Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

São Paulo, antes e depois

São Paulo, antes e depois

São Paulo, antes e depois

São Paulo, antes e depois

Está no Shopping Butantã até dia 7 de outubro uma exposição de fotos de bairros paulistanos. Mandaram-me por e-mail algumas imagens interessantes, do mesmo lugar tirado com um intervalo de algumas décadas. Não consegui reproduzir aqui uma da avenida Ibirapuera, quase vazia, na década de 60. Quase sempre fotos desse tipo retratam o centro da cidade; é uma documentação necessária a das mudanças, mais recentes, de bairros que fazem parte da nossa memória geracional. Eis aqui uma do Morumbi.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h11

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Brasil: identidade em construção (3)

Brasil: identidade em construção (3)

Brasil: identidade em construção (3)

Ainda sobre identidades e caráter nacional. Abro um livro recém-editado pela Contexto, intitulado Os Franceses, escrito por Ricardo Corrêa Coelho. A introdução diz o seguinte:

 

 

Sofisticados, refinados e cultos; mal-humorados, briguentos e pretensiosos. Inventivos, exuberantes e sedutores; reprimidos, melancólicos e saudosistas. Revolucionários, irrequietos e universalistas; conservadores, reacionários, chuavinistas e xenófobos.

Todas essas características contraditórias compõem o espírito dos franceses, formando um povo sui generis. Aqueles que vêem, em primeiro lugar, suas características positivas, costumam admirá-los. Já os que enxergam antes o lado negro de sua alma tendem a desgostar deles.

 

 

Muito bem. Não acho que os franceses sejam “reprimidos, melancólicos e saudosistas”. Mas entendo o esforço do autor em traçar um sistema de oposições. Talvez esteja aí um dos segredos de cada identidade nacional. Não se trata de identificar uma característica única (por exemplo, a de que o brasileiro é um povo triste, na frase de Paulo Prado), mas sim um sistema de oposições, no qual tudo cabe, desde que, no caso, seja francês.

 

O “sistema de oposições” seria outro se o livro fosse dedicado à Inglaterra, por exemplo. Posso imaginar as seguintes antíteses: “reprimidos e sentimentais; disciplinados e excêntricos; comportados e perversos; práticos e românticos. Todas essas características contraditórias compõem o espírito dos ingleses, etc. etc.”

 

Os teóricos da “identidade brasileira” talvez tenham negligenciado o papel da contradição, buscando uma única identidade, quando sem dúvida qualquer identidade se compõe de oposições. Não sei; quando Roberto da Matta fala da Casa e da Rua, está pensando numa oposição “tipicamente brasileira”, assim como poderíamos chamar de tipicamente inglesa a oposição entre Conservação e Fantasia, Ordem e Excentricidade, por exemplo.

 

O importante é que toda “identidade nacional” abra espaço para o máximo de variações individuais. Curiosamente, acho que no caso da identidade nacional brasileira isso não ocorre: muitos brasileiros não se sentem brasileiros. Mas isso, a meu ver, tem explicação. Aguarde os próximos posts.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h41

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Estudos sobre o Tempo Humano

Estudos sobre o Tempo Humano

Coincidências de leitura. Abro o volume 4 dos Études sur le temps humain, de Georges Poulet, com ensaios sobre Racine, Fénelon, Casanova e outros. Esse volume tem o nome de “A medida do instante”, e cito uns trechos da introdução.

 

...existem também os instantes pobres. Nada revelam a não ser sua indigência. Para existirem, para se seguirem um ao outro, necessitam de uma intervenção de cima. É preciso que um poder criador e conservador se obrigue a tirá-los do nada, aonde por si mesmos caem. Reconhecem-se aí os instantes do tempo jansenista. Para Saint-Cyran, fundador do jansenismo, o instante se contenta em mostrar sua exigüidade e sua vacuidade. É uma casca de noz. Sua medida é praticamente nula.

 

Ocorre mais ou menos do mesmo modo em Racine. O instante humano aí aparece como que esmagado por uma transcendência que pesa diretamente sobre ele. A essa verticalidade inicial se acrescenta uma outra. Sobrecarregado por uma presença sobrenatural, o instante raciniano superpõe-se por sua vez a uma profundidade interior que, como um reflexo na água, prolonga no fundo a sua imagem. Assim, contrariamente ao hábito dos instantes humanos de se alinharem uns ao lado dos outros, horizontalmente, ao longo de uma duração, os instantes racinianos se ligam sobretudo àquilo que lhes subjaz ou sobrepassa. Dependem de uma dupla profundidade.

 

Imaginemos agora essa dependência levada ao extremo. Concebamos o instante privado de qualquer característica pessoal. Eu, que vivo de instante em instante, sou aquilo que Deus põe em mim sucessivamente. De instante em instante Ele faz de mim um outro. Quando compreendo isso, compreendo minha fluidez. Sinto-me deslizar ao longo de uma trama em que se inscrevem e se apagam as modificações sucessivas do meu ser [...] Esta é a medida do instante em Fénelon, ou melhor, sua incapacidade de receber uma medida [...]

 

Por fraqueza interna, por deficiência de ser, o instante humano tende portanto a afundar no nada, a dissipar-se no vazio. Assim, nas épocas de grande fé, vêmo-lo com muita freqüência agarrar-se à transcendência. Mas se esta desaparece ou não é mais percebida, eis que o instante se encontra deixado sem sustentação, reconduzido a sua fraqueza fundamental.

 

“The sea is calm tonight...”

Escrito por Marcelo Coelho às 12h55

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A praia de Dover (2)

Quem costuma freqüentar este blog percebeu a boa notícia: aumentou o número de caracteres disponíveis para cada post, de modo que pude preservar, no poema abaixo, a disposição visual dos versos, em vez de recorrer àquelas/incômodas/barrinhas.

 

Não me arrisquei a escrever mais nada além da simples tradução de "Dover Beach", mas aproveito agora para fazer alguns comentários. Não me prendi ao metro, que é muito variável no original, e submetido àquelas leis que só os ingleses entendem. Fiz o que achei melhor. As rimas são irregulares no poema, mas a última estrofe é toda rimada, o que produz um efeito de “terminação” que procurei preservar ao traduzir.

 

Uma das coisas que me deixaram insatisfeito é o verso final. “Néscias” é uma palavra muito feia, e em inglês está escrito “Where ignorant armies clash by night”. Mas “Tropas ignorantes” ficaria ruim, e “tropas ignaras”, como traduz José Lino Grunewald em Grandes Poetas da Língua Inglesa (Nova Fronteira), parece um tanto “nariz empinado”. Minha tentação seria traduzir “Onde tropas cegas se batem na escuridão”, porque o “cegas” corre naturalmente no verso, sem chamar a atenção para si mesmo. Só que ficaria um pouco redundante; já falar em “planície sombria” e depois voltar a “escuridão” ficou demais. Com o “cegas”, ademais, o verso ficaria lembrando a expressão popular “mais perdido que cego em tiroteio”, ou o velho “briga de foice no escuro”. Preferi o “néscias”. Mas, pensando bem, ponha o “cegas” no lugar.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h07

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A praia de Dover (Matthew Arnold)

Está calmo, nesta noite, o mar.

É maré cheia, e uma linda lua cai

Sobre os canais; --no litoral da França a luz

Cintila e se vai; os rochedos ingleses se levantam,

Faiscando, vastos, para além da baía calma.

 

Vem à janela, é doce o ar da noite!

Mas, vindo da longa linha de espuma

Onde o mar encontra a terra enluarada,

Ouve! Escutas o bramido áspero

Dos seixos que o mar devolve, e arremessa,

Em seu retorno, até a beira da praia alta.

Começa, e cessa, e mais uma vez começa,

Numa cadência lenta, e trêmula, e traz

Uma eterna nota de tristeza para cá.

 

Sófocles, em tempos idos,

Ouviu-a no Egeu, que trouxe

À sua mente o fluxo e refluxo turvo

Da miséria humana; também nós

Distinguimos neste som um pensamento,

Ao ouvi-lo neste mar longínquo, ao norte.  

 

O Mar da Fé

Também teve, outrora, força plena, e em torno da orla de toda a terra

Se pôs, como as dobras de uma guirlanda branca a se enrolar.

Mas agora ouço apenas

Seu longo e melancólico bramido que se afasta,

Deixando, para o vento noturno

Que sopra, as escarpas lúgubres e vastas

E os seixos soltos deste mundo.

 

Ah, meu amor, sejamos verdadeiros

Um com o outro! Pois o mundo, que parece

À nossa frente uma paisagem de sonho,

Tão nova, tão bela, tão variada,

Em realidade não tem nem luz, nem amor, nem alegria

Nem certeza, nem paz, nem qualquer consolação,

E aqui estamos como numa planície sombria,

Tomada de alarmes confusos de ataque e retirada,

Onde tropas néscias se batem na escuridão.

 

A praia de Dover, cenário do poema de Matthew Arnold, a que me referi em outro post.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 03h34

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Brasil: identidade em construção (2)

Brasil: identidade em construção (2)

Talvez encontremos aqui, aliás, uma característica a meu ver muito forte da ideologia em vigor no Brasil, a que nem sempre se dá atenção. Falamos alegremente num país “mestiço”, na “mistura de raças” que todos, praticamente, levam em seu sangue. Ocorre que uma coisa é ser mestiço, como se já fôssemos todos frutos iguais de um processo histórico secular, outra coisa é ser uma sociedade misturada, onde há gente muito branca, ou razoavelmente branca, no andar de cima, e junto com pessoas de origem japonesa, russa, árabe ou italiana não ainda miscigenados a pessoas de outra origem. O mestiço, sabemos, é muito mais “o povo” do que “a elite”. Não me refiro ao que possa dizer um exame de DNA, mas ao que se vê a olho nu, e é isso o que conta para quem quer ser preconceituoso, ou para quem não quer ser.

 

Enfim, a característica ideológica que eu queria apontar não é simplesmente a da “falsa democracia racial”, porque isso já foi denunciado, de forma extremada ou não. O que me parece muito brasileiro, e tem ressonância numa variedade de formulações a respeito do Brasil, é a tendência que temos para encarar um processo (por exemplo, o da mestiçagem, ou da convivência entre raças diferentes) como se fosse um resultado (“já” somos “todos” “mestiços”).

 

Ainda sobre o post anterior, acrescento que essa é a mesma idéia que está por trás de um lema como “país do futuro”; de alguma forma, consideramos que o futuro a ser alcançado, através de um longo processo histórico, não só está garantido, como se presentifica, se confirma, desde o início, desde a descoberta. Analisei um bocado isso quando escrevi minha tese de mestrado sobre Brasília: a construção de uma capital no meio do cerrado seria ao mesmo tempo um estímulo para o desenvolvimento futuro da região e a chegada instantânea desse futuro, ali mesmo. A cidade já era o futuro, por assim dizer.

 

“O futuro já chegou”: há nessa frase uma contradição lógica, uma espécie de curto-circuito temporal. Creio não estar sozinho, entretanto, ao dizer que esse tipo de ufanismo é muito presente entre nós. Estamos “destinados a ser um grande país”: em sentido temporal contrário, a frase diz o mesmo que a anterior. A extensão territorial do Brasil, suas potencialidades naturais, as riquezas do subsolo... quantas vezes se tomou essa nota promissória como se fosse dinheiro contante?

 

Afinal, não poderia ser diferente quando temos um desenvolvimento econômico que até hoje depende muito do investimento externo, dos empréstimos de capital. O endividamento, forte nos períodos de “milagre” como nos anos 50 e 70, nada mais é do que esse ato de adiantar para agora o que teria de vir depois.

 

Não é negligenciável, nessa mesma ordem de raciocínio, o papel do crediário, por exemplo, na sustentação do “status quo”, no conservadorismo político que tende a existir nas camadas populares. De alguma forma, cria-se um comprometimento com o sistema, uma certeza, por assim dizer, de um “futuro no presente”... Mas aí começo a especular um pouco, porque esse endividamento no consumo não é pura característica brasileira, e teríamos de investigar concretamente cada situação.

 

 “O futuro a Deus pertence”... não sou de confiar plenamente na validade dos ditados populares como expressão da cultura de um país, porque imagino que existam ditados parecidos e opostos em qualquer outro lugar. Só para lembrar um contra-exemplo, dizemos também que “Deus ajuda a quem cedo madruga”. Mas acho notável, em todo caso, essa relação nossa com um futuro que se presentifica incansavelmente a todo instante.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h04

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Brasil: identidade em construção

Brasil: identidade em construção

Brasil: identidade em construção

Participo na quinta-feira que vem de um debate em torno do livro Brasil, uma Identidade em Construção, organizado por Ludwig Lauerhass Jr. e Carmen Nava, que acaba de sair pela editora Ática.

 

No começo, levei um susto com a capa do livro: uma foto em preto-e-branco mostrando três rostos de homem, segundo a clássica tipologia do “negro”, do “índio”, e do “branco”. Será, pensei, que nunca vamos construir nada mais criativo do que essa antiga visão racial de nossa identidade?

 

É curioso que, apesar dos esforços de Gilberto Freyre em valorizar mais a idéia de “cultura” do que de “raça” na formação da cultura brasileira (tema de um estudo bem nuançado nesta coletânea de ensaios), termina-se voltando à obsessão tripartite das “raças”, e o próprio Gilberto Freyre é lido mais pelo otimismo biológico da mestiçagem do que na chave culturalista que, em parte, ele queria propor.

 

Descobri mais tarde que a foto da capa não é para ser tomada literalmente. Trata-se de uma imagem captada pelo velho documentarista e repórter Jean Manzon, na década de 50, e faz parte do material iconográfico pesquisado por Ludwig Lauerhass no ensaio, também incluído no livro, sobre “A representação visual da identidade do Brasil”.

 

Não deixa de ser curioso, entretanto, que ainda hoje possamos confundir uma imagem artificialmente montada, em torno dos estereótipos raciais, com uma imagem relativamente plausível daquilo que somos no concerto das nações.

 

Claro, nossa mestiçagem, ainda incompleta, e nossa variedade étnica, plenamente visível nas ruas (e, aos poucos, na TV e nas universidades), são um patrimônio e uma alegria. Será entretanto somente nessa forma “exterior”, isto é, da aparência física, que encontramos uma identidade? Justamente, é menos uma identidade do que uma multiplicidade.

 

Li outro dia numa crônica de Carlos Heitor Cony que o passaporte brasileiro é dos mais cobiçados pelos falsificadores internacionais, uma vez que usuários com qualquer aparência física podem passar por brasileiros. Há, então, tanta “identidade” quanto “falta de identidade”...

 

Ou, melhor dizendo, há uma característica notável na sociedade brasileira, a de sua variedade e mistura étnicas, mas isso não cria, necessariamente, uma identidade do brasileiro, que no máximo pode orgulhar-se, mas isto já é problemático, de não ter preconceito racial, de conviver bem com a diferença, etc...

 

O assunto é longo, e continuo depois.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h25

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Um crítico na periferia (2)

Um crítico na periferia (2)

Bem mais simpático e engraçado é o artigo de Neil Larsen, professor na Universidade da Califórnia, incluído na coletânea sobre Roberto Schwarz de que falei no post anterior. Intitula-se “Por que ninguém consegue entender Roberto Schwarz nos Estados Unidos?”, e começa assim:

 

Há pouco tempo, fiz uma dedicatória num livro meu antes de presenteá-lo a Roberto Schwarz. As palavras foram as seguintes: “Ao meu mestre na periferia do capitalismo.” Não foi exagero nenhum. Roberto é, a meu ver, simplesmente o crítico literário mais importante de hoje. Não escrevo uma palavra de crítica, nem dou aula, sem contar com a orientação prestada por obras dele (...)

 

Depois de redigir aquela dedicatória, porém, me dei conta de que nela havia uma ambigüidade, porque deixava como possibilidade a existência de outro mestre, um mestre do centro do capitalismo. E isso não foi o que queria dizer. Roberto é o meu mestre, só que, por casualidade, mestre que não ficava nem fica no centro do capitalismo –embora não sei se possa chamar São Paulo de periferia. Se não é centro propriamente dito, para mim, que moro numa Califórnia que não é a de Schwarz, mas a de Schwarzenegger, viajar ao Brasil que é São Paulo me dá uma sensação de ter subido um pouco na escala que vai da neobarbárie até uma civilização pelo menos relativa.

 

Vejam só...!

Neil Larsen desanca em seguida os críticos americanos, sobrando ressalvas fortes para Fredric Jameson.

 

O conceito básico do pensamento dialético schwarziano –o conceito do social como forma objetiva que habita na obra literária desde dentro, conceito adorniano na sua inspiração—ainda não foi pensado por nenhum crítico norte-americano, mesmo sendo marxista. O fato de a teoria literária nos Estados Unidos ser ainda hoje uma reação imediata contra o formalismo conservador do New Criticism (...) pode explicar em parte a existência desse ponto cego em nossa consciência crítica, mas, então, de onde ver o New Criticism senão da mesma estrutura profunda histórico-ideológica que faz da forma sempre um universal abstrato, contraposto a um conteúdo imediato que é onde reside o social e o político?

 

Talvez pudéssemos dizer que a idéia de uma forma puramente abstrata e universal tende a ser possível numa sociedade onde, em teoria, não há uma contradição tão evidente entre lei e realidade prática, por exemplo, que é uma das coisas típicas do país em que as idéias estão “fora do lugar”. Será que vale para o centro o que vale na periferia? Talvez agora sim, dado o abrasileiramento, isto é, a avacalhação, da política americana.

Em todo caso, continuo com Larsen.

 

Por isso, creio, esta alergia à forma como forma social, e por isso as obsessivas afinidades, quase a dependência química, com a “ideologia francesa” de Foucault e Derrida nos Estados Unidos, seja na sua forma hermética e de mandarim típica dos anos 70, ou na sua forma populista nos cultural studies e identity politics dos 80, dos 90, e até hoje.

 

Sobra também para figurões da esquerda:

 

Olhemos só o exemplo do grande sucesso de Império de Michael Hardt e Antonio Negri, livro que levou a alergia à dialética (neste caso uma alergia deleuziana) a um grau de incoerência quase incrível, mas que foi chamado de –e durante um tempo recebido como --, nas palavras de Jameson, “a primeira grande síntese teórica do século 21”. Sendo assim, ou o século 21 durará pouco, ou será o século com a síntese mais simplista que já existiu.

 

Ufa... eis um livro enorme, que sempre tive preguiça de ler, e que agora desaba como uma torre do World Trade Center.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h08

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Um crítico na periferia do capitalismo

Um crítico na periferia do capitalismo

Um livro sobre Roberto Schwarz será lançado nesta quarta-feira, às 18h, no auditório da Geografia da USP, com um debate de que participam Chico de Oliveira, Sérgio Miceli e Rodrigo Naves. Infelizmente não estarei lá, mas seria bom ir, porque contribuí com um texto para o livro.

 

Organizado por Maria Elisa Cevasco e Milton Ohata, Um crítico na periferia do capitalismo (editora Companhia das Letras) traz uma série de artigos e depoimentos. Meu texto no livro ficou talvez um pouco seco, e num tom menos caloroso do que o de outras contribuições para o volume. Acho que sou meio drummondiano nessas questões de admiração; por orgulho, contraio-me. Em todo caso, creio que ficou interessante a análise da sintaxe, do ritmo do texto “schwarziano”, e as ligações que fiz entre alguns detalhes literários dos diversos ensaios de Que Horas São?

 

Eis um trecho do que escrevi.

 

 

Nos ensaios de Roberto Schwarz também há pausas muito marcadas, sem que o conjunto do argumento se desarticule. Em  “Nacional por Subtração”, podemos notar como isto ocorre. Aí pela metade do texto, deparamo-nos com um parágrafo resumindo toda a discussão anterior:

 

        Em síntese, desde o século passado existe entre as pessoas educadas do Brasil --o que é uma categoria social, mais do que um elogio-- o sentimento de viverem entre instituições e idéias que são copiadas do estrangeiro e não refletem a realidade local. Contudo, não basta renunciar ao empréstimo para pensar e viver de modo mais autêntico. Aliás, esta renúncia não é pensável. Por outro lado, a destruição filosófica da noção de cópia tampouco faz desaparecer o problema. (p. 39)

 

Esse trecho dava conta de vários movimentos elaborados desde o início do ensaio, em que havia, certamente, um jogo dialético, uma seqüência de negações  -- o nacionalismo está velho, mas o seu contrário, o internacionalismo, tampouco é aceitável, etc. Essas posições alternativas não se trocam indistintamente; estão em movimento. Mas na frase final há, digamos assim, uma “puxada de freio”, uma súbita conversão ao que é real, ao que é “irredutível”, inerente ao chão material do aqui e do agora.

Páginas antes, aliás, Schwarz discutia as posições de Silviano Santiago e Haroldo de Campos, afirmando que estes autores negavam a utilidade de conceitos como “cópia” e “original”. “Por que dizer que o anterior prima sobre o posterior, o central sobre o periférico, a infra-estrutura econômica sobre a vida cultural e assim por diante?” (p. 35) Schwarz contrapõe a isto um argumento que tem o mesmo aspecto de “puxada de freio” a que nos referíamos:

 

Resta ver se o rompimento conceitual com o primado da origem leva a equacionar ou combater relações de subordinação efetiva... Contrariamente ao que aquela análise faz supor, a quebra do deslumbramento cultural do subdesenvolvido não afeta o fundamento da situação, que é prático (p.36).

 

É como se o chão material, aqui, impusesse uma parada numa possível dialética abstrata e interminável entre “centro e periferia”, “cópia e original”, “infra-estrutura e superestrutura”, e assim por diante.

Pois bem, depois daquele parágrafo sintetizando toda a discussão, em que se dizia que “a destruição filosófica da noção de cópia tampouco faz desaparecer o problema” o leitor sente, então, que houve uma pausa, e que o argumento vai ser retomado em outras bases. De fato, estávamos no meio do ensaio, e podemos ler em seguida:

 

Vista em perspectiva histórica, a questão talvez se descomplique. Silvio Romero tem excelentes observações a respeito, de mistura com vários absurdos.(p. 39)

 

A partir daí, Schwarz passa a analisar em detalhe um texto de Sílvio Romero, citando-o extensamente, desmontando sua argumentação e notando sua pertinência ideológica. Sem prosseguir na citação, cabe apenas indicar uma possibilidade de leitura. A passagem de  Sílvio Romero poderia ser tomada como “apenas mais um exemplo” do “caso geral” a que o ensaio se refere.  Minha sugestão, a respeito deste e de outros momentos de Que Horas São?, é que o exemplo, o trecho que Schwarz se dedica a analisar, assume função diversa. O exemplo não é apenas a ilustração de um caso, não é apenas o exemplar de uma espécie, como num zoológico, se quisermos, uma girafa será apenas o exemplar da espécie das girafas. Não se trata de um caso que poderia ser indiferentemente escolhido entre vários outros, mas de algo que cumpre a função de transferir a análise para outro patamar, mais concreto.

(...) Poderíamos dizer que nos textos de Roberto Schwarz a relação entre o argumento geral e o exemplo não é de continuidade total, de indiferença, como um exemplar diante da espécie, de um caso diante da regra, mas que parece estar numa relação que é ao mesmo tempo de descontinuidade e pertinência; o caso mais semelhante desse tipo de relação, a meu ver, seria o que rege as relações entre teoria e prática. Isso significa, entre outras coisas, que há uma dimensão irredutível, algo de não-traduzível, de um plano para outro, ao mesmo tempo em que esses planos têm de se articular para se tornarem inteligíveis.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h42

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discos em disputa

discos em disputa

Escrevo meu artigo para a "Ilustrada" nas segundas-feiras à tarde. Ultimamente tenho ficado mais disperso nessa hora. É porque toda segunda, a partir das 15h no horário de Brasília, começa um programa de rádio que exige bastante atenção, e que tenho todo interesse em ouvir. Para quem gosta de música clássica e entende francês, é na verdade imperdível. Transmitido por uma rádio suíça, chama-se "disques en lice" e é uma espécie de mesa-redonda entre especialistas, discutindo e ouvindo cinco ou seis gravações diferentes de uma mesma obra. Quem acessar o site da rádio pode acompanhar com a partitura, além de ter acesso a diversas informações sobre a música em discussão. Mas costumo ouvir graças ao site "classical webcast", que coloca dezenas de rádios especializadas em música clássica à disposição do internauta. Foi dica de um leitor do blog, aliás, a quem agradeço.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h30

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a sonata de Samuel Barber

a sonata de Samuel Barber

Não é que eu não goste, mas cansei um bocado do famoso “Adágio para Cordas” de Samuel Barber, que depois de servir de trilha sonora no filme “Platoon” foi repetido demais, acentuando, talvez, um aspecto meloso/dramático que sempre teve... Há muita coisa interessante para ouvir de Barber, como um suavíssimo concerto para violino, que nem parece música “moderna”, dada a sua falta de agressividade e aspereza. Em todo caso, também é um concerto que depois de um tempo se “esvazia” um pouco, parece menos variado e imaginativo do que na primeira vez.

 

Não me canso tanto de ouvir uma peça de Barber para barítono e orquestra de cordas, chamada “Dover Beach”, com o texto muito bonito e meditativo do poeta e crítico vitoriano Matthew Arnold.

 

Mas existe também de Barber uma terrível sonata para piano, que Horowitz gravou, e que é uma daquelas peças que parecem uma batalha campal, de que só os supervirtuosos sobrevivem, e os ouvintes, claro, mas nem sempre...

 

Um amigo pianista me enviou o link para um vídeo de Stephen Beus tocando o quarto movimento dessa sonata. Os olhos naturalmente vêem a prodigiosa coordenação digital do virtuose, mas o principal é que a gente ouve a música com prazer. Em vez de ser uma escalada infernal no Empire State, essa “fuga” adquire aqui a simplicidade de um divertimento quase caipira, embora intelectualizado; e, se a escrita de Barber pode parecer meio “acadêmica”, a leveza de espírito, e o prazer, com que Beus a interpreta dissipam numa ventania agradabilíssima essa impressão.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h07

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prazeres da burocracia

Passei parte da tarde de ontem tirando o passaporte. Claro que há filas e contratempos, mas as coisas melhoraram um bocado se pensarmos no que era alguns anos atrás.

 

Segui a recomendação geral de não ir ao Shopping Eldorado, onde sem dúvida o afluxo das “elites” torna mais moroso o atendimento. Na sede da Polícia Federal na Lapa, o que mais me chamou a atenção foi a simpatia, quase frenética, dos funcionários que me atenderam. Um rapaz rosado e rechonchudo, que não teria mais de vinte anos, estende-me a mão antes de começar a conferir a papelada; avisa-me que meu passaporte anterior deve ficar retido, e pergunta se pode jogar no lixo a capinha de plástico que o protege. Claro, se eu quiser ficar com a capinha, é um direito meu.

 

Já o formulário para requerer um passaporte, que se preenche em casa no computador, é um elogio aos direitos humanos. No item “sexo”, posso marcar masculino, feminino, ou “não declarado”, se assim o desejar. No item “profissões”, todas as possíveis estão previstas: de ajudante de funileiro a zelador, passando por sociólogo e prostituta (o).

 

Para tirar o passaporte, é preciso estar em dia com o Tribunal Eleitoral. Costumo guardar em gavetas variadas aqueles papeizinhos mínimos, impressos em tinta amarela, que registram minha participação nas eleições. Não achei os de um segundo turno qualquer, e portanto fui ao site do TER-SP. Bastou colocar os números certos no quadradinho certo para que, numa fração de segundo, viesse impresso o certificado de que estou em ordem com meus deveres de cidadão.

 

Segunda via de título eleitoral, mesmo antes de fazer as coisas pelo computador, foi uma coisa facílima de tirar quando eu precisei.

 

No mundo virtual, pelo menos, o cidadão começa a ser bem mais respeitado. Eis um caso em que políticas centralizadas, uma vez corretas, podem ser implementadas facilmente. Soma-se a isso a auto-estima, visível em todos os cantos, dos agentes da Polícia Federal. Trata-se de uma carreira disputada, e que nos últimos tempos vai-se tornando aquilo que deveria sempre ter sido: um instrumento a serviço dos cidadãos, e não feito para o achaque e a intimidação.

 

Nada pior do que, tirando um passaporte, sentir vergonha de ser brasileiro. Felizmente, não foi isso o que me aconteceu.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h19

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O dia sem carro

Um dos organizadores do Dia Sem Carro em São Paulo me telefonou, a propósito do artigo que publiquei hoje na Ilustrada. Simpaticamente, ele concordou com a minha desconfiança diante dessas passeatas, abraços pela paz etc., que terminam sem nenhum compromisso concreto; são, a meu ver, pseudomobilizações, que terminam sem foco e sem conseqüência.

No caso do Dia Sem Carro, entretanto, a idéia é acoplar o movimento a algumas propostas reais para a cidade: um movimento pelas ciclovias (claro que não é a solução para tudo, mas é uma delas), maior participação nas decisões sobre as linhas do metrô, e duas campanhas que me parecem muito importantes.

A primeira é no sentido de exigir a regulamentação da lei que impõe diminuição nas taxas de substâncias poluentes presentes no diesel brasileiro. O enxofre que há nesse diesel é veneno puro, e a presença desse material na atmosfera de São Paulo é escandalosa. Há interesses diversos, de montadoras e fabricantes de combustível, que se opõem a essa regulamentação. Segundo disse o organizador do movimento, o papel da agência nacional de petróleo nisso é decisivo. Que não seja uma Anac nessa questão.

O outro tema diz respeito à regulamentação dos serviços de motoboy. Algumas empresas, como se sabe, exigem que os serviços sejam feitos em velocidade máxima. Morrem dois motoboys por dia em São Paulo. Uma proposta é a do selo de responsabilidade: você só contrata as empresas de motoboy que se comprometam a seguir normas de segurança rígidas em benefício dos motoqueiros. Mais informações sobre isso no site do movimento nossa são paulo.

Vai aqui uma imagenzinha do selo. Tomara que possamos vê-lo com freqüência.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h22

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Alcides: meios de transporte

Alcides: meios de transporte

Ainda dá tempo (até 29 de setembro) de ver a exposição do artista popular Alcides Pereira dos Santos. Ele nasceu na Bahia em 1932, e radicou-se em Mato Grosso em 1950. Foi lavrador, sapateiro, barbeiro e pedreiro. Passou a viver em São Paulo em 1992. A exposição traz quadros bem grandes, rasgando horizontalmente uma parede inteira, com navios e caminhões de perfil, com as geometrias e cores mais vivas do mundo. É como se a violência de um trem, de um Scania Vabis, de um iate em alta velocidade, conseguissem se organizar num esquema ao mesmo tempo espontâneo e cerebral. Há poucas imagens dos quadros no site da galeria, mas vale reproduzir o convite da exposição, para se ter uma idéia.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h12

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Milton Pontes (2)

Mais um poema de Milton César Pontes (barracodecesar@yahoo.com.br)

 

 

[eu laivo marginal na mpb no bater

dos lábios simbiose o ser temporais quebram

ossos de minhaalma sou avesso chá de limão

ladeira alameda da concórdia pinheiros

araucários nós em meu berço peço

deixe a garoa cair eu durmo entre nuvens

sonho piorras peões espectro meus

ultra seven vila césamo eu garibaldi

tuche au ê el cabong gritos do polvo

hebreu clamor de tentáculos palestinos

massacres sempre em nome da paz

de repente cacos de vitrais nas retinas

espelhos entre riscas de guernica]

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h47

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Um poema de Milton Pontes

Um poema de Milton Pontes

 

 

Do livro Arímicas, editado fora de comércio por Milton César Pontes, seleciono alguns poemas. Todos têm a mesma estrutura de 13 versos, a repetição constante da palavra “eu”, a impressionante e cuidada “desorganização” sintática, e o ímpeto extraordinário. 

 

[eu forçado a paus e pedras prenhe de angústia

cristalizadas 600 vilas pobres derramam ilhas

eu lírios de heras cavalos jacus floradas

e saliências eu apocalíptico me desespero

na ponta de curumbáu taquara caciporé

eu este calcário de hipopoeta sou calcado

a cascos no desvario dos calcanhares esmo

de abandonos até eximir as íris vulneráveis

de silêncios que ameniza nu me cubro

de panos e tiras eu pedaço sobre cinzas e carbono

eu a rasuras e borras passo ocasos mirando

nuvens que refratam imagens eu mediterrâneo

sou submarino e visto corais em mim]

Escrito por Marcelo Coelho às 23h40

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Jesus no Mundo Maravilha

Na próxima sexta-feira será exibido na TV Cultura, às 22h 40, um documentário bem interessante. Chama-se “Jesus no Mundo Maravilha” e foi dirigido por Newton Cannito. Participei ontem de um debate sobre o filme.

 

Newton Cannito conseguiu entrevistar longamente três ex-policiais militares. Um deles perdeu a conta de quantos “bandidos” matou. Algo entre 80 e 100. Outro foi expulso da corporação e faz agora serviços autônomos de segurança na Zona Leste. O terceiro converteu-se a Jesus.

 

Sem assumir de jeito nenhum o ponto de vista dos policiais, o documentarista ganhou total confiança de seus personagens, que se mostram, como todo mundo, pessoas complexas, dotadas de suas próprias justificativas para o que fizeram, mas sobretudo capazes de sorrir, brincar, deprimir-se também.

 

Para maior distanciamento emocional, quase todas as cenas são rodadas num parquinho de diversões, onde o ex-cabo Jesus cuida da lei e da ordem. No debate, Newton Cannito conta que não tinha um programa muito claro sobre o que filmar. Mas que sabia de uma coisa: no momento em que pudesse filmar os policiais andando de carrossel, o seu documentário estaria terminado. Seria o sinal de que eles já não tinham mais nada a dizer; que estavam totalmente “desarmados”, vá lá a expressão, diante da câmera.

 

Para tornar as coisas mais estranhas, um palhaço, que ganha a vida divertindo as crianças do parquinho, quer de todos os modos participar do filme. É bem-recebido pela câmera, e termina participando de uma verdadeira mesa-redonda informal, na lanchonete do parque, com os ex-policiais, com três advogados defensores dos direitos humanos, e com um casal, cujo filho foi assassinado à queima roupa numa blitz da PM.

 

Sem entrar em nenhum dos cacoetes do realismo brutal-chocante, tão comuns na literatura da violência e da periferia, “Jesus no Mundo Maravilha” é muito perturbador e impressionante. Não pelo que mostra de ações policiais, mas pela ausência dessas cenas. Ficamos conhecendo, sem discurso, e sem demonização, a mentalidade dos policiais. Não é um filme contra a política dos direitos humanos, claro. Mas ajuda a entender por que essa política conhece tantas dificuldades na hora de ser posta em prática. 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h31

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reverse grafitti

Por falar em lei da cidade limpa, o artista plástico Alexandre Órion tem se dedicado à prática do "reverse grafitti", ou grafitti ao contrário. Consiste em limpar com um pano os muros cheios de fuligem da cidade, criando imagens brancas sobre o fundo preto. Infelizmente, essa intervenção urbana tem vida curta, como demonstra o vídeo que ele postou no youtube.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h18

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crescimento e memória

crescimento e memória

Meus filhos vão crescendo. O mais velho fez cinco anos em maio, passou da idade das birras e entrou na do videogame. Os conflitos com ele, atualmente, concentram-se em torno do tempo que ele gasta no computador; o resto se faz do prazer de conversar, de explicar-lhe o mundo, de ler e aprender com ele. Quis saber, outro dia, o que é “ser vaidoso”, e se isso era um defeito ou não. Perguntou depois se ele próprio era vaidoso; optei pela negativa. Afinal, uma criança, mesmo se for vaidosa, deve ser assim mesmo. Achei honesto, em todo caso, dizer que eu próprio era um pouco vaidoso. Talvez julgasse que é importante ensinar a um filho os princípios da autocrítica. A frase foi comprada, como se diz, pelo valor de face, e meu filho agora afirma aos quatro ventos que sou vaidoso. A babá, ao ouvir isso, comentou: “será que precisava dizer?”

 

Concluo que ter filhos (para nada dizer das babás) é ter uma espécie de espelho ativo diante de si; claro que ficamos felizes ao ver reproduzidos neles traços de fisionomia e de personalidade que são nossos. Aprendemos a ver também nossos defeitos em estado nascente, ou talvez agravados pela ausência de educação; e também refletido, no julgamento dos filhos, o que de mais frágil tenhamos em nós.

 

Meu filho menor está com três anos e meio, e passa igualmente por uma fase de progresso considerável e integrado. Aprendeu ao mesmo tempo os elementos de uma sintaxe mais complexa (“quando a gente voltar para casa, eu vou tomar banho”), o sentido do “depois” (“depois de almoçar você pode ver televisão”) e o uso da privada. O fim das manhas e explosões mais intensas tem a ver, naturalmente, com essa percepção do tempo. Tudo é questão de adiamento. Na sintaxe, há o adiamento da nominação verbal pura em favor de uma ordem que exige o antecedente e o conseqüente, a frase subordinada e a principal. Na vida fisiológica, há o abandono da segurança imediata garantida pela fralda.

 

O que vou guardar desse período tão trabalhoso da minha vida?

 

Fica para mim uma imagem, que não tem nada a ver com o que eu disse acima. Uma tarde chuvosa, num parquinho de diversões em Peruíbe, levei meu filho maior (ele devia ter menos de quatro anos nessa época) para passear. Havia uma série de brinquedos –roda-gigante, tobogã, carrossel-- contra-indicados para a idade dele.

 

Meu filho se encantou por uns barquinhos, que giravam lentamente num pobre e raso círculo de água parada. Coloquei-o, pequeno e solitário, num barquinho azul. O funcionário do parque deu a partida no aparelho. Meu filho se manteve, sentado e sério, naquele brinquedo que girava lentamente naquele mar minúsculo, imaginário e pobre.

 

Vejo-o ainda na memória, experimentando, quem sabe se pela primeira vez, a sensação de estar sozinho no mundo. Certamente, o brinquedo não produzia nenhuma emoção física excepcional. Ele estava calmo, quase indiferente. O barquinho girava, e eu o via passar. Era tão pouco o que ele sentia... e aquilo parecia satisfatório a seu corpo diminuto, impregnado de chuvisco e vazio em volta.

 

Minha vontade de protegê-lo, e de que ele crescesse, bateu sobre mim como uma intensidade de que, até hoje, não me recupero. Há dor e prazer nisso: do mesmo modo, muitas vezes choramos sem saber se é de tristeza ou de alegria.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h11

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Eclesiastes, Pondé, Faap

Participei na quinta-feira de um debate na Faap, com o filósofo Luiz Felipe Pondé. Ele centrou sua intervenção numa crítica aos pensadores que, depois de Rousseau, tendem a transmitir uma imagem falsamente otimista da natureza humana. Para Pondé, isso leva a uma série de vícios intelectuais, como a de considerar ilusoriamente fácil o problema de nossa existência, e praticamente garantido o caminho para a felicidade geral se eliminarmos os fatores histórico-sociais que atrapalhariam esse destino. Pondé identifica em autores como Marx, Sartre e Foucault uma herança rousseauísta que faz com o intelectual se considerar imediatamente “do lado do Bem”, o que termina sendo aval para a cumplicidade com todo tipo de loucura, crime e mentira.

 

Ele prefere o que chamou de “intelectual do Eclesiastes”, aquele que considera que “tudo é vaidade das vaidades”, ou “névoa de nada”, como diz a tradução, a seu ver poeticamente precisa, de Haroldo de Campos.

 

Sem discordar das críticas de Pondé ao irrealismo e à mentira militante de muitos intelectuais de esquerda, assinalei que a visão de mundo do Eclesiastes me parece unilateral, e distante de um conhecimento mais amplo a respeito da experiência humana. Vão aqui uns trechos do texto que preparei, muitos deles omitidos no momento da exposição oral.

 

Minha tendência é considerar o Eclesiastes como um texto eminentemente literário, e mesmo lírico, à medida que ele é uma expressão de sentimentos que todo mundo já experimentou um dia. A sensação de vacuidade de tudo, do tamanho diminuto que nós temos diante do universo, da dor que existe em viver, saber-se mortal, naturalmente são coisas que todo mundo sente. Também é freqüente que a gente sinta coisas absolutamente diversas, e igualmente verdadeiras. Um poeta lírico muitas vezes se lança a escrever versos melancólicos, pessimistas, que apontam a nulidade de tudo –penso na poesia de Leopardi, por exemplo; e há os momentos de entusiasmo, de euforia imensa, como por exemplo os de Goethe, na sua “Canção de Maio”, onde o poeta, evidentemente porque está apaixonado, faz versos de pura exclamação: “Como a Natureza resplandece para mim! Como brilha o sol, como há risos na campina!” Amor! Amor! Etc. Etc.!

 

São estados de alma, e todos, afinal, fazem sentido, têm eco na experiência de cada um de nós. Mas a questão levantada aqui pelo Pondé vai além do que podemos chamar de “empatia literária”, ou de “compreensão poética” do texto. O ponto principal é a tese do Eclesiastes segundo a qual “acumular saber é acumular infelicidade”.

 

Com certeza, esse é um pensamento que tem conseqüências sérias, e talvez valha a pena discutir essa questão com mais detalhe.

 

De um ponto de vista, isso é inegável. Nós podemos pensar que um cachorro, ou um peixe, não sabem que vão morrer, não sabem que o destino deles poderia ser diferente, e nesse sentido são mais felizes do que nós. Mas podemos dizer também que eles não sabem que são felizes, de modo que nesse jogo perdem na hora o prêmio que ganharam com a própria ignorância...

 

Seja como for, essa opção –a de abandonar a consciência, a razão, em favor de uma espécie de bem-aventurança animal--, essa opção não está a nosso alcance. A história do fruto proibido, que Eva deu a Adão, tem um significado muito profundo: porque todo dia, nós poderíamos talvez jogar fora esse fruto, não participar do conhecimento do bem e do mal, não querer mais provar da árvore do conhecimento. Mas todo dia nós nos recusamos a fazer isso: ninguém quer se transformar em animal, em peixe, ou cachorro...

 

A identificação entre conhecimento e infelicidade se tornou, entretanto, muito comum no Romantismo do século 19, depois de todo o derramamento de sangue promovido pela Revolução Francesa, em especial depois de Robespierre, que instituiu o culto oficial da Deusa Razão, enquanto mandava dezenas de milhares de pessoas para a guilhotina. Natural que a Razão, o conhecimento, passassem a ser então responsabilizados pelos horrores daquele período. Surgiu então com força uma corrente antiiluminista, que insistia por exemplo nas belezas da religião católica, nos sentimentos de caridade, de consolação, de humildade que ela era capaz de despertar. Uma frase muito eloqüente dessa visão de mundo é a do visconde de Chateaubriand, que diz: “a Razão nunca secou nenhuma lágrima”.

 

A gente ouve uma frase dessas, e parece convincente, mas eu gostaria de responder um pouco a esse argumento, que é muito poético, com uma frase bem mais prosaica: não foi a religião quem inventou a anestesia.

 

 

 Em tempo: claro que Luiz Felipe Pondé não é contra a anestesia; não é que pense o contrário do que escrevi aqui. O que ele detesta é a crença de muitos intelectuais num "destino humano" cujas limitações sejam apenas aquelas impostas pela sociedade. Mas aí é melhor ler o que ele escreve, porque na minha opinião as limitações impostas unicamente pela sociedade já são o bastante para a gente se preocupar.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h17

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voltaire de souza

Vai aqui uma coluna que ficou sem link. Foi publicada na quinta-feira passada.

A BOCA DO DRAGÃO

 

 

As crianças vivem num mundo de encanto e fantasia.

Lucas tinha cinco anos. E uma grande paixão.

Dragões. Monstros. Dinossauros. Rex era o nome de seu brinquedo preferido.

Um interessante modelo de dragão importado da China.

Os olhos acendiam. O controle remoto acionava as patas do bichinho.

--E ele solta fogo, mamãe.

De fato, faíscas inofensivas eram expelidas da boca do dragão.

Foi quando veio a notícia. Badulaques chineses podem prejudicar a saúde das crianças.

Do dia para a noite, o quarto de Lucas ficou vazio. Rex foi para a lata do lixo.

Seguiram-se noites de choro. Raiva. Revolta. A mãe de Lucas já não sabia o que fazer.

--O pior é que o tio Arnaldo vai passar uns dias aqui em casa. Ele anda tão mal...

Eram seis da manhã quando o sexagenário tocou a campainha.

As roupas amassadas. A barba de três dias. Lucas chorava e fazia birra.

O sr. Arnaldo não se intimidou.

--Bwom dzia, nenwê... wem dwar um weijinhwo no dwidwio...

A boca de Arnaldo expelia vapores candentes de caninha. Pior que bafo de dragão.

Lucas se acalmou na hora. E já se esqueceu completamente de Rex.

Importações merecem incentivo. Mas, por vezes, o produto nacional dá conta do recado.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h01

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um poema de Edith Sitwell

 

 

 Edith Sitwell (1887-1964) é mais conhecida por um belíssimo poema que escreveu em 1940, enquanto Londres era bombardeada pelos nazistas, “Still falls the rain” (A chuva ainda cai). Há nesse poema uma metáfora que me marcou muito quando a li, já nem me lembro quando. Edith Sitwell se refere aos “mil, novecentos e quarenta pregos” que prendiam Cristo na cruz. Cada ano, assim, parece adiar o retorno do Salvador. Mais do que nunca, todavia, num momento em que a Inglaterra resistia sozinha ao avanço nazista, era o caso de ter fé. Do mesmo modo, Dylan Thomas escrevia sua “Recusa a chorar pela morte de uma criança, pelo fogo, em Londres”, dizendo maravilhosamente que “Depois da primeira morte, não há nenhuma outra.” Nesses casos, a fé cristã era um sinônimo de coragem, quando o realismo aconselhava, talvez, a desistência. Felizmente não estamos numa época dessas; em todo caso, o poema de Edith Sitwell que transcrevo talvez não seja inatual.

 

LÁGRIMAS

 

 

Minhas lágrimas foram o esplendor de Órion com sóis sêxtuplos e o milhão/ De flores nos campos do Éden, onde os sistemas solares se põem --/Os rochedos de grandes diamantes em meio à onda clara/ Amadurecidos pelo orvalho de maio e pela luz da madrugada, frutificando em novos diamantes./ Chorei pelas glórias do ar, pelos milhões de auroras,/ E pelo esplendores guerreando com a treva no coração do Homem, /Chorei pelas belas rainhas deste mundo, a brilhar como um campo de flores;/ Já colhidas, umas às seis, outras às sete, mas todas na manhã da Eternidade./ Mas agora minhas lágrimas vão secando e caem como as horas:/ Choro pela Estrela da Tarde. Seu corpo se tornou uma cidade metafísica/ Cujo coração é agora o som das revoluções –Pelo amor convertido/ Na misericórdia do hospital, na esperança dos cientistas no futuro,/ E pelo Homem escurecido, essa complexa multiplicidade/ De ar e água, animal e planta,/ Diamante duro, infinito sol.

 

 

Edith Sitwell, em retrato de  Roger Fry

Escrito por Marcelo Coelho às 22h43

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os usos do branco

os usos do branco

Ainda ontem, terminei de escrever outro prefácio, desta vez para o romance A Gangorra, de um jovem escritor chamado Denny Yang. Ele tinha me mandado, há algum tempo, um livro dele, intitulado Isabelle (ed. FTD). Simpatizei com a maneira totalmente sincera e coloquial que o narrador utiliza desde o começo:

 

Acho que no fundo eu gostaria mesmo é de, de repente, sentar e escrever um livro. Sério mesmo. E um livro bom. Uma obra-prima. Um clássico da literatura. De todos os tempos. No começo, claro, eu apenas seria objeto de resenhas e críticas da mídia e dos meios especializados. Depois, após muito tempo, teria o reconhecimento póstumo, até vir a ser listado nos top dez do século. Quanta bobagem. Mas é verdade.

 

 

O tom, levemente cínico, ou ingenuamente cínico, quem sabe, prossegue ao longo livro:

 

Ligo a tevê, pois uma vez por semana passa um programa muito interessante de discussões a respeito do meio ambiente. Sou muito ligado a esse negócio de meio-ambiente, sabe?

 

Ou então:

 

De certa forma, é um pouco óbvio que entrei numa crise forte. Mas estou falando especificamente da crise existencial que me acometeu, juntamente com a depressão. Meu analista, por exemplo, não achava necessariamente que eu estava em crise existencial, mas no fundo eu sabia que estava.

 

É, talvez, um jogo com a tagarelice cotidiana, que aparece aqui ironizada. Isso, em Isabelle. No livro que prefaciei, há esse mesmo tonzinho nos diálogos entre o narrador e a namorada, que é “da elite”, como a história insiste em frisar. Mas a história, a meu ver, não interessa tanto: o que há de promissor, nesse romance, é a sensibilidade para a insignificância que rói, por dentro, quase todas as nossas conversas cotidianas; basta retirar, num livro, o seu verniz de literatura, para que isso apareça. É como em pintura: alguns escritores são ótimos nos tons escuros e brilhantes (gostaria de ser um deles), enquanto outros sabem usar muito bem o branco, o deslavado –e acho que Denny Yang está nessa categoria.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h51

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agenda

Não é para me desculpar, nem para fazer propaganda, mas quem sabe pelos dois motivos ao mesmo tempo, que conto um pouco as minhas próximas atividades. Gostaria que o blog fosse um meio de me preparar para elas, escrevendo o que aos poucos penso sobre cada uma das coisas que tenho a tratar em artigos ou palestras, mas às vezes nem isso dá certo.

 

Nesta quarta-feira, faço a entrega do prêmio “Barco a Vapor”, um concurso de literatura infantil e juvenil organizado pela editora SM, de que fui um dos jurados.

 

Quinta-feira, participo de um debate com o filósofo Luiz Felipe Pondé, na Faap, dentro das atividades de uma semana de comunicação que está sendo realizada naquela faculdade.

 

Segunda, dia 17, há um debate no Espaço Gafanhoto (av. Rebouças, 3181), sobre o documentário “Jesus no Mundo Maravilha”, que aborda a violência policial.

 

Enquanto isso, faço o prefácio para um livro organizado pela Associação Psicanalítica Internacional, com artigos de vários especialistas sobre o terrorismo e o 11 de Setembro, que tenho de entregar em breve.

 

Há também, ainda na área psicanalítica, uma palestra que me convidaram para fazer no Sedes Sapientiae, comemorando dez anos da cadeira de Psicanálise Infantil, abordando a questão do “tempo”. Quem sabe falo da questão do amadurecimento, não sei. Isso é no dia 2 de outubro.

 

No dia 4, faço parte de uma mesa que debaterá o livro Brasil, Uma Identidade em construção, que está sendo editado pela Ática.

 

Vou ver de que jeito eu começo. E de que jeito eu acabo.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h13

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1109200703.htm

O desaparecimento do tenor Luciano Pavarotti inspira o cronista do "Agora" (para assinantes)

Escrito por Marcelo Coelho às 00h20

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Dois na bossa

Dois na bossa

Comprei por R$ 9,90, nas Lojas Americanas do West Plaza (no site está em falta), um CD com a gravação ao vivo do show “2 na Bossa”. Jair Rodrigues e Elis Regina, diante de um público de 2 mil pessoas no antigo teatro Paramount em São Paulo, fazem um espetáculo de altíssima temperatura. O CD não traz maiores informações sobre outros participantes do show; com certeza estavam acompanhados pelo Zimbo Trio.

 

Quem costuma ler este blog sabe que MPB não é a minha praia, mas algumas músicas do show, como “Arrastão”, e “Menino das Laranjas”, que raramente ouvi depois da infância, me arrepiam na hora. O show é de 1965, alguns anos antes que eu tomasse contato consciente com a música dos festivais; só do festival de 68, quando eu tinha nove anos, consigo me lembrar bem.

 

Mas “Reza”, de Edu Lobo e Ruy Guerra (“Laia, ladaia, sabatana, Ave-Maria”), “Feio não é bonito”, de Carlos Lyra e Gianfrancesco Guarnieri (“Chora, mas chora rindo/porque tristeza é só o que se tem pra contar”), além do próprio estilo jazzístico, quase frenético, do Zimbo Trio, trazem memórias muito claras para mim.

 

Em casa, esse era o reino musical do meu irmão, já estudante de Direito nessa época; em 1964, ele participou de uma caravana de acadêmicos rumando para o famoso comício de Jango na Central do Brasil, dias antes do golpe. Não era militante de partidos de esquerda, como a maioria de seus amigos, mas participava das movimentações de esquerda, ao mesmo tempo em que sempre manteve um estilo mais “cool”, irônico e jazzístico, sem nada daquele comportamento que depois ficou identificado com a caretice meia-oito.

 

O CD traz essa mesma tensão riquíssima entre elegância jazzística e mensagem de esquerda. Quase um ano depois do golpe militar, Elis Regina e Jair Rodrigues parecem dar vazão ainda a um sentimento de confiança, de raiva e de luta, sem nenhuma avaliação fúnebre ou exasperada do que tinha acontecido. Palavras de ordem que talvez fossem até oficialistas durante o governo Jango se tornam candentes, apaixonadas, e nada mostra tanto isso do que a voz de Elis Regina, que parece ir vários decibéis além do seu limite natural, sem nunca perder a musicalidade e o bom gosto.

 

Naturalmente, aquelas letras, e aquele espírito, já estavam em descompasso com a época; “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, daria o tom estético, alegórico, suicida e debochado, do que viria a seguir. A julgar pela vibração de Jair Rodrigues e Elis Regina, ainda se acreditava que a intervenção militar seria breve, e razoavelmente moderada. Glauber já percebera, acho, que a loucura repressiva pautaria o país por duas décadas.

 

O que mais sinto falta na MPB de hoje, claro que falo sem conhecer muita coisa, é esse espírito de vibração, esse poder contágio, de desembestamento que a gente ouve em coisas como “Arrastão”. A tendência é para a melancolia e a reflexão, na melhor das hipóteses. Mas principalmente para um espírito de toada, de canção de ninar, que é por exemplo a especialidade de uma cantora admirável como Mônica Salmaso. Músicas que despertem, talvez só no rap (aliás, Jair Rodrigues é precursor disso, como fica óbvio no CD). Ah, e tem o Cordel do Fogo Encantado. Mais alguma coisa? Não sei, mas aí deve ser falta de informação minha.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h08

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voltaire de souza

Aqui vai a crônica publicada no sábado, 8 de setembro.

ALMA SEM CONTROLE

 

 

Na vida agitada de hoje, um mordomo pode ser indispensável.

O milionário J. P. do Prado fazia absoluta questão.

--Não vivo sem o Baltazar.

Nos momentos de lazer, o funcionário doméstico cuidava de tudo.

--Mais um cubinho de gelo, Baltazar

--Perfeitamente, dr. J. P.

--Ligue a televisão, Baltazar.

J. P. do Prado não gostava de usar o controle remoto.

--Mude de canal, Baltazar.

--Mas, dr. J. P., esse documentário é excelente. Foi premiado no Festival de Saragoça.

O mordomo possuía sólida cultura e gostos refinados.

O milionário queria assistir a um show de calouros.

--Perdoe-me, senhor, mas a opção é extremamente vulgar.

O copo de uísque foi arremessado na direção do mordomo.

Que já prometeu para uma editora contar os podres financeiros do patrão.

J. P. já comprou uma TV que atende a comandos de voz.

Empregados e eletrodomésticos podem ser úteis no lar.

Mas nenhum ser humano vem com controle remoto.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 21h35

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voltaire de souza (2)

E aqui vai a publicada ontem:

 

SORTE VIP

 

 

Ganhar na loteria não é para qualquer um.

Naquela casinha no Jardim Texas, o clima era de euforia.

--Ganhei. Ganhei. Acertei tudo.

Pedrão segurava o papelzinho da sorte. No dia seguinte, foi falar com o chefe.

O doutor Euclides. Médico famoso. Ele é quem tinha feito a aposta na lotérica.

--Então, doutor. Viu que sorte a minha?

--Olha, rapaz. Precisamos conversar.

Pedrão ficou ouvindo.

--Você é um rapaz simples. Um pobre, na verdade. Não sabe de nada.

Euclides foi didático..

--Sabe a diferença entre um Picasso e um Matisse? Entre trufa e caviar?

Pedrão não sabia. A conclusão foi cruel.

--Não pode ser rico. Dou dez mil para você. E estamos conversados.

Ódio e humildade dividiram a alma de Pedrão.

--Sei a diferença entre um pilantra e um trabalhador.

Ofendido, o doutor Euclides chamou dois enfermeiros reforçados.

No hospital psiquiátrico, Pedrão tenta provar sua versão dos fatos.

Mas não há especialistas para cuidar das loucuras de uma sociedade.

7/9/2007  

Escrito por Marcelo Coelho às 22h01

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voltaire de souza

Eis uma história que deveria ter saído na quinta-feira, mas não postei.

 

 

PREÇO DE UM AMOR

 

É preciso proteger nossas crianças.Mara Lúcia estava preocupada.

O Brasil importa brinquedos chineses sem muito critério.

--E se acontecer alguma coisa com a Talita? Ela é a minha jóia do coração.

A menina tinha três anos. Bonecas. Geringonças. Badulaques.

Mãe e filha passeavam no Shopping Asa Delta.

Uma loja de brinquedos chamou a atenção de Talita.

--Mamãe. Eu quero.

Os dedinhos da pequena apontavam para uma boneca motorizada.

O consumidor merece informação detalhada.

--É a pilha?

O vendedor ia dizer que sim. Mara Lúcia ia abortar a operação de consumo.

Talita abriu o berreiro. A boneca começou a falar.

--Non chola. Non chola que mamãnhe compla.

Talita esperneava. Mara Lúcia agarrou-a no colo. Foi um erro.

Violenta mordida na orelha arrancou de Mara Lúcia seu brinco de zircônia.

A pedra e o ganchinho penetraram no organismo de Talita.

No hospital, fizeram a operação. Para acalmar a criança, recomendam acupuntura.

Nossas jóias mais preciosas podem, por vezes, ter seus dias de escuridão.

6/9/2007

 

Escrito por Marcelo Coelho às 21h58

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De Nietzsche aos pós-modernos

De Nietzsche aos pós-modernos

Contam-me, mas não tenho os detalhes direito, que durante a estada de Giuseppe Ungaretti no Brasil quiseram levá-lo para um encontro com Pietro Maria Bardi, que havia chegado recentemente ao nosso país. A reação de Ungaretti foi radical: reproduzo em italiano, sem saber se escrevo certo:

 

Non parlerò giammai con quello fascista!

 

Paralelamente, os amigos de Bardi propunham que ele se encontrasse com Ungaretti. A resposta de Bardi, segundo dizem, foi:

 

Non parlerò giammai con quello fascista!

 

Lembro-me disto porque comecei a ler um livro de Richard Wolin, professor na City University de Nova York. Chama-se The Seduction of Unreason: the intellectual romance with fascism from Nietzsche to Postmodernism.

 

Como aconteceu quando li “Deus, um Delírio”, de Richard Dawkins, minha concordância com as teses do autor acaba se tornando um motivo para restrições, críticas e ressalvas (como se, por inveja, quisesse eu mesmo ter escrito o livro; ou, talvez, porque vejo minhas idéias simplificadas demais, e isso me constrange).

 

Wolin diz uma coisa que, mais do que achar, sempre senti, ou “farejei”. Os herdeiros de Nietzsche tentam torná-lo de esquerda, de extrema esquerda, mas todo o processo que empreendem contra o iluminismo, os direitos humanos, a democracia e o conhecimento racional termina sendo um belo direitismo disfarçado.

 

Os casos de Heidegger e Paul de Man são conhecidos, e Wolin não leva a sério as tentativas de absolvê-los de suas relações com o nazismo. O encantamento de Foucault com o aiatolá Khomeini é um alvo mais do que fácil.

 

Mas eu não sabia que Georges Bataille, outro mestre do pensamento “transgressivo”, imaginava-se participante de uma espécie de confraria intelectual no estilo dos cavaleiros templários da Idade Média, e também no estilo dos Ordensburgen da SS nazista... Será tanto assim? Wolin menciona, sem citar o texto, que Bataille proferiu uma conferência em 1939 com o título “Hitler e a Ordem Teutônica”, elogiando uma “terceira via” entre o liberalismo e o comunismo.

 

Hans-Georg Gadamer, discípulo de Heidegger que não se envolveu com o nazismo, chegou por sua vez, nos anos 1940, a viajar para a Paris ocupada, para falar sobre “Volk [termo carregado de conotações nazistas] e História no Pensamento de Herder”.

 

Tutti fascisti...

 

O problema com o livro de Richard Wolin, por enquanto pelo menos, é que adota um tom mais de reportagem que de análise. Essa característica se resume a duas coisas: poucas citações dos autores criticados, e quantidade ainda menor de referências a autores que possam apresentar argumentos contrários à tese defendida pelo livro. Nesse sentido, talvez, podemos entender um pouco das críticas que o livro de Dawkins suscitou.

 

Muita gente afirmou que Dawkins não levava em conta autores mais sutis, teólogos mais refinados, contra as quais seria mais difícil debater. No prefácio à edição de bolso, Dawkins apresentou uma resposta excelente e engraçada a esse tipo de crítica, que transcrevi em post anterior. Ele está certo; ainda assim, sai perdendo um pouco na batalha retórica e intelectual, porque aparentemente não destrói argumentos dos autores mais atuais, que podem continuar a ser citados por seus adversários.

 

Sem contar, no caso de Wolin, um certo ar de “caça às bruxas”. Pero que las hay, las hay..    

Escrito por Marcelo Coelho às 18h57

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aqui ninguém é inocente

aqui ninguém é inocente

Baseado nas histórias de Voltaire de Souza, o espetáculo de Mauricio Paroni de Castro está de volta, agora no Teatro da Vila (rua Jericó, 256, Vila Madalena), sábados às 22h e domingos às 21h.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h16

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para aprender inglês

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http://www.audible.co.uk/aduk/site/wallGarden/browseWG.jsp?BV_SessionID=@@@@0465307616.1189137497@@@@&BV_EngineID=ccciaddllljglgjcefecekjdfikdfig.0&uniqueKey=1189137791772

A onda dos "audiobooks" (livros em cd ou mp3) cresce nos Estados Unidos e na Inglaterra, junto com os ipods, o jogging e o trânsito. Pode ser útil, para quem quer sair falando como um locutor da BBC, procurar alguma coisa para comprar nesse site.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h07

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Kipling no Brasil

Kipling no Brasil

Comentei rapidamente no artigo de quarta-feira o livro de Rudyard Kipling Brazilian Sketches, publicado em edição bilíngüe pela Landmark. A natureza, a selva, parecem interessar mais ao autor do “Livro da Jângal” do que qualquer observação sociológica a respeito de nosso país.

 

Uma observação curiosa que ele faz a respeito do Rio de Janeiro diz respeito à velocidade maluca dos motoristas –em especial os de ônibus. O aterro do Flamengo não tinha sido ainda construído, é claro (Kipling esteve aqui em 1927). Mas que importam os motoristas, quando o autor se extasia diante de uma cidade “de sonhos”, que, numa

 

suspensão de pulso e movimento, se enaltece com o divino calor do amanhecer –enorme, opulenta, imaculada e, a despeito disso, com a sua recém-adquirida modernidade [...]

 

Kipling continua, descrevendo a recente ocupação de Copacabana:

 

Uma série de montanhas verticais cobertas por nuvens no topo limitava a praia por um lado, a cinqüenta ou sessenta quilômetros de distância. Era evidente que se preparavam para as monções. Montanhas não se cobrem de nuvens daquela amplitude e espessura esperando por poucas horas de chuva. Os picos se impunham acima da asfixia, enquanto trovões ribombavam distantes, e voltavam a silenciar. As faces de penhascos gigantescos projetavam-se como um rebanho entre a névoa, estáticas e atentas, e então recuavam, ocultando-se na neblina.

 

Espetáculo suficiente para Kipling dar pouca atenção ao Carnaval, que se preparava para dali a uma semana.

 

Todo estrangeiro visitando o Brasil se espanta com a mestiçagem. Há menções esparsas a isto em Kipling, e não deixa de ser curioso ler o que o historiador e comentarista político do Guardian, Timothy Garton Ash, escreveu sobre o assunto depois de sua visita a São Paulo e Rio, cerca de dois meses atrás. Ele estava fascinado com a polêmica em torno das cotas raciais, e com o caso dos gêmeos univitelinos que foram discriminados, positivamente um, e o outro não, na concessão de vagas numa faculdade. Tanto quanto discutir o assunto, Garton Ash se derrama em elogios à beleza física dos brasileiros. Um xodó universal, mas especialmente inglês: Michael Caine, num documentário sobre o modo com que o cinema de outros países trata o nosso, fez considerações parecidas. Se não querem que o país de vocês seja conhecido pela sensualidade e beleza das pessoas, tratem então de enfeiá-las, recomendou --num misto de simpatia e seu contrário--  à realizadora do documentário.  

 

Enquanto isso, Kipling se extasia no Jardim Botânico:

 

Em meio às copas escuras das árvores, e surgindo das cornijas de moitas suspensas, flutuavam adiante, de forma rara, borboletas tão grandes como morcegos, mas feitas do matiz do luar. Elas conferiam brilho ao esplendor do dia, e então, como almas visitantes, sinalizaram e flutuaram para o alto.

 

Em inglês:

 

Through the dark arches of the trees, and from under the cornices of over-hanging thickets, floated forth, rarely, butterflies as big as bats, but made of tinted moonshine. They set a lustre upon the glory of the day, and then, like visiting souls, signalled and wafted upwards.

 

Traduzir esse trecho é quase tão difícil quanto traduzir poesia, e há uma beleza particular no jeito com que as vírgulas esvoaçam ao longo desse trecho.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h27

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0509200701.htm

A mente do brasileiro é um enigma que desafia a astúcia dos sociólogos. Leia a coluna desta quarta-feira no "Agora" (para assinantes do uol).

Escrito por Marcelo Coelho às 23h50

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A história de Louisiana

No artigo desta quarta-feira, elogio muito as imagens de um semidocumentário que vi recentemente em DVD, feito por Robert Flaherty em 1948. Trata-se de "A História de Louisiana", qe mostra o cotidiano de um pequeno pescador nos pântanos do sul dos Estados Unidos, e do impacto de uma empresa petrolífera sobre a vida de todos. O filme é muito ambíguo, enaltecendo as atividades industriais da prospecção de petróleo ao mesmo tempo que capta a imensa poesia natural da região. Mas as cenas iniciais são deslumbrantes, e o fotógrafo do filme, Richard Leacock, faz coisas belíssimas em preto e branco. Aproveito o blog para dar uma amostra.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h49

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teoria do medalhão

teoria do medalhão

Desconfio um pouco de encomendas literárias, e em especial daquele tipo de livro que reúne vários autores aos quais se distribuem temas fartamente explorados, do tipo “os dez mandamentos”, “os sete pecados capitais” etc. Uma iniciativa estranhíssima desse gênero foi uma série de cinco romances dedicados aos cinco dedos da mão, que uma editora encomendou a alguns autores brasileiros consagrados. Carlos Heitor Cony ficou com o dedo indicador, e fez um romance bastante rocambolesco, “O Indigitado”, que resenhei na “Folha”.

 

Desconfio, mas acabo aceitando quando me convidam. Participei há anos de uma coletânea sobre “Os Dez Mandamentos”, escolhendo o do falso testemunho; a meu ver seria o mais rico de possibilidades ficcionais inexploradas, mas temo ter fracassado redondamente, arriscando-me num pós-modernismo meio, ahn, bocó.

 

Depois, Rinaldo de Fernandes me convidou a participar de um livro mais consistente, dedicado ao que seriam “contos cruéis” na literatura brasileira. Devo dizer que minha contribuição foi mais para peso-leve, ainda que tenha achado o conto divertido.

 

Em todo caso, Rinaldo reincidiu, e eu também, num projeto de livro coletivo, agora inspirado em contos de Machado de Assis. Coube-me escrever uma história inspirada na “Teoria do Medalhão”, texto que na verdade me parece dos menos “ficcionais” e, para dizer tudo de uma vez, dos menos sutis da obra machadiana. O livro ainda vai demorar para ser editado, mas acabei fazendo um texto que, pelo menos, tem certa mordacidade, embora a imaginação de ficcionista tenha soprado bem pouco em minha pena.

 

Resolvi ironizar um pouco, não as palestras para executivos e os livros de auto-ajuda, que seriam um prato para a “teoria do medalhão” do século 21, mas outra forma de banalidade que conheço melhor, a do discurso acadêmico. Vai aqui um trechinho, vamos ver no que dá.

 

 

 

Boa noite a todos. Quero agradecer a iniciativa das Faculdades Integradas Pintassilgo, que na figura do professor Savério teve a gentileza de me convidar para esta Jornada de Estudos Machadianos. Minha palestra terá como tema um conto bastante conhecido de Machado, a “Teoria do Medalhão” (Assis, 1976: 291). Procurarei apontar, a partir desse texto, algumas indicações preliminares sobre o que poderíamos chamar de viés teórico na obra machadiana, e que, de forma talvez um tanto ambiciosa, pretendemos desenvolver num estudo que tem o título provisório de “O Gume do Machado: uma introdução ao método crítico de Machado de Assis”.

 

 

Nesse sentido, o conto “Teoria do Medalhão” assume uma importância essencial na pesquisa que estamos empreendendo. Crítico arguto da classe dominante brasileira, Machado utilizou a forma da ficção para desconstruir, em “Teoria do Medalhão”, os pressupostos da atuação das elites brasileiras, desvendando de maneira sarcástica o “habitus” (Bourdieu: 1973, 211 e ss.) da burguesia cafeeira (Fernandes:1975, passim, Cardoso: 1967, 39, 41, 55, Ianni: 1965, 77-182), em sua versão urbana (Freyre: 1947, cap. 2), dentro dos quadros do capitalismo periférico (Cardoso: 1967, cit.) na medida em que a ideologia dominante (Marx: 1981 [1849], 15, Gramsci: 1981, 53, Limoeiro Cardoso: 1974) reproduz (Bourdieu: 1973) o comportamento aristocrático (Marx, 1980 [1853]) das chamadas “elites” (Mosca: 1972) brasileiras (Pedro I: 1822).

 

 

Naturalmente, os balizamentos teóricos de nossa pesquisa são do conhecimento geral, e não gostaria de me estender sobre esse ponto, antes de nos debruçarmos sobre a essência mesma do texto (Barthes: 1975), em sua materialidade fônico-poética (Jakobson: 1973, Pignatari: 1975),  e, sobretudo, de uma perspectiva mais fenomenológica (Merleau-Ponty: 1983), no aparecer do texto ante o seu “leitor” (Iser: 1988; Certeau: 1996).

 

Será então da perspectiva do “leitor” que iremos nos aproximar deste texto indiscutivelmente complexo, e que exige, portanto... Ah, vejo que alguém tem uma pergunta na platéia. O rapaz ali, de camiseta branca... passem o microfone para ele...

 

Quer saber se cai no vestibular? Olhe, acho que cai sim, mas eu queria aproveitar para dizer algumas coisas sobre esse assunto, porque muitas vezes o aluno pensa apenas em passar no vestibular, e não percebe que a literatura é uma coisa muito mais importante do que isso. Posso dar um exemplo? Garanto que vou ser breve [...]

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h32

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agradecimento

Obrigado a todos que me indicaram os softwares grátis do Mozilla. Instalei o programa de e-mail, que é parecidíssimo com o outlook e está funcionando na perfeição. Vantagens de se ter um blog --e leitores de boa vontade com este rabugento ocasional.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h53

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voltaire de souza (2)

Faltou o link para a coluna do "Agora" de sábado. Aqui vai o texto.

 

 

 

 

INVASÃO DE INTIMIDADE

 

Acusações. Arrazoados. Princípios. É o julgamento dos mensaleiros.

O dr. Siqueira acompanhava tudo pela TV Justiça.

--Este, de fato, é o momento para moralizar o país.

Ministros debatiam questões intrincadas.

O advogado aposentado se lembrava dos velhos tempos do fórum.

--Hum... faltou citar a Súmula 44 do TFR. Ou será o inciso 12?

Estava na horinha de Siqueira tomar o primeiro uísque da tarde.

De repente, o susto. O choque moral.

--O que é que aquele ministro está vendo no computador?

Uma loira espetacular tirava a tanguinha diante de dois tiras americanos.

--Como ele tem coragem de ficar vendo isso no laptop?

Não era o laptop de nenhum magistrado. Era a TV do próprio Siqueira.

Enquanto cochilava, o advogado acionara o controle remoto para um canal quente da TV a cabo. O programa se chamava “Invasão de Intimidade”.

Siqueira não viu o desfecho de mais nada.

Num veredito fatal, o enfarte atingiu seu coração desencantado.

A TV se assemelha a certos casos jurídicos nebulosos. São perigosamente próximos os limites entre a legalidade e a bandalheira.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 10h14

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co0409200701.htm

Autoridades judiciárias precisam tomar cuidado com seus celulares. Leia a crônica de hoje no "Agora" (para assinantes do uol).

Escrito por Marcelo Coelho às 10h03

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Fantasmas de Beethoven

Fantasmas de Beethoven

Imagine-se, por um momento, no lugar de Beethoven. Depois de Haydn e Mozart, qualquer compositor tinha à sua disposição um fabuloso conjunto de técnicas, melhor dizendo, uma gramática e uma sintaxe plenamente constituídas, que funcionavam praticamente “no automático”, um pouco como os estúdios de Hollywood nas mãos de um Spielberg.

 

Bastaria a um Spielberg (Beethoven) chegar nesses estúdios e fazer valer, com a necessária dose de vontade que se sabe existir, seus desejos, delírios e concepções: o “sistema”, por dizer assim, obedece ao gênio, porque décadas anteriores se prepararam para o grande homem.

 

Em certa medida, Beethoven foi bem pouco místico a respeito de sua personalidade musical. Disse, pelo que sei, que o segredo de um grande compositor estava em saber colocar uma sétima diminuta (acorde bem dramático) no lugar certo.

 

Mas Beethoven também era capaz de responder, a um violinista que reclamava da dificuldade técnica de uma passagem: “você acha que, enquanto estou em comunicação com o Espírito, tenho tempo de cuidar de sua ínfima rabeca??”

 

Técnica e espírito, relojoaria e genialidade, sempre disputarão o palco no mundo da música clássica. Mas é evidente que Beethoven não é Spielberg. Beneficiado com um gigantesco artefato técnico (a forma, a instrumentação, a harmonia de Haydn e Mozart), Beethoven não fez apenas (como Spielberg) gato e sapato do que tinha à sua disposição.

 

O gato-e-sapato era pouco diante do que lhe parecia um veículo –nada mais que um veículo—para a realização de possibilidades expressivas, intelectuais e espirituais muito maiores do que as de Haydn, Mozart ou mesmo Bach.

 

Nesse sentido, o poder, a musicalidade, o DNA de Mozart podem ter sido superior ao de Beethoven, o intelecto de Haydn pode ter sido musicalmente maior do que o de Beethoven, o poder de Bach como compositor pode estar a léguas de distância do poder de Beethoven, mas é este quem descobriu que sua arte alcança dimensões de inteligência maiores do que a de seus predecessores.

 

É a diferença entre uma pessoa muito inteligente e um intelectual. Beethoven pode ter sido menos gênio do que Mozart, mas era mais intelectual do que Mozart. Se Mozart chegou à essência do que é a música, Beethoven mostra do que a música é capaz, quando não se contenta em ser o que é.

 

Geralmente, isso dá certo. Mas acabo de ouvir o Trio op. 70, “Fantasma”, de Beethoven, num Dvd sobre Jacqueline du Pré que comentei recentemente. Aqui, lamentavelmente, o truque –no sentido de técnica degradada—assume o primeiro lugar na técnica de Beethoven. Há a aparência de intelectualidade apenas: torna-se intelectualismo. Haydn, que era intelectual o tempo todo, aparentava bobice e ligeireza; mas não tenho treinamento musical bastante para saber que isso é pura aparência. Basta saber que mesmo Beethoven deixa a desejar, por vezes.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 03h54

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mais uma pausa

No fim de semana, estarei desconectado. Até mais.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h02

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O relógio de Sarkozy

O relógio de Sarkozy

A teatróloga Yasmina Reza fez sucesso mundial, há pouco menos de dez anos, com uma peça intitulada “Arte”. Chegou a ser levada aqui, com Paulo Gorgulho, mas quem assistiu parece que não ficou muito entusiasmado. Vi o espetáculo numa viagem a Buenos Aires, e fiquei com a melhor das impressões.

 

Para quem não se lembra, a história girava em torno da aquisição de um quadro de arte moderna, que nada mais parecia ser do que uma tela puramente em branco. Claro que a platéia não vê o quadro, mas o feliz proprietário da obra está convencido de que ali há muito mais do que só um espaço vazio. Seu melhor amigo, convidado para dar opinião sobre o quadro, cai na gargalhada. Um segundo amigo, chamado a intervir no debate, não toma posição nenhuma e termina se incompatibilizando com os dois lados.

 

Seria simplista achar que a peça simplesmente coloca em questão os mitos da arte de vanguarda; a meu ver, é principalmente um estudo sobre a amizade, e no fim a tela em branco talvez seja símbolo daquilo que um amigo ao mesmo tempo é e não é. Pode ser uma coisa neutra, como o terceiro personagem, que não ajuda nenhum dos outros. Pode ser, também, esse espaço de liberdade em que apenas projetamos nosso próprio ego, e que serve como uma espécie de espelho opaco para nós mesmos. Pode ser, também, algo que nos traz alguma coisa de diferente, mesmo se o que ele traz não seja uma realidade externa e estranha a nós, mas algo que sabemos interpretar. O amigo, como qualquer obra de arte, está fora de nós, mas é também reflexo de nossa interpretação, e obra em que também colaboramos ativamente.

 

Yasmina Reza agora surpreende o irrequieto público francês, ao publicar L' aube le soir la nuit, um livro sobre o ainda mais irrequieto presidente da República, Nicolas Sarkozy. Antes mesmo de ele se lançar candidato, Yasmina Reza resolveu acompanhar Sarkozy durante um ano inteiro; terminou seguindo passo a passo a batalha eleitoral.

 

Na revista “Le Nouvel Observateur” de 23 de agosto, a teatróloga contou um pouco de sua experiência. Parece encantada pelo seu retratado, sem ligar muito para a imagem de direitista que ele tinha durante a campanha (e da qual se desfaz, em parte, nomeando para o Ministério do Exterior um socialista emérito, Bernard Kouchner, da ong Médicos sem Fronteiras). Apesar dos elogios de Yasmina Reza, o episódio mais marcante que resulta de sua narrativa ao “Nouvel Obs” me parece pouco abonador.

 

No salão de um hotel, antes de um comício, Yasmina Reza estava com um jornal no colo. Sarkozy se interessa pela primeira página e pega o jornal. Havia ali notícias sobre uma derrota eleitoral do iraniano Ahmadinejad, e muitas matérias sobre ele mesmo, Sarkozy. Na parte de baixo da página, à direita, um anúncio. Depois de examinar o jornal por alguns segundos, Sarkozy o devolve, dizendo: “Bem bonito, esse modelo novo da Rolex”.

 

Seria um disfarce, uma artimanha de Sarkozy para não revelar seu interesse pelo que o jornal dizia a seu respeito? Em se tratando de políticos, sempre pensamos em hipóteses desse tipo. Pelo que diz Yasmina Reza, não se trata disso. Ele está mesmo interessado no relógio de luxo. Sua admiração, como leitor, é por um tal de Marc Levy, autor de best-sellers. O fato, num país onde presidentes intelectualizados é sem dúvida um point d’honneur, causa escândalo à esquerda e à direita.

 

Mas é também típico dos intelectuais franceses, à esquerda e à direita, fazer tempestade em copo d’ água, e criar um grande caso histórico onde não veríamos nada mais do que mediocridade. O Rolex de Sarkozy já faz correr mais tinta, provavelmente, do que possa acompanhar a nossa vã atenção. Não há quadros em branco para os pensadores de Paris; talvez não existam mesmo em lugar nenhum.   

Escrito por Marcelo Coelho às 23h44

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Penelope Shuttle

Penelope Shuttle

Há tempos publiquei aqui um ou dois poemas de Penelope Shuttle, que escreve como ninguém sobre os mistérios da maternidade. Aqui vai mais um, dos seus Selected Poems. Pode ser lido como uma oração.

 

 

A CONCEPÇÃO

 

Para Zoe

 

Agora

Você está na arca do meu sangue

no rio dos meus ossos

no bosque dos meus músculos

nos ligamentos do meu cabelo

no engenho de minhas mãos

na fuligem de minha sombra

na esquadra do meu cérebro

sob as estrelas do meu crânio

nos braços do meu útero

Agora você está aqui,

mineradora do ouro da minha carne.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h06

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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