Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

de assim a gente se entende

de assim a gente se entende

Um leitor manda esta foto, tirada em Trindade (RJ), notável pelo didatismo.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h15

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luzes no metrô

Em tempos de apagão aéreo, há uma boa iniciativa ocorrendo em algumas estações de metrô em São Paulo, no Rio e no Recife. Atrasos e precariedade de serviço, sem falar em superlotação e falta de “aeroportos”, isto é, estações e linhas, são comuns nesse meio de transporte urbano, para não falar de eventuais acidentes e tragédias. Transcrevo trechos do release que recebi, muito simpático aliás. 

 

Diariamente, a secretária Sirlea Maria dos Santos coloca a leitura em dia ao aproveitar o tempo que passa dentro do metrô de São Paulo quando se dirige

ao trabalho. São quase três horas de viagem na rede metroviária paulista, divididas entre ida e volta, em três linhas: Vermelha, Azul e Verde. Ao todo

já leu cerca de 120 livros, o que dá uma média de um exemplar por semana. Os títulos são emprestados da biblioteca Embarque na Leitura, instalada na

estação Paraíso.  Sirleia é sócia desta unidade desde sua inauguração, em setembro de 2004.

 

A biblioteca Embarque na Leitura faz parte do projeto Bibliotecas no Metrô,idealizado e gerido pelo Instituto Brasil Leitor (IBL).  Além da estação

Paraíso, o projeto está presente também nas estações Luz e Tatuapé, inauguradas, respectivamente, em 2006 e 2005. Juntas, as bibliotecas já

emprestaram cerca de 150 mil livros. Ao todo, são 21.000 sócios, 67,5% pertencentes ao público feminino, que têm à disposição um acervo com mais de

11 mil obras. Entre os livros mais procurados estão: O Código da Vinci, Fortaleza Digital, Anjos e Demônios, todos de Dan Brown; Memórias de Minhas

Putas Tristes, de Gabriel García Marques; e A Casa na Rua Esperança, de Danielle Steel.

[Danielle Steel e Dan Brown não são propriamente responsáveis pelo que eu chamaria de "luzes no metrô", mas em todo caso são autores para aeroporto nenhum botar defeito]

Embarque na Leitura funciona de segunda à sexta-feira, das 11 h às 20h, nas estações Paraíso, Tatuapé e Luz. Para se inscrever, os interessados devem

apresentar documento de identidade e CPF (original e cópia), juntamente com uma foto 3x4. Também é necessário levar o comprovante de residência

(original e cópia).  Menores de 12 anos devem estar acompanhados dos pais. Os leitores são cadastrados e recebem uma carteirinha de identificação com

foto e código de barra para fazer os empréstimos.

O projeto Bibliotecas no Metrô conta ainda com mais duas bibliotecas em outras duas capitais: Livros e Trilhos no Rio de Janeiro (Estação Central) e

Leitura nos Trilhos em Recife (Metrô Recife), inauguradas em dezembro de 2006 e em abril deste ano, respectivamente. No Brasil, as cinco Bibliotecas

somam cerca de 25 mil associados e 15,6 mil livros. 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 20h50

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protesto aéreo

Quando houve o acidente na estação do metrô, em Pinheiros, noticiei a iniciativa de alguns cidadãos que quiseram pôr flores no lugar, com uma faixa falando de dor e indignação. Era meio difícil colocar as flores ali, e a coisa acabou não pegando. Agora, circula pela internet uma proposta curiosa de protesto contra o apagão aéreo, o "no-fly day". A idéia é não pegar aviões no dia 18 de agosto. O protesto tende a cair no vazio, porque muita gente que gostaria de protestar vai acabar voando do mesmo jeito, por necessidade, e muita gente que nem sabia do protesto talvez não voe, porque pode haver suspensão de atividades no aeroporto, mau tempo, pista alagada, etc... Em todo caso, isso não invalida a idéia de uma passeata em São Paulo pelas vítimas do acidente da TAM e em protesto, não apenas contra o governo, mas contra agências e empresas aéreas. Tudo se partidarizou totalmente nessa questão, o que é diferente de politizar a questão, como seria de qualquer modo necessário fazer. Que o digam os controladores de vôo, às vezes vítimas, às vezes vilões da discussão. Em todo caso, transcrevo o release que recebi.

O Objetivo do NO/FLY DAY é fazer um ato de protesto da população (um ato pacífico e apartidário) contra a incompetência do governo federal / agências / empresas aéreas para dar uma solução ao problema aéreo que já vem dando claros sinais de colapso muito antes do acidente da GOL e, depois de nada feito, culminando com o acidente da TAM dia 17/7.

Este ato de protesto será um dia "greve de passageiros" em todo o Brasil - NO/FLY DAY (18 de Agosto).  Com isso mostraremos aos governantes e responsáveis por este caos que o público não é bobo e sabe se organizar.  Em São Paulo, faremos uma passeata do Ibirapuera a Congonhas em homenagem as vítimas. 

Esse protesto é uma forma da população dar uma demonstração organizada e forte sobre o absurdo que estamos vivendo: as empresas aéreas não fazem nada por terem interesses econômicos em jogo, as agências estão corrompidas e ineficientes, o Congresso Nacional atrapalhado e submisso, e o Governo Federal apático e inábil. E nós, os usuários do sistema, temos como única forma de protesto gritar nos balcões das empresas aéreas (o que nada resolve) e colocar notas / cartas nas colunas de leitores dos jornais. 

> Se Você mora fora da Capital (SP)

Faça um ato de protesto nesse dia e não viaje de avião.  Convença um amigo ou parente a fazer o mesmo, e diga a ele/ela para convencer o próximo.

 

Se Você mora na Capital (SP)

Além de não voar nesse dia venha ao obelisco do Ibirapuera Sábado, 18 de Agosto, as 16hrs.  As 17 hrs iniciaremos uma marcha pela Washington Luis até a cabeceira da pista de Congonhas, local do acidente da TAM.  Venha de camiseta branca.  Lá prestaremos uma homenagem às vítimas dos vôos TAM 3054 e GOL 1907.

 

www.noflyday.com.br

 

Escrito por Marcelo Coelho às 20h39

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as ironias de Zizek

as ironias de Zizek

Agora mais do que nunca, o conceito de totalitarismo está servindo para neutralizar os “radicais livres” e garantir a hegemonia liberal-democrata no mundo globalizado. Esta é a opinião do teórico lacaniano-marxista Slavoj Zizek, num livro publicado pela editora Verso em 2001, que leio na tradução francesa (Vous avez dit totalitarisme?, ed. Amsterdam).

 

Se a tese é pouco original, cada página do livro de Zizek parece competir em originalidade com a anterior. Tipicamente, o autor compara o papel de Deus na cristologia de Abelardo ao de uma vilã num romance policial de Patrícia Highsmith, e usa uma passagem do blockbuster americano Men in Black para exemplificar o conceito freudiano de “Verwerfung”. Tudo é brilhante, a ponto de ser ofuscante, e a escrita de Zizek é claríssima, exceto pelo fato de não sabermos para onde vai.

 

Nesse sentido, talvez seja resultado das contingências vividas pelo conferencista ou professor universitário nos dias de hoje. É preciso lidar com platéias com déficit de atenção e lacunas insondáveis no repertório cultural básico, de modo que o único terreno seguro, para o expositor, são os filmes de Hitchcock ou os clipes de Madonna, a que com certeza todo mundo já assistiu.

 

Seja como for, a capacidade interpretativa do autor é fabulosa; três páginas sobre Jean de Florette e Manon des Sources, filmes de Marcel Pagnol que tiveram um “remake” de sucesso feito por Claude Berri, são extraordinariamente esclarecedoras e persuasivas. “Ganhando” a adesão do leitor-platéia no varejo, sem dúvida Zizek poderá convencê-lo, ao final do livro, da tese mais ampla que ele pretende defender. Entretanto, o momento dessa defesa é sempre adiado, e ficamos desconfiando se não terminará como um truque de prestidigitador. A técnica do mágico profissional, como se sabe, é atrair a atenção do público para algo secundário, evitando que os olhares identifiquem o movimento crucial de que o truque depende.

 

Ao mesmo tempo, Zizek sabe como ninguém atrair para o “lugar errado” não apenas as atenções, mas também a desconfiança do leitor. Assim, há algumas anedotas e exemplos que, no mínimo, parecem implausíveis, deixando-nos em dúvida sobre a seriedade da análise; a ironia é permanente, e por vezes não sabemos se o autor está de fato falando a verdade. Pessoalmente, achei suspeito o caso que transcrevo a seguir.

 

Em 1991, depois do golpe de Estado fomentado pela nomenklatura contra Ceausescu, a polícia secreta romena continuou naturalmente a funcionar como de costume; mas seus esforços para transmitir uma nova imagem de si mesma, adequada aos novos tempos “democráticos”, produziram estranhas peripécias. Um de meus amigos americanos, que estava na época em Bucareste para um intercâmbio universitário, telefonou para a sua casa uma semana depois de sua chegada à Romênia e contou a sua companheira que aquele era país pobre mas acolhedor, onde as pessoas eram simpáticas e sequiosas de conhecimento. Assim que ele desligou, o telefone tocou novamente; do outro lado da linha, num inglês desajeitado, alguém se apresentou como o funcionário encarregado de fazer a escuta telefônica de seu quarto, e o agradeceu pelas coisas amáveis que havia dito sobre a Romênia, desejando-lhe uma agradável estadia. Este livro é dedicado a esse agente anônimo da polícia secreta romena.

 

Será verdade? Uma hipótese: o funcionário da polícia secreta quis informar o professor de que havia escuta telefônica; tratava-se de um boicote a funções que, embora pago para exercer, ele sabia não terem mais sentido. Segunda hipótese, mais fantástica, mas que conhecendo o humor de Zizek não me parece totalmente absurda. O próprio Zizek estava com a companheira do professor naquele momento, ouviu a conversa, e resolveu passar um trote no professor fazendo-se de agente policial romeno... Típica diversão de humor totalitário, portanto.     

Escrito por Marcelo Coelho às 09h46

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os porquinhos filósofos

Uma vez vencido o Lobo Mau, a rotina na casa do Porquinho Prático se estabeleceu rapidamente. Heitor, que havia construído a casa de palha, dedicou-se à crítica cultural. Escreve no momento um ensaio em que defende as virtudes da leveza, do improviso e da delicadeza, a seu ver irremediavelmente esquecidas pelo mundo moderno. “O espírito de Ariel”, declara, “fruto perfumado de uma raça nômade, despreocupada e feliz, vê-se enclausurado nos muros sufocantes da muralha grotesca de Caliban.”

 

Cícero, o construtor da casa de madeira, sorri da inconseqüência e do diletantismo de Heitor. Seus escritos de Filosofia Moral levantam uma questão a seu ver mais amarga e pertinente. Trata-se de revalorizar a experiência do Trágico na alma contemporânea. “São inúteis as nostalgias por um passado supostamente mais feliz”, escreve Cícero; “a própria idéia de felicidade deve ser acusada como principal responsável por um trauma, uma hecatombe, que estamos condenados eternamente a reencenar, uma vez que faz parte de nossa própria natureza. Não há morada segura, com efeito, para nós.”

 

Enquanto isso, atrás de uma cerca eletrificada, o Porquinho Prático cultiva verduras transgênicas no jardim. O Lobo Mau, por sua vez, arranjou um trabalho temporário como motoqueiro numa pizzaria delivery.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h04

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bola de cristal

Novamente me vejo forçado a esclarecer que não tenho qualificação técnica para opinar sobre o assunto, mas arrisco mesmo assim uma previsão sobre a crise aérea. Se depois não se confirmar, paciência. Isto aqui não é uma bolsa de apostas nem um site eleitoral. Estou apenas exercendo o direito, e o prazer, de pensar em público.

 

Pois bem, acho que a crise aérea vai arrefecer dentro de alguns meses. Não por causa do “novo comando” de Nelson Jobim no Ministério da Defesac (nisso eu não acredito mesmo) nem por causa de “novos investimentos” e do tal “novo aeroporto” (para mim, apenas uma coisa para pôr no discurso de Lula, sem que se tenha sequer avaliado direito a possibilidade de ampliações em Viracopos, Jundiaí ou sei lá onde).

 

A única coisa capaz de diminuir a crise aérea, num país onde faltam investimentos para tudo, se chama aumento de preços das passagens. Não é preciso entender de flaps, groovings e cindactas para ver, em qualquer aeroporto, um fenômeno elementar: milhares de pessoas entupidas na frente de um balcão e um funcionário xingado atrás do balcão. Isso se chama excesso de demanda. E acaba quando o preço sobe. Que usem esse aumento de preço para fazer novas pistas, comprar novos equipamentos de controle de vôo, aumentar o salário dos controladores, é outro capítulo. Quanto mais baratas forem as passagens, mais um aeroporto parecerá com rodoviária.

 

Junitis, Jobins, Lulas, Zuanazzis e Waldires podem ficar, não ficar, fazer, não fazer, dizer ou não bobagens (Nelson Jobim tende, pelo que me lembro, a falar um bocado e já inaugurou o posto com um belo erro de português). Isso é bastante secundário.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h55

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2507200704.htm

Momento de populismo sobre o Pan, na coluna de hoje no "Agora"

Escrito por Marcelo Coelho às 15h12

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Escrevo na "Ilustrada" de hoje sobre "O Tango de Rashevski", filme que fui ver graças à indicação de Leonardo Cruz no blog de cinema aqui da Folha On Line. O filme piora um pouco no final, quando há algumas aparições fantasmagóricas que não combinam com o estilo, mais crítico e humanista que sentimental, da obra em seu conjunto. Mas vale a pena ver. Uma cena no fim, quando vemos dois irmãos se abraçando, resume bem o tipo de cuidado estético do diretor. Os dois estão muito comovidos e unidos, mas seria fácil filmar a cena de modo "emocionante". Sam Garbarski usou uma câmera bem no alto, apresentando os dois irmãos no meio de muitas outras pessoas, num ângulo perpendicular ao solo. De modo que vemos apenas duas carecas se unindo num canto da tela. As carecas são parecidas, de irmão mais novo e irmão mais velho, e ao mesmo tempo, naquela altura de "O Tango de Rashevski", é como se já soubéssemos perfeitamente o que se passa dentro de cada um. Não faz derramar lágrimas no público, mas é muito emocionante; intelectualmente emocionante, se posso dizer assim.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h01

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pérolas do enem

Recebo de uma leitora algumas pérolas do Enem, vindas de Vitória, capital do Espírito Santo. A ignorância é enorme, mas como os atos falhos e os sonhos, pode ter às vezes uma insuspeita qualidade poética. Aqui vão.

O Brasil não teve mulheres presidentes mas várias primeiras-damas foram do sexo feminino.

Animais vegetarianos comem animais não-vegetarianos.

Não cei se o presidente está melhorando as insdiferenças sociais ou promovendo o sarneamento dos pobres.

Fidel Castro liderou a revolução industrial de 1917, que criou o comunismo na Russia.

O Convento da Penha foi construído no céculo 16 mas só no céculo 17 foi levado definitivamente para o alto do morro.

A História se divide em 4: Antiga, Média, Momentânea e Futura, a mais estudada hoje.

Os índios sacrificavam os filhos que nasciam mortos matando todos assim que nasciam.

Bigamia era uma espécie de carroça dos gladiadores, puchada por dois cavalos.

No começo Vila Velha era muito atrazada mas com o tempo foi se sifilizando.

A capital da Argentina é Buenos Dias.

A prinssipal função da raiz é se enterrar no chão.

As aves tem na boca um dente chamado bico.

A Previdência Social assegura o direito a enfermidade coletiva.

Respiração anaeróbica é a respiração sem ar, que não deve passar de 3 minutos.

Ateísmo é uma religião anônima praticada escondido. Na época de Nero, os romanos ateus reuniam-se para rezar nas catatumbas cristãs.

Os egipícios dezenvolveram a arte das múmias para os mortos poderem viver mais.

O nervo ótico transmite idéias luminosas para o cérebro.

A Geografia Humana estuda o homem em que vivemos.

Os Estados Unidos tem mais de 100.000 Km de estradas de ferro asfaltadas.

As estrelas servem para esclarecer a noite e não existem estrelas de dia porque o calor do sol queimaria elas.

Republica do Minicana e Aiti são países da ilha América Central.

As autoridades estão preocupadas com a ploleferação da pornofonografia na Internet.

A ciência progrediu tanto que inventou ciclones como a ovelha Dolly.

O Papa veio instalar o Vaticano em Vitória mas a Marinha não deixou para construir a Capitania dos Portos no mesmo lugar.

A devassa da Inconfidência Mineira foi Marília de Dirceu, a amante de Tiradentes.

Hormônios são células sexuais dos homens masculinos.

Onde nasce o sol é o nacente, onde desce é o decente.

A terra é um dos planetas mais conhecidos e habitados no mundo. Os outros planetas menos demográficos são: Mercurio, Venus, Marte, Lua e outros 4 que eu sabia mas como esqueci agora e está na hora de entregar a prova, a senhora não vai esperar eu lembrar, vai ? Mas tomara que não baixe minha nota por causa disso porque esquecer a memória em casa todo mundo esquece um dia, não esquece ?

O principal matrimônio de um país é a educassão.'

Os anaufabetos nunca tiveram chance de voltar outra vez para a escola.

 

 

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Escrito por Marcelo Coelho às 14h29

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Pesadelos de Adorno

Pesadelos de Adorno

Theodor Adorno tinha visões extremamente sombrias a respeito do mundo contemporâneo. Se, quando acordado, tudo lhe parecia assustador, as coisas ficavam piores ainda quando ele dormia. “Os sonhos são mais negros do que morte”, disse ele, e a frase se confirma em “Dream Notes”, um livro recém-publicado nos Estados Unidos pela Polity Press, contendo as anotações feitas por Adorno a respeito dos sonhos que ia tendo. A primeira anotação é datada de janeiro de 1934, ainda em Frankfurt, e a última é de 12 de abril de 1969, em Baden-Baden.

 

Não é possível, como observa Jan Philipp Reemtsma no sensato e refinado posfácio do livro, “interpretar” os sonhos do professor Adorno; só através das próprias associações e reminiscências que o sonhador viesse a ter, no divã do psicanalista, algum sentido biográfico concreto haveria de ser alcançado. Tais como relatados no livro, os sonhos se sucedem como pedras negras, massas informes de basalto, surdas a qualquer “abre-te sésamo”. Qual será a etimologia, ocorre-me perguntar, da palavra “pesadelo”? Há sem dúvida alguma sensação de negrume associada à idéia de peso, de prisão, de labirinto.

 

Adorno sonha freqüentemente com execuções, crucifixões, cerimônias acadêmicas, bordéis. Num pesadelo bem impressionante, dão-lhe de presente um belo menino louro para ele torturar à vontade. Em outro, Adorno será crucificado e recebe instruções médicas sobre como se preparar para a ocasião. Eis um sonho que Adorno teve já no exílio em Los Angeles, no dia 14 de julho de 1945:

 

Cena de execução. Não ficou claro se as vítimas eram fascistas ou antifascistas. De qualquer modo, era uma multidão de jovens nus e atléticos. Mas tinham a aparência de suas próprias estátuas de bronze: verde-metálicos. A execução transcorria como uma operação “self-service”. Todos subiam na guilhotina automática, sem nenhuma ordem visível, e saíam de lá sem a cabeça, cambaleando por alguns passos, e em seguida caíam mortos. Lembro de uma pessoa mais jovem, um menino, que como por brincadeira empurrou os outros para adiantar-se à entrada da guilhotina, furando a fila e tomando o lugar de um homem mais velho, como se estivesse desejoso de ser guilhotinado primeiro. Observei os movimentos dos homens sem cabeça e pensei que eu deveria descobrir se eles ainda estavam conscientes e se, como parecia ser o caso, eles tomavam cuidado para não cair uns em cima dos outros. Olhei atentamente um jovem. Depois de alguns passos ele ficou plantando bananeira várias vezes, como se estivesse praticando saltos, e então caiu em cima de outro cadáver. Tudo sem uma única palavra ou som. Assisti à cena sem nenhuma emoção, mas acordei com ereção. (Eles iam para a guilhotina um depois do outro, como se estivessem num treino. De fato, minha impressão era a de um exercício de ginástica).

 

Naturalmente, as idéias de Adorno a respeito do assassinato em massa numa sociedade administrada totalitariamente –o sonho é da época de sua Dialética do Esclarecimento—aparecem aqui. E há outros sonhos que com toda a certeza só mesmo Adorno poderia ter tido.  Em 1964, ele sonha estar num hotel, assistindo a uma palestra de um psicoterapeuta sobre Schubert. Um pianista de bar, muito mal-vestido, começa a tocar num instrumento desafinado. O psicoterapeuta começa a cantar, com voz de bêbado, em dialeto popular, um trecho de uma canção de Schubert.

 

Como em Hollywood, a diferença entre Schubert e uma opereta desapareceu. Vi-me dominado por uma fúria insensata. Procurei os hóspedes do hotel (...) e discursei para eles argumentando que aquela performance era tão bárbara que tornava bárbaros todos aqueles que a tolerassem. Minha eloqüência não caiu no vazio. Todos nos juntamos para surrar o psicoterapeuta até a morte. Fiquei tão agitado que acordei.

 

Outras ocasiões são mais felizes. Adorno sonha estar dançando com um cão dinamarquês gigante, como o que tinha na infância; o cão está com um vestido de baile, e eles se beijam. Em outro sonho, é Anatole France quem de repente se transforma em mulher elegante. Cultura e barbárie, sexo e massacre, estavam sempre dançando dialeticamente no espírito –e nos sonhos—de Adorno.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h00

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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