Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

naïf

naïf

Eis uma paisagem urbana tendendo para o naif, em alguns lugares mais do que outros. Repare no salgueiro à direita, feito num espírito bem diferente do ousado desenho da estrada. A pintora se chama Teresa L' Estaque e suas obras estarão expostas até 25 de agosto no Fran's Café de Cambuí, em Campinas (rua Conceição, 809).

Escrito por Marcelo Coelho às 17h32

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co3107200704.htm

Em que medida o Pan atrapalhou o mundo dos negócios? Na crônica do "Agora", uma resposta ponderada.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h45

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Século 18 on line

Século 18 on line

http://www.voltaire-integral.com/__La%20Bibliotheque/Auteurs.html

Uma quantidade astronômica de clássicos do século 18 francês, além de Hume, Kant, etc, em edições integrais, fac-similares, acessível pela internet. Figuras menos conhecidas, do Président de Brosses ao Prince de Ligne, sem contar a Enciclopédia... inesgotável, e ainda em construção.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h42

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massacre no inverno

massacre no inverno

Antes de reclamar do frio, vale recordar um acontecimento ocorrido na Rússia stalinista, em 1947, narrado brevemente por Slavoj Zizek, em Avez-vous dit totalitarisme?, livro já comentado neste blog. Foi num barco a vapor chamado Kim.

 

 

O Kim transportava três mil condenados aos campos de trabalho forçado de Kolyma. Durante a viagem, os condenados se revoltaram; as autoridades do navio recorreram a um procedimento dos mais simples para esmagar o motim. Quando fazia quarenta graus abaixo de zero, eles inundaram os compartimentos na parte de baixo do navio. Quando, em cinco de dezembro de 1947, o Kim entrou no porto de Nagayevo, sua “carga” era constituída de um gigantesco bloco de gelo contendo três mil cadáveres congelados.

 

Trata-se de um massacre ao estilo russo: o “general Inverno”, que congelara os invasores napoleônicos em 1812, novamente agia, agora contra os perseguidos do regime. A “objetividade”, por assim dizer, da natureza cuidava de fazer o mesmo trabalho que, no regime nazista, era entregue à “objetividade” industrial dos regulamentos e dos fornos dos campos de extermínio.

 

Não sei se algum artista plástico já teve a idéia, mas um bloco de gelo com três mil cadáveres seria uma instalação impressionante, reduzindo a uma  inofensividade pueril o famoso “Tubarão” de Damien Hirst:

 

 

Ao qual seria preciso combinar uma escultura de  Ron Mueck:

 

 

Inspirada, quem sabe, neste quadro do finlandês Akseli Gallen-Kallela:

 

Terminando com o "sublime tecnológico" de UOL Busca Arman:

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h59

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Os mistérios de Couperin

Os mistérios de Couperin

Em geral a música barroca é associada à animação de Vivaldi, à opulenta autoconfiança de Haendel, à magnificência arquitetônica de Bach. Sensações mais evasivas, sombreadas e equívocas costumam ser mais raras de encontrar. Estão num CD lançado este ano pela Harmonia Mundi, com uma seleção de peças de  François Couperin admiravelmente interpretadas pelo pianista Alexandre Tharaud.

 

O problema de um CD inteiro com músicas de Couperin é que o excesso de ornamentações, produzindo uma textura densa, quase sem respiração, tende a tornar todas as peças um bocado parecidas. No cravo, um recurso é mudar de vez em quando os registros do instrumento. Um antigo CD de Wanda Landowska, com peças de Couperin e Rameau, pelo selo italiano Sirio, tem um som horrível, mas ainda assim reserva sempre novas surpresas. Começa com “La Favorite”, rangendo como um sanfona; mais adiante, porém, em “Le Dodo”, é como se ouvíssemos outro instrumento, quase sem ressonâncias, como que tocado por patas de aranha.

 

Acontece que “Le Dodo” também foi gravado por Tharaud neste novo CD: é a vez do piano mostrar seus mais sedutores veludos; de fato, a cada repetição da melodia, é como se tivéssemos aquelas ambigüidades típicas desse tecido, que brilha ou escurece conforme passamos os dedos num ou noutro sentido da trama. Alexandre Tharaud procura sempre o que houver de mais hipnótico e, ao mesmo tempo, “confortável” na música de Couperin.

 

Nada se compara, pela riqueza de sugestões, à primeira peça da coletânea, a justamente famosa “Les Baricades Mistérieuses”, cuja linha melódica invariável no baixo praticamente desaparece na interpretação de Tharaud: privilegia-se um som quase líqüido, e talvez nem a música de Debussy tenha um caráter tão onírico quanto a de Couperin neste momento. É das tais peças em que a própria passagem do tempo parece anular-se; entramos, como no sonho, em situações que anulam nossas coordenadas habituais de causa e efeito, de sucessão, de ordens e conseqüências.

 

Músico da corte de Luís 14, Couperin é descrito por seus biógrafos como alguém que sabia manter-se reservado e distante da política palaciana. Toda aquela pretensão versalhesca à cerimônia, à estabilidade, à hierarquia, submerge numa peça como “Les Baricades Mistérieuses”. Aqueles jardins franceses, desenhados a régua, próprios para receber a claridade do Rei Sol, escondem-se no teclado negro de Couperin, incansável fiador de noites.

 

Sem dúvida, as alegrias da precisão artesanal francesa –tapeçarias, rendas, filigranas—estão muito presentes na ornamentação e no toque das obras de Couperin, e Tharaud escolheu para dar seqüência ao CD uma peça que não poderia ser mais oposta a “Les Baricades Mistérieuses”. Trata-se da igualmente famosa “Le Tic-Toc-Choc”, em que tudo é vivaz e incisivo, como bolhas de champanhe no nariz.

 

Há nos constantes ornamentos de Couperin, em todo caso, não apenas o puro decorativismo barroco, mas uma espécie de hipersensibilidade que oscila do irritadiço ao sensual. Seria quase que um princípio “feminino”, não fossem suas asperezas ocasionais, a contrabalançar a obscuridade e o magnetismo “negativo” que o impele, na medida do permitido pelas convenções de sua época, em direção a outra coisa –o sono, o esquecimento, o nada. 

gruta pitoresca num jardim de Versailles segundo Hubert Robert

Escrito por Marcelo Coelho às 02h07

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de assim a gente se entende

de assim a gente se entende

Um leitor manda esta foto, tirada em Trindade (RJ), notável pelo didatismo.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h15

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luzes no metrô

Em tempos de apagão aéreo, há uma boa iniciativa ocorrendo em algumas estações de metrô em São Paulo, no Rio e no Recife. Atrasos e precariedade de serviço, sem falar em superlotação e falta de “aeroportos”, isto é, estações e linhas, são comuns nesse meio de transporte urbano, para não falar de eventuais acidentes e tragédias. Transcrevo trechos do release que recebi, muito simpático aliás. 

 

Diariamente, a secretária Sirlea Maria dos Santos coloca a leitura em dia ao aproveitar o tempo que passa dentro do metrô de São Paulo quando se dirige

ao trabalho. São quase três horas de viagem na rede metroviária paulista, divididas entre ida e volta, em três linhas: Vermelha, Azul e Verde. Ao todo

já leu cerca de 120 livros, o que dá uma média de um exemplar por semana. Os títulos são emprestados da biblioteca Embarque na Leitura, instalada na

estação Paraíso.  Sirleia é sócia desta unidade desde sua inauguração, em setembro de 2004.

 

A biblioteca Embarque na Leitura faz parte do projeto Bibliotecas no Metrô,idealizado e gerido pelo Instituto Brasil Leitor (IBL).  Além da estação

Paraíso, o projeto está presente também nas estações Luz e Tatuapé, inauguradas, respectivamente, em 2006 e 2005. Juntas, as bibliotecas já

emprestaram cerca de 150 mil livros. Ao todo, são 21.000 sócios, 67,5% pertencentes ao público feminino, que têm à disposição um acervo com mais de

11 mil obras. Entre os livros mais procurados estão: O Código da Vinci, Fortaleza Digital, Anjos e Demônios, todos de Dan Brown; Memórias de Minhas

Putas Tristes, de Gabriel García Marques; e A Casa na Rua Esperança, de Danielle Steel.

[Danielle Steel e Dan Brown não são propriamente responsáveis pelo que eu chamaria de "luzes no metrô", mas em todo caso são autores para aeroporto nenhum botar defeito]

Embarque na Leitura funciona de segunda à sexta-feira, das 11 h às 20h, nas estações Paraíso, Tatuapé e Luz. Para se inscrever, os interessados devem

apresentar documento de identidade e CPF (original e cópia), juntamente com uma foto 3x4. Também é necessário levar o comprovante de residência

(original e cópia).  Menores de 12 anos devem estar acompanhados dos pais. Os leitores são cadastrados e recebem uma carteirinha de identificação com

foto e código de barra para fazer os empréstimos.

O projeto Bibliotecas no Metrô conta ainda com mais duas bibliotecas em outras duas capitais: Livros e Trilhos no Rio de Janeiro (Estação Central) e

Leitura nos Trilhos em Recife (Metrô Recife), inauguradas em dezembro de 2006 e em abril deste ano, respectivamente. No Brasil, as cinco Bibliotecas

somam cerca de 25 mil associados e 15,6 mil livros. 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 20h50

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protesto aéreo

Quando houve o acidente na estação do metrô, em Pinheiros, noticiei a iniciativa de alguns cidadãos que quiseram pôr flores no lugar, com uma faixa falando de dor e indignação. Era meio difícil colocar as flores ali, e a coisa acabou não pegando. Agora, circula pela internet uma proposta curiosa de protesto contra o apagão aéreo, o "no-fly day". A idéia é não pegar aviões no dia 18 de agosto. O protesto tende a cair no vazio, porque muita gente que gostaria de protestar vai acabar voando do mesmo jeito, por necessidade, e muita gente que nem sabia do protesto talvez não voe, porque pode haver suspensão de atividades no aeroporto, mau tempo, pista alagada, etc... Em todo caso, isso não invalida a idéia de uma passeata em São Paulo pelas vítimas do acidente da TAM e em protesto, não apenas contra o governo, mas contra agências e empresas aéreas. Tudo se partidarizou totalmente nessa questão, o que é diferente de politizar a questão, como seria de qualquer modo necessário fazer. Que o digam os controladores de vôo, às vezes vítimas, às vezes vilões da discussão. Em todo caso, transcrevo o release que recebi.

O Objetivo do NO/FLY DAY é fazer um ato de protesto da população (um ato pacífico e apartidário) contra a incompetência do governo federal / agências / empresas aéreas para dar uma solução ao problema aéreo que já vem dando claros sinais de colapso muito antes do acidente da GOL e, depois de nada feito, culminando com o acidente da TAM dia 17/7.

Este ato de protesto será um dia "greve de passageiros" em todo o Brasil - NO/FLY DAY (18 de Agosto).  Com isso mostraremos aos governantes e responsáveis por este caos que o público não é bobo e sabe se organizar.  Em São Paulo, faremos uma passeata do Ibirapuera a Congonhas em homenagem as vítimas. 

Esse protesto é uma forma da população dar uma demonstração organizada e forte sobre o absurdo que estamos vivendo: as empresas aéreas não fazem nada por terem interesses econômicos em jogo, as agências estão corrompidas e ineficientes, o Congresso Nacional atrapalhado e submisso, e o Governo Federal apático e inábil. E nós, os usuários do sistema, temos como única forma de protesto gritar nos balcões das empresas aéreas (o que nada resolve) e colocar notas / cartas nas colunas de leitores dos jornais. 

> Se Você mora fora da Capital (SP)

Faça um ato de protesto nesse dia e não viaje de avião.  Convença um amigo ou parente a fazer o mesmo, e diga a ele/ela para convencer o próximo.

 

Se Você mora na Capital (SP)

Além de não voar nesse dia venha ao obelisco do Ibirapuera Sábado, 18 de Agosto, as 16hrs.  As 17 hrs iniciaremos uma marcha pela Washington Luis até a cabeceira da pista de Congonhas, local do acidente da TAM.  Venha de camiseta branca.  Lá prestaremos uma homenagem às vítimas dos vôos TAM 3054 e GOL 1907.

 

www.noflyday.com.br

 

Escrito por Marcelo Coelho às 20h39

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as ironias de Zizek

as ironias de Zizek

Agora mais do que nunca, o conceito de totalitarismo está servindo para neutralizar os “radicais livres” e garantir a hegemonia liberal-democrata no mundo globalizado. Esta é a opinião do teórico lacaniano-marxista Slavoj Zizek, num livro publicado pela editora Verso em 2001, que leio na tradução francesa (Vous avez dit totalitarisme?, ed. Amsterdam).

 

Se a tese é pouco original, cada página do livro de Zizek parece competir em originalidade com a anterior. Tipicamente, o autor compara o papel de Deus na cristologia de Abelardo ao de uma vilã num romance policial de Patrícia Highsmith, e usa uma passagem do blockbuster americano Men in Black para exemplificar o conceito freudiano de “Verwerfung”. Tudo é brilhante, a ponto de ser ofuscante, e a escrita de Zizek é claríssima, exceto pelo fato de não sabermos para onde vai.

 

Nesse sentido, talvez seja resultado das contingências vividas pelo conferencista ou professor universitário nos dias de hoje. É preciso lidar com platéias com déficit de atenção e lacunas insondáveis no repertório cultural básico, de modo que o único terreno seguro, para o expositor, são os filmes de Hitchcock ou os clipes de Madonna, a que com certeza todo mundo já assistiu.

 

Seja como for, a capacidade interpretativa do autor é fabulosa; três páginas sobre Jean de Florette e Manon des Sources, filmes de Marcel Pagnol que tiveram um “remake” de sucesso feito por Claude Berri, são extraordinariamente esclarecedoras e persuasivas. “Ganhando” a adesão do leitor-platéia no varejo, sem dúvida Zizek poderá convencê-lo, ao final do livro, da tese mais ampla que ele pretende defender. Entretanto, o momento dessa defesa é sempre adiado, e ficamos desconfiando se não terminará como um truque de prestidigitador. A técnica do mágico profissional, como se sabe, é atrair a atenção do público para algo secundário, evitando que os olhares identifiquem o movimento crucial de que o truque depende.

 

Ao mesmo tempo, Zizek sabe como ninguém atrair para o “lugar errado” não apenas as atenções, mas também a desconfiança do leitor. Assim, há algumas anedotas e exemplos que, no mínimo, parecem implausíveis, deixando-nos em dúvida sobre a seriedade da análise; a ironia é permanente, e por vezes não sabemos se o autor está de fato falando a verdade. Pessoalmente, achei suspeito o caso que transcrevo a seguir.

 

Em 1991, depois do golpe de Estado fomentado pela nomenklatura contra Ceausescu, a polícia secreta romena continuou naturalmente a funcionar como de costume; mas seus esforços para transmitir uma nova imagem de si mesma, adequada aos novos tempos “democráticos”, produziram estranhas peripécias. Um de meus amigos americanos, que estava na época em Bucareste para um intercâmbio universitário, telefonou para a sua casa uma semana depois de sua chegada à Romênia e contou a sua companheira que aquele era país pobre mas acolhedor, onde as pessoas eram simpáticas e sequiosas de conhecimento. Assim que ele desligou, o telefone tocou novamente; do outro lado da linha, num inglês desajeitado, alguém se apresentou como o funcionário encarregado de fazer a escuta telefônica de seu quarto, e o agradeceu pelas coisas amáveis que havia dito sobre a Romênia, desejando-lhe uma agradável estadia. Este livro é dedicado a esse agente anônimo da polícia secreta romena.

 

Será verdade? Uma hipótese: o funcionário da polícia secreta quis informar o professor de que havia escuta telefônica; tratava-se de um boicote a funções que, embora pago para exercer, ele sabia não terem mais sentido. Segunda hipótese, mais fantástica, mas que conhecendo o humor de Zizek não me parece totalmente absurda. O próprio Zizek estava com a companheira do professor naquele momento, ouviu a conversa, e resolveu passar um trote no professor fazendo-se de agente policial romeno... Típica diversão de humor totalitário, portanto.     

Escrito por Marcelo Coelho às 09h46

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os porquinhos filósofos

Uma vez vencido o Lobo Mau, a rotina na casa do Porquinho Prático se estabeleceu rapidamente. Heitor, que havia construído a casa de palha, dedicou-se à crítica cultural. Escreve no momento um ensaio em que defende as virtudes da leveza, do improviso e da delicadeza, a seu ver irremediavelmente esquecidas pelo mundo moderno. “O espírito de Ariel”, declara, “fruto perfumado de uma raça nômade, despreocupada e feliz, vê-se enclausurado nos muros sufocantes da muralha grotesca de Caliban.”

 

Cícero, o construtor da casa de madeira, sorri da inconseqüência e do diletantismo de Heitor. Seus escritos de Filosofia Moral levantam uma questão a seu ver mais amarga e pertinente. Trata-se de revalorizar a experiência do Trágico na alma contemporânea. “São inúteis as nostalgias por um passado supostamente mais feliz”, escreve Cícero; “a própria idéia de felicidade deve ser acusada como principal responsável por um trauma, uma hecatombe, que estamos condenados eternamente a reencenar, uma vez que faz parte de nossa própria natureza. Não há morada segura, com efeito, para nós.”

 

Enquanto isso, atrás de uma cerca eletrificada, o Porquinho Prático cultiva verduras transgênicas no jardim. O Lobo Mau, por sua vez, arranjou um trabalho temporário como motoqueiro numa pizzaria delivery.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h04

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bola de cristal

Novamente me vejo forçado a esclarecer que não tenho qualificação técnica para opinar sobre o assunto, mas arrisco mesmo assim uma previsão sobre a crise aérea. Se depois não se confirmar, paciência. Isto aqui não é uma bolsa de apostas nem um site eleitoral. Estou apenas exercendo o direito, e o prazer, de pensar em público.

 

Pois bem, acho que a crise aérea vai arrefecer dentro de alguns meses. Não por causa do “novo comando” de Nelson Jobim no Ministério da Defesac (nisso eu não acredito mesmo) nem por causa de “novos investimentos” e do tal “novo aeroporto” (para mim, apenas uma coisa para pôr no discurso de Lula, sem que se tenha sequer avaliado direito a possibilidade de ampliações em Viracopos, Jundiaí ou sei lá onde).

 

A única coisa capaz de diminuir a crise aérea, num país onde faltam investimentos para tudo, se chama aumento de preços das passagens. Não é preciso entender de flaps, groovings e cindactas para ver, em qualquer aeroporto, um fenômeno elementar: milhares de pessoas entupidas na frente de um balcão e um funcionário xingado atrás do balcão. Isso se chama excesso de demanda. E acaba quando o preço sobe. Que usem esse aumento de preço para fazer novas pistas, comprar novos equipamentos de controle de vôo, aumentar o salário dos controladores, é outro capítulo. Quanto mais baratas forem as passagens, mais um aeroporto parecerá com rodoviária.

 

Junitis, Jobins, Lulas, Zuanazzis e Waldires podem ficar, não ficar, fazer, não fazer, dizer ou não bobagens (Nelson Jobim tende, pelo que me lembro, a falar um bocado e já inaugurou o posto com um belo erro de português). Isso é bastante secundário.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h55

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2507200704.htm

Momento de populismo sobre o Pan, na coluna de hoje no "Agora"

Escrito por Marcelo Coelho às 15h12

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Escrevo na "Ilustrada" de hoje sobre "O Tango de Rashevski", filme que fui ver graças à indicação de Leonardo Cruz no blog de cinema aqui da Folha On Line. O filme piora um pouco no final, quando há algumas aparições fantasmagóricas que não combinam com o estilo, mais crítico e humanista que sentimental, da obra em seu conjunto. Mas vale a pena ver. Uma cena no fim, quando vemos dois irmãos se abraçando, resume bem o tipo de cuidado estético do diretor. Os dois estão muito comovidos e unidos, mas seria fácil filmar a cena de modo "emocionante". Sam Garbarski usou uma câmera bem no alto, apresentando os dois irmãos no meio de muitas outras pessoas, num ângulo perpendicular ao solo. De modo que vemos apenas duas carecas se unindo num canto da tela. As carecas são parecidas, de irmão mais novo e irmão mais velho, e ao mesmo tempo, naquela altura de "O Tango de Rashevski", é como se já soubéssemos perfeitamente o que se passa dentro de cada um. Não faz derramar lágrimas no público, mas é muito emocionante; intelectualmente emocionante, se posso dizer assim.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h01

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pérolas do enem

Recebo de uma leitora algumas pérolas do Enem, vindas de Vitória, capital do Espírito Santo. A ignorância é enorme, mas como os atos falhos e os sonhos, pode ter às vezes uma insuspeita qualidade poética. Aqui vão.

O Brasil não teve mulheres presidentes mas várias primeiras-damas foram do sexo feminino.

Animais vegetarianos comem animais não-vegetarianos.

Não cei se o presidente está melhorando as insdiferenças sociais ou promovendo o sarneamento dos pobres.

Fidel Castro liderou a revolução industrial de 1917, que criou o comunismo na Russia.

O Convento da Penha foi construído no céculo 16 mas só no céculo 17 foi levado definitivamente para o alto do morro.

A História se divide em 4: Antiga, Média, Momentânea e Futura, a mais estudada hoje.

Os índios sacrificavam os filhos que nasciam mortos matando todos assim que nasciam.

Bigamia era uma espécie de carroça dos gladiadores, puchada por dois cavalos.

No começo Vila Velha era muito atrazada mas com o tempo foi se sifilizando.

A capital da Argentina é Buenos Dias.

A prinssipal função da raiz é se enterrar no chão.

As aves tem na boca um dente chamado bico.

A Previdência Social assegura o direito a enfermidade coletiva.

Respiração anaeróbica é a respiração sem ar, que não deve passar de 3 minutos.

Ateísmo é uma religião anônima praticada escondido. Na época de Nero, os romanos ateus reuniam-se para rezar nas catatumbas cristãs.

Os egipícios dezenvolveram a arte das múmias para os mortos poderem viver mais.

O nervo ótico transmite idéias luminosas para o cérebro.

A Geografia Humana estuda o homem em que vivemos.

Os Estados Unidos tem mais de 100.000 Km de estradas de ferro asfaltadas.

As estrelas servem para esclarecer a noite e não existem estrelas de dia porque o calor do sol queimaria elas.

Republica do Minicana e Aiti são países da ilha América Central.

As autoridades estão preocupadas com a ploleferação da pornofonografia na Internet.

A ciência progrediu tanto que inventou ciclones como a ovelha Dolly.

O Papa veio instalar o Vaticano em Vitória mas a Marinha não deixou para construir a Capitania dos Portos no mesmo lugar.

A devassa da Inconfidência Mineira foi Marília de Dirceu, a amante de Tiradentes.

Hormônios são células sexuais dos homens masculinos.

Onde nasce o sol é o nacente, onde desce é o decente.

A terra é um dos planetas mais conhecidos e habitados no mundo. Os outros planetas menos demográficos são: Mercurio, Venus, Marte, Lua e outros 4 que eu sabia mas como esqueci agora e está na hora de entregar a prova, a senhora não vai esperar eu lembrar, vai ? Mas tomara que não baixe minha nota por causa disso porque esquecer a memória em casa todo mundo esquece um dia, não esquece ?

O principal matrimônio de um país é a educassão.'

Os anaufabetos nunca tiveram chance de voltar outra vez para a escola.

 

 

> 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h29

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Pesadelos de Adorno

Pesadelos de Adorno

Theodor Adorno tinha visões extremamente sombrias a respeito do mundo contemporâneo. Se, quando acordado, tudo lhe parecia assustador, as coisas ficavam piores ainda quando ele dormia. “Os sonhos são mais negros do que morte”, disse ele, e a frase se confirma em “Dream Notes”, um livro recém-publicado nos Estados Unidos pela Polity Press, contendo as anotações feitas por Adorno a respeito dos sonhos que ia tendo. A primeira anotação é datada de janeiro de 1934, ainda em Frankfurt, e a última é de 12 de abril de 1969, em Baden-Baden.

 

Não é possível, como observa Jan Philipp Reemtsma no sensato e refinado posfácio do livro, “interpretar” os sonhos do professor Adorno; só através das próprias associações e reminiscências que o sonhador viesse a ter, no divã do psicanalista, algum sentido biográfico concreto haveria de ser alcançado. Tais como relatados no livro, os sonhos se sucedem como pedras negras, massas informes de basalto, surdas a qualquer “abre-te sésamo”. Qual será a etimologia, ocorre-me perguntar, da palavra “pesadelo”? Há sem dúvida alguma sensação de negrume associada à idéia de peso, de prisão, de labirinto.

 

Adorno sonha freqüentemente com execuções, crucifixões, cerimônias acadêmicas, bordéis. Num pesadelo bem impressionante, dão-lhe de presente um belo menino louro para ele torturar à vontade. Em outro, Adorno será crucificado e recebe instruções médicas sobre como se preparar para a ocasião. Eis um sonho que Adorno teve já no exílio em Los Angeles, no dia 14 de julho de 1945:

 

Cena de execução. Não ficou claro se as vítimas eram fascistas ou antifascistas. De qualquer modo, era uma multidão de jovens nus e atléticos. Mas tinham a aparência de suas próprias estátuas de bronze: verde-metálicos. A execução transcorria como uma operação “self-service”. Todos subiam na guilhotina automática, sem nenhuma ordem visível, e saíam de lá sem a cabeça, cambaleando por alguns passos, e em seguida caíam mortos. Lembro de uma pessoa mais jovem, um menino, que como por brincadeira empurrou os outros para adiantar-se à entrada da guilhotina, furando a fila e tomando o lugar de um homem mais velho, como se estivesse desejoso de ser guilhotinado primeiro. Observei os movimentos dos homens sem cabeça e pensei que eu deveria descobrir se eles ainda estavam conscientes e se, como parecia ser o caso, eles tomavam cuidado para não cair uns em cima dos outros. Olhei atentamente um jovem. Depois de alguns passos ele ficou plantando bananeira várias vezes, como se estivesse praticando saltos, e então caiu em cima de outro cadáver. Tudo sem uma única palavra ou som. Assisti à cena sem nenhuma emoção, mas acordei com ereção. (Eles iam para a guilhotina um depois do outro, como se estivessem num treino. De fato, minha impressão era a de um exercício de ginástica).

 

Naturalmente, as idéias de Adorno a respeito do assassinato em massa numa sociedade administrada totalitariamente –o sonho é da época de sua Dialética do Esclarecimento—aparecem aqui. E há outros sonhos que com toda a certeza só mesmo Adorno poderia ter tido.  Em 1964, ele sonha estar num hotel, assistindo a uma palestra de um psicoterapeuta sobre Schubert. Um pianista de bar, muito mal-vestido, começa a tocar num instrumento desafinado. O psicoterapeuta começa a cantar, com voz de bêbado, em dialeto popular, um trecho de uma canção de Schubert.

 

Como em Hollywood, a diferença entre Schubert e uma opereta desapareceu. Vi-me dominado por uma fúria insensata. Procurei os hóspedes do hotel (...) e discursei para eles argumentando que aquela performance era tão bárbara que tornava bárbaros todos aqueles que a tolerassem. Minha eloqüência não caiu no vazio. Todos nos juntamos para surrar o psicoterapeuta até a morte. Fiquei tão agitado que acordei.

 

Outras ocasiões são mais felizes. Adorno sonha estar dançando com um cão dinamarquês gigante, como o que tinha na infância; o cão está com um vestido de baile, e eles se beijam. Em outro sonho, é Anatole France quem de repente se transforma em mulher elegante. Cultura e barbárie, sexo e massacre, estavam sempre dançando dialeticamente no espírito –e nos sonhos—de Adorno.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h00

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matem o lobo

matem o lobo

O mundo do politicamente correto tende a não ter limites, como é próprio de toda linguagem totalitária. Levei meus filhos para uma apresentação de "Pedro e Lobo", com simpáticos instrumentistas da Osesp. Já na versão clássica da história, o lobo era poupado. Os caçadores aparecem, e Pedro intervém: "não o matem!Levem-no para o zoológico!"

Na sensibilidade politicamente correta de hoje, nem o zoológico é permitido. No desfecho do espetáculo a que assisti, Pedro grita: "Não o matem! Levem-no ao parque ecológico!"

Francamente. Mais do que pensar na ecologia dos lobos, seria necessário pensar na ecologia emocional da criança. Ela ficou com medo do lobo, identificou-o como o inimigo. Seu sossego psicológico depende de uma coisa muita simples: toda ameaça deve ser destruída. Não há lugar para ecologia e correção política nesse momento. Lobos devem ser mortos, e ponto final. Mais tarde, a criança perceberá que isso é uma crueldade. Mas há tempo para tudo. Aos cinco anos, matar um malvado não é distorção política. É necessidade simbólica.

foto de Richard Billingham.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h21

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2107200704.htm

Política e Pan às vezes levam a sérias discórdias no lar. Leia a crônica do "Agora" (para assinantes do Uol).

Escrito por Marcelo Coelho às 00h02

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ações reversas

Não foi propriamente uma dancinha ao estilo de Ângela Guadagnin, nem mesmo uma frase tipo “relaxa e goza”, da qual aliás a ministra Marta Suplicy se desculpou logo depois. Marco Aurélio Garcia e seu assessor estavam vendo o noticiário, no gabinete, sem saber que uma câmera de TV acompanhava seus movimentos e gestos.

 

A reação deles não foi de insensibilidade diante da tragédia com o Airbus, mas sim de alegria ao ver dificultadas as iniciativas da oposição no sentido de explorar politicamente o caso. A carta pública de José Serra e Gilberto Kassab, com propostas depois do acidente em Congonhas, pode ter muitas idéias corretas, mas certamente foi também uma tentativa de capitalizar politicamente o episódio.

 

A descoberta de que havia problemas no Airbus não isenta o governo de responsabilidades na crise aérea, e o acidente da TAM não foi ainda investigado em profundidade. As causas, como todo mundo aprendeu recentemente, são múltiplas. Sem dúvida, o problema do reverso diminui as acusações em torno da pista que deveria ter ranhuras e não tinha.

 

Mas a atitude de Marco Aurélio Garcia e seu assessor não é estranha a um estado de espírito já bastante conhecido. O governo Lula tende a achar toda crítica, justa ou injusta, como uma espécie de conspiração golpista. Não se entende que exploração política –mesmo quando existe—é um jogo típico de toda oposição, no qual o PT, durante décadas, foi especialista.

 

Petistas não se cansam agora de comparar a oposição à UDN querendo depor Getúlio Vargas. Golpismo, naquela época, envolvia contestação permanente dos resultados eleitorais e constantes relações com setores da direita militar. Impeachment é um lema que aparece sem força, exceto em textos de alguns radicais, como Roberto Mangabeira Unger; o PT  também falava em “Fora FHC”, no seu devido tempo, e Tarso Genro, em especial, forçou a mão nesse tecla.

 

A oposição, com a carta de Serra e muitos textos acusatórios, usa o acidente. Não sem legitimidade democrática. Sua base técnica pode ser insuficiente no varejo, mas as críticas são corretas no atacado. Marco Aurélio Garcia e seu assessor comemoram o varejo, como se fosse o atacado. Faz parte do jogo. Acabaram fazendo um gol contra, porque a cena foi filmada. Essas coisas pegam mal, principalmente para quem não está com nenhuma vontade de tirar a culpa do governo pela crise aérea em seu conjunto.

 

A sanha da oposição não é necessariamente golpista. A alegria governista não é necessariamente obscena. Mas não custa fechar as cortinas da próxima vez.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h55

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Riscos e filhos (3)

Riscos e filhos (3)

Essa coisa de preservar os filhos de possíveis acidentes varia, naturalmente, conforme a personalidade de cada um. O romancista inglês Evelyn Waugh, certamente um monstro, estava com um filho recém-nascido durante os bombardeios alemães sobre Londres, na Segunda Guerra Mundial. Decidiu fugir para uma casa de campo, levando todos os seus livros. Mas o bebê ficou em Londres mesmo.

 

Explicação de Waugh: um bebê pequeno? posso fazer outro rapidamente. Mas meus livros são insubstituíveis. Anos mais tarde, o bebê em questão, o jornalista Auberon Waugh (que também não era flor que se cheirasse), desculpou a atitude do pai:

 

Para ser justo, quando se é um bebê pequeno, a indiferença entre pai e filho é recíproca, e o bebê teria alegremente preferido ficar com um apito de brinquedo a preservar a vida do pai.

 

A família Waugh prossegue em seus sorridentes rancores com Alexander Waugh, filho de Auberon e neto de Evelyn, que acaba de publicar Fathers and Sons: The Autobiography of a Family, resenhada na New York Review of Books. O livro já virou documentário na BBC, aliás. Alexander diz de seu pai:

 

Eu adorava meu pai, mais do que, suponho, ele adorava a mim, ou pelo menos eu pensei mais nele durante a minha vida do que ele em mim (...) Mas esta é a natureza de toda relação entre pai e filho. Um pai pode ter vários filhos para acrescentar a suas muitas preocupações mas um filho tem apenas um pai...

 

Evelyn, Auberon e Alexander Waugh.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h24

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O pessimismo de Beckett

O teatrólogo Samuel Beckett nunca foi de ter visões muito róseas a respeito da vida. Procurando sossego em 1968, enquanto bombas de gás e coquetéis molotov explodiam em Paris, ele se retirou para uma casa de campo no norte da França. De lá mandou uma carta para um tio seu, com quem se correspondia habitualmente. Eis como ele descreve o clima do local.

"Tudo aqui está ensopado de tanta chuva, debaixo de um céu negro. A única coisa que brilha é um urubu."

Em inglês é "blackbird", mas "urubu" dá melhor idéia da coisa.

O trecho faz parte de uma correspondência inédita, leiloada nestes dias pela Sotheby's.

 Samuel Beckett

Escrito por Marcelo Coelho às 16h32

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Flaubert, Bovary

É conhecida a frase de Flaubert sobre a protagonista de seu maior romance: “Madame Bovary, c’ est moi”. Sempre quis saber se Flaubert a tinha escrito de fato. No “Nouvel Observateur” de 12/18 de julho, encontro finalmente o esclarecimento.

 

Flaubert nunca escreveu a frase. Ele a disse a uma escritora de Rouen, Amélie Bosquet, que a repetiu a um tal E. de Launay, que a repetiu a René Descharmes, autor de uma biografia de Flaubert publicada em 1909; “Flaubert. Sa vie, son caractère et ses idées avant 1857”. Está numa nota de pé de página do capítulo 5.

 

Dificilmente uma frase tão famosa teve origem tão obscura.

O leito de morte de Mme. Bovary, tela de  Albert Auguste Fourie

Comentários interessantes de Rubem Fonseca sobre a relação autor e personagem pode ser encontrados aqui

Escrito por Marcelo Coelho às 16h19

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1907200704.htm

Pan e cerveja podem chegar a um ponto sem retorno, diz o cronista do "Agora".

Escrito por Marcelo Coelho às 11h33

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instruções de embarque

instruções de embarque

Eis a foto que o leitor Paulo Rafael manda de sua viagem ao litoral alagoano. Não disse se havia transponder funcionando a bordo.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h27

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1807200704.htm

Para os adeptos da vida alternativa, o esporte pode ser uma violência. Veja a crônica de hoje do "Agora".

Escrito por Marcelo Coelho às 17h31

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O ouro e a vaia

Vaiar um presidente, em qualquer circunstância, e seja ele de que partido for, é para mim um direito básico de expressão política, que pode ser exercido com justiça ou não, com sensibilidade ou não.

 

Agora, vaiar um atleta estrangeiro, na hora precisa em que ele vai começar um número de ginástica solo, como aconteceu ontem no Pan, parece-me um absurdo. O ex-jogador de basquete Oscar Schmidt, ex-candidato a senador na chapa de Paulo Maluf, deu muitas alegrias ao Brasil (entre elas a de não se eleger), mas não ajuda o nosso país vaiando fanaticamente os ginastas americanos.

 

No fim, essas vaias terminam desvalorizando o próprio ouro conquistado pelos brasileiros. Foi muito bonita a apresentação do atleta Mosiah, que parecia dançar com as mãos. Mas o americano também era espetacular. Quem teria sido o vencedor numa disputa justa? Ganhar com ajuda da vaia é ter um ouro meio falsificado.

Como dizia o velho Corneille, se me lembro bem, "combater sem honra é triunfar sem glória".

Escrito por Marcelo Coelho às 17h27

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Riscos e filhos (2)

Riscos e filhos (2)

Desenvolvo um outro aspecto do post anterior. Supondo que os riscos de voar hoje no Brasil sejam maiores, ou que pelo menos eu os leve mais em consideração, eu dizia que não achava legítimo pôr num avião crianças que não podem decidir sozinhas.

 

Pois bem, surge uma pergunta. Eu embarcaria sem elas? Assumiria um risco por minha própria conta, sabendo que minha eventual morte seria evidentemente prejudicial a meus filhos?

 

De modo um tanto estranho, eu diria que sim, que embarcaria. Isto é, poderia não embarcar por medo próprio, mas não porque algum pensamento em torno da infelicidade de meus filhos fosse predominante a esse ponto.

 

É nesse sentido que chego a uma conclusão ética um tanto contestável, talvez. Acho que, embora nossos compromissos com a família e com filhos pequenos sejam cruciais, mesmo assim, em alguma medida, cada pessoa é dona absoluta de sua vida. Os riscos que corro, embora possam terminar numa tragédia que trará infelicidade a outros, são exclusivamente meus. Posso, é claro, medi-los mais intensamente ou não; mas estou essencialmente sozinho comigo mesmo nesse assunto. Por isso mesmo –pelo fato de que o domínio sobre os riscos envolvendo a própria vida é intransferível—é que se torna ilegítimo  submeter filhos pequenos a um raciocínio que deveria ser só deles.  

Escrito por Marcelo Coelho às 17h01

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Riscos e filhos

Riscos e filhos

Foi a pista? Não foi a pista? Não entendo do assunto, e recomendo vivamente os comentários dos leitores ao post anterior. Naturalmente me chamou a atenção o fato de haver dois acidentes em dois dias seguidos, e o tema do “grooving” ainda vai dar muito o que pensar.

 

Acontece que eu estava com vôo marcado hoje de manhã para Araçatuba, partindo de Congonhas. Ia viajar com a família. Tenho dois filhos pequenos. Não era um compromisso inadiável. Desisti da viagem.

 

Inicialmente, fiquei duvidando se meu comportamento não era puramente supersticioso e amedrontado: “Ih, agora é que eu não viajo mesmo”. Como se os incômodos e os riscos daqui a um mês ou uma semana atrás não fossem consideráveis.

 

Foi aí que li as matérias sobre o “grooving”. Seja qual for o peso deste fator no acidente da TAM, pareceu-me de todo modo haver um fator de risco objetivo a mais. A pista principal de Congonhas só teria o “grooving” depois que eu voltasse (se voltasse). Mas a companhia aérea informou que os pousos e decolagens seriam feitos na pista auxiliar.

 

Afora os incômodos já normais do apagão, havia assim um cálculo a fazer: o risco de voar hoje é maior do que de costume, ou não? A volta, daqui a uma semana, seria com chuva? Há outras opções para passar uma semana de férias em fazenda à disposição? Eu poderia avaliar e reavaliar, conforme a minha personalidade e meu medo individual de avião.

 

Eu estava com medo, claro. Mas acho que também interveio um fator ético na minha decisão. Esse cálculo de risco que eu estava fazendo, junto com a minha mulher, envolvia duas crianças pequenas, que não têm condiçôes de calcular coisa nenhuma. Estávamos tomando decisões por elas, no lugar delas. Em situações normais é o que sempre ocorre, e fazemos tudo mais ou menos sem pensar. Mas na medida em que esta não era uma situação normal (uma vez que a questão dos riscos estava colocada mais intensamente) não achei que tivesse legitimidade para tomar a decisão de embarcar, ou melhor, de pôr duas crianças num avião.

 

Pode ser desculpa para o meu medo e o meu comodismo, não sei. A ética, como as investigações sobre um acidente, muitas vezes leva a raciocínios intermináveis. O fato é que estou aliviado, ficando por aqui mesmo.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h39

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A pista de Congonhas

A palavra do dia, com esse terrível acidente em Congonhas, é "grooving". 

Anteontem, um avião das Linhas Aéreas Pantanal derrapou na pista de Congonhas. O Correio Braziliense de ontem (17/07) publicou uma notícia sobre o acidente, da qual extraio o seguinte trecho:

O aeroporto de Congonhas passa por reformas há mais de um mês. Há duas semanas, a pista principal foi reaberta, depois de 45 dias de reparos. Mas a obra ainda não está finalizada. A Infraero inaugurou a pista sem a conclusão do grooving, ranhuras no asfalto que evitam derrapagens e ajudam na drenagem de água.

Segundo a Infraero, as ranhuras devem ser iniciadas na pista principal no dia 29 deste mês, após o novo pavimento se adequar ao solo. Para não prejudicar as operações do aeroporto o grooving será feito durante a madrugada. Na pista auxiliar, as ranhuras já estão em fase de conclusão.

Com o desgaste das pistas de pouso e decolagem do aeroporto de Congonhas, não eram raros os episódios de derrapagem. No dia 17 de janeiro, um avião da Varig, que fazia a ponte-aérea Rio-São Paulo, perdeu o controle na pista principal do terminal, paralisando o aeroporto por 50 minutos.

Em 6 de outubro de 2006, um Boeing 737-300 da Gol também derrapou, quando chegava de Cuiabá (MT). A aeronave só parou ao atingir o final da pista, já na grama, ficou atravessada, impedindo pousos e decolagens por cerca de uma hora. Em março do ano passado, um avião da BRA com 115 passageiros não conseguiu parar completamente na pista. E foi parar no canteiro final de Congonhas, às margens da Avenida dos Bandeirantes. Nenhum dos três incidentes deixou feridos.

Na “Folha”, do mesmo dia:

Reformada ao custo de R$ 20 milhões, a pista foi entregue em 29 de junho sem a conclusão do "grooving", ranhuras que ajudam na drenagem da água e melhoram o coeficiente de atrito para evitar derrapagens.

Segundo a Infraero, a estatal que administra os aeroportos do país, as ranhuras devem começar a ser feitas no dia 25, depois do período para assentamento da pavimentação.

As causas do acidente serão apuradas pelo Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos). Entre as possibilidades, a empresa aérea cita a aquaplanagem, quando o pneu perde atrito com o solo devido a poças d"água. A Infraero informa que a lâmina d"água havia sido verificada às 12h25 e estava em 0,8 mm -abaixo de 3 mm, quando ocorre a interdição da pista.

Outras hipóteses são: falha mecânica (pneu careca ou problema no freio), falha do piloto e condições climáticas aliadas a eventuais problemas na pista.

À noite, a Pantanal informou que dois pneus do lado esquerdo haviam furado. Ela vai apurar se isso ocorreu na hora do pouso ou após a derrapagem.

 

No “Estado”:

A pista principal foi reaberta sem o grooving - ranhuras para o escoamento da água, que devem ser feitas a partir do dia 29. Mas especialistas não acreditam que a falta do grooving tenha causado o incidente. O diretor de segurança do Sindicato dos Aeronautas, Carlos Camacho, afirmou que o sistema automático de frenagem pode ter sentido uma poça d’água, liberado a roda para andar e depois voltado a frear. “Isso poderia ter estourado os pneus traseiros e feito o avião rodopiar.”

O diretor do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias (Snea), Ronaldo Jenkins, afirmou que “nem todos os aeroportos têm grooving e funcionam normalmente”. Segundo a Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero), a pista principal passou a ter, com a reforma, índice de atrito de 0,7 - acima do recomendado, que é de 0,5 - e caimento de 1,5, dentro das normas.Com a derrapagem de ontem, já são quatro os incidentes desse tipo em Congonhas desde março de 2006.

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h04

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1707200704.htm

Na coluna de hoje, crime e esportes se aproximam perigosamente com o Pan.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h04

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maravilhas do espaço (2)

Esta aqui do Sol não está nem entre as vinte mais votadas da competição, mas não é nada má:

Escrito por Marcelo Coelho às 13h45

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maravilhas do espaço

Por que se contentar com as maravilhas do mundo? Há uma nova votação em curso, sem prazo (espero) para terminar. É a competição das mais belas imagens do universo sideral, que pode ser acessada aqui. Seguem as quatro primeiras colocadas. Observação:não adianta clicar --só no site dá certo a ampliação.

(a galáxia do "sombrero")

(o velho e bom Sol)

(a nebulosa da formiga).

Escrito por Marcelo Coelho às 13h36

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Um poema de Penelope Shuttle

Ainda sobre zoológicos e crianças, encontro estes versos de Penelope Shuttle em seus "Selected Poems":

ZOOLÓGICO, MANHÃ

 

 

Os elefantes se aprontam para parecer solenes e mover-se devagar/embora a noite toda tenham bebido e dançado, farreado/e jogado cartas, sem fingir velhice.

 

Notívagos eruditos, os macacos tiram os óculos,/guardam seus tomos e teses,/suspirando, enquanto se preparam para mais um longo dia/de grunhidos e gesticulações, disparates e escândalos para os visitantes.

 

Os ursos param de gritar suas palavras de ordem/ e adotam sua atitude de bichinhos fofos-mas-não-tão-fofos-assim/ no fundo do poço de concreto.

 

Os grandes felinos escondem suas prensas de herborista, bastidores de bordado e aquarelas;/resmungando, ensaiam alguns rugidos de treinamento./Seu ofício é despedaçar o ar, devorar carcaças,/espreguiçar-se e dormir em seu vicioso bem-estar carnívoro./Que vida./Mas nenhum deles gostaria de desistir do show-business.

 

As cobras que estão sempre mudando,/pele depois de pele,/abrem os olhos idosos e as dobradiças das mandíbulas, em boas-vindas.

 

Entre picadeiro e cercado/ conduzimos nossos filhotes sem pêlos./Nossa fala é demasiado complexa e enganosa./ Nosso dia não é tudo o que deveria ser./ As crianças berram, espantadas.

 

Todo bicho é muito bom em ser bicho./Como de costume, não estamos cem por cento ao sermos nós./Nossos cheiros humanos nos aprisionam.

 

No pavilhão dos insetos/a aranha de joelhos vermelhos dança com suas oito leves fantasias;/ na sua prateleira de silêncio ela valsa e rodopia; jubila em suas juntas peludas, em seus olhos de rubi.

 

 

"Reino Pacífico", de Edward Hicks (1834)

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h31

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1607200704.htm

Na coluna do "Agora", as contrastantes emoções do Pan.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h33

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No zoológico

No zoológico

Como a maioria dos pais, acredito que crianças pequenas gostem de ir ao Zoológico. Minhas próprias memórias de infância, contudo, não confirmam a hipótese. Tinha um amiguinho que, esse sim, adorava –e muitas vezes lhe fiz companhia, sem partilhar nada de seu êxtase diante do hipopótamo e do jacaré. Vejo agora, com meus filhos, que se maravilham muito menos do que eu. Talvez as crianças estejam mais próximas do mundo animal: estão imersas em histórias de bichos, desenhos de bichos, filmes de bichos, e a experiência de conhecê-los, digamos, “em pessoa” talvez lhes decepcione um pouco. Afinal, eles não falam no Zoo; são menos amistosos e costumam cheirar mal. Talvez seja muito espírito crítico de minha parte; de resto, considero-os mais bonitos e impressionantes cada vez que os vejo novamente.

 

Levei meus filhos ao que sempre chamei de Simba Safári, mas hoje se chama, creio, Zoo Safári. É bastante barato, tem funcionários simpaticíssimos e boa organização, embora, como sempre, o estilo brasileiro se imponha sobre o local. Antes de você chegar, ambulantes aparecem vendendo saquinhos de amendoim para alimentar os animais. Vinte metros adiante, na entrada do Safári, há uma placa avisando que só se pode dar aos bichos uma ração apropriada, vendida em bonitos pacotinhos. Pergunto à moça do caixa, que confirma a recomendação, mas... “como hoje está meio vazio, os bichos não estão comendo tanto amendoim assim, e se você der não vai desbalancear a dieta.”

 

Não achei ruim; eis um caso de flexibilidade nas normas tipicamente brasileiro que, afinal de contas, não serve para deixar ninguém indignado. Em todo caso, os amendoins foram um sucesso.

 

Para as crianças, é uma alegria encontrar emas, camelos e lhamas capazes de comer em suas mãos, e não há dúvida de que o zoológico tradicional, com ursos no fundo de um poço e leões dormindo no fundo de uma minúscula caverna. Para os adultos, a sensação é bem diversa. A proximidade visual com os animais leva a descobertas algo embaraçosas.

 

Uma girafa está praticamente encostada no carro; posso discernir a estrutura de suas manchas, o tamanho das patas, a proporção do pescoço. Um olhar a mais e... vejo que não é girafa, é girafo. Um robusto aparelho reprodutor, inteiramente recoberto de pelagem branca, se vê encostado à barriga do animal. No mundo mais inquieto dos símios, uma população de macacos-aranha, inteiramente negros, com braços e pernas desproporcionalmente longos, traz pendurado no traseiro algo como um fino apêndice carmesim. Do camelo, não vi nada, exceto, já na saída do Safári, contornando seu reduto, a perspectiva traseira do animal sentado: toda a austera indiferença do animal, sua altura nobre e distante, se transformou então numa estranha imagem de matrona cansada em alguma colônia de férias, de quem tiraram a cadeira de alumínio Rochedo, e se senta na areia de qualquer jeito.

 

Escusado dizer que o bom educador não chama demasiado a atenção das crianças para essas particularidades da zoologia.  

 

 

Todos de roupa por aqui.... Mais ilustrações do tipo no belo site abaixo: 

http://www.kidsdeserveart.com/Paintings.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 10h30

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Lula vaiado

Vaia é vaia. As explicações podem ser múltiplas a respeito de “quem” vaiou de fato Lula na abertura do Pan, mas duvido que isso tivesse acontecido durante aquele período de “lua-de-mel” do primeiro mandato, quando o presidente não parava de dar autógrafos à população onde quer que estivesse.

 

Acho duvidosas as teorias em torno de um “país dividido”: os pobres a favor de Lula e os “ricos” que o vaiaram no estádio. Ricos porque, segundo a reportagem, puderam pagar um ingresso de no mínimo R$ 25. Sem dúvida, o país está dividido, e estava já nas eleições, entre Alckmin e Lula. Ficou a imagem de que Alckmin era o candidato dos ricos –o que pode ser verdade, mas não foi só dos ricos: não os há em número equivalente às dezenas de milhões de votos obtidos pelo tucano. Que, mesmo assim, foi derrotado sem piedade (no segundo turno, é preciso não esquecer).

 

Não foi uma vaia de ricos contra o presidente dos pobres. Foi um sinal de declínio da popularidade de Lula? Sim, mas não necessariamente vai se refletir nas pesquisas de opinião. Mesmo que 60 ou 70 por cento da população considerem que o governo Lula é bom, isso não é sinônimo de aplauso imediato e “viva Lula” em qualquer circunstância. A avaliação de um governo é comparativa e individual; o entrevistado pensa nos prós e contras, nos governos anteriores, nas suas perspectivas pessoais, e pode serenamente dizer “bom” ao entrevistador.

 

Outra coisa é estar no meio de um estádio lotado, esperando a abertura dos jogos, e ver o presidente ser anunciado pela autoridade esportiva ali presente. Creio que, num ambiente de antipatia da classe média por Lula, o que preponderou nessa hora foi a reação contra um político que parece, naquele momento, estar “roubando a festa”, “tirando uma casquinha”, como se diz, da multidão que não foi lá para aplaudir autoridades. O prefeito César Maia foi aplaudido, com razão, por ter se empenhado diretamente na realização dos jogos.

 

Mas acho que a vaia contra Lula refletiu antes de tudo uma rejeição aos políticos em geral; e, se cai a popularidade do presidente, ou se a rejeição a seu nome se mantém na classe média, isso se deve em grande parte não ao desempenho de seu governo, mas à decepção diante de alguém que se dizia “diferente de tudo o que está aí” e hoje apóia e é apoiado pelos Renans Calheiros, Malufs, Collors: tudo aquilo que sempre esteve aí. Acho plausível que alguém até vote nele, ou não considere ruim o seu governo, e ao mesmo tempo queira dar um recado de insatisfação e impaciência quando ele aparece do nada, num evento esportivo, para ser aplaudido, sem ter nada a ver com o peixe. 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h14

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vitória do Cristo

Irritei-me, em artigo e posts, com essa eleição das novas sete maravilhas do mundo. Hierarquiza-se o incomparável, com base em critérios malucos (uma votação "patriótica" pela internet), e no máximo o que se obtém é um triunfo de marketing turístico meio bobo: atrairemos as atenções de quem acredita em listas desse tipo. Claro que, para o turismo brasileiro, isso representa um ganho. Suplantamos a Catedral de Santa Sofia, os templos de Angkor, as estátuas da Ilha da Páscoa. A paisagem lá de cima do Corcovado merece, não tenho dúvida, ser vista por muita gente. Fico contente quando estrangeiros vêm conhecer o Rio. Toda coisa bonita que temos dá, naturalmente, gosto de divulgar. Deixo entretanto a critério do leitor a avaliação da nota à imprensa que a ministra do Turismo acaba de emitir sobre o acontecimento.

Nota da ministra do Turismo

 

Repercussão sobre a eleição do Cristo como uma das 7 maravilhas do mundo

 

A eleição do Cristo como uma das 7 maravilhas do mundo é o resultado da união de esforços de todos os setores sociais do país. O cidadão brasileiro respondeu aos apelos dos governadores, do Ministério do Turismo e em especial do Presidente da República, que tanto se empenhou por esta vitória. O Ministério do Turismo, por meio da Embratur, fez divulgação da campanha em hot site e banner. Disparou e-mails marketing para toda a sua base de dados e embaixadas no exterior. Também distribuiu folderes em inglês e alemão, com a ajuda de nossos parceiros na Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos. Durante a ação Descubra Brasil, em Nova York, realizada agora, dias 1 a 4 de julho, o Cristo foi um dos carros-chefes. Também tivemos uma exposição na ONU, como parte da campanha. Houve ainda o apoio do Bradesco e das companhias telefônicas que liberaram as cobranças para que mais pessoas votassem. Mas, sem dúvida, o propulsor da nossa vitória foi o Presidente Lula, com sua visita ao Cristo. Naquele momento, os brasileiros se deram conta da importância que o Presidente estava dando à eleição do Cristo para o incremento do turismo brasileiro. Muitas pessoas perceberam o enorme impacto na economia – a entrada de mais US$ 271 milhões e a criação de 250 mil empregos (estimativas do Banco Central e do Ministério do Trabalho e Emprego). Agora, estou acertando com a Embratur que as campanhas de publicidade no exterior, daqui para frente, darão ainda mais destaque ao Cristo, com peças que lembrem que vale a pena visitar uma das 7 maravilhas do mundo e todas as outras maravilhas do Brasil. Parabéns, a todos vocês, internautas e também os que votaram por telefone. Viva o Brasil!

 

Duzentos e cinquenta mil novos empregos? Graças, sobretudo, à presença de Lula no Corcovado? Se for isso, proponho uma nova votação: Lula, ele próprio, é a oitava maravilha do mundo.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h58

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Peço desculpas, mais uma vez, a quem acessou o blog nestes últimos dias. Dividi-me entre a Folha e as crianças, e o pior é que logo mais viajo para Ouro Preto (tem um festival lá, não é a Flip, é o Flop), onde devo falar rapidamente sobre a série de conferências "O Silêncio dos Intelectuais". Foi editada em vídeo, e as palestras serão apresentadas lá. Devo fazer uma conversa introdutória. Espero poder acumular posts para desová-los depois.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h10

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catadores de papel

Mais um pouco sobre mendigos e inclusão social. Vi na Bienal do ano passado um estande (será esse o nome?) de um grupo argentino que produz livros com a participação de catadores de papel: é o Eloísa Cartonera. A experiência existe em algumas capitais latino-americanas e foi adotada aqui. Chama-se "Dulcinéia Catadora". Dia 14 de julho, a partir das 16h, haverá um lançamento na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, na av. Henrique Schaumann, de livros produzidos segundo esse sistema. Há autores novos e consagrados participando da coisa: Jorge Mautner ("Susi"), o peruano Oswaldo Reynoso ("Cara de Anjo"), Wilson Bueno ("Chuvosos"). E, pela foto que me mandaram, o resultado não poderia ser mais interessante:

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h41

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mendigos longe daqui

Ainda sobre a questão dos moradores de rua, li numa reportagem do "Nouvel Observateur" que há 40 mil crianças sem teto vivendo em Moscou. Será que são tantas assim? Bem mais do que em São Paulo, que pode naturalmente aspirar, agora que o lugar está vacante, ao título de pátria internacional do socialismo.

Eis algumas fotos da cineasta Hanna Polak, indicada ao Oscar de documentário em 2004 por um filme sobre o assunto; ganhou também um prêmio de fotografia da Unesco o ano passado, graças a seus retratos de mendigos russos. Na maioria, são loirinhos, é claro.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h06

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bandidos de classe média

Escrevi hoje na "Folha" sobre os delinquentes que espancaram uma empregada doméstica no Rio. O artigo se chama "Cutura da explicação", e foi inspirado numa entrevista que vi há bastante tempo na televisão, com a psicanalista Anna Veronica Mautner. Foi a propósito daquele outro caso famoso, em que adolescentes de classe média em Brasília resolveram pôr fogo num índio pataxó que estava dormindo ao relento.

A psicanalista, tomada de indignação, dizia que não queria explicar nada. Queria condenar aquele ato. Tinha razão. Ela volta ao tema, num artigo publicado inicialmente na Folha, mas apresentado em versão mais extensa no Jornal de Debates. Nesse artigo, Anna Veronica está mais "explicativa". Claro que explicação e condenação não se excluem. Eu seria um bocado obscurantista se achasse que algum comportamento humano não pode, estruturalmente, ser explicado.

Mas o que considero típico da "cultura da explicação" é o comportamento que temos, especialmente no rádio e nos jornais, de sempre procurar sociólogos, psicólogos etc. para dar conta de casos de barbárie que só na aparência, afinal, constituem exceção à regra brasileira. É um tipo de "pauta automática". Há outras perguntas que uma reportagem pode fazer, que não são suficientemente exploradas, e que fogem do terreno às vezes fácil das "ciências humanas" e do palpitômetro. Por exemplo: na Barra da Tijuca, na rua onde aquilo aconteceu, há rondas policiais? De quanto em quanto tempo? Quantos casos de violência contra prostitutas são registrados? Gostaria de saber, não exatamente o que leva um cretino a fazer essas coisas (além da própria cretinice), mas o que não o impede de fazer o que fez. O que aconteceu com os vândalos do caso pataxó? Explicar, muitas vezes, é incluir um caso numa realidade genérica, contra a qual pouco se pode fazer.

Há também muita fala ociosa em torno da "cultura da impunidade". Gostaria que se falasse mais em "cultura do conformismo" do que num sistema em que esperamos, confortavelmente, que as instituições se moralizem sem precisar de nossa intervenção.

"Melancolia", de Albrecht Dürer

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h05

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Paulo Coelho e Toquinho, vetados

Avisam-me de um site bem interessante, que poderia ser usado em aulas de história no colegial: é o www.censuramusical.com, que traz letras de músicas censuradas durante o regime militar e os pareceres dos censores. Transcrevo dois exemplos.

 

O primeiro é uma canção intitulada “Somos o que você quiser”, com música de Zé Rodrix e letra de Paulo Coelho –mais assanhado naqueles tempos (1979). É assim:

 

Roda pra lá/vira pra cá/não perca o charme meu bem/basta a mamãe não saber/que o pau vai comer/se você não andar bem/quem muito espera/nunca se dá bem// Tira daqui/ bota dali/a confusão é geral/pra quem quiser/se realizar/sem preconceito total/deixa isto tudo/venha se entregar/ (porque nós) Somos o que você quiser/gente, bicho, homem ou mulher/dê o seu recado/nada a gente faz porque quer/nada é escondido/ tudo é permitido/gente, bicho, homem ou mulher// venha pra cá/chega pra lá/ eu não preciso insistir/pois quem experimentou/eu sei que gostou/e vai querer repetir/quem sonha pouco/nunca vai dormir// Somos...etc.

 

O parecer da censura foi curto e grosso: “VETADO. A letra em síntese [?] contém conotações que ferem a moral e os bons costumes, previstas no decreto 20 943/46, alínea C, motivo pelo qual considero o referido veto.”

 

Mais curiosa é a reação de um censor a uma música de Toquinho e Belchior, “Os doze pares de França”. A letra dizia o seguinte:

 

Os doze pares de França/ Vêm de Belém do Pará/Montando doze ginetes/Mais brancos que o luar/Vêm de França anel e lança/Cavaleiro olê olá/Cantando uma loa alegre/Para as moças do lugar//Tendo a luz dessas espadas/Não carece o sol raiar/Nem de rei, nem de princesa/De ninguém mais vai precisar/A verdade tem um brilho/Que põe a terra a rodar/Faz nascer mais cedo o milho/Inventa modos de amar/Os doze pares de França/Cavaleiro olê olá/Vão levar meu coração/Pro outro lado do mar/Pois tá mais fácil viver/Naquelas bandas de lá/Que na terra das palmeiras/Onde canta o sabiá.

 

VETADO. “Não é possível”, diz o censor, “que autores com o gabarito dos que assinam a presente composição, que se vêm locupletando fartamente com a grande vendagem de seus discos e shows ainda tenham qualquer mágoa de sua terra natal [...] Em razão do assunto abordado no final da letra musical, quando tentam depreciar a pátria onde vivem, é que nos leva a opinar pelo VETO da composição examinada, enquadrando-a no art. 41, letra g, do Regulamento do SCDP aprovado pelo decreto 20.493 de 24 de janeiro de 1946.” O parecer é de 11 de agosto de 1977.

 

Curioso que se utilize uma legislação de 1946, período que se considera democrático. A letra talvez pudesse, na minha opinião, ser censurada por outro motivo: rimar “brilho” com “milho” não é admissível em autores “com o gabarito” dos que assinam a composição em epígrafe. Ainda bem que não sou censor.

 

O site está começando, mas já tem muita coisa desse tipo.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h28

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TV Cutura na Flip

Amós Oz, Robert Fisk, Nadine Gordimer e outros escritores que participam da Flip e serão entrevistados pelo “Roda Viva”. Recebo este release da TV Cultura.

 

 

As entrevistas, conduzidas pelo jornalista Paulo Markun, serão realizadas entre os dias 4 e 6 de julho, no estúdio montado na Tenda da emissora (espaço instalado atrás da Tenda dos Autores, em Parati).

 

Na quarta-feira (04/07), às 15h30, o programa gravará entrevista com o mexicano Guillermo Arriaga, premiado roteirista de filmes como “Amores Brutos”, “21 gramas” e “Babel”.

 

Na quinta-feira (05/07), às 10h, o Roda Viva receberá o israelense Amós Oz, reconhecido como o mais influente escritor de seu país; e às 15h, Nadine Gordimer, escritora sul-africana que em seus escritos trata da deterioração social causada pelo apartheid.

 

Na sexta-feira (06/07), às 10h, será gravada a entrevista com o moçambicano Mia Couto, um dos mais destacados nomes da literatura africana de expressão portuguesa; e às 15h, com Lawrence Wright, escritor, roteirista de cinema e um dos jornalistas investigativos mais respeitados da atualidade, e Robert Fisk, correspondente do jornal The Independent no Oriente Médio e um dos jornalistas mais experientes na cobertura de guerras.

 

            EXIBIÇÃO DAS ENTREVISTAS:

Guillermo Arriaga: segunda-feira (09/07), às 22h40

Mia Couto: terça-feira (10/07), à 00h30

Amóz Oz: quarta-feira (11/07), à 00h30

Nadine Gordimer: quinta-feira (12/07), à 00h30

Robert Fisk e Lawrence Wright: sexta-feira (13/07), à 00h30

 

Também o "Metrópolis" terá na segunda-feira (9/07), às 13h, uma edição especial sobre a Flip.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h21

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tolice, parte dois

Contrariando meus hábitos, e o que imagino deve ser a ética de um blogueiro, modifiquei e amenizei o tom do post anterior, que publiquei em estado de fúria cultural. O pior é que muita gente acaba gostando quando vê chutarem o pau de barraca! É a tentação de todo jornalista: fazer barulho e espinafrar.

 

Continuo achando tolice tudo o que se relaciona com “Sete Maravilhas” do que quer que seja. Critiquei a história do Cristo Redentor num artigo recente. Cansei de responder a pedidos de lista sobre os “dez mais importantes livros do milênio” e coisas semelhantes, em 1999/2000. Quando vi a lista cair de dez para sete, fiquei histérico. Pelo menos, há uns tempos, fizeram uma lista com cem romances e cem obras de não-ficção, do Brasil e do estrangeiro. Aí era curioso, embora fundamentalmente errado também, a não ser para quem trabalhe em alguma biblioteca e precise de uma lista de compras. Estranhamente, ganhou o “prêmio” de citações uma obra de Max Weber, “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, que embora clássica não é um verdadeiro terremoto cultural como as teorias de Freud ou Marx, por exemplo.

 

De resto, uma lista pode ser feita com várias intenções diferentes. O autor pode simplesmente fazer uma lista “normal”, sem extravagâncias; ou então aproveitar para chamar a atenção para obras que não têm a fama que mereceriam. O ruim, o anticultural da lista, é que ela exclui o que não deve ser excluído. E aí as escolhas parecem quase criminosas. Mas este, como sempre, é apenas o meu modo de ver a coisa.

 

Pronto! voltei ao meu estado normal de dr. Jekyll.

 

 

(bom, também não é tanto assim...)

Escrito por Marcelo Coelho às 19h11

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maravilhas da tolice

Por definição, qualquer debate em torno das 7 maravilhas do mundo tende à idiotice; mistura a mania pop das listas ao sentimento retrô de uma realidade em ruínas. Mas não posso deixar de protestar diante das escolhas veiculadas na última edição do Mais!, que cedeu a essa vulgaridade.

 

Luiz Pinguelli Rosa esquece Newton e Copérnico para falar de Freud e Marx. A ciência, entretanto, poderia esquecer perfeitamente os dois últimos. Não que eu queira contestá-los. Mas Newton e Copérnico  contribuíram para a ciência. Freud e Marx para a cultura, sem que qualquer hipótese deles pudesse ser comprovada cientificamente.

 

Lúcia Nagib, falando de cinema, escolhe “O Império dos Sentidos”  e “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Se escolhesse “Cidadão Kane” e “Amarcord” seria banal. Escolhendo Oshima e Glauber, não convence.

 

Olgària Mattos parece errar de vocação, escolhendo “A Divina Comédia “ e “José e Seus Irmãos” no lugar da “Critica da Razão Pura”, da “Fenomenologia do Espírito” ou do “Discurso do Método”, no âmbito da filosofia.

 

Cristiano Mascaro cita São Paulo, Lisboa, Havana e Rio em vez de Veneza, Paris, Viena e Praga: gosto é gosto.

 

Não vejo sentido nas escolhas de Lisette Lagnado sobre artes plásticos, falando nas “esculturas rupestres” de Ana Mendieta e omitindo Lascaux, ignorando a Capela Sistina para falar de um quadro semipornográfico de Courbet (“a origem do mundo”).

 

Walnice Nogueira Galvão apostou no cânon além de todos os cânones, o que faz razoavelmente sentido na falta de sentido de todo o projeto. Com isso, substitui o “Dom Quixote” pelo “Mahabharata”.

 

Tudo redunda em ridículo, porque não há “7  Maravilhas” em jogo exceto para os que são ingênuos o suficiente para acreditar que com 7 maravilhas dão conta da riqueza da cultura humana. 

Uma freira de Bosch

 

Escrito por Marcelo Coelho às 03h55

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Treze homens e alguns segredos

Treze homens e alguns segredos

Não é que o puro charme de “Onze Homens e um Segredo” esteja ausente do novo filme da série; George Clooney, Brad Pitt, Matt Damon e Andy Garcia, nesta ordem, não oferecem motivos para reclamações em “Treze Homens e um Novo Segredo”, e mesmo o nariz postiço de Damon em algumas cenas não altera sua elegância e poder de sedução.

 

Quanto a Al Pacino, o prazer do espectador está em ver o prazer que ele sente em atuar. O cabelo pintado e os óculos de armação dourada lhe dão um certo ar de Clodovil, que ele dissipa com a mais áspera masculinidade.

 

Havia, pelo que me lembro, lindas mulheres no primeiro filme. Aqui, não. É como se estivéssemos diante de um filme para o público feminino, dada a voltagem sexual dos atores em cena. Ao mesmo tempo, não há lugar para intimidades e subjetivismos neste filme de “gadgets” e roubos. Não conheço mulheres que gostem de filmes de 007, e “Treze Homens” descobre esse filão, talvez, o do filme de 007 para a platéia feminina.

 

Se for isso, merece atenção a figura da secretária-executiva de Al Pacino, que cuida de tudo para esse tirânico dono de cassino em Las Vegas. Desse ponto de vista, Al Pacino é menos um gangster do que um equivalente da Meryl Streep de “O Diabo Veste Prada”; quer perfeição total na estréia de seu novo empreendimento, e bate o pé para conseguir um modelo exclusivo de celular, gentilmente cedido pelo departamento de merchandising da Samsung.

 

A secretária consegue tudo que Pacino quer, mas fraqueja nos braços de Matt Damon. O seu verdadeiro pecado, e o que a torna a única personagem “psicológica” do filme, é o de infringir o tabu do incesto: no fundo, é uma espécie de mãe libidinosa, traindo o pai tirânico representado por Pacino, com o garoto “certinho”, bom filho da mamãe, que é Matt Damon. Como para aguçar o apetite dos psicanalistas na platéia, Matt Damon tem um pai “falso”, como o seu nariz postiço: trata-se de um suposto milionário chinês de quem é o ajudante de ordens; e um pai “verdadeiro”, que arranca o seu nariz postiço e representa uma lei benigna, na identidade de um agente do FBI.

 

Falsos pais, maus padrastos, irmãos em penca: não vivemos no século 21 os  padrões familiares conhecidos por Freud, e de todo modo Las Vegas não é Viena. Um filme clássico de roubo poderia ser interpretado como a conspiração de alguns irmãos para tirar das mãos de um pai todo-poderoso o objeto do desejo. Nos filmes da série “Ocean”, o esquema se altera um pouco, pois não há a luta dos “mais fracos” contra um “forte”. Para roubar Al Pacino, é preciso contar com uma fortuna e com uma quantidade de tecnologia equivalentes às dele. Nesse sentido, o equilíbrio de poder entre as partes envolvidas evoca os filmes de espionagem: são duas ou no máximo três potências em conflito, mas no pós-Guerra Fria não há ideologias ou países no jogo – que é puro jogo, aliás, nas Bolsas de Valores ou nos cassinos de Las Vegas.

 

O sonho, entretanto, continua a ser o de vingança e destruição. Estranho que o prédio do novo cassino a ser inaugurado receba tantas atenções do diretor. É evidentemente uma maquete, mas aparece tantas vezes na tela que poderia constar como uma personagem à parte. Nessa arquitetura fictícia, talvez mais de uma referência ao imaginário contemporâneo esteja presente. São, na verdade, torres triplas –e não as do WTC—que se vêem ameaçadas de terror tecnológico, num grau que a Al Qaeda não seria capaz de atingir. Ao mesmo tempo, a forma retorcida das torres lembra a famosa espiral do DNA  --não se trata de destruir o falo do pai, mas a própria idéia de paternidade. E há um famoso hotel em Dubai, nas mãos de algum magnata árabe, em que o hotel de Pacino também se inspirou.

 

O filme funcionaria, assim, como uma máquina de negações e desmentidos: nós, americanos, gostaríamos de explodir com todos esses árabes, mas não somos terroristas. Nem temos aquele complexo de Édipo que está por trás de tanta destrutividade humana... Veja: não temos pai para vingar, nem para destruir; estamos ainda à procura de alguém para o papel; de resto, mamãe não nos desperta nenhuma atração em especial. Roubamos jóias, mas não temos a quem dar. Podemos ser criminosos, mas nossos crimes são inocentes, pré-edipianos, são feitos sem culpa. De resto, não matamos ninguém. No filme, pelo menos, isso é verdade –o que nos redime de tudo, não acha?    

 

Ellen Barkin (secretária de Al Pacino) e Matt Damon

Escrito por Marcelo Coelho às 00h43

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Júlio Lerner

A cultura brasileira deve muito a Júlio Lerner, documentarista, entrevistador e homem de TV. Na época em que chorinho era uma coisa completamente fora de moda (acho que estávamos aí por 1972, 73) ele tinha um programa semanal na TV Cultura, “O chorinho das sextas-feiras”, em que de um jeito muito suave e caloroso trazia músicos muito “em baixa” para o conhecimento do público.

 

A voz dele, e o jeitão como entrevistador, eram perfeitos para deixar qualquer pessoa à vontade –menos, é certo, a escritora Clarice Lispector, com quem ele fez uma importante entrevista em 1977. Júlio Lerner contava que topou com a escritora “dando sopa” num estúdio da Cultura, não me lembro por que razão, e que perguntou à queima-roupa se ela queria dar uma entrevista. Estranhamente ela aceitou. Lerner estava nervosíssimo, porque idolatrava Clarice Lispector e não sabia o que perguntar. O fato é que, vendo a entrevista, temos a impressão de Clarice Lispector tampouco sabia o que responder. Ficou, entretanto, um documento raro, feito poucos meses antes da morte da escritora.

 

Júlio Lerner morreu nesta sexta-feira, e tinha ainda muitos projetos a realizar.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h40

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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