Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

Machado de Assis, Walter Scott

Machado de Assis, Walter Scott



Sabe-se que uma frase importante do “Brás Cubas” de Machado de Assis (“o menino é pai do homem”) vem de um verso de William Wordsworth, poeta sobre quem falo rapidamente no artigo desta quarta-feira. Alberto Marsicano e John Milton traduziram alguns poemas de Wordsworth em O Olho Imóvel pela Força da Harmonia, entre os quais “My Heart Leaps up When I Behold”:

My heart leaps up when I behold

A rainbow in the sky:

So was it when my life began;

So is it now I am a man;

So be it when I shall grow old,

Or let me die!

The Child is father of the Man;

I could wih my days to be

Bound each to each by natural piety.

 

 

John Milton e Alberto Marsicano traduzem assim:

 

Meu coração bate mais forte ao ver

O arco-íris no céu surgir;

Assim foi no início de minha vida,

Assim é, metade dela corrida,

Assim seja quando envelhecer,

Se não a morte irei preferir!

O Menino é o pai do Homem;

Queria que meus dias fossem, afinal,

Unidos um a um pela piedade natural.

  

Entenda-se “piedade natural” como a disposição para cultuar a natureza. 

A idéia de Wordsworth é a da fidelidade do poeta às suas impressões de infância. É grande o contraste subjetivo, mas não temático, dessa atitude com a de um famoso poema de Machado de Assis, aquele que termina com o “mudaria o Natal ou mudei eu?”

Um homem – era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno –
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações de sua idade antiga
Naquela mesma velha noite amiga
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”

Lendo uma antologia de poetas ingleses, logo depois das páginas dedicadas a Wordsworth, topei com um poema de Walter Scott, aliás musicado por Beethoven, que deve ter sido a inspiração para o soneto machadiano. Não sei se alguém já apontou essa semelhança, mas aqui vai:

The dreary change

The sun upon the Wierdlaw Hill,

In Ettrick’s vale, is sinking sweet:

The westland wind is hush and still,

The lake lies sleeping at my feet.

Yet not the landscape to mine eye

Bears those bright hues that once it bore;

Though evening, with her richest dye,

Flames o’er the hills of Ettrick’s shore.

 

With listless look along the plain,

I see Tweed’s silver current glide,

And coldly mark the holy fane

Of Melrose in ruined pride.

The quiet lake, the balmy air,

The hill, the stream, the tower, the tree,

Are they still such as once they were

Os ir the dreary change in me?

 

Alas, the warped and broken board,

How can it bear the painter’s dye!

The harp of strained and tuneless chord,

How to the minstrel’s skills reply!

To aching eyes each landscape lowers,

To feverish pulse each gale blows chill

And Araby’s or Eden’s bowers

Were barren as this moorland hill.

 

Traduzir isso, mesmo só aproximativamente, dá trabalho e toma espaço. Fica para outro dia. Só acrescento uma pequena observação, que reitera a oposição e a semelhança entre Scott e Wordsworth. O primeiro fala, no início deste poema, que “Yet no the landscape to mine eye/Bears those light hues that once it bore”, enquanto Wordsworth, lembrando-se de um prado coberto de narcisos, em “I wandered lonely as a cloud”, diz que ...

...oft, when on my couch I lie,

In vacant or pensive mood,

They flash upon that inward eye

Which is the bliss of solitude.

 

A abadia escocesa de Melrose, citada em Walter Scott

Escrito por Marcelo Coelho às 22h46

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Rilke e a solidão

Rilke e a solidão

Volto às Cartas do poeta sobre a vida, de Rilke, livro que comentei para o artigo de quarta-feira que vem e que usei, também, na minha participação para o programa Entrelinhas, da TV Cultura. Dois coelhos com uma cajadada? Seria anti-ético fazer isso, eu acho. Juntei Rilke com Vauvenargues na TV Cultura, e faço uma interpretaçãozinha sociológica do privilégio pessoal de Rilke e de suas relações com a infância, lembrando (com problemas de falta de espaço) a poesia de Wordsworth no artigo da Ilustrada.

 

Seja como for, escolho aqui duas citações que têm a ver com os posts anteriores.

 

Quanto mais humanos nos tornamos, tanto mais diferentes ficamos. É como se de repente os seres se multiplicassem por mil; um nome coletivo, que antes abarcava milhares, logo se tornará muito estreito para dez pessoas, e seremos obrigados a considerar cada indivíduo inteiro. Pense: quando um dia teremos seres humanos, em vez de povos, nações, famílias e sociedades; quando não será mais possível agrupar nem mesmo três pessoas num só nome! O mundo então não deverá se tornar maior?

 

 

* * *

 

Ter uma pessoa próxima cujas visões opostas se aliam a uma amizade profunda e convicta pode ser uma influência maravilhosamente instrutiva. Pois enquanto formos obrigados (como em geral somos em relação aos pais e a outras pessoas mais velhas) a ver o outro sempre como algo falso, mau, hostil, em vez de simplesmente como o outro, não entraremos numa relação tranqüila e justa com o mundo em que todos devem ter lugar: parte e contraparte; eu e o sumamente diferente de mim. E, apenas sob o pressuposto e a admissão de tal mundo completo, poderemos dar um arranjo amplo, espaçoso e arejado de nosso eu interior, com seus contrastes e contradições internos.

 

Observo que esta passagem, claro, não implica em tolerância com assassinos. É antes uma crítica, se quisermos, à pena de morte... Em todo caso, eu diria que o que há a reter aqui não é tanto uma tolerância abstrata com o “totalmente diferente”, mas a capacidade de não se ver a si mesmo como um bloco inequívoco e fechado. A pessoa pode ter convicções, e precisa tê-las, desde que não sejam uma defesa contra ela mesma, isto é, uma forma de negar-se achando que está negando os outros. 

Escrito por Marcelo Coelho às 20h33

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PT saudações

Leio em “Teoria e Debate”, revista bimestral da Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, um artigo da psicanalista Maria Rita Kehl, a respeito da votação no Senado da absolvição de Renan Calheiros.

 

Se desde 2005 os eleitores e militantes não sabem quantos, entre os políticos eleitos pelo PT, permanecem petistas, agora temos a impressão de que a sigla nos foi definitivamente roubada. Aqueles que se consideram petistas em função do compromisso histórico com o projeto político e os valores éticos que o partido um dia representou perderam qualquer condição de ostentar o simpático símbolo da estrelinha.

 

(...) Um governo que não consegue sustentar nenhum preceito simbólico superior aos interesses econômicos –ou o que é pior, no cenário atual, aos interesses corporativos e privados—lança a sociedade em um cenário de “topa tudo por dinheiro” que põe em risco a própria ordem social. Um governo que fecha os olhos para a falta de ética, de decoro e de transparência em nome da governabilidade produz, na sociedade, efeitos ingovernáveis –além de uma descrença generalizada, próxima do abatimento melancólico.

Walter Benjamin escreveu que a melancolia fatalista, no quadro da luta de classes, é provocada pela “identificação afetiva com os vencedores”. É quando os derrotados abrem mão de sua história e abandonam sua perspectiva, fascinados pelo “cortejo triunfal” dos que os derrotaram. A famosa frase “não existe um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie” coroa o límpido argumento de Walter Benjamin. Se um dia os vencedores de turno, que já se curvaram de maneira fatalista ante as condições impostas pelas velhíssimas oligarquias ao exercício da política no Brasil, resolverem erguer um monumento à sua vitória, quero ficar fora dele.

 

O rodapé da editora informa que Maria Rita Kehl “comunicou seu afastamento do quadro de colunistas de Teoria e Debate, infelizmente, pelos motivos aqui expostos.”

 

Não sei quem vai acabar sobrando.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h27

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Édipo e o terror

Édipo e o terror

Termino de escrever, a convite do psicanalista Leopold Nosek, um prefácio para a edição brasileira do livro “Violência ou Diálogo? –insights psicanalíticos sobre terror e terrorismo”, organizado por Sverre Varvin e Vamik Volkan, da International Psychoanalytical Association. Dizendo assim, parece chique... mas sofri um bocado.

É uma série de artigos de psiquiatras, psicanalistas, etc., de diversas partes do mundo, sobre os atentados do 11 de setembro. Ninguém se arrisca, é claro, a explicar psicanaliticamente a mentalidade de Ali Atta ou de Bin Laden. De forma um tanto provocativa, escrevi que talvez fosse mais fácil, aliás, interpretar George W. Bush e Bill Clinton, sobre os quais não faltarão trepidantes informações biográficas...  

Procurei na internet um livro escrito por Freud, em colaboração com um estudioso americano, que analisava a mentalidade do presidente Woodrow Wilson. Mas o texto, acessível de forma extremamente truncada no google, é de qualquer modo desautorizado pelos freudianos, que sequer o incluíram nas obras completas do mestre; não há certeza quanto a que partes foram de fato escritas por ele.

O livro de Varvin e Volkan traz enfoques muito variados sobre as situações de trauma, violência, desamparo e desespero que estão em jogo em eventos dessa natureza, tanto na mente das vítimas quanto dos perpetradores. Doutrinação, fanatismo, por certo; mas também comportamento paranóico, agressividade masculina, atitudes de horda primitiva, resistência ao que é visto como ocupação estrangeira... Os ensaios, escrito por especialistas de diferentes partes do mundo, são por si mesmos um exercício de pluralidade e de recusa ao fundamentalismo, freudiano que seja. Fiquei meio zonzo e, sem dúvida, gostaria de uma daquelas explicações perfeitas, típicas de romance policial, que o velho Freud costumava apresentar com tanto virtuosismo. Mas o problema –os problemas—envolvidos no 11 de setembro não são da mesma natureza que os de um caso clínico, e seria impossível eliminar num passe de mágica o horror e a perplexidade que ainda produzem em nós.

Transcrevo aqui uma espécie de parábola especulativa que, no fim, terminei eliminando do prefácio que preparei.

 

“Decifra-me ou te devoro”, dizia, numa remota estrada da Grécia, a esfinge insaciável a um inocente e manco viajante chamado Édipo. Sabemos a resposta que deu ao enigma: o estranho animal descrito pelo monstro da estrada –que andava de quatro pela manhã, com dois pés durante o dia, e com três na hora do crepúsculo-- nada mais era senão o próprio homem.

Curioso, entretanto, que na própria formulação do problema –“decifra-me”!—havia um apelo ambíguo. Não cumpria a Édipo decifrar apenas o enigma proposto pela esfinge, mas o enigma da própria esfinge, ela própria um animal composto de vários outros, ela mesma uma bizarra conjunção de espécies distintas, mulher, leão, águia, que sei.

Édipo traduziu para si mesmo o desafio da esfinge, tomando-o literalmente: o “decifra-me” tornou-se um “decifro-me”, e com isso ele chegou à resposta: o animal que usa quatro, duas e três pernas conforme o passar do tempo vem a ser eu mesmo; sou eu, um homem.

Édipo só foi capaz de chegar a si mesmo, entretanto, por ter se colocado, imaginariamente, do ponto de vista da esfinge. Afinal, só um monstro habituado a ficar de guarda nas estradas, com efeito, repararia no fato de que o animal humano varia, conforme a idade, suas formas de caminhar... E somente Édipo, ferido nos pés, poderia entender perfeitamente os termos do enigma formulado pelo inimigo.

O enigma do outro tem sua chave dentro de nós mesmos; mas para saber disso, é preciso ver o que o outro vê.

 

 

Édipo e a esfinge, por Ingres

Escrito por Marcelo Coelho às 01h47

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Cabral, Jobim, Rocinha

No começo, achei que a Folha tinha sido um bocado injusta com o governador Sérgio Cabral (PMDB-RJ), destacando uma frase especialmente ruim de um discurso em que muita coisa importante e verdadeira foi dita.

 

Dizer que a favela da Rocinha é uma “fábrica de criminosos”, sem dúvida vai custar caro ao governador, e tem implicações ideológicas e políticas bem mais sérias do que o célebre “relaxa e goza” de Marta Suplicy, que tantas críticas lhe valeu.

 

A frase, afinal, foi destacada impiedosamente de um contexto em que Sérgio Cabral defendia o direito ao aborto, tese que é preciso ter coragem para colocar em pauta. Talvez, pensei ao ler a matéria, valesse a pena destacar o que havia de mais substantivo no que ele falou, em vez de fazer um grande barulho na manchete com um lapso político que, certamente, Cabral não haveria de subscrever em sã consciência.

 

Mas depois, pensando melhor, acho que a primeira página da Folha estava certa em destacar a pérola de preconceito enunciada por Sérgio Cabral. Ele deblaterava contra a taxa de fecundidade na Rocinha, comparando-a à situação de países africanos como Gabão e Zâmbia. A própria reportagem revelou a dose cavalar de ignorância dessa comparação. Nesses países a taxa está entre 5 e 6 filhos por mulher, enquanto nas favelas do Rio é de 2,6. Alta, mas só é alarmantemente “africana” para quem não gosta de ver negros pobres nascendo por perto, e já prevê que serão criminosos.

 

No fundo, Cabral expressa uma mentalidade generalizada, a de que a pobreza só vai acabar quando a sociedade der cabo dos pobres que ainda resistem. E, se bandido bom é bandido morto, melhor o bandido que nem nasceu.

 

Esta a grande novidade política, aliás, do discurso do governador. Pela primeira vez, a bandeira do aborto é encampada por um pensamento de direita. Deixam-se de lado os argumentos clássicos em favor do direito das mulheres a engravidar, em favor de condições mínimas de saúde e segurança numa prática hoje entregue a clínicas clandestinas ou a improvisos selvagens de mulheres desesperadas. Isso tudo, hoje em dia, passa por ser esquerdismo fora de moda, como criticar chacinas policiais e tortura institucionalizada. Mas o argumento de que o aborto vai diminuir as taxas de criminalidade –coisa que a polícia do Rio não tem conseguido fazer, pelas razões que se conhecem—é incomparavelmente mais atraente no país do capitão Nascimento.

 

Está em curso, aliás, um verdadeiro campeonato para ver quem é mais durão, quem é mais macho nessa questão de combate ao crime organizado. O ministro da Defesa, Nelson Jobim, depois de agarrar sucuris a unha e vestir farda camuflada, saiu-se com uma declaração e tanto, depois da última leva de execuções policiais no Rio. “As ações que o governador está implementando são corretas. Não há mais que se falar naquela postura meditativa e acadêmica do tratamento do crime organizado. Tem que ir para o confronto. E o governador está correto. A leniência e o afastamento do enfrentamento do problema levou à situação em que o Rio se encontra.”

 

Acho, claro, que toda dureza é pouca no combate ao crime organizado. Mas não sei a que tipo de “leniência” e “postura meditativa” está se referindo o ministro da Defesa. Em 2003, a polícia do Rio matou 1195 pessoas, das quais 65% tinham sinais de execução. Em 2004, o número baixou para 984. Em 2005, subiu para 1087, e só no primeiro semestre de 2006 houve 1063 mortes.

 

O curioso é que muita gente acha que isso é necessário, e ao mesmo tempo se escandaliza com a intervenção de George Bush no Iraque. Minha sugestão é nomear Nelson Jobim secretário de Defesa nos Estados Unidos, onde pelo menos as armas do exército são melhores que a dos inimigos.  

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h33

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artigo de quarta-feira

artigo de quarta-feira

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2410200731.htm

No artigo de hoje para a "Ilustrada", comento alguns sinais de radicalização no debate político brasileiro. Blogs têm bastante a ver com isso,a meu ver.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h35

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voltaire de souza

Uma crônica da semana passada no "Agora":

 

A MARCA É O DE MENOS

 

Insegurança nas ruas. Donos de Rolex são roubados por motoqueiros.

Conrado era estilista e consultor de moda.

--Bem-feito. Quem manda usar Rolex?

Ele esticava as pernas sobre um pufe de pele de girafa.

--Grifezinha mais vulgar... Rolex todo mundo tem.

Conrado olhou com afeição para o próprio pulso.

--Tem de usar isso aqui, ó. Acabou de chegar da alfândega.

Um belo relógio da marca Ulrike Riatowna brilhava no seu braço.

--Modelo exclusivo. Feito só para os muito, muito ricos.

Conrado dava um risinho superior.

--O ladrão brasileiro não tem cultura para desejar uma coisa assim.

A fumaça azul de um cigarro poluía o jardim de inverno do apê.

--Rolex é para pobre mesmo. Eles têm razão de roubar. Não é, Brutus?

O pitbull de estimação abanou o rabo. Queria carinho. Tinha fome.

A pulseira do relógio era de couro de camelo aromatizado de chocolate.

Brutus não se conteve. Destroçou o relógio e alguns tendões do dono.

Conrado não usa mais relógio no pulso. Prefere manter o curativo cirúrgico.

Quando a fome aperta, o importante é cuidar do próprio couro.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h57

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O signo da cidade

O signo da cidade

Fui ver neste domingo “O Signo da Cidade”, filme de Carlos Alberto Riccelli com roteiro de Bruna Lombardi. São várias histórias entrelaçadas, ao estilo de Altman: há uma astróloga, vivida com naturalidade pela própria Bruna, cujo pai (Juca de Oliveira) está morrendo num hospital; há o vizinho da astróloga, cuja mulher vai se tornando dependente de drogas; há um jovem travesti negro, que é amigo do enfermeiro homossexual que cuida do pai da astróloga. Não é fácil tornar todas essas histórias interessantes e bem solucionadas no tempo reduzido de um filme, e o roteiro consegue fazer isso com muita habilidade, sem economizar imaginação e graça nos diálogos.

 

“O Signo da Cidade” traça com todos esses personagens um painel variado dos habitantes de São Paulo, sem incidir nos clichês que seria de prever: não há motoboys nem empresários corruptos na trama. A cidade, embora reconhecível nos seus minhocões e cracolândias, tampouco é apresentada em obediência àqueles esquemas preestabelecidos, onde a câmera acaba sendo obrigada a “bater ponto” em alguns lugares –Vila Madalena, Terminal do Tietê, aeroporto de Congonhas, etc. etc. A fotografia do filme, especialmente à noite, consegue ser bonita sem enfeitar nada, e mostra lugares feios sem caricaturar a feiúra paulistana.

 

Curiosamente, “O Signo da Cidade” é um filme paulistano, mas muito novaiorquino também. Refiro-me ao espírito que parece prevalecer em Nova York depois do 11 de Setembro: qualquer habitante da cidade está sujeito à catástrofe, sente sua vida pessoal entrelaçada à dos outros habitantes do lugar, e retira da ameaça algum senso de solidariedade.

 

Se alguma mensagem é repetida com freqüência em “O Signo da Cidade”, esta é a de que o espírito tipicamente paulistano da competitividade e do individualismo –“os outros que se danem”—deve ser superado. A astróloga condena, mas nem sempre, as propostas de trambique com que se envolvem seus colegas de trabalho, na estação de rádio onde presta consultas ao vivo para os ouvintes. Prefere envolver-se com o destino dos seus consulentes, que aliás, como a grande maioria dos personagens do filme, estão muito perto de morrer, de serem assaltados, de entrar em colapso. Há um 11 de Setembro reservado, pode-se dizer, para cada um deles.

 

Apesar das motivações solidárias da protagonista, entretanto, parece faltar ao filme uma visão mais integrada da sociedade em que vivemos: é principalmente o destino individual de cada personagem o que está em jogo, e embora todos se entrelacem, cada qual está como que isolado em sua própria busca (de amor, de perdão, de sobrevivência).

 

Com isso surge outro problema no filme, a meu ver: o enfoque na vida privada de cada personagem poderia enriquecer-se se estivesse em jogo, nas diversas histórias, uma decisão moral, algum tipo de dilema no qual a liberdade individual pudesse se exercer. Naturalmente as personagens de “O Signo da Cidade” têm atitudes, tomam decisões. Entretanto, essas decisões não parecem surgir do interior delas próprias –e seria difícil fazer isso num filme de duração normal. É sobretudo “o destino”, não “o caráter” das personagens que dá andamento à trama; afinal, mesmo que nenhuma previsão da astróloga seja confirmada em seus detalhes, são as estrelas que comandam o espetáculo.

 

Digo isso sem ironia, porque não há especial estrelismo na atuação de Bruna Lombardi, nem dos diversos atores, famosos ou não, que trabalham com modéstia e talento nesse filme. Tudo, em “O Signo da Cidade”, acaba dando mais ou menos certo –há competência, graça, concisão. Mas falta... não sei bem o quê. Talvez grandeza, para um filme tão panorâmico; talvez um pouco de vazio, em filme tão cheio de eventos e personagens; talvez uma real tragédia, num filme tão repleto de tragédias, uma em cima das outras, como num prédio de apartamentos, sem espaço para ninguém adquirir tudo o que lhe reserva, não o destino, mas a condição humana.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h50

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Ilustrada de hoje

Ilustrada de hoje

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1710200725.htm

Vai aqui, para assinantes, o meu artigo de hoje na Ilustrada, sobre o documentário "Santiago",de João Moreira Salles. Gostei do filme, mas...

Escrito por Marcelo Coelho às 21h49

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Diários (2)

E, já que propaganda é a alma do negócio, vai aqui a introdução do livro.

Permita que me apresente. Eu me chamo Voltaire de Souza. Você pode ver pela foto que não sou criança. Muitos anos nas costas. Muita bordoada nas costas. Mas o passado é o passado. Já foi. Água que some no ralo do chuveiro. Cada página virada na folhinha é um tijolo na sepultura da memória.

            Este é o meu diário de trabalho. Aqui anoto minhas idéias. Meus projetos. E, sobretudo, as lições que a vida me dá.

Vida bandida.

Há vários anos escrevo histórias para um jornal paulistano. Comecei no “Notícias Populares”. Vulgarmente conhecido como NP. O cidadão chegava na banca e já dizia.

--Me vê um NP aí.

E o jornaleiro já sabia o que era.

--Daqueles que se espremer sai sangue.

Muito jornal importante, se espremer, não sai sangue. E daí? O sangue é sempre sinal de vida. Já tentou espremer uma múmia? Só sai areia,  osso em pó e farofa de esparadrapo. Farofa milenar.

Já escrevi milhares de histórias. Fatos do cotidiano. Casos de crime. Tragédias de amor. Histórias curtas. A última linha eu reservo sempre para uma moral. Um ensinamento. Aqui, neste livro, você vai saber como essas histórias nascem, vivem e vão para o papel.

            Dizem que o jornal só serve para embrulhar peixe no dia seguinte. Pode ser. Mas tudo progride. A tecnologia não pára. Peixe agora só se embrulha com plástico. E muita gente passou a ler jornal pela internet.

            O livro, entretanto, ainda é um produto que pode agradar o consumidor mais exigente. E embrulhar peixe com livro é bem mais difícil.

            Tem gente que usa páginas da Bíblia para fazer cigarro de maconha.

É um caso em que o barato sai caro. Quem não paga neste mundo, paga no outro.

Mas todo ser humano acaba encontrando a sua verdade. Aqui você encontrará as minhas. Meio espremidas que o tempo é curto.   

Boa leitura.

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 21h26

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Os Diários de Voltaire de Souza

Os Diários de Voltaire de Souza

Nesta quinta, a partir das 20h, ocorre o lançamento do livro “Diários”, de Voltaire de Souza. Vai ser no bar Barão da Itararé, na Peixoto Gomide, 155, esquina com rua Itararé, a duas quadras da Augusta.

 

Haverá leitura de algumas crônicas publicadas no jornal “Agora”, pelos atores Alexandre Magno (nos papéis, provavelmente, de um empresário e livreiro português e do famoso professor Pintassilgo), Fabio Marcoff (o estilista Kuko Jimenez), Fernanda Moura (a empresária Gisele), Roberto Alencar (o morador de rua Férgusson), Vanderlei Bernardino (o ex-petista Elpídio) e Ziza Brisola (a morena Gilvanka).

 

“Diários” faz parte de uma coleção dirigida por Heloisa Prieto para a editora Moderna, intitulada “Primeira Pessoa”. Não se trata de uma coletânea das histórias de Voltaire, mas de um relato em que o cronista fala de seu cotidiano e do seu processo de criação. Bastidores de uma redação de jornal (fictícia, é claro) e cenas da conturbada vida pessoal do jornalista se alternam com o “making of” de algumas crônicas. Só espero que os leitores se divirtam.

Escrito por Marcelo Coelho às 21h12

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cartas de Rilke

cartas de Rilke

cartas de Rilke

Para uma participação no programa “Entrelinhas”, da TV Cultura, estou lendo as Cartas do Poeta sobre a Vida, uma seleção de trechos da correspondência de Rainer Maria Rilke, organizada com muito cuidado pelo pesquisador Ulrich Baer para uma editora americana.

 

É um livro que se tem de ler aos poucos, uma vez que Rilke está nos falando de altitudes (ou profundezas) muito grandes; em geral, talvez seu pensamento seja uma espécie de nietzscheanismo sem corrosividade, ou seja, uma espécie de culto da grandeza individual e de contemplação estética do sofrimento, sem nada do desmistificador de Nietzsche. Rilke acredita, sobretudo, no Anjo que Diz Sim: “der Engel des Jasagens”. São penumbras; mas quem fala é um grande artista. 

 

Pois arte é infância. Arte significa saber que o mundo já existe, e fazer um. Não destruir nada do que se encontra, mas simplesmente não achar nada pronto. Nada mais que possibilidades. Nada mais que desejos. E, de repente, ser realização, ser verão, ser sol. Sem que se fale disso, involuntariamente. Nunca ser terminado. Nunca ter o sétimo dia. Nunca ver que tudo é bom. Insatisfação é juventude. Deus era muito velho no início, creio eu. Do contrário, ele não teria parado no fim da tarde do sexto dia. Nem no milésimo dia. Nem hoje ainda. Esse é todo o argumento que tenho contra ele. Que ele pôde se consumir. Que ele achou que seu livro tinha chegado ao fim com os homens, e então pôs de lado a pena e esperou para ver quantas edições teria. Que ele não foi artista, isso é tão triste. Que ele ainda não era artista.

 

* * *

 

Já muito cedo percebi que estava na essência de certas criações do espírito não se sentirem seguras o suficiente em nós e junto a nós; é, por assim dizer, sua própria propulsão que as ergue ou as transpõe para outra esfera superior onde elas, independentemente de nossa transitoriedade, têm chance de durar um tempo. Ocupa-me cada vez mais observar quão pura é a duração dessa obra de arte, pois ela cria a partir de si mesma o seu próprio espaço, que apenas ao olhar superficial parece idêntico à espacialidade pública, a qual evidentemente afirma ter tomado posse dessa nova coisa.

 

* * *

 

Religião é algo infinitamente simples, simplório. Não é conhecimento, nem conteúdo de nossas emoções (pois todos os conteúdos já foram acrescentados desde o início, onde quer que um ser humano se envolva com a vida). Não é dever, nem renúncia;não é limitação, mas, na perfeita vastidão do universo, ela é uma direção do coração. Assim como um ser humano anda e pode perder-se para a direita e para a esquerda, e tropeçar e cair e levantar-se, e cometer injustiça aqui e sofrer injustiça ali, e ser maltratado aqui e querer mal e maltratar e entender mal alhures, tudo isso se transfere para as grandes religiões e conserva e enriquece nelas o deus que é seu centro. E o homem, ainda vivendo na periferia extrema de tal círculo, pertence a esse centro poderoso ainda que tenha voltado o semblante para ele apenas uma vez, às vésperas da morte. Que o árabe em determinadas horas se volte para o Oriente e se prostre, isso é religião. Dificilmente é “fé”. Não tem um contrário. É um movimento natural dentro de uma existência pela qual o vento de Deus desliza três vezes por dia se somos pelo menos isto: flexíveis.

 

 Rainer-Maria Rilke (1875-1926)

Escrito por Marcelo Coelho às 15h56

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"Tropa de Elite" e seus críticos

"Tropa de Elite" e seus críticos

Laymert Garcia dos Santos escreveu no Mais! deste domingo um artigo criticando “Tropa de Elite”, filme que já comentei neste blog. Interessante que os dois principais argumentos de seu texto digam respeito ao personagem André, um jovem negro que estuda Direito, tem um perfil intelectual, e termina impregnado pela mentalidade fascista do Bope, onde irá substituir o narrador do filme, o capitão Nascimento.

 

Laymert acha que o filme de José Padilha desqualifica o pensamento de autores como Foucault e Deleuze, que ajudariam a compreender as relações de poder e dominação. Ele se refere a uma cena de “Tropa de Elite” em que André, numa aula da faculdade, é objeto de sarcasmo de todo o resto da classe ao defender a polícia.

 

A cena do filme é muito boa e verdadeira, a meu ver, porque desmascara as nossas armas no exercício do poder da humilhação e do desprezo. Fica mais forte (e óbvia) porque um negro é objeto da violência simbólica. Quem sabe não estaria aí uma das raízes do processo que levará o personagem a se tornar um policial assassino? As teorias de Foucault não são, a meu ver, desqualificadas no filme. Ao contrário, “Tropa de Elite” ajuda a ver, em nós mesmos, intelectuais e estudantes, o modo como funcionam –como elogio do óbvio, como instrumento de distinção social, como forma de exercer o poder de uma pequena maioria sobre um indivíduo isolado...

 

Mais adiante no artigo, Laymert considera que a ascensão de André –escolhido entre uma centena de candidatos para fazer parte da “tropa de elite” é uma história de sucesso, fortalecendo uma óptica darwinista na qual “os melhores” sobrevivem: “não é à toa que o herdeiro de Nascimento no batalhão é o negro pobre, inteligente, mas que ‘chega lá’”.

 

É a tal história: cada um viu um filme na sua cabeça. Vi todo o processo de seleção de André não como uma história de sucesso, da qual o espectador do filme tira contentamento, mas como uma história extremamente infeliz. Ele era uma pessoa civilizada, de bons sentimentos, que termina sendo brutalizado pelo sistema de seleção em que se dispôs a entrar. Como escrevi no post sobre o filme, isso me parece até uma falha do filme, pois não acompanhamos “de dentro” a transformação do personagem. Mas concluir que isso é um happy end, francamente, me parece um exagero de Laymert.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h04

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voltaire de souza

Abaixo, a coluna de sexta passada, que não lembrei de linkar.

 

MUITO COMPROMETEDOR

 

Denúncias. Escândalos. A mídia não pára.

Birbantino Bicalho era um experiente parlamentar.

--Não é possível. É uma bomba.

Ele mostrava a matéria de uma revista para seus colegas.

--Você acredita no que estão mostrando aqui?

O grupo discutia em alto grau de exaltação.

--Inverídico. O material é absolutamente inverídico.

--Está tudo distorcido. A realidade é outra.

--Mesmo assim... é de deixar boquiaberto.

--Calma, pessoal... vamos manter a cabeça fria.

--Os detalhes ainda não foram revelados.

--Mas não dá para tapar os olhos diante do que está exposto.

--Concordo. Mas não é caso para o Conselho de Ética.

--Afinal, todo mundo sempre quis tirar sua casquinha...

Um sinal tocou. Avisando que a sessão em plenário ia começar.

A revista com as fotos de Mônica Veloso foi engavetada.

--Vamos, gente, que temos alguns colegas para absolver.

Revistas eróticas, como a política, nem sempre zelam pelos bons costumes.

Mas há sem-vergonhices que nenhuma maquiagem é capaz de embelezar.

 

  

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h29

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Doutores da Alegria

Doutores da Alegria

As crianças riem bastante, e não poucas vezes os adultos também se surpreendem achando graça em alguma palhaçada. Não falta talento aos profissionais do “Doutores da Alegria”, que estão no Sesc Pompéia com os “Poemas Esparadrápicos” de José Paulo Paes. Os textos, curtíssimos, ganham músicas de fácil assimilação, e se consegue dar substância teatral a cada número.

 

Mas o espetáculo tem problemas sérios de direção. Fui ver no dia 12, e tive a sensação de que cada número se prolongava além da conta, de que havia intervalos “vazios” entre as cenas, e que o próprio início do espetáculo era mal sinalizado –como se tentasse começar várias vezes antes de começar de fato. O resultado é que tudo ficou muito comprido, podendo cansar os menorzinhos no público. Como o horário é 12 horas, recomendo que todos almocem antes.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h24

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Brasil: identidade em construção (4)

Brasil: identidade em construção (4)

Brasil: identidade em construção (4)

Brasil: identidade em construção (4)

Brasil: identidade em construção (4)

Para concluir sobre a questão da identidade nacional brasileira, que discuti em outros posts. Participei de um debate com o brazilianista Ludwig Lauerhass, que organizou um livro sobre o assunto, recém-editado pela Ática.

 

Ele afirma, como em geral costumam fazer os estrangeiros, que o Brasil tem uma identidade característica, e que é a esta altura uma nação forte e consolidada. Entretanto, muitos brasileiros, penso eu, ainda têm problemas com o assunto; não se sentem, ou não gostam de se sentir, totalmente brasileiros. Lembrei o célebre início de Raízes do Brasil, em que Sérgio Buarque de Hollanda diz que “somos exilados em nossa própria terra”.

 

Creio que o problema tem causas bastante evidentes. É muito difícil falar em identidade num país em que as diferenças sociais são extremas. Nada mais comum do que nos referirmos aos “brasileiros” como uma espécie de entidade externa a nós mesmos, da elite: há “eles” e “nós”.

 

Enquanto isso, parece razoável acreditar, como alguns ensaios do próprio livro sugerem, que toda identidade nacional surge a partir de uma oposição com outros povos, outras culturas. Os Estados Unidos, ainda que múltiplos culturalmente, se diferenciaram da Inglaterra a partir de uma ruptura, de uma revolução. A França fez a sua revolução e, ao mesmo tempo, envolveu-se em guerras de afirmação nacional contra seus próprios nobres e os países a eles coligados, Áustria, Inglaterra, etc.

 

Não que eu queira guerras e revoluções. Mas esse passado conta. Nossa ruptura com Portugal foi mínima, com a manutenção da casa de Bragança no poder. Tanto que uma das nossas mais arraigadas formas de afirmar a identidade nacional termina sendo a velha piada de português. Hoje substituída pela piada de argentino. Não me lembro de outro tipo de afirmação de identidade nacional “em oposição” a qualquer outra cultura.

 

Na verdade, se há de fato um “problema” na identidade nacional brasileira (José Mindlin, que participou também do debate, acha que não), minha hipótese é que não se conseguiu, ao longo da história, definir o pólo de oposição, aquilo que é o “não-brasileiro” na nossa identidade.

 

Lendo o livro de Lauerhass, ocorreu-me o seguinte: houve, desde 1500, várias tentativas de fazer isso: de definir “o outro” de nós mesmos. Essas tentativas, entretanto, foram frustradas –felizmente, aliás.

 

A primeira tentativa veio com as caravelas, e está bem documentada nas ilustrações sobre canibalismo que constam do livro, reproduzidas, por exemplo, dos relatos de Hans Staden. “Eles”, nessa construção, são os índios, canibais, selvagens, etc. Mas essa alteridade terminou se dissolvendo pelo extermínio e pela miscigenação.

 

Miscigenação, mestiçagem, aliás, que constam no discurso corrente como eufemismos para estupro.

 

Considerar os negros como “outros” da identidade brasileira também foi tentado –e como! Principalmente através da política de imigração no Império e nos tempos áureos da “elite branca”, a saber, a República Velha. Mas aí as contradições não tinham como não vir à tona. Durante a escravidão, o “outro” tinha de ser antes ignorado do que tratado como inimigo; nenhum escravocrata seria capaz de propor o genocídio dos descendentes de africanos, para daí ficar sem mão de obra. O negro tinha de ser um “diferente invisível”, não um “oposto” para fins de afirmação nacional. Uma contingência desagradável, não um elemento a ser eliminado.

 

Com a abolição da escravidão e do Império, a República Velha acreditou numa afirmação “branca” do Brasil: o país civilizado e europeu das reformas urbanas de Rodrigues Alves, e da Campanha de Canudos também. Um dos melhores ensaios do livro de Lauerhass mostra de que modo a obra de Euclides da Cunha encarna a frustração dessa tentativa. Euclides da Cunha foi para Canudos imaginando um confronto entre a “nossa” civilização e a barbárie “deles”. Mas suas idéias mudaram no meio do processo, e o enfoque mais realista que deu à guerra terminou dissolvendo a construção de uma identidade nacional a partir desse modelo.

 

Os autores da “miscigenação”, tipo Gilberto Freyre e seguidores, surgem na crise da República Velha como sintomas do impasse político desse modelo “branco”. São críticos do modelo, constroem uma nova forma de “ser brasileiro”, mestiço, etc. Mas evidentemente negam com isso as diferenças reais entre uma elite que continuava branca e um povo que já se diferenciava muito; o propósito era ideológico não apenas em função das óbvias realidades da diferença social entre brancos e não-brancos, mas também em função de um projeto de unificação nacional, que se impunha construir com Vargas, diminuindo as tendências de autonomia dos diversos Estados da federação. Novamente, a identidade nacional veio à tona, como idéia, mas sem ter um “outro” ao qual se opor. Ficou-se na repetição, que dura até hoje, de um “nós” idílico, que entre quatro paredes vira um “eles”, no qual cada um se reconhece quando lhe convém. Quando, por exemplo, o jeitinho é a nosso favor.

 

 Hans Staden e os "menschenfresserleuten"

Escrito por Marcelo Coelho às 17h54

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Elite da Tropa

Elite da Tropa

Elite da Tropa

Elite da Tropa

 

Ops! Tropa de Elite. Vivo me confundindo. O nome do livro de Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel (editora Objetiva) é Elite da Tropa. O filme se chama "Tropa de Elite". Troco elite por tropa e vice-versa.

No artigo de hoje para a Ilustrada, falei do filme de José Padilha, com um pouco de medo de chover no molhado. Em todo caso, a julgar pela entrevista do diretor no programa "Roda Viva", as desconfianças em torno de "Tropa de Elite da Tropa" são generalizadas. Não há como pensar que o diretor fosse favorável à tortura, e ele próprio se espantou quando lhe perguntaram o que faria, se fosse um juiz de direito, ao ter de decidir a pena a ser aplicada ao protagonista do filme, o angustiado e assassino capitão Nascimento. "Eu o condenaria a trinta anos de prisão, claro!", exclamou José Padilha. Aparentemente, as pessoas não ficam satisfeitas quando o próprio filme não providencia essa punição.

Mas aí justamente está uma opção estética de "Tropa de Elite": não quis ser edificante, nem mostrar os bons salvos e os malvados punidos. Mesmo porque não há ninguém bom na história, exceto a militante de uma ONG, cujos bons sentimentos não ajudam em nada a situação.

O ponto em que o filme talvez resvale para o moralismo, ou, pelo menos, o ponto em que determinada opinião não chega a ser questionada pelos fatos, é a condenação ao consumo de drogas. Na fala do capitão Nascimento, todos os crimes que ele próprio e o tráfico cometem encontram sua origem nos garotos bem-educados, universitários, foucaultianos e militantes dos direitos humanos que consomem sua maconha e sua cocaína à vontade. Essa fala de Nascimento não é questionada na trama do filme. Sem dúvida, os espectadores universitários se encarregam de contestá-la por si mesmos. Mas o preço a ser pago pelo filme está nessa espécie de transferência de culpa: se "Tropa de Elite" me condena, não posso entender porque não condene com mais vigor os policiais. Como não trata de condená-los com um final moralista, as pessoas tomam o moralismo a seu próprio encargo, exigindo do filme uma atitude que seria esteticamente mais fraca.

Há outro ponto nas acusações de que o filme é "fascista". Creio que muitas pessoas se horrorizam tanto com o que é mostrado na tela, que têm de dirigir sua raiva contra algum lugar, e então atacam o diretor.

Por outro lado, houve sem dúvida gente que gostou de ver bandido sendo morto e torturado. Padilha se defende, dizendo que essas pessoas seriam fascistas de qualquer jeito. E que, aliás, não foram tantas assim: muitos dos gritos de júbilo que se ouviram na noite da pré-estréia, inclusive os brados de guerra do próprio Batalhão de Operações Policiais Especiais ("Caveira! Caveira!") provinham de atores e outros membros da equipe de filmagem, que por brincadeira adotavam o lema dos policiais de farda preta.

Muito bem: mas seria interessante se o filme também inoculasse dúvida na mente de um ou outro fascista... Creio que isso é difícil de ocorrer, mas sem dúvida "Tropa de Elite" condena a violência policial, sem condenar, entretanto, os personagens que a praticam.

Do ponto de vista do roteiro, achei a história muito bem construída, e cheia de ironias ocultas. Falei no artigo a respeito da iniciativa, muito meritória, de dar um par de óculos novos a um menino favelado --e dos problemas que isso acarreta. Outra ironia é o fato de todo o drama ter início a partir de uma idéia do Papa João Paulo 2o. Em sua visita ao Brasil, em 1997, ele quis dormir na residência oficial do arcebispo do Rio, cercada de morros sob domínio de traficantes. É assim que o Batalhão se vê convocado a agir: para garantir o sono do papa... A beleza objetiva dessa situação, desencadeando todo o enredo, é um grande acerto do filme.

O que me parece menos convincente é o papel do aspirante André, que, como disse Padilha, é o verdadeiro protagonista da história. André é um rapaz negro, estudante de Direito, corretíssimo, brilhante, que funciona como um elo entre o mundo dos policiais e o da classe média a favor das ongs e dos direitos humanos. Ao longo do filme, ele terá de decidir entre o fascismo e as teorias de Michel Foucault; entre o capitão Nascimento e a bela namorada militante da paz e tolerante com o tráfico.

A rigor, situações dessas podem de fato acontecer na realidade, mas a construção e o dilema do personagem teriam de ser muito mais desenvolvidos para se tornarem convincentes. Ocorre que, se Padilha fizesse isso, teríamos um filme muito convencional, na estrutura bem hollywoodiana do dilema individual que predomina sobre um drama coletivo muito maior. A solução foi deixar esse drama em segundo plano, centrando a narração e a maior parte das cenas na figura do capitão Nascimento.

Houve então outro preço a pagar: como estamos acostumados a ver o narrador como protagonista, como estamos acostumados a confundir o foco da história com o dilema individual e ético do "herói", acreditou-se que Nascimento era o herói do filme. Não era; mas o outro herói do filme, o aspirante André, também não poderia ser herói. "Tropa de Elite" não tem heróis, ao contrário do malandro-simpático-honesto narrador de "Cidade de Deus". Contudo, sobrou ainda um pouco de focalização "individualista" no personagem de André, que fica como uma espécie de "anjo caído" na narrativa; falta interiorizar mais o seu ponto de vista, e ao mesmo tempo, se isso fosse feito, o filme perderia o que tem de melhor, sua recusa em promover identificações hollywoodianas entre público e personagem. De alguma forma, para ser mais frio e realista, o filme teve de perder em verossimilhança no caso desse personagem. Sem dúvida, André é o melhor ator do filme, e ao mesmo tempo seu elo mais fraco.   

 O diretor José Padilha

Escrito por Marcelo Coelho às 23h07

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O genocídio no cinema

Depois de A Lista de Schindler, de A Vida é Bela, de O Pianista, parece interminável a série de filmes sobre o genocídio dos judeus no regime nazista. Saiu há pouco na França um livro comentando o modo com que o cinema tratou o Holocausto, de 1945 a 1985.

 

A pesquisadora e documentarista Claudine Drame, em Des films pour le dire- Reflets de la Shoah au cinéma, 1945-1985, chegou a números surpreendentes.

 

Sabe quantos filmes, de 1945 a 1960, trataram do genocídio? Apenas cinco –em todos os países do mundo. Na década de 60, somente sete. E mesmo Nuit et Brouillard, de Alain Resnais, o mais famoso filme sobre campos de extermínio antes da minissérie televisiva “Holocausto”, de 1979, só usa a palavra “judeus” uma vez. Vi recentemente o documentário de Resnais, importante na época, mas é impressionante como se dá pouco destaque ao anti-semitismo nazista. Talvez ainda houvesse medo de apresentar ao público um filme que "só dizia respeito a judeus"... O anti-semitismo no pós-guerra tinha, por estranho que pareça, muitos focos no Ocidente --para nada falar do que acontecia no bloco estalinista. As gerações que já eram adultas antes de 1945 viviam num caldo de cultura que, afinal, foi o mesmo que permitiu o próprio nazismo... 

 

Pode-se reclamar de Spielberg o quanto se queira, mas A Lista de Schindler tem lugar na história do cinema, ao menos por essa razão.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h25

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temporalidade e infância (2)

temporalidade e infância (2)

Há uma passagem célebre do filósofo Henri Bergson, em que ele imagina uma situação muito clara. Não a cito ipsis litteris, mas ele diz mais ou menos assim:

 

Estou estudando uma lição (podemos imaginar que é um texto que ele tem de decorar, como havia nas escolas antigamente). Leio a passagem uma vez, duas, três, e aos poucos algumas seqüências de palavras vão se cristalizando na memória, vão surgindo automaticamente, eu leio mais vezes, fico capaz de reproduzir o texto inteiro na cabeça, depois de umas dez ou vinte leituras. No dia seguinte, na aula, eu falo o texto em voz alta, eu me lembro dele, eu o sei de cor.

 

Pois bem, agora eu trato de rememorar como foi a tarde em que decorei esse texto. Lembro-me, por exemplo, que da terceira vez que eu li o texto alguém tocou a campainha; que em determinado trecho eu tive muita dificuldade para decorar; que eu comecei decorando o primeiro parágrafo, que aí começou a chover, que eu tomei um café em seguida... e assim por diante. Eu lembro, portanto, do que se passou naquelas horas; lembro, também, do texto decorado. Mas alguém diria que essas duas memórias são a mesma coisa?

 

Num caso, houve o treino, o exercício, a repetição, e me dou por satisfeito se chego a reproduzir o texto igual em minha mente. No outro caso, os acontecimentos foram passando, e se fixaram, mais ou menos, na minha memória; posso trazê-los de volta à minha consciência, e tenho consciência de que aqueles fatos se deram num fluxo de tempo. Essa é a memória do vivido, enquanto o texto é, por assim dizer, a memória do aprendido, do hábito mental que conseguimos adquirir para decorá-lo.

 

Pois bem, agora eu falo da minha experiência de pai, pensando nesses dois conceitos de memória apresentados por Bergson.  Imagino que a vida de uma criança pequena se assemelhe um pouco à do estudante que tem de decorar a lição, mas é como se tivesse diante de si uma “lição” enorme, de quinhentas páginas, e que tem de lê-la inteiramente antes de voltar para ler uma segunda vez, e ler quinhentas páginas de novo até ler a terceira vez, etc... Esse livro de quinhentas páginas tem, na verdade, a duração de um dia. Durante esse dia, várias “palavras” se repetem, vários movimentos têm de ser refeitos, várias situações são parecidas, mas em meio a tal quantidade de informações, diferenças, novidades, que a aquisição de qualquer hábito –por exemplo, o da linguagem, ou o de andar, se vestir, etc., se perde e se mistura com a qualidade extremamente intensa de tudo o que está em curso.

 

A criança, podemos dizer, está mergulhada inteiramente no fluxo do “vivido”, e demora muito para sair desse fluxo: sair desse fluxo é aquilo a que chamamos aprendizado, aquele treino, por tentativa e erro, de andar, de falar, de dizer “obrigado”, de ir ao banheiro... sem dúvida, há qualidades muito diferentes nessas diferentes coisas que uma criança adquire. Mas eu vejo os grandes esforços que os pais têm de ter, a imposição dificílima de uma série de repetições, para que a criança por fim saiba “de cor” a sua lição. Estamos como se tivéssemos um livro de ensinamentos, de regras básicas, que temos de impor a um aluno que está completamente entregue à experiência casual, da campainha que toca, da chuva que começou a cair, etc.,.

 

Sou levado a imaginar que a criança pequena, entregue a esse fluxo de acontecimentos e sensações que não reconhece inteiramente, que vive essa experiência em que tanto o que acontece com ela mesma quanto o que acontece fora dela constituem, por assim dizer, um espetáculo ininterrupto, está experimentando a vida do mesmo modo que Funes “rememorava” aquela tarde de nuvens [ver o post anterior]: ou seja, a criança estaria sonhando a vida –sonhos bons ou ruins, é claro— e é por isso, justamente, que não nos lembramos dos primeiros anos da infância.

 

Por sorte, entretanto, os pais conseguem impor algumas regras para as crianças pequenas, e talvez seja interessante contar certas experiências que tive com meus filhos. Acho que os períodos em que meus filhos estavam mais impacientes, birrentos, fazendo escândalo por qualquer coisinha, de cinco em cinco minutos, foram os que antecederam alguma grande conquista, seja na linguagem, seja no controle das necessidades fisiológicas, seja na própria percepção do tempo.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h24

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temporalidade e infância

temporalidade e infância

Ponho aqui um trecho da palestra que dei no Sedes Sapientiae, sobre minhas experiências como pai, e as relações entre o tempo nosso e o das crianças.

Muitas pessoas que têm filhos mais velhos, adolescentes ou já adultos, costumam me dizer: “aproveite, porque passa tão rápido...” Provavelmente eu também vou achar isso daqui a uns quinze anos. Mas a minha sensação, atualmente, é que não passa tão rápido assim. Tenho a lembrança clara, por exemplo, das dificuldades que é fazer uma criança adormecer. Daqueles longos passeios de carrinho, às vezes dentro do apartamento mesmo, na esperança de que o bebê dormisse, e nada... Das viagens intermináveis para o litoral, com um ou dois meninos agitadíssimos, incapazes de se sentar na cadeirinha com o cinto de segurança, pedindo colo ou se jogando no assoalho do carro.

 

Sei que nada disso passou rapidamente. Sei, agora, que passou –e isso é o bastante...

 

Mas é natural que a gente se espante com essa “rapidez” desses tempos de cuidar de criança pequena. Por várias razões, eu acho. A primeira é que o desenvolvimento da criança, ao contrário do nosso, é de fato muito intenso, e a criança aprende muitas coisas em três ou quatro anos. Na nossa vida adulta, quatro anos não costumam trazer mudanças relevantes; os quatro primeiros anos da vida trazem, claro, um acúmulo de desenvolvimento e de aprendizado gigantesco. É a quantidade de coisas concentrada no tempo, quando o vemos de fora, que é muito grande. Mas não a velocidade do tempo quando o vemos de dentro.

 

Uma segunda razão para acharmos que “tudo passa rápido” é que, depois que tudo passou, o que temos em nossa mente não é mais a experiência concreta, mas a memória de alguns fatos, situações, sensações. E a memória, na verdade, é uma operação mental que se dá no plano do simultâneo, não do tempo vivido; sua linguagem é a de um quadro mental, de uma imagem, mas não de um percurso lento, que transcorre em meio a grandes períodos de “vazio”, de espera, de “não-acontecimento”.

 

Creio que é esse paradoxo que está por trás do conto muito conhecido de Borges, “Funes o Memorioso”, em que se fala de um personagem incapaz de esquecer qualquer coisa, que tinha a memória de todos os mais insignificantes detalhes da própria vida. Borges diz, por exemplo, que Funes era capaz de se lembrar de todas as minúsculas transformações das nuvens que passam pelo céu numa tarde. E completa: a rememoração dessa tarde ocupou uma tarde inteira de Funes. Certamente, estamos aqui diante de um paradoxo, porque uma mente que fosse capaz de reencenar todas as variações das nuvens na memória teria de fazer, além disso, mais uma coisa: saber que está se lembrando daquelas nuvens, prolongar voluntariamente a sua experiência de rememoração. Haveria um vaivém entre a atenção dada a si mesmo (estou me lembrando, foi exatamente assim, vamos continuar mais um pouquinho...) e a atenção dada à “cena” rememorada. Penso que, a cada mudança de foco no seu pensamento, Funes estaria interrompendo o processo contínuo de sua rememoração. Estaria vendo uma seqüência, muito grande, sem dúvida, de “fotos” daquelas nuvens, mas não estaria vendo um “filme” com a duração exata do processo. Se estivesse vendo imaginariamente o filme daquela tarde, não diríamos que ele está se lembrando daquela tarde: e sim que está sonhando aquela tarde; sem consciência de cada um dos momentos de sua rememoração; para ver a tarde de novo, ele teria de se esquecer de quem é, do ato voluntário de sua memória; e, depois de despertar desse sonho, Funes não teria, justo ele, como se lembrar de que  foi ele que sonhou. Uma memória consciente seria, então, necessariamente fragmentada, e não contínua. Recupera o tempo, mas o vê parado, de fora, não o vive de dentro...

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h19

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Reborn babies

Alguns leitores estranharam o tema do artigo de quarta-feira passada, sobre a chamada "arte reborn". São bonecos de bebês absolutamente realistas, e o interessado pode mandar fazer um com as próprias feições. O assunto pode ser exótico, mas vendo as fotos talvez se justifique melhor o comentário que quis fazer. Veja e acredite se quiser.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h07

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voltaire de souza

Publico algumas colunas da semana passada, porque não deu para postar o link. Aqui vão duas.

 

 

TROPA DE ELITE

 

 

Charme. Nobreza. Glamour.

O restaurante francês La Chochotte ia inaugurar sua nova sede.

O chefe Pierre explicava o conceito do lugar.

--Exclusividáád. Muita exclusividááád.

Um grupo seleto de famosos iria provar as criações culinárias de Pierre.

--Prrimêerr, um bolinhe de mandióóc... béin simplezinhe...

Ele dava um sorriso de conhecedor.

--Purra comíd de botequinhe.

Havia fila para entrar. Um rapaz moreno foi dando empurrões.

--Chegou a vez da perifa. Chegou a vez duzmano.

Pierre pediu calma. O banqueiro J. P. do Prado se revoltou.

--Até aqui dentro a gente tem de ouvir ideologias ultrapassadas?

Empurrou o morenão. Outros membros da elite o auxiliaram.

--Fora. Não é lugar de protesto. Não vem ao caso.

Só mais tarde o caso foi esclarecido. O rapaz não era da periferia.

Era um ator global famoso por retratar a realidade de nossas favelas.

Os convidados de Pierre pedem desculpas. Dizendo não conhecer a society do Rio.

Elites são refinadas. Mas quando a comida é boa, torna-se difícil sossegar a tropa.

(4/10/2007)

 

 

DESEJO DE CRIANÇA

 

No Dia das Crianças, os brinquedos tradicionais também têm vez.

O sonho de Mateus era ganhar um carrinho de bombeiros.

--Compra, mamãe, compra.

A mãe de Mateus se chamava Eliana. Não parava em casa. Dois empregos.

--Pede para o seu pai. Que fica em casa sem fazer nada...

De fato, Guaracy estava desempregado.

Eliana abriu a bolsa e deu as ordens.

--Vai até o shopping. Compra o carrinho. E vê se volta logo.

O hábito de Guaracy era dar uma esticadinha no bar.

Eram duas da manhã quando ele voltou para casa.

Sem o desejado presente.

Estremunhada, Eliana não teve ânimo para dar bronca.

--Se quiser comer, esquenta a janta no forno.

O cigarro. O forno. O sono alcoólico.

Guaracy despertou com sirenes. E o incêndio na cozinha.

Foi retirado ainda consciente da sala de estar. E recebeu o beijo carinhoso de Mateus.

--Um carro de bombeiros de verdade... Papai, você é o melhor pai do mundo.

Por vezes, nenhuma água fria apaga os extremos do amor filial.

(8/10/2007)

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 13h31

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Cenas de Paris, 68

Resolvi assinar, até por causa deste blog, mas também para contrabalançar a influência inglesa do TLS, o “Nouvel Observateur”, semanário de esquerda francês. Lembro-me de sua parcialidade em 1981, quando tudo estava pronto para a vitória da coalizão socialista de Mitterrand, e a revista saiu com um número intitulado “Votre Vie Après le 21 Mars”, onde ficcionalizava, conforme as diferentes classes e sub-classes da sociedade francesa, um futuro, quando não radioso, pelo menos suportável e edificante.

 

O “nouvel-obs” entrou naturalmente em parafuso com a vitória de Sarkozy, se é que não estava em parafuso antes disso. Abriu-se um processo interminável entre os socialistas para saber “onde erramos”, o que temos de fazer, etc., mas é como se o discurso estivesse tão esgotado que as autocríticas são tão mornas e vagas quanto o que se dizia antes da derrota. 

 

Em todo caso, os assinantes da revista ganharam um prêmio, que mercadologicamente já visa ao ano de 2008. A saber, um extenso documentário, sem narrativa ou interpretação, de William Klein, sobre Maio de 68: "Grands soirs, petits matins".

 

São cenas de um desentendimento danado, e de uma liberdade danada. Os militantes (poucos usam barba) estão nas ruas. Mas também nas ruas estão burgueses e trabalhadores comuns, que interpelam os estudantes. Vejo um senhor de seus cinqüenta anos, pulôver debaixo do paletó e gravata, cigarro pendendo do canto dos lábios, enfim, um francês típico dizendo: “mais enfin, la bagarre, ça sert à rien”.

 

A bagunça não leva a nada. Os estudantes discutem com ele. Bonito, na cena, é a confiança na discussão democrática. Se havia enorme autoritarismo em muitos  agrupamentos militantes, leninistas, maoístas etc., predomina também um espírito de democracia notável em alguns momentos. Numa assembléia do Teatro do Odéon, um homem ainda jovem toma a palavra. Tenho dificuldades em entender o que ele diz, mas de modo geral ele critica o movimento, e simultaneamente fala mal do PC (que não participava do “gauchismo” generalizado); há comentários paralelos, vaias, aplausos, bastante respeito, até que o homem lembra de sua militância juvenil, que não “serviu de nada”, e começa a chorar. Trata-se, não de um estudante, mas de um garçom de “brasserie”, que trabalha ali perto.

 

Comia-se, bebia-se e respirava-se política. Duas figuras que aparecem de forma extremamente simpática são os líderes do movimento 22 de março, Daniel Cohn-Bendit e Alain Geismar. Eles têm um bom-humor e uma humanidade que falta aos tipos revolucionários mais “duros”. Alguém começa a falar coisas incorretas numa assembléia, e é vaiado; Cohn Bendit é quem pede que todos escutem em silêncio, assegurando liberdade ao orador. Geismar, num programa de rádio, debate com líderes de outras facções. Um deles considera que a importância de Maio de 68 está na formação de uma “nova vanguarda revolucionária”, e vai de leninismo em punho. Geismar diz que seu cotidiano está enlouquecido, porque ele tem uma reunião às 15h, um comitê de não sei-o-quê às 16h, uma manifestação às 17h, e que isso não tem como continuar.

 

Há cenas “bonitinhas”. No meio de uma reunião de militantes, toca o telefone. A revolucionária atende, e começa a conversar num tom de voz respeitoso. “Fique calma, Madame... fulaninho não está aqui no momento, mas tem vindo sempre aqui, quando ele voltar eu peço para ele ligar para a senhora...” É a mãe de um estudante, querendo notícias do filho que já não aparece mais em casa.

 

A ingenuidade é visível em muitos pontos. Discute-se a revolução; alguém diz: mas antes é preciso mudar o ser humano... A frase poderia ser dita por qualquer conservador hoje em dia. Ali, entretanto, parece ultra-radical.

 

Quem quiser saber a razão das coisas, o contexto de tudo aquilo, não fica com a menor idéia se depender desse documentário de William Klein. Mas ali estão as cenas como aconteciam; e, talvez, como muita gente que passava pelas ruas deve tê-las vivido, em estado de estupefação e desentendimento. 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h17

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O rei do pão de queijo

O rei do pão de queijo

Por falar em Ribeirão Preto, vai aqui um daqueles cartazes populares que costumo fotografar, de uma lanchonete perto do hotel.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h07

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Estranhezas em Ribeirão

Estive em Ribeirão Preto nesta semana, para uma Feira do Livro que ocupa a praça principal do centro da cidade; o que é pena, porque desaparece a visão dos edifícios antigos que existem ali: o Teatro Pedro II e a não menos vetusta cervejaria Pingüim, fundada em 1934. Conserva o ar de bar antigo, com cristais, ladrilhos e madeiras.

 

Madeira é a primeira coisa que desaparece em todo lugar que se quer moderno: vira plástico, aço, vidro temperado, qualquer coisa que possa ser limpa rapidamente, como num hospital, e de certo modo é como se também as pessoas devessem ser tiradas do lugar a golpes de perfex e detergente.  

 

Em todo caso, não fui ao Pingüim: levaram-me para almoçar num restaurante bem mais distante do centro, com fogão a lenha, deserto no calor da uma da tarde. Deserto, não: havia uma mesa ocupada por um grupo de cinco ou seis pessoas, dentre as quais o ex-jogador Sócrates, sem dúvida uma das maiores celebridades de Ribeirão Preto.

 

E é isso o que me deixa espantado. Esqueço, para comodidade de raciocínio, a figura de Palocci. Ribeirão Preto é grande, mas de repente parecia ter uma única porta, uma única janela, que, ao se abrirem, mostram seu habitante mais famoso: Sócrates. Deu-me a impressão de que, se eu tivesse ido a um outro lugar qualquer, Sócrates também estaria lá. Talvez existam sósias dele espalhados por toda Ribeirão. Talvez muitos habitantes de Ribeirão, do sexo masculino e por volta dos cinqüenta anos, se pareçam com Sócrates.

 

Eis uma alucinação que acomete todo turista: a da tipicidade. Sei com certeza que alemães não passam o dia todo comendo salsicha. Mas quem vai a qualquer cidade alemã comprova: eles passam o dia todo comendo salsicha. O “típico” está sempre a nos chamar a atenção, como se posto de propósito para ser encontrado pelos turistas. É por isso, provavelmente, que existem turistas. 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h09

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Votos e partidos

Só agora assisto pela TV uma parte da sessão “histórica” do STF sobre fidelidade partidária. Paulo Brossard, em boa forma, e Roberto Freire apresentam a tese, agora já consagrada como se fosse uma verdade constitucional absoluta, de que “o mandato pertence ao partido” e que, portanto, um partido tem direito a exigir de volta, para si, a vaga do parlamentar que o abandonou. Logo, os trânsfugas perdem o mandato, se a legenda que os elegeu assim o exigir.

 

Mas imagino a seguinte situação: o partido X conseguiu eleger dez deputados federais. E todos resolvem sair do partido. O partido X então requer que esses dez deputados percam seu mandato, e põe dez suplentes no lugar. “É direito do partido!” dirão os que concordam com Brossard. Os dez suplentes tiveram, suponhamos, 10% do total de votos do partido naquela eleição. Teríamos uma situação em que, com dez vezes menos expressividade eleitoral, o partido mantém a mesma bancada de antes.

 

Parece-me claro que não foi o partido quem obteve a votação que o fez conquistar dez cargos, e sim a chapa do partido, composta dos deputados Fulano, Sicrano e Beltrano, quem obteve aquele resultado, com a ajuda de uns esparsos votos somente na legenda. Estes deputados, ao abandonar o partido, estão levando consigo, pelo menos, os votos que receberam nominalmente do eleitor. Brossard diz que quando vão embora do partido, levam uma “trouxa” que não lhes pertence.

 

Mas podemos perfeitamente dizer que, quando vão embora do partido, este também ganha uma “trouxa” que não lhe pertencia. É o caso do PTC, que reivindicará as centenas de milhares de votos em Clodovil Hernandes. Alguém pode sustentar em são consciência que os votos pertencem ao partido, e não ao candidato, nesse caso?

 

Há uma enorme euforia em torno da decisão do STF, mas não acho que traga mais autenticidade ao sistema eleitoral do que a que já se tem, aliás muito pequena no caso dos cargos proporcionais.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h47

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São Paulo, antes e depois (2)

Ainda sobre fotos antigas de São Paulo, o grande acontecimento é a publicação, pela CosacNaify, de um grande livro de fotos de B.J. Duarte, fotógrafo que começou a trabalhar na prefeitura em 1939, a convite de Mário de Andrade, então chefe do departamento de cultura. O mais bonito de seu trabalho está na fase inicial, quando registrou a criação, por Mário de Andrade, dos primeiros jardins de infância municipais e das bibliotecas circulantes e infantis. Por mais que pudessem ser "propagandísticas" aquelas fotos, com crianças fazendo ginástica ou mexendo com brinquedos educativos, a beleza das cenas, a alegria das crianças, é maravilhosa. Bem melhor do que o "propagandístico" posterior, quando B.J. Duarte tinha de retratar as obras de Adhemar de Barros. Mas é claro que, com o tempo, o aspecto político desaparece para o leitor, que acompanha o que há de documental, e mesmo de pungente, nas fotos. No início, aliás, o objetivo era muito pouco "oficialista": B. J. Duarte tirou fotos de cortiços, por exemplo. Assinantes da Folha Online podem acessar aqui uma seleção de suas fotos, que também estão em exposição na UOL Busca Galeria Olido. Abaixo, duas fotos da seleção.

A avenida Rebouças, em abril de 1939. Espanta não apenas o vazio, mas a limpeza da rua.

Aluno no Parque Infantil do Ipiranga, 1937. Interessante pensar que, enquanto a cidade crescia com obras e demolições, tentava-se construir alguma coisa mais importante...

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h51

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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