Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
 

um poema de Edith Sitwell

 

 

 Edith Sitwell (1887-1964) é mais conhecida por um belíssimo poema que escreveu em 1940, enquanto Londres era bombardeada pelos nazistas, “Still falls the rain” (A chuva ainda cai). Há nesse poema uma metáfora que me marcou muito quando a li, já nem me lembro quando. Edith Sitwell se refere aos “mil, novecentos e quarenta pregos” que prendiam Cristo na cruz. Cada ano, assim, parece adiar o retorno do Salvador. Mais do que nunca, todavia, num momento em que a Inglaterra resistia sozinha ao avanço nazista, era o caso de ter fé. Do mesmo modo, Dylan Thomas escrevia sua “Recusa a chorar pela morte de uma criança, pelo fogo, em Londres”, dizendo maravilhosamente que “Depois da primeira morte, não há nenhuma outra.” Nesses casos, a fé cristã era um sinônimo de coragem, quando o realismo aconselhava, talvez, a desistência. Felizmente não estamos numa época dessas; em todo caso, o poema de Edith Sitwell que transcrevo talvez não seja inatual.

 

LÁGRIMAS

 

 

Minhas lágrimas foram o esplendor de Órion com sóis sêxtuplos e o milhão/ De flores nos campos do Éden, onde os sistemas solares se põem --/Os rochedos de grandes diamantes em meio à onda clara/ Amadurecidos pelo orvalho de maio e pela luz da madrugada, frutificando em novos diamantes./ Chorei pelas glórias do ar, pelos milhões de auroras,/ E pelo esplendores guerreando com a treva no coração do Homem, /Chorei pelas belas rainhas deste mundo, a brilhar como um campo de flores;/ Já colhidas, umas às seis, outras às sete, mas todas na manhã da Eternidade./ Mas agora minhas lágrimas vão secando e caem como as horas:/ Choro pela Estrela da Tarde. Seu corpo se tornou uma cidade metafísica/ Cujo coração é agora o som das revoluções –Pelo amor convertido/ Na misericórdia do hospital, na esperança dos cientistas no futuro,/ E pelo Homem escurecido, essa complexa multiplicidade/ De ar e água, animal e planta,/ Diamante duro, infinito sol.

 

 

Edith Sitwell, em retrato de  Roger Fry

Escrito por Marcelo Coelho às 22h43

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os usos do branco

os usos do branco

Ainda ontem, terminei de escrever outro prefácio, desta vez para o romance A Gangorra, de um jovem escritor chamado Denny Yang. Ele tinha me mandado, há algum tempo, um livro dele, intitulado Isabelle (ed. FTD). Simpatizei com a maneira totalmente sincera e coloquial que o narrador utiliza desde o começo:

 

Acho que no fundo eu gostaria mesmo é de, de repente, sentar e escrever um livro. Sério mesmo. E um livro bom. Uma obra-prima. Um clássico da literatura. De todos os tempos. No começo, claro, eu apenas seria objeto de resenhas e críticas da mídia e dos meios especializados. Depois, após muito tempo, teria o reconhecimento póstumo, até vir a ser listado nos top dez do século. Quanta bobagem. Mas é verdade.

 

 

O tom, levemente cínico, ou ingenuamente cínico, quem sabe, prossegue ao longo livro:

 

Ligo a tevê, pois uma vez por semana passa um programa muito interessante de discussões a respeito do meio ambiente. Sou muito ligado a esse negócio de meio-ambiente, sabe?

 

Ou então:

 

De certa forma, é um pouco óbvio que entrei numa crise forte. Mas estou falando especificamente da crise existencial que me acometeu, juntamente com a depressão. Meu analista, por exemplo, não achava necessariamente que eu estava em crise existencial, mas no fundo eu sabia que estava.

 

É, talvez, um jogo com a tagarelice cotidiana, que aparece aqui ironizada. Isso, em Isabelle. No livro que prefaciei, há esse mesmo tonzinho nos diálogos entre o narrador e a namorada, que é “da elite”, como a história insiste em frisar. Mas a história, a meu ver, não interessa tanto: o que há de promissor, nesse romance, é a sensibilidade para a insignificância que rói, por dentro, quase todas as nossas conversas cotidianas; basta retirar, num livro, o seu verniz de literatura, para que isso apareça. É como em pintura: alguns escritores são ótimos nos tons escuros e brilhantes (gostaria de ser um deles), enquanto outros sabem usar muito bem o branco, o deslavado –e acho que Denny Yang está nessa categoria.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h51

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agenda

Não é para me desculpar, nem para fazer propaganda, mas quem sabe pelos dois motivos ao mesmo tempo, que conto um pouco as minhas próximas atividades. Gostaria que o blog fosse um meio de me preparar para elas, escrevendo o que aos poucos penso sobre cada uma das coisas que tenho a tratar em artigos ou palestras, mas às vezes nem isso dá certo.

 

Nesta quarta-feira, faço a entrega do prêmio “Barco a Vapor”, um concurso de literatura infantil e juvenil organizado pela editora SM, de que fui um dos jurados.

 

Quinta-feira, participo de um debate com o filósofo Luiz Felipe Pondé, na Faap, dentro das atividades de uma semana de comunicação que está sendo realizada naquela faculdade.

 

Segunda, dia 17, há um debate no Espaço Gafanhoto (av. Rebouças, 3181), sobre o documentário “Jesus no Mundo Maravilha”, que aborda a violência policial.

 

Enquanto isso, faço o prefácio para um livro organizado pela Associação Psicanalítica Internacional, com artigos de vários especialistas sobre o terrorismo e o 11 de Setembro, que tenho de entregar em breve.

 

Há também, ainda na área psicanalítica, uma palestra que me convidaram para fazer no Sedes Sapientiae, comemorando dez anos da cadeira de Psicanálise Infantil, abordando a questão do “tempo”. Quem sabe falo da questão do amadurecimento, não sei. Isso é no dia 2 de outubro.

 

No dia 4, faço parte de uma mesa que debaterá o livro Brasil, Uma Identidade em construção, que está sendo editado pela Ática.

 

Vou ver de que jeito eu começo. E de que jeito eu acabo.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h13

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voltaire de souza

voltaire de souza

http://www1.folha.uol.com.br/agora/colunistas/co1109200703.htm

O desaparecimento do tenor Luciano Pavarotti inspira o cronista do "Agora" (para assinantes)

Escrito por Marcelo Coelho às 00h20

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Dois na bossa

Dois na bossa

Comprei por R$ 9,90, nas Lojas Americanas do West Plaza (no site está em falta), um CD com a gravação ao vivo do show “2 na Bossa”. Jair Rodrigues e Elis Regina, diante de um público de 2 mil pessoas no antigo teatro Paramount em São Paulo, fazem um espetáculo de altíssima temperatura. O CD não traz maiores informações sobre outros participantes do show; com certeza estavam acompanhados pelo Zimbo Trio.

 

Quem costuma ler este blog sabe que MPB não é a minha praia, mas algumas músicas do show, como “Arrastão”, e “Menino das Laranjas”, que raramente ouvi depois da infância, me arrepiam na hora. O show é de 1965, alguns anos antes que eu tomasse contato consciente com a música dos festivais; só do festival de 68, quando eu tinha nove anos, consigo me lembrar bem.

 

Mas “Reza”, de Edu Lobo e Ruy Guerra (“Laia, ladaia, sabatana, Ave-Maria”), “Feio não é bonito”, de Carlos Lyra e Gianfrancesco Guarnieri (“Chora, mas chora rindo/porque tristeza é só o que se tem pra contar”), além do próprio estilo jazzístico, quase frenético, do Zimbo Trio, trazem memórias muito claras para mim.

 

Em casa, esse era o reino musical do meu irmão, já estudante de Direito nessa época; em 1964, ele participou de uma caravana de acadêmicos rumando para o famoso comício de Jango na Central do Brasil, dias antes do golpe. Não era militante de partidos de esquerda, como a maioria de seus amigos, mas participava das movimentações de esquerda, ao mesmo tempo em que sempre manteve um estilo mais “cool”, irônico e jazzístico, sem nada daquele comportamento que depois ficou identificado com a caretice meia-oito.

 

O CD traz essa mesma tensão riquíssima entre elegância jazzística e mensagem de esquerda. Quase um ano depois do golpe militar, Elis Regina e Jair Rodrigues parecem dar vazão ainda a um sentimento de confiança, de raiva e de luta, sem nenhuma avaliação fúnebre ou exasperada do que tinha acontecido. Palavras de ordem que talvez fossem até oficialistas durante o governo Jango se tornam candentes, apaixonadas, e nada mostra tanto isso do que a voz de Elis Regina, que parece ir vários decibéis além do seu limite natural, sem nunca perder a musicalidade e o bom gosto.

 

Naturalmente, aquelas letras, e aquele espírito, já estavam em descompasso com a época; “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, daria o tom estético, alegórico, suicida e debochado, do que viria a seguir. A julgar pela vibração de Jair Rodrigues e Elis Regina, ainda se acreditava que a intervenção militar seria breve, e razoavelmente moderada. Glauber já percebera, acho, que a loucura repressiva pautaria o país por duas décadas.

 

O que mais sinto falta na MPB de hoje, claro que falo sem conhecer muita coisa, é esse espírito de vibração, esse poder contágio, de desembestamento que a gente ouve em coisas como “Arrastão”. A tendência é para a melancolia e a reflexão, na melhor das hipóteses. Mas principalmente para um espírito de toada, de canção de ninar, que é por exemplo a especialidade de uma cantora admirável como Mônica Salmaso. Músicas que despertem, talvez só no rap (aliás, Jair Rodrigues é precursor disso, como fica óbvio no CD). Ah, e tem o Cordel do Fogo Encantado. Mais alguma coisa? Não sei, mas aí deve ser falta de informação minha.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h08

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voltaire de souza

Aqui vai a crônica publicada no sábado, 8 de setembro.

ALMA SEM CONTROLE

 

 

Na vida agitada de hoje, um mordomo pode ser indispensável.

O milionário J. P. do Prado fazia absoluta questão.

--Não vivo sem o Baltazar.

Nos momentos de lazer, o funcionário doméstico cuidava de tudo.

--Mais um cubinho de gelo, Baltazar

--Perfeitamente, dr. J. P.

--Ligue a televisão, Baltazar.

J. P. do Prado não gostava de usar o controle remoto.

--Mude de canal, Baltazar.

--Mas, dr. J. P., esse documentário é excelente. Foi premiado no Festival de Saragoça.

O mordomo possuía sólida cultura e gostos refinados.

O milionário queria assistir a um show de calouros.

--Perdoe-me, senhor, mas a opção é extremamente vulgar.

O copo de uísque foi arremessado na direção do mordomo.

Que já prometeu para uma editora contar os podres financeiros do patrão.

J. P. já comprou uma TV que atende a comandos de voz.

Empregados e eletrodomésticos podem ser úteis no lar.

Mas nenhum ser humano vem com controle remoto.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 21h35

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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