Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

A robocopa

Quem acreditou numa volta triunfal da "Era Dunga" talvez esteja amargando a última derrota da Seleção Brasileira. A cada dia que passa meu tédio com futebol aumenta, e minha antipatia pelos craques brasileiros também. A solução está próxima, e pode ser conferida neste video do youtube. Trata-se da última edição da Robocopa, realizada há poucos dias na Alemanha. Há até um craque chamado Robotinho. O vídeo é um pouco lento, mas há uma cena de falta bem engraçada.

Os futebolistas-robôs ainda têm muito o que aprender com jogadores brasileiros reais. Mas pelo menos não fazem corpo mole.

 Robotinho, o craque do futuro...

 

 E Robotina, sua mais recente namorada.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 13h10

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

O satânico Mr. Bean

O satânico Mr. Bean

Há uns tempos a “Folha” fez uma enquete sobre os melhores comediantes do cinema, e deu o previsível, com Carlitos em primeiro lugar. Jerry Lewis foi bem votado, e para mim é um mistério –poucos atores me afligem tanto pela falta de graça. Eis um gênero de preferências em que não há mesmo o que discutir; Jacques Tati, que seria um dos antípodas de Jerry Lewis, me parece bastante sem graça também.

 

Em resumo, sou de rir pouco com o que vejo na tela. Mas com Mr. Bean (não o longa-metragem dele, péssimo, mas os sketches da TV) o caso é diferente. Algumas de suas aventuras (a do restaurante tentando engolir um steak tartare, por exemplo) continuam engraçadas mesmo se as vi várias vezes. Talvez porque o que me faça rir sejam antes as expressões faciais do que a surpresa de uma “gag”. A mistura de desonestidade e inocência de Mr. Bean me parece um grande achado: há poucos vilões entre os comediantes, e o caso dele talvez mereça ser incluído nessa categoria.

 

Daí, sem dúvida, vem o erro que cometi outro dia. Achei que, por ter um humor visual compreensível e não-violento, Mr. Bean haveria de obter sucesso com meus filhos pequenos. Saiu uma coleção de DVDs com aqueles seus episódios clássicos: Bean tentando colar numa prova, ou preparando-se para cumprimentar a rainha da Inglaterra.

 

Meu filho de cinco anos ficou bastante assustado, e como sempre faz nessas ocasiões, tampou os ouvidos assim que o ator começou a complicar-se com as colheradas de carne crua no restaurante. Depois, durante a noite, vieram os pesadelos. E, naturalmente, a insistência no dia seguinte para ver mais episódios da série: tratava-se de vencer, é claro, um medo sem explicação.

 

Ou melhor, com explicações muito claras, a posteriori. Um desenho animado com cenas de destruição é apenas um desenho animado. Os vilões de Batman ou dos Power Rangers podem ser horrorosos, e não deixam de meter medo no meu filho de cinco anos. De qualquer modo, se alguém leva um tiro no peito ou uma martelada na cabeça, isso ainda pertence a um mundo de malfeitorias irreais na mentalidade infantil.

 

Jogando uma colherada de carne crua na bolsa de uma senhora, tentando arrancar o lenço do bolso de um garçom, sumindo com um carrinho de bebê num parque de diversões, Mr. Bean está representando, para uma criança pequena, o Mal absoluto. Faz exatamente aquilo que meu filho está proibido absolutamente de fazer –e que está ao alcance dele fazer mesmo assim. Não é preciso insistir muito (espero) para ensinar a uma criança que não pode dar uma facada na babá. Jogar comida para todos os lados é alguma coisa, contudo, que foi preciso impedir com insistência e rigor. Pobres crianças! Agora vêem o pai dando gargalhadas com Mr. Bean. O mundo adulto se torna, a cada dia que crescem, mais incompreensível e bizarro.

 Rowan Atkinson, o Mr. Bean

Escrito por Marcelo Coelho às 18h52

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Pais e filhos | PermalinkPermalink #

teatro do absurdo

Datas de aniversário, especialmente quando não são redondas, constituem reconhecidamente um dos piores ganchos possíveis para uma matéria jornalística. Mas eu estava justamente acabando de ver um dos meus sempre admirados documentários da BBC sobre os “Dias que Abalaram o Mundo”, desta vez sobre o assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando e sua mulher, herdeiros do trono austro-húngaro, em Sarajevo, no dia 28 de junho de 1914. O nome do arquiduque, hoje, é mais lembrado por inspirar uma banda de rock (Franz Ferdinand), cujas tendências políticas ignoro.

 

Mas o que todo mundo sabe –embora ninguém explique direito— é que o  assassinato de Franz Ferdinand foi o “estopim” (assim reza o clichê) da Primeira Guerra Mundial. Um ótimo link sobre a Primeira Guerra está aqui . O documentário da BBC não toca nas causas mais profundas do conflito, nem no diabólico dominó de alianças que, depois de um ultimato austríaco à Sérvia, conduziu franceses, ingleses, alemães e russos ao morticínio. O filme se resume ao fatual –e o acúmulo de circunstâncias inacreditáveis, anormais e sem sentido já traz material suficiente para um livro inteiro.

 

O arquiduque e sua mulher faziam uma visita de “relações públicas” à capital da Bósnia, em carro aberto. Um grupo de terroristas sérvios planejara seu assassinato. O trajeto do carro aberto pelas ruas de Sarajevo fora publicado nos jornais. Os membros do grupo, eram uns seis ou sete, alinharam-se ao longo do percurso. Na hora, faltou coragem para atirar. No desespero, percebendo que seus companheiros haviam falhado, o último deles jogou um explosivo –mas que demorava certo tempo para detonar, de modo que o casal imperial escapou ileso; outro carro da comitiva, mais atrasado, é que sofreu a explosão; um oficial ficou ferido.

 

Aí começam os maiores absurdos. Depois de socorrido o oficial, o carro do arquiduque seguiu caminho ao paço municipal, onde as autoridades bósnias o esperavam com um discurso de boas vindas. Veja aqui um curto video da chegada do arquiduque ao lugar O nervosismo era tão grande que o texto –falando da alegria da população, da hospitalidade geral, do espírito pacífico da ocasião—foi lido integralmente. O arquiduque então pegou o seu próprio discurso de resposta, preparado antes, é claro, e agradeceu a simpática recepção de que era objeto. O papel em que ele lia estava com manchas de sangue do atentado recente.

 

Um diálogo desses já é capaz de explicar sozinho o senso de absurdo que perpassa não apenas os textos de Kafka, mas em especial as obras de outro autor centro-europeu, o teatrólogo de origem romena Eugène Ionesco. Há e tudo uma espécie de humor sinistro, em que a formalidade, os chapéus de penacho e bigodes retorcidos na ponta parecem dar tons de opereta a um universo de nacionalismos homicidas e paixões fanáticas comprimidas em territórios minúsculos. Só o teatro, e não o cinema, poderiam dar conta de cenas desse tipo.

 

O resto, sim, é cinema puro. O arquiduque entra no carro de novo, e naturalmente os agentes de segurança decidiram mudar o trajeto de volta. Mas esquecem de avisar o chofer, que faz um desvio inexplicável numa rua estreita, quer dar marcha-a-ré e encontra... ninguém menos que Gavrilo Prinzip, um dos terroristas do atentado de poucas horas atrás. Sorte grande para o rapaz, que, com tuberculose em último grau, queria perpetrar o assassinato antes de morrer. Foi o que fez. Matou o arquiduque e a arquiduquesa, aliás grávida. Depois, conforme o planejado, tentou se matar engolindo uma cápsula de veneno, e por via das dúvidas atirou-se num rio. Realmente a morte não era especialidade daqueles terroristas: o veneno estava com validade vencida, e o lugar onde o rapaz se atirou tinha pouca profundidade. Foi retirado com vida do local, foi preso e condenado. Não à morte, porque estava a um dia de completar seu aniversário, beneficiando-se da minoridade legal.

 

Com essa comédia sangrenta, com toques de cinema mudo, iniciou-se a morte de milhões de pessoas.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h33

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

conversa noturna

Esta foto, tirada do blog do fotógrafo belga Dominique Houcmant, é de uma conversa entre duas moças numa praça em Liège, mas tem algo a ver com os poemas citados nos posts anteriores.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h46

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

poetas russos (3)

poetas russos (3)

O tema da separação é interpretado, agora, pela voz masculina de Ievtushenko, como numa resposta ao poema já postado aqui:

 

RUPTURA

 

Deixei de amar: esse é o tedioso fim da nossa história,/ tão chato quanto é a vida, tão aborrecido quanto o túmulo./ Desculpa-me: romperei a corda desta canção de amor,/quebrarei o violão. Nada há para salvar.

 

Nosso cachorrinho está espantado. Nosso monstrinho peludo/ não entende porque complicamos assim coisas tão simples --/ choraminga na nossa porta e deixo-o entrar./ Sempre que ele arranha a sua porta, você o deixa entrar.

 

Cão, cãozinho sentimental, você vai é ficar doido/ correndo assim de um para o outro --/ você é jovem demais para entender uma idéia muito antiga:/ acabou, dançou, it’s over, kaput. Finis.

 

Dê uma de sentimental e você acabará representando/ o velho melodrama A Salvação do Amor./ “Perdão”, sussurramos, e esperamos um eco;/ mas nada retorna do silêncio acima de nós.

 

O melhor é salvar o amor desde o começo,/ evitando todos os apaixonados “nuncas” e “para sempres”;/ devíamos ter ouvido o que as rodas do trem gritavam:/ “Não façam promessas!” Promessas são alavancas.

 

Devíamos ter prestado atenção nos galhos quebrados,/ devíamos ter olhado para o céu enfumaçado,/ advertindo quanto às tolas pretensões dos amantes--/ quanto maior a esperança, maior a mentira.

 

Ternura verdadeira, no amor, significa permanecer sóbrio,/ sopesando cada elo da corrente que você tem de carregar./ Não prometa o céu a ela –sugira meio alqueire;/ não “até a morte” mas, pelo menos, até o ano que vem.

 

E não fique dizendo “Eu te amo, eu te amo” toda hora./ Essa frasezinha implica uma vida durável/ e, quando nos lembramos dela de novo, numa hora sem amor,/pode furar como um espinho, ou apunhalar como uma faca.

 

É por isso que nosso cãozinho, inteiramente confuso,/ anda de cá para lá, de uma porta para outra./ Não direi “me perdoe”. Pedirei perdão/ por uma coisa só: houve um tempo em que te amei.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h46

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Livros | PermalinkPermalink #

poetas russos (2)

Bella Akhatóvna Akhmadulina nasceu em 1937, e foi casada com o famoso poeta Ievtuchnko (ver post anterior). Eis o poema que ela escreveu quando o casamento terminou:

Hoje nos separamos para sempre/ e isso faz o mundo transformar-se./Tudo nele anuncia a traição:/ os rios vão se afastando das margens,/ as nuvens vão se afastando do céu,/ a mão direita olha para a esquerda/ e arrogante diz: "Vou embora, adeus!"

Abril não mais prepara o mês de maio,/ mês de maio que nunca mais verás,/ e as flores se desfolham, feitas pó./ É a derrota do azul para o amarelo!

Já as últimas flores se esturricam,/comprimento e largura não há mais,/ o branco, em estertor, já agoniza,/ deixando um arco-íris de orfãzinhas.

A natureza afoga em sua tristeza,/ a maré baixa sobe pela margem, /calam-se os sons e isso porque nós,/ você e eu, pra sempre nos deixamos. 

 Bella Akhmadulina

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h29

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

poetas russos

poetas russos

Do livro Poesia Soviética, antologia de mais de 650 páginas organizada e traduzida por Lauro Machado Coelho, seleciono alguns poemas. Aqui vai um de Ievguêni Ievtuchenko, famoso “poeta jovem” nos anos 60, que continua vivo e escrevendo sem parar.

 

 

NÃO QUERO A METADE DE NADA

 

Não, não quero a metade de nada.

Dá-me toda a terra,

depõe todo o céu!

Os mares, os rios, os riachos nos montes

são meus! Não concordo com partilhas!

 

Não, vida, não me terás com meias caretas!

Deves-me tudo inteiro!

Só isso me contenta!

A metade da alegria eu não quero,

e nem da dor quero só a metade!

 

Mas quero a metade daquela almofada

onde, sob o rosto de leve apoiado,

estrela indefesa, estrela cadente,

na tua mão o anelzinho cintila...

Escrito por Marcelo Coelho às 23h24

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Livros | PermalinkPermalink #

Glenda Jackson e o Terror

Glenda Jackson, que ganhou dois Oscars lá pelos idos de 1970, sumiu de cena, sem que eu soubesse por quê. Pensei até que tivesse morrido, mas não: desde 1992 se tornou deputada pelo Partido Trabalhista da Inglaterra, e não filma desde então. Fez 70 anos o ano passado, mas acabo de vê-la no vigor dos 30, num filme que saiu agora em DVD.

Glenda Jackson

 

Trata-se de “Marat-Sade”, de Peter Brook, onde ela faz o papel de Charlotte Corday. Escrevo sobre esse filme no artigo de quarta-feira, mas o assunto dá pano para mangas.

 

O filme reproduz uma montagem teatral, feita em 1964. Reproduzo, mal e mal, um diálogo entre o Marquês de Sade e o revolucionário Jean-Paul Marat, cujo confronto é o principal tema da peça. Sade, recolhido a um asilo de loucos, não acredita na Revolução Francesa, que tinha em Marat um de seus líderes mais enraivecidos. Diz que toda morte, seja de um animal ou de um ser humano, cai no mesmo fundo indiferente da natureza. “Odeio a Natureza”, diz ele.  

Os atos dos homens ao longo da História, continua Sade, simplesmente seguem a Natureza.

Entre parênteses: Hannah Arendt, em suas “Origens do Totalitarismo”, diz que a política de Hitler, tanto quanto a de Stálin, derivavam sua legitimidade e seu terror no fato de se atribuírem o papel de “aceleradoras”, ou “representantes”, de alguma lei incontornável –a do futuro racial da Humanidade, segundo Hitler, e a do futuro histórico da Humanidade, segundo Stálin; qualquer crime seria justificável à medida que contribui para o encontro final dos homens com seu próprio e radioso destino.

 

Voltemos a Sade. Os homens seguem a Natureza quando matam seus semelhantes, buscando a própria felicidade. O problema da Revolução Francesa, com sua incansável guilhotina, é que o morticínio tornou-se maquinal.

Entre parênteses: a novidade histórica do Holocausto nazista, segundo a maioria dos intérpretes, é que o assassinato de inocentes tornou-se não apenas maquinal, mas industrial nos campos de concentração.

Sade reprova esse caráter maquinal, dizendo que a guilhotina é excessivamente gentil se comparada aos grandes espetáculos de tortura pública e de execução cruel vigentes no Antigo Regime. O assassinato de Estado, diz ele, era mais humano naquela época, porque feito com paixão.

 

Na peça, ele descreve longamente as torturas inacreditáveis com que foi morto um tal de Damiens, que tinha tentado matar Luís 15.  Mas é hora de Marat, um entusiasta da guilhotina, responder a Sade. “O que você chama de indiferença da Natureza”, diz Marat, “é apenas reflexo de sua falta de compaixão.” Para o revolucionário, o importante é ver que o assassinato, mesmo maciço, pode encontrar uma razão de ser. “O que é o sangue de uns poucos aristocratas diante do sangue das multidões oprimidas?” Se um exército austríaco massacrasse os pobres revoltosos, os que hoje lamentam os excessos da Revolução não derramariam uma lágrima...

 

Que partido tomar? O de Sade ou o de Marat? Já é alguma coisa saber que não precisamos tomar partido nenhum. Esta é uma das questões que só aparecem depois de uma revolução, não durante o seu curso. “Marat-Sade” faz o famoso “Danton”, de Wajda, parecer uma minissérie da Globo. Em ambos, está em jogo o sentido das revoluções de esquerda no século 20.

 

É importante observar, sem parecer anti-humanista com esse raciocínio, que a preocupação com o morticínio tende a ser mais forte quando se está vivendo um clima de relativa igualdade e bem-estar social. Os crimes da Revolução Francesa não foram simplesmente deturpações dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade: eram fruto de algo mais básico do que a luta pela igualdade, a saber, a luta contra o privilégio hereditário.

Pode ser pouco para justificar tanto sangue, e haveria outros caminhos, mais lentos e pacíficos, para superá-lo. Mas a sociedade mudou para melhor depois de 1789; não há nisso uma justificativa, nem uma razão, para o Terror. Há, entretanto, uma esperança de progresso.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h25

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.

free stats