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forma e conteúdo
Um dogma do modernismo (especialmente forte no Brasil) é o de que não se pode separar “forma” e “conteúdo”. Só mencionar esses dois termos já torna o sujeito passível de processo e punição.
Há nisso um erro básico, a meu ver. É possível que, em determinado poema genial, “forma” e “conteúdo” sejam indissociáveis. Mais do que “unidos”, estariam, por assim dizer, num “processo de fusão”. Isso já é difícil de acontecer num verso, que dirá num poema inteiro, numa peça ou num romance.
Os concretistas vibram quando “forma” e “conteúdo” se juntam numa espécie de figuração sonora, de metáfora fonética. Concebem o verso, o poema, como uma espécie de onomatopéia gigante. Isso funciona em alguns casos, como
Chaque grenade éclate et d’ abeilles murmure
[Cada romã se rompe e faz zumbir as abelhas],
verso de Mallarmé que foi considerado por Paul Valéry um dos mais perfeitos da poesia francesa. Valéry, aliás, iria superar o mestre num outro poema sobre romãs, onde ele via uma força que
Crève en gemmes rouges de jus
[eu traduziria imperfeitamente como: “Jaz em gemas rubras de sumo”].
Mas essa concepção “onomatopaica” das relações entre forma e conteúdo não dá conta do poder mais abstrato de um verso como este, de Goethe:
Kennst du das Land, wo die Zitronen blühen?
[“Sabes daquela terra, onde florescem limoeiros?].
Aqui, não é o “som”, mas a “melodia” do verso que está em primeiro plano. Claro que, em pleno século 20, os concretistas prezavam o “som” em detrimento da melodia. Seja como for, a “fusão” entre forma e conteúdo, som e sentido, não proíbe que, na crítica, seja feita uma distinção entre os dois; mesmo porque nem todo poeta ou escritor é Goethe ou Valéry, Mallarmé ou Augusto de Campos. Escrevo isto porque estou lendo a biografia do crítico William Empson, escrita por John Haffenden, em que há passagens interessantes a respeito da velada polêmica entre Empson e um grande crítico mais velho do que ele, I. A. Richards. Richards era dos tais que abominavam a distinção entre forma e conteúdo. Seguia a recomendação modernista do poeta Archibald Mc Leish, segundo a qual “a poem should not mean/ but be” [um poema não deve significar, mas ser”] que Empson, acertadamente, considerava um passaporte para o puro irracionalismo.
Pois bem, os críticos são especialistas na perfídia, e I. A. Richards deu uma resposta devastadora às restrições de Empson, num artigo escrito em homenagem ao próprio Empson. Empson era genial ao descobrir sentidos ocultos (não dois ou três, mas cinco, seis, sete) numa única estrofe. Mostra isso como ninguém no seu clássico Seven Types of Ambiguity. A inveja mata: I. A. Richards chamou o livro, como conta Haffenden,
an experimentation in paraphrase.
Os ingleses não dominaram o mundo, durante séculos, pelo bom coração.
William Empson
Escrito por Marcelo Coelho às 14h42
Os dilemas da esquerda são comentados na crônica do "Agora", cujo site continua sem link para o Voltaire:
NÃO DÁ PARA ENGOLIR
Primeiro, foi o balé do mensalão. Depois, o “relaxa e goza” da ministra.
Recentemente, um assessor presidencial foi flagrado pelas câmeras de TV.
Seu gestual era simples e sintético.
--Top, top.
Elpídio era ex-sindicalista. Seu coração estava cheio de tristeza.
--Tantas lutas... para dar nisso aí.
A chama de antigos ideais ia se apagando de sua alma.
O frio não era pequeno na saleta de seu apartamento em São Bernardo.
--Um conhaque pode ajudar.
Elpídio ligou a TV. Na TV Senado, discutiam assuntos de pecuária.
Vieram as saudades da roça. A vida simples. Elpídio fechou os olhos.
--A gente tomava leitinho morno da vaca...
Quando percebeu, a garrafa de conhaque estava vazia.
Um fogo por dentro. O vômito. A úlcera. Na parede, um retrato do Che parecia sorrir. O punho direito erguido. E então a outra mão do guerrilheiro começou a se mover. Espalmada. Compondo com o punho fechado o gesto característico.
--Elpidito... tu salud... mira que top, top, top.
Há coisas difíceis de engolir. Mas vomitar não é a solução.
Escrito por Marcelo Coelho às 11h51
As ambigüidades de Bartok
Talvez em função da música de cinema (por sua vez influenciada por Wagner, o mais cinematográfico dos compositores), muitas obras sinfônicas do século 20 têm o aspecto de trilha sonora para filmes inexistentes. Penso em Shostakovitch, Hindemith, Camargo Guarnieri, Copland, Corigliano, Villa-Lobos, até Prokofiev. Arnold Schoenberg foi o primeiro a se dar conta do fato, escrevendo uma peça que tinha justamente esse título –“Acompanhamento para uma Cena de Filme”.
Estou ouvindo, depois de um bom par de anos, o Quarteto para Cordas no. 3, de Béla Bartok. Trata-se de uma música moderna que justamente escapa da armadilha “cinematográfica”. O segredo, a meu ver, está no fato de que a música não é propriamente “expressão”, nem “falta de expressão” (como quis, numa resposta ao problema, Stravinsky), mas “busca da expressão”. Ouvimos as hesitações iniciais do quarteto como uma espécie de pensamento que se forma; cada fragmento de idéia é examinado pelos vários instrumentos; uma coincidência casual de tonalidade se reveste, subitamente, de um tom afirmativo, que mais de repente ainda mergulha no silêncio. Desse silêncio renasce a idéia inicial, só que agora energizada, com outro vigor rítmico... e assim por diante. A música, de início incerta e vacilante, se alimenta de si mesma, se estimula e confirma a partir de suas moléculas primitivas. Tira vida, não de um filme inexistente, mas de um princípio elementar qualquer.
O problema, em Bartok, é que esse princípio elementar é o folclore, o Povo. Em si, essa opção não é errada esteticamente. Ao contrário, sempre achei genial a capacidade de transfigurar e encontrar a verdade mais essencial do folclore através da intelectualização clássica: de Bach a Bartok, passando por Haydn, a melhor música não dispensa esse procedimento.
Acontece que em Bartok o folclore é menos objeto de transfiguração formal do que de afirmação ideológica, depois das hesitações e intelectualismos iniciais. É como se ele dissesse: já pensei e me angustiei muito; é hora de encontrar a Vida; e esta aparece como grande festa selvagem, como que negando todo o retorcimento cerebral anterior. Mas negação não é superação nem síntese, como diria algum discípulo do velho Hegel. Muito menos convence a negação que se apresenta como afirmação. As positividades dos “allegros” finais, sempre contagiantes, de Bartok, não estão à altura das inquirições do início. Claro que isso varia de obra para obra.
Os quartetos de Bartok são o que se fez de mais próximo da intelectualidade beethoveniana no século 20. Ops! Que frase mais dogmática! Acho isso, em todo caso... Beethoven também costumava terminar suas obras em triunfo e afirmação. Querendo fazer o mesmo, Bartok entretanto soa um pouquinho desafinado.
Bela Bartok (1881-1945)
Escrito por Marcelo Coelho às 03h55
Atraído (e repelido) por uma famosa frase atribuída a Roland Barthes (“toda linguagem é fascista”) criei coragem para ler sua “Lição”, ou melhor, sua “Aula”, no Collège de France, onde a idéia, para lá de iconoclasta, teria sido apresentada pela primeira vez.
Na verdade, Barthes disse algo um pouco diferente: “ A língua, como performance de toda linguagem, não é reacionária, nem progressista; ela é bem simplesmente: fascista; pois o fascismo, não se trata de impedir de falar, mas sim de obrigar a falar.” Em francês, Barthes emprega o termo “dire”. Mas fica melhor, na tradução, “falar”, porque é isso exatamente o que o fascismo faz.
Qual a diferença entre “língua” e “linguagem”? Um pouco antes da sua frase-bomba, Barthes escrevia que “a linguagem é uma legislação, a língua é o seu código”. No mesmo parágrafo, ele citava Jakobson, para quem “um idioma se define menos pelo que ele permite dizer, e mais pelo que ele obriga a dizer”. Até aí, nada mais natural: sou obrigado, no idioma português, a dar gênero feminino ou masculino a qualquer substantivo; não há substantivo neutro, como no latim ou no alemão. Mas o que se “obriga”, aqui, não é uma “confissão” por parte do sujeito. Não estou obrigado a “dizer” nada; estou obrigado a seguir uma regra quando quero dizer alguma coisa.
Precisamente, a regra “neutraliza”, na verdade, o conteúdo do que estou dizendo. Se falo “a mesa”, em vez de “o mesa”, não é que fui obrigado a atribuir feminilidade a determinada peça de mobiliário. Simplesmente, a conotação sexual do que estou dizendo foi neutralizada, ou recalcada, e está de todo modo latente, como todo um imenso universo de conotações, na minha fala do dia-a-dia, como que esperando uma possível exploração literária do que se esconde sob a aparente “neutralidade” do idioma.
De qualquer modo, há um abismo entre a formulação de Jakobson e a de Barthes. A rigor, a frase de Jakobson poderia ser substituída por esta: “um idioma se define menos pelo que ele permite dizer, e mais pelo que ele proíbe de dizer”. Em vez de “proíbe” –estaríamos aqui no campo das regras de inteligibilidade mínimas—a frase citada por Barthes diz “obriga”. Em todo caso, o idioma “obriga” a que se obedeçam certas regras, se e somente se o sujeito quiser dizer alguma coisa nesse idioma.
Em todo caso, mesmo esquecendo a diferença entre “obrigar” e “proibir”, Barthes dá um salto estratégico com relação à frase de Jakobson. Seu truque é substituir a forma pelo conteúdo, sem parecer que está fazendo isso. Será este, pergunto de passagem, o segredo de Barthes, a sedução de Barthes com relação às chatices de Jakobson? O fato é que, para Barthes, há a língua e a linguagem.
Se a língua “obriga a dizer algo de certa forma”, a linguagem, uma vez que é “performance”, atuação, de uma língua, apenas “obriga a dizer”. O âmbito da forma fica restrito à língua, o horizonte da prática se identifica com a linguagem. É linguagem que “obriga a dizer”. Fica mais convincente se escrevermos “obriga a falar”. Mas o fascismo obriga o sujeito, com efeito, não a falar qualquer coisa; obriga-o, na verdade, a dizer coisas muito específicas. Não há fascismo em atribuir obrigatoriamente o gênero feminino ao objeto “mesa”, embora a escolha não tenha sido feita por nós, e estejamos obrigados a antepor o artigo definido feminino cada vez que nos referirmos a tal objeto. O que há, na verdade, é a neutralização de um significado, que poderá, se alguém quiser, ser revivido, reposto, pela literatura.
Daí se entende o esforço posterior de Barthes, no rumo de redescobrir “o Neutro”, nos cursos que deu mais tarde no Collège de France. Como ele tinha politizado ao extremo a linguagem, estatuindo que a obediência a uma regra é dotada de sentido, e portanto “não-neutra”, sua única saída diante dessa ameaça “fascista” foi fetichizar o Neutro, com N maiúsculo. Pois, para Barthes, o lugar do Neutro não corresponde ao lugar do Natural. Posso dizer que “mesa” é substantivo feminino sem me preocupar muito com a sexualidade do objeto, dando como “natural” essa circunstância da gramática. Como o “natural”, nos tempos de Barthes, não admitia a sexualidade gay, nosso autor teve de construir um lugar do Neutro contra o Fascismo da língua. Mas o lugar do Neutro não precisa ser construído; está dado, se despolitizarmos um pouco a concepção barthesiana do idioma.
Roland Barthes
Escrito por Marcelo Coelho às 03h15
Mais uma crônica sobre o comportamento de nossas elites, publicada hoje no "Agora".
ELITES MUITO LOUCAS
Uma cidade civilizada precisa de bons restaurantes.
Pierre era dono de um pequeno bistrô francês nos Jardins.
O La Chochotte. Que estava passando por uma completa renovação.
--Mudónç no carrdápe. Refórrmes no fachád. Constrruí uma varránd.
Poderosos membros da elite paulistana estariam na festa de inauguração.
A milionária Teresoka Pimbolini apareceu no horário combinado.
Mas já com muita vodca russa em sua cabecinha leviana.
O célebre diretor de novelas Bubbo Nascimento entrou no bistrô logo depois.
E foi logo fazendo seu pedido ao garçom.
--Ovos, meu querido. Ovos de todos os tipos.
Teresoka achou melhor invadir a cozinha de uma vez.
A festa começou na varanda. Mendigos, manobristas e domésticas foram alvejados com ovos importados da Dinamarca.
Depois, outros quitutes conheceram o mesmo destino.
Roletes de salmão. Barquetes de peru. Tempurás de ostras canadenses.
Uma pequena multidão de populares se formou na frente do bistrô.
Aplaudindo freneticamente a iniciativa. Bubbo pensa até em sair candidato.
O povo é como um restaurante. Precisa, por vezes, de mudança no cardápio.
Escrito por Marcelo Coelho às 14h26
Em meados dos anos 70, um grupo de intelectuais franceses resolveu visitar a Espanha, ainda sob o regime de Franco; não me lembro dos detalhes do caso, mas a um dado momento terminaram todos sendo detidos pela polícia, entre eles Michel Foucault. Pouco tempo mais tarde, já em Paris, Foucault deu uma entrevista na qual dizia que, pela primeira vez na vida, tinha-se confrontado com a presença física do fascismo. Era uma coisa que, para ele, existia sobretudo nos testemunhos históricos, mas não na figura real de um guarda uniformizado que te põe num camburão, em meio a um ambiente de total repressão política.
O artigo de Fidel Castro no “Granma”, reproduzido aqui, causa em mim a mesma impressão: a de ver um regime totalitário em pleno funcionamento, dispondo como bem entende da sorte de dois indivíduos –no caso, os boxeadores cubanos Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux.
Mesmo que se admita a versão mais “light” possível do episódio, a de que os boxeadores de fato se arrependeram dos dias de farra no Rio e tenham voluntariamente, sem nenhuma pressão, querido voltar a Cuba, revela-se a partir do artigo de Fidel Castro o que há de sinistro no regime cubano.
Os boxeadores, diz Castro, desrespeitaram as normas, ausentando-se da delegação cubana. O artigo prossegue reproduzindo notícias da imprensa a respeito dos dias de diversão vividos pelos boxeadores, com álcool e prostitutas. Fidel reitera os relatos:
De nossa parte, não duvidamos de que a Polícia Federal tenha acreditado no arrependimento dos dois atletas. A missão daquela instituição era definir em contato com o consulado cubano a documentação necessária ao repatriamento dos boxeadores, e explicar o que lhes aconteceu nos 12 dias de ausência.
É uma fraseologia um tanto estranha. A PF “acreditou” no arrependimento dos dois atletas? Mas na versão “oficial”, tanto castrista quanto brasileira, o arrependimento foi real. E por que “duvidar” das convicções da Polícia Federal? O texto do artigo, se fosse para seguir a lógica, poderia ser simplesmente o seguinte:
Assim que os atletas puderam entrar em contato com a Polícia Federal, manifestaram seu desejo de voltar ao nosso país, e a PF prontamente providenciou seu repatriamento.
Mas dizer simplesmente que os atletas estavam arrependidos não seria suficiente para impor-lhes represálias, e disso trata o parágrafo seguinte:
Para a imensa maioria do nosso povo, o essencial é determinar qual foi o comportamento moral dos atletas, que formamos e educamos com tanto sacrifício.
Erislandy Lara errou, diz Fidel, ao “desrespeitar as regras e se colocar pessoalmente na mão de mercenários”. O erro é grave, pois “o atleta que abandona sua delegação é como o soldado que deserta seus companheiros em meio ao combate”.
Trata-se, praticamente, de um crime, mas qual? O de sair dos alojamentos, ser dopado por um mercenário, passar alguns dias farreando? Ou o de ter realmente tentado, por vontade própria, abandonar o país? Mas esta última hipótese não pode ser admitida por Fidel.
Ele prossegue dizendo que “A Revolução cumpriu sua promessa”. Qual era? “Tratar de forma humana aos atletas”. Por que não deveria fazê-lo? E por que teria o atleta, agora, de se ver encaminhado a um “trabalho decoroso” em vez de continuar lutando boxe?
A idéia é que o boxeador não é dono de um talento que possa empregar como quiser. O indivíduo –qualquer indivíduo— é o que é porque o Estado investiu nele, “com sacrifícios”. O indivíduo é quem deve satisfações ao Estado, e não o contrário. E fugir às determinações do Estado é ser traidor numa guerra; crime passível de punição, a não ser que o Estado “prometa” tratá-lo de forma humana. Promessa a quem, exatamente? Às autoridades brasileiras, que colaboraram no repatriamento dos boxeadores? O caso merece investigação séria.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h09
Novamente sem link na edição eletrônica do "Agora", vai aqui a contribuição de hoje para a análise de nossas elites.
CASCA FINA
Pobreza. Desemprego. Violência. Nosso país tem muitos problemas.
Será culpa das elites? O dr. João Eulálio achava que sim.
--Perderam a ética. Perderam a compostura.
O pacífico aposentado morava no Rio de Janeiro.
Hábitos simples. Saudáveis. Todas as manhãs, uma caminhada à beira-mar.
Edifícios de luxo se alinham na orla praiana.
De repente, um projétil. Acertando em cheio a cabeça de João Eulálio.
Não era bala perdida. Era ovo podre.
Grã-finos de Ipanema atualmente se divertem à custa dos pedestres.
Com a carteira da OAB, o ex-advogado conseguiu entrar no edifício.
--Exijo satisfações. Quero saber quem atirou o ovo.
Uma senhora de sessenta anos apareceu. Confessando a travessura.
O dr. João Eulálio teve uma surpresa. E sorriu.
--Maria Augusta... foi você? Há quanto tempo...
Tinham sido da mesma classe no Colégio Mariano Belfort. Um dos mais tradicionais da antiga capital federal. Limpou-se o ovo. Limpou-se a barra.
E, entre os dois viúvos, quebrou-se a casca de um grande amor.
Nossas elites são como ovos. O conteúdo varia. Mas a casca é sempre fina.
Escrito por Marcelo Coelho às 15h51
E, para que não fique nenhuma dúvida quanto à minha falta de preconceito com o Rio de Janeiro, vai aqui uma linda foto, em clima meio "paulista", talvez, tirada por Luan Villas-Boas da Baía de Guanabara, vista de Niterói.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h14
Rubens William (2)
Mais algumas pinturas murais do artista popular Rubens William, num restaurante em Campos do Jordão.

(Gosto da relação entre a profundidade do prato e a planaridade da comida...)

(Interessante a representação do gelo derretendo).

(De novo, a travessa... um vazio do lado esquerdo; batatas fritas?)
Escrito por Marcelo Coelho às 09h20
Como hoje não saiu o "link" na página do "Agora", reproduzo aqui a crônica de Voltaire de Souza.
RÁPIDO DECLÍNIO
A ética e a moral estão em baixa no país.
O desregramento era total no Edifício Kabanas.
Mais de mil apartamentos em péssimas condições.
Traficantes. Prostitutas. Famílias. Verdadeiro cortiço vertical.
O novo síndico se chamava João Eduardo.
--Precisamos tomar medidas radicais. Moralizar esta joça.
Logo anunciou uma de suas primeiras medidas.
--É proibido arremessar objetos pela janela.
Com efeito, detritos de toda natureza se acumulavam no pátio do edifício.
Camisinhas. Ovos podres. Lixo comum.
--O que eles estão pensando? Que são da elite branca?
Outro dia, ricaços foram filmados atirando ovos de um terraço em Ipanema.
No meio do pátio, João Eduardo era alvo fácil dos vândalos anônimos.
Ele olhou para o alto. Do vigésimo andar, algo estava caindo.
Não era ovo. Não era lixo. Era Dona Feliciana. Uma das mais antigas moradoras.
Grampeado no vestido, o bilhete de suicídio. Conciso e sintético.
--Cansei.
Não é preciso ser da elite para chegar ao fundo do poço.
Escrito por Marcelo Coelho às 08h44
atiradores de ovos
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0808200722.htm
No artigo de hoje, comento o video do youtube em que membros da "elite" atiram ovos em pedestres.
Em tempo: leitores informam que a festa do ovo foi em Copacabana, não em Ipanema.
Escrito por Marcelo Coelho às 08h36
astúcias de Zizek
Volto a ler o livro de Slavoj Zizek sobre totalitarismo, que já comentei em post anterior. Já estou no terceiro capítulo, e até agora não há como saber quais as críticas do autor ao conceito, mas isso pode ser falha minha.
O texto dele opera por “flashes” e associações, o que torna sua leitura muito divertida e, por assim dizer, “ilustrada”. É que ele sabe como impressionar o público. Cada menção “pop”, relacionando conceitos teóricos a filmes de Hitchcock ou John Woo, é contrabalançada por citações no estilo “distintivo”, em que Heidegger ou São Tomás de Aquino são evocados, um pouco como se fossem as “carteiradas” de uma autoridade intelectual diante dos funcionários da alfândega.
Veja-se, por exemplo, um trecho em que Zizek discute a psicologia dos internos de um campo de concentração. Como se sabe, algumas das vítimas entram num processo de abulia permanente, realizando de forma mecânica todas as atividades a que são obrigadas; praticamente deixam de ser “sujeitos”, de ter vontade própria, entregando-se como zumbis à fatalidade. Nos campos nazistas, eram chamados de “muçulmanos”. Eis o que Zizek escreve:
Os “muçulmanos” representam o ‘nível zero’ da humanidade (...) Os “muçulmanos” são como “mortos-vivos”, que deixaram até mesmo de responder aos estímulos animais básicos, que não se defendem quando são atacados, que perdem gradualmente o desejo até de beber e de comer, que continuam a beber e comer mais em razão de um hábito cego que de uma razão animal básica.
Tudo claro e sintético. Mas é que eu suprimi, marcando com “(...)” , o seguinte comentário:
as coordenadas heideggerianas do projeto (Entwurf) pelo qual o Dasein responde e assume de modo engajado o seu estar-jogado-no-mundo (Geworfenheit) estão suspensas aqui.
Posso estar enganado, mas essa intervenção da terminologia heideggeriana não acrescenta muita coisa à descrição. Trata-se de uma citação “legitimadora”, que poderia ter mais sentido se ao longo do livro Zizek estivesse fazendo um contraponto mais amplo entre Heidegger e o nazismo. Não é o caso.
Interessante notar, de todo modo, que o uso “zizekiano” das citações se assemelha a um processo notado pelo próprio Zizek, quando distingue a modernidade da pós-modernidade. “O modernismo”, diz ele, “afirmou o potencial metafísico de parcelas banais e triviais de nossa experiência cotidiana. Talvez o pós-modernismo inverta o modernismo: retorna aos velhos temas míticos, mas privando-os de sua ressonância cósmica e tratando-os como fragmentos de vida cotidiana que se pode manipular à vontade”.
No estilo de Zizek, os temas “míticos” da teoria e da filosofia (“alienação”, “recalque”, “verwerfung”, etc.) são tratados desse modo, como fragmentos da vida cotidiana, impregnados da cultura pop –e vice-versa. Talvez ele fique mesmo a meio caminho entre o moderno e o pós-moderno. Mas isto é apenas uma avaliação do seu gosto, não de sua teoria.
Escrito por Marcelo Coelho às 15h50
Harry Potter: fora da lista
Há campanhas e abaixo-assinados para tudo, e sites especializados em organizá-los e recolher assinaturas. Num deles, a campanha mais popular do momento não diz respeito ao Iraque nem à ecologia. Dirige-se contra o suplemento literário do "New York Times", cuja lista de best-sellers prejudica o último livro de Harry Potter.
É que, até pouco tempo atrás, os livros de J. K. Rowling estavam em primeiro lugar na lista dos mais vendidos. O suplemento, contudo, resolveu introduzir uma inovação. Criou uma lista especial de mais vendidos para os livros infanto-juvenis. O que "liberou" os primeiros lugares da lista "adulta" para outros autores e editoras, naturalmente prejudicados com o sistema anterior, em que Harry Potter açambarcava tudo. Agora, segundo o site, Danielle Steel pode voltar ao número 1 da lista.
Injustiça contra Harry Potter? Não é para tanto, eu acho. Mas os interessados em assinar podem clicar aqui. O assunto vale para se notar a luta entre editoras a respeito dos possíveis tratamentos da informação jornalística.
Escrito por Marcelo Coelho às 11h00
Leio numa coletânea de crônicas de Nelson Rodrigues ("O Reacionário", ed. Companhia das Letras) uma opinião estranhíssima sobre Antonioni.
Se me perguntarem se o admiro, darei a seguinte e singela resposta: tenho-lhe horror. Ou, melhor dizendo, um deslumbrado horror. Não deixa de ser admirável um homem que não gosta de mulher. (...) No filme que vi no Paisssandu eu verificava que seu elenco estava cheio de antimulher. Preliminarmente, ele não admite curvas, não admite busto, não admite nada. Eu diria que o seu ideal feminino não passa de um macho mal-acabado.
Outro dia, aqui mesmo, escrevi sobre um tema que me fascina --o fim da mulher bonita, não sei se provisório, se definitivo (...) as mulheres de Antonioni não são nem bonitas, nem interessantes.
A crônica é de 1973. Mas antes mesmo de Antonioni descobrir Maria Schneider

, ele já havia filmado com Alida Valli:

e com Monica Vitti:

De modo que, excetuando o antiintelectualismo de Nelson Rodrigues, só provavelmente a sua famosa falta de acuidade visual justifica a opinião que externou sobre o cineasta. Mesmo num episódio do filme "Eros" (a última e lamentável aparição de Antonioni como cineasta) havia, ao que me lembro, uma atriz belíssima. Escusado dizer que, entre as muitas previsões verdadeiras de Nelson Rodrigues, a da morte da mulher bonita não se cumpriu.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h23
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PERFIL
Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.
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