Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

Proezas de Mercadante

O senador Aloizio Mercadante publicou ontem, na Folha, uma pequena obra-prima de desconversa. Narra seu encontro, no saguão lotado de Congonhas, com “uma senhora muito bem-vestida” que resolveu interpelá-lo.

 

Deve ter sido interpelado muitas vezes. Sobre o caos aéreo, sem dúvida. Sobre seu apoio a Renan Calheiros na votação que absolveu o presidente do Senado. Mas, desta vez, foi diferente, e rendia um artigo no jornal.

 

A senhora “apontou para o saguão cheio de gente de todas as classes sociais [todas?] e disparou: ‘ assim não dá. Isso aqui parece uma rodoviária. Eles tomaram conta do aeroporto.’ ”

 

Foi a deixa para Mercadante apontar uma série de avanços sociais do governo Lula. “Eles”, isto é, os pobres, “estão chegando”, e seriam suas conquistas o que indignava a senhora bem-vestida.

 

Reproduzindo ironicamente o tom indignado da senhora bem-vestida, Mercadante escreve: “Eles estão chegando a muitos lugares antes cuidadosamente reservados aos bem-nascidos. Eles estão chegando às universidades. Até às particulares!”

 

A frase é espantosa, porque as universidades particulares, em sua maioria, foram sempre o lugar aonde iam parar os que não conseguiam entrar nas públicas. Mercadante inverte a realidade, chamando de privilégio o acesso  às faculdades particulares –privilégio este que a generosidade do Pro-Uni estaria quebrando.

 

Continua: “os mais pobres estão chegando à luz elétrica”. Novamente, é um bocado estranho imaginar que os ricos e bem-vestidos tenham algo a reclamar disso, uma vez que não há, como nos aeroportos, superlotação, cancelamento de serviços ou atrasos nos fios e tomadas dos ricos quando mais gente tem acesso à eletricidade.

 

O mesmo com relação a computadores, que ficaram aliás mais baratos para todos, e à banda larga da internet. Na retórica de Mercadante, a oposição a Lula se faz porque os privilegiados não querem que os pobres tenham esse tipo de coisa.

 

É um verdadeiro absurdo. Mesmo no mais recôndito inconsciente do antipetismo, a defesa dos privilégios não se dá em função de coisas desse tipo. Há, como fartamente demonstrado pela fala de Fernando Henrique, preconceito contra a falta de instrução de Lula, e raiva diante do fato de que suas esparrelas verbais e ideológicas não se refletem em dados ruins para a economia.

 

Os atrasos nos vôos se tornaram motivo de críticas da oposição não porque a oposição deteste pobres nos aviões, o que até pode acontecer, mas porque o governo não soube resolver o problema, não sabia sequer por onde começar, e anunciava repetidamente que o problema estava resolvido. Mercadante resolveu transformar, num passe de mágica, e com a ajuda da senhora bem-vestida, um sinal de incompetência em sinal de sucesso, e críticas justificadas em sinal de preconceito. 

 

O problema do senador, como se sabe, é outro. Trata-se de limpar sua imagem depois da lamentável ajuda que proporcionou a Renan Calheiros. Ele já se encarregou, agora, de adiantar seu voto em favor da cassação do presidente do Senado, no próximo julgamento.

 

Falta a Mercadante uma qualidade essencial a quem pretende ter liderança política: personalidade. Foi até onde podia ir no apoio a Renan, e é por ter boa parte de sua base eleitoral na classe média ou “privilegiada” que foi sensível a interpelações bem mais duras do que a recentemente ouvida no saguão de Congonhas. Ressurge, então, muito ensaboado, para falar de privilégios.

 

Na área econômica, afinal uma especialidade do senador, eu gostaria de saber quais os privilégios ameaçados pelo governo Lula. Mercadante não se cansava de criticar a ortodoxia econômica, o monetarismo, as altas taxas de juros, a ausência de reforma tributária, etc. etc. As alíquotas de imposto de renda para os realmente privilegiados são baixas no país; o teto é de 27,5%, e em países europeus chega até a 60%, se não estou enganado. Aí, sim, a grita seria enorme –e Mercadante teria razão em dizer que os oposicionistas estão apenas defendendo seus privilégios.

 

Benefícios sociais corretamente concedidos pelo governo Lula não são, como querem alguns setores da oposição, “puro populismo”. Todo governo reformista ou social-democrata se encarrega de oferecê-los. Populismo, no clássico sentido de esquerda, é fingir que políticas compensatórias são uma “revolução” e que com elas os “descamisados” estão no poder. Populismo é fingir que a ocupação do aparelho de Estado por uma clique de apaniguados, com ou sem ideologia que preste, é uma coisa “nunca antes vista neste país” e um desafio às “classes privilegiadas” às quais se continua servindo. Populismo é dizer que os ex-pefelistas dominam o país há 500 anos, como diz Lula, enquanto se dá cargos aos apadrinhados de José Sarney e se faz o possível para manter Renan Calheiros no poder.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h41

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Cem livros no "NYT"

Uma lista de livros "notáveis" de 2007, publicada no "New York Times".

Quadro de Nigel Cooke

Escrito por Marcelo Coelho às 11h48

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escultura pop

escultura pop

Fugindo um pouco aos cartazes de rua, que publico sempre nesta seção, reproduzo uma imagem de pizza em resina que vale a pena.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h13

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Mutum

Mutum

http://www.cinemaemcena.com.br/mutum/blog.asp

A pedido de um leitor, vai aqui o blog oficial do filme "Mutum", comentado em post anterior.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h48

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Frases memoráveis

Frases memoráveis

Aproveito as férias para atualizar a leitura de uma pilha de revistas e jornais. Era necessário, mas de todo modo fica a sensação de algo mais ou menos improdutivo, sem um grande livro ou um grande assunto a que eu pudesse ter me dedicado durante essas semanas.

 

Tudo bem: de um único número do “TLS” (17 de agosto de 2007), registro algumas frases interessantes, que eu pelo menos não conhecia.

 

No capítulo das previsões erradas, vale citar o que a esposa de Walt Disney disse para ele aí por 1938, quando ele se preparava para lançar “Branca de Neve e os Sete Anões”: “ninguém vai pagar um centavo para ver um filme de anões”.

 

Também não sabia a opinião de Eisenstein a respeito de “Branca de Neve”: “O maior filme já realizado”. Deve ter engolido mais do que uma maçã para ter essa opinião.

 

As frases vêm a propósito de duas biografias de Walt Disney publicadas recentemente: The Animated Man, de Michael Barrier, e Walt Disney (a biografia autorizada), de Neal Gabler. Nenhuma das duas satisfez Sarah Churchwell, a resenhista, que reclama especialmente do excesso de informações sobre contabilidade no livro de Neal Gabler, e, de modo geral, da figura desinteressante de Disney: ele só pensava em trabalhar.

 

Outra observação curiosa vem de Alfred Döblin, autor de Berlin Alexanderplatz, exilado em Los Angeles durante a guerra. Estranhou tantas áreas verdes na cidade. “Afinal de contas, eu não sou uma vaca”. Está citada em Weimar on the Pacific: german exile in Los Angeles and the crisis of modernism, de Erhard Bahr.

 

Também não conhecia as últimas palavras de Kafka a seu médico: “Se você me curar desta vez, você é um homicida.”   

 

Como os 7 anões, Disney trabalhava demais. Entretanto, tinha mania de limpeza.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h36

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Culpados e responsáveis

 

 

 

Deve acontecer alguma coisa séria na cabeça das autoridades, ou de seus porta-vozes, para que de repente qualquer manifestação de sensibilidade, indignação ou culpa humana desapareça de uma hora para outra. “Deslavada” é uma ótima palavra para caracterizar a atitude dessa gente quando acontece uma tragédia.

 

Guardei para ler com cuidado a reportagem do último sábado, a respeito da moça que foi enfiada numa cela de delegacia no Pará, com 20 homens, e foi estuprada durante quase um mês.

 

A fraseologia da govenadora Ana Júlia Carepa, no site do governo paraense, merece ir para uma coletânea da anestesia oficial. Poderia sair em dois volumes, intitulados Que coisa, não é mesmo? e Eu não sabia de nada.

 

Leia-se o que ela disse:

 

Essa é uma prática lamentável, que, infelizmente, já acontece há algum tempo.

 

Caberia se alguém tivesse denunciado o roubo de açúcar nos cafezinhos das repartições. “Lamentável”? Só? “Infelizmente”? Que chato. “Algum tempo”?

É, de uns anos para cá parece que estupros na delegacia viraram moda... Antes eles estupravam os homens mais indefesos. Mas agora que a gente põe mulheres na cela, parece que eles preferem...

 

Algum tempo, na fala de Ana Júlia Carepa, quer dizer onze anos. Mas só agora, segundo ela, a coisa veio a público:

 

Mas é bom tornar isso público, para que toda a sociedade se mobilize e possamos acabar com essas práticas.

 

Eis um exemplo incrível da perversão do antigo discurso de esquerda. Quem tem de se “mobilizar” é o governo, não a sociedade. Na lógica da govenadora, primeiro deve acontecer o estupro sistemático, depois ele ser divulgado, para então a sociedade se mobilizar e só então o governo tomar providências. Uma mulher é posta sozinha numa cela com vinte homens; uma cela onde caberiam cinco ou seis fica entupida com trinta ou quarenta; mas até esse momento nenhuma providência precisa ser tomada, pois nada veio a público, nem a sociedade se mobilizou.

 

Há onze anos o Movimento de Mulheres do Campo e da Cidade denuncia casos semelhantes no Estado, diz a reportagem. Mas isso, claro, não quer dizer que a coisa “veio a público”. A culpa terá sido da imprensa burguesa, claro, pois é agora, sob a administração de uma mulher petista, que a coisa cria escândalo. A governadora poderia ter invocado esse argumento, aliás... Não devem ter faltado sugestões nesse sentido. Ela preferiu, entretanto, uma postura conciliadora, agradecendo a revelação do acontecido. Agora, só falta a sociedade se mobilizar, para que ela tome providências.

 

 

No fundo, todo governante assume seu cargo sabendo que não irá fazer nada para modificar as “práticas habituais” que compõem o quadro hediondo da sociedade brasileira. Está plenamente imbuído da idéia que o negócio é “ir tocando o barco”, e nesse sentido não se sente culpado de nada. Ninguém, na Alemanha nazista, sentia-se culpado tampouco.

 

Agora virou moda falar como Jaques Wagner, governador da Bahia, depois da catástrofe no estádio da Fonte Nova, que “se sente responsável, mas não culpado”. Está na hora de definir melhor qual a diferença entre responsabilidade e culpa. O que é exatamente sentir-se responsável? Talvez seja: eu deveria saber dos riscos daquele estádio, mas não sabia. Se soubesse e não tivesse feito nada, seria culpado. Mas como não sabia, não sou culpado. Tudo bem, mas acontece que “responsável” é um termo muito cômodo, que equivale praticamente a não dizer coisa nenhuma.

 

Você é eleito para um cargo qualquer, condenando a incompetência, a corrupção, o descaso de quem você quer suceder. Sabe, plenamente, que está assumindo a direção de uma estrutura falida, da qual jorram notícias de doença, de tortura, de insegurança, de riscos de acidente a todo momento. Vai tocando o seu governo, com melhoras aqui e ali. Não tem culpa subjetiva, na maioria dos casos, dos horrores que acontecem.

 

Mas os horrores continuam, porque você não será nunca punido pelo que deixa de fazer. Ainda que “responsável”, você não está nem aí. Está apenas no palácio, ou então passeando de lancha, a convite de alguma empreiteira. Afinal, são tantos os problemas... não há governador que dê conta.   

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 19h25

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salames

salames

Na linha dos cartazes populares, um anúncio de restaurante com estética clássica.

Escrito por Marcelo Coelho às 20h03

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Quem liga para a música clássica?

Quem liga para a música clássica?

Richard Taruskin publicou recentemente uma gigantesca história da música ocidental, insistindo bastante no que há de "histórico" nela, isto é, as instituições, públicos, procedimentos de mercado e de prestígio a que esteve ligada a música clássica ao longo dos séculos. Foi também elogiado pela inventividade e precisão de suas análises sobre obras específicas. Não tive coragem de importar a obra, em vários volumes; li uma resenha bastante antipática a respeito dela, feita por Charles Rosen no "New York Review of Books", e embora Rosen seja um crítico inteligentíssimo, acessível e versátil (seu excelente "Poetas românticos, críticos e outros loucos" saiu aqui pela Ateliê/Unicamp), pareceu-me haver em sua antipatia com Taruskin uma dosezinha de inveja.

Um leitor deste blog recomendou-me um longo artigo de Taruskin na "New Republic" (continue clicando em "next" depois das primeiras 10 páginas), em que ele resenha três livros onde se diagnostica e lamenta o declínio do gosto pela música clássica, mesmo entre as camadas mais intelectualizadas da população. Professores de filosofia, estudantes de Artes Plásticas, como "nunca antes em nenhum país" partilham gostos musicais com gente que só lê --quando muito-- gibis dos Power Rangers; o fenômeno não acontece em literatura ou cinema, onde os nichos de alta e baixa cultura são reconhecidos por todos, o que não impede, é claro, algumas puladas de muro de vez em quando.

A reação de Taruskin a esse tipo de lamento é demolidora. Anti-adorniano furioso, Taruskin ataca o fundamentalismo estético por trás de tal atitude, e aponta de modo constrangedor as semelhanças entre o anti-semitismo de Wagner e a atitude de um desses autores, confessadamente adorniano, quando critica a falta de profundidade e o espírito de entretenimento presente na música de Mendelssohn --para nada dizer dos Beatles e companhia. Outro autor, mais cuidadoso, procura dizer que a defesa da música clássica contra a música popular não é uma questão de "elitismo" --mas Taruskin é especialmente forte em dizer que sim, é de elitismo e isso está errado. A música clássica, diz Taruskin, não está morrendo: está mudando, e o exemplo é Gabriel Prokofiev, neto do compositor, que tem uma banda de rock pesado e ultimamente tem se dedicado a escrever quartetos de cordas. Há um trânsito, diz Taruskin, entre o popular e o clássico, coisa que a "carolice" dos habituais críticos culturais se nega a admitir.

Certamente ele tem razão ao reagir contra um fenômeno que, entretanto, ele não aponta com clareza. Adotou-se, da Escola de Frankfurt, tudo o que ela não tinha de esquerdista. Adorno virou, na sua versão mais rotinizada, uma espécie de Spengler (e o próprio Adorno, em seu ensaio sobre o autor de "O Declínio do Ocidente", estava a um passo de cair nisso). Mas continuo achando que a questão da "alta" e da "baixa" cultura não é uma questão de gosto, e sim de informação. Elitismo não é uma questão de arrogância pessoal, nem de poder (ninguém tem menos poder hoje do que um elitista cultural), mas sim de um sistema cultural e educacional que não dá acesso a obras mais difíceis. O preço de um CD clássico e de um CD popular é igual. O problema é que as pessoas não tem, em geral, familiaridade com um repertório, com uma linguagem, que exige treino e hábito para ser conquistada.

Ninguém no Brasil assiste a jogos de bêisebol. É porque não conhecemos as regras de bêisebol. Quem conhece, gosta. Seria ridículo simplesmente transmitir obrigatoriamente partidas de bêisebol sem explicação nenhuma, dizendo apenas: você vai gostar, é questão de assistir. A pessoa precisa de mais do que simplesmente ver para entender. Do mesmo modo, ninguém pode querer gostar de poesia russa no original sem saber ler russo. Russo é uma língua mais difícil para nós do que espanhol. Mas não é uma língua mais elitista (ou menos) do que o espanhol. Em música, acho convincente o argumento de que, quanto mais as pessoas conhecem Bach, por exemplo, mais estão de acordo com relação à sua grandeza. Não é um "gosto", uma grandeza atribuída imaginariamente pelo poder dos meios de comunicação. Se fosse assim, muitos compositores e críticos, familiarizados com sua linguagem, poderiam simplesmente rejeitá-lo ou duvidar de sua qualidade. Mas não há exemplos, que eu saiba, de atitudes desse tipo.

Isso não quer dizer que no rock não haja sutilezas, citações, referências que um entendido em música clássica desconheça; criticará o simplismo, a falta de variedade harmônica, etc., da música, sem perceber entretanto que o artístico da coisa está em outro lugar. Novamente, a questão é de informação e de linguagem, não de "gosto", do jeito que comumente se emprega o termo. Ignoro totalmente o que se passa no mundo do rock, e quem sabe algum dia eu tenha vontade de assistir a palestras que me expliquem direito o que se passa. Já confundi muito minha ignorância com refinamento. Procuro não cometer mais, espero, esse erro; daí para usar o termo "elitismo" e "adorniano" como forma de acusação, como faz Taruskin, vai entretanto uma distância.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h31

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Euripidis Martoglou

Em Brasília, este é o mês da fotografia, com mostras em vários lugares. O fotógrafo grego Euripidis Martoglou apresenta uma exposição no Teatro Nacional intitulada "Automobiles", e eis aqui dois exemplos:

São provavelmente documentos de uma época em que o carro era uma espécie de prêmio, de artigo raro nas famílias de classe média, a ser esperado longamente na fila do financiamento e da importação... Lembro-me da expectativa dos meus pais nos velhos tempos em que se comprava carro pelo consórcio. A pessoa pagava uma mensalidade, e todo mês havia um sorteio para ver quem ficava com um carro antes mesmo de completado o prazo do pagamento. E havia também um leilão mensal, onde quem tivesse um dinheiro extra podia arrematar o seu fusca descontando as mensalidades já pagas. Enfim, devia ser mais ou menos desse jeito. Eu era criança e não me lembro agora dos detalhes. O carro chegava em casa como uma vitória, uma conquista.

Há algo desse culto e dessa estranheza nas fotos de Martoglou. Na primeira foto, o carro é uma espécie de totem inacessível, quase uma estátua religiosa. Na segunda, é o sonho de sua acessibilidade universal que aparece, antes dos megacongestionamentos, da poluição e do aquecimento global. Há muitos anos, em Atenas, vigorava um rodízio rigoroso; não só pelo trânsito, mas calculo que também pela necessidade de preservar os monumentos da corrosão pela fumaça.

Bem que estava na hora de o rodízio em São Paulo estender-se por um ou dois dias. Creio que mundialmente isso terá de ser feito mais cedo ou mais tarde. Os apelos pela redução do consumo do carbono não bastam, acho, para resolver o problema do efeito estufa... Posso ter a maior boa vontade do mundo, mas ou me proíbem ou eu continuo gastando. Chato admitir isso --a necessidade que tenho de uma autoridade externa-- mas não sei se sou diferente da média. Talvez seja, porque aceitaria sem chiar muito a medida.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h01

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Gente parecida

Mas essa coisa de fotos (ver post anterior) sempre leva a confusões. Como o angolano Mário de Andrade era companheiro do médico, poeta e político Agostinho Neto, fui fazer mais pesquisas e me deparei com um portal de fotos de prefeitos do Piauí. Aqui vão duas imagens que podem levar a erros de identificação.

Este é Braz José Neto, prefeito de Alagoinha do Piauí, eleito pelo PP:

E este é Anfilofio Neto, prefeito de Avelino Lopes, eleito pelo PPS:

depois dizem que todos os políticos se parecem.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h08

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O Mário que não é Mário

Causa discussão a foto exibida pelo governo de São Paulo, com um senhor negro de óculos, que se afirma ser o brasileiro Mário de Andrade. A foto apareceu num arquivo do "Estadão" e me lembro de tê-la vista no caderno 2. Não sou capaz de conferir, mas há alguma probabilidade de ser um outro escritor chamado Mário de Andrade, nascido em Angola, em 1928, e falecido em 1990. Participou do movimento de libertação de seu país, e a partir dos anos 60 há fotos dele usando barba e metralhadora. A foto mais antiga que achei dele é esta aqui:

Mario Pinto de Andrade, escritor angolano

O cartaz da secretaria da cultura:

Em tempo: vendo esta foto sem cortes na edição de hoje 23/11/2007 do "Estado", as diferenças fisionômicas e de época com as do escritor angolano ficam mais nítidas. O mistério continua.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h26

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"Mutum" e seus dilemas

"Mutum" e seus dilemas

A falta de bons roteiristas sempre foi notada pelos críticos do cinema brasileiro –e, depois de sucessos como “Elite da Tropa” e “Cidade de Deus”, a gente quase se esquece daqueles filmes nacionais de antigamente: grandes vazios e buracos na narração, personagens que aparecem e desaparecem sem motivo, comportamentos mal explicados, situações em que a intenção expressiva está em descompasso com a estrutura do enredo...

 

De certa forma, “Mutum”, filme de Sandra Kogut baseado em Guimarães Rosa, se apresenta como uma reação à excessiva (?) competência dos roteiros do atual cinema brasileiro. Estão ali as longas tomadas sem funcionalidade aparente na trama, as contemplações fixas de um ou outro elemento da paisagem, este ou aquele episódio que não fica bem explicado (por exemplo, a breve incursão do menino protagonista no mundo dos tropeiros, onde ele se dá bem, mas do qual é excluído sem que saiba direito por quê).

 

Cria-se, com isso, um filme muito bonito, num ritmo para lá de lento, em que sobressaem as comoventes cenas da doença e da morte de uma criança. Mas, em tese, as circunstâncias “mal explicadas” da narrativa teriam uma razão de ser. Vemos um drama conjugal (para nada dizer da tragédia social de uma família paupérrima no sertão de Minas) a partir dos olhos de um menino, sem dúvida incapaz de perceber o que acontecia à sua volta.

 

Só que, além de ser uma criança comum, da qual os adultos escondem com violência e com silêncios o que de fato ocorre ao seu redor, o pequeno Tiago é também uma criança “esquisita”, “perturbada”, sobretudo atenta (o que a câmera mostra bem) ao mundo minúsculo das formigas, das pecinhas de madeira de uma armadilha para pegar passarinho, das gretas que se formam no solo em tempos de seca...

 

Os leitores de Guimarães Rosa sabem a explicação dessa esquisitice: o menino precisava de óculos, e quando os obtém a narrativa literária se levanta ao que é maravilhamento e generosidade do mundo.

 

Sandra Kogut teve a coragem de adaptar a história sem recorrer a truques cinematográficos. Um diretor mais grosseiro faria tudo para evitar a nitidez do foco durante o filme todo, trazendo aos olhos do espectador, no fim do filme, toda a descoberta visual do protagonista. Seria um bocado ridículo, do ponto de vista estético, ainda que a idéia pudesse ser posta em prática com graus diversos de sutileza.

 

Optando por não ser tão grosseira na filmagem, a diretora entretanto terminou sacrificando um bocado, a meu ver, a psicologia do protagonista e mesmo o sentido geral da história que tinha para contar. Tiago termina sendo mais “normal” do que era de fato, e com isso seu destino perde em particularidade. Quando o pai implica com ele, quando o consideram “perturbado” e “esquisito”, isso tudo fica parecendo mais um sinal da opressão exercida sobre qualquer criança do sertão do que um mistério a ser resolvido. O foco psicológico se generaliza, portanto: disseram-me, com razão, que “Mutum” está mais para Graciliano Ramos do que para Guimarães Rosa.

 

Muito bem, isso pode constar como denúncia das condições de vida horrorosas no interior do Brasil. O problema é que essas condições de vida, apresentadas com vagar lírico, chocam o espectador por sua imutabilidade: menos do que “condições”, são uma “fatalidade”. E o que a descoberta dos óculos teria de simbólico –“há modos de transformar a realidade”—se torna um desfecho mais ou menos casual no filme, uma vez que, por si só, não teria sido suficiente para alterar, por exemplo, o comportamento do pai com relação ao protagonista... A descoberta dos óculos poderia ser também um símbolo daquilo que, na passagem da infância para a adolescência, se começa a compreender no comportamento dos adultos.

 

Em “Mutum”, a incompreensão do pequeno Tiago face ao mundo humano e ao mundo físico que o cercam não se dissipa, nem os olhos do espectador se esclarecem, com o final da história. Aposta-se na simpatia, mas não na identificação entre o espectador e o personagem principal.

 

É a relação entre o sujeito que contribui financeiramente para uma ONG qualquer mas não faz questão nenhuma de conhecer em pessoa os que se beneficiam de sua generosidade. O filme todo nos dá a conhecer de longe, em terceira pessoa, uma realidade que não vale entender de dentro. Claro, essa é uma tomada de posição estética contra o excesso de sentimentalismo e truques identificatórios do cinema mais convencional. A opção é um bocado “iraniana” pela lentidão, e também pela ternura com as crianças; mas é iraniana também no sentido de nos distanciar de tudo o que há, ou houve, de brasileiro na realidade descrita. O filme toca o espectador, é claro, mas parece tímido demais para mexer com ele.  

 

Walison Barroso e Tiago Mariz em cena de "Mutum"; mais fotos e informações aqui

Escrito por Marcelo Coelho às 00h54

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A Dama do Lago

A Dama do Lago

Raymond Chandler, Dashiell Hammet... para mim, o charme, a aura, a atmosfera desses autores policiais funciona melhor de longe que de perto. Os filmes “clássicos” dos anos 40, Bogart e companhia, sempre me dão vontade de ver –mas assisti-los de fato, do começo ao fim, não deixa de ser uma experiência tediosa. A trama se embrulha e desembrulha, a ponto de perder bastante o interesse; quando o mistério se resolve, já não me lembro bem qual era. Salvam-se: o olhar fatal de algumas mulheres, as respostinhas espertas dos detetives, um ou outro carro antigo e preto sob a chuva... nem sempre a fotografia dos filmes “noir” é tão notável quanto poderia ser.

 

Este, pelo menos, é o caso de “A Dama do Lago”,The Lady in the Lake, filme de Robert Montgomery, com ele mesmo no papel de Philip Marlowe. O filme, baseado num romance de Raymond Chandler, é de 1944, e saiu agora em DVD pela www.silvescreen.com.br

 

A originalidade de “A Dama do Lago” é usar a câmera subjetiva o tempo todo: fora algumas cenas de apresentação, só vemos o protagonista quando ele se olha no espelho; o bocal do velho telefone preto fica em primeiro plano quando ele fala, e a escuridão domina tudo quando ele é golpeado por algum policial canalha, o que acontece mais de uma vez. Ocasião, por certo, para alguns expressionismos diluídos de filmagem.

 

Duas coisas me desagradam: a primeira é que a história, complicadíssima, depende de uma ingenuidade gritante do detetive, brilhante e desconfiado nos detalhes, mas cego diante do embuste essencial de que é vítima ao visitar a cena do crime. Pouco importa, no fundo, e sabemos disso: mas, se sabemos das incoerências gerais, e desconfiamos nebulosamente das incoerências particulares da trama, por que o filme confere tanta importância narrativa a uma tralha de circunstâncias que não interessam a ninguém?

 

Talvez exista um mistério aí. Qual o segredo fundamental, que o filme não revela, ao multiplicar tantos segredos secundários? É que todos os crimes misteriosos são pretexto para desviar a história de sua obscenidade básica. Não estou muito seguro de qual seja, mas anoto aqui uma impressão.

 

Tem a ver com a segunda razão para o meu desagrado: a misoginia brutal desses filmes todos. Uma cena em “A Dama do Lago”, especialmente, é repugnante nesse aspecto. Vemos uma mulher, não muito bonita, implorando o amor do policial canalha, que está com uma arma na mão. Ela está desesperada, depois de uma série de patifarias que cometeu; arrasta-se pelo chão, apela a antigas promessas de amor, pergunta se não está mais bonita agora, com o cabelo tingido... E sabemos que será fuzilada sem piedade.

 

O espetáculo se sustenta “moralmente” em função da complicada história policial. Mas o “gozo” da coisa toda nada tem a ver com a trama, e na verdade poderia ser transplantado, horrivelmente, para o ambiente doméstico: o diálogo entre a desesperada e o policial poderia ser a reprodução perfeita de uma cena de divórcio.

 

Mas ninguém é casado nesse tipo de filmes, exceto, naturalmente, a figura clássica do milionário em robe de chambre que a determinada altura contrata o detetive ou é morto por alguma razão.

 

E talvez a “obs-cenidade”, aquilo que está “fora da cena” nesses filmes seja exatamente o casamento, o amor conjugal. A mulher misteriosa que engana o detetive, e que ele tem de testar paranoicamente até os últimos minutos da história, é na verdade a esposa clássica das comediazinhas familiares americanas, boa dona de casa, fiel, etc. No mundo “adulto” dos policiais, as mulheres são traiçoeiras, estão atrás de dinheiro, mentem, matam. O detetive é como o marido desconfiado, vendo indícios de traição em tudo –pode encenar essas preocupações nos filmes, graças à circunstância de não ser casado; é o solitário, o puro, o durão.

 

Toda essa questão da “obscenidade” me parece perceptível em “A Dama do Lago”, uma vez que o único beijo autêntico entre Robert Montgomery e Aldrey Totter é justamente filmado num dos raros momentos em que se abandona a câmera subjetiva. Na hora do beijo, o detetive aparece “na terceira pessoa”, apresentado por um narrador anônimo, externo à diegese fílmica (hum! será que a terminologia é essa? estamos caprichando por aqui...). É como se amor e confiança mútua de um casal não pudessem fazer parte do foco narrativo do protagonista... Ele é capaz de desvendar todos os crimes, mas não pode ver um berço, uma cozinha, uma sala de televisão, e a mulher de avental. Esse paraíso do “american way of life” é destruído sistematicamente nos filmes noir: Eva será sempre quem oferece a maçã para o detetive, que não se interessa muito: logo parte à procura de Caim.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 13h14

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Um livro e quatro Cristos

Dou um exemplo da pena que é, no livro de Roberto Longhi que estou comentando, a falta de um número maior de ilustrações. Em Breve mas verídica história da pintura italiana, o crítico explica a evolução do estilo de Giovanni Bellini, comentando quatro pinturas sobre o mesmo tema, a saber, a "Pietà". Cito o texto e depois ilustro, com ajuda do google.

Em primeiro lugar, a Pietà do Museu Correr, a mais antiga. Fio de ferro tortuoso e de contorno suave, rugas de carnes e tecidos, definição da psique dolorida com o meio acurado da linha.

A Pietà do Museu de Brera é quase contemporânea. O metal de Pádua bateu os caracóis de cobre de São João, as lâminas das vestes, as bocas entreabertas no tormento silnecioso. Mas como já se esfolia o mármore no peito de Cristo!

No entanto, temos de passar para a Pietà do Palazzo Comunale de Rimini para ver a renovação quase completa. Eis todo o quadro ocupado pela alternância de tonalidades coloristas claras e escuras; eis os corpos transformados numa substância com mais vida e alento, como açúcar fino, onde a sombra se deposita com extrema maciez; eis a modelagem se arredondando como nas cabeças dos anjos; eis as cabeleiras de cobre frisado convertendo-se em melenas largas e fundidas; eis os corpos que se tingem de âmbar e os tecidos que se fazem rosados.

Na Pietà de Berlim a amplitude é ainda maior. Uma unidade estrutural constrói o corpo de Cristo e dos anjos em poucos planos suaves. Como se englobam as três cabeças do alto, como se fundem os bracinhos nos braços do morto! Que suavidade nas curvas que brotam nos ombros, nas asas; e atrás das asas o engaste denso e vibrante de um céu turquesa! Reflitam sobre isso se quiserem entender como é o estilo figurativo a determinar as expressões psíquicas igualmente difusas em toda a composição.

Bem, o leitor lê tudo isso com interesse, mas não tem acesso às ilustrações. Aqui vão elas.

A primeira Pietà de Bellini, no Museu Correr, ainda num estilo semelhante ao de Mantegna, onde o desenho, a nitidez, predominam:

Em seguida, a Pietà do Brera (que acho a melhor, mais dramática):

A "transformação completa" na Pietà de Rimini, onde "a sombra se deposita com extrema maciez":

Por fim, a Pietà de Berlim, "suavidade e dor serena":

Roberto Longhi resume a comparação:

Da primeira para a última Pietà, vimos o tormento agudo se transformar em repouso sentimental, em calma após a dor, em resignação pacata e suave. Pois bem, é a linha que desaparece para dar lugar aos planos e à cor, nada mais. Este, portanto, é o grande segredo: fazer coincidirem as grandes razões do estilo e os grandes sentimentos humanos. Somente a linha pode exaltar e sublinhar o tormento; somente a cor e os planos podem nos dar a calma silenciosa do espírito.

A argumentação vai no sentido de privilegiar, claro, a análise estilística do quadro, sem diminuir o potencial de "significado humano" nele existente. Mas será que nisso se esgota a tarefa do crítico? Mais do que nunca, fica a curiosidade --pelo menos-- no que diz respeito à transformação psicológica, ou biográfica, do pintor. O que aconteceu entre um quadro e outro, no espírito do pintor, no espírito de sua época, no espírito de seu público?

Escrito por Marcelo Coelho às 18h15

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Longhi, a pintura e a calvície

Longhi, a pintura e a calvície

Roberto Longhi foi um dos críticos de arte italianos mais importantes do século 20; teve o papel, por exemplo, de revalorizar a obra de Caravaggio, que hoje é tão popular, acho quanto Frida Kahlo, mas já foi muito esnobado. Lembro de uma passagem do consagrado crítico Bernard Berenson, em Italian Painters of the Renaissance, de 1930, que em 250 páginas dedicava apenas duas linhas a Caravaggio; Berenson considerava que depois dos grandes mestres como Michelangelo e Rafael, mesmo pintores talentosos como Caravaggio tinham pouco poder de reação e se perderam, se gastaram em direções equivocadas. A facilidade que tinham tornou-se, para Berenson, “um hábito escravizante de visualizar convencionalmente e de executar com rotina”...

 

Mas voltando a Roberto Longhi. Ele tinha 23 anos em 1913, quando escreveu sua Breve mas verídica história da pintura italiana, que saiu no Brasil há poucos meses pela Cosac Naify. Na época, Renoir e Degas ainda estavam vivos.

 

O livro de fato é muito curto, com dois ou três parágrafos para cada pintor, e se baseia em anotações para um curso de história da arte que Longhi ministrava a alunos do colegial. Só foi publicado postumamente, o que não é de admirar, dado o caráter muito provocativo e rápido de seus comentários.

 

Longhi fala bastante mal de Rafael, por exemplo, a quem acusa de sentimental e açucarado. Todo o seu empenho está em condenar aquela arte religiosa tipo “santinho”, que em tempos pré-pedofilia os padres costumavam distribuir às crianças que se preparavam para a primeira comunhão. Ele gosta de Botticelli, mas não tem nenhum problema em dizer que as pinturas do mestre no teto de uma galeria do Vaticano não trazem nenhum interesse. O próprio “Juízo Final” de Michelangelo vale, para Longhi, pelas figuras isoladas, mas carece de unidade, de sentido plástico do conjunto...

 

No fundo, ele está em plena campanha modernista para entender a pintura não como uma encenação de poses bonitas, realistas, comoventes, mas como uma linguagem feita de linhas, volumes e cores –sendo que é impossível, a seu ver, deixar de privilegiar um destes três aspectos: o pintor que quiser conciliar interesse linear com o interesse colorista tende a se confundir num ecletismo indesejável. E bote purismo nisso: nada mais errado, diz ele, do que elogiar um pintor por ter inventado, digamos, uma “pantomima” cênica diferente ao imaginar uma deposição da cruz, uma última ceia... o pintor não é um diretor de teatro, que congele personagens “reais” em poses memoráveis, nem um ilustrador de textos literários, mas sim um organizador de espaços e cores numa tela.

 

Claro que esse é um critério muito menos estreito do que pode parecer quando resumido desta maneira. É, de todo modo, um critério que talvez os próprios pintores julgassem parcial. Mesmo um grande historiador da arte como E. H. Gombrich não se esquiva em nos chamar a atenção para delicadezas psicológicas e retóricas num determinado gesto deste ou daquele santo num quadro clássico, sem se fixar apenas no critério formal, e isso certamente nos ajuda a uma fruição –e a uma compreensão—maiores da pintura analisada.

 

O que é irresistível, neste livro de Longhi, é a irreverência dele com relação a tantos pintores famosos –e sua capacidade de nos surpreender com exemplos cotidianos, quando quer fundamentar sua tese principal. Eis um exemplo, a respeito de Antonello da Messina, que ele admira muito. Antonello

 

limita-se a dotar a forma, especialmente a forma humana, de volumes ideais que tendem, em essência, à esfera e ao cilindro, naturalmente sem cair em coincidências singelamente geométricas. Vocês podem me perguntar qual a beleza que existe nas formas mais simples e métricas. Nesse caso, (...) resolvam este problema: por que um homem lamentavelmente calvo acaricia sua careca redonda e lustrosa? Para compensar –falo sério—a infelicidade prática de estar faltando um elemento útil como a cabeleira, com prazer inicialmente estético de sentir que a própria calvície se encaminha para a forma nobre da esfera. Encontrem-me outra explicação para esse fato, ou para aquele de se acariciar prazerosamente, por exemplo, um braço torneado.

 

“Braço”, imagino, está no lugar de outras partes da anatomia humana, que em 1913 não caberia nomear explicitamente.

 

Pena que a edição da Cosac, ainda que com quase 40 ilustrações coloridas, não dê conta de todos os exemplos e comentários feitos por Longhi a respeito de obras específicas. Vou dar uma pesquisada pela internet para ver se dá para suprir essa lacuna aqui no blog.

 

  

Antonello da Messina, a Annunziata

Escrito por Marcelo Coelho às 18h02

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de volta

Estou de volta, depois de uma viagem rápida, onde tive problemas para me conectar. Tinha levado o computador na bagagem, confiando nos sistemas de wi-fi, mas logo vi que tudo é mais complicado do que minha modesta capacidade de lidar com o novo windows vista. Claro que não é desculpa, mas espero recuperar de qualquer modo o tempo perdido pelos leitores que vieram acessar o blog enquanto isso, e tiveram uma indigestão de Wordsworth... Vamos em frente.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h05

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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