Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

voltaire de souza (2)

Como não deixei o link para a coluna de quinta-feira, vai aqui o texto integral.

 

A ESPERANÇA SE VESTIU DE PRETO

 

Corrupção. Escândalos. Bandalheira.

A classe média está cansada. Elenice dava um suspiro.

--As crianças... o trabalho... e agora o meu sogro.

A saúde do sr. Landolfo andava muito debilitada.

--Não enxerga direito... e anda tão sem ânimo...

Antidepressivos podem ajudar na terceira idade.

--Diz que o país não tem conserto. Que não quer saber de nada...

O sr. Landolfo passava os dias mudo diante da TV.

Doses diárias de Animix passaram a ser-lhe administradas por via oral.

Uma tarde, Elenice teve a surpresa.

O sr. Landolfo sorria. Atitude de triunfo. De confiança.

--O país vai dar certo. Vão finalmente prender os corruptos.

Elenice precisava de mais explicações. Lindolfo apontou para a TV.

--Contrataram o Batman. Para acabar com a corrupção.

Não era o Batman. Era apenas a toga preta de um ministro do STF.

O remédio foi suspenso. O sr. Landolfo já se acostuma à casa de repouso Pôr-do-Sol. Onde os escândalos mais comentados são do tempo de JK.

Alguns lares são como tribunais. Um dia chega a aposentadoria compulsória. 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h25

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co3108200704.htm

Nas Faculdades Pintassilgo, publicitários famosos podem ser impopulares, comenta o cronista (para assinantes do uol).

Escrito por Marcelo Coelho às 22h18

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História da impotência

História da impotência

Marcados pela tradição do empirismo e do “sólido bom senso”, muitos críticos e filósofos ingleses não engolem a psicanálise, e sempre que podem encontram ocasião para zombar de Freud e seus seguidores. Leio no “TLS” de 8 de junho a resenha de Richard Davenport-Hines sobre um livro que deve ser interessante, Impotence: a cultural history, de Angus Mc Laren.

 

A idéia, naturalmente, é levantar (hum!), ao longo do tempo, as diferentes reações diante do que hoje se chama disfunção erétil. Ficamos sabendo que Madame de Sévigné gargalhou incontrolavelmente ao saber de um fracasso sexual do seu filho. Depois estranhamos a falta de compostura dos dias atuais...

 

Vêm então as teorias: acreditou-se por bom tempo na ação de feiticeiras. Montaigne, que não acreditava em bruxas, era forte adepto da psicologia. Um jovem, escreve ele num dos seus ensaios, confessou-lhe ter medo de falhar na noite de núpcias. Montaigne receitou-lhe um chá, ou uma erva qualquer, sabendo que aquilo era um puro placebo. Mas, diz ele com certo orgulho, e certa ingenuidade, que o principal era dar autoconfiança ao rapaz, que a teve, aliás, de sobra. Mais uma vez Montaigne confirma sua tese, que não é propriamente cética, a respeito da importância que nossas crenças têm sobre nossas ações.

 

Davenport-Hines não cita esse exemplo, mas vai direto na jugular de Freud. Um psicanalista, citado por Angus Mc Laren, concluiu que é uma tarefa muito difícil tratar da potência sexual dos maridos, no caso dos casamentos que não se consumam, mas que

 

em poucas semanas podemos torná-los potentes, se tratarmos de suas mulheres ... se a mulher consente que o homem seja agressivo, e mesmo tira prazer disso, o efeito será maior nele do que o de qualquer tratamento psiquiátrico.

 

 Eis o que se chama de autoconfiança clínica... Pior é o caso de Ernest Jones, biógrafo e discípulo de Freud, que definia potência “como a capacidade de empreender intercurso vaginal”, seguindo-se, portanto, que todo homossexual é impotente, “qualquer que seja a sua potência com membros do mesmo sexo”.

 

A bruxaria talvez seja uma explicação melhor. Desde que interpretada psicanaliticamente: a “bruxa” culpada da impotência não é a curandeira da esquina, mas sim um deslocamento da própria figura materna na psique do impotente. O que dá um tom mais aterrorizante, sem dúvida, às gargalhadas de Madame de Sévigné.

 

 Madame de Sévigné (1626-1696)

Escrito por Marcelo Coelho às 00h39

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Bem-vindo ao Windows Vista

Estou com um computador novo, daqueles que já vêm com a mais nova e diabólica invenção de Bill Gates, o Windows Vista.

 

Uma coisa boa do novo software é que foi eliminado aquele chato ícone de uma ampulheta, que nunca me pareceu uma ampulheta de verdade, e não dava nenhuma impressão de transcurso de tempo.

 

O Windows Vista exibe um lindo anelzinho luminoso, que gira hipnoticamente enquanto o usuário espera que as coisas funcionem.

 

Mas as coisas não funcionam. Não funcionam de jeito nenhum. O velho outlook express, que tantos vírus e spams já me trouxe, deixou de existir. Em seu lugar existe um programa chamado windows mail, que me proíbe de ter mais de uma identidade/endereço eletrônico, coisa importante para quem usa pseudônimos literários.

 

Tudo agora baixa ao mesmo tempo, numa ingurgitação de e-mails inadministrável.

O pior é quando eu quero fazer a simples e civil operação de responder a um e-mail.

O anelzinho mágico aparece, e posso esperar dois ou três minutos até que se abra uma caixinha onde escrever meu e-mail de resposta. Em resumo, é mais fácil receber cartas de Hogwarts, enviadas por meio de corujas amestradas, do que proceder às mais simples rotinas do outlook.

 

Fuja do Windows Vista, se puder. E bem-vindo à militância anti-Gates.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h03

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Caso Conpresp

Caso Conpresp

http://gabinetesoninha.zip.net/

Atendendo à recomendação de um leitor, li no blog político da vereadora Soninha a sua narrativa da votação na Câmara de nova lei limitando tombamentos na cidade. Vereadores do PT não se saem bem nesse episódio, e não acho que tenha pisado na bola no meu post anterior sobre o assunto. Leia e verifique.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h47

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2908200704.htm

A situação financeira dos policiais de nosso país pode levar a sérios desentendimentos, observa o colunista (para assinantes do Uol).

Escrito por Marcelo Coelho às 15h31

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Festa na oposição

As decisões do STF no caso do mensalão despertaram, a meu ver, uma onda de certo triunfalismo na imprensa e na oposição. Pessoalmente, gostei também do resultado, não porque odiasse especialmente este ou aquele acusado. Acho que o principal, na minha atitude, foi uma sensação de reconforto.

 

É que, na verdade, à medida que o tempo ia passando ganhou força a versão petista de que tudo aquilo não tinha sido nada de tão grave assim; a estratégia de considerar os pagamentos a deputados como um simples acerto de gastos de campanha, eliminando as vantagens obtidas pelos bancos e por Marcos Valério no negócio, tornava-se aos poucos predominante na memória geral.

 

Quando vemos juízes do Supremo discutindo em minúcia cada caso, e tomando por algo mais do que meras “suposições” e “perseguições da imprensa” as evidências da tramóia, cresce a sensação de que, afinal, os petistas não tinham razão em confiar que poderiam fazer todo mundo de idiota.

 

Mas o triunfalismo não tem tanta razão de ser. Em primeiro lugar, o que houve foi apenas o recebimento da denúncia. Mesmo que não ocorra a prescrição de alguns casos, nada impede que muita gente seja absolvida por falta de provas. Em segundo lugar, colocando-me na pele de um ministro do STF, aceitar a denúncia seria o mais prudente a fazer neste momento. Se, do ponto de vista de uma Justiça absolutamente imparcial, é necessário pensar no prejuízo moral que pode recair sobre um cidadão ao ser considerado “réu” de um processo, o fato é que o prejuízo moral em cima dos acusados do mensalão, muitos deles até cassados, já ocorreu de qualquer modo. Aceite-se então a denúncia, e a absolvição posterior pode até ser feita, com mais tranqüilidade, sem jogar sobre o tribunal suspeitas de complacência.

 

Curiosamente, o ministro Eros Grau, sobre cuja severidade alguns de seus colegas lançavam dúvidas, acolheu praticamente todo o relatório de Joaquim Barbosa. E Ricardo Lewandowski, que nas suas mensagens a Carmen Lúcia acreditava na leniência de Eros Grau, foi o mais reticente em aceitar as acusações. Sinal, quem sabe, de que os resultados finais do caso venham a ser distintos do massacre verificado neste julgamento.   

 

Também me parece forçada a interpretação de que o resultado do STF espirre muito no atual governo. Dá novo impulso à oposição, é claro, mas a distância de Lula frente ao que possa acontecer com Zé Dirceu e Gushiken revela-se imensa a cada dia. Pode-se martelar que foram ministros dele, mas já não são mais. No interior do PT, talvez decresça a tentativa de inocentar os companheiros e culpabilizar a imprensa. Mas, mesmo na hipótese de todos os mensaleiros serem condenados em definitivo, a culpa ficará com eles, e com mais ninguém. O governo, que sobreviveu à crise no seu auge, tem muito menos a temer agora do que naquele momento.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h27

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Pontilhismo e muzzarella

Pontilhismo e muzzarella

Segue a imagem de um cartaz de pizza em Bragança Paulista, infelizmente sem a nitidez que atenderia ao pontilhismo, quase floral, com que o pintor retratou os temperos da cobertura.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h33

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PT: acredite se quiser

Em “Deus, um delírio”, Richard Dawkins cita uma simpática frase de H. L. Mencken, na qual o jornalista americano diz, de bom grado, respeitar a crença dos outros. Respeito, diz Mencken, a religião de alguém, “do mesmo modo com que respeito sua afirmação de que tem filhos lindos e inteligentes.”

 

Nada de muito bélico, portanto. Mencken tinha uma tolerância que Dawkins, com razão, perdeu.

 

Mas aplico a mesma frase de Mencken com relação ao PT municipal. Há quem ainda acredite que o PT, etc. etc., é uma barreira de esquerda contra os avanços do capital.

 

Ocorre que a Câmara dos Vereadores está em guerra contra o Conpresp, órgão que se dedica a tombar prédios e logradouros históricos na cidade. A Câmara decidiu que o voto do Conpresp não vale tanto assim. Afinal, entre as questões em jogo está um conjunto de galpões industriais na Mooca, e doze edifícios históricos (e baixos) perto do Ipiranga.

 

Mas o mercado imobiliário gostaria de construir prédios nesses lugares. Insurgiu-se contra o Conpresp. A Câmara Municipal atendeu a essa revolta, diminuindo os poderes do Conpresp.

 

Seria de esperar, num mundo em que Deus existe, a revolta do PT diante dessa iniciativa do capital predatório. Leio, entretanto, que vários vereadores do PT concordaram com o fim do tombamento e com a redução de poderes dos tombadores.

 

Arselino Tatto, João Antonio, José Américo, e Paulo Fiorilo são do PT e são contra o poder dos tombadores. Receberam, em doações do mercado imobiliário, respectivamente as somas de R$ 39 200, 20 000, 100 000, e 2 000. 

 

Talvez tudo seja conspiração golpista da imprensa burguesa. O fato é que "direitistas, burgueses e fascistas de quatro costados", como o prefeito Kassab, se empenham no momento em vetar o projeto triunfalmente aprovado pela Câmara, com apoio de próceres do petismo municipal.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h20

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Brahms, Elgar, Dvorak

Brahms, Elgar, Dvorak

Talvez seja necessário ter nascido na Inglaterra para apreciar integralmente a música de Edward Elgar. Ouço, pela enésima vez, seu concerto para violoncelo e orquestra, agora na interpretação de Jacqueline du Pré (meu antigo Lp tinha como solista Paul Tortelier), e, como sempre, admiro a beleza imensa dessa obra.

 

Ao mesmo tempo, sua mistura de lirismo e contenção produz certo estranhamento. Elgar é capaz de lançar-se nas mais longas e melancólicas melodias, cortando-as em rompantes de raiva e desespero; não sei bem por que razão, entretanto, todos os extremos emocionais de sua música parecem enquadrados num ambiente de convencionalismo e timidez. Há uma espécie de “sapato apertado’ em sua música, coisa de que Brahms, mesmo reverente aos padrões do classicismo, sabia se livrar.

 

Dvorak, um brahmsiano sem sapato nenhum, fazia feliz uma música que, feitas as contas, resultou menos profunda, menos séria que a de Elgar. Mas se compararmos os concertos para violoncelo de Dvorak e de Elgar, o primeiro acaba sendo mais bem-sucedido artisticamente, embora tenha muito menor complexidade emocional. Será que o “menos” é “mais” nesse caso?

 

Ou será que estamos às voltas apenas com uma dificuldade de idioma? As restrições de Elgar seriam puramente “culturais”, isto é, “britânicas”, e isso dificulta em parte sua apreensão junto aos povos de outro mundo... Nesse caso, por incrível que possa parecer, o “nacionalista” Dvorak é mais fácil de apreender universalmente do que o meramente “britânico” Elgar... Sinal de que o império vitoriano iria logo perecer.

 

Sir  Edward Elgar

Escrito por Marcelo Coelho às 01h29

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homem e mulher

homem e mulher

A violoncelista Jacqueline du Pré e o pianista e maestro Daniel Barenboim se casaram em Israel, no ano de 1967, às vésperas da Guerra dos Seis Dias. Eles já estavam apaixonados, e o casamento estava programado para alguns meses depois. Mas é interessante ver, no documentário de Christopher Nupen a que estou assistindo agora, a diferença de atitudes entre um e outro.

 

Jacqueline du Pré conta que foi para Israel com Barenboim, às vésperas da guerra, porque ele se sentiu convocado a ir, e ela queria estar junto dele.

 

Barenboim, poucos minutos depois no mesmo documentário, especula sobre a afinidade musical que existia entre Jacqueline du Pré e ele próprio; considera que o entendimento entre músicos pode existir mesmo que não exista amor entre eles, e que podem existir músicos muito apaixonados sem o mesmo grau de entendimento musical. Veja aqui o filme em que du Pré interpreta o concerto de Elgar, com regência de Barenboim.

 

Seja verdade ou não, no filme de Nupen vemos a paixão de Du Pré contrastada com o racionalismo de Barenboim.

Jacqueline du Pré, Daniel Barenboim

Escrito por Marcelo Coelho às 00h39

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limites do talento

limites do talento

Acabo de falar, banalmente, no "talento" de Jacqueline du Pré. Mas talento é um conceito bastante vago, ou melhor, bastante limitado: remete à fisiologia do ouvido ou ao potencial do cérebro. Acredito que todo grande intérprete, e mais ainda todo grande artista, depende de muito mais do que o puro talento natural.

Penso em duas coisas, o caráter pessoal --no que implica de seriedade e respeito ao próprio objeto artistico-- e a "personalidade", que faz alguém ser magnético e capaz de atrair as atenções dos outros; é algo que o puro talento, a pura facilidade, o puro jeito, o puro intelecto não conseguem fazer.

Outra coisa seria, para ficar mais místico ainda, o tamanho da alma de cada um. Muitas pessoas de talento prodigioso se perdem, seja por falta de caráter, de convicção, seja por falta de magnetismo, seja por falta de alma.

Nem todas as almas, com efeito, interessam a Mefistófeles a ponto de serem tentadas por um pacto.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h09

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alegria de um professor

alegria de um professor

“A grande alegria”, diz um professor de música, “é poder oferecer a um ser humano uma quantidade enorme de coisa, e sentir que essa quantidade retorna, aumentada, com tamanha força inevitável, que você sente que esse processo pode ser infinito, e que nada irá detê-lo”.

 

Quem diz isso é o primeiro professor de violoncelo de Jacqueline du Pré, uma das maiores instrumentistas do século, sobre quem assisto um documentário agora.

 

A mãe de Jacqueline, que era pianista, conta mais uma história. Aos nove ou dez anos, a menina participou de um concurso de jovens violoncelistas. Havia um corredor muito longo levando ao lugar onde a competição seria realizada. Ela estava ali, com um rosto tão feliz, que alguém apareceu e comentou, simpaticamente: “Ah, pode-se ver que você foi bem no concurso”. Ela respondeu: “ não, eu vou entrar agora no palco”.

 

Temos a tendência para acreditar, otimisticamente, no talento de todo mundo. Mas talvez seja uma forma de evitar decepções futuras perceber o que é, de fato, um talento excepcional em seu início.

 

Os trechos que cito são de um documentário de Christopher Nupen sobre Jacqueline du Pré, sobre quem, como sabem os ouvintes de música clássica, há infelizmente muito o que falar.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h53

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cansado da Amazon?

cansado da Amazon?

Essa coisa de "Cansei" acaba pegando bastante nas elites. Sempre fui usuário da Amazon para importar livros, e não tenho nenhuma queixa, muito ao contrário. Mas estou experimentando um novo site de compra de livros, que reserva parte da venda para sustentar programas de estímulo à leitura no terceiro mundo. Além disso, cobram uma taxa mínima para que o frete seja "carbon free", e até o marcador de livros que vem de brinde é feito com papel reciclado e tinta ecológica. Mais politicamente correto é impossível. Mas eles além de tudo são simpáticos, pelos textos e jeitão geral do site, e têm livros à beça.

O site se chama www.betterworld.com

Escrito por Marcelo Coelho às 22h24

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que é isso, governador?

É forte concorrente ao prêmio de pior artigo do ano o que está publicado hoje na pág. 3 da “Folha”. Chama-se “E a greve dos médicos, hein, governador?’, e é assinado pelo governador de Alagoas, Teotônio Vilela Filho.

 

Não questiono as boas intenções dessa autoridade estadual, mas fiquei impressionado com a tolice do texto.

 

De modo simpático, Teotônio Vilela Filho começa contando o convite que recebeu de um jornalista da “Folha”. Seria “uma bela oportunidade”, diz ele, para contar aos brasileiros o que o governo está fazendo para colocar “a casa em ordem”. Bem, mas uma greve de médicos estava em curso há quase três meses. Uma criança morreu pela falta de atendimento, como apareceu na TV outro dia. O jornalista, conta Teotônio, resolveu perguntar: “e a greve dos médicos, hein, governador?”

 

Ah! Uma lâmpada acendeu-se então na mente do responsável pela saúde dos alagoanos, ele então notou (sic) que,

 

mesmo que eu não quisesse falar das mazelas da saúde, dos baixos salários dos médicos; ainda que eu goste mais de falar das coisas boas de Alagoas

 

[suas praias? A literatura de Graciliano Ramos? O desenvolvimento da pecuária local?]

 

(...) ainda assim eu não conseguiria sair da discussão sobre saúde, salários, greve...

 

Você vê só? Tanta coisa para falar, e pedem um artigo exatamente sobre uma greve que paralisa há três meses a saúde do Estado...! A estreiteza de visão de alguns jornalistas realmente é uma coisa dolorosa.

 

Mas saudemos a audácia de Vilela:

 

Aceito o desafio.

 

Imagino que tivesse de aceitar, pois não lhe devem ter faltado perguntas sobre o assunto lá em Alagoas. Segue então o raciocínio do governador.

 

uma greve é legitima, é ética, quando existem os recursos para pagar o que pretendem ganhar os grevistas.

 

Vilela tentará provar que não existem esses recursos. O leitor irá acompanhando seu pensamento com doses variáveis de incredulidade, até levar um choque no final do texto:

 

enquanto escrevia este artigo, finalmente a negociação entre governo e grevistas chegava a bom termo. Graças ao aumento de verbas federais e ao trabalho de busca de recursos dentro da Secretaria da Saúde, e mantendo os índices constitucionais de repasses à saúde, conseguimos uma equação financeira possível.

 

Um milagre, então, fez com que uma greve sem ética, porque faltavam recursos, fosse equacionada com a busca (e descoberta) de recursos.

 

Mas isso não é o pior do texto. Morreu gente por falta de atendimento médico? Não há aqui um escândalo específico, nem pela ausência de ética “dos grevistas” nem pela falta de ética dos achadores de recursos inexistentes. Eis o que diz o governador:

 

os problemas da saúde em Alagoas transcendem a fatalidade [??] das mortes durante a greve. Com ou sem greve, a mortalidade infantil em Alagoas é das mais altas do Brasil. Infelizmente, vidas se perderam antes, durante e vão continuar sendo perdidas depois da greve.

 

De modo que uma greve, matando duas ou três crianças que poderiam ter escapado dessa, não altera o quadro geral. Mortalidade infantil se deve a maus serviços de saúde. Se estes se interrompem de vez, a piora do quadro, estatisticamente, é negligenciável.

 

Penso em torcer para Renan Calheiros nas próximas eleições estaduais.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h39

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O escândalo Ravel

O escândalo Ravel

Desde 1803, não havia estudante de composição na França que não ambicionasse ganhar o “Prix de Rome”,  que garantia ao vencedor dois anos de estadia na Villa Médicis, em Roma, de onde havia a obrigação de enviar, de quando em quando, algumas composições para os mestres do Conservatório. Debussy abominou a sua estadia em Roma: os pernilongos tinham especial predileção por ele, a ponto de desfigurar seu rosto de tanto inchaço.

 

Outros vencedores famosos do “Prix de Rome” foram Berlioz, Gounod, Bizet, Massenet, Ambroise Thomas, Gustave Charpentier, Florent Schmitt, Henri Dutilleux.

 

Para ganhar o prêmio, era necessário primeiro escrever uma fuga e uma obra coral curta, sobre um texto previamente determinado. Os classificados nessa fase tinham então de escrever uma cantata, que era examinada pelo júri do Conservatório de Paris.

 

Estou ouvindo um CD que traz uma cantata de André Caplet (1878-1925), “Myrrha”, vencedora desse prêmio em 1901. Mas o principal interesse desse disco, do selo Marco Polo, está nas cinco peças corais curtas escritas por Maurice Ravel, que tentou várias vezes ganhar o prêmio. Chegou perto justamente em 1901, perdendo de Caplet. Mas o grande escândalo ocorreu em 1905.

 

Ravel já estava com trinta anos, e tinha nome assegurado na música francesa graças ao seu “Quarteto em Fá”, uma das principais obras para essa formação no século 20, e pelos seus “Jeux d’ Eau”, marco na técnica pianística moderna. Escreveu então, para a fase preliminar do concurso, um coral de seis minutos e pouco, chamado “L’ Aurore”.

 

Basta escutar o comecinho para reconhecer o estilo já cristalizado de Ravel. Os compassos iniciais, com fagote e contrabaixo; logo adiante uma melodia sinuosa, um pouco oriental, ao estilo da “Xerazade” de 1903, é jogada e transfigurada através de combinações fascinantes nos instrumentos de sopro –e há algo nesse desenho melódico que lembra “O Pássaro de Fogo” de Stravinsky. Aos poucos, a música vai ganhando calor e claridade, como naquele amanhecer de “Dáfnis e Cloé”. O resto se torna bastante inflado e pomposo, mas há o bastante para agradar aos fãs de Ravel em busca de alguma coisa ainda por descobrir no seu repertório.

 

Pois bem, com esse “L’ aurore” desencadeou-se um dos maiores escãndalos da vida musical francesa. A peça foi rejeitada, numa eliminatória da qual só saíram vencedores seis alunos de um dos membros do júri. O assunto chegou à primeira página dos jornais (bons tempos, bons escândalos), e mereceu uma carta indignada de Romain Rolland. Um dos jurados declarou: “o senhor Ravel pode nos tomar por artistas acadêmicos. Mas não admitiremos que nos tome por imbecis”. Depois do “affaire”, o diretor do Conservatório pediu demissão. Foi substituído por Fauré, o que melhorou muito as coisas por lá.

 

Passados os anos, os estudiosos concluíram que a peça não poderia mesmo ser aprovada. Uma passagem contém sete compassos de oitavas paralelas entre as partes de baixo e de soprano, observa Arbie Orenstein em seu The Ravel Reader, o suficiente para reprovar um aluno de primeiro ano do Conservatório. Talvez a intenção de Ravel fosse mesmo desafiar o júri. Pelo menos, o certo é que ele já não precisava de júri nenhum.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h19

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Trompete e mau humor

Desculpem, mas estou num dia de muito mau humor, aliás agravado pela falta de assiduidade neste blog. Gostaria de estar escrevendo sobre um monte de coisas:

-- um pouco mais sobre Dawkins, cujo livro resenhei para a Ilustrada de hoje, num texto que mereceria alguns adendos e correções;

--um livro que saiu agora em inglês sobre a história cultural da impotência masculina;

--a “História Natural da Ditadura”, de Teixeira Coelho, espécie de ensaio com toques de romancista, livro tão bom e forte que fico lendo aos poucos;

--um CD com obras bem pouco conhecidas de Georges Enesco;

--o último livro de Cristóvão Tezza, que é de tirar o fôlego;

--dois documentários de Robert Flaherty, sobre quem preciso me informar melhor;

--a maldita idéia (ideia) da reforma ortográfica;

etc. etc.

 

Mas depois de uma manhã familiar conflituosa com o meu filho menor (repare-se que a seção “pais e filhos” desistiu há tempos de conselhos pedagógicos), dormi à tarde e passo o tempo arrumando a jornalada das últimas semanas; há textos a recortar, textos que não foram lidos quando saíram, e cada notícia que vejo me enraivece mais ainda. A ponto de ver uma foto sobre um incêndio florestal perto de Brasília e sentir uma espécie de alegria perversa com o fato.

 

Ah, estava lendo também o começo de um livro de Alain, não estou com paciência para me lembrar do título, mas os primeiros capítulos eram sobre a noite, o sono e a insônia. Incrível que não tenham nunca traduzido para o português, ao que eu saiba, livros desse grande escritor-filósofo. Ele diz, qualquer hora explico por que, que a insônia é uma forma de malvadeza. E que em todo vício há uma espécie de pretensão, de vaidade, de orgulho: o colérico, o alcoólatra, não só indulge numa fraqueza, mas tira do vício uma satisfação de ego; acha-se o maioral quando mais afunda. Aldous Huxley também culpava os americanos por um certo esnobismo da bebedeira.

 

Mas volto à minha raiva, coisa rara na minha personalidade, bem distante do vício –ou do pecado--, tão antigo, da cólera. Há pouco acabei de arrancar a dentadas um pouco da cutícula do polegar, que agora sangra. Isso não é raiva: faz parte de uma espécie de frieza sistemática, obsessiva, que me leva a perseguir toda pelinha, plástico, reboco, camadinha de tinta sobressalente. Seria tema, já prometido aliás em outra ocasião, de artigo específico: há os obsessivos que se dedicam a estourar plástico-bolha, e os obsessivos de outra família, a que pertenço, que são os arrancadores de cutícula.

 

Bem, já estou melhorando. Para celebrar o meu estado de espírito, ouço músicas raivosas também. O Concerto para trompete de André Jolivet, que ressuscito num antigo vinil, é bom para esses momentos. O segundo movimento lembra muito o Octeto de Stravinsky, com uns batuques fora de ordem em meio aos sopros de um jazz inquieto. Mas o melhor é o primeiro movimento, bem sacudido, uma série de eletrochoques pensando que são alegres. Encadeio com a Suíte Lírica de Alban Berg, cujo “Presto delirando” é capaz de fulminar qualquer larva de borboleta azul que esteja pretendo levantar vôo em meu espírito.

 

Pronto, já estou melhor. Outra hora eu continuo.  

Escrito por Marcelo Coelho às 19h00

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Umberto Eco para crianças

Umberto Eco para crianças

Foi uma surpresa para mim saber que Umberto Eco era autor de histórias infantis. Um lindo livro com três contos seus acaba de ser editado pela Berlendis e Vertecchia. Na verdade, procurando pelo google, encontrei edições brasileiras anteriores, pela editora Ática, de pelo menos duas histórias: “Os Três Cosmonautas” e “Os Gnomos de Gnu”.

 

Na qualidade de semiólogo, Umberto Eco já havia feito muitos comentários interessantes sobre os clichês da literatura infantil. Fez um recenseamento, certa vez, da quantidade de histórias que começam falando de uma família que morava numa casinha da floresta, onde todos eram muito pobres, mas “muito felizes”. Parece existir em todos esses livros, diz Eco, uma relação indissociável entre pobreza e felicidade...

 

Em todo caso, os contos infantis de Umberto Eco não primam pela imaginação desenfreada, nem fogem dos clichês políticos da época em que foram escritos, o final da década de 80. A “mensagem” das histórias é irritantemente clara: parem com a corrida armamentista, cuidem do meio ambiente, aceitem as diferenças políticas entre os regimes americano, russo e chinês.

 

O que torna o livro realmente valioso não é o texto de Eco, mas sim as ilustrações, misto de colagem e aquarela, de seu amigo Eugenio Carmi. Os três cosmonautas, por exemplo, são representados por meio de recortes de papel. O americano é feito de pedaços de embalagem de chiclete, o russo de pedaços do Pravda, o chinês de um ideograma amarelo. O “emblemático”, aqui, vira estilização e composição plástica. Se não há grande fantasia, há uma sutileza, uma discrição, que no texto não aparece. Querendo ser simples e conciso, Eco fez histórias um bocado esquemáticas. É uma pena que o fantasma do didatismo não seja mais fácil de exorcizar.

 

Ilustração de Eugenio Carmi

 

Justamente, fui ver com meu filho menor (de 3 anos) uma peça no Teatro Bibi Ferreira que, apesar da habitual precariedade de cenários e figurinos, notabiliza-se por não pretender provar nada para ninguém.

 

Trata-se de “O Menino Maluquinho”, baseada no personagem de Ziraldo. Creio ser um espetáculo ideal para crianças bem pequenas, que não conseguem acompanhar uma história com começo, meio e fim. Pequenos quadros e acontecimentos se sucedem, sempre com bastante música e dança, respeitando as intermitências da atenção infantil.

 

 As brincadeiras e graças que surgem no palco não foram “traduzidas” por uma mente adulta, que depois se encarrega de “retraduzi-las” no que pensa ser a linguagem infantil. Esse, aliás, o defeito maior, talvez, de tudo o que se faz para crianças. Aqui, é como se uma criança, no palco, estivesse divertindo as da platéia, sem intermediação da lógica dos adultos. Não é que os atores sejam especialmente adequados, que as músicas sejam especialmente bonitas, que a movimentação em cena seja cuidada. O que importa é nada se quis impor ao pequeno público; nem mesmo um alto padrão de qualidade. Meu filho, que não gosta de parar quieto, divertiu-se a olhos vistos.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h26

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voltaire de souza (2)

Mais uma história que ficou sem link, publicada ontem no "Agora".

RISCO BRASIL

 

Dólar. Bolsas. Fundos. Dias de pânico no mercado financeiro.

Dêisi era uma alta executiva num banco de investimentos.

Seus dedos ágeis metralhavam o computador.

--Bolsa de Tóquio... Índice Nasdaq...

O marido se chamava João Camilo.

--Amor... você está muito tensa. Precisa relaxar.

--Está maluco? Nossos clientes estão perdendo milhões.

Eram onze da noite. E Dêisi não largava do computador.

João Camilo resolveu fazer uma massagenzinha nos ombros da mulher.

--Aii... olha o que você fez. Apagou todos os dados.

O mouse tinha saído do lugar.

--Onde você quer que eu clique?

--Pára, João Camilo. Dá um tempo. Que inconveniente...

João Camilo se ofendeu. Pegou o carro e foi dar uma volta.

No Bar Overnight, a espetacular morena Gilvanka o recebeu com um sorriso.

--E aí, gatão. Topa um investimento a longo prazo?

Dêisi recuperou os milhões perdidos. Mas perdeu o coração de João Camilo.

O casamento não é bolsa de valores. Mas, por vezes, também conhece o risco Brasil.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 10h47

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voltaire de souza

A crônica não está disponível no site de hoje do "Agora", de modo que a reproduzo aqui.

ALTA INSTABILIDADE

 

Sobe-e-desce nas bolsas. Tensão nos mercados.

Os agentes econômicos vivem tempos de incerteza.

Clésio era guardador de carros.

Trabalhava com clientes de elite nos Jardins. E já sentia os efeitos da crise.

--O mercado anda bastante nervoso. De mau humor.

Um picape prateado estacionou em frente à butique Gluglu.

Clésio aproximou-se com cortesia.

--Pode tomar conta?

A bela socialite Carol Giovinezza falava no celular.

--Como assim, Guto? Corte na minha mesada?

O marido explicava as perdas recentes no Bovespa.

Carol não fazia esforços para entender.

--Você é um desqualificado, Guto. Irresponsável.

Os olhos verdes de Carol pousaram então no humilde flanelinha.

--Entra. Entra no carro.

No Motel Hora H, Carol desconta em cash a depreciação dos valores conjugais.

Seres humanos são como o mercado financeiro.

Por vezes, comportam-se de modo altamente imprevisível.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 10h45

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artigo de hoje

artigo de hoje

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2208200721.htm

Na "Ilustrada", descrevo meu novo brinquedo/item de consumo e comento a estrutura viciante de nossa relação com o mercado.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h42

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A água de Babel

A água de Babel

De "La Mort Sans Exagérer", antologia de poemas da polonesa Wislawa Szymborska, Nobel de 1996, "A água":

Eis que cai na minha mão uma gota de chuva,/aspergida pelo Nilo, pelo Ganges.

Ascensão do gelo dos bigodes de uma foca,/fruto das bilhas quebradas nas cidades de Ys e do Tiro.

Na ponta do meu indicador/o mar Cáspio é mar aberto,

e o Pacífico corre sobre o leito do Rudawa,/o mesmo que sobrevoou Paris numa nuvenzinha

em mil setecentos e sessenta e quatro,/no dia sete de maio às três horas da manhã.

Os lábios não conseguiriam declinar/ todos os teus nomes ondulantes, água.

Seria preciso encontrar em todas as línguas um nome para ti/pronunciando todas as vogais juntas

e se calar ao mesmo tempo –em nome de um lago,/que nunca pôde ganhar nome nenhum.

e que não existe sobre a terra, assim como no céu/não existe essa estrela que nele se refletiria.

Uma pessoa se afoga, outra te implora ao morrer./Faz muito tempo, e foi ontem.

Casas em que apagaste incêndios, casas que arrastaste/como árvores, e florestas como cidades.

Nas pias batismais e nos bidês das putas./Sobre línguas e mortalhas.

Roendo os rochedos, amamentando o arco-íris./Orvalho e suor das pirâmides, dos lilases.

Como tudo isso é leve, numa gota de chuva,/Como é delicado sobre mim o toque do mundo.

O que –quando—onde for que tenha passado,

Ficará gravado na água de Babel.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h21

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Dawkins e seus críticos

Dawkins e seus críticos

Sai traduzido no Brasil o livro de Richard Dawkins, The God Delusion [Deus, um delírio], que devo resenhar para o próximo sábado. Andei postando alguns comentários às críticas que o livro despertou na imprensa americana; não falei de resenhistas religiosos, mas de céticos como o próprio Dawkins, que entretanto não se conformaram com o suposto simplismo de seus ataques à religião.

 

A tradução brasileira inclui um prefácio de Dawkins à edição de bolso de seu livro, onde ele rebate algumas das críticas que recebeu. Muita gente –como o insuspeito marxista Terry Eagleton—considerou que Deus, um Delírio refuta apenas as concepções mais elementares do Deus bíblico, sem levar em conta os desenvolvimentos mais sutis da teologia do século 20. Dawkins, por sua vez, rebate essas críticas. Cita um texto excelente a seu favor, publicado no blog Pharyngula por P.Z. Myers, que é uma paródia de algumas resenhas anti-Dawkins publicadas por aí. Vale a pena reproduzir

 

Analisei as insolentes acusações do sr. Dawkins, exasperado com sua falta de seriedade acadêmica. Aparentemente, ele não leu os discursos detalhados do conde Roderigo de Sevilha sobre o couro singular e exótico das botas do imperador, nem dedica um segundo sequer à obra-prima de Bellini, Sobre a luminescência do chapéu de plumas do imperador. Temos escolas inteiras dedicadas a escrever tratados eruditos sobre a beleza dos trajes do imperador, e todos os grandes jornais do mundo têm seções dedicadas à moda imperial; [...] Dawkins ignora com arrogância todas essas ponderações filosóficas profundas e acusa o imperador de nudez. [...] Enquanto Dawkins não for treinado nas lojas de Paris e Milão, enquanto não aprender a distinguir um babado de uma pantalona, devemos todos fingir que ele não se manifestou sobre o gosto do imperador. Sua educação em biologia pode lhe dar a capacidade de reconhecer genitálias balançantes quando vir uma, mas não o ensinou a apreciar adequadamente os Tecidos Imaginários.
 
Ilustração para "A Roupa Nova do Imperador", conto de H. C. Andersen
 
P. S. Mais um artigo contra os "novos ateus" saiu na revista Prospect, assinado pelo filósofo Roger Scruton. Menos que polemizar a respeito da existência de Deus e suas provas, Scruton enfatiza que não podemos responsabilizar a religião pela violência de alguns fanáticos. Faz um apanhado instrutivo da antropologia da religião, com destaque para as obras de René Girard. Leia aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h33

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Rubens William (4)

Rubens William (4)

Ao lado do restaurante popular onde fotografei pinturas murais de comida, há uma loja de artigos de agricultura com outros murais do pintor de Campos de Jordão.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h56

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voltaire de souza (2)

Mais uma crônica destes dias, que não dá mais para encontrar no site do "Agora".

 

 

PODER DE UMA ATRAÇÃO

 

Cães e seres humanos vivem há séculos um caso de amor.

Cláudia sentia falta de companhia no lar. Resolveu comprar um cãozinho.

Puppy era um lindo pequinês. Em oferta no pet shop.

Depois de algumas semanas, a alegria de Cláudia cessou.

O cachorro se caracterizava por um comportamento inconveniente.

Libidinoso. Obsceno. Pura luxúria animal.

--Larga da minha canela, Puppy.

Cláudia não sabia o que fazer. Passou numa banca de camelô.

Em oferta, bonecas Barbie importadas. Cláudia levou.

Não sabia do perigo. Brinquedos com ímãs defeituosos estão sendo recolhidos do mercado. A ingestão de peças pode ser fatal.

Puppy estraçalhou a boneca em questão de segundos.

--Ai, Puppy. Você é insuportável. Vamos dar um passeio.

No elevador, o cãozinho agarrou-se à canela do síndico.

O dr. Ubirajara. Nove pinos metálicos na perna direita.

O ímã no estômago de Puppy foi decisivo para a simpatia mútua.

Cláudia, Puppy e Ubirajara formam agora uma família feliz.

Corações são como ímãs. Grudam e desgrudam onde menos se espera.

17/8/2007

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h48

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voltaire de souza

Como não pus o link para a coluna do "Agora" nestes últimos dias, reproduzo uma ou outra crônica por aqui mesmo. Esta fazia um retrospecto melancòlico do Dia dos Pais.

 

ALERTA VERMELHO

 

Gastos. Despesas. Consumismo.

O brasileiro é escravo do cartão de crédito.

Sábado. Véspera do Dia dos Pais. Raul passeava pelo Shopping Marginal.

--Conta no vermelho... e meu pai precisando de um agrado.

De fato, o sr. Valentim andava deprimido.

A aposentadoria. O nervo ciático. Os políticos deste Brasil.

Numa farmácia, remédios contra disfunção erétil estavam em promoção.

--Hã... não sei. Ele pode levar a mal.

Raul entrou numa livraria. Na estante de auto-ajuda, algumas sugestões.

“Velhice: Desembarcando de um Mito”. “Sorria... Mesmo se Usar Dentadura”.

“Bengalas da Alma: Pensamentos e Aforismos para a Terceira Idade”.

--Será que isso presta?

A vendedora se chamava Rosane e possuía encantos excepcionais.

--É para o senhor? Acima de sessenta anos tem desconto.

O peso dos quarenta e cinco anos caiu sobre Raul com toques de humilhação.

--É para o meu pai... mas embrulha mais um que eu também vou ler.

A vida é como um cartão de crédito.

Quando menos se espera, já se chegou no limite.

15/8/2007

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h29

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de que lado você está? (2)

Reproduzo mais um trecho da palestra sobre totalitarismo, que fiz na quarta-feira passada, onde continuo a criticar a idéia, muito corrente, de que “não tomar partido já é tomar partido”. Creio ser necessário defender um espaço de busca da neutralidade, contra um discurso acusatório, que muitas vezes quer colocar o interlocutor contra a parede, perguntando incansavelmente “De que lado você está?”

 

Numa sociedade dividida entre xiitas e sunitas, qualquer pensador que “não tomar partido” pode ser acusado de aliado dos xiitas, pelos sunitas, ou de aliado dos sunitas, pelos xiitas. Está aí, precisamente, a sua neutralidade. Mas a neutralidade é algo que não pode ser admitido pelo fanático.

 

O que deve ser posto em questão, evidentemente, é a relevância do debate, o grau de realidade ou de imaginação envolvido nos campos em disputa. O fanático religioso, que acredita numa divisão inconciliável e absoluta entre os que defendem uma fé extremada e todos os demais –indiferentes, moderados, ateus, infiéis— constrói uma visão de realidade talvez mais irrealista do que o cidadão que vê, nos anos 50, a sorte do mundo dividida entre comunismo e capitalismo, e deduz daí que “é absolutamente necessário” optar por um dos lados. Se eu achar que a opção “real”, em determinado momento histórico, é entre a opressão burguesa e a liberdade e o bem-estar de toda humanidade, é muito difícil entender a posição de uma pessoa “neutra”diante da questão. Mas se for admissível a hipótese de que duas formas de opressão equivalentes e comparáveis estão em disputa, a posição do “neutro” é totalmente respeitável.

 

Num longo e muito espinhoso ensaio escrito em 1947, intitulado “Humanismo e Terror”, Merleau-Ponty resumiu uma posição que ele próprio conquistou a duras penas: a de dizer que, naquele início de Guerra Fria, “não é possível ser comunista, e não é possível ser anticomunista”. Sartre, na mesma época, tinha uma solução bonita para o dilema, formulada na sua “Situação do Escritor em 1947”: “Em certo sentido, cada situação é uma ratoeira, há muros por todos os lados: na verdade me expressei mal, não há saídas a escolher. Uma saída é algo que se inventa. E cada um, inventando a sua própria saída, inventa-se a si mesmo. O homem é para ser inventado a cada dia.”

 

Ao mesmo tempo, ou melhor, pouco antes, na sua “Apresentação” da revista Les Temps Modernes, Sartre afirmava, como Nizan, que “a abstenção é uma escolha”. Podemos entender, nesse caso, que a abstenção é a escolha de procurar um novo caminho, de não se contentar com os dados fixos de uma opção imposta. No mesmo texto, entretanto, o aspecto mais acusador de seu pensamento se faz sentir. “O escritor está em situação na sua época. Cada palavra tem efeitos. Cada silêncio também. Considero Flaubert e os Goncourt como responsáveis pela repressão que se seguiu à Comuna porque eles não escreveram uma linha para impedi-la”. Não foi bonito esse silêncio, podemos concordar. Mas a linha que separa “responsável” de “culpado” é difícil de traçar, na minha opinião. Podemos também lembrar que Flaubert e Goncourt não escreveram nenhuma linha para aplaudir a repressão, coisa que outros autores certamente fizeram.

 

Vamos repetir Roland Barthes, então, para quem o “fascismo” [ele evitava, na década de 70, o termo muito guerra-fria de totalitarismo] não se caracteriza pelo fato de que impede de dizer, mas porque obriga a dizer. O pensamento totalitário está constantemente forçando a pessoa a optar entre ser “amigo” ou “inimigo”, e o silêncio terá de necessariamente de se transformar em aplauso ou auto-acusação. Ocorre que, nos dois casos, é justamente o espaço da independência individual que se fecha; diríamos que é a própria consciência individual que desaparece.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h32

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Rubens William (3)

Rubens William (3)

Na série de pinturas e cartazes populares, mais uma imagem feita por Rubens William, de Campos do Jordão.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h23

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1608200703.htm

Lendas e mitos da cultura popular rural são revisitados pelo cronista do "Agora" (para assinantes do uol).

Escrito por Marcelo Coelho às 22h14

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De que lado você está?

Sumi por vários dias deste blog, engolido por diversos compromissos do cotidiano: o artigo para quarta-feira, onde falei da ótima reportagem de João Moreira Salles, na revista Piauí,  sobre as viagens de Fernando Henrique Cardoso; um concurso de literatura infanto-juvenil de que fui jurado, na terça, e a palestra num seminário sobre totalitarismo, promovido na Letras da USP, na quarta-feira.

 

Nessa palestra, desenvolvi a crítica de um tema muito presente na linguagem totalitária, e também no cotidiano político contemporâneo. É a idéia de que ‘não existe neutralidade ou imparcialidade’ num comentário político (o que até pode ser verdade, de um ponto de vista absoluto), e o seu correlato no discurso intimidador, que é o de exigir, de qualquer pessoa, “que tome partido”. Pior que isso, há o conhecido raciocínio de que “não tomar partido já é tomar partido”, e desse raciocínio dei alguns exemplos, procurando criticá-los. Segue um trecho da palestra.

 

Meu primeiro exemplo vem de “Os Cães de Guarda”, livro escrito por Paul Nizan na década de 30, que ficou famoso pela crítica aos filósofos “burgueses” de seu tempo. Nizan, que era amigo de Sartre e abandonou a carreira acadêmica para ingressar no Partido Comunista, criticava o formalismo, a abstração, de pensadores como Leon Brunschwig, que se dedicavam a temas metafísicos, sem dar importância aos temas mais candentes do seu tempo. Enquanto milhões de africanos sofriam a opressão mais brutal nas colônias, diz Nizan, o sr. Brunschwig se dedica a discutir as diferenças entre “razão constituída” e “razão constituinte”.... A crítica tem pertinência, mas poderíamos também dizer que enquanto milhões de africanos sofriam a opressão mais brutal nas colônias, o sr. Paul Nizan se dedicava a escrever um livro contra o sr. Brunschwig.

 

Em todo caso, vamos ao exemplo. “O ponto de vista desinteressado”, diz Nizan,

 

“o abandono da prática”, são igualmente decisões partidárias. A abstenção é uma escolha. Uma preferência. [...] Lênin, de fora [do mundo dos filósofos], no meio da multidão vulgar dos profanos, tocou nesse argumento. Ainda que ele não estivesse pensando naquele momento na filosofia, seu pensamento se aplica exatamente neste caso: “Em política, indiferente quer dizer satisfeito... a etiqueta de sem partido na sociedade burguesa nada mais é do que a expressão velada, hipócrita, passiva, da pertinência ao partido dos banquetes, ao partido dos governantes, ao partido dos exploradores”. Seria preciso dizer: em filosofia, indiferente quer dizer satisfeito.

 

Muito bem, a frase tem poder retórico, e prático, mas sua validade é ao meu ver bastante limitada. “Indiferente quer dizer satisfeito.” Tudo parece simples, dito assim, mas pode complicar-se novamente se perguntarmos: “satisfeito com o quê?” Para quem vê na sociedade capitalista a opressão e o massacre permanentes, o que não está longe de ser verdade, indiferente quer dizer satisfeito com a opressão e o massacre. Porém, podemos imaginar um outro tipo de pensador radical, não a figura de Lênin, mas a figura de um ultra-conservador, para quem a sociedade moderna está num processo alarmante de perda da autoridade, de perda da religião, de domínio do hedonismo, do prazer, do cientificismo e da blasfêmia. Esse teórico ultraconservador pode acusar perfeitamente os filósofos “indiferentes”, o sr. Brunschwig e todo o seu grupo, de “satisfeitos” com a blasfêmia, a irreligiosidade, a decadência completa dos valores cristãos... De modo que nós voltamos exatamente ao ponto de partida: um indiferente é simplesmente um indiferente, e quem não tomou partido pode ser, se quisermos, acusado tanto de cumplicidade com um lado como de cumplicidade com o outro.

 

Jean-Paul Sartre (esq.) e seu amigo Paul Nizan

Escrito por Marcelo Coelho às 21h58

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forma e conteúdo

forma e conteúdo

Um dogma do modernismo (especialmente forte no Brasil) é o de que não se pode separar “forma” e “conteúdo”. Só mencionar esses dois termos já torna o sujeito passível de processo e punição.

 

Há nisso um erro básico, a meu ver. É possível que, em determinado poema genial, “forma” e “conteúdo” sejam indissociáveis. Mais do que “unidos”, estariam, por assim dizer, num “processo de fusão”. Isso já é difícil de acontecer num verso, que dirá num poema inteiro, numa peça ou num romance.

 

Os concretistas vibram quando “forma” e “conteúdo” se juntam numa espécie de figuração sonora, de metáfora fonética. Concebem o verso, o poema, como uma espécie de onomatopéia gigante. Isso funciona em alguns casos, como  

Chaque grenade éclate et d’ abeilles murmure 

[Cada romã se rompe e faz zumbir as abelhas], 

verso de Mallarmé que foi considerado por Paul Valéry um dos mais perfeitos da poesia francesa. Valéry, aliás, iria superar o mestre num outro poema sobre romãs, onde ele via uma força que 

Crève en gemmes rouges de jus

[eu traduziria imperfeitamente como: “Jaz em gemas rubras de sumo”]. 

Mas essa concepção “onomatopaica” das relações entre forma e conteúdo não dá conta do poder mais abstrato de um verso como este, de Goethe: 

Kennst du das Land, wo die Zitronen blühen?

[“Sabes daquela terra, onde florescem limoeiros?].

 

Aqui, não é o “som”, mas a “melodia” do verso que está em primeiro plano. Claro que, em pleno século 20, os concretistas prezavam o “som” em detrimento da melodia. Seja como for, a “fusão” entre forma e conteúdo, som e sentido, não proíbe que, na crítica, seja feita uma distinção entre os dois; mesmo porque nem todo poeta ou escritor é Goethe ou Valéry, Mallarmé ou Augusto de Campos. Escrevo isto porque estou lendo a biografia do crítico William Empson, escrita por John Haffenden, em que há passagens interessantes a respeito da velada polêmica entre Empson e um grande crítico mais velho do que ele, I. A. Richards. Richards era dos tais que abominavam a distinção entre forma e conteúdo. Seguia a recomendação modernista do poeta Archibald Mc Leish, segundo a qual “a poem should not mean/ but be” [um poema não deve significar, mas ser”] que Empson, acertadamente, considerava um passaporte para o puro irracionalismo.  

Pois bem, os críticos são especialistas na perfídia, e I. A. Richards deu uma resposta devastadora às restrições de Empson, num artigo escrito em homenagem ao próprio Empson. Empson era genial ao descobrir sentidos ocultos (não dois ou três, mas cinco, seis, sete) numa única estrofe. Mostra isso como ninguém no seu clássico Seven Types of Ambiguity. A inveja mata: I. A. Richards chamou o livro, como conta Haffenden,

 

an experimentation in paraphrase.

 

Os ingleses não dominaram o mundo, durante séculos, pelo bom coração.

 

 William Empson

Escrito por Marcelo Coelho às 14h42

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voltaire de souza

Os dilemas da esquerda são comentados na crônica do "Agora", cujo site continua sem link para o Voltaire:

NÃO DÁ PARA ENGOLIR

 

Primeiro, foi o balé do mensalão. Depois, o “relaxa e goza” da ministra.

Recentemente, um assessor presidencial foi flagrado pelas câmeras de TV.

Seu gestual era simples e sintético.

--Top, top.

Elpídio era ex-sindicalista. Seu coração estava cheio de tristeza.

--Tantas lutas... para dar nisso aí.

A chama de antigos ideais ia se apagando de sua alma.

O frio não era pequeno na saleta de seu apartamento em São Bernardo.

--Um conhaque pode ajudar.

Elpídio ligou a TV. Na TV Senado, discutiam assuntos de pecuária.

Vieram as saudades da roça. A vida simples. Elpídio fechou os olhos.

--A gente tomava leitinho morno da vaca...

Quando percebeu, a garrafa de conhaque estava vazia.

Um fogo por dentro. O vômito. A úlcera. Na parede, um retrato do Che parecia sorrir. O punho direito erguido. E então a outra mão do guerrilheiro começou a se mover. Espalmada. Compondo com o punho fechado o gesto característico.

--Elpidito... tu salud... mira que top, top, top.

Há coisas difíceis de engolir. Mas vomitar não é a solução.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h51

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As ambigüidades de Bartok

As ambigüidades de Bartok

Talvez em função da música de cinema (por sua vez influenciada por Wagner, o mais cinematográfico dos compositores), muitas obras sinfônicas do século 20 têm o aspecto de trilha sonora para filmes inexistentes. Penso em Shostakovitch, Hindemith, Camargo Guarnieri, Copland, Corigliano, Villa-Lobos, até Prokofiev. Arnold Schoenberg foi o primeiro a se dar conta do fato, escrevendo uma peça que tinha justamente esse título –“Acompanhamento para uma Cena de Filme”.

 

Estou ouvindo, depois de um bom par de anos, o Quarteto para Cordas no. 3, de Béla Bartok. Trata-se de uma música moderna que justamente escapa da armadilha “cinematográfica”. O segredo, a meu ver, está no fato de que a música não é propriamente “expressão”, nem “falta de expressão” (como quis, numa resposta ao problema, Stravinsky), mas “busca da expressão”. Ouvimos as hesitações iniciais do quarteto como uma espécie de pensamento que se forma; cada fragmento de idéia é examinado pelos vários instrumentos; uma coincidência casual de tonalidade se reveste, subitamente, de um tom afirmativo, que mais de repente ainda mergulha no silêncio. Desse silêncio renasce a idéia inicial, só que agora energizada, com outro vigor rítmico... e assim por diante. A música, de início incerta e vacilante, se alimenta de si mesma, se estimula e confirma a partir de suas moléculas primitivas. Tira vida, não de um filme inexistente, mas de um princípio elementar qualquer.

 

O problema, em Bartok, é que esse princípio elementar é o folclore, o Povo. Em si, essa opção não é errada esteticamente. Ao contrário, sempre achei genial a capacidade de transfigurar e encontrar a verdade mais essencial do folclore através da intelectualização clássica: de Bach a Bartok, passando por Haydn, a melhor música não dispensa esse procedimento.

 

Acontece que em Bartok o folclore é menos objeto de transfiguração formal do que de afirmação ideológica, depois das hesitações e intelectualismos iniciais. É como se ele dissesse: já pensei e me angustiei muito; é hora de encontrar a Vida; e esta aparece como grande festa selvagem, como que negando todo o retorcimento cerebral anterior. Mas negação não é superação nem síntese, como diria algum discípulo do velho Hegel. Muito menos convence a negação que se apresenta como afirmação. As positividades dos “allegros” finais, sempre contagiantes, de Bartok, não estão à altura das inquirições do início. Claro que isso varia de obra para obra.

 

Os quartetos de Bartok são o que se fez de mais próximo da intelectualidade beethoveniana no século 20. Ops! Que frase mais dogmática! Acho isso, em todo caso... Beethoven também costumava terminar suas obras em triunfo e afirmação. Querendo fazer o mesmo, Bartok entretanto soa um pouquinho desafinado.

 

 Bela Bartok (1881-1945)

Escrito por Marcelo Coelho às 03h55

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Barthes e o fascismo

Atraído (e repelido) por uma famosa frase atribuída a Roland Barthes (“toda linguagem é fascista”) criei coragem para ler sua “Lição”, ou melhor, sua “Aula”, no Collège de France, onde a idéia, para lá de iconoclasta, teria sido apresentada pela primeira vez.

 

Na verdade, Barthes disse algo um pouco diferente: “ A língua, como performance de toda linguagem, não é reacionária, nem progressista; ela é bem simplesmente: fascista; pois o fascismo, não se trata de impedir de falar, mas sim de obrigar a falar.” Em francês, Barthes emprega o termo “dire”. Mas fica melhor, na tradução, “falar”, porque é isso exatamente o que o fascismo faz.

 

Qual a diferença entre “língua” e “linguagem”? Um pouco antes da sua frase-bomba, Barthes escrevia que  “a linguagem é uma legislação, a língua é o seu código”. No mesmo parágrafo, ele citava Jakobson, para quem “um idioma se define menos pelo que ele permite dizer, e mais pelo que ele obriga a dizer”. Até aí, nada mais natural: sou obrigado, no idioma português, a dar gênero feminino ou masculino a qualquer substantivo; não há substantivo neutro, como no latim ou no alemão. Mas o que se “obriga”, aqui, não é uma “confissão” por parte do sujeito. Não estou obrigado a “dizer” nada; estou obrigado a seguir uma regra quando quero dizer alguma coisa.

 

Precisamente, a regra “neutraliza”, na verdade, o conteúdo do que estou dizendo. Se falo “a mesa”, em vez de “o mesa”, não é que fui obrigado a atribuir feminilidade a determinada peça de mobiliário. Simplesmente, a conotação sexual do que estou dizendo foi neutralizada, ou recalcada, e está de todo modo latente, como todo um imenso universo de conotações, na minha fala do dia-a-dia, como que esperando uma possível exploração literária do que se esconde sob a aparente “neutralidade” do idioma.

 

De qualquer modo, há um abismo entre a formulação de Jakobson e a de Barthes. A rigor, a frase de Jakobson poderia ser substituída por esta: “um idioma se define menos pelo que ele permite dizer, e mais pelo que ele proíbe de dizer”. Em vez de “proíbe” –estaríamos aqui no campo das regras de inteligibilidade mínimas—a frase citada por Barthes diz “obriga”. Em todo caso, o idioma “obriga” a que se obedeçam certas regras, se e somente se o sujeito quiser dizer alguma coisa nesse idioma.

 

Em todo caso, mesmo esquecendo a diferença entre “obrigar” e “proibir”, Barthes dá um salto estratégico com relação à frase de Jakobson. Seu truque é substituir a forma pelo conteúdo, sem parecer que está fazendo isso. Será este, pergunto de passagem, o segredo de Barthes, a sedução de Barthes com relação às chatices de Jakobson? O fato é que, para Barthes, há a língua e a linguagem.

 

Se a língua “obriga a dizer algo de certa forma”, a linguagem, uma vez que é “performance”, atuação, de uma língua, apenas “obriga a dizer”. O âmbito da forma fica restrito à língua, o horizonte da prática se identifica com a linguagem. É linguagem que “obriga a dizer”. Fica mais convincente se escrevermos “obriga a falar”. Mas o fascismo obriga o sujeito, com efeito, não a falar qualquer coisa; obriga-o, na verdade, a dizer coisas muito específicas. Não há fascismo em atribuir obrigatoriamente o gênero feminino ao objeto “mesa”, embora a escolha não tenha sido feita por nós, e estejamos obrigados a antepor o artigo definido feminino cada vez que nos referirmos a tal objeto. O que há, na verdade, é a neutralização de um significado, que poderá, se alguém quiser, ser revivido, reposto, pela literatura.

 

Daí se entende o esforço posterior de Barthes, no rumo de redescobrir “o Neutro”, nos cursos que deu mais tarde no Collège de France. Como ele tinha politizado ao extremo a linguagem, estatuindo que a obediência a uma regra é dotada de sentido, e portanto “não-neutra”, sua única saída diante dessa ameaça “fascista” foi fetichizar o Neutro, com N maiúsculo. Pois, para Barthes, o lugar do Neutro não corresponde ao lugar do Natural. Posso dizer que “mesa” é substantivo feminino sem me preocupar muito com a sexualidade do objeto, dando como “natural” essa circunstância da gramática. Como o “natural”, nos tempos de Barthes, não admitia a sexualidade gay, nosso autor teve de construir um lugar do Neutro contra o Fascismo da língua. Mas o lugar do Neutro não precisa ser construído; está dado, se despolitizarmos um pouco a concepção barthesiana do idioma.

 

 Roland Barthes

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 03h15

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voltaire de souza

Mais uma crônica sobre o comportamento de nossas elites, publicada hoje no "Agora".

 

 

ELITES MUITO LOUCAS

 

Uma cidade civilizada precisa de bons restaurantes.

Pierre era dono de um pequeno bistrô francês nos Jardins.

O La Chochotte. Que estava passando por uma completa renovação.

--Mudónç no carrdápe. Refórrmes no fachád. Constrruí uma varránd.

Poderosos membros da elite paulistana estariam na festa de inauguração.

A milionária Teresoka Pimbolini apareceu no horário combinado.

Mas já com muita vodca russa em sua cabecinha leviana.

O célebre diretor de novelas Bubbo Nascimento entrou no bistrô logo depois.

E foi logo fazendo seu pedido ao garçom.

--Ovos, meu querido. Ovos de todos os tipos.

Teresoka achou melhor invadir a cozinha de uma vez.

A festa começou na varanda. Mendigos, manobristas e domésticas foram alvejados com ovos importados da Dinamarca.

Depois, outros quitutes conheceram o mesmo destino.

Roletes de salmão. Barquetes de peru. Tempurás de ostras canadenses.

Uma pequena multidão de populares se formou na frente do bistrô.

Aplaudindo freneticamente a iniciativa. Bubbo pensa até em sair candidato.

O povo é como um restaurante. Precisa, por vezes, de mudança no cardápio.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h26

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O artigo de Fidel

Em meados dos anos 70, um grupo de intelectuais franceses resolveu visitar a Espanha, ainda sob o regime de Franco; não me lembro dos detalhes do caso, mas a um dado momento terminaram todos sendo detidos pela polícia, entre eles Michel Foucault. Pouco tempo mais tarde, já em Paris, Foucault deu uma entrevista na qual dizia que, pela primeira vez na vida, tinha-se confrontado com a presença física do fascismo. Era uma coisa que, para ele, existia sobretudo nos testemunhos históricos, mas não na figura real de um guarda uniformizado que te põe num camburão, em meio a um ambiente de total repressão política.

 

O artigo de Fidel Castro no “Granma”, reproduzido aqui, causa em mim a mesma impressão: a de ver um regime totalitário em pleno funcionamento, dispondo como bem entende da sorte de dois indivíduos –no caso, os boxeadores cubanos Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux.

 

Mesmo que se admita a versão mais “light” possível do episódio, a de que os boxeadores de fato se arrependeram dos dias de farra no Rio e tenham voluntariamente, sem nenhuma pressão, querido voltar a Cuba, revela-se a partir do artigo de Fidel Castro o que há de sinistro no regime cubano.

 

Os boxeadores, diz Castro, desrespeitaram as normas, ausentando-se da delegação cubana. O artigo prossegue reproduzindo notícias da imprensa a respeito dos dias de diversão vividos pelos boxeadores, com álcool e prostitutas. Fidel reitera os relatos:

 

De nossa parte, não duvidamos de que a Polícia Federal tenha acreditado no arrependimento dos dois atletas. A missão daquela instituição era definir em contato com o consulado cubano a documentação necessária ao repatriamento dos boxeadores, e explicar o que lhes aconteceu nos 12 dias de ausência.

 

É uma fraseologia um tanto estranha. A PF “acreditou” no arrependimento dos dois atletas? Mas na versão “oficial”, tanto castrista quanto brasileira, o arrependimento foi real. E por que “duvidar” das convicções da Polícia Federal? O texto do artigo, se fosse para seguir a lógica, poderia ser simplesmente o seguinte:

 

Assim que os atletas puderam entrar em contato com a Polícia Federal, manifestaram seu desejo de voltar ao nosso país, e a PF prontamente providenciou seu repatriamento.

 

Mas dizer simplesmente que os atletas estavam arrependidos não seria suficiente para impor-lhes represálias, e disso trata o parágrafo seguinte:

 

Para a imensa maioria do nosso povo, o essencial é determinar qual foi o comportamento moral dos atletas, que formamos e educamos com tanto sacrifício.

 

Erislandy Lara errou, diz Fidel, ao “desrespeitar as regras e se colocar pessoalmente na mão de mercenários”. O erro é grave, pois “o atleta que abandona sua delegação é como o soldado que deserta seus companheiros em meio ao combate”.

 

Trata-se, praticamente, de um crime, mas qual? O de sair dos alojamentos, ser dopado por um mercenário, passar alguns dias farreando? Ou o de ter realmente tentado, por vontade própria, abandonar o país? Mas esta última hipótese não pode ser admitida por Fidel.

 

Ele prossegue dizendo que “A Revolução cumpriu sua promessa”. Qual era? “Tratar de forma humana aos atletas”. Por que não deveria fazê-lo? E por que teria o atleta, agora, de se ver encaminhado a um “trabalho decoroso” em vez de continuar lutando boxe?

 

A idéia é que o boxeador não é dono de um talento que possa empregar como quiser. O indivíduo –qualquer indivíduo— é o que é porque o Estado investiu nele, “com sacrifícios”. O indivíduo é quem deve satisfações ao Estado, e não o contrário. E fugir às determinações do Estado é ser traidor numa guerra; crime passível de punição, a não ser que o Estado “prometa” tratá-lo de forma humana. Promessa a quem, exatamente? Às autoridades brasileiras, que colaboraram no repatriamento dos boxeadores? O caso merece investigação séria.   

Escrito por Marcelo Coelho às 00h09

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voltaire de souza

Novamente sem link na edição eletrônica do "Agora", vai aqui a contribuição de hoje para a análise de nossas elites.

CASCA FINA

 

Pobreza. Desemprego. Violência. Nosso país tem muitos problemas.

Será culpa das elites? O dr. João Eulálio achava que sim.

--Perderam a ética. Perderam a compostura.

O pacífico aposentado morava no Rio de Janeiro.

Hábitos simples. Saudáveis. Todas as manhãs, uma caminhada à beira-mar.

Edifícios de luxo se alinham na orla praiana.

De repente, um projétil. Acertando em cheio a cabeça de João Eulálio.

Não era bala perdida. Era ovo podre.

Grã-finos de Ipanema atualmente se divertem à custa dos pedestres.

Com a carteira da OAB, o ex-advogado conseguiu entrar no edifício.

--Exijo satisfações. Quero saber quem atirou o ovo.

Uma senhora de sessenta anos apareceu. Confessando a travessura.

O dr. João Eulálio teve uma surpresa. E sorriu.

--Maria Augusta... foi você? Há quanto tempo...

Tinham sido da mesma classe no Colégio Mariano Belfort. Um dos mais tradicionais da antiga capital federal. Limpou-se o ovo. Limpou-se a barra.

E, entre os dois viúvos, quebrou-se a casca de um grande amor.

Nossas elites são como ovos. O conteúdo varia. Mas a casca é sempre fina.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h51

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visão do Rio

E, para que não fique nenhuma dúvida quanto à minha falta de preconceito com o Rio de Janeiro, vai aqui uma linda foto, em clima meio "paulista", talvez, tirada por Luan Villas-Boas da Baía de Guanabara, vista de Niterói.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h14

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Rubens William (2)

Rubens William (2)

Mais algumas pinturas murais do artista popular Rubens William, num restaurante em Campos do Jordão.

(Gosto da relação entre a profundidade do prato e a planaridade da comida...)

(Interessante a representação do gelo derretendo).

(De novo, a travessa... um vazio do lado esquerdo; batatas fritas?)

Escrito por Marcelo Coelho às 09h20

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voltaire de souza

Como hoje não saiu o "link" na página do "Agora", reproduzo aqui a crônica de Voltaire de Souza.

RÁPIDO DECLÍNIO

 

A ética e a moral estão em baixa no país.

O desregramento era total no Edifício Kabanas.

Mais de mil apartamentos em péssimas condições.

Traficantes. Prostitutas. Famílias. Verdadeiro cortiço vertical.

O novo síndico se chamava João Eduardo.

--Precisamos tomar medidas radicais. Moralizar esta joça.

Logo anunciou uma de suas primeiras medidas.

--É proibido arremessar objetos pela janela.

Com efeito, detritos de toda natureza se acumulavam no pátio do edifício.

Camisinhas. Ovos podres. Lixo comum.

--O que eles estão pensando? Que são da elite branca?

Outro dia, ricaços foram filmados atirando ovos de um terraço em Ipanema.

No meio do pátio, João Eduardo era alvo fácil dos vândalos anônimos.

Ele olhou para o alto. Do vigésimo andar, algo estava caindo.

Não era ovo. Não era lixo. Era Dona Feliciana. Uma das mais antigas moradoras.

Grampeado no vestido, o bilhete de suicídio. Conciso e sintético.

--Cansei.

Não é preciso ser da elite para chegar ao fundo do poço.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 08h44

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atiradores de elite

atiradores de elite

http://br.youtube.com/watch?v=LBNGa6_7X6U

Este é o link do youtube para os fimetes comentados no artigo de hoje.

Escrito por Marcelo Coelho às 08h39

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atiradores de ovos

atiradores de ovos

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0808200722.htm

No artigo de hoje, comento o video do youtube em que membros da "elite" atiram ovos em pedestres.

Em tempo: leitores informam que a festa do ovo foi em Copacabana, não em Ipanema.

Escrito por Marcelo Coelho às 08h36

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astúcias de Zizek

astúcias de Zizek

Volto a ler o livro de Slavoj Zizek sobre totalitarismo, que já comentei em post anterior. Já estou no terceiro capítulo, e até agora não há como saber quais as críticas do autor ao conceito, mas isso pode ser falha minha.

 

O texto dele opera por “flashes” e associações, o que torna sua leitura muito divertida e, por assim dizer, “ilustrada”. É que ele sabe como impressionar o público. Cada menção “pop”, relacionando conceitos teóricos a filmes de Hitchcock ou John Woo, é contrabalançada por citações no estilo “distintivo”, em que Heidegger ou São Tomás de Aquino são evocados, um pouco como se fossem as “carteiradas” de uma autoridade intelectual diante dos funcionários da alfândega.

 

Veja-se, por exemplo, um trecho em que Zizek discute a psicologia dos internos de um campo de concentração. Como se sabe, algumas das vítimas entram num processo de abulia permanente, realizando de forma mecânica todas as atividades a que são obrigadas; praticamente deixam de ser “sujeitos”, de ter vontade própria, entregando-se como zumbis à fatalidade. Nos campos nazistas, eram chamados de “muçulmanos”. Eis o que Zizek escreve: 

 

Os “muçulmanos” representam o ‘nível zero’ da humanidade (...) Os “muçulmanos” são como “mortos-vivos”, que deixaram até mesmo de responder aos estímulos animais básicos, que não se defendem quando são atacados, que perdem gradualmente o desejo até de beber e de comer, que continuam a beber e comer mais em razão de um hábito cego que de uma razão animal básica.

 

Tudo claro e sintético. Mas é que eu suprimi, marcando com “(...)” , o seguinte comentário:

 

as coordenadas heideggerianas do projeto (Entwurf) pelo qual o Dasein responde e assume de modo engajado o seu estar-jogado-no-mundo (Geworfenheit) estão suspensas aqui.

Posso estar enganado, mas essa intervenção da terminologia heideggeriana não acrescenta muita coisa à descrição. Trata-se de uma citação “legitimadora”, que poderia ter mais sentido se ao longo do livro Zizek estivesse fazendo um contraponto mais amplo entre Heidegger e o nazismo. Não é o caso.

Interessante notar, de todo modo, que o uso “zizekiano” das citações se assemelha a um processo notado pelo próprio Zizek, quando distingue a modernidade da pós-modernidade. “O modernismo”, diz ele, “afirmou o potencial metafísico de parcelas banais e triviais de nossa experiência cotidiana. Talvez o pós-modernismo inverta o modernismo: retorna aos velhos temas míticos, mas privando-os de sua ressonância cósmica e tratando-os como fragmentos de vida cotidiana que se pode manipular à vontade”.

No estilo de Zizek, os temas “míticos” da teoria e da filosofia (“alienação”, “recalque”, “verwerfung”, etc.) são tratados desse modo, como fragmentos da vida cotidiana, impregnados da cultura pop –e vice-versa. Talvez ele fique mesmo a meio caminho entre o moderno e o pós-moderno. Mas isto é apenas uma avaliação do seu gosto, não de sua teoria.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h50

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Harry Potter: fora da lista

Harry Potter: fora da lista

Há campanhas e abaixo-assinados para tudo, e sites especializados em organizá-los e recolher assinaturas. Num deles, a campanha mais popular do momento não diz respeito ao Iraque nem à ecologia. Dirige-se contra o suplemento literário do "New York Times", cuja lista de best-sellers prejudica o último livro de Harry Potter.

É que, até pouco tempo atrás, os livros de J. K. Rowling estavam em primeiro lugar na lista dos mais vendidos. O suplemento, contudo, resolveu introduzir uma inovação. Criou uma lista especial de mais vendidos para os livros infanto-juvenis. O que "liberou" os primeiros lugares da lista "adulta" para outros autores e editoras, naturalmente prejudicados com o sistema anterior, em que Harry Potter açambarcava tudo. Agora, segundo o site, Danielle Steel pode voltar ao número 1 da lista.

Injustiça contra Harry Potter? Não é para tanto, eu acho. Mas os interessados em assinar podem clicar aqui. O assunto vale para se notar a luta entre editoras a respeito dos possíveis tratamentos da informação jornalística.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h00

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Nelson Rodrigues fala de Antonioni

Leio numa coletânea de crônicas de Nelson Rodrigues ("O Reacionário", ed. Companhia das Letras) uma opinião estranhíssima sobre Antonioni.

Se me perguntarem se o admiro, darei a seguinte e singela resposta: tenho-lhe horror. Ou, melhor dizendo, um deslumbrado horror. Não deixa de ser admirável um homem que não gosta de mulher. (...) No filme que vi no Paisssandu eu verificava que seu elenco estava cheio de antimulher. Preliminarmente, ele não admite curvas, não admite busto, não admite nada. Eu diria que o seu ideal feminino não passa de um macho mal-acabado.

Outro dia, aqui mesmo, escrevi sobre um tema que me fascina --o fim da mulher bonita, não sei se provisório, se definitivo (...) as mulheres de Antonioni não são nem bonitas, nem interessantes.

A crônica é de 1973. Mas antes mesmo de Antonioni descobrir Maria Schneider

, ele já havia filmado com Alida Valli:

e com Monica Vitti:

De modo que, excetuando o antiintelectualismo de Nelson Rodrigues, só provavelmente a sua famosa falta de acuidade visual justifica a opinião que externou sobre o cineasta. Mesmo num episódio do filme "Eros" (a última e lamentável aparição de Antonioni como cineasta) havia, ao que me lembro, uma atriz belíssima. Escusado dizer que, entre as muitas previsões verdadeiras de Nelson Rodrigues, a da morte da mulher bonita não se cumpriu.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h23

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Rubens William (1)

Rubens William (1)

Estive em Campos do Jordão em julho. Não participei de nenhuma passeata de cães, mas achei num restaurante popular na Abernéssia um grande pintor de cartazes e imagens decorativas comerciais. Seu nome é Rubens William, e cobriu paredes e mais paredes com motivos gastronômicos. Aqui vão algumas das pinturas que fotografei.

O "trompe-l'oeil" da prateleira e da sombra dos objetos funciona até melhor na fotografia...

...mas este fondue já ficou parecendo coisa de Salvador Dali:

Mas há muito mais coisa sendo oferecida:

(note a beleza dos preguinhos da prateleira e a liberdade das verduras à direita).

Escrito por Marcelo Coelho às 22h57

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0508200704.htm

Viagens, afinal de contas, podem sempre ser adiadas, observa o cronista do "Agora".

Escrito por Marcelo Coelho às 22h41

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Bobby, pró e contra

Bobby, pró e contra

Há bons motivos para ver “Bobby”, filme sobre o assassinato de Robert Kennedy, dirigido por Emilio Estevez. O problema é que esses bons motivos têm muita coisa de ruim também.

 

1) A seqüência final, quando o senador democrata é assassinado numa cozinha de hotel, possui muita beleza cinematográfica, com uma câmera que dança em todas as direções, costurando todos os fios soltos da narrativa.

 

2) Concentrando toda a história num único dia, o roteiro apresenta retratos convincentes e emocionantes de uma boa dezena de personagens envolvidos (ou não) na pré-candidatura de Bob Kennedy à presidência americana. Há a cantora alcoólatra que fará um show no hotel (Demi Moore), sua cabeleireira (uma irreconhecível Sharon Stone), o garçom mexicano revoltado, o cozinheiro negro que já não é tão revoltado assim, o jovem garcom mexicano que aprende com o cozinheiro negro que não deve ser tão revoltado quanto o garçom mexicano anterior... Boas histórias, com um elenco ótimo: Anthony Hopkins, Laurence Fishburne, Martin Sheen são alguns dos destaques.

 

3) O filme recupera um sentido de idealismo político, de igualitarismo e de princípios universais que, diante da prática vigente na era Bush, faz uma falta enorme nos Estados Unidos.

 

Os defeitos de “Bobby” não se separam dessas qualidades.

 

1) O filme elimina qualquer visão político-institucional mais ampla sobre a época e o contexto do assassinato; através dos personagens, vemos o início da cultura das drogas, o racismo, a guerra do Vietnã, mas tudo parece “personalizado” ao extremo, diminuído para a escala da vida privada. Em artigo na “Folha”, Contardo Calligaris destacou positivamente esse aspecto, mas eu senti falta de uma visão mais ampla.

 

2) Todas as tramas e subtramas com dezenas de personagens dão ao filme um caráter inconfundível de série televisiva. Nesse ponto, a série “West Wing”, com os bastidores de uma presidência norte-americana fictícia, é bem mais profunda e instrutiva.

 

3) “Bobby” não disfarça o tom de propaganda política do partido democrata; as cenas finais do assassinato têm como trilha sonora um discurso bem longo do senador, que é santificado o tempo todo.

 

O espectador sai do cinema pensando que, se Bob Kennedy não tivesse sido assassinado, tudo seria diferente até hoje. Duvido um bocado disso.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h23

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Todos se merecem

Entendo que exista muita dor-de-cotovelo dos paulistas contra o Rio de Janeiro, e de minha parte não me incluo entre os que têm preconceito contra os cariocas e sua cidade. Ao contrário, uma das minhas frustrações é não ter nascido lá. Meu pai, que era advogado, pensou no começo da carreira em mudar-se para lá. Fico imaginando na sorte que eu teria em viver no Rio durante as décadas de 60 e 70... muitos de meus defeitos são terrivelmente paulistas: caipirice, rabugice, péssimo preparo físico, uma básica deselegância "existencial", por dizer assim...

Em todo caso, não acho que falar mal do Pan seja coisa de paulista. O evento, por melhor que seja para quem gosta de esporte, foi inchado, anabolizado, dopado pela Rede Globo e demais emissoras esportivas, e foi contra essa manipulação que escrevi meu artigo de hoje.

Aproveitei para falar mal desse movimento "Cansei". Observo que, para quem acha que a "Folha" é tucana e anti-Lula, a quantidade de artigos e charges contra o "Cansei" foi enorme, e chega até a ser cruel. O movimento não propõe nada e tem, de fato, esse arzinho mimado do "não brinco mais" que é típico de setores da classe alta (paulista especialmente). Insisto, entretanto, em duas coisas: oposição e esperneio não é golpismo, como gostam de fazer crer muitos lulistas; e um movimento não é errado só porque parte dos "ricos". Os socialistas franceses achavam, no começo, que o caso Dreyfus era apenas uma briga entre burgueses. A questão é saber objetivamente o que se propõe, conta o que se reclama, que tipo de coisa se quer mudar. Corrupção, não só no Executivo mas em todos os partidos, é um mal generalizado; falta de representatividade do parlamento também. Não se dissipa a crise aérea com a descoberta do erro de um piloto e da falha num reversor. Toda a crise do serviço público vem de antes de Lula, e se há loucos responsabilizando Lula por tudo, também é loucura fazer de conta que problemas não existem e que protestar contra eles é coisa de golpistas. Cansam, de fato, as tentativas do PT de minimizar a crise, o descaso verbal das autoridades, desde que Berzoini tentou empurrar debaixo do tapete a decisão absurda de pôr os velhinhos na fila do recadastramento do INSS, passando pela cara dura de Palocci, e terminando agora com a óbvia lorota do terceiro aeroporto, cuja localização a ministra Dilma disse que não ia revelar para "não estimular a especulação imobiliária".... Embora exista preconceito de classe contra Lula, claramente, todos esses ministros são gente finíssima e, como muitos nas elites que os criticam, se pautam pelo desdém com relação aos de baixo. O governo merece a oposição que tem.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h13

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0108200704.htm

Na crônica de hoje, o medo de voar pode trazer sérios percalços à vida de um executivo.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h56

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Adeus a Bergman

“Morangos Silvestres”, “Sonata de Outono”, “Gritos e Sussurros” estão entre os melhores filmes a que já assisti. Não tenho a mesma admiração pelo “Sétimo Selo”, embora seja visualmente o mais memorável de todos, e de qualquer modo um filme grandioso; a idéia de um cavaleiro jogando xadrez com a morte me parece, contudo, bastante kitsch. A idéia, digo, porque o filme é certamente uma grande obra de arte.

 

Vi esses filmes mais de uma vez, e sem dúvida se me perguntarem quais os três ou quatro maiores diretores de todos os tempos (olha as listas de novo) eu citaria Ingmar Bergman sem pensar duas vezes.

 

Acontece que me deu uma preguiça danada de falar sobre ele, e mais ainda de Antonioni, cuja obra conheço bem menos. Ao contrário dos filmes de Fellini, a impressão que tenho dos de Bergman é que eles falam por si mesmos; a angústia e a infelicidade que os seres humanos produzem uns nos outros não tem como ser “deduzida” ou “entendida” em “Gritos e Sussurros”, por exemplo. Está ali, e prescinde, até onde eu saiba, de maior interpretação.

 

Resta dizer que Bergman, como Antonioni, pertencem a uma época que com certeza acabou de vez. Não tenho o hábito de decretar “fins de uma época”, mas me parece claro que aquele tipo de filme não existe mais. Pensava-se, no auge da carreira de Bergman, em fazer do cinema uma arte com as mesmas dimensões da literatura; seria, na verdade, seu substituto como instrumento de análise da alma humana e dos problemas realmente sérios com que nos defrontamos na existência.

 

Muitos filmes hoje em dia escapam da fórmula do entretenimento, abordam questões profundas, tratam de relações pessoais com sensibilidade extrema; parece lhes faltar, entretanto, o sentido de “missão”, de “pronunciamento”, de “mensagem ao mundo” que havia nos filmes de Bergman. Não é que não existam ótimos cineastas hoje em dia; o que mudou é a função e o lugar da arte cinematográfica.

 

A função, hoje, não é a de ser um refúgio do pensamento humanista ao modo de Camus ou Gide, por exemplo; trata-se, mesmo nos bons filmes, ou nos filmes sérios, como de um Todd Solondz, ou talvez de Wim Wenders, de registrar, um pouco ao modo de uma crônica, “o pé em que estamos”, em vez de projetar, digamos, o Homem na tela de cinema.

 

Isso tem a ver com a mudança de “lugar”, também, pela qual passou o cinema nos últimos 30 anos. Os filmes mais ambiciosos, os filmes mais adultos, vêm em geral de países “fora do centro”. Itália e França, com raríssimas exceções, produzem um cinema comercial desinteressante se comparado ao da Argentina ou da China, que sei eu... Suécia e Dinamarca, com Bergman e Dreyer, não estavam naturalmente no “centro” da Europa, mas beneficiavam-se de uma continuidade cultural com todo o pensamento humanista europeu. Não é que argentinos ou chineses sejam estranhos a essa tradição, muito ao contrário. Mas pelo fato de não estarem na Europa, estão encarregados ao mesmo tempo de traçarem um retrato social, cultural, de suas respectivas realidades. O enfoque “etnográfico” nunca esteve muito presente em Bergman, embora seja constitutivo dos primeiros filmes do grupo Dogma, que em outros aspectos se inspiram bastante nele.

 

O resultado é que, a meu ver, o cinema atual tende para o registro de “particularidades”. O fenômeno é especialmente presente nos “independentes” americanos, que apresentam personagens de exceção –anões, autistas, gênios--, enquanto que em Bergman, acho que em Antonioni também, o particular e o idiossincrático eram menos importantes do que a existência humana universal.

 

Essa ambição, não sei se sustentável ou não, parece efetivamente terminada hoje em dia, e seria uma enquete interessante saber quem, dos diretores atuais, poderia “ocupar o lugar de Bergman”. Acho que não existe mesmo.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h54

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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