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Uma biografia de Stálin
O evento sobre totalitarismo de que eu ia participar foi cancelado com a greve da USP, e não sei para quando será, mas aproveito para ler um pouco mais sobre o assunto.
Peguei uma biografia de Stálin, escrita pelo ex-assessor de segurança nacional de Bóris Yeltsin, Dmitri Volkogonov. Ele teve acesso aos arquivos do Partido Comunista, e seu livro em dois volumes foi publicado aqui pela Nova Fronteira.
Volkogonov deveria ter feito um curso, desses que existem nos Estados Unidos, de jornalismo ou redação. Seu texto é muito embrulhado e repetitivo, encharcado de avaliações subjetivas que poderiam ser muito mais convincentes se, em vez de expô-las, ele simplesmente contasse direito os fatos que tem à disposição. O leitor brasileiro que não conhecer alguma coisa de história soviética (o que foi a NEP, por exemplo) fica boiando em muitas passagens.
É verdade que estou ainda no começo do livro (cheguei até a morte de Lênin), e nos primeiros anos da revolução Stálin fez pouca coisa. Mas foi encarregado, por exemplo, de cuidar de ações militares na guerra contra o “exército branco”, que buscava derrubar os soviéticos. Eis o que diz Volkogonov:
Por certo, [Stálin] não revelou especiais talentos militares ao executar as instruções de Lênin no front. Seus relatórios não contêm avaliação da situação operacional, nem discussão sobre o desdobramento das forças, ou idéias originais quaisquer. Suas ordens operacionais eram extremamente simples, para não dizer primitivas.
Volkogonov (não esqueçamos que ele é militar) dá um exemplo de relatório escrito por Stálin nessa época:
“A captura de Kromy pelo inimigo não passa de episódio a ser corrigido, ao passo que nossa missão principal não é empregar os regimentos como unidades individuais de assalto, mas investir sobre o inimigo como um grupo maciço e numa direção única e definida”.
Tudo se insere, pelo que se pode adivinhar (mais do que ler) no livro de Volkogonov, na tentativa de criar um exército disciplinado em vez de contar apenas com grupos independentes, meio guerrilheiros. Era também este o objetivo de Trotski nessa época, e os dois começaram nesse ponto a entrar em rota de colisão. Mas os documentos dizem pouco, e o livro menos ainda. Há poucos telegramas preservados de Trotski a Stálin, e o que é citado no livro não esclarece nada.
Foi também durante a guerra civil que Stálin ordenou seus primeiros fuzilamentos. Havia, naturalmente, desertores, e a lei militar tende a tratá-los desse modo em tudo quanto é parte do mundo. Mas, em Tsaritsyn (onde? faltam mapas no livro)
um engenheiro chamado Alexeyev, seus dois filhos e uma boa quantidade de ex-oficiais czaristas foram acusados de pertencer a uma organização contra-revolucionária. A decisão de Stálin foi sucinta: “Fuzilamento”.
Deve ser muito difícil pesquisar direito essa história, mas imagino o que um bom biógrafo faria para contar os detalhes do “primeiro fuzilamento político” decidido por Stálin em sua vida. Infelizmente, o livro de Volkogonov foi tão sucinto quanto a decisão de seu biografado.

Stálin exercendo a democracia
Escrito por Marcelo Coelho às 22h41
Pediram-me um artigo sobre a "pressa" no mundo contemporâneo, e sobre a aceleração que as mudanças tecnológicas impuseram sobre a profissão do jornalista. Aqui vai um trecho do artigo, que provocou, aliás, a minha ausência deste blog nas últimas horas.
A internet determina, sem sombra de dúvida, o fim do jornalismo impresso, e, com este, o dos prazos fixos de edição. O intervalo de tempo entre a apuração de uma notícia, a redação de um texto e sua divulgação pública simplesmente desapareceu. A idéia de uma mediação entre o fato registrado e a sua tradução em linguagem escrita entra em colapso. O prazo, que todo jornalista se orgulhava de cumprir à risca, entre ver e escrever, entre ver e pensar, desapareceu.
Os “sites” noticiosos, por enquanto, se assemelham a jornais escritos. Quem navegar pelas páginas de www.folha.uol.com.br ou de http://g1.globo.com encontra, grosso modo, a mesma estrutura de um jornal impresso: manchetes, matérias de destaque, textos noticiosos e comentários. Inscreve-se nessas páginas, contudo, mais do que a simples narração feita pelo repórter. Através de links, é possível ver cenas dos acidentes de trânsito, dos discursos parlamentares, dos relatórios estatísticos nos quais cada notícia se baseou. A distância entre o signo e o referente, por assim dizer, diminuiu de modo radical. Naturalmente, o leitor pode não ter todo o tempo de acompanhar uma sessão completa de debates no Senado, confiando, portanto, no relato jornalístico à sua disposição. Acontece que o próprio relato vai sendo feito “em tempo real”, à medida que o jornalista acompanha cada parlamentar que discursa: o resumo da sessão, nesse sentido, tende a ser menos conclusivo, e a narrativa do que aconteceu se dispersa ao longo do dia, nos diferentes “flashes” informativos que alimentam o conteúdo do site, renovado de tempos em tempos.
Fosse apenas isto, e o jornalismo escrito pela internet se resumiria a uma espécie de versão visual do jornalismo radiofônico, e quanto a isso, só teria vantagens a oferecer. Não concorreria diretamente com o jornal diário, aliás, uma vez que a este cabe oferecer um relato minimamente conclusivo das turbulências do dia.
Ocorre que o campo da análise e do comentário, teoricamente mais próximo do jornalismo impresso, sofre uma devassa ainda mais intensa por parte da internet, e conhece, com os “blogs”, uma modificação extrema na sua temporalidade habitual.
Cada “blogueiro” tem à sua disposição um indicador eletrônico das visitas que são feitas à sua página. O esquema concorrencial da circulação, que antes interessava exclusivamente aos diretores de jornal, passou a ser assunto dos cuidados de cada comentarista “free-lancer”. Para cada um deles, torna-se tentador responder com máxima rapidez aos acontecimentos: o primeiro comentário “on line” sobre o assunto de impacto do dia merecerá, justificadamente, destaque nos sites de busca e nos portais informativos. Entre a opinião e o fato, o analista e o locutor radiofônico, a diferença diminui.
Trata-se, talvez, da “doença infantil” da blogosfera. Esta tende a conjugar, na verdade, as características paradoxais da instantaneidade e da permanência. O que foi escrito na internet se preserva por mais tempo do que o texto de jornal; mas só por um breve momento, na verdade, contou com a atenção passageira do leitor. É menos importante, num comentário de blog, que o “fato quente” esteja em questão: o leitor casual, ocioso, da blogosfera não irá reclamar do mesmo modo que um comprador de jornal em banca se o assunto não corresponde à situação do dia. Por outro lado, é ainda mais importante do que no jornal diário que o “fato quente” seja tratado no blog: a demanda do leitor que “surfa” na internet é simultaneamente mais elástica e mais estrita.
Tudo isso nada mais é que sintoma de um fenômeno mais amplo, a saber, o de que o tempo, ou melhor, a temporalidade contemporânea, se artificializa dramaticamente. Não é que se “acelere” apenas. Torna-se menos dependente da natureza: os ciclos da noite e do dia, do trabalho e do repouso, do sentir e do pensar, do dizer e do lembrar, entram em curto-circuito, num misto de instantaneidade e permanência. A velocidade, que antes correspondia ao tempo mínimo para se chegar a algum ponto, é substituída por outra coisa, a que não cabe dar o nome de “pressa”: o conceito corresponde à insatisfação subjetiva diante de uma velocidade insuficiente. Nas duas idéias –velocidade e pressa—há o pressuposto de um ponto de partida e um ponto de chegada. Estamos, talvez, vivendo outra experiência do tempo: o “já”, o “agora”, parecem alargar-se de forma devoradora, tomando toda a extensão do dia útil, e criam uma espécie de “pressa eterna”, se vale a expressão, sem prazo para terminar. A bolsa de Tóquio abre quando a de Nova York fecha o seu pregão; o capital, que tinha seus limites no funcionamento biológico de cada ser humano, e diminui a cada dia que passa seus constrangimentos geográficos, ilumina o planeta sob uma luz permanente e ofuscante. Não por acaso há tantos alarmes em torno do aquecimento global. É tempo de desligar o computador; terminei meu texto.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h55
Volodos toca Liszt
Não sou grande entusiasta da música de Liszt: acrobacias demais, acho, para relativamente pouco assunto. Se vale comparar alguns trechos de Brahms com o vôo de uma águia entre as montanhas, muitas obras de Liszt pareceriam nesse caso shows da esquadrilha da fumaça.
Um amigo, pianista e professor de pianistas, indicou-me o CD recém-lançado de Arcadi Volodos, inteiramente dedicado a Liszt. Há desde peças mais conhecidas, como a Rapsódia Húngara no. 13 (veja no youtube), e “São Francisco Pregando aos Pássaros”, até algumas incursões do compositor na “música do futuro” como a “Bagatela sem Tonalidade” de 1882, mesmo ano de “La Lugubre Gondola”.
Meu amigo disse que há muitos anos não via alguém atingir alturas comparáveis às de Volodos no que diz respeito à pura arte pianística. E este é de fato um CD absolutamente titânico. Seguindo a tradição de Horowitz, Volodos apresenta uma rapsódia húngara com arranjo especial para torná-la mais difícil do que já é; só falta o piano explodir.
Mas desde os primeiros acordes de “La Vallée d’Obermann”, o que se sente, antes de qualquer megavirtuosismo, é uma beleza incomparável de timbre, de “balanço” na melodia inicial. A peça de Liszt não é muito mais do que a repetição dessa melodia simples sob diferentes roupagens, atravessando todo tipo de tempestades e descabelamentos. Mas a variedade de cores e intensidades obtida por Volodos engrandece inacreditavelmente a música, que se torna como que um poema sinfônico para piano solo. Os arpejos “wagnerianos” aí por volta dos 11 min. são inesquecíveis. O rolo de oitavas a partir dos 12 min., com direito a bilhões de notas, acho que acrescentadas à partitura original, é de levantar o telhado da casa. Daí em diante, até mesmo os temperamentos mais avessos a Liszt se rendem. É relaxar e gozar.

Liszt, num recital em que imaginava ser Mangabeira Unger.
Escrito por Marcelo Coelho às 16h39
lançamento
http://
Data: 26/06/2007 - Hora: 19:00
Local: Livraria Cultura, no Conjunto Nacional
Lançamento de "Tempo Medido", coletânea de minhas crônicas na "Ilustrada".
Escrito por Marcelo Coelho às 16h37
Pecado da omissão
Esse é o título de um poema de Alan Brownjohn, que traduzo a seguir.
A janela que em algum lugar eu não fechei,
Bem longe, nas extensas horas do dia,
Continua aberta ainda; e agora, de noite,
A casa profunda se remexe, os corredores
Gelam no aberto estio que resvala de quarto em quarto.
Onde ficou o erro que tão certamente fez
O acaso se vingar do preguiçoso,
Tornou inquietas as cortinas, e indóceis as portas distantes?
Essa negligência apenas, pequena durante o dia, alcança
Uma dimensão vergonhosa na noite. Ouço
O vento da noite
E anseio por saber se o sono indulgente
Haverá de vir entre as badaladas do relógio;
Ou eu deveria levantar e fazer a ronda
E apalpar com mãos frias até rastrear, no escuro,
Aquele erro, que tantas vezes cometi?

"Cortinas", foto de Mayumi Terada, na galeria Robert Miller, NY
Escrito por Marcelo Coelho às 10h54
Cão sem Dono
Além de grande autor de peças de teatro, Bernard Shaw foi crítico durante muitos anos. Confessou ter dificuldades em avaliar o trabalho da mais famosa atriz de seu tempo, Sarah Bernhardt, por razões totalmente imponderáveis e subjetivas: “é que ela é muito parecida com minha tia Harriet”.

Sarah Bernhardt e seu cão, por Georges Clairin
Comecei sem gostar muito de “Cão sem Dono”, filme mais recente de Beto Brant. Depois, mudei de idéia, como costuma acontecer quando penso sobre filmes brasileiros: querendo ou não, eles acabam sendo mais interessantes e reveladores do que me parecia á primeira vista, como espectador um pouco preguiçoso.
Depois de uma boa cena de sexo inicial, comecei a achar os diálogos vazios, sem interesse, enquanto o caráter dos personagens ia pouco a pouco emergindo da tela. Ciro (Júlio Andrade) me parecia apenas um sujeito deprimido e sem grande interesse, enquanto Marcela (Tainá Müller) é o tipo da garota que se apaixona por sujeitos deprimidos e sem interesse.

Tainá Müller
Os dois atores logo se revelam muito bons, na contenção que lhes é exigida pelo papel. Mas o tempo ia passando, e me convenci de que “Cão sem Dono” é um daqueles filmes que mudam muito se você ficar encantado pela atriz principal. “Breakfast at Tiffany’s”, que não é um filme bom, seria insuportável se não fosse Audrey Hepburn, especialmente na cena em que ela canta com um violão na escada de incêndio. Há uma cena em que Tainá Müller canta longamente com um violão na cama de “Cão sem Dono”, e o efeito, apesar da beleza e da simpatia da atriz, não é propriamente mágico.
Aqui intervém, então, a subjetividade do espectador; não tenho nenhuma tia Harriet, e se tivesse, certamente Tainá Müller não seria parecida com ela; mas também não é uma Audrey Hepburn.
Mas tudo isso tem pouco a ver com a análise do filme –a não ser que estejamos avaliando a intenção de Beto Brant em jogar com a beleza da atriz. De análise mesmo, faço um pouco no artigo que sai na quarta para a Ilustrada; por enquanto é só.
Escrito por Marcelo Coelho às 23h45
mão na massa
Ficou meio abandonada esta seção do blog, mas consegui tirar uma foto aqui de perto de casa. Repare nas mãos do pizzaiolo e na mesa. Fora o olhar dele, claro.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h11
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PERFIL
Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.
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