Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

matem o lobo

matem o lobo

O mundo do politicamente correto tende a não ter limites, como é próprio de toda linguagem totalitária. Levei meus filhos para uma apresentação de "Pedro e Lobo", com simpáticos instrumentistas da Osesp. Já na versão clássica da história, o lobo era poupado. Os caçadores aparecem, e Pedro intervém: "não o matem!Levem-no para o zoológico!"

Na sensibilidade politicamente correta de hoje, nem o zoológico é permitido. No desfecho do espetáculo a que assisti, Pedro grita: "Não o matem! Levem-no ao parque ecológico!"

Francamente. Mais do que pensar na ecologia dos lobos, seria necessário pensar na ecologia emocional da criança. Ela ficou com medo do lobo, identificou-o como o inimigo. Seu sossego psicológico depende de uma coisa muita simples: toda ameaça deve ser destruída. Não há lugar para ecologia e correção política nesse momento. Lobos devem ser mortos, e ponto final. Mais tarde, a criança perceberá que isso é uma crueldade. Mas há tempo para tudo. Aos cinco anos, matar um malvado não é distorção política. É necessidade simbólica.

foto de Richard Billingham.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h21

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2107200704.htm

Política e Pan às vezes levam a sérias discórdias no lar. Leia a crônica do "Agora" (para assinantes do Uol).

Escrito por Marcelo Coelho às 00h02

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ações reversas

Não foi propriamente uma dancinha ao estilo de Ângela Guadagnin, nem mesmo uma frase tipo “relaxa e goza”, da qual aliás a ministra Marta Suplicy se desculpou logo depois. Marco Aurélio Garcia e seu assessor estavam vendo o noticiário, no gabinete, sem saber que uma câmera de TV acompanhava seus movimentos e gestos.

 

A reação deles não foi de insensibilidade diante da tragédia com o Airbus, mas sim de alegria ao ver dificultadas as iniciativas da oposição no sentido de explorar politicamente o caso. A carta pública de José Serra e Gilberto Kassab, com propostas depois do acidente em Congonhas, pode ter muitas idéias corretas, mas certamente foi também uma tentativa de capitalizar politicamente o episódio.

 

A descoberta de que havia problemas no Airbus não isenta o governo de responsabilidades na crise aérea, e o acidente da TAM não foi ainda investigado em profundidade. As causas, como todo mundo aprendeu recentemente, são múltiplas. Sem dúvida, o problema do reverso diminui as acusações em torno da pista que deveria ter ranhuras e não tinha.

 

Mas a atitude de Marco Aurélio Garcia e seu assessor não é estranha a um estado de espírito já bastante conhecido. O governo Lula tende a achar toda crítica, justa ou injusta, como uma espécie de conspiração golpista. Não se entende que exploração política –mesmo quando existe—é um jogo típico de toda oposição, no qual o PT, durante décadas, foi especialista.

 

Petistas não se cansam agora de comparar a oposição à UDN querendo depor Getúlio Vargas. Golpismo, naquela época, envolvia contestação permanente dos resultados eleitorais e constantes relações com setores da direita militar. Impeachment é um lema que aparece sem força, exceto em textos de alguns radicais, como Roberto Mangabeira Unger; o PT  também falava em “Fora FHC”, no seu devido tempo, e Tarso Genro, em especial, forçou a mão nesse tecla.

 

A oposição, com a carta de Serra e muitos textos acusatórios, usa o acidente. Não sem legitimidade democrática. Sua base técnica pode ser insuficiente no varejo, mas as críticas são corretas no atacado. Marco Aurélio Garcia e seu assessor comemoram o varejo, como se fosse o atacado. Faz parte do jogo. Acabaram fazendo um gol contra, porque a cena foi filmada. Essas coisas pegam mal, principalmente para quem não está com nenhuma vontade de tirar a culpa do governo pela crise aérea em seu conjunto.

 

A sanha da oposição não é necessariamente golpista. A alegria governista não é necessariamente obscena. Mas não custa fechar as cortinas da próxima vez.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h55

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Riscos e filhos (3)

Riscos e filhos (3)

Essa coisa de preservar os filhos de possíveis acidentes varia, naturalmente, conforme a personalidade de cada um. O romancista inglês Evelyn Waugh, certamente um monstro, estava com um filho recém-nascido durante os bombardeios alemães sobre Londres, na Segunda Guerra Mundial. Decidiu fugir para uma casa de campo, levando todos os seus livros. Mas o bebê ficou em Londres mesmo.

 

Explicação de Waugh: um bebê pequeno? posso fazer outro rapidamente. Mas meus livros são insubstituíveis. Anos mais tarde, o bebê em questão, o jornalista Auberon Waugh (que também não era flor que se cheirasse), desculpou a atitude do pai:

 

Para ser justo, quando se é um bebê pequeno, a indiferença entre pai e filho é recíproca, e o bebê teria alegremente preferido ficar com um apito de brinquedo a preservar a vida do pai.

 

A família Waugh prossegue em seus sorridentes rancores com Alexander Waugh, filho de Auberon e neto de Evelyn, que acaba de publicar Fathers and Sons: The Autobiography of a Family, resenhada na New York Review of Books. O livro já virou documentário na BBC, aliás. Alexander diz de seu pai:

 

Eu adorava meu pai, mais do que, suponho, ele adorava a mim, ou pelo menos eu pensei mais nele durante a minha vida do que ele em mim (...) Mas esta é a natureza de toda relação entre pai e filho. Um pai pode ter vários filhos para acrescentar a suas muitas preocupações mas um filho tem apenas um pai...

 

Evelyn, Auberon e Alexander Waugh.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h24

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O pessimismo de Beckett

O teatrólogo Samuel Beckett nunca foi de ter visões muito róseas a respeito da vida. Procurando sossego em 1968, enquanto bombas de gás e coquetéis molotov explodiam em Paris, ele se retirou para uma casa de campo no norte da França. De lá mandou uma carta para um tio seu, com quem se correspondia habitualmente. Eis como ele descreve o clima do local.

"Tudo aqui está ensopado de tanta chuva, debaixo de um céu negro. A única coisa que brilha é um urubu."

Em inglês é "blackbird", mas "urubu" dá melhor idéia da coisa.

O trecho faz parte de uma correspondência inédita, leiloada nestes dias pela Sotheby's.

 Samuel Beckett

Escrito por Marcelo Coelho às 16h32

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Flaubert, Bovary

É conhecida a frase de Flaubert sobre a protagonista de seu maior romance: “Madame Bovary, c’ est moi”. Sempre quis saber se Flaubert a tinha escrito de fato. No “Nouvel Observateur” de 12/18 de julho, encontro finalmente o esclarecimento.

 

Flaubert nunca escreveu a frase. Ele a disse a uma escritora de Rouen, Amélie Bosquet, que a repetiu a um tal E. de Launay, que a repetiu a René Descharmes, autor de uma biografia de Flaubert publicada em 1909; “Flaubert. Sa vie, son caractère et ses idées avant 1857”. Está numa nota de pé de página do capítulo 5.

 

Dificilmente uma frase tão famosa teve origem tão obscura.

O leito de morte de Mme. Bovary, tela de  Albert Auguste Fourie

Comentários interessantes de Rubem Fonseca sobre a relação autor e personagem pode ser encontrados aqui

Escrito por Marcelo Coelho às 16h19

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1907200704.htm

Pan e cerveja podem chegar a um ponto sem retorno, diz o cronista do "Agora".

Escrito por Marcelo Coelho às 11h33

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instruções de embarque

instruções de embarque

Eis a foto que o leitor Paulo Rafael manda de sua viagem ao litoral alagoano. Não disse se havia transponder funcionando a bordo.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h27

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1807200704.htm

Para os adeptos da vida alternativa, o esporte pode ser uma violência. Veja a crônica de hoje do "Agora".

Escrito por Marcelo Coelho às 17h31

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O ouro e a vaia

Vaiar um presidente, em qualquer circunstância, e seja ele de que partido for, é para mim um direito básico de expressão política, que pode ser exercido com justiça ou não, com sensibilidade ou não.

 

Agora, vaiar um atleta estrangeiro, na hora precisa em que ele vai começar um número de ginástica solo, como aconteceu ontem no Pan, parece-me um absurdo. O ex-jogador de basquete Oscar Schmidt, ex-candidato a senador na chapa de Paulo Maluf, deu muitas alegrias ao Brasil (entre elas a de não se eleger), mas não ajuda o nosso país vaiando fanaticamente os ginastas americanos.

 

No fim, essas vaias terminam desvalorizando o próprio ouro conquistado pelos brasileiros. Foi muito bonita a apresentação do atleta Mosiah, que parecia dançar com as mãos. Mas o americano também era espetacular. Quem teria sido o vencedor numa disputa justa? Ganhar com ajuda da vaia é ter um ouro meio falsificado.

Como dizia o velho Corneille, se me lembro bem, "combater sem honra é triunfar sem glória".

Escrito por Marcelo Coelho às 17h27

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Riscos e filhos (2)

Riscos e filhos (2)

Desenvolvo um outro aspecto do post anterior. Supondo que os riscos de voar hoje no Brasil sejam maiores, ou que pelo menos eu os leve mais em consideração, eu dizia que não achava legítimo pôr num avião crianças que não podem decidir sozinhas.

 

Pois bem, surge uma pergunta. Eu embarcaria sem elas? Assumiria um risco por minha própria conta, sabendo que minha eventual morte seria evidentemente prejudicial a meus filhos?

 

De modo um tanto estranho, eu diria que sim, que embarcaria. Isto é, poderia não embarcar por medo próprio, mas não porque algum pensamento em torno da infelicidade de meus filhos fosse predominante a esse ponto.

 

É nesse sentido que chego a uma conclusão ética um tanto contestável, talvez. Acho que, embora nossos compromissos com a família e com filhos pequenos sejam cruciais, mesmo assim, em alguma medida, cada pessoa é dona absoluta de sua vida. Os riscos que corro, embora possam terminar numa tragédia que trará infelicidade a outros, são exclusivamente meus. Posso, é claro, medi-los mais intensamente ou não; mas estou essencialmente sozinho comigo mesmo nesse assunto. Por isso mesmo –pelo fato de que o domínio sobre os riscos envolvendo a própria vida é intransferível—é que se torna ilegítimo  submeter filhos pequenos a um raciocínio que deveria ser só deles.  

Escrito por Marcelo Coelho às 17h01

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Riscos e filhos

Riscos e filhos

Foi a pista? Não foi a pista? Não entendo do assunto, e recomendo vivamente os comentários dos leitores ao post anterior. Naturalmente me chamou a atenção o fato de haver dois acidentes em dois dias seguidos, e o tema do “grooving” ainda vai dar muito o que pensar.

 

Acontece que eu estava com vôo marcado hoje de manhã para Araçatuba, partindo de Congonhas. Ia viajar com a família. Tenho dois filhos pequenos. Não era um compromisso inadiável. Desisti da viagem.

 

Inicialmente, fiquei duvidando se meu comportamento não era puramente supersticioso e amedrontado: “Ih, agora é que eu não viajo mesmo”. Como se os incômodos e os riscos daqui a um mês ou uma semana atrás não fossem consideráveis.

 

Foi aí que li as matérias sobre o “grooving”. Seja qual for o peso deste fator no acidente da TAM, pareceu-me de todo modo haver um fator de risco objetivo a mais. A pista principal de Congonhas só teria o “grooving” depois que eu voltasse (se voltasse). Mas a companhia aérea informou que os pousos e decolagens seriam feitos na pista auxiliar.

 

Afora os incômodos já normais do apagão, havia assim um cálculo a fazer: o risco de voar hoje é maior do que de costume, ou não? A volta, daqui a uma semana, seria com chuva? Há outras opções para passar uma semana de férias em fazenda à disposição? Eu poderia avaliar e reavaliar, conforme a minha personalidade e meu medo individual de avião.

 

Eu estava com medo, claro. Mas acho que também interveio um fator ético na minha decisão. Esse cálculo de risco que eu estava fazendo, junto com a minha mulher, envolvia duas crianças pequenas, que não têm condiçôes de calcular coisa nenhuma. Estávamos tomando decisões por elas, no lugar delas. Em situações normais é o que sempre ocorre, e fazemos tudo mais ou menos sem pensar. Mas na medida em que esta não era uma situação normal (uma vez que a questão dos riscos estava colocada mais intensamente) não achei que tivesse legitimidade para tomar a decisão de embarcar, ou melhor, de pôr duas crianças num avião.

 

Pode ser desculpa para o meu medo e o meu comodismo, não sei. A ética, como as investigações sobre um acidente, muitas vezes leva a raciocínios intermináveis. O fato é que estou aliviado, ficando por aqui mesmo.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h39

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A pista de Congonhas

A palavra do dia, com esse terrível acidente em Congonhas, é "grooving". 

Anteontem, um avião das Linhas Aéreas Pantanal derrapou na pista de Congonhas. O Correio Braziliense de ontem (17/07) publicou uma notícia sobre o acidente, da qual extraio o seguinte trecho:

O aeroporto de Congonhas passa por reformas há mais de um mês. Há duas semanas, a pista principal foi reaberta, depois de 45 dias de reparos. Mas a obra ainda não está finalizada. A Infraero inaugurou a pista sem a conclusão do grooving, ranhuras no asfalto que evitam derrapagens e ajudam na drenagem de água.

Segundo a Infraero, as ranhuras devem ser iniciadas na pista principal no dia 29 deste mês, após o novo pavimento se adequar ao solo. Para não prejudicar as operações do aeroporto o grooving será feito durante a madrugada. Na pista auxiliar, as ranhuras já estão em fase de conclusão.

Com o desgaste das pistas de pouso e decolagem do aeroporto de Congonhas, não eram raros os episódios de derrapagem. No dia 17 de janeiro, um avião da Varig, que fazia a ponte-aérea Rio-São Paulo, perdeu o controle na pista principal do terminal, paralisando o aeroporto por 50 minutos.

Em 6 de outubro de 2006, um Boeing 737-300 da Gol também derrapou, quando chegava de Cuiabá (MT). A aeronave só parou ao atingir o final da pista, já na grama, ficou atravessada, impedindo pousos e decolagens por cerca de uma hora. Em março do ano passado, um avião da BRA com 115 passageiros não conseguiu parar completamente na pista. E foi parar no canteiro final de Congonhas, às margens da Avenida dos Bandeirantes. Nenhum dos três incidentes deixou feridos.

Na “Folha”, do mesmo dia:

Reformada ao custo de R$ 20 milhões, a pista foi entregue em 29 de junho sem a conclusão do "grooving", ranhuras que ajudam na drenagem da água e melhoram o coeficiente de atrito para evitar derrapagens.

Segundo a Infraero, a estatal que administra os aeroportos do país, as ranhuras devem começar a ser feitas no dia 25, depois do período para assentamento da pavimentação.

As causas do acidente serão apuradas pelo Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos). Entre as possibilidades, a empresa aérea cita a aquaplanagem, quando o pneu perde atrito com o solo devido a poças d"água. A Infraero informa que a lâmina d"água havia sido verificada às 12h25 e estava em 0,8 mm -abaixo de 3 mm, quando ocorre a interdição da pista.

Outras hipóteses são: falha mecânica (pneu careca ou problema no freio), falha do piloto e condições climáticas aliadas a eventuais problemas na pista.

À noite, a Pantanal informou que dois pneus do lado esquerdo haviam furado. Ela vai apurar se isso ocorreu na hora do pouso ou após a derrapagem.

 

No “Estado”:

A pista principal foi reaberta sem o grooving - ranhuras para o escoamento da água, que devem ser feitas a partir do dia 29. Mas especialistas não acreditam que a falta do grooving tenha causado o incidente. O diretor de segurança do Sindicato dos Aeronautas, Carlos Camacho, afirmou que o sistema automático de frenagem pode ter sentido uma poça d’água, liberado a roda para andar e depois voltado a frear. “Isso poderia ter estourado os pneus traseiros e feito o avião rodopiar.”

O diretor do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias (Snea), Ronaldo Jenkins, afirmou que “nem todos os aeroportos têm grooving e funcionam normalmente”. Segundo a Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero), a pista principal passou a ter, com a reforma, índice de atrito de 0,7 - acima do recomendado, que é de 0,5 - e caimento de 1,5, dentro das normas.Com a derrapagem de ontem, já são quatro os incidentes desse tipo em Congonhas desde março de 2006.

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h04

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1707200704.htm

Na coluna de hoje, crime e esportes se aproximam perigosamente com o Pan.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h04

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maravilhas do espaço (2)

Esta aqui do Sol não está nem entre as vinte mais votadas da competição, mas não é nada má:

Escrito por Marcelo Coelho às 13h45

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maravilhas do espaço

Por que se contentar com as maravilhas do mundo? Há uma nova votação em curso, sem prazo (espero) para terminar. É a competição das mais belas imagens do universo sideral, que pode ser acessada aqui. Seguem as quatro primeiras colocadas. Observação:não adianta clicar --só no site dá certo a ampliação.

(a galáxia do "sombrero")

(o velho e bom Sol)

(a nebulosa da formiga).

Escrito por Marcelo Coelho às 13h36

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Um poema de Penelope Shuttle

Ainda sobre zoológicos e crianças, encontro estes versos de Penelope Shuttle em seus "Selected Poems":

ZOOLÓGICO, MANHÃ

 

 

Os elefantes se aprontam para parecer solenes e mover-se devagar/embora a noite toda tenham bebido e dançado, farreado/e jogado cartas, sem fingir velhice.

 

Notívagos eruditos, os macacos tiram os óculos,/guardam seus tomos e teses,/suspirando, enquanto se preparam para mais um longo dia/de grunhidos e gesticulações, disparates e escândalos para os visitantes.

 

Os ursos param de gritar suas palavras de ordem/ e adotam sua atitude de bichinhos fofos-mas-não-tão-fofos-assim/ no fundo do poço de concreto.

 

Os grandes felinos escondem suas prensas de herborista, bastidores de bordado e aquarelas;/resmungando, ensaiam alguns rugidos de treinamento./Seu ofício é despedaçar o ar, devorar carcaças,/espreguiçar-se e dormir em seu vicioso bem-estar carnívoro./Que vida./Mas nenhum deles gostaria de desistir do show-business.

 

As cobras que estão sempre mudando,/pele depois de pele,/abrem os olhos idosos e as dobradiças das mandíbulas, em boas-vindas.

 

Entre picadeiro e cercado/ conduzimos nossos filhotes sem pêlos./Nossa fala é demasiado complexa e enganosa./ Nosso dia não é tudo o que deveria ser./ As crianças berram, espantadas.

 

Todo bicho é muito bom em ser bicho./Como de costume, não estamos cem por cento ao sermos nós./Nossos cheiros humanos nos aprisionam.

 

No pavilhão dos insetos/a aranha de joelhos vermelhos dança com suas oito leves fantasias;/ na sua prateleira de silêncio ela valsa e rodopia; jubila em suas juntas peludas, em seus olhos de rubi.

 

 

"Reino Pacífico", de Edward Hicks (1834)

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h31

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1607200704.htm

Na coluna do "Agora", as contrastantes emoções do Pan.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h33

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No zoológico

No zoológico

Como a maioria dos pais, acredito que crianças pequenas gostem de ir ao Zoológico. Minhas próprias memórias de infância, contudo, não confirmam a hipótese. Tinha um amiguinho que, esse sim, adorava –e muitas vezes lhe fiz companhia, sem partilhar nada de seu êxtase diante do hipopótamo e do jacaré. Vejo agora, com meus filhos, que se maravilham muito menos do que eu. Talvez as crianças estejam mais próximas do mundo animal: estão imersas em histórias de bichos, desenhos de bichos, filmes de bichos, e a experiência de conhecê-los, digamos, “em pessoa” talvez lhes decepcione um pouco. Afinal, eles não falam no Zoo; são menos amistosos e costumam cheirar mal. Talvez seja muito espírito crítico de minha parte; de resto, considero-os mais bonitos e impressionantes cada vez que os vejo novamente.

 

Levei meus filhos ao que sempre chamei de Simba Safári, mas hoje se chama, creio, Zoo Safári. É bastante barato, tem funcionários simpaticíssimos e boa organização, embora, como sempre, o estilo brasileiro se imponha sobre o local. Antes de você chegar, ambulantes aparecem vendendo saquinhos de amendoim para alimentar os animais. Vinte metros adiante, na entrada do Safári, há uma placa avisando que só se pode dar aos bichos uma ração apropriada, vendida em bonitos pacotinhos. Pergunto à moça do caixa, que confirma a recomendação, mas... “como hoje está meio vazio, os bichos não estão comendo tanto amendoim assim, e se você der não vai desbalancear a dieta.”

 

Não achei ruim; eis um caso de flexibilidade nas normas tipicamente brasileiro que, afinal de contas, não serve para deixar ninguém indignado. Em todo caso, os amendoins foram um sucesso.

 

Para as crianças, é uma alegria encontrar emas, camelos e lhamas capazes de comer em suas mãos, e não há dúvida de que o zoológico tradicional, com ursos no fundo de um poço e leões dormindo no fundo de uma minúscula caverna. Para os adultos, a sensação é bem diversa. A proximidade visual com os animais leva a descobertas algo embaraçosas.

 

Uma girafa está praticamente encostada no carro; posso discernir a estrutura de suas manchas, o tamanho das patas, a proporção do pescoço. Um olhar a mais e... vejo que não é girafa, é girafo. Um robusto aparelho reprodutor, inteiramente recoberto de pelagem branca, se vê encostado à barriga do animal. No mundo mais inquieto dos símios, uma população de macacos-aranha, inteiramente negros, com braços e pernas desproporcionalmente longos, traz pendurado no traseiro algo como um fino apêndice carmesim. Do camelo, não vi nada, exceto, já na saída do Safári, contornando seu reduto, a perspectiva traseira do animal sentado: toda a austera indiferença do animal, sua altura nobre e distante, se transformou então numa estranha imagem de matrona cansada em alguma colônia de férias, de quem tiraram a cadeira de alumínio Rochedo, e se senta na areia de qualquer jeito.

 

Escusado dizer que o bom educador não chama demasiado a atenção das crianças para essas particularidades da zoologia.  

 

 

Todos de roupa por aqui.... Mais ilustrações do tipo no belo site abaixo: 

http://www.kidsdeserveart.com/Paintings.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 10h30

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Lula vaiado

Vaia é vaia. As explicações podem ser múltiplas a respeito de “quem” vaiou de fato Lula na abertura do Pan, mas duvido que isso tivesse acontecido durante aquele período de “lua-de-mel” do primeiro mandato, quando o presidente não parava de dar autógrafos à população onde quer que estivesse.

 

Acho duvidosas as teorias em torno de um “país dividido”: os pobres a favor de Lula e os “ricos” que o vaiaram no estádio. Ricos porque, segundo a reportagem, puderam pagar um ingresso de no mínimo R$ 25. Sem dúvida, o país está dividido, e estava já nas eleições, entre Alckmin e Lula. Ficou a imagem de que Alckmin era o candidato dos ricos –o que pode ser verdade, mas não foi só dos ricos: não os há em número equivalente às dezenas de milhões de votos obtidos pelo tucano. Que, mesmo assim, foi derrotado sem piedade (no segundo turno, é preciso não esquecer).

 

Não foi uma vaia de ricos contra o presidente dos pobres. Foi um sinal de declínio da popularidade de Lula? Sim, mas não necessariamente vai se refletir nas pesquisas de opinião. Mesmo que 60 ou 70 por cento da população considerem que o governo Lula é bom, isso não é sinônimo de aplauso imediato e “viva Lula” em qualquer circunstância. A avaliação de um governo é comparativa e individual; o entrevistado pensa nos prós e contras, nos governos anteriores, nas suas perspectivas pessoais, e pode serenamente dizer “bom” ao entrevistador.

 

Outra coisa é estar no meio de um estádio lotado, esperando a abertura dos jogos, e ver o presidente ser anunciado pela autoridade esportiva ali presente. Creio que, num ambiente de antipatia da classe média por Lula, o que preponderou nessa hora foi a reação contra um político que parece, naquele momento, estar “roubando a festa”, “tirando uma casquinha”, como se diz, da multidão que não foi lá para aplaudir autoridades. O prefeito César Maia foi aplaudido, com razão, por ter se empenhado diretamente na realização dos jogos.

 

Mas acho que a vaia contra Lula refletiu antes de tudo uma rejeição aos políticos em geral; e, se cai a popularidade do presidente, ou se a rejeição a seu nome se mantém na classe média, isso se deve em grande parte não ao desempenho de seu governo, mas à decepção diante de alguém que se dizia “diferente de tudo o que está aí” e hoje apóia e é apoiado pelos Renans Calheiros, Malufs, Collors: tudo aquilo que sempre esteve aí. Acho plausível que alguém até vote nele, ou não considere ruim o seu governo, e ao mesmo tempo queira dar um recado de insatisfação e impaciência quando ele aparece do nada, num evento esportivo, para ser aplaudido, sem ter nada a ver com o peixe. 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h14

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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