Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

mais uma pausa

No fim de semana, estarei desconectado. Até mais.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h02

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O relógio de Sarkozy

O relógio de Sarkozy

A teatróloga Yasmina Reza fez sucesso mundial, há pouco menos de dez anos, com uma peça intitulada “Arte”. Chegou a ser levada aqui, com Paulo Gorgulho, mas quem assistiu parece que não ficou muito entusiasmado. Vi o espetáculo numa viagem a Buenos Aires, e fiquei com a melhor das impressões.

 

Para quem não se lembra, a história girava em torno da aquisição de um quadro de arte moderna, que nada mais parecia ser do que uma tela puramente em branco. Claro que a platéia não vê o quadro, mas o feliz proprietário da obra está convencido de que ali há muito mais do que só um espaço vazio. Seu melhor amigo, convidado para dar opinião sobre o quadro, cai na gargalhada. Um segundo amigo, chamado a intervir no debate, não toma posição nenhuma e termina se incompatibilizando com os dois lados.

 

Seria simplista achar que a peça simplesmente coloca em questão os mitos da arte de vanguarda; a meu ver, é principalmente um estudo sobre a amizade, e no fim a tela em branco talvez seja símbolo daquilo que um amigo ao mesmo tempo é e não é. Pode ser uma coisa neutra, como o terceiro personagem, que não ajuda nenhum dos outros. Pode ser, também, esse espaço de liberdade em que apenas projetamos nosso próprio ego, e que serve como uma espécie de espelho opaco para nós mesmos. Pode ser, também, algo que nos traz alguma coisa de diferente, mesmo se o que ele traz não seja uma realidade externa e estranha a nós, mas algo que sabemos interpretar. O amigo, como qualquer obra de arte, está fora de nós, mas é também reflexo de nossa interpretação, e obra em que também colaboramos ativamente.

 

Yasmina Reza agora surpreende o irrequieto público francês, ao publicar L' aube le soir la nuit, um livro sobre o ainda mais irrequieto presidente da República, Nicolas Sarkozy. Antes mesmo de ele se lançar candidato, Yasmina Reza resolveu acompanhar Sarkozy durante um ano inteiro; terminou seguindo passo a passo a batalha eleitoral.

 

Na revista “Le Nouvel Observateur” de 23 de agosto, a teatróloga contou um pouco de sua experiência. Parece encantada pelo seu retratado, sem ligar muito para a imagem de direitista que ele tinha durante a campanha (e da qual se desfaz, em parte, nomeando para o Ministério do Exterior um socialista emérito, Bernard Kouchner, da ong Médicos sem Fronteiras). Apesar dos elogios de Yasmina Reza, o episódio mais marcante que resulta de sua narrativa ao “Nouvel Obs” me parece pouco abonador.

 

No salão de um hotel, antes de um comício, Yasmina Reza estava com um jornal no colo. Sarkozy se interessa pela primeira página e pega o jornal. Havia ali notícias sobre uma derrota eleitoral do iraniano Ahmadinejad, e muitas matérias sobre ele mesmo, Sarkozy. Na parte de baixo da página, à direita, um anúncio. Depois de examinar o jornal por alguns segundos, Sarkozy o devolve, dizendo: “Bem bonito, esse modelo novo da Rolex”.

 

Seria um disfarce, uma artimanha de Sarkozy para não revelar seu interesse pelo que o jornal dizia a seu respeito? Em se tratando de políticos, sempre pensamos em hipóteses desse tipo. Pelo que diz Yasmina Reza, não se trata disso. Ele está mesmo interessado no relógio de luxo. Sua admiração, como leitor, é por um tal de Marc Levy, autor de best-sellers. O fato, num país onde presidentes intelectualizados é sem dúvida um point d’honneur, causa escândalo à esquerda e à direita.

 

Mas é também típico dos intelectuais franceses, à esquerda e à direita, fazer tempestade em copo d’ água, e criar um grande caso histórico onde não veríamos nada mais do que mediocridade. O Rolex de Sarkozy já faz correr mais tinta, provavelmente, do que possa acompanhar a nossa vã atenção. Não há quadros em branco para os pensadores de Paris; talvez não existam mesmo em lugar nenhum.   

Escrito por Marcelo Coelho às 23h44

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Penelope Shuttle

Penelope Shuttle

Há tempos publiquei aqui um ou dois poemas de Penelope Shuttle, que escreve como ninguém sobre os mistérios da maternidade. Aqui vai mais um, dos seus Selected Poems. Pode ser lido como uma oração.

 

 

A CONCEPÇÃO

 

Para Zoe

 

Agora

Você está na arca do meu sangue

no rio dos meus ossos

no bosque dos meus músculos

nos ligamentos do meu cabelo

no engenho de minhas mãos

na fuligem de minha sombra

na esquadra do meu cérebro

sob as estrelas do meu crânio

nos braços do meu útero

Agora você está aqui,

mineradora do ouro da minha carne.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h06

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voltaire de souza (2)

Como não deixei o link para a coluna de quinta-feira, vai aqui o texto integral.

 

A ESPERANÇA SE VESTIU DE PRETO

 

Corrupção. Escândalos. Bandalheira.

A classe média está cansada. Elenice dava um suspiro.

--As crianças... o trabalho... e agora o meu sogro.

A saúde do sr. Landolfo andava muito debilitada.

--Não enxerga direito... e anda tão sem ânimo...

Antidepressivos podem ajudar na terceira idade.

--Diz que o país não tem conserto. Que não quer saber de nada...

O sr. Landolfo passava os dias mudo diante da TV.

Doses diárias de Animix passaram a ser-lhe administradas por via oral.

Uma tarde, Elenice teve a surpresa.

O sr. Landolfo sorria. Atitude de triunfo. De confiança.

--O país vai dar certo. Vão finalmente prender os corruptos.

Elenice precisava de mais explicações. Lindolfo apontou para a TV.

--Contrataram o Batman. Para acabar com a corrupção.

Não era o Batman. Era apenas a toga preta de um ministro do STF.

O remédio foi suspenso. O sr. Landolfo já se acostuma à casa de repouso Pôr-do-Sol. Onde os escândalos mais comentados são do tempo de JK.

Alguns lares são como tribunais. Um dia chega a aposentadoria compulsória. 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h25

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co3108200704.htm

Nas Faculdades Pintassilgo, publicitários famosos podem ser impopulares, comenta o cronista (para assinantes do uol).

Escrito por Marcelo Coelho às 22h18

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História da impotência

História da impotência

Marcados pela tradição do empirismo e do “sólido bom senso”, muitos críticos e filósofos ingleses não engolem a psicanálise, e sempre que podem encontram ocasião para zombar de Freud e seus seguidores. Leio no “TLS” de 8 de junho a resenha de Richard Davenport-Hines sobre um livro que deve ser interessante, Impotence: a cultural history, de Angus Mc Laren.

 

A idéia, naturalmente, é levantar (hum!), ao longo do tempo, as diferentes reações diante do que hoje se chama disfunção erétil. Ficamos sabendo que Madame de Sévigné gargalhou incontrolavelmente ao saber de um fracasso sexual do seu filho. Depois estranhamos a falta de compostura dos dias atuais...

 

Vêm então as teorias: acreditou-se por bom tempo na ação de feiticeiras. Montaigne, que não acreditava em bruxas, era forte adepto da psicologia. Um jovem, escreve ele num dos seus ensaios, confessou-lhe ter medo de falhar na noite de núpcias. Montaigne receitou-lhe um chá, ou uma erva qualquer, sabendo que aquilo era um puro placebo. Mas, diz ele com certo orgulho, e certa ingenuidade, que o principal era dar autoconfiança ao rapaz, que a teve, aliás, de sobra. Mais uma vez Montaigne confirma sua tese, que não é propriamente cética, a respeito da importância que nossas crenças têm sobre nossas ações.

 

Davenport-Hines não cita esse exemplo, mas vai direto na jugular de Freud. Um psicanalista, citado por Angus Mc Laren, concluiu que é uma tarefa muito difícil tratar da potência sexual dos maridos, no caso dos casamentos que não se consumam, mas que

 

em poucas semanas podemos torná-los potentes, se tratarmos de suas mulheres ... se a mulher consente que o homem seja agressivo, e mesmo tira prazer disso, o efeito será maior nele do que o de qualquer tratamento psiquiátrico.

 

 Eis o que se chama de autoconfiança clínica... Pior é o caso de Ernest Jones, biógrafo e discípulo de Freud, que definia potência “como a capacidade de empreender intercurso vaginal”, seguindo-se, portanto, que todo homossexual é impotente, “qualquer que seja a sua potência com membros do mesmo sexo”.

 

A bruxaria talvez seja uma explicação melhor. Desde que interpretada psicanaliticamente: a “bruxa” culpada da impotência não é a curandeira da esquina, mas sim um deslocamento da própria figura materna na psique do impotente. O que dá um tom mais aterrorizante, sem dúvida, às gargalhadas de Madame de Sévigné.

 

 Madame de Sévigné (1626-1696)

Escrito por Marcelo Coelho às 00h39

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Bem-vindo ao Windows Vista

Estou com um computador novo, daqueles que já vêm com a mais nova e diabólica invenção de Bill Gates, o Windows Vista.

 

Uma coisa boa do novo software é que foi eliminado aquele chato ícone de uma ampulheta, que nunca me pareceu uma ampulheta de verdade, e não dava nenhuma impressão de transcurso de tempo.

 

O Windows Vista exibe um lindo anelzinho luminoso, que gira hipnoticamente enquanto o usuário espera que as coisas funcionem.

 

Mas as coisas não funcionam. Não funcionam de jeito nenhum. O velho outlook express, que tantos vírus e spams já me trouxe, deixou de existir. Em seu lugar existe um programa chamado windows mail, que me proíbe de ter mais de uma identidade/endereço eletrônico, coisa importante para quem usa pseudônimos literários.

 

Tudo agora baixa ao mesmo tempo, numa ingurgitação de e-mails inadministrável.

O pior é quando eu quero fazer a simples e civil operação de responder a um e-mail.

O anelzinho mágico aparece, e posso esperar dois ou três minutos até que se abra uma caixinha onde escrever meu e-mail de resposta. Em resumo, é mais fácil receber cartas de Hogwarts, enviadas por meio de corujas amestradas, do que proceder às mais simples rotinas do outlook.

 

Fuja do Windows Vista, se puder. E bem-vindo à militância anti-Gates.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h03

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Caso Conpresp

Caso Conpresp

http://gabinetesoninha.zip.net/

Atendendo à recomendação de um leitor, li no blog político da vereadora Soninha a sua narrativa da votação na Câmara de nova lei limitando tombamentos na cidade. Vereadores do PT não se saem bem nesse episódio, e não acho que tenha pisado na bola no meu post anterior sobre o assunto. Leia e verifique.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h47

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co2908200704.htm

A situação financeira dos policiais de nosso país pode levar a sérios desentendimentos, observa o colunista (para assinantes do Uol).

Escrito por Marcelo Coelho às 15h31

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Festa na oposição

As decisões do STF no caso do mensalão despertaram, a meu ver, uma onda de certo triunfalismo na imprensa e na oposição. Pessoalmente, gostei também do resultado, não porque odiasse especialmente este ou aquele acusado. Acho que o principal, na minha atitude, foi uma sensação de reconforto.

 

É que, na verdade, à medida que o tempo ia passando ganhou força a versão petista de que tudo aquilo não tinha sido nada de tão grave assim; a estratégia de considerar os pagamentos a deputados como um simples acerto de gastos de campanha, eliminando as vantagens obtidas pelos bancos e por Marcos Valério no negócio, tornava-se aos poucos predominante na memória geral.

 

Quando vemos juízes do Supremo discutindo em minúcia cada caso, e tomando por algo mais do que meras “suposições” e “perseguições da imprensa” as evidências da tramóia, cresce a sensação de que, afinal, os petistas não tinham razão em confiar que poderiam fazer todo mundo de idiota.

 

Mas o triunfalismo não tem tanta razão de ser. Em primeiro lugar, o que houve foi apenas o recebimento da denúncia. Mesmo que não ocorra a prescrição de alguns casos, nada impede que muita gente seja absolvida por falta de provas. Em segundo lugar, colocando-me na pele de um ministro do STF, aceitar a denúncia seria o mais prudente a fazer neste momento. Se, do ponto de vista de uma Justiça absolutamente imparcial, é necessário pensar no prejuízo moral que pode recair sobre um cidadão ao ser considerado “réu” de um processo, o fato é que o prejuízo moral em cima dos acusados do mensalão, muitos deles até cassados, já ocorreu de qualquer modo. Aceite-se então a denúncia, e a absolvição posterior pode até ser feita, com mais tranqüilidade, sem jogar sobre o tribunal suspeitas de complacência.

 

Curiosamente, o ministro Eros Grau, sobre cuja severidade alguns de seus colegas lançavam dúvidas, acolheu praticamente todo o relatório de Joaquim Barbosa. E Ricardo Lewandowski, que nas suas mensagens a Carmen Lúcia acreditava na leniência de Eros Grau, foi o mais reticente em aceitar as acusações. Sinal, quem sabe, de que os resultados finais do caso venham a ser distintos do massacre verificado neste julgamento.   

 

Também me parece forçada a interpretação de que o resultado do STF espirre muito no atual governo. Dá novo impulso à oposição, é claro, mas a distância de Lula frente ao que possa acontecer com Zé Dirceu e Gushiken revela-se imensa a cada dia. Pode-se martelar que foram ministros dele, mas já não são mais. No interior do PT, talvez decresça a tentativa de inocentar os companheiros e culpabilizar a imprensa. Mas, mesmo na hipótese de todos os mensaleiros serem condenados em definitivo, a culpa ficará com eles, e com mais ninguém. O governo, que sobreviveu à crise no seu auge, tem muito menos a temer agora do que naquele momento.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h27

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Pontilhismo e muzzarella

Pontilhismo e muzzarella

Segue a imagem de um cartaz de pizza em Bragança Paulista, infelizmente sem a nitidez que atenderia ao pontilhismo, quase floral, com que o pintor retratou os temperos da cobertura.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h33

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PT: acredite se quiser

Em “Deus, um delírio”, Richard Dawkins cita uma simpática frase de H. L. Mencken, na qual o jornalista americano diz, de bom grado, respeitar a crença dos outros. Respeito, diz Mencken, a religião de alguém, “do mesmo modo com que respeito sua afirmação de que tem filhos lindos e inteligentes.”

 

Nada de muito bélico, portanto. Mencken tinha uma tolerância que Dawkins, com razão, perdeu.

 

Mas aplico a mesma frase de Mencken com relação ao PT municipal. Há quem ainda acredite que o PT, etc. etc., é uma barreira de esquerda contra os avanços do capital.

 

Ocorre que a Câmara dos Vereadores está em guerra contra o Conpresp, órgão que se dedica a tombar prédios e logradouros históricos na cidade. A Câmara decidiu que o voto do Conpresp não vale tanto assim. Afinal, entre as questões em jogo está um conjunto de galpões industriais na Mooca, e doze edifícios históricos (e baixos) perto do Ipiranga.

 

Mas o mercado imobiliário gostaria de construir prédios nesses lugares. Insurgiu-se contra o Conpresp. A Câmara Municipal atendeu a essa revolta, diminuindo os poderes do Conpresp.

 

Seria de esperar, num mundo em que Deus existe, a revolta do PT diante dessa iniciativa do capital predatório. Leio, entretanto, que vários vereadores do PT concordaram com o fim do tombamento e com a redução de poderes dos tombadores.

 

Arselino Tatto, João Antonio, José Américo, e Paulo Fiorilo são do PT e são contra o poder dos tombadores. Receberam, em doações do mercado imobiliário, respectivamente as somas de R$ 39 200, 20 000, 100 000, e 2 000. 

 

Talvez tudo seja conspiração golpista da imprensa burguesa. O fato é que "direitistas, burgueses e fascistas de quatro costados", como o prefeito Kassab, se empenham no momento em vetar o projeto triunfalmente aprovado pela Câmara, com apoio de próceres do petismo municipal.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h20

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Brahms, Elgar, Dvorak

Brahms, Elgar, Dvorak

Talvez seja necessário ter nascido na Inglaterra para apreciar integralmente a música de Edward Elgar. Ouço, pela enésima vez, seu concerto para violoncelo e orquestra, agora na interpretação de Jacqueline du Pré (meu antigo Lp tinha como solista Paul Tortelier), e, como sempre, admiro a beleza imensa dessa obra.

 

Ao mesmo tempo, sua mistura de lirismo e contenção produz certo estranhamento. Elgar é capaz de lançar-se nas mais longas e melancólicas melodias, cortando-as em rompantes de raiva e desespero; não sei bem por que razão, entretanto, todos os extremos emocionais de sua música parecem enquadrados num ambiente de convencionalismo e timidez. Há uma espécie de “sapato apertado’ em sua música, coisa de que Brahms, mesmo reverente aos padrões do classicismo, sabia se livrar.

 

Dvorak, um brahmsiano sem sapato nenhum, fazia feliz uma música que, feitas as contas, resultou menos profunda, menos séria que a de Elgar. Mas se compararmos os concertos para violoncelo de Dvorak e de Elgar, o primeiro acaba sendo mais bem-sucedido artisticamente, embora tenha muito menor complexidade emocional. Será que o “menos” é “mais” nesse caso?

 

Ou será que estamos às voltas apenas com uma dificuldade de idioma? As restrições de Elgar seriam puramente “culturais”, isto é, “britânicas”, e isso dificulta em parte sua apreensão junto aos povos de outro mundo... Nesse caso, por incrível que possa parecer, o “nacionalista” Dvorak é mais fácil de apreender universalmente do que o meramente “britânico” Elgar... Sinal de que o império vitoriano iria logo perecer.

 

Sir  Edward Elgar

Escrito por Marcelo Coelho às 01h29

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homem e mulher

homem e mulher

A violoncelista Jacqueline du Pré e o pianista e maestro Daniel Barenboim se casaram em Israel, no ano de 1967, às vésperas da Guerra dos Seis Dias. Eles já estavam apaixonados, e o casamento estava programado para alguns meses depois. Mas é interessante ver, no documentário de Christopher Nupen a que estou assistindo agora, a diferença de atitudes entre um e outro.

 

Jacqueline du Pré conta que foi para Israel com Barenboim, às vésperas da guerra, porque ele se sentiu convocado a ir, e ela queria estar junto dele.

 

Barenboim, poucos minutos depois no mesmo documentário, especula sobre a afinidade musical que existia entre Jacqueline du Pré e ele próprio; considera que o entendimento entre músicos pode existir mesmo que não exista amor entre eles, e que podem existir músicos muito apaixonados sem o mesmo grau de entendimento musical. Veja aqui o filme em que du Pré interpreta o concerto de Elgar, com regência de Barenboim.

 

Seja verdade ou não, no filme de Nupen vemos a paixão de Du Pré contrastada com o racionalismo de Barenboim.

Jacqueline du Pré, Daniel Barenboim

Escrito por Marcelo Coelho às 00h39

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limites do talento

limites do talento

Acabo de falar, banalmente, no "talento" de Jacqueline du Pré. Mas talento é um conceito bastante vago, ou melhor, bastante limitado: remete à fisiologia do ouvido ou ao potencial do cérebro. Acredito que todo grande intérprete, e mais ainda todo grande artista, depende de muito mais do que o puro talento natural.

Penso em duas coisas, o caráter pessoal --no que implica de seriedade e respeito ao próprio objeto artistico-- e a "personalidade", que faz alguém ser magnético e capaz de atrair as atenções dos outros; é algo que o puro talento, a pura facilidade, o puro jeito, o puro intelecto não conseguem fazer.

Outra coisa seria, para ficar mais místico ainda, o tamanho da alma de cada um. Muitas pessoas de talento prodigioso se perdem, seja por falta de caráter, de convicção, seja por falta de magnetismo, seja por falta de alma.

Nem todas as almas, com efeito, interessam a Mefistófeles a ponto de serem tentadas por um pacto.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h09

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alegria de um professor

alegria de um professor

“A grande alegria”, diz um professor de música, “é poder oferecer a um ser humano uma quantidade enorme de coisa, e sentir que essa quantidade retorna, aumentada, com tamanha força inevitável, que você sente que esse processo pode ser infinito, e que nada irá detê-lo”.

 

Quem diz isso é o primeiro professor de violoncelo de Jacqueline du Pré, uma das maiores instrumentistas do século, sobre quem assisto um documentário agora.

 

A mãe de Jacqueline, que era pianista, conta mais uma história. Aos nove ou dez anos, a menina participou de um concurso de jovens violoncelistas. Havia um corredor muito longo levando ao lugar onde a competição seria realizada. Ela estava ali, com um rosto tão feliz, que alguém apareceu e comentou, simpaticamente: “Ah, pode-se ver que você foi bem no concurso”. Ela respondeu: “ não, eu vou entrar agora no palco”.

 

Temos a tendência para acreditar, otimisticamente, no talento de todo mundo. Mas talvez seja uma forma de evitar decepções futuras perceber o que é, de fato, um talento excepcional em seu início.

 

Os trechos que cito são de um documentário de Christopher Nupen sobre Jacqueline du Pré, sobre quem, como sabem os ouvintes de música clássica, há infelizmente muito o que falar.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h53

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cansado da Amazon?

cansado da Amazon?

Essa coisa de "Cansei" acaba pegando bastante nas elites. Sempre fui usuário da Amazon para importar livros, e não tenho nenhuma queixa, muito ao contrário. Mas estou experimentando um novo site de compra de livros, que reserva parte da venda para sustentar programas de estímulo à leitura no terceiro mundo. Além disso, cobram uma taxa mínima para que o frete seja "carbon free", e até o marcador de livros que vem de brinde é feito com papel reciclado e tinta ecológica. Mais politicamente correto é impossível. Mas eles além de tudo são simpáticos, pelos textos e jeitão geral do site, e têm livros à beça.

O site se chama www.betterworld.com

Escrito por Marcelo Coelho às 22h24

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que é isso, governador?

É forte concorrente ao prêmio de pior artigo do ano o que está publicado hoje na pág. 3 da “Folha”. Chama-se “E a greve dos médicos, hein, governador?’, e é assinado pelo governador de Alagoas, Teotônio Vilela Filho.

 

Não questiono as boas intenções dessa autoridade estadual, mas fiquei impressionado com a tolice do texto.

 

De modo simpático, Teotônio Vilela Filho começa contando o convite que recebeu de um jornalista da “Folha”. Seria “uma bela oportunidade”, diz ele, para contar aos brasileiros o que o governo está fazendo para colocar “a casa em ordem”. Bem, mas uma greve de médicos estava em curso há quase três meses. Uma criança morreu pela falta de atendimento, como apareceu na TV outro dia. O jornalista, conta Teotônio, resolveu perguntar: “e a greve dos médicos, hein, governador?”

 

Ah! Uma lâmpada acendeu-se então na mente do responsável pela saúde dos alagoanos, ele então notou (sic) que,

 

mesmo que eu não quisesse falar das mazelas da saúde, dos baixos salários dos médicos; ainda que eu goste mais de falar das coisas boas de Alagoas

 

[suas praias? A literatura de Graciliano Ramos? O desenvolvimento da pecuária local?]

 

(...) ainda assim eu não conseguiria sair da discussão sobre saúde, salários, greve...

 

Você vê só? Tanta coisa para falar, e pedem um artigo exatamente sobre uma greve que paralisa há três meses a saúde do Estado...! A estreiteza de visão de alguns jornalistas realmente é uma coisa dolorosa.

 

Mas saudemos a audácia de Vilela:

 

Aceito o desafio.

 

Imagino que tivesse de aceitar, pois não lhe devem ter faltado perguntas sobre o assunto lá em Alagoas. Segue então o raciocínio do governador.

 

uma greve é legitima, é ética, quando existem os recursos para pagar o que pretendem ganhar os grevistas.

 

Vilela tentará provar que não existem esses recursos. O leitor irá acompanhando seu pensamento com doses variáveis de incredulidade, até levar um choque no final do texto:

 

enquanto escrevia este artigo, finalmente a negociação entre governo e grevistas chegava a bom termo. Graças ao aumento de verbas federais e ao trabalho de busca de recursos dentro da Secretaria da Saúde, e mantendo os índices constitucionais de repasses à saúde, conseguimos uma equação financeira possível.

 

Um milagre, então, fez com que uma greve sem ética, porque faltavam recursos, fosse equacionada com a busca (e descoberta) de recursos.

 

Mas isso não é o pior do texto. Morreu gente por falta de atendimento médico? Não há aqui um escândalo específico, nem pela ausência de ética “dos grevistas” nem pela falta de ética dos achadores de recursos inexistentes. Eis o que diz o governador:

 

os problemas da saúde em Alagoas transcendem a fatalidade [??] das mortes durante a greve. Com ou sem greve, a mortalidade infantil em Alagoas é das mais altas do Brasil. Infelizmente, vidas se perderam antes, durante e vão continuar sendo perdidas depois da greve.

 

De modo que uma greve, matando duas ou três crianças que poderiam ter escapado dessa, não altera o quadro geral. Mortalidade infantil se deve a maus serviços de saúde. Se estes se interrompem de vez, a piora do quadro, estatisticamente, é negligenciável.

 

Penso em torcer para Renan Calheiros nas próximas eleições estaduais.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h39

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O escândalo Ravel

O escândalo Ravel

Desde 1803, não havia estudante de composição na França que não ambicionasse ganhar o “Prix de Rome”,  que garantia ao vencedor dois anos de estadia na Villa Médicis, em Roma, de onde havia a obrigação de enviar, de quando em quando, algumas composições para os mestres do Conservatório. Debussy abominou a sua estadia em Roma: os pernilongos tinham especial predileção por ele, a ponto de desfigurar seu rosto de tanto inchaço.

 

Outros vencedores famosos do “Prix de Rome” foram Berlioz, Gounod, Bizet, Massenet, Ambroise Thomas, Gustave Charpentier, Florent Schmitt, Henri Dutilleux.

 

Para ganhar o prêmio, era necessário primeiro escrever uma fuga e uma obra coral curta, sobre um texto previamente determinado. Os classificados nessa fase tinham então de escrever uma cantata, que era examinada pelo júri do Conservatório de Paris.

 

Estou ouvindo um CD que traz uma cantata de André Caplet (1878-1925), “Myrrha”, vencedora desse prêmio em 1901. Mas o principal interesse desse disco, do selo Marco Polo, está nas cinco peças corais curtas escritas por Maurice Ravel, que tentou várias vezes ganhar o prêmio. Chegou perto justamente em 1901, perdendo de Caplet. Mas o grande escândalo ocorreu em 1905.

 

Ravel já estava com trinta anos, e tinha nome assegurado na música francesa graças ao seu “Quarteto em Fá”, uma das principais obras para essa formação no século 20, e pelos seus “Jeux d’ Eau”, marco na técnica pianística moderna. Escreveu então, para a fase preliminar do concurso, um coral de seis minutos e pouco, chamado “L’ Aurore”.

 

Basta escutar o comecinho para reconhecer o estilo já cristalizado de Ravel. Os compassos iniciais, com fagote e contrabaixo; logo adiante uma melodia sinuosa, um pouco oriental, ao estilo da “Xerazade” de 1903, é jogada e transfigurada através de combinações fascinantes nos instrumentos de sopro –e há algo nesse desenho melódico que lembra “O Pássaro de Fogo” de Stravinsky. Aos poucos, a música vai ganhando calor e claridade, como naquele amanhecer de “Dáfnis e Cloé”. O resto se torna bastante inflado e pomposo, mas há o bastante para agradar aos fãs de Ravel em busca de alguma coisa ainda por descobrir no seu repertório.

 

Pois bem, com esse “L’ aurore” desencadeou-se um dos maiores escãndalos da vida musical francesa. A peça foi rejeitada, numa eliminatória da qual só saíram vencedores seis alunos de um dos membros do júri. O assunto chegou à primeira página dos jornais (bons tempos, bons escândalos), e mereceu uma carta indignada de Romain Rolland. Um dos jurados declarou: “o senhor Ravel pode nos tomar por artistas acadêmicos. Mas não admitiremos que nos tome por imbecis”. Depois do “affaire”, o diretor do Conservatório pediu demissão. Foi substituído por Fauré, o que melhorou muito as coisas por lá.

 

Passados os anos, os estudiosos concluíram que a peça não poderia mesmo ser aprovada. Uma passagem contém sete compassos de oitavas paralelas entre as partes de baixo e de soprano, observa Arbie Orenstein em seu The Ravel Reader, o suficiente para reprovar um aluno de primeiro ano do Conservatório. Talvez a intenção de Ravel fosse mesmo desafiar o júri. Pelo menos, o certo é que ele já não precisava de júri nenhum.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h19

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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