente automobilístico. Cenas antigas de Nova York e imagens das ruas e pontes congestionadas de hoje se alternam magistralmente.

 

O compositor americano foi aluno (mais um!) de Nadia Boulanger na década de 30 em Paris. Scheffer filma um barco passando debaixo da Brooklin Bridge dos dias atuais, corta, e mostra em seguida um barco surgindo debaixo do Pont Neuf de Paris, onde o quase centenário Carter revisita a “École Normale de Musique” e consulta seus velhos boletins.

 

Poderia ser apenas uma superficialidade cinematográfica, mas o fato é que esse tipo de transição combina muito bem com a música de Carter, que desenvolve uma técnica particular de mudanças de andamento ao longo de uma peça –donde o sentido duplo de “Um Labirinto do Tempo”.

 

O outro DVD de Scheffer reúne dois filmes excelentes. O primeiro é sobre o maestro Riccardo Chailly, à testa da tradicionalíssima Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã. Essa orquestra, uma das maiores do mundo, é célebre pelas suas interpretações de Mahler e Bruckner. Teve poucas trocas de maestro ao longo de sua vida, sofrendo a forte influência dos anos em que esteve sob a batuta de Wilhelm Mengelberg e de Bernard Haitink.

 

Um italiano no Concertgebouw? Chailly assinala: “essa é a orquestra mais crítica, mais difícil de dirigir que eu conheço”. Os instrumentistas são entrevistados: “no começo, nós o achávamos superficial... muito interessado no brilho dos instrumentos... mas aos poucos ele foi evoluindo, a mão esquerda parou de imitar os movimentos da direita...”

 

Chailly revela as semelhanças entre Mahler e Puccini. Introduz a orquestra a Edgar Varèse. Há uma bonita filmagem de Chailly regendo um trecho de “Petruchka”, de Stravinsky, e de sua luta para reger a “Sinfonia no. 5” de Mahler com a necessária transparência e contenção. Luciano Berio, objeto do outro documentário incluído neste DVD, diz que Riccardo Chailly é um dos mais “saudáveis” (no sentido mental) maestros da atualidade. Não há, com efeito, messianismo nem neurose: há acessibilidade e bom gosto –para não dizer alegria—nas suas interpretações. Tudo é apresentado por Scheffer sem incorrer na tentação do exaustivo, nem na tentação simétrica do superficial: há seres humanos no filme, inteligentes, mas sobretudo naturais. Sem os mistérios do gênio, mas com a luminosidade do grande talento.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h44

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0506200704.htm

Neste inverno, casacos de couro podem não ser a melhor pedida, diz o cronista do "Agora".

Escrito por Marcelo Coelho às 12h40

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bairros de imigrantes

bairros de imigrantes

         Por falar em livros emprestados (ou dados, nunca se sabe), encontro no meio das minhas arrumações um livrinho antigo, que foi dos primeiros que comprei com meu dinheiro; eu devia ter uns onze anos, e achei bonito dar a meus pais alguma coisa de presente. Numa letra infantil, está a dedicatória, sem data, numa linha só, a lápis, bem no alto da página: “Para Papai e Mamãe, do Marcelo”.

         Meus critérios literários eram meio vagos na época, mas imaginei que eles gostariam do autor, Guilherme de Almeida. (Acho que não gostavam). Tenho dúvidas se o livro foi de fato lido; não importa. Importava era ter dado de presente; no fim, vejo que eu tinha apenas emprestado para eles.

         É um volumezinho fino, chamado Cosmópolis: oito reportagens. Foi escrito em 1929, e trata de diferentes bairros de imigrantes de São Paulo. Tem ilustrações a carvão de Gomide, escuras e tristes que dói.

         Há muita prosa poética fora de moda nesses textos, mas passagens muito bonitas também. Sem contar que se faz um retrato absolutamente inacreditável de uma São Paulo cheia de matagais, chácaras e ermos. Cada capítulo é sobre um bairro.

         Há uma bonita metáfora no primeiro capítulo, sobre a parte da Moóca onde se reuniam os imigrantes húngaros. O autor está numa praça, que ele não nomeia, numa tarde de domingo.

 

         Gente em penca em torno de qualquer coisa. Essa qualquer coisa é, acima de tudo, uma sinfonia. Monótona, repetida, quase letárgica. Sai de dentro de um violino, que está nas mãos de um homem grande, moreno –um tzigane?—trepado numa cadeira [...] colete desabotoado e chapéu na cabeça. Aquele homem melodioso é como uma pedra atirada na água quieta: vai abrindo, em volta de si, círculos concêntricos, cada vez maiores, maiores, até que desaparecem nas margens. É assim. Ha uma roda muito fechada de mulheres e homens –mulheres de um lado, homens de outro—de mãos dadas, sérios, convencidos, calados. Ele é o centro dessa roda. A música do seu violino vai fazendo abrir-se a roda, pouco a pouco, alargar-se, espichar-se cada vez mais... E, enquanto assim se vai abrindo, e alargando, e espichando, entram, sob os braços dos maiores, bandos de criancinhas, que vêm não se sabe de onde, e ficam no meio, mudas, imóveis, bobas, numa penca, bem pertinho do músico moreno. E a roda que roda num sapateado triste vai se abrindo, esticando, até não poder mais. E então rebenta. A música hipnótica dá um gemido e cai em síncope brusca. E a roda se dissolve, calma, como os círculos concêntricos nas margens da água quieta.

 

Quem sabe essa dança era a da própria imigração européia em São Paulo, e dos bairros antes tão fechados em si mesmos, com sua língua e costumes próprios, que se dissolveram depois.

 

Outra dança (não tão triste) pintada por A. Gomide.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h19

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0406200704.htm

Amor e corrupção se cruzam no ambiente de Brasília. Leia a crônica de hoje do "Agora".

Escrito por Marcelo Coelho às 18h16

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cortesia japonesa

Para lembrar ainda o livro “Em Louvor da Sombra”, de Junichiro Tanizaki, de que falei em post anterior, aqui vai um caso que merece registro. Um arquiteto, que passou seis meses no Japão por volta de 1970, contou-me há alguns dias um exemplo das boas maneiras naquele país. Ponho o relato em primeira pessoa, para facilitar o caso.

 

Encontrei-me com um professor de Arquitetura na universidade de Osaka, muito simpático, e conversamos sobre um livro que tinha muito a ver com a minha pesquisa na época. Ele me disse para ir à sua casa no dia seguinte, para pegar o livro emprestado.

 

Foi o que fiz. Toquei a campainha, ele atendeu, e eu lhe disse: “Olá, vim buscar aquele livro de que falamos ontem”.

 

Percebi na hora o choque no rosto do professor. Em todo caso, ele me convidou para entrar, puxou conversa sobre os mais variados assuntos, ofereceu-me chá, e já quase na hora de eu ir embora ele bateu na testa, como se estivesse se lembrando só naquele momento: “Ah! Sabia que tinha esquecido de uma coisa... Havia um livro que eu queria lhe emprestar.” Só então foi à estante e deixou o livro comigo.

 

Teve a gentileza de me explicar, mais tarde, que nunca se chega à casa de um amigo no Japão apenas para pegar um livro. A visita não poderia ter motivo tão pragmático. Ele sabia, e eu sabia, que o propósito era o livro. Mas a boa educação não permite deixar isso explícito.

 

gravura de Shunabaisai Hokuei, de 1832

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h47

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um poeta polonês

um poeta polonês

Zbigniew Herbert (1924-1998) é um dos maiores poetas poloneses do século 20, ao lado de Czeslaw Milosz e Wyslawa Szymborska. Não ganhou o prêmio Nobel, como estes dois, mas certamente merecia. Saiu agora em inglês um livro de 600 páginas com sua obra poética. Passo para o português dois poemas de Herbert, que li na resenha escrita por Charles Simic na “New York Review of Books de 26 de abril.

 

LUA

 

Não consigo entender como você pode escrever poemas sobre a lua. Ela é gorda e desleixada. Belisca o nariz das chaminés. A coisa que ela mais gosta de fazer é se encostar ao pé da cama e ficar cheirando os seus sapatos.

 

O SR. COGITO REFLETE SOBRE O SOFRIMENTO

 

Todas as tentativas de evitar/ a chamada taça da amargura/--por meio de esforços mentais/campanhas frenéticas de ajuda aos gatinhos perdidos/exercícios respiratórios/religião--/acabam te decepcionando

 

você deve consentir/abaixar a cabeça gentilmente/não torça as mãos/use o sofrimento aos poucos com moderação/como uma perna mecânica/sem vergonha exagerada/mas sem orgulho também

 

não agite o toco da perna/por cima da cabeça dos outros/não bata a sua bengala branca/na vidraça dos satisfeitos

 

beba um extrato de ervas amargas/mas não a borra/tenha o cuidado de deixar/uns goles para depois

 

aceite-o/mas ao mesmo tempo/isole-o dentro de você/e se possível/faça da matéria do sofrimento/uma coisa ou uma pessoa

 

brinque/ com ele/claro/brinque

 

ria em volta dele/solícito/como em volta de uma criança doente/mimando-o/com truques bobos/um sorriso/amarelo

Escrito por Marcelo Coelho às 11h15

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o link de todos os links

o link de todos os links

http://www.aldaily.com/

Tenho até medo de recomendar este link, porque depois de acessá-lo é provável que você nunca mais volte a esse blog. Tudo o que há de interessante para ler em inglês e mesmo em outras línguas, todo dia, pode ser acessado nesse site. Você passa duas horas lendo e não perde tempo. O link que acaba com todos os links.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h54

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intransigência é vício

É como num jogo de pôquer ou roleta: você deve se retirar da mesa quando acumulou um bom ganho. Se continuar, acaba perdendo. Com o novo decreto de Serra sobre as universidades, o movimento estudantil obteve uma nítida vitória. Decidiu-se ontem continuar ocupando a reitoria. É intransigência. Pior que isso, é quase um vício de jogador. Os estudantes perderam a própria vitória.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h50

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Anita Malfatti no Tempo e no Espaço

Anita Malfatti no Tempo e no Espaço

Conhecia a primeira edição de "Anita Malfatti no Tempo e no Espaço", publicada há muitos anos numa encadernação grande e meio feia, com a capa totalmente preta. Sai agora pela Edusp uma edição ampliada, com o catálogo completo das obras da pintora. É uma pesquisa exaustiva, que recupera a atribulada carreira da pintora, desde o seu estridente começo modernista --que comentei longamente em meu livro Crítica Cultural: Teoria e Prática, em função da reação escandalizada de Monteiro Lobato-- até o "bom comportamento", quase naif, de suas obras posteriores.

Leio hoje no jornal a notícia de falecimento de Marta Rosseti Batista, a autora desse livro precioso. Foram, ao que informa o site da Edusp, quarenta anos de pesquisa sobre o tema. Fica a minha homenagem, ou melhor, o meu agradecimento pelo que esse livro me ajudou.

Anita Malfatti: "Tropical".

Escrito por Marcelo Coelho às 09h50

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onde estudar Jornalismo?

A julgar pelos resultados do Enade, em ótimas cidades bem longe daqui: Florianópolis, Santa Maria, Juiz de Fora, Ponta Grossa. A Facamp, de Campinas, aparece em quinto lugar na classificação geral. Em seguida, Guarapuava, no Paraná, Ribeirão Preto, Santa Maria de novo,  Belo Horizonte e Londrina. Lembrando sempre que USP e Unicamp não participam da avaliação.

Direito? Santa Maria. Radialismo? Ilhéus. Administração? Belo Horizonte e Itajubá. Contabilidade? Paripiranga, na Bahia. Teatro? londrina, Belo Horizonte e Montenegro, no Rio Grande do Sul. Design? Rio de Janeiro, Santa Maria, Curitiba e Pelotas.

Melhor arrumar as malas, portanto. A cidade de Santa Maria parece abrigar um ensino superior de excelente qualidade. Há que considerar, provavelmente, a qualidade do ensino fundamental e médio nesses estados: sem dúvida, o estado de São Paulo já começa mal, relativamente, nesse quesito.

Surpresa,para mim, é o virtual desaparecimento da PUC de São Paulo em quase todas as áreas avaliadas. Em Jornalismo, no Estado de São Paulo, a PUC ficou atrás de Mackenzie, Rio Branco, Universidade Cidade de São Paulo, Uniban, Universidade Paulista, Cásper Líbero, Universidade de Santo Amaro, Centro Universitário Sant'Anna. São Judas e Anhembi Morumbi. O que houve? Algum boicote? Com relação às demais universidades paulistanas, a PUC está em oitavo lugar em Economia, abaixo das dez primeiras em Psicologia (?!), e ganha o primeiro lugar em Direito. O pior é que ocupar a reitoria talvez não seja a melhor solução no caso da PUC...

Resultados completos do Enade (difíceis de entender) podem ser consultados aqui .

Escrito por Marcelo Coelho às 09h43

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onde estudar Jornalismo?

A julgar pelos resultados do Enade, em ótimas cidades bem longe daqui: Florianópolis, Santa Maria, Juiz de Fora, Ponta Grossa. A Facamp, de Campinas, aparece em quinto lugar na classificação geral. Em seguida, Guarapuava, no Paraná, Ribeirão Preto, Santa Maria de novo,  Belo Horizonte e Londrina. Lembrando sempre que USP e Unicamp não participam da avaliação.

Direito? Santa Maria. Radialismo? Ilhéus. Administração? Belo Horizonte e Itajubá. Contabilidade? Paripiranga, na Bahia. Teatro? londrina, Belo Horizonte e Montenegro, no Rio Grande do Sul. Design? Rio de Janeiro, Santa Maria, Curitiba e Pelotas.

Melhor arrumar as malas, portanto. A cidade de Santa Maria parece abrigar um ensino superior de excelente qualidade. Há que considerar, provavelmente, a qualidade do ensino fundamental e médio nesses estados: sem dúvida, o estado de São Paulo já começa mal, relativamente, nesse quesito.

Surpresa,para mim, é o virtual desaparecimento da PUC de São Paulo em quase todas as áreas avaliadas. Em Jornalismo, no Estado de São Paulo, a PUC ficou atrás de Mackenzie, Rio Branco, Universidade Cidade de São Paulo, Uniban, Universidade Paulista, Cásper Líbero, Universidade de Santo Amaro, Centro Universitário Sant'Anna. São Judas e Anhembi Morumbi. O que houve? Algum boicote? Com relação às demais universidades paulistanas, a PUC está em oitavo lugar em Economia, abaixo das dez primeiras em Psicologia (?!), e ganha o primeiro lugar em Direito. O pior é que ocupar a reitoria talvez não seja a melhor solução no caso da PUC...

Resultados completos do Enade (difíceis de entender) podem ser consultados aqui .

Escrito por Marcelo Coelho às 09h42

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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