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E aqui vai a publicada ontem:
SORTE VIP
Ganhar na loteria não é para qualquer um.
Naquela casinha no Jardim Texas, o clima era de euforia.
--Ganhei. Ganhei. Acertei tudo.
Pedrão segurava o papelzinho da sorte. No dia seguinte, foi falar com o chefe.
O doutor Euclides. Médico famoso. Ele é quem tinha feito a aposta na lotérica.
--Então, doutor. Viu que sorte a minha?
--Olha, rapaz. Precisamos conversar.
Pedrão ficou ouvindo.
--Você é um rapaz simples. Um pobre, na verdade. Não sabe de nada.
Euclides foi didático..
--Sabe a diferença entre um Picasso e um Matisse? Entre trufa e caviar?
Pedrão não sabia. A conclusão foi cruel.
--Não pode ser rico. Dou dez mil para você. E estamos conversados.
Ódio e humildade dividiram a alma de Pedrão.
--Sei a diferença entre um pilantra e um trabalhador.
Ofendido, o doutor Euclides chamou dois enfermeiros reforçados.
No hospital psiquiátrico, Pedrão tenta provar sua versão dos fatos.
Mas não há especialistas para cuidar das loucuras de uma sociedade.
7/9/2007
Escrito por Marcelo Coelho às 22h01
Eis uma história que deveria ter saído na quinta-feira, mas não postei.
PREÇO DE UM AMOR
É preciso proteger nossas crianças.Mara Lúcia estava preocupada.
O Brasil importa brinquedos chineses sem muito critério.
--E se acontecer alguma coisa com a Talita? Ela é a minha jóia do coração.
A menina tinha três anos. Bonecas. Geringonças. Badulaques.
Mãe e filha passeavam no Shopping Asa Delta.
Uma loja de brinquedos chamou a atenção de Talita.
--Mamãe. Eu quero.
Os dedinhos da pequena apontavam para uma boneca motorizada.
O consumidor merece informação detalhada.
--É a pilha?
O vendedor ia dizer que sim. Mara Lúcia ia abortar a operação de consumo.
Talita abriu o berreiro. A boneca começou a falar.
--Non chola. Non chola que mamãnhe compla.
Talita esperneava. Mara Lúcia agarrou-a no colo. Foi um erro.
Violenta mordida na orelha arrancou de Mara Lúcia seu brinco de zircônia.
A pedra e o ganchinho penetraram no organismo de Talita.
No hospital, fizeram a operação. Para acalmar a criança, recomendam acupuntura.
Nossas jóias mais preciosas podem, por vezes, ter seus dias de escuridão.
6/9/2007
Escrito por Marcelo Coelho às 21h58
De Nietzsche aos pós-modernos
Contam-me, mas não tenho os detalhes direito, que durante a estada de Giuseppe Ungaretti no Brasil quiseram levá-lo para um encontro com Pietro Maria Bardi, que havia chegado recentemente ao nosso país. A reação de Ungaretti foi radical: reproduzo em italiano, sem saber se escrevo certo:
Non parlerò giammai con quello fascista!
Paralelamente, os amigos de Bardi propunham que ele se encontrasse com Ungaretti. A resposta de Bardi, segundo dizem, foi:
Non parlerò giammai con quello fascista!
Lembro-me disto porque comecei a ler um livro de Richard Wolin, professor na City University de Nova York. Chama-se The Seduction of Unreason: the intellectual romance with fascism from Nietzsche to Postmodernism.
Como aconteceu quando li “Deus, um Delírio”, de Richard Dawkins, minha concordância com as teses do autor acaba se tornando um motivo para restrições, críticas e ressalvas (como se, por inveja, quisesse eu mesmo ter escrito o livro; ou, talvez, porque vejo minhas idéias simplificadas demais, e isso me constrange).
Wolin diz uma coisa que, mais do que achar, sempre senti, ou “farejei”. Os herdeiros de Nietzsche tentam torná-lo de esquerda, de extrema esquerda, mas todo o processo que empreendem contra o iluminismo, os direitos humanos, a democracia e o conhecimento racional termina sendo um belo direitismo disfarçado.
Os casos de Heidegger e Paul de Man são conhecidos, e Wolin não leva a sério as tentativas de absolvê-los de suas relações com o nazismo. O encantamento de Foucault com o aiatolá Khomeini é um alvo mais do que fácil.
Mas eu não sabia que Georges Bataille, outro mestre do pensamento “transgressivo”, imaginava-se participante de uma espécie de confraria intelectual no estilo dos cavaleiros templários da Idade Média, e também no estilo dos Ordensburgen da SS nazista... Será tanto assim? Wolin menciona, sem citar o texto, que Bataille proferiu uma conferência em 1939 com o título “Hitler e a Ordem Teutônica”, elogiando uma “terceira via” entre o liberalismo e o comunismo.
Hans-Georg Gadamer, discípulo de Heidegger que não se envolveu com o nazismo, chegou por sua vez, nos anos 1940, a viajar para a Paris ocupada, para falar sobre “Volk [termo carregado de conotações nazistas] e História no Pensamento de Herder”.
Tutti fascisti...
O problema com o livro de Richard Wolin, por enquanto pelo menos, é que adota um tom mais de reportagem que de análise. Essa característica se resume a duas coisas: poucas citações dos autores criticados, e quantidade ainda menor de referências a autores que possam apresentar argumentos contrários à tese defendida pelo livro. Nesse sentido, talvez, podemos entender um pouco das críticas que o livro de Dawkins suscitou.
Muita gente afirmou que Dawkins não levava em conta autores mais sutis, teólogos mais refinados, contra as quais seria mais difícil debater. No prefácio à edição de bolso, Dawkins apresentou uma resposta excelente e engraçada a esse tipo de crítica, que transcrevi em post anterior. Ele está certo; ainda assim, sai perdendo um pouco na batalha retórica e intelectual, porque aparentemente não destrói argumentos dos autores mais atuais, que podem continuar a ser citados por seus adversários.
Sem contar, no caso de Wolin, um certo ar de “caça às bruxas”. Pero que las hay, las hay..
Escrito por Marcelo Coelho às 18h57
aqui ninguém é inocente
Baseado nas histórias de Voltaire de Souza, o espetáculo de Mauricio Paroni de Castro está de volta, agora no Teatro da Vila (rua Jericó, 256, Vila Madalena), sábados às 22h e domingos às 21h.
Escrito por Marcelo Coelho às 22h16
Kipling no Brasil
Comentei rapidamente no artigo de quarta-feira o livro de Rudyard Kipling Brazilian Sketches, publicado em edição bilíngüe pela Landmark. A natureza, a selva, parecem interessar mais ao autor do “Livro da Jângal” do que qualquer observação sociológica a respeito de nosso país.
Uma observação curiosa que ele faz a respeito do Rio de Janeiro diz respeito à velocidade maluca dos motoristas –em especial os de ônibus. O aterro do Flamengo não tinha sido ainda construído, é claro (Kipling esteve aqui em 1927). Mas que importam os motoristas, quando o autor se extasia diante de uma cidade “de sonhos”, que, numa
suspensão de pulso e movimento, se enaltece com o divino calor do amanhecer –enorme, opulenta, imaculada e, a despeito disso, com a sua recém-adquirida modernidade [...]
Kipling continua, descrevendo a recente ocupação de Copacabana:
Uma série de montanhas verticais cobertas por nuvens no topo limitava a praia por um lado, a cinqüenta ou sessenta quilômetros de distância. Era evidente que se preparavam para as monções. Montanhas não se cobrem de nuvens daquela amplitude e espessura esperando por poucas horas de chuva. Os picos se impunham acima da asfixia, enquanto trovões ribombavam distantes, e voltavam a silenciar. As faces de penhascos gigantescos projetavam-se como um rebanho entre a névoa, estáticas e atentas, e então recuavam, ocultando-se na neblina.
Espetáculo suficiente para Kipling dar pouca atenção ao Carnaval, que se preparava para dali a uma semana.
Todo estrangeiro visitando o Brasil se espanta com a mestiçagem. Há menções esparsas a isto em Kipling, e não deixa de ser curioso ler o que o historiador e comentarista político do Guardian, Timothy Garton Ash, escreveu sobre o assunto depois de sua visita a São Paulo e Rio, cerca de dois meses atrás. Ele estava fascinado com a polêmica em torno das cotas raciais, e com o caso dos gêmeos univitelinos que foram discriminados, positivamente um, e o outro não, na concessão de vagas numa faculdade. Tanto quanto discutir o assunto, Garton Ash se derrama em elogios à beleza física dos brasileiros. Um xodó universal, mas especialmente inglês: Michael Caine, num documentário sobre o modo com que o cinema de outros países trata o nosso, fez considerações parecidas. Se não querem que o país de vocês seja conhecido pela sensualidade e beleza das pessoas, tratem então de enfeiá-las, recomendou --num misto de simpatia e seu contrário-- à realizadora do documentário.
Enquanto isso, Kipling se extasia no Jardim Botânico:
Em meio às copas escuras das árvores, e surgindo das cornijas de moitas suspensas, flutuavam adiante, de forma rara, borboletas tão grandes como morcegos, mas feitas do matiz do luar. Elas conferiam brilho ao esplendor do dia, e então, como almas visitantes, sinalizaram e flutuaram para o alto.
Em inglês:
Through the dark arches of the trees, and from under the cornices of over-hanging thickets, floated forth, rarely, butterflies as big as bats, but made of tinted moonshine. They set a lustre upon the glory of the day, and then, like visiting souls, signalled and wafted upwards.
Traduzir esse trecho é quase tão difícil quanto traduzir poesia, e há uma beleza particular no jeito com que as vírgulas esvoaçam ao longo desse trecho.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h27
No artigo desta quarta-feira, elogio muito as imagens de um semidocumentário que vi recentemente em DVD, feito por Robert Flaherty em 1948. Trata-se de "A História de Louisiana", qe mostra o cotidiano de um pequeno pescador nos pântanos do sul dos Estados Unidos, e do impacto de uma empresa petrolífera sobre a vida de todos. O filme é muito ambíguo, enaltecendo as atividades industriais da prospecção de petróleo ao mesmo tempo que capta a imensa poesia natural da região. Mas as cenas iniciais são deslumbrantes, e o fotógrafo do filme, Richard Leacock, faz coisas belíssimas em preto e branco. Aproveito o blog para dar uma amostra.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h49
teoria do medalhão
Desconfio um pouco de encomendas literárias, e em especial daquele tipo de livro que reúne vários autores aos quais se distribuem temas fartamente explorados, do tipo “os dez mandamentos”, “os sete pecados capitais” etc. Uma iniciativa estranhíssima desse gênero foi uma série de cinco romances dedicados aos cinco dedos da mão, que uma editora encomendou a alguns autores brasileiros consagrados. Carlos Heitor Cony ficou com o dedo indicador, e fez um romance bastante rocambolesco, “O Indigitado”, que resenhei na “Folha”.
Desconfio, mas acabo aceitando quando me convidam. Participei há anos de uma coletânea sobre “Os Dez Mandamentos”, escolhendo o do falso testemunho; a meu ver seria o mais rico de possibilidades ficcionais inexploradas, mas temo ter fracassado redondamente, arriscando-me num pós-modernismo meio, ahn, bocó.
Depois, Rinaldo de Fernandes me convidou a participar de um livro mais consistente, dedicado ao que seriam “contos cruéis” na literatura brasileira. Devo dizer que minha contribuição foi mais para peso-leve, ainda que tenha achado o conto divertido.
Em todo caso, Rinaldo reincidiu, e eu também, num projeto de livro coletivo, agora inspirado em contos de Machado de Assis. Coube-me escrever uma história inspirada na “Teoria do Medalhão”, texto que na verdade me parece dos menos “ficcionais” e, para dizer tudo de uma vez, dos menos sutis da obra machadiana. O livro ainda vai demorar para ser editado, mas acabei fazendo um texto que, pelo menos, tem certa mordacidade, embora a imaginação de ficcionista tenha soprado bem pouco em minha pena.
Resolvi ironizar um pouco, não as palestras para executivos e os livros de auto-ajuda, que seriam um prato para a “teoria do medalhão” do século 21, mas outra forma de banalidade que conheço melhor, a do discurso acadêmico. Vai aqui um trechinho, vamos ver no que dá.
Boa noite a todos. Quero agradecer a iniciativa das Faculdades Integradas Pintassilgo, que na figura do professor Savério teve a gentileza de me convidar para esta Jornada de Estudos Machadianos. Minha palestra terá como tema um conto bastante conhecido de Machado, a “Teoria do Medalhão” (Assis, 1976: 291). Procurarei apontar, a partir desse texto, algumas indicações preliminares sobre o que poderíamos chamar de viés teórico na obra machadiana, e que, de forma talvez um tanto ambiciosa, pretendemos desenvolver num estudo que tem o título provisório de “O Gume do Machado: uma introdução ao método crítico de Machado de Assis”.
Nesse sentido, o conto “Teoria do Medalhão” assume uma importância essencial na pesquisa que estamos empreendendo. Crítico arguto da classe dominante brasileira, Machado utilizou a forma da ficção para desconstruir, em “Teoria do Medalhão”, os pressupostos da atuação das elites brasileiras, desvendando de maneira sarcástica o “habitus” (Bourdieu: 1973, 211 e ss.) da burguesia cafeeira (Fernandes:1975, passim, Cardoso: 1967, 39, 41, 55, Ianni: 1965, 77-182), em sua versão urbana (Freyre: 1947, cap. 2), dentro dos quadros do capitalismo periférico (Cardoso: 1967, cit.) na medida em que a ideologia dominante (Marx: 1981 [1849], 15, Gramsci: 1981, 53, Limoeiro Cardoso: 1974) reproduz (Bourdieu: 1973) o comportamento aristocrático (Marx, 1980 [1853]) das chamadas “elites” (Mosca: 1972) brasileiras (Pedro I: 1822).
Naturalmente, os balizamentos teóricos de nossa pesquisa são do conhecimento geral, e não gostaria de me estender sobre esse ponto, antes de nos debruçarmos sobre a essência mesma do texto (Barthes: 1975), em sua materialidade fônico-poética (Jakobson: 1973, Pignatari: 1975), e, sobretudo, de uma perspectiva mais fenomenológica (Merleau-Ponty: 1983), no aparecer do texto ante o seu “leitor” (Iser: 1988; Certeau: 1996).
Será então da perspectiva do “leitor” que iremos nos aproximar deste texto indiscutivelmente complexo, e que exige, portanto... Ah, vejo que alguém tem uma pergunta na platéia. O rapaz ali, de camiseta branca... passem o microfone para ele...
Quer saber se cai no vestibular? Olhe, acho que cai sim, mas eu queria aproveitar para dizer algumas coisas sobre esse assunto, porque muitas vezes o aluno pensa apenas em passar no vestibular, e não percebe que a literatura é uma coisa muito mais importante do que isso. Posso dar um exemplo? Garanto que vou ser breve [...]
Escrito por Marcelo Coelho às 00h32
Obrigado a todos que me indicaram os softwares grátis do Mozilla. Instalei o programa de e-mail, que é parecidíssimo com o outlook e está funcionando na perfeição. Vantagens de se ter um blog --e leitores de boa vontade com este rabugento ocasional.
Escrito por Marcelo Coelho às 23h53
Faltou o link para a coluna do "Agora" de sábado. Aqui vai o texto.
INVASÃO DE INTIMIDADE
Acusações. Arrazoados. Princípios. É o julgamento dos mensaleiros.
O dr. Siqueira acompanhava tudo pela TV Justiça.
--Este, de fato, é o momento para moralizar o país.
Ministros debatiam questões intrincadas.
O advogado aposentado se lembrava dos velhos tempos do fórum.
--Hum... faltou citar a Súmula 44 do TFR. Ou será o inciso 12?
Estava na horinha de Siqueira tomar o primeiro uísque da tarde.
De repente, o susto. O choque moral.
--O que é que aquele ministro está vendo no computador?
Uma loira espetacular tirava a tanguinha diante de dois tiras americanos.
--Como ele tem coragem de ficar vendo isso no laptop?
Não era o laptop de nenhum magistrado. Era a TV do próprio Siqueira.
Enquanto cochilava, o advogado acionara o controle remoto para um canal quente da TV a cabo. O programa se chamava “Invasão de Intimidade”.
Siqueira não viu o desfecho de mais nada.
Num veredito fatal, o enfarte atingiu seu coração desencantado.
A TV se assemelha a certos casos jurídicos nebulosos. São perigosamente próximos os limites entre a legalidade e a bandalheira.
Escrito por Marcelo Coelho às 10h14
Fantasmas de Beethoven
Imagine-se, por um momento, no lugar de Beethoven. Depois de Haydn e Mozart, qualquer compositor tinha à sua disposição um fabuloso conjunto de técnicas, melhor dizendo, uma gramática e uma sintaxe plenamente constituídas, que funcionavam praticamente “no automático”, um pouco como os estúdios de Hollywood nas mãos de um Spielberg.
Bastaria a um Spielberg (Beethoven) chegar nesses estúdios e fazer valer, com a necessária dose de vontade que se sabe existir, seus desejos, delírios e concepções: o “sistema”, por dizer assim, obedece ao gênio, porque décadas anteriores se prepararam para o grande homem.
Em certa medida, Beethoven foi bem pouco místico a respeito de sua personalidade musical. Disse, pelo que sei, que o segredo de um grande compositor estava em saber colocar uma sétima diminuta (acorde bem dramático) no lugar certo.
Mas Beethoven também era capaz de responder, a um violinista que reclamava da dificuldade técnica de uma passagem: “você acha que, enquanto estou em comunicação com o Espírito, tenho tempo de cuidar de sua ínfima rabeca??”
Técnica e espírito, relojoaria e genialidade, sempre disputarão o palco no mundo da música clássica. Mas é evidente que Beethoven não é Spielberg. Beneficiado com um gigantesco artefato técnico (a forma, a instrumentação, a harmonia de Haydn e Mozart), Beethoven não fez apenas (como Spielberg) gato e sapato do que tinha à sua disposição.
O gato-e-sapato era pouco diante do que lhe parecia um veículo –nada mais que um veículo—para a realização de possibilidades expressivas, intelectuais e espirituais muito maiores do que as de Haydn, Mozart ou mesmo Bach.
Nesse sentido, o poder, a musicalidade, o DNA de Mozart podem ter sido superior ao de Beethoven, o intelecto de Haydn pode ter sido musicalmente maior do que o de Beethoven, o poder de Bach como compositor pode estar a léguas de distância do poder de Beethoven, mas é este quem descobriu que sua arte alcança dimensões de inteligência maiores do que a de seus predecessores.
É a diferença entre uma pessoa muito inteligente e um intelectual. Beethoven pode ter sido menos gênio do que Mozart, mas era mais intelectual do que Mozart. Se Mozart chegou à essência do que é a música, Beethoven mostra do que a música é capaz, quando não se contenta em ser o que é.
Geralmente, isso dá certo. Mas acabo de ouvir o Trio op. 70, “Fantasma”, de Beethoven, num Dvd sobre Jacqueline du Pré que comentei recentemente. Aqui, lamentavelmente, o truque –no sentido de técnica degradada—assume o primeiro lugar na técnica de Beethoven. Há a aparência de intelectualidade apenas: torna-se intelectualismo. Haydn, que era intelectual o tempo todo, aparentava bobice e ligeireza; mas não tenho treinamento musical bastante para saber que isso é pura aparência. Basta saber que mesmo Beethoven deixa a desejar, por vezes.
Escrito por Marcelo Coelho às 03h54
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PERFIL
Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.
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