Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
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a volta de Paulo Francis

a volta de Paulo Francis

Está de novo nas livrarias “O Afeto que se Encerra”, livro de memórias que Paulo Francis publicou em 1980. Nessa época, ele ainda era de esquerda, e chega a provocar surpresa no leitor a violência com que ele se refere, por exemplo, a Roberto Campos –economista que, hoje em dia, ninguém se dispõe a criticar:

 

dizem que Roberto Campos é agente da CIA. Espero que seja. Ao menos, estaria cumprindo um dever. Se não for, o que pensar dele? É o maior torturador e assassino da nossa história, não em atos diretos, mas pelo que inspira de gabinete. Que motivos, à parte o serviço a outra nação, ou causa, poderiam inspirá-lo? Na CIA, se humanizaria.

 

Acaba sendo o “mesmo Francis”, afinal, que mais tarde voltaria seus canhões contra Luiza Erundina e Lula. Há, sem dúvida, um culto da violência no seu modo de escrever, e volta e meia nessas memórias ele conta de porradas que deu (muitas) ou levou (poucas) na juventude. No colégio interno, por exemplo:

 

Arranjei um amigo, meio trôpego, sensível e gago como eu, inteligente, o tipo frágil que atrai implicantes brutalhões. Um maior, 11 anos, chateava bastante o pobre. Um dia me irritei de verdade. Esqueci o começo da briga. Lembro de estar em cima do maior, batendo-lhe a cabeça, já sangrando, no concreto, ele desacordado (...)

 

Narrativas de coragem física, de desempenho sexual, de proezas de consumo alcoólico, além de considerações insistentes sobre homossexualismo –quem é, quem não é, o que é, o que não é—parecem, na verdade, mais antediluvianas do que o tom das críticas a Roberto Campos. Com o tempo, Francis se “modernizou” num aspecto, não no outro.

 

Ele se diz tímido. Curioso que, lendo o livro, apesar de toda a “garganta” (para usar um termo antigo) é possível concordar com ele. Estranhamente, para uma autobiografia, e mais estranhamente ainda, para quem é bastante gabola, Francis parece na verdade estar o tempo todo fugindo de falar de si mesmo. Quando vai contar, por exemplo, suas experiências como ator, entra rapidamente em digressões sobre o teatro brasileiro, as traduções de Shakespeare, as pessoas com quem conviveu nessa época. Quando fala de sua formação política, discute (de modo muito interessante) os erros de Jango e a situação militar nas vésperas de 64.

 

O livro se torna irresistível justamente pela mistura entre as idéias gerais, sempre expostas com originalidade peremptória, e o trato da intimidade pessoal (nos trechos em que, reativamente, o que seria confissão assume o tom da jactância).

 

Os trechos mais bonitos, entretanto, são os que fogem desse vaivém, adquirindo uma discrição, um “corte” de frase, dignos de um grande escritor. Eis, numa nota de rodapé, como Francis narra a morte do irmão mais velho, vitimado num acidente de avião:

 

Durante seis dias vi meu irmão mutilado, sofrendo o diabo, no excelente hospital de São Paulo, cujo nome esqueço, especializado em queimaduras. Se sobrevivesse, Fred perderia um braço, estropiado, já ficara cego de um olho. Os médicos me explicaram que dependia da capacidade dos rins de Fred que ele não morresse, ou seja, da eliminação das toxinas provocadas pelas queimaduras. Fred teve falha de ris. Eu segurava a perna dele quando deu aquele último arranque, duro, em que depois o tormento de nos sabermos vivos e vulneráveis se extingue. Antes de morrer, beijei-o a primeira, única e última vez, na testa. E pela primeira vez na minha vida consciente, o filho morto, abracei meu pai.

 

Esse “filho morto” entre vírgulas, referindo-se semanticamente ao pai, mas sintaticamente preso ao “eu” do narrador, parece ficar no meio, compartilhado, entre os dois homens que se abraçam; surge ao mesmo tempo como um soluço. Toda a arte do trecho está na ordem das palavras, na eliminação de uma ou outra preposição, de uma exigência gramatical qualquer; quando não era horrível, Paulo Francis era um escritor e tanto.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 13h20

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Fé e razão

 Victor Klemperer (1881-1960) era professor universitário na Alemanha, o que não significava pouca coisa nos anos 20 e 30: no sistema prussiano, muitas honrarias estavam associadas ao seu “status”, como a de sempre ser chamado “Herr Professor Doktor Klemperer” e coisas parecidas. Além disso, ele combateu na Primeira Guerra, e tinha uma alta condecoração.

 

Com o nazismo, sua condição de judeu predominou sobre todo o resto; pelo fato de ser casado com uma não-judia, e pela posição social de destaque, foi sobrevivendo durante todos os anos do regime. Seria um dos últimos a serem embarcados para um campo de extermínio, mas a guerra terminou antes, permitindo que ele se salvasse e salvasse, também, o seu diário durante todo esse tempo.

 

O livro foi editado no Brasil pela Companhia das Letras, e vai narrando mês a mês o inacreditável e crescente ciclo de opressões e violências a que os judeus foram submetidos.

 

Em 1947, Klemperer publicou um ensaio de cerca de 250 páginas, sobre “A Linguagem do Terceiro Reich”. Não se trata de um livro excepcionalmente brilhante, nem seria possível, tão pouco tempo depois do fim do regime, chegar a uma interpretação sistemática do fenômeno totalitário; sem contar, claro, as condições emocionais de seu autor. Ele narra, entretanto, um episódio muito significativo sobre a psicologia do fanatismo.

 

Na universidade, havia uma aluna simpática, inteligente, de bom caráter, chamada Paula. Dava-se bem com Klemperer e com vários judeus. Quando Hitler assumiu o poder, ela demonstrou grande alegria e entusiasmo. Um dia, foi até a casa dos Klemperer fazer uma visita. Considerava ter o dever, “como alemã”, de externar sua posição pessoal diante do nazismo. Klemperer recebeu-a friamente.

 

“Seu ‘dever como alemã’? Essa não é uma expressão que você teria empregado no passado”, exclamei. “Qual a relação entre “ser alemã” ou “não alemã” com questões altamente pessoais, ou altamente universais?” “Tudo está relacionado com a questão de se ser ou não alemão, isso é tudo o que importa, é isso o que aprendemos do Führer ou redescobrimos com ele; ele nos trouxe de volta ao lar!”, respondeu ela. “E por que você está dizendo isso para mim?” “É que, embora eu pertença totalmente ao Führer, não quero pensar que por isso deixei de ter afeição por você”.

 

Klemperer não conseguiu acompanhar a lógica da aluna.

 

“E como você pode conciliar esses dois sentimentos? E como você pode conciliar as teses de Hitler com o humanismo de Lessing e de todos os outros sobre quem você escreveu trabalhos tão bons? Mas acho que não há sentido em fazer essas perguntas para você”.

 

A aluna respondeu:

 

“É, de fato não faz sentido, porque todas as suas perguntas são baseadas na Razão”. “E no que deveriam se basear se não fosse na Razão?” “Eu já lhe disse antes! É uma coisa que a gente tem de sentir, e você tem de focalizar sempre na grandeza do Führer... quanto aos nossos autores clássicos, eu não acho que eles estejam em discrepância com o Führer, é uma questão de lê-los adequadamente, e em todo caso eles acabariam se convencendo [do nazismo] cedo ou tarde!” “E de onde vem essa sua certeza?” “Do lugar de onde vêm todas as certezas: da fé.”

 

Fé e razão não poderiam estar confrontadas com mais clareza do que nesse diálogo. Passados 60 anos do fim do nazismo, que esse mesmo tipo de “critica” à Razão continua a fazer sucesso, assim como o truque final da estudante, que afirma que todas as certezas derivam da fé. Ter certeza de que escrevo isto numa quinta feira é, entretanto, uma certeza absolutamente razoável. Ter certeza de que Santo Agostinho inspira minhas palavras não é razoável: é uma questão de fé, exatamente porque não há nada de razoável nessa crença.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h17

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triunfo da babaquice

Algumas coisas ficaram sem desenvolvimento no meu artigo de hoje para a “Ilustrada”. Gostaria de ter começado de outro jeito, mas que adiaria muito a introdução do tema principal.

 

Fico sempre intrigado com essas idéias inúteis que servem, com certeza, para muita gente se encher de dinheiro, e que depois de um tempo são desaparecem por encanto. Quem se lembra do ISO-9000? Foi uma verdadeira febre entre empresas de todo tipo arranjar o tal certificado –que nunca fez, pelo que eu sei, diferença prática para ninguém, exceto para quem inventou a idéia. Contaram-me outro dia de um empresário americano que inventou uma tal de “pedra da sorte”, ou “pedra mascote”: uma pedra comum, dentro de uma espécie de ninho de palha, cujos sinais de “felicidade”, “tristeza” ou “carência” você poderia interpretar, seguindo um manualzinho de cuidados que acompanhava o produto.

 

É, como eu escrevi no artigo, o mundo da babaquice. Não tenho grande contato com palestras, mas vi algumas coisas com “power point” que merecem bem o termo. As luzes se apagam; o expositor liga o aparelho. O tema, digamos, é a programação semestral de atividades de um instituto beneficente, de um departamento de vendas ou de uma cátedra acadêmica.

 

 A primeira imagem aparece na tela: é uma paisagem de araucárias em Campos do Jordão. Para deixar a platéia num bom astral.

 Segue-se uma frase em epígrafe, que não necessariamente foi tirada de Paulo Coelho. E aí vêm os pontos da exposição, que enquanto a pessoa fala, aparecem um a um na tela. Tipo “objetivos: melhorar a relação com o cliente; conquistar padrões de excelência em nossa área; integrar a empresa e a comunidade”, etc. etc.

 

Sinal infalível de babaquice, a meu ver, é quanto as idéias são organizadas num esquema que, no colégio que freqüentei, éramos obrigados a exercitar a todo pretexto, em fichamentos e trabalhos. É assim:

 

Item 1- Melhorar a relação com o cliente.

         1.1. No plano pessoal

                  1.1. 1 contato por e-mail.

                    1.1.2 contato telefônico

                  1.1.3 contato postal.

         1.2. No plano institucional

                  1.2.1 relacionamento comercial

                    1.2.1 a) visitas corporativas

 

etc. etc. No final, depois de uma hora e meia de falação, outra paisagem bucólica: agora, um pôr-do-sol.

 

E os cartões musicais? As canções que você recebe por e-mail? Os votos de feliz aniversário que chegam da loja de roupas onde você fez cadastro? A babaquice tem isso: vem de graça. Por isso fica antipático criticá-la.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h24

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mulheres na pintura

mulheres na pintura

http://www.youtube.com/watch?v=nUDIoN-_Hxs+

Maravilhoso filme do youtube mostrando 500 anos de representação do rosto feminino. A sugestão veio do leitor Novaes; o filme parece um sonho de Casanova.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h44

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liberdade na miséria

O jornalista Nicholas Kristof escreve sobre a pobreza mundial na “New York Review of Books” de 31 de maio, e recorda uma conversa que teve com uma camponesa cambodjana em 1999.

 

Ela e sua família viviam de extrair madeira na floresta, numa região muito atingida pela malária. A filha dessa camponesa morreu pouco depois de dar à luz a uma criança; medicamentos contra a malária custariam menos do que dez dólares.

 

A camponesa ficou cuidando de sete pessoas: cinco filhos dela mesma e dois netos. A família, diz Kristof, tinha só um mosquiteiro, que poderia proteger três pessoas das picadas durante a noite. De modo que, toda noite, essa camponesa se angustiava decidindo quais crianças deveriam ficar dentro, e quais fora, da proteção do mosquiteiro.

 

“Esta”, diz Kristof, “é a real face da miséria: não é só a dor da fome, mas as escolhas impossíveis com que as pessoas têm de se defrontar. Se você só pode pagar as despesas de escola de um filho, qual você escolhe? Se você tiver de escolher entre o tratamento médico do pai de família, que é o arrimo da casa, ou os estudos do menino brilhante, onde você empregará suas economias?” No Oriente, eles ainda têm a questão do dote: você gasta pagando um dote para a sua filha ter um marido decente, ou arranja um casamento com o sujeito desqualificado e gasta as economias comprando a comida que o seu filho mais velho, a quem você envia para a escola, deixa de trazer para casa?”

 

São, de certo modo, “escolhas de Sofia”, como a celebremente imposta à mãe de duas crianças num campo de concentração nazista –poderia escolher qual das duas sobreviveria. Walter Benjamin, creio, foi quem observou que para os miseráveis não há diferença entre o Estado de Direito e o Estado de Exceção, o que sempre me pareceu um exagero retórico, e certamente uma forma não de condenar o Estado de Exceção, e sim de criticar o Estado de Direito... mas há situações que, de fato, parecem corresponder a todo exagero retórico que se queira fazer.

 

"Fome" (1924), de Käthe Kollwitz. Um livro sobre a artista foi publicado pela Edusp recentemente.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h10

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1206200704.htm

Na crônica de hoje, discute-se a liberdade de expressão no país de Hugo Chávez.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h53

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Marly de Oliveira

Marly de Oliveira

Marly de Oliveira morreu na semana passada. Resenhei, há muito tempo, um  livro de poemas seus, que releio hoje com o mesmo prazer e emoção. O livro se chama “O Mar de Permeio”, e tem como único tema –moderno como poucos—as emoções da autora ao ver a filha sair de casa e viajar pelo mundo. Eis aqui um dos poemas; o título, não muito bom, é “Psicologia da lembrança”.

 

 

Tão fácil deixar o quarto assim:

lenços roupas empilhadas

tênis papéis por todo o lado,

os livros do colégio, um copo d’ água,

mas um jeito de amar fala mais alto

e vai fazer a cama, renovando os

lençóis; é tão forte o calor, dói

a coluna, nem dói mais, quando

sonolenta ela entra

e sorri sonolenta, um anjo

pousado um momento

no meu ombro; agora a cama está sempre

feita, o armário sempre arrumado, ela

longe longe longe numa

moldura mais que perfeita, e o

dia inteiro olho seu quarto, os quadros,

faz tanta falta aquela desordem!

ela está lá e está aqui

dentro de mim,

e quando sequer falamos

ao telefone é como se nem

entre nós um oceano

houvesse, como se nem.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h39

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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