Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

presentes de Papai Noel

presentes de Papai Noel

Agora que os presentes de Natal foram distribuídos, vejo com tristeza o estrago que a publicidade é capaz de fazer sobre crianças impressionáveis e pais molóides, como costumo ser em assuntos de consumo.

         Meu filho de cinco anos e meio começou pedindo a papai Noel um tal de computador do Ben 10. Fui ver: é um computador de verdade, com tantos pentiums e megabytes quanto o meu, e custava quase R$ 2 mil. Fora a cor verde e algumas decorações alusivas ao super-herói, não tinha nada que outro computador não pudesse fazer –e meu filho tem lá os seus acessos limitados ao lap top de casa.

         Coube-me explicar a ele que, apesar de todos os notáveis esforços empreendidos ao longo do ano no que diz respeito ao bom comportamento (e de fato ele está próximo do irrepreensível), não ganharia esse computador do Papai Noel. Argumentei que era coisa para crianças mais velhas, que já sabem ler bem e usar o computador... “Mas eu sei!”, disse ele, e era verdade.

         Mesmo assim, foi negado o pedido. Meu filho se conformou rápido, e refez sua lista. Queria um boneco do Max Steel, e um jogo, não muito caro, chamado “Guerra dos Monstros”. Aparentemente, é uma novidade no mercado de brinquedos, e não havia como dizer não dessa vez.

         Atendido o desejo, que a pura publicidade havia criado, os brinquedos foram praticamente esquecidos assim que meu filho os recebeu. O Max Steel é um boneco desses de super-herói, com um motorzinho que o faz andar em círculos sobre uma espécie de skate. Não há muito o que fazer com ele.

             “Guerra dos Monstros” é uma espécie de pin-ball, que pelo acionar de um gatilho derruba uma dezena de monstrinhos de plástico minúsculos, acoplados a uma plataforma transparente. Trata-se de um produto bastante precário, com umas molinhas que vão escapando rapidamente do lugar onde deveriam ficar, e com dispositivos de disparo que travam sem muita explicação.

         Em resumo, é como se meu filho não tivesse ganho nenhum presente de Natal. Caiu, caímos, no mesmo logro recentemente. No Dia da Criança, ele queria uma maquineta capaz de lançar teias do Homem-Aranha em todas as direções. O triste é que ele pensava que eram teias reais, que o fizessem escalar muros e pular de prédio em prédio. Bem, ele não pensava exatamente isso, mas era isso o que ele queria pensar.

         Ganhou, entretanto, uma espécie de arma de brinquedo que expulsa uma gosma cinzenta com velocidade incrível –o que determina a necessidade quase imediata de se comprar um refil daquelas teias. Garatujas pegajosas de falsa aranha grudaram-se no teto do apartamento, como num lembrete irônico: é desta matéria que são feitos todos os sonhos.

         A recomendação prática, se posso dar alguma, é deixar que o presente de Papai Noel seja uma surpresa. E confiar mais em nós mesmos do que no desejo das crianças. Sabemos o que valem os desejos que vêm do próprio sujeito: esgotam-se rapidamente, e foram criados por algum tipo de crença arbitrária e traiçoeira.

         Outra recomendação: nunca compre a barraca de montar do Homem-Aranha, ou a do Acampamento da Mônica. A não ser que você seja um Paulo Mendes da Rocha, será incapaz de fazer aquele negócio ficar de pé.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h23

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latinhas recicladas

latinhas recicladas

Um leitor manda esta foto de uma panelinha de pressão, feita com lata de cerveja. Bem bonito foi o uso do abridorzinho como trava da panela. Foi comprada em Londrina.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h40

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Abaixo-assinado pelo Masp (2)

Eis a lista das personalidades que já assinaram:

Diretores e ex-Diretores de Entidades e Personalidades ligadas à Gestão Pública da Cultura, aos Museus, ao Patrimônio Cultural, às Humanidades e às Artes em Geral

 

Agnaldo Farias, Crítico, Curador e Professor Universitário, USP

Cacilda Teixeira da Costa, Curadora

Célio Turino, Secretário de Programas e Projetos do Ministério da Cultura

Fábio Magalhães, Crítico, Curador, ex-Curador-Chefe do Masp, ex-Diretor do Memorial da América Latina

José Arthur Giannotti, Filósofo, co-fundador e ex-Diretor do CEBRAP, Professor Universitário Aposentado, USP

Lilia Moritz Schwarcz, Curadora e Professora Universitária, USP

Luiz Camillo Osorio - Crítico e Professor Universitário, UNIRIO e PUC-RJ.

Luciano Migliaccio, Curador e Professor Universitário, USP

Luiz Marques, ex-Curador-Chefe do Masp, Professor Universitário, Unicamp

Luiza Strina, galerista

Magaly Cabral, Diretora do Museu da República, RJ

Manuela Carneiro da Cunha, Antropóloga, University of Chicago
Mauro W. Barbosa de Almeida, Antropólogo, Unicamp
Nelson Aguilar, Crítico, Curador e Professor Universitário, Unicamp

Paulo Sérgio de Moraes Sarmento Pinheiro, UNICEF

Sandra Regina Ramalho e Oliveira, Presidente da ANPAP (Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas)

Sonia Guarita do Amaral, Museóloga

Tadeu Chiarelli - Chefe do Depto de Artes Plásticas ECA-USP. Ex-curador-chefe do Museu de Arte Moderna de São Paulo

William Daghlian, Professor de Piano. Doador de numerosas obras de arte ao Masp

 

 

Universidade e Demais Setores da Sociedade Civil

 

Alcir Pécora, Professor Universitário, Unicamp

Aldo Arantes

Amarilio Ferreira Jr., Professor Universitário, UFSCar

Augusto César Buonicore, Instituto Maurício Grabóis

Bruno de Matos Fiuza, Historiador e Editor da revista História Viva

Carlos Alberto Dória, Sociólogo, Doutorando, Unicamp

Carlos Eduardo Ornelas Berriel, Professor Universitário, Unicamp

Carlos Marigo, Musicólogo, Doutorado, Université de Paris I

Cristiane Rebello Nascimento, Professora Universitária, FACAMP

Danila Zanon, Mestra em História, Unicamp

Edson Françozo - Depto. de Lingüística, IEL-UNICAMP

Edvaldo Soares de Magalhães

Elaine Dias, Pós-Doutorado em História da Arte, USP

Elisa Lustosa Byington, Doutorado em História da Arte, Unicamp

Fabiane Dutra Oliveira

Fernando Tadeu Caldeira Brandt, Professor Universitário, USP

Francisco Achcar, Professor Universitário aposentado, Unicamp

Heloísa Fernandes, Professora Universitária, USP

Iliana Grinstein, designer, IED

Irene Ruth Hirsch, Professora Universitária, UFOP

João Quartim Moraes, Professor Universitário, Unicamp 

Joatan Vilela Berbel, Consultor em Projetos Culturais

José Roberto Guedes de Oliveira, Historiador

Mamede Mustafa Jarouche, Professor Universitário, USP

Maria Antonia Couto da Silva, Doutorado em História da Arte, Unicamp

Maria de Sousa Pereira, Socióloga, UFC

Maria Cecília Carneiro da Cunha, Aposentada

Maria Cristina Louro Berbara, Professora Universitária, UERJ

Maria Elena Bernardes, Pesquisadora, Unicamp

Mariana de Campos Françozo, Doutorado, Unicamp

Marilena Bittar,  Professora Universitária, UFMS

Mariluce Bittar, Professora Universitária, UCDB

Marina Massimi, Professora Universitária, USP

Mário Cézar  Ferreira, Professor Universitário, UnB

Mário Henrique Simão D’Agostino, Professor Universitário, USP

Marsia Bittar, Professora Universitária, UFSCar

Miriam Laranetto

Patrícia Vieira Trópia, Professora Universitária, PUC-Campinas

Paulo Elias Allane Franchetti, Professor Universitário, Unicamp

Raphael do Sacramento Fonseca, Mestrado, Unicamp

Raul Weber Abramo, Professor Universitário, USP

Rodrigo Ferreira Rezende, Professor Universitário, UnB

Sabine Pompéia, Professora Universitária, Unifesp

Samuel Sérgio Salinas, Procurador de Justiça aposentado, fundador do Ministério Público Democrático

Silvio Costa - Professor Universitário, PUC-Goiás

Tito Martino

Vanderley Caixe – advogado, diretor da revista O Berro

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h03

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Abaixo-assinado pelo Masp

Recebo, por e-mail, o texto do abaixo-assinado pedindo que o Estado passe a gerir o Masp. Para quem não leu, vai aqui a íntegra.

 

SOS MASP: Apelo aos Poderes Públicos

 

O Museu de Arte de São Paulo é de há muito uma instituição enferma, sem recursos e sem direção profissional. Seu estado hoje é terminal, como bem exemplificado pelo furto do Picasso e do Portinari. Faz-se imperativa, portanto, a intervenção dos poderes públicos. Para além do que compete fazer no plano judicial, é preciso encontrar uma fórmula jurídica que garanta ao Museu as condições  necessárias para melhor cumprir sua missão formadora de cultura.

O problema a ser atacado de frente é de ordem institucional, pois, deste ponto de vista, o Masp é uma aberração: não sendo uma fundação, não dispõe de dotação original; não sendo, por outro lado, um museu do Estado, não é amparado por lei orçamentária. O mais importante Museu de Arte do hemisfério sul é uma sociedade civil de direito privado, constituída por algumas dezenas de associados que não contribuem para a manutenção de sua associação. Essa sociedade outorga-se a gestão de um patrimônio formado, em parte, por doações de beneméritos já falecidos e, em grande parte, por um aporte oriundo da Caixa Econômica Federal, vale dizer, do Estado brasileiro. Ora, tal patrimônio, público em sua essência, exige uma injeção constante de crescentes recursos, materiais e humanos, que esses associados se demonstraram incapazes de arregimentar. Portanto, a realidade incontornável é de uma singela simplicidade: os investimentos necessários para evitar outros furtos e reverter o processo de profunda degradação do Museu estão fora do alcance da sociedade que o controla.

A passagem do Masp à esfera dos poderes públicos afigura-se como uma solução altamente positiva. O bom desempenho de instituições como a Pinacoteca do Estado, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e o Museu da Língua Portuguesa demonstra uma notável racionalização na gestão pública da cultura. É preciso adotar para o Masp um estatuto jurídico e um modelo de gestão à imagem e semelhança dessas instituições que têm dado certo. Ao garantir o fluxo de recursos e uma direção confiada a um profissional da área (assessorado por um conselho científico), tal fórmula jurídica permitirá sanar duas das causas maiores da crise aguda do Museu.

O prédio do Masp é um próprio da Prefeitura, cedido em comodato à sociedade Masp por 40 anos. Ele deverá ser devolvido em 12 de novembro de 2008. A ocasião é perfeita para se retirar das instâncias privadas vigentes o controle do Museu e para se inaugurar uma outra fase de sua história, mais eficiente e sobretudo mais compatível com suas necessidades atuais e futuras. A municipalidade de São Paulo não possui um grande Museu de Arte. É mais que chegado o momento de preencher esta lacuna: que os poderes públicos – do Município, do Estado e/ou da Federação – intervenham para permitir que o Masp torne-se, enfim, o Museu de que a megalópole que somos necessita!

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h00

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O papa e a razão

Continuo aqui os comentários sobre a nova encíclica do papa, que já foi assunto de posts anteriores.

 

Ratzinger afirma que a fé não se resume a uma questão de convicção individual. “Como é que se chegou”, pergunta, “a considerar o cristianismo como busca egoísta da salvação que se recusa a servir os outros”?

 

O erro, segundo Ratzinger, vem com a própria idade moderna. A descoberta da América e as novas conquistas da técnica inauguraram uma nova época na história humana. A encíclica elege como alvo as concepções de Francis Bacon (1561-1626), que confiava numa “vitória da arte sobre a natureza”, ou seja, numa nova correlação entre ciência e prática; a redenção não viria da fé, mas da possibilidade de se instaurar, neste mundo mesmo, “o reino do homem”.

 

Desse modo, diz Ratzinger, a fé passou a ser entendida como algo irrelevante para o mundo. “Esta visão programática determinou o caminho dos tempos modernos, e influencia inclusive a atual crise da fé que, concretamente, é sobretudo uma crise da esperança cristã.”

 

 

Progresso, razão, liberdade: são estes três conceitos que o papa considera necessário criticar, ou, pelo menos, reduzi-los a dimensões mais modestas. O leitor da encíclica pode ver com clareza que o estigma de “reacionário” e “conservador”, que se aplica freqüentemente ao papa, está longe de ser um mero clichê jornalístico.

 

Ratzinger combate a idéia de que razão e liberdade possam “garantir, por si mesmas, em virtude de sua intrínseca bondade, uma nova comunidade humana perfeita”. E recorre a dois exemplos fartamente conhecidos: a revolução francesa e a revolução russa, que visando a instituir uma comunidade perfeita produziram os assassinatos e os horrores que se conhece.

 

Sempre me pergunto, nessas ocasiões, por que sociedades desenvolvidas e livres, como Holanda ou Dinamarca, nunca são lembradas como experiências sociais bem-sucedidas dentro desse mesmo espírito de “modernidade” que o papa quer criticar... Dois países protestantes, aliás.

 

Para combater os ideais modernos de razão e liberdade, o papa utiliza um recurso bastante capcioso. O socialismo defendido por Marx não deu certo, diz Ratzinger, porque “o homem permanece sempre o homem”. Marx esqueceu “que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal. Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro é o materialismo: de fato, o homem não é só o produto de condições econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições econômicas favoráveis.”

 

Acho que há formas mais convincentes de explicar o fracasso do sistema soviético, ou os horrores de Robespierre, por um excesso de confiança na razão e na liberdade... Se foram terríveis os crimes cometidos nesses períodos, eles o foram exatamente porque atentaram contra a razão e a liberdade humanas. E todo historiador sabe perfeitamente que, na Rússia de 1917, as condições econômicas eram tudo, menos “favoráveis” ao projeto que se queria implantar.

 

Por outro lado, como fica a “esperança” quando alguém afirma que o “homem permanece sempre o homem”? Ao contrário, vejo que, em condições materiais favoráveis, não é que todo mundo se torne santo –mas as possibilidades de se transformar num genocida ao estilo de Darfur tendem a diminuir. Em determinada sociedade, a maioria da população se entrega a festins de violência, racismo e intolerância. Em outra sociedade, o número de psicopatas decresce a uma minoria estatística. O materialismo, embora não explique tudo, ajuda muito.

 

Quanto à razão, Ratzinger admite que seja um grande dom de Deus à humanidade. Mas, pergunta, “a razão inteira reduz-se à razão do poder e do fazer?” Certamente, não. Mas o argumento de Ratzinger leva a identificar o domínio da razão com o domínio da ciência. Ninguém ignora que a ciência, sozinha, pode ter efeitos tão benéficos quanto devastadores. Cria remédios e bombas atômicas. Por isso mesmo, podemos falar em usos “racionais” e “irracionais” da tecnologia. Não é preciso abandonar o conceito de razão quando se quer criticar, por exemplo, o uso de armas químicas... Mas, para Ratzinger, armas químicas seriam um exemplo de um excessivo domínio da razão...  Claro que, com esse estratagema, só a Fé se apresenta como remédio para nossos males.

 

“Não é a ciência que redime o homem”, prossegue o papa. “O homem é redimido pelo amor.” Mas não é preciso, a meu ver, jogar com uma alternativa tão radical e desbalanceada. Que tal se disséssemos: “Não é a ciência que redime o homem; o homem é redimido pela razão”? Não sei de horrores na história humana que não tiveram a razão entre suas primeiras vítimas. Sei de muitos horrores, entretanto, que tiveram a fé do seu lado. Mais respeito, por favor, com a razão –essa velha senhora é acusada de crimes que não cometeu.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h54

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Um poema de Ron Padgett

Um poema de Ron Padgett

Eis alguns versos que podem fazer sentido nesta época do ano. Insisti no uso do gerúndio, ao traduzir, porque o aspecto coloquial, tenso e culpado do poema se beneficia com isso. O poeta se chama Ron Padgett, e o poema está no livro How to be perfect

 

Às vezes quando eu ligava

para minha mãe lá em Tulsa, ela

dizia “espera um pouco, Ron, deixa

eu abaixar essa coisa”, e a coisa

era o som da televisão, e ela

ficava procurando o controle remoto

e se confundia com aqueles botõezinhos

enquanto a minha irritação ia crescendo

e a impaciência e eu tinha vontade de explodir

com ela dizendo “você assiste televisão demais

e muito alto e por que você não passeia um pouco

fora de casa” porque eu não tinha jeito

de encarar o medo que eu tinha da velhice

dela e do meu coração que ficava indiferente

a ela ainda amando ela mas sem querer

largar da minha própria vida vivendo

perto dela de modo que ela me visse todo dia

e não ficasse só me ouvindo, e é por isso

que ela abaixava o volume da TV e dizia,

“Agora melhorou”, e de vez em quando

se abria num relato em detalhes

de não sei que porcaria ela estava assistindo.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h49

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humildade e arrogância

Um pouco mais sobre gênio e humildade. Acaba de sair um livro autobiográfico de James Watson, um dos maiores cientistas de nosso tempo (descobriu, junto com Francis Crick,a estrutura do DNA): Avoid Boring People.

 

A carreira de James Watson, como é notório, acabou mal recentemente: o prêmio Nobel de 1953 foi despedido do emprego por ter afirmado, numa ridícula especulação, que os negros não são tão inteligentes quanto os brancos.

 

Coube a um embaraçado geneticista americano, Jerry Coyne, escrever para o Times Literary Supplement de 14 de dezembro uma resenha do último livro de James Watson.

 

Não dava para deixar de mencionar os últimos papelões do grande gênio. Mas Jerry Coyne tenta salvar a “complexidade” da figura, e conta o seguinte episódio.

 

Toda vez que trato de julgar Watson, meus pensamentos se voltam para uma tarde de sábado na primavera de 1992 –Dia dos Alunos na Universidade de Chicago. Eu e um colega estávamos conversando no laboratório, quando sentimos a aproximação de um mal-ajambrado senhor de idade, cheio de indomadas mechas de cabelo branco. Ele nos informou que a sala em que estávamos era uma sala de aulas práticas no tempo em que ele era estudante. Meu colega disse para ele que agora o lugar era utilizado para pesquisas sobre DNA. “O que é que vocês fazem com DNA?”, perguntou o velhinho. Vendo que o visitante não conhecia nada sobre moléculas, meu colega ofereceu-lhe uma explicação detalhada e paciente sobre como ele estava identificando a seqüência de um fragmento de DNA, e para isso usou a analogia de contas coloridas num colar. O velhinho ouviu tudo com atenção e entusiasmo, assentindo esporadicamente para os detalhes que tinha entendido.

 

Os alunos mais velhos finalmente o apresentaram. Meu colega, que ficou roxo de vergonha, percebeu que estava explicando o DNA, como se fosse para uma criança, para Jim Watson. Mas, longe de ficar ofendido, Watson ficou tão contente de saber que um cientista tinha gasto tanto tempo e atenção para explicar o seu trabalho, que dotou nosso departamento de uma generosa bolsa de conferências.

 

Como se pedisse desculpas a Watson por ter aludido a seu racismo, Jerry Coyne termina o artigo com a seguinte frase: “assim, também assim, é o real –e complexo—Jim Watson”.

 

Como no caso de Esa Pekka-Salonen, citado em post anterior, o discípulo parece excessivamente reverente ao mestre. Não consigo ver, na narrativa de Jerry Coyne, outra coisa além da perversidade de um prêmio Nobel se fazendo de bobo diante de pesquisadores inocentes. É a partir de uma posição de extremo poder –poder quase aterrorizante—que James Watson brinca de gato e rato com os dois jovens cientistas. Estaria pronto a destroçá-los a qualquer deslize.

 

 

É pelo alívio de não ter sido destroçado que Jerry Coyne se mostra agradecido. Do mesmo modo, Esa Pekka-Salonen cultua as lições que recebeu de Lutoslawski pelo simples fato de este não ter reprimido com uma bronca homérica sua audácia juvenil. Gênios como Lutoslawski e James Watson bem que poderiam ter recebido, nesses episódios, uma boa lição. Mas, se não as tiveram, é porque Jerry Coyne e Esa Pekka-Salonen não são gênios. 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h52

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o papa performático (2)

 

 

 

 

 

Para quem sempre soube que havia três virtudes, não me lembro se teologais ou cardinais—a fé, a caridade e a esperança—é bastante estranho ver, na encíclica do papa que estou comentando, uma identificação quase que perfeita entre “fé” e “esperança”.

 

Bento 16 desenvolve uma erudita exegese dos textos canônicos para estabelecer esse ponto. O que será que ele pretende? Talvez dizer que não pode haver esperança fora da fé... vejamos.

 

Os cristãos, diz Ratzinger, “sabem em termos gerais que sua vida não termina no vazio”. Qual o sentido do verbo “saber”, nessa frase? Se fosse apenas uma esperança, seria apenas o que todo mundo deseja. Mais do que uma esperança, é um “saber”; poderíamos traduzir o termo por “convicção”.

 

Isso, entretanto, não basta para o papa. Convicções são crenças individuais. Está entretanto em jogo a fé, ou seja, algo que transcende o indivíduo. O erro do protestantismo, segundo o papa, foi justamente confundir fé com convicção individual. A salvação, nesse sentido, seria muito pobre se se concentrasse neste ou naquele indivíduo, agraciado com ela.

 

Simpático, porém terrível: a mensagem do Evangelho não se restringe, modestamente, ao âmbito de cada pessoa, mas só será efetiva se envolver a vida de toda a comunidade... Não estaremos então, diante de um sonho totalitário e católico ao mesmo tempo? Importa evangelizar a sociedade inteira, não levar a boa nova a cada alma individual. Foi sem dúvida esse o pressuposto de todo o catolicismo de esquerda. Ratzinger, evidentemente, elimina o esquerdismo da mensagem, mas mantém o ímpeto legislador do cristianismo sobre a sociedade em seu conjunto.

 

Não seria melhor dissociar, de vez, esperança e fé? Posso ter esperança em dias melhores, esperança no progresso, sem precisar para isso de nenhuma fé religiosa...

 

Vê-se claramente, então, qual o objetivo da encíclica. Trata-se de combater os esperançosos sem fé, e de combater os religiosos que vêem na fé uma simples questão de convicção (ou de graça divina). A saber, esquerdistas e protestantes.  Eis um trecho da encíclica:

 

como pôde desenvolver-se a idéia de que a mensagem de Jesus é estritamente individualista e visa apenas o indivíduo? Como é que se chegou a interpretar a “salvação da alma” como fuga da responsabilidade geral e, consequentemente, a considerar o programa do cristianismo como busca egoísta da salvação que se recusa a servir os outros?

 

Um esquerdista haveria de exultar com essas preocupações papais. Mas a encíclica se encaminhará para outros objetivos. Depois continuo.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h53

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voltaire de souza

Mais um conto natalino do cronista do "Agora".

 

NOEL NO ARMÁRIO

 

Natal. Tempo de ver a família.

Beatriz estava nervosa. Tinha uma notícia importante a comunicar.

--O pessoal lá de casa é tão preconceituoso...

Mas seu amor era mais forte.

--A Carla. Só ela me fez sentir uma mulher.

O plano era apresentar a nova namorada na festa de Natal.

A mãe de Beatriz, contudo, tinha outras preocupações.

--O Gonçalo está mal de saúde. Já não levanta da cadeira.

A velha roupa de Papai Noel ia ficar no armário.

--Quem vai fazer a alegria das crianças?

Um sorriso iluminou o rosto de Beatriz.

--Deixa que eu cuido disso.

Carla foi avisada. Tinha o necessário. A obesidade. O riso fácil e espontâneo.

--Hô – hô- hô. Só preciso da barba e do saco.

O namoro foi bem recebido pela família.

Na base do peru e do bate-o-sino-pequenino.

A sexualidade humana é como roupa de Papai Noel.

Na hora certa, acaba saindo do armário.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h20

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o papa performático

Comentei, no artigo desta quarta-feira, alguns trechos da encíclica de Bento 16 sobre a esperança e a fé. Infelizmente, o espaço foi curto para analisar sua argumentação, que a meu ver tem a virtude de se dirigir não aos católicos exclusivamente, mas a todo leitor de boa fé –mesmo o que for ateu, como é o meu caso.

 

Discordei logo do início da encíclica, em que Ratzinger aponta o que considera ser um “aspecto performativo” da mensagem cristã. Ele se refere ao clássico livro do filósofo analítico J. L. Austin, How to do things with words. Austin examina uma série de enunciados que seria tolo perguntar se são “verdadeiros” ou não.

 

Por exemplo. Se um padre, depois de ouvidos os votos sacramentais, declara alguém marido e mulher, o casamento se fez: a frase do padre efetivamente “mudou” o mundo, e é a condição essencial para que Fulano e Fulana se tornem, de fato, marido e mulher. O mesmo quando alguém diz: “está encerrada a sessão”. A sessão, por meio dessa frase, foi de fato encerrada.

 

Ratzinger afirma que, nesse sentido, também o Evangelho é “performativo”. “Não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber [por exemplo, a da Salvação da alma], mas uma comunicação que gera fatos e que muda a vida”.

 

Ele continua, belamente: “a porta tenebrosa do tempo, do futuro, foi aberta de par em par. Quem tem esperança, vive diversamente; foi-lhe dada uma vida nova”.

 

Mas Bento 16 está ampliando, nessa passagem, de forma indevida o conceito do “performativo”. A circunstância de um enunciado produzir efeitos reais não é suficiente para tornar esse enunciado “performativo” no sentido estrito.

 

Inúmeros enunciados geram efeitos. Se ouço pelo rádio que um furacão se aproxima, procuro um abrigo. Se a previsão é de tempo ruim, saio com um guarda-chuva. A frase que ouvi no rádio muda o meu comportamento. Mas não mudou a realidade, do mesmo modo que uma frase performativa é capaz de fazer.

 

Se o presidente de uma mesa-redonda diz: “estão abertas as inscrições para os debates”, isso automaticamente abre as inscrições para os debates. Não é a mesma coisa, por exemplo, do que o efeito que uma previsão do tempo possa ter sobre o comportamento individual (que envolve o ato de acreditar ou não no meteorologista). Trata-se de um estado de coisas que passa a ser instituído pela simples autoridade (reconhecida) de quem fala.

 

Nada mais católico, no fundo, do que minimizar essa diferença, como faz a encíclica do papa. Pois a base da fé católica está na autoridade ritual, sacramental, de uma hierarquia. Se alguém disse, está falado. Isso vale na vida cotidiana, nos enunciados performativos descritos por Austin. Não vale, entretanto, na vida intelectual moderna, onde o “quem diz” é menos importante do que a verificabilidade e o conteúdo do que foi dito.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h04

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Ensaiando Haydn

Ensaiando Haydn

Escrevi num post anterior sobre humildade e arrogância de maestros, e há um DVD capaz de ensinar alguma coisa sobre isso. É um filme de Barrie Gavin, com cenas do maestro Christoph von Dohnányi ensaiando uma sinfonia de Haydn com a Philharmonia Orchestra. Já passou na televisão, no canal Film & Arts, e está disponível no youtube também

 

A sinfonia de Haydn (número 88, em sol maior) é uma obra-prima de lógica, eferverscência e humor. Dohnanyi comenta: não temos nada, nos dias atuais, que se possa comparar como entretenimento de altíssimo nível... e, no fundo, o que Haydn queria era fazer entretenimento!

 

Ele –e a orquestra—se divertem bastante durante o ensaio. Há uma alegria de fazer música, sem formalidades e, sobretudo, sem violência. Dohnányi reclama de algumas afinações, pede a um ou outro solista que seja menos mecânico, e diga alguma coisa com as notas que tem para tocar. Mas o principal é seu poder de criar um clima de compreensão, de estímulo, de entusiasmo que parece especialmente adequado para a sinfonia que será tocada.

 

Dohnányi cita com algum horror um ensaio que assistiu da Primeira Sinfonia de Brahms, com Wilhelm Furtwängler. “Por vezes, o solista não te dá aquilo que você estava querendo ouvir”, diz ele, e isso aconteceu com o encarregado de um solo de oboé naquela obra. “A orquestra inteira ficou parada, enquanto Furtwängler ensaiou durante meia hora a passagem com o solista, parando e mandando repetir a cada segundo”... Claro que o resultado ficou bom, mas Dohnányi resume: “ele era um assassino”.

 

Um senso de comunicação humana mais aberta pode ser intuído no ensaio, e mesmo nas instruções de Dohnányi para aquela obra específica. Em alguns momentos, ele recomenda à orquestra que toque tal passagem como um diálogo entre duas pessoas; ou pede, no trio do terceiro movimento, que todos ouçam o fagote, a quem confia um potencial de surpresa na execução.  Seus comentários, em entrevista, repetem muito a palavra “humano”. Por exemplo:

 

“Há coisas que você não consegue explicar. Você vê que há um instrumentista nervoso na orquestra, mas de algum modo acredita que ele vai conseguir tocar aquele trecho –e ele consegue. Se você não confiar nele, e ficar nervoso também, provavelmente ele errará e atrapalhará tudo. São coisas, sabe, que acontecem entre seres humanos”.

 

Dohnányi parece ter bom desempenho nesse quesito.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h52

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Júlio Neves, sem condições

Não sou de fazer comentários pessoais e demonizar indivíduos, mas acho que não estou sozinho ao dizer que é hora de Júlio Neves pedir demissão da presidência do Masp. Ele está há dez anos nesse cargo, e não deu sinais de capacidade para superar uma crise que se aprofunda de maneira espantosa.

 

Ainda hoje leio que o tesoureiro do Masp, falando em nome da instituição, defende que cerquem o prédio com grades...!

 

Quem leu alguns artigos meus sobre o Masp sabe que não tenho nenhum fetichismo com relação à obra de Lina Bo Bardi. Mas cercar de grades o Masp já é, por si, uma idéia que mereceria levar ao impeachment de toda a direção do museu.

 

Na “Veja São Paulo” de algumas semanas atrás saiu uma matéria com idéias para superar a crise do Masp. Vale a pena ler. É impressionante a falta de iniciativas e de transparência da atual gestão. Como é possível que não exista um sistema de captação de recursos eficiente no Masp?  Será que não haveria, na sociedade paulistana, gente disposta a contribuir para fechar um rombo de 10 milhões de reais nas suas contas? Por que –segundo a revista—não ficam disponíveis na internet os balanços financeiros e relatórios de atividades do Masp?

 

E como deixam três vigias cuidando do prédio, e mais nada, depois de uma tentativa de roubo há menos de dois meses?

 

Se o Masp falir, uma cláusula no seu estatuto prevê que todo o acervo será encampado pela Pinacoteca do Estado.

 

Eis um caso em que uma entidade pública mostra mais eficiência do que a famosa “iniciativa privada” –que tem na direção do Masp representantes dos mais ilustres, mas aparentemente incapazes de gerir aquilo com padrões minimamente aceitáveis.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h02

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maestros humildes e arrogantes

maestros humildes e arrogantes

Na edição de novembro da revista Gramophone, o maestro Esa Pekka-Salonen conta um encontro que teve, nos anos 80, com o compositor polonês Witold Lutoslawski, já uma celebridade indiscutível no mundo da música contemporânea.

 

Pekka-Salonen tinha pouco mais de vinte anos na época (nasceu em 1958), e estava coberto de arrogância juvenil. Tinha estudado em profundidade algumas obras de UOL Busca Witold Lutoslawski, em especial sua Segunda Sinfonia. E notara algumas “discrepâncias na organização harmônica da peça”, ou seja, “erros, do ponto de vista técnico”. Ele ia reger a peça num festival em Berna, e lá encontrou-se com o compositor.

(veja a jovem violinista Alexandra Soumm interpretando "Subito", a última composição de Lutoslawski, aqui)

 

Foram almoçar juntos. Pekka-Salonen narra o encontro, do qual saiu envergonhado e culpado. Claro, ele estava com a partitura, e de modo bastante “imaturo”, apontou os erros da composição para Lutoslawski.

 

“Bem, isto me lembra uma história”, Lutoslawki respondeu. O jovem [maestro] Hermann Scherchen ia reger uma ópera de Hindemith, e notou montes de erros na partitura. Hindemith desobedecia as regras de sua própria composição, e Scherchen perguntou-lhe: “o que vamos fazer com respeito a esses problemas?” Hindemith respondeu: “Querido Hermann, se você não tiver sucesso como regente, você vai virar um excelente revisor tipográfico”.

 

Lutoslawski contou a história com um sorriso angelical no rosto. Depois de ouvi-la, Pekka-Salonen caiu em si: “Eu me senti completamente, e horrivelmente, estúpido. Mas aprendi muito em meio minuto. Não apenas sobre música, mas sobre a vida, sobre as pessoas, e sobre mim mesmo também... Eu, como um jovenzinho, estava terrivelmente ansioso para mostrar o que eu tinha descoberto... E Lutoslawski não apenas me mostrou o meu lugar, mas fez isso de modo muito gentil e pedagógico”.

 

Não se pode dizer que Pekka-Salonen não tenha ficado humilde depois dessa “lição”. Mas acho que o errado, na história, não era ele, e sim Lutoslawski. Confrontado com aqueles “erros técnicos” na partitura, o compositor, por mais famoso que fosse, tinha duas alternativas. Ou reconhecer que tinha errado, e tentar corrigir os detalhes ali mesmo, ou então explicar a Pekka-Salonen por que razão tinha preferido infringir as próprias regras naquela passagem.

 

Esta, a meu ver, seria a real humildade do mestre. Pekka-Salonen pode ter saído mais humilde do encontro, mas Lutoslawski, apesar de seu sorriso angelical, continuou com a arrogância de sempre. Devia é ter agradecido e elogiado um jovem maestro que tinha estudado tão cuidadosamente sua partitura.

 

UOL Busca Esa Pekka-Salonen

Escrito por Marcelo Coelho às 19h55

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latinhas recicladas

latinhas recicladas

Na linha da arte popular, recebi de uma leitora do blog algumas imagens de um concurso de reciclagem de latinhas, creio que patrocinado por uma marca de cerveja, na Turquia. Há um caminhãozinho que é um primor:

  

Há também um trompete interessante, mas o mais legal é o barzinho em miniatura que se pode ver em segundo plano.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h56

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Argumento forte

Se algum dia eu cometer algum crime, não tenho dúvidas quanto ao advogado que vou procurar. Fiquei espantado com a vitória de César Borges, defensor de um dos acusados do assassinato da missionária Dorothy Stang.

 

Não vi o processo, é claro, e me baseio na notícia de jornal. César Borges conseguiu que o julgamento fosse anulado porque um dos argumentos da defesa não foi submetido a exame do júri.

 

O argumento era que a freira chegou a ameaçar o acusado antes do crime.

Se comprovada a tese, não é que o assassino vai ser absolvido por legítima defesa, mas sua pena pode ser reduzida em até um terço.

 

Freira perigosa, essa. Pior até que o bispo Cappio, que ameaça apenas morrer de inanição.  

 

    

slide utilizado em antigos truques de fantasmagoria

Escrito por Marcelo Coelho às 19h40

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voltaire de souza

Um dos hábitos do cronista do "Agora" são as histórias natalinas. Aqui vai uma.

 

BRILHOS DO NATAL

 

 

Esta época do ano é cruel para os corações solitários.

Elizabeth tinha cerca de quarenta anos.

Há muito tempo sem encontrar um amor.

Do alto de seu apartamento no Ipiranga, ela via as luzes de Natal.

--E eu não tenho com quem festejar.

A família longe. As amigas meio arredias.

A noite chegava com jeito de chuva. Elizabeth adormeceu no sofazinho.

Umas batidas no vidro da sacada.

--Abre... abre, por favor...

Entre chuvas e relâmpagos, o vulto de um homem gordo surgiu.

--Na sacada do décimo andar? Como pode? Será o Papai Noel?

Não era. Tratava-se do sr. Martinho. Zelador do edifício.

Instalando as lâmpadas chinesas da decoração natalina.

Elizabeth abriu a porta da sacada e o próprio coração.

O sr. Martinho enrolou-se em seu corpo como um fio elétrico em volta de um pinheirinho triste. Luzes se acenderam na mente da mulher solteira.

--Djingo béu, djingo béu...

Pessoas solitárias são como lâmpadas. Brilham quando ligadas na tomada.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h15

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Chauí e o totalitarismo

Seria a distinção entre “autoritarismo” e “totalitarismo” uma invenção da direita, em tempos de Guerra Fria? A idéia básica é que regimes militares, como os do Brasil, Chile e Argentina, durante os anos 70, merecem a qualificação de “autoritários”, porque repressivos e antidemocráticos, mas não “totalitários”, porque não pretendiam, como o nazifascismo e o comunismo, impor normas a todos os aspectos da vida social. Falava-se, por exemplo, em “arte proletária” ou em “arquitetura nazista”, num modelo de família, de educação, típicas do fascismo, ou de um “novo Homem” a surgir a partir da revolução bolchevique... Ambições que os regimes militares não possuíam, apresentando-se, no mais das vezes, como interregnos emergenciais, necessários para preparar determinada sociedade à “volta” de uma “verdadeira democracia”.

 

Cito em seguida parte do depoimento de Marilena Chauí sobre os 30 anos da criação do Cedec, publicado na revista Lua Nova no. 71, de 2007. Quatro temas, segundo a filósofa, eram muito discutidos na época, e tiveram papel importante durante a formação do Cedec—um instituto de pesquisa e reflexão política, nos moldes do Cebrap, fundado em 1978.

 

O primeiro tema era a da crise de legitimidade do “sistema” –a estrutura de poder montada pela ditadura. O segundo tema era o do autoritarismo na América Latina. Eis um trecho do depoimento:

 

Havia um debate que, de alguma maneira, estava polarizado entre duas interpretações a respeito desse autoritarismo: seria ele uma resposta a uma necessidade histórica (política) ou a uma necessidade econômica (o surgimento do capital multinacional)? Pela esquerda, vinha a explicação econômica, através de Enzo Faletto (Flacso contra Cepal) e Fernando Henrique Cardoso (Cebrap), isto é, a teoria da dependência. Pela direita, partindo do sociólogo espanhol radicado nos Estados Unidos e ligado ao Departamento de Estado norte-americano, vinha a explicação política, isto é, a diferença entre autoritarismo e totalitarismo, posição que foi encampada por intelectuais brasileiros como Bolívar Lamounier, Celso Lafer e José Guilherme Merquior. (...)

 

[Segundo a teoria da dependência] o autoritarismo aparecia como conseqüência da fraqueza do capital nacional, que precisava de um Estado ditatorial para estabelecer a relação com o capital internacional. Por seu turno, Juan Linz dava-se como tarefa a defesa do franquismo. E para isso propunha uma tipologia para diferenciar o autoritarismo do totalitarismo, afirmando que este último é a forma política do marxismo e se distingue do autoritarismo porque é imóvel, sem contradições, fixado, de uma vez por todas, sob a forma da coação, da repressão, do supertrabalho e do domínio do Estado; sobretudo, é uma ideologia (entendendo-se por ideologia não o conceito marxista, mas a concepção de muitos sociólogos norte-americanos para os quais a ideologia é um conjunto coerente de idéias que explicam a totalidade do mundo e são defendidas por um partido político). O autoritarismo, em contrapartida, não é uma ideologia; é temporário, limita algumas liberdades, mas não todas, opera politicamente sob uma Constituição e com o Poder Legislativo etc. Na América Latina, havia autoritarismo como defesa do continente contra a ameaça do totalitarismo, isto é, do comunismo.

Lembro-me de ter lido Juan Linz na década de 80, mas não posso jurar sobre o que ele dizia ou não dizia. Acho muito estranho, entretanto, demonizar desse jeito uma tipologia perfeitamente razoável, estabelecendo diferenças entre regimes autoritários e totalitários. Isso não significa defender os primeiros.

 

Em se tratando de Marilena Chauí, tão próxima, naquele tempo, às críticas ao regime soviético formuladas pelo grupo “Socialismo ou Barbárie”, de Lefort e Castoriadis, a recusa a essa distinção é das mais inexplicáveis. Foi justamente o tempo em que o termo “totalitarismo”, antes utilizado apenas no contexto da direita na Guerra Fria, ganhou trânsito entre os intelectuais de esquerda. Quando se falava em “radicalização” da democracia, em movimentos sociais (contra a lógica burocrática dos partidos de esquerda), em certa “reinvenção” da política, uma das inspirações era o “Solidariedade” de Lech Walesa. O PT surgiu, nesse contexto, como uma espécie de “não-partido”, sendo acusado pela esquerda tradicional de “obreirismo”, “espontaneísmo”, falta de leninismo etc... E seria uma resposta de esquerda aos males da burocratização, do culto à personalidade, dos “desvios” e do... totalitarismo que imperavam no campo soviético.

 

Quando alguém como Marilena Chauí minimiza a questão do totalitarismo, ou pelo menos desconfia do termo, acho que está se esquecendo da própria história da esquerda, e do PT, dos anos 80 para cá.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h20

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A vida dos outros (2)

A vida dos outros (2)

Terei sido, em meu artigo sobre o filme "A Vida dos Outros" (ver post abaixo), preconceituoso com os alemães? É a opinião de um leitor, cuja carta transcrevo aqui.

A ausência também se revela

 

A Folha de S. Paulo publicou no dia 12 de dezembro um belo artigo de Marcelo Coelho. Com o título de “A vida dos outros” (E a nossa também), o artigo comenta o filme do mesmo nome agora em exibição de São Paulo. Sob a direção de Florian von Donnersmarck centraliza-se no personagem Capitão Wiesler, funcionário da sinistra Stasi.

A barbárie deve ser denunciada, mas dentro de um contexto que não oculte a história, que não dirija o olhar para o secundário às custas do ocultamento das causas, dos agentes e das torturas e opressões. Caso contrário, a denúncia reforça justamente o que queria condenar.

O totalitarismo é um câncer multifacetado, mas não se prende a nacionalidades ou etnias e sim a um caráter nazifascista. Atacar nacionalidades e etnias é exatamente o ato do nazifascismo.

O autor em apenas uma  frase se refere ao autoritarismo nazifascista, mas caracteriza o erro, a barbárie ao povo alemão. As frases do artigo constroem um outro discurso, um discurso nazifascista. Vejamos que além do que se oculta, instila-se um outro pensamento, o pensamento que monopoliza a barbárie nos alemães., como bem demonstram várias observações:
“Sua abordagem é profissional, burocrática, germânica”

“É uma situação bem germânica, de burocracia estatal impecável, nazista ou comunista”. “...o capitão Wiesler, com os fones de ouvido bem acoplados à cabeça ereta de prussiano”;

Felizmente Marcelo Coelho é um jornalista e escritor dotado de lucidez e, com certeza, sabe que a barbárie se estende a todos os povos e não se prende a uma nacionalidade e sim a uma ideologia com tentáculos externos e internos.Tanto é verdade que nesse artigo chega a se referir a situações nossas quando cita a prisioneira deixada aos instintos de presidiários e ao Capitão Nascimento. Mas... que o ocultamento da ideologia sugeriu fortemente um sentimento preconceituoso contra os alemães...fica também muito claro.

 

Espero não ter passado nenhuma imagem de preconceito. Ao contrário, creio que há características culturais ( e não genéticas) nos alemães da Prússia que foram capazes de levá-los, tanto à obediência cega diante das ordens superiores, no caso do nazismo, quanto a situações de extrema independência moral, em função de uma mesma e neutra virtude pessoal: a da disciplina. É por ser culturalmente prussiano que o capitão Wiesler desobedece às regras, quando estas infringem seu código moral profissional. É por ser culturalmente prussiano que o capitão Wiesler se tornou um funcionário da Stasi. Mais detalhes no excelente (mas um bocado raivoso) livro  de Norbert Elias, Os alemães.

 soldado prussiano em crise de consciência

Escrito por Marcelo Coelho às 03h58

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A vida dos outros

A vida dos outros

Por falar em Alemanha, meu artigo de ontem na Ilustrada (assinantes podem ler aqui) tratou de “A Vida dos Outros”,

 filme sobre um dilema moral um tanto implausível vivido por um funcionário da Stasi, a polícia política da DDR. Procurei traçar uma comparação entre o capitão Wiesler, seríssimo funcionário germânico, e o nosso capitão Nascimento, de “Tropa de Elite”.

 

A comparação, por exigência de espaço e simetria vocabular, talvez tenha ficado um pouco simplista. Achei importante, em todo caso, aproximar as duas realidades para não ficar apenas demonstrando um justificado horror diante do totalitarismo dos antigos regimes do Leste europeu, sem ver o que existe, num país democrático como o Brasil, de prática institucionalizada da tortura e assassinato oficial.

 

Também seria interessante lembrar de “O Bom Pastor”, filme que já saiu em DVD, contando os bastidores da CIA. Tortura para valer, ao contrário do que aparece em “A Vida dos Outros”, é mostrada ali. O comprometimento da espionagem com o Mal –numa forma próxima do absoluto—aparece nesse filme americano: obra de trama mais complexa, e ao mesmo tempo menos psicológica, que o filme de Florian von Donnersmarck.

 

Mas afinal, se o horror da CIA, e o horror do Bope, são tão grandes, o que torna diferente o horror da Stasi? Embora eu não ache irrelevante lembrar as torturas da polícia brasileira e da espionagem americana, há uma diferença importante com relação ao que ocorria nos países comunistas.

 

Uma vida regulada inteiramente pelo Estado policial é, apesar de tudo, pior do que a vida sob a violência oculta da repressão capitalista. O domínio sobre a vida privada, exercido pela Stasi, estendia-se a um número muito maior de cidadãos do que o terror da CIA, por exemplo.

 

Na DDR, pelo que conta o filme, você poderia ter de escolher entre abandonar a carreira de atriz ou passar a ser informante da polícia, denunciando seu namorado. À medida que um sistema político toma posse de toda a atividade econômica, intelectual, artística, etc., desaparece o espaço para a vida privada, para a neutralidade pessoal.

 

Por maiores que sejam os horrores e chantagens da CIA, do DOPS, do Bope, a pessoa pode simplesmente refugiar-se, na maioria dos casos, numa neutralidade apolítica. Desiste de combater o regime, mas não é obrigada a se tornar serviçal do regime. Num país totalitário, isso é impossível.

 

Volto à fórmula de Roland Barthes: o fascismo não é o regime que obriga você a ficar quieto, mas sim o regime que obriga você a falar.

 

Nesse sentido, há uma diferença fundamental entre autoritarismo e totalitarismo, e lamento que uma filósofa como Marilena Chauí, no último número da revista Lua Nova, tenha chamado de “direitista” um dos teóricos dessa distinção, o cientista político Juan Linz, como se ele quisesse defender a ditadura militar brasileira chamando-a, apenas, de autoritária, e não totalitária.

 

 

Totalitário é quem não admite o espaço da neutralidade. Espero que Marilena Chauí o admita.

Ulrich Mühe, protagonista de "A Vida dos Outros", morreu em julho de 2007

Escrito por Marcelo Coelho às 03h28

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Para aprender alemão

Uma das coisas bem-feitas que existem no mundo, a meu ver, é a revista Speak Up. Aprendi um bocado de inglês ouvindo o CD que vem junto da revista, com a ajuda da listinha das palavras mais difíceis etc. Mas o que acho admirável é conseguirem apresentar na revista matérias que realmente têm interesse geral. Qualquer pessoa pode ler, não há nada de especializado demais, e ao mesmo tempo alguma informação, por mais leve que seja, é transmitida.

 

Pois bem, os interessados em aperfeiçoar-se em outras línguas podem se arriscar dando uma olhada no site da champs-elysees. É uma editora americana que faz os equivalentes (bem mais modestos graficamente) da “speak up” para quem quer melhorar o italiano, o alemão, o francês e o espanhol. As revistas chegam pelo correio, com CD incluído, e o texto vem com explicações e traduções para o inglês.

 

Encomendei a revista para estudantes de alemão. É uma boa ajuda para quem quer passar do intermediário médio para o intermediário avançado... mas o espírito de cada povo realmente exige um preço aos estudantes de idiomas. Os assuntos da “Schau ins Land” vão do médio-chato para o chato avançado. Exemplo: um passeio pelas instalações da Faber-Kastell, com direito a explicações sobre a técnica da fabricação de lápis. Ou: as negociações da greve nas ferrovias e o problema das férias de verão. Mas também... Quem manda querer saber alemão? 

Joahnn Wolfgang von Goethe

Escrito por Marcelo Coelho às 18h12

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colchões felizes

colchões felizes

Na série de cartazes populares, uma amiga manda esta foto, tirada em São Sebastião. Fica como homenagem a Arthur Virgilio, depois do post anti-tucano do Voltaire.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h29

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voltaire de souza

Na falta de link, vai aqui a íntegra da coluna publicada ontem no "Agora".

 

 

TELHAS COLONIAIS

 

Chuvas. Inundações. Criminalidade.

Nas grandes metrópoles brasileiras, a vida é cheia de stress.

Roberto fazia cara de nojo.

--Antes do Lula não era assim.

Ele punha toda a culpa no atual governo.

--Começou até a ter terremoto no Brasil.

Em Minas, um tremor de terra causou desgraça.

--Acho que foi onde passava o valerioduto.

Roberto olhou com o orgulho a casa recém-construída.

--Felizmente, a segurança é total aqui no condomínio.

A Vivenda do Papo Amarelo era um exclusivo e bem-sucedido empreendimento residencial nos lados da Cantareira.

--Solidez financeira e segurança pessoal.

De noite, vagalumes rivalizavam com os enfeites natalinos nas mansões.

Veio o estrondo. O telhado desabava. Telhas coloniais atingiram o crânio de Roberto. Não era terremoto. Era a queda de um helicóptero.

Que treinava a chegada de Papai Noel na festa especial do condomínio.

Telhados sólidos não garantem uma cabeça em boas condições.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h26

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A cárie sem dor

Uma das sortes que eu tenho é precisar muito pouco de dentista, e as cáries de que me lembro estão há muito tempo sepultadas debaixo de um tipo de amálgama prateado que, é claro, nunca achei muito bonito.

 

Ele, o amálgama, deve estar completando uns trinta anos de idade. Ouço então, da minha nova dentista, o diagnóstico alarmado: essas obturações (de tão desgastadas) parecem um lago! Tempo de refazer todo o trabalho.

 

Sou apresentado ao século 21 odontológico: laser, ultrassom... a dentista e eu temos de usar óculos verde-garrafa –alguma radiação, imagino. As últimas vezes em que fui ao dentista devem ter sido na era pré-Aids, porque essa coisa de gorrinhos, luvas, óculos, como numa sala de cirurgia, ainda me é bastante estranha.

 

Lembro-me melhor, para dizer a verdade, das cadeiras de dentista que eram como as de barbeiro; hoje estou numa espaçonave, e qualquer dia as obturações serão feitas por robôs, se é que precisaremos delas.

 

Mas a sensação de passagem do tempo sugeriu-me, no consultório do dentista, uma imagem mais sombria.

 

Surge uma cárie, muito bem. O dentista chega e tapa. Mas sofremos de uma cárie imensa, que nos rói e perfura a cada dia, até que não sobre nada de nós. Para falar num espírito ainda mais barroco: a cada dia, o tempo cava um pouco mais a tua sepultura... Melhor ser cremado então; de preferência, a laser. 

 

         

Escrito por Marcelo Coelho às 19h19

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orquestra vocal

orquestra vocal

Por falar em transcrições, um dos grandes CDs destes últimos tempos (foi lançado em 2006) é o do coral francês Accentus, dirigido por Laurence Equilbey. Chama-se Transcriptions 2 (o primeiro da série foi feito em 2000), e abre com uma tremenda versão, para coro a capella, do “Inverno” das Quatro estações, de Vivaldi, com palavras da missa de réquiem.

 

A adaptação para coral de uma obra destinada à orquestra de cordas é de autoria de um compositor nascido em 1969, Franck Krawczyk, que sabe usar as vozes (e especialmente as consoantes do texto que elas cantam) de modo a criar um efeito de música contemporânea, instável, inquietante, com luzes nas notas mas inesperadas, sobre esta composição tão batida do repertório clássico.

 

Krawczyk também assina as transcrições de uma obra de Prokofiev (um trecho da cantata Alexandre Nevski) e de uma canção de Schubert (“Heil´ge nacht, du sinkest nieder”), em que voz e piano se transformam num verdadeiro labirinto de vozes, tornando cada palavra do texto uma sucessão de sílabas e ecos em que perdemos e reencontramos, a cada momento, a melodia.

 

Peter Cornelius (1824-1874) adaptou para coro, com textos dos salmos, três peças para piano de Bach, e produz revelações que merecem ser ouvidas muitas vezes.

 

Mais estranhas ainda são as transcrições de obras para piano solo: Des pas sur la neige, de Debussy, ganha textos de Rilke e Mallarmé na reinterpretação de Clytus Gottwald, e ressurge em modernidade imaculada. Talvez mais apelativo, pela extrema sensualidade das vozes solistas, mas ao mesmo tempo irresistível, é o trabalho de Gérard Pesson, confiando ao coro a orquestração riquíssima da Xérazade de Ravel.

 

Tudo é o contrário do que em geral se espera de um disco de música coral a capella: certa austeridade indistinta e luterana, que nos faz meio distraídos para os detalhes da composição. É como se cada peça transcrita fosse colocada dentro do mais preciso caleidoscópio, e todas as suas notas florescessem numa rosácea de cores; cores humanas, cores corais.

 

 Laurence Equilbey

Escrito por Marcelo Coelho às 01h31

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Objetividade, por que não?

“Neutralidade e objetividade jornalísticas são entidades de ficção”. Você já deve ter ouvido essa frase inúmeras vezes. É o excelente ombudsman da Folha, Mario Magalhães, quem a repetiu na edição de domingo do jornal. (assinantes do uol podem clicar aqui)

 

Ele tem fortes motivos para dizer isso. O caso é exemplar. No dia 25 de novembro, o jornal publicou uma matéria sobre a atitude de rádios e TVs venezuelanas em relação ao plebiscito. O título da reportagem era:

 

Mídia venezuelana cobre mal referendo

 

Isso saiu na editoria de exterior. Acontece que, no dia 1 de dezembro, a mesma matéria saiu por engano, na editoria de Política. Só que o título mudou:

 

Cobertura de referendo está mais imparcial, diz estudo.

 

As duas “sínteses” da reportagem, diz Mario Magalhães, estavam “corretas”: mas, “a depender da página, o conteúdo era positivo ou negativo”. Isso porque a neutralidade não existe, etc. etc.

 

Discordo um pouco dessa conclusão. As duas sínteses, ou títulos, estavam “corretas”. Mas há títulos mais corretos do que outros, e isso pode ser avaliado com imparcialidade.

 

O que dizia a reportagem? Eis os dois parágrafos iniciais.

 

Um levantamento sobre o comportamento das polarizadas TVs e rádios venezuelanas mostra que os eleitores do país continuam sendo mal informados sobre aprovar ou não mudanças em 69 dos 350 artigos da atual Constituição, em referendo no próximo domingo.

 

Mas o estudo aponta duas novidades em relação a campanhas passadas: a cobertura mais equilibrada dos meios privados com maior audiência e o aumento do alcance da parcializada imprensa estatal.

 

Lendo esses parágrafos, me parece que está sem dúvida mais correta a manchete que diz: Cobertura de referendo está mais imparcial.

 

Não é incorreto dizer que “mídia venezuelana cobre mal referendo”. Mas, do ponto de vista jornalístico, qual era a notícia? Sempre se soube da parcialidade da imprensa venezuelana. A novidade está, justamente, que neste caso a parcialidade estava diminuindo. Isto era o que havia de imprevisto, de novo, de “complexificador” da situação. Como se a reportagem viesse a trazer elementos para tornar mais interessante o que se verificou mais tarde: mesmo com uma mídia não tão antichavista como antes, Chavez acabou derrotado nesse referendo. Aponta-se para uma realidade não tão óbvia quanto aquela apontada pelo título alternativo.

 

Naturalmente, tudo depende do contexto: se a reportagem fosse um complemento a uma cobertura inicial do referendo, ou se estivéssemos lidando com um leitor já razoavelmente informado sobre a coisa, os critérios da edição teriam talvez de variar.

Mas não se trata, a meu ver, de decisões subjetivas ou partidárias, como parece sempre sugerir a tese de que não há objetividade possível no jornalismo. Embora isso não aconteça sempre, uma grande objetividade é possível, sim. Estão em jogo critérios e argumentos que toda pessoa razoável e de boa vontade pode levar em conta e aplicar.

 

Muita gente gosta de lembrar o exemplo do copo que está pela metade. Alguém pode dizer que está meio cheio, outra pessoa que está meio vazio. Isso não impede de medir o copo. Nem de dizer, objetivamente, que está meio cheio, meio vazio. O pressuposto do argumento contra a objetividade refuta o próprio argumento. Se não existe objetividade, quem teria o direito de fazer uma observação tão “objetiva” como essa, a de que a objetividade não existe?

 

 

escultura de Jarbas Lopes

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 20h36

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A pedidos, republico uma crítica que fiz em 2004, para a "Ilustrada", sobre o estranho filme de Fellini.

Pouca gente lê, hoje em dia, os incontáveis volumes de memórias do veneziano Giacomo Casanova (1725-1798). Gabola, jogador e charlatão, pretendia-se diplomata, filósofo, matemático, romancista; seu nome ficou para a história como sinônimo de conquistador e aventureiro.

 

Não é um personagem antipático. Em filmes como “Casanova e a Revolução”, de Ettore Scola, por exemplo, surge como uma espécie de sábio envelhecido e tolerante, a quem Marcello Mastroianni, já em fim de carreira, conferia o maior charme.

 

À primeira vista é difícil saber por que, depois do sucesso de “Amarcord” em 1974, Federico Fellini decidiu-se a adaptar as “Memórias” de Casanova para o cinema. O diretor tem uma indisfarçável antipatia pelo personagem --mas o filme não se torna menos notável por isso.

 

Ao lado de “Satyricon” (1969) e de “Roma” (1972), “Casanova” (1976) pertence ao grupo dos filmes “frios” (isto é, sardônicos, modernos, anti-sentimentais) de Federico Fellini. Não encontramos mais aquelas almas inocentes e brutalizadas presentes nos filmes da década de 1950, como “La Strada” ou “Noites de Cabíria”. Tampouco a nostalgia agridoce de “Amarcord” e de “A Entrevista” se deixa vislumbrar nas cenas, sempre bizarras e elípticas, desta viagem de Fellini através das memórias do famoso libertino do século 18.

 

Tudo, a começar pela figura do protagonista (vivido por um Donald Sutherland descorado, exangue, como que feito de parafina) é feito para provocar no espectador o estranhamento, quando não a repugnância. Não faltam, claro, as assustadoras mulheres fellinianas --embora o diretor desta vez tenha evitado as gordíssimas; aposta mais nas velhas, nas lunáticas e matusquelas. Mesmo a ótima música de Nino Rota não oferece seus habituais e envolventes prazeres ao ouvinte: é áspera, lembrando Stravinsky e Prokofieff.

 

As cenas de sexo, a que Casanova se dedica com profissionalismo e indiferença de ginasta, sucedem-se numa variedade estonteante de cenários, pretextos e países: uma ilhota em Veneza, uma estalagem em Dresden, um caótico palácio em Roma, um misto de santuário e laboratório alquímico em Paris acolhem as atividades do protagonista --que se vê em companhia, respectivamente, de uma freira que parece chinesa, de uma corcundinha de língua agilíssima, de uma italiana frígida e de uma anciã demente e ocultista.

 

Não é preciso dizer que, em todas essas ocasiões, Casanova está na verdade sempre só. A palavra “amor”, algumas vezes pronunciada durante o filme, parece propositalmente deslocada e sem-sentido.

 

Dizia-se muito, nos anos 70, que a voga da liberdade sexual terminaria provocando apatia e saciedade, depois dos escândalos iniciais. O filme de Fellini sem dúvida procura comprovar essa tese, exaurindo Donald Sutherland --e também o espectador-- ao longo de mais de duas horas de maquinais estrepolias.

 

Mesmo assim, quase trinta anos depois da estréia, “Casanova” não envelheceu. As estranhezas de estilo e as interrupções da narrativa parecem ter-se suavizado com o passar do tempo, abrindo mais espaço para a deslumbrante magia do filme.

 

O contraste entre as cenas “vazias” --neve, bruma esverdeada, noite-- e os momentos de saturação quase oriental da tela --carruagens, brocados, adereços-- é operado magistralmente por Fellini, como que simbolizando o destino do personagem, que se alterna entre a promiscuidade e a solidão.

 

Não há praticamente nenhuma cena de nudez em “Casanova”. Já as belas roupas, as cortinas, as cobertas, os véus, lenços, veludos e rendas funcionam como verdadeiros personagens do filme --do mesmo modo que o célebre plástico preto de uma das cenas iniciais. Utilizado por Fellini para fazer de conta que é água do mar, sua evidente falsidade serve para denunciar o artifício de tudo.

 

É que justamente o gosto do artifício, da cerimônia, da ilusão, aproxima o século 18 europeu do mundo tipicamente felliniano dos palhaços, do circo, do teatro, do carnaval. O Casanova de Donald Sutherland é também um “clown”, gélido e lamentável, caminhando sempre para o declínio --e Fellini não hesita em traçar uma hierarquia civilizacional entre as nações, que vai dos refinados salões franceses à rigidez espanhola, à esbórnia inglesa e à franca barbárie alemã.

 

Duas cenas antológicas valem o filme inteiro. O apagar das luzes num teatro em Dresden, enquanto Casanova fica de pé, sozinho, na platéia; e a aparição da carruagem do papa, fulgurante de ouro, sobre as águas congeladas do Gran Canale de Veneza, a que se segue uma dança estilizada e fúnebre do protagonista com sua derradeira amante. Quase insuportável; maravilhoso também.

 

 

Cenas de "Casanova"

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h39

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voltaire de souza

Não postei o link para a coluna do "Agora" de sábado passado. Aqui vai, na série contos de Natal de Voltaire de Souza.

DITADURA DOMÉSTICA

 

O Natal se aproxima. Na TV, os publicitários capricham.

Brinquedos levam cobiça à criançada. Carlos Márcio fechou a cara.

--Esses programas infantis. Fazendo a maior pressão.

Libélulas com controle remoto. Bonecas com expressões humanas.

Ele tirou o controle remoto das mãos do filho mais velho.

--Chega. Até o Natal, ficam todos sem televisão.

Os meninos protestaram. Carlos Márcio mandou todos para a cama.

--Ditadura, única solução. Está suspenso o uso da TV.

Mais tarde, ele se acomodou na poltrona para assistir o noticiário.

Doses de uísque o conduziram a um clima de nostalgia.

--O Natal antes era tão diferente... sem consumismo...

Na tela, uma aparição. Um senhor gordo. Simpático. De gorro vermelho.

--Carlos Márcio... nada está perdido... La victoria será nuestra.

--Papai Noel? Falando em castelhano?

Era o comandante Hugo Chávez. Dando entrevista.

De manhã, os filhos encontraram Carlos Márcio abraçado ao aparelho.

Enfarte. Remorso. No hospital, ele espera o Natal de peito aberto.

Coração e política são como a TV. Às vezes, alguém clica o controle remoto.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h12

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Jogo de cena

Jogo de cena

Fim de férias, e volto a escrever na Ilustrada, comentando “Jogo de Cena”, filme de Eduardo Coutinho. Talvez seja o melhor filme do diretor, para o meu gosto, junto com “Edifício Master”. Saí do cinema entusiasmado, mas o artigo saiu bem mais contido do que eu planejava. Acho que, depois de um tempo só blogando, exagerei na formalidade que associo ao jornal impresso.

 

Meu plano, aliás, era começar descrevendo o estilo meio de padre de Eduardo Coutinho para depois, no final, arriscar uma outra comparação. Pensei na maneira com que ele filma as suas entrevistadas, saindo de um corredor escuro para chegar até o palco onde ele as recebe: aquelas imagens me lembraram as de um nascimento, e nesse sentido Coutinho seria não exatamente um padre, mas um parteiro. Ainda mais porque o assunto filhos/gravidez predomina nos depoimentos.

 

A imagem mais poética do filme, entretanto, não encontra uma tradução visual. Refiro-me ao que conta uma das entrevistadas, que depois de uma tragédia abandonou a casa onde morava, deixando não sei que legumes ou verduras na geladeira. Volta um mês depois, abre a geladeira e vê brotos nascendo lá dentro... Um artista dificilmente poderia inventar uma mistura tão concisa de surrealismo e cotidiano, um símbolo tão inusitado de tragédia e ressurreição. Curiosamente, este é um dos raros pontos em que a atriz, reproduzindo o depoimento da personagem real, acrescenta sentido e profundidade à fala em que se baseou. No original, o detalhe passa meio despercebido, mas na interpretação da atriz ganha toda a sua paradoxal e insólita beleza.

 

E que coragem dessas atrizes, aceitando o desafio proposto por Eduardo Coutinho! A dignidade de Andréa Beltrão, a experiência de Marilia Pêra, o talento de Fernanda Torres só se valorizam nesse jogo onde, certamente, elas sabiam que entravam para perder. Vale por um livro inteiro a respeito de técnica teatral –seus limites, seus recursos, sua grandeza.

 

Talvez daí tenha vindo a minha relativa frieza no artigo para a Folha: vi-me, depois das férias, como um ator entrando no palco, e privilegiei a técnica, digamos, da interpretação, mais do que as emoções que o filme (a realidade do filme) tinham me despertado.  

Escrito por Marcelo Coelho às 00h53

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Uma fonte de João Cabral?

São bem conhecidos os versos de João Cabral de Melo Neto, em “Alguns Toureiros”, que servem como resumo de sua teoria poética feita de controle e discrição:

 

(...) sim, eu vi Manuel Rodríguez,

Manolete, o mais asceta,

não só cultivar sua flor

mas demonstrar aos poetas:

 

como domar a explosão

com mão serena e contida,

sem deixar que se derrame

a flor que traz escondida,

 

e como, então, trabalhá-la

com mão certa, pouca e extrema:

sem perfumar sua flor,

sem poetizar seu poema.

 

Mas eu não conhecia estes versos, que são sem dúvida uma longínqua origem do poema cabralino:

 

To gild refined gold, to paint the lily,

To throw a perfume on the violet,

To smooth the ice, or add another hue

Unto the rainbow, or with taper light

To seek the beautiful eye of heaven to garnish,

Is wasteful and ridiculous excess.

 

[Dourar o ouro fino, pintar o lírio,

Jogar perfume numa violeta,

Alisar o gelo, ou somar outro matiz

Ao arco-íris, ou com a luz de um círio

Querer adornar o belo olho do céu,

É vão e ridículo excesso]

 

 

São versos do King John, de Shakespeare.

 Penelope Cruz e Adrien Brody em "UOL Busca Manolete", filme de 2007. 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h26

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Schumann em preto e branco

Schumann em preto e branco

Quando comecei a ouvir música clássica, nos anos 70, já predominava uma noção de grande purismo nas interpretações: música barroca devia ser tocada em instrumentos de época, e isso se estendia até mesmo nas obras de Scarlatti e Bach para teclado: o “certo”, pelo menos eu achava, era que fossem tocadas no cravo e não no piano.

 

O uso de instrumentos de época se firmou e, felizmente, aperfeiçoou-se do ponto de vista técnico, de modo que as desafinações ocasionais desapareceram dos conjuntos especializados nesse tipo de música.

 

Ao mesmo tempo, caiu o tabu contra as transcrições, paráfrases, embelezamentos românticos de obras mais antigas. Grandes pianistas ressuscitam os estudos insanamente difíceis de um Godowski (que transcrevia composições de Chopin de modo a que fossem tocadas só na mão esquerda, por exemplo) e voltam a algumas peças que faziam parte do repertório de virtuoses de começos do século 20 (como a transcrição da “Ständchen”, uma das primeiras canções de Richard Strauss, para piano solo: ela apareceu recentemente, na glória de seus trinados infinitos, no CD “Horizons”, de Leif Ove Andsnes).   

 

Saiu agora, no selo Arte Nova Classics, um CD que é puro encanto, embora não para puristas: trata-se de uma coleção de quase trinta canções de Schumann, transcritas para piano solo. Perde-se a poesia de Heine, a voz humana, etc., mas ganham-se miniaturas pianísticas tão hipnóticas e cheias de vivacidade quanto as melhores que Schumann compôs.

 

Desde a primeira faixa, “Widmung”, op. 25 n1, é como se o piano fosse banhado por um raio de sol. A felicidade se torna ainda mais intensa, quase febril, na “Frühlingsnacht”, op. 39 no. 12, que era uma especialidade de pianistas antigos como Josef Lhevinne.

 

O pianista deste disco, Cord Garben, é meio durão de molejo, ressaltando demais, acho, os acompanhamentos da mão esquerda. Mesmo assim, fica interessante o modo como o piano acentua, em meio às curvas de tantas melodias belíssimas, os atritos de segunda maior que fazem parte característica do vocabulário de Schumann.

 

Canções são canções, peças para piano são peças para piano, mas misturar um pouco as coisas não faz mal a ninguém. Pelo menos neste caso, quem fez as transcrições tinha autoridade para tanto: foi Clara Schumann, mulher do compositor.

 

 Clara Schumann, aos 38 anos

Escrito por Marcelo Coelho às 00h03

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Arte cinética no Tomie Ohtake

Arte cinética no Tomie Ohtake

Arte cinética pode não ser a praia de todo mundo: geringoncinhas delicadas das décadas de 50 e 60, mexendo-se um pouco a esmo, fios de plástico entrecruzados à busca de algum efeito ótico, arames esticados vibrando como antenas... pode ser que tudo isso seja bem datado –a vanguarda de ontem parece ingênua em suas relações com a tecnologia, agora que as proezas mecânicas de um motorzinho a pilha viraram coisa de criança com o desenvolvimento dos microchips e da realidade virtual.

 

Mas vale a pena ver a mostra Os cinéticos, em cartaz no Instituto Tomie Ohtake até 10 de fevereiro. Foi organizada pelo Museu Reina Sofia, de Madri, (veja o link da exposição) com atenção especial aos artistas cinéticos latino-americanos. Sem exagerar na quantidade de obras escolhidas, apresenta um panorama que vai muito além dos cacarecos que descrevi acima.

 

Surrealistas, como Salvador Dalí, e cubofuturistas, como Kupka, são representados com uma ou duas telas que ganham nova força profética ao lado dos cinéticos mais “hard core”, como Nicolas Schoeffer.

 

E, se há algumas coisas que hoje parecem meio toscas –uma superfície de quadrados vermelhos, não me lembro o nome do autor, que acendem e se apagam com um ritmo bem pausado, fazendo clec, clec, clec...—há obras que não perderam nada de seu encanto, de sua poesia.

 

A iluminação das salas é maravilhosa, projetando sombras e desenhos nas paredes, conforme uma ou outra escultura prateada gira em torno de si mesma, como que fazendo música sem som. Nesse âmbito, Nicolas Schoeffer se revela mais que um escultor tecnologizante: é um poeta, um criador de luzes e fantasmas.

 

Também o brasileiro Abraham Palatnik se sobressai com estruturinhas minuciosamente projetadas, em que se evita o risco de ter uma visão muito afirmativa do progresso tecnológico. Há, pendurada na parede, uma maquineta com quadradinhos, elipses, triângulos de madeira que giram numa espécie de esconde-esconde, construindo uma espécie de mecanismo irônico, num contraponto suave à voracidade da indústria moderna.

 

Algumas pinturas rígidas e multicoloridas de Vasarely não disfarçam a chatice de sempre, outras obras lembram quase a estamparia de moda dos anos 60, e um filme mudo de Marcel Duchamp, com uma espiral rodando sem parar, alternando-se com as imagens de alguns trocadilhos em francês, também girando devagarzinho, resulta apenas numa relíquia histórica.

 

Uma ausência nessa exposição. Seria especialmente bem-vinda, num museu sempre atento ao design e à arte aplicada, uma sala que mostrasse de que modo a “arte cinética” penetrou nos bens de consumo. Aquelas famosas “lava lamps” dos anos 50 –abajures com uma espécie de líquido gelatinoso dentro, que ficava produzindo bolhas vermelhas ou roxas iluminadas pela lâmpada—poderiam perfeitamente constar como exemplos de arte cinética também, se quiséssemos romper de vez com as barreiras entre estética erudita e consumo popular. No caso dos cinéticos, mais do que em qualquer outro, essas barreiras são bastante tênues.

 

 

Obra de Gyula Kosice (1944)

Escrito por Marcelo Coelho às 19h02

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Luciano Trigo contra a vanguarda

A polêmica suscitada por Luciano Trigo sobre a arte contemporânea, nas páginas da Ilustrada, volta e meia se repete. Teve, desta vez, um ótimo efeito. Laura Vinci, autora de uma das obras criticadas, resolveu responder, polemizando também com Ferreira Gullar, que não viu mérito nenhum na instalação da artista.

 

Vamos aos fatos, uma vez que não consegui achar na internet fotos da instalação de Laura Vinci. Ferreira Gullar condenava a idéia de juntar “300 maçãs” (eram 7 mil) expostas ao apodrecimento em cima de uma mesa de mármore: foi assim que ele descreveu “Still Life”, obra de Laura Vinci apresentada na galeria Nara Roesler durante quarenta dias.

 

O ótimo efeito a que me referi foi a resposta de Laura Vinci às críticas de Gullar e Trigo. Imagino como teria sido bom se Anita Malfatti tivesse respondido ao que Monteiro Lobato escreveu contra sua exposição em 1917. A lembrança, aliás, foi feita por Marcos Augusto Gonçalves, numa simpática referência a um livro meu: obrigado!

 

Não vi a obra de Laura Vinci, mas pelas fotos dava para adivinhar algumas de suas intenções. Maçãs sobre uma superfície branca se referem às naturezas-mortas de Cézanne. Intitular a instalação de “Still Life” significa dizer que, em vez de mortas, as maçãs ainda estão vivas no espaço da galeria.

 

A idéia de deixar coisas apodrecendo numa galeria não é nova, mas Laura Vinci explicou outros aspectos de sua instalação, que vão além da metalinguagem da referência a Cézanne.

 

Se [Ferreira Gullar] olhasse mais adiante, veria ainda uma coluna de peças de vidro pendendo do teto, e chegando quase ao chão, sem chegar a tocá-lo. Independente do que ele achasse dela, veria que é difícil descrevê-la.

Essas peças estão intactas na linha dos tiros reais que marcam a parede dos fundos, convivendo com a violência real e virtual que está no ar, como uma questão aberta a quem participa da experiência de estar ali.

 

Pode-se elogiar ou não a obra de Laura Vinci, que eu também não vi. Mas uma coisa eu agradeço: a artista, nesse texto, ajudou o público a entender sua obra. É mais do que fazem muitos críticos.

 

Acho engraçado que, quando se trata de cinema hollywoodiano, o jornalismo cultural sempre se encarregue de entrevistar diretores e atores que não têm nenhuma explicação a dar sobre obras que, obviamente, visam a uma comunicação direta com o público.

 

Justamente nas obras em que valeria a pena esclarecer as intenções do artista, as entrevistas são mais raras.

 

Pode ser, em grande parte, culpa dos artistas também: há uma espécie de ética segundo a qual revelar as próprias intenções estraga a brincadeira. Acho entretanto que, se a obra tiver complexidade e grandeza, uma ajudinha do artista não tira o seu valor.

 

É diferente de explicar a própria piada. Se tudo for apenas uma piada, é claro que o artista tem de ficar quieto. Mas se não for –e, portanto, se fugir ao que Ferreira Gullar chamou de “arte 51”, a arte da boa idéia—uma explicação será apenas o ponto de partida para outras, e mais outras...

 

No artigo de Laura Vinci, entretanto, há um ponto que acho difícil de aceitar.

 

Luciano Trigo denunciava a intenção dos artistas contemporâneos de ganhar projeção no mercado. Laura Vinci respondeu, falando de Ferreira Gullar:

 

Mas e se Ferreira Gullar se entusiasmasse e, para surpresa geral, quisesse comprar [o meu] trabalho? Aí perceberia que ele não é facilmente comprável, não por causa de um preço, mas porque não se insere com facilidade, pela sua natureza, no mercado do qual faz parte.

 

Não sei se a obra de Laura Vinci é de fato “comprável”, nem de suas relações com o mercado de arte, mas aqui acho que existe um equívoco.

 

Foi-se o tempo em que alguém comprava uma obra de arte para pôr na parede de casa. O mercado de arte, a meu ver, hoje opera com mecanismos mais complexos. Uma instalação “invendável” pode ser patrocinada, digamos, pela Petrobrás. Ninguém compra nem vende uma mercadoria, mas adquire, por assim dizer, os direitos de patrocínio de uma obra, em troca do prestígio que ela é capaz de conferir.

 

É mercado do mesmo jeito, mas, de certo modo, um mercado sem mercadoria. Isso vale para as grifes de moda, que vendem não o produto, mas a “atitude” que o produto traz consigo. A publicidade confere valor agregado ao produto de consumo.

 

Desse modo, uma grande indústria pode patrocinar uma exposição de obras de arte “invendáveis”, e mesmo assim submetê-las à lógica do mercado.

 

Há coisas extremamente perversas acontecendo no mercado de arte. Pode-se comprar o rabisco de um artista de vanguarda, retratando o projeto de uma instalação invendável. Pode-se comprar uma peça inerentemente subversiva, como por exemplo a garrafa de coca-cola de Cildo Meireles que tinha slogans anticapitalismo (e que deveria ser devolvida à circulação pública), por não sei quantos milhares de dólares. Pode-se comprar uma chatíssima tela de Lucio Fontana (artista que se especializou em rasgar telas monocromáticas a golpes de canivete) pelo preço de três naturezas-mortas de Morandi. Pode-se comprar a latinha supostamente cheia de cocô (Merda d’ artista) produzida por Piero Manzoni.

 

Idéias radicais foram absorvidas pelo mercado de arte, e seria exigir demais dos artistas que eles se recusassem a obter ganhos materiais pelas idéias que tiveram.

 

O que agita o mercado de arte hoje em dia é uma coisa ainda mais assustadora: os fundos de investimento em arte. Ou seja, não há mais colecionadores ou instituições pagando pelo que os artistas fazem: há fundos impessoais, que “compram” direitos pelas obras visando a valorizações futuras, e vendem papéis em troca das obras que legalmente possuem.

 

Diante dessa situação, o fato de que Ferreira Gullar não possa levar para casa a instalação de Laura Vinci diz muito pouco. O artista que quiser contestar o mercado está diante de um desafio muito maior, o de contestar a própria fama, a própria imagem, o próprio valor. Nesse sentido, Luciano Trigo tem razão ao criticar a submissão, não digo subjetiva, mas real, da arte contemporânea aos mecanismos de mercado.

 

Talvez seja melhor não pensar em vanguarda, nesse estado de coisas; que se façam obras, mas que não haja ilusões quanto ao aspecto de contestação real que possam possuir.

 

Lucio Fontana, "Conceito Espacial"

 

Giorgio Morandi, Natureza Morta

Escrito por Marcelo Coelho às 17h12

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E o salitre?

Recebo, com esse título, um texto da psicanalista Anna Veronica Mautner, que sem agressividade nota e condena os principais motivos da atitude de autoridades paraenses, jogando uma jovem em cela de presos para ser estuprada. Aqui vai.

 

Tantas coisas me horrorizaram, e tanto, que da minha mente só saem pensamentos na forma de grito surdo. Quanto mais os atores da tragédia iam falando dos atos e fatos, mais se enrolavam em suas próprias palavras.

Não consigo crer que um delegado de polícia das cercanias de uma cidade do Pará de médio porte estivesse imbuído de um ideário nazista quando disse que a estuprada jovem não constituía um caso tão grave já que era retardada, prostituta ou “de maior”. Não creio que ele pretendesse exterminar todos os débeis, retardados ou bobos. O pobre de espírito mesmo foi toda oficialidade, também a vizinhança, que calou – mesmo ouvindo e, pois sabendo. Não quero cometer o mesmo pecado deles, atacando-os assustada e tomada de horror. Não pensar é sempre perigoso tanto para o algoz como para o crítico.  Fôra a jovem uma prostituta, uma pobre de espírito, uma maior de idade ou menor de idade – pouco importa, o que sim temos que ver é quem estava sendo protegido. Eram os machos adultos, cuja virilidade, potência, pelo visto, é intocável. Pena que só esta lei seja respeitada.

 

Os homens sem mulheres ficam inquietos e para acalmá-los o poder local oficial não achou modo mais adequado do que oferecer o que eles queriam: mulher. Claro que tinha que ser uma fêmea de alguma forma degradada, mas ainda uma mulher viva como qualquer um de nós. A masculinidade é intocável e, pelo visto, parte do universo do sagrado.

 

É importante saber, já de início, que castração química não é permanente. Se for necessário diminuir o furor sexual, por que não um “sossega-leão” químico? Será porque tal tortura seria insuportável para os machos, enquanto as mulheres podem agüentar sucessivos estupros?

 

Já vai longe o tempo que se falava à boca pequena do uso do salitre. Quando necessário nas grandes agremiações masculinas – ouvia eu falar na minha infância –, volta e meia os moços recebiam salitre em vez de sal de cozinha, no tempero da alimentação diária. Hoje já devem existir processos químicos muito mais sofisticados, garantidos, de curta duração e sem efeitos colaterais graves. Quem sabe os homens agüentariam?

 

Como disse a menina paraense, quinta-feira era a folga dela porque é o dia da visita íntima. Então precisa de mulher na cela além da visita íntima? Perdoem-me os leitores se esta mulher, eu, entra em detalhes que naturalmente desconhece a força e a virulência. Deixo umas duas questões em aberto, além da proposta do uso de castração química. As mulheres também têm necessidades sexuais, dizem os sexólogos, pelo menos, e ainda não ouvi falar de homem colocado nas celas femininas para o deleite delas nos presídios de mulheres. Insuportável discriminação. E os homossexuais, não são gente?

 

As forças repressivas da sociedade criam remendos sem, de forma nenhuma, parar para pensar nas conseqüências de suas decisões.

Socorro!

 

Não dá para exercer poder sem pensar. Cada ordem, cada solução inovadora ou não, tem que ser precedida de elaboração, de troca de idéias. Não dá para ir remendando a torto e a direito, usando apenas, indiscriminadamente, os poderes pertinentes aos cargos e funções ostentados. Fui informada pelos jornais da existência de leis inibindo tais ações e atitudes. Infelizmente, essas devem ser daquelas leis que não pegam. Não se ouve falar de lei que pega e que não pega? Essa, pelo visto, não pegou.

 

Tivesse sido um caso isolado!... A questão da sexualidade reprimida, insatisfeita, gerando problemas nas agremiações em isolamento é grave, mas pelo menos tal barbaridade poderia ser um acontecimento incomum. Parece que, contudo, outros casos vêm à tona, não só no Pará como em outros Estados. Não duvido que se espalhe.

 

E onde foi parar o salitre?

 

Fico, pois, devidamente informada que a sexualidade masculina é sagrada e o corpo da mulher não é, a não ser na maternidade, aleitamento e velhice.

 

 Eu só acrescentaria que, se a sexualidade masculina é vista como "sagrada", o corpo masculino não tem essa prerrogativa. Tortura de presos, e estupro, são rotina também, e não só no Pará.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h53

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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