Rock com Brill
Nascida na Alemanha em 1920, Alice Brill é uma maravilhosa fotógrafa, como se pode ver nesta imagem da Bahia, tirada em 1953:

Poderia ser em 1853, que a situação seria semelhante. Talvez tenha sido esta a intenção da artista.
Abriu esta semana na Faap uma exposição com algumas de suas fotos, mas principalmente de sua obra como pintora, que convence bem menos. É interessante ver a série de três aquarelas que Alice Brill pintou a partir da foto acima; sem dúvida, perde-se em precisão sem ganhar muito em síntese plástica.
Alice Brill foi aluna de Paulo Rossi Osir nos anos 40, e seu estilo inicial lembra o de Mário Zanini. Eis uma bonita paisagem daquela época:

Posteriormente, creio que Alice Brill foi vítima da pressão para optar por uma linguagem mais “moderna” (isto é, abstrata e vagamente psicodélica nos anos 70) sem que estivesse muito convicta do que fazia. O resultado, com benevolência, pode ser chamado de simplesmente decorativo:

Não me canso de reclamar dos anos 70, uma época ruim como poucas no campo estético. Se você tiver alguma dúvida, pode visitar, em outra ala da Faap, as fotos de Bob Gruen sobre roqueiros daquela época.
Bob Gruen fez retratos famosos de John Lennon e Yoko, em que a dupla aparece de forma natural e simpática, sem pose e chateação transgressiva. Sem conhecer nada da música feita nessa época, não escondo meu desconforto diante do tipo de vida que algumas estrelas do rock daquela época demonstram levar nas fotos de Gruen. Não é só a questão das drogas: as fotos de Sid Vicious com o braço todo espetado são, naturalmente, dolorosas ao extremo. Mas me parece nítido, no visual de algumas bandas como o Kiss, algo de igualmente horrível: é uma tentativa desesperada de contestação, da qual resulta sobretudo uma forma autodestrutiva de comportamento.

É bastante comum a avaliação de que esses grupos tentaram explodir “o sistema” e terminaram sendo vítimas dele. Fico pensando se, ao contrário, eles não eram, sem saber, a imagem do próprio “sistema”, em sua violência destrutiva e em sua produção espetacular de bens de consumo; as duas coisas caíram como uma carga elétrica de alta voltagem em cima desses corpos humanos. Daí o cabelo espetado e a língua de fora; daí sua morte trágica e precoce.
Escrito por Marcelo Coelho às 18h39
crianças e instrumentos
Não sei bem por que razão uma das primeiras coisas que as crianças aprendem é o nome dos bichos. Talvez seja uma categoria de coisas suficientemente ampla para atender à sua sede de conhecimento e memorização, sem obrigá-las ao exercício penoso de atentar a distinções excessivamente sutis. Resumindo: há na categoria “mamíferos” um máximo de diferenças internas com um princípio de identidade suficientemente forte ao mesmo tempo: é uma “gaveta” mental ao mesmo tempo espaçosa mas claramente delimitada.
Meu filho de três anos encontra prazer também em nomear os elementos de outra categoria, a dos instrumentos da orquestra. Passo aqui a recomendação de um bom livro para crianças sobre isso: “A Orquestra Tintim por Tintim”, que além de falar dos diferentes tipos de instrumento, vem com um CD em que solistas da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre apresentam, faixa por faixa, o som dos respectivos instrumentos. Alguns ficam faltando, que eu pessoalmente gostaria de conhecer melhor: o corne inglês, por exemplo, que nunca tenho certeza se é um quando o estou ouvindo.
Claro, o grande clássico nessa linha infantil é “Pedro e o Lobo”, disponível em vários CDs para crianças com narração em português. Algumas versões não são confiáveis: o da série “Disquinho”, originalmente feita na década de 60, segue de perto a narração do curta-metragem de Walt Disney, mas a música de Prokofiev é “adaptada” para ficar mais fácil, eliminando-se alguns saltos dissonantes do próprio tema de Pedro. Outro CD desiste dos instrumentos da orquestra real e sampleia tudo em computador. As versões de Rita Lee e de Roberto Carlos são as melhores.
Sem CD, e para crianças mais velhas, dada a estilização das ilustrações e o detalhismo do conteúdo, é “A incrível história da orquestra”, de Bruce Koscielniak (Cosacnaify), que descreve os instrumentos musicais desde a Renascença até hoje.
Para os bem pequenos, sucesso certo é o volume da coleção “Ache o Bicho”, que junta instrumentos e zoologia elementar, com cada bicho tocando o seu. As ilustrações de Svetlan Junakovic estão na melhor tradição do desenho para crianças “europeu”, isto é, despreocupados com o realismo, sem excesso de detalhes, e com um uso ao mesmo tempo refinado e direto das cores.
Mas uma coisa que um menino de dois ou três anos adora, pelo que pude perceber, são os dicionários ilustrados. Menos do que a narração de uma história, ele está empenhado em reconhecer e nomear as coisas. Você pode passar horas respondendo, na mesma página do dicionário, à pergunta “o que é isso?” : uma camisa, uma calça, um casaco, um chapéu... Como nunca estou contente, à medida que a criança cresce é possível familiarizá-la com as letras ao mesmo tempo. Afinal, entre distinguir bichos, instrumentos e letras, o processo é praticamente idêntico. Daí para a alfabetização é outra história. Mas não custa facilitar.
Escrito por Marcelo Coelho às 17h51
bairros de imigrantes (2)
Falei uns dias atrás de uma passagem estranha no livro “Em Louvor da Sombra”, de Junichiro Tanizaki. O autor descrevia as antigas cortesãs japonesas, nos quartos enormes e escuros de antigos palácios, e as comparava a enormes aranhas criando uma própria teia de escuridão. A idéia da noite como algo que se cria, que se produz, como uma espécie de secreção natural do cansaço das coisas, reaparece num trecho de Cosmópolis, livro de reportagens poéticas sobre os bairros de imigrantes de São Paulo, escrito por Guilherme de Almeida em 1929.
Ele fala das chácaras de imigrantes portugueses, pelos lados da Vila Mariana e da Aclimação. Refere-se à poeira vermelha da rua Paula Ney, à “frescura serrana” entre “o recorte alto da Vila Mariana e o apinhado baixo do Cambuci”.
Havia criações de cabras por ali, e os chacareiros iam de porta em porta com a cabra, para vender leite “direto do produtor” à crianças mais franzinas, a quem os médicos da época receitavam esse complemento alimentar. Eis um trecho, tipicamente sentimental, mas ainda assim bonito, de Guilherme de Almeida:
Olhei um pouco o chacareiro de calça cor de pinhão, que corria os seus canteiros azinhavrados, para além dos arames farpados desta cerca: e pensei no cavador de enxada ao ombro pelos caminhos, com o seu caldo em casa e os seis filhos que Deus lhe deu... Olhei um pouco os pequeninos, lá longe, brigando, saltando o regato; e pensei nos pobrezinhos, em alcatéias, pelas aldeias, como trapos levados nas ventanias, dormindo pelos alpendres, pelos currais, e que choram cantando... Olhei um pouco o ponteado alvo do Cemitério da Vila Mariana, como um rebanho parado numa distância esverdeada [...] Subo, com pena, do fundo do vale e do fundo de mim mesmo para a cidade, lá em cima, e para a realidade, lá longe. Olho, ainda uma vez, a hora quieta que parou nas coisas para ver a tarde murchar...
Paz. Nem um estremecimento nas folhas finas dos eucaliptos. Apenas um ladrar quebrado e precipitado de cães. Alguém acende uma fogueira, lá embaixo, no mundo dos cabreiros: e um fogo alto e rápido lambe a pequena noite do vale.
A outra, a grande noite, essa vem descendo, descendo da cidade sob a forma de uma luzinha triste e vagante, na ponta da lança dos acendedores de lampiões. A luzinha escorre, ladeira abaixo: e vai deixando na terra o seu rasto de pingos paralelos, pálidos, pensativos, criadores de sombra, inventores de noite...

"Arredores de São Paulo" (1938) de Rebolo
Escrito por Marcelo Coelho às 11h37
os filmes de Frank Scheffer
Graças ao DVD, ao dólar, à globalização, aos megastores ou seja lá ao que for, tenho tido acesso a muitos documentários sobre música clássica que não resisto a comentar. Primeiro, pude ver alguns filmes de Christopher Nupen, como o que dedicou a Evgeny Kissin: apesar da extraordinária qualidade do pianista, o que se tinha eram comentários absolutamente banais, no sentido em que poderiam ser aplicados a qualquer outro grande instrumentista, e não apenas a Kissin.
Os filmes de Bruno Montsaingeon sobre Glenn Gould constituem, a esta altura, uma verdadeira legião, e embora extremamente esclarecedores da técnica e das preferências do pianista –principalmente devido à extrema agilidade mental dos comentários que ele faz sobre a própria maneira de contar—caem um bocado numa espécie de culto religioso; cada documentário de Montsaingeon é uma espécie de altar construído à glória de Glenn Gould.
Comprei recentemente dois DVDs do documentarista Frank Scheffer, que me parece de longe o melhor autor de filmes sobre música clássica disponível por aqui.
“A Labyrinth of Time”, que comentei no artigo de hoje para a Ilustrada, dedica-se à obra do compositor americano Elliott Carter, nascido em 1908. Não se trata apenas de um retrato biográfico de um músico simpático e tranqüilo, sem pretensão nem falsa modéstia. Há muita arte na escolha das imagens, no modo de operar transições de um ponto para outro no tempo e no espaço. Como a vida de Carter se estende pela inacreditável soma de cem anos (ele está vivo até hoje), há naturalmente uma quantidade muito grande de memórias, casos e lugares para narrar.
Elliott Carter conta que, na sua infância, ele percorria a ilha de Manhattan de bicicleta sem ver um carro sequer. Sua última ópera, composta depois do atentado ao World Trade Center, trata da amnésia de um grupo de personagens que acaba de sofrer um acidente automobilístico. Cenas antigas de Nova York e imagens das ruas e pontes congestionadas de hoje se alternam magistralmente.
O compositor americano foi aluno (mais um!) de Nadia Boulanger na década de 30 em Paris. Scheffer filma um barco passando debaixo da Brooklin Bridge dos dias atuais, corta, e mostra em seguida um barco surgindo debaixo do Pont Neuf de Paris, onde o quase centenário Carter revisita a “École Normale de Musique” e consulta seus velhos boletins.
Poderia ser apenas uma superficialidade cinematográfica, mas o fato é que esse tipo de transição combina muito bem com a música de Carter, que desenvolve uma técnica particular de mudanças de andamento ao longo de uma peça –donde o sentido duplo de “Um Labirinto do Tempo”.
O outro DVD de Scheffer reúne dois filmes excelentes. O primeiro é sobre o maestro Riccardo Chailly, à testa da tradicionalíssima Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã. Essa orquestra, uma das maiores do mundo, é célebre pelas suas interpretações de Mahler e Bruckner. Teve poucas trocas de maestro ao longo de sua vida, sofrendo a forte influência dos anos em que esteve sob a batuta de Wilhelm Mengelberg e de Bernard Haitink.
Um italiano no Concertgebouw? Chailly assinala: “essa é a orquestra mais crítica, mais difícil de dirigir que eu conheço”. Os instrumentistas são entrevistados: “no começo, nós o achávamos superficial... muito interessado no brilho dos instrumentos... mas aos poucos ele foi evoluindo, a mão esquerda parou de imitar os movimentos da direita...”
Chailly revela as semelhanças entre Mahler e Puccini. Introduz a orquestra a Edgar Varèse. Há uma bonita filmagem de Chailly regendo um trecho de “Petruchka”, de Stravinsky, e de sua luta para reger a “Sinfonia no. 5” de Mahler com a necessária transparência e contenção. Luciano Berio, objeto do outro documentário incluído neste DVD, diz que Riccardo Chailly é um dos mais “saudáveis” (no sentido mental) maestros da atualidade. Não há, com efeito, messianismo nem neurose: há acessibilidade e bom gosto –para não dizer alegria—nas suas interpretações. Tudo é apresentado por Scheffer sem incorrer na tentação do exaustivo, nem na tentação simétrica do superficial: há seres humanos no filme, inteligentes, mas sobretudo naturais. Sem os mistérios do gênio, mas com a luminosidade do grande talento.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h44
bairros de imigrantes
Por falar em livros emprestados (ou dados, nunca se sabe), encontro no meio das minhas arrumações um livrinho antigo, que foi dos primeiros que comprei com meu dinheiro; eu devia ter uns onze anos, e achei bonito dar a meus pais alguma coisa de presente. Numa letra infantil, está a dedicatória, sem data, numa linha só, a lápis, bem no alto da página: “Para Papai e Mamãe, do Marcelo”.
Meus critérios literários eram meio vagos na época, mas imaginei que eles gostariam do autor, Guilherme de Almeida. (Acho que não gostavam). Tenho dúvidas se o livro foi de fato lido; não importa. Importava era ter dado de presente; no fim, vejo que eu tinha apenas emprestado para eles.
É um volumezinho fino, chamado Cosmópolis: oito reportagens. Foi escrito em 1929, e trata de diferentes bairros de imigrantes de São Paulo. Tem ilustrações a carvão de Gomide, escuras e tristes que dói.
Há muita prosa poética fora de moda nesses textos, mas passagens muito bonitas também. Sem contar que se faz um retrato absolutamente inacreditável de uma São Paulo cheia de matagais, chácaras e ermos. Cada capítulo é sobre um bairro.
Há uma bonita metáfora no primeiro capítulo, sobre a parte da Moóca onde se reuniam os imigrantes húngaros. O autor está numa praça, que ele não nomeia, numa tarde de domingo.
Gente em penca em torno de qualquer coisa. Essa qualquer coisa é, acima de tudo, uma sinfonia. Monótona, repetida, quase letárgica. Sai de dentro de um violino, que está nas mãos de um homem grande, moreno –um tzigane?—trepado numa cadeira [...] colete desabotoado e chapéu na cabeça. Aquele homem melodioso é como uma pedra atirada na água quieta: vai abrindo, em volta de si, círculos concêntricos, cada vez maiores, maiores, até que desaparecem nas margens. É assim. Ha uma roda muito fechada de mulheres e homens –mulheres de um lado, homens de outro—de mãos dadas, sérios, convencidos, calados. Ele é o centro dessa roda. A música do seu violino vai fazendo abrir-se a roda, pouco a pouco, alargar-se, espichar-se cada vez mais... E, enquanto assim se vai abrindo, e alargando, e espichando, entram, sob os braços dos maiores, bandos de criancinhas, que vêm não se sabe de onde, e ficam no meio, mudas, imóveis, bobas, numa penca, bem pertinho do músico moreno. E a roda que roda num sapateado triste vai se abrindo, esticando, até não poder mais. E então rebenta. A música hipnótica dá um gemido e cai em síncope brusca. E a roda se dissolve, calma, como os círculos concêntricos nas margens da água quieta.
Quem sabe essa dança era a da própria imigração européia em São Paulo, e dos bairros antes tão fechados em si mesmos, com sua língua e costumes próprios, que se dissolveram depois.

Outra dança (não tão triste) pintada por A. Gomide.
Escrito por Marcelo Coelho às 19h19
Para lembrar ainda o livro “Em Louvor da Sombra”, de Junichiro Tanizaki, de que falei em post anterior, aqui vai um caso que merece registro. Um arquiteto, que passou seis meses no Japão por volta de 1970, contou-me há alguns dias um exemplo das boas maneiras naquele país. Ponho o relato em primeira pessoa, para facilitar o caso.
Encontrei-me com um professor de Arquitetura na universidade de Osaka, muito simpático, e conversamos sobre um livro que tinha muito a ver com a minha pesquisa na época. Ele me disse para ir à sua casa no dia seguinte, para pegar o livro emprestado.
Foi o que fiz. Toquei a campainha, ele atendeu, e eu lhe disse: “Olá, vim buscar aquele livro de que falamos ontem”.
Percebi na hora o choque no rosto do professor. Em todo caso, ele me convidou para entrar, puxou conversa sobre os mais variados assuntos, ofereceu-me chá, e já quase na hora de eu ir embora ele bateu na testa, como se estivesse se lembrando só naquele momento: “Ah! Sabia que tinha esquecido de uma coisa... Havia um livro que eu queria lhe emprestar.” Só então foi à estante e deixou o livro comigo.
Teve a gentileza de me explicar, mais tarde, que nunca se chega à casa de um amigo no Japão apenas para pegar um livro. A visita não poderia ter motivo tão pragmático. Ele sabia, e eu sabia, que o propósito era o livro. Mas a boa educação não permite deixar isso explícito.

gravura de Shunabaisai Hokuei, de 1832
Escrito por Marcelo Coelho às 16h47
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